Feministas e Proletários Unidos a luta Contra a República Paradoxal



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Feministas e Proletários Unidos – A Luta Contra a República Paradoxal

Danielle Magalhães e Vitor de Souza


Os sistemas políticos e ideológicos como os do republicanismo francês funcionam da seguinte forma: apóiam a noção de que a coerência é indispensável para que haja organização social e se apresentam como competentes para pôr em prática as exigências da coerência. A fim de atingir esses objetivos, tais sistemas políticos negam ou reprimem a contradição interna, a parcialidade ou a incoerência.

(DERRIDA, Jacques. “Estrutura, Sinal e Jogo no Discurso das Ciências Humanas”. In: Escrita e Diferença. Chicago: Universidade de Chicago, 1978. Apud SCOTT, 2002).


Feministas e proletários aceitaram a obstinação dos republicanos quanto à necessidade de coerência, e foi exatamente por esse compromisso com a coerência partilhado por todos que eles reclamaram que o sistema não cumpria suas próprias exigências.

“Selvageria”: mulheres ‘armadas’ à Revolução.

Um sistema que, considerado por alguns como contraditório, paradoxal, precisa, acima de tudo, ser inserido e entendido também dentro de suas permanências (não somente por suas rupturas), as quais provocaram grandes transformações concretizadas através de resistência como movimentos feministas e operários que muitas vezes se aliaram a fim de lutar por certos objetivos compartilhados.

Uma nação/sistema fruto de sua época, com sua essência ainda arraigada em tradições e pensamentos provenientes do Antigo Regime, cujas características estavam muito presentes na mentalidade de uma sociedade ainda patriarcal e que muitas vezes se utilizava de meios que combatia para estabelecer a ordem e a estabilidade de uma república. A repressão, o preconceito, a exclusão eram usados para manter a paz e a harmonia de uma sociedade com ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. O sistema político francês do século XIX não foi, de fato, um sistema homogêneo e retilíneo, podendo somente ser compreendido dentro de sua complexidade.

Cronologia/Contexto - Segunda República (1848-1852):


- Pode-se falar em reivindicação dos direitos da mulher a partir do século XVIII, graças ao Iluminismo e à Revolução Francesa.

- Datam desta época as primeiras obras de caráter feminista, escritas por mulheres da França, da Inglaterra, dos E.U.A.

- No século XIX, no contexto da Revolução Industrial, o número de mulheres empregadas aumentou significativamente. Foi a partir deste momento, também, que as ideologias socialistas se consolidaram, de modo que o feminismo se fortificou como um aliado do movimento operário.

- Em 1848, “Direito ao trabalho” foi o grito de guerra de homens e mulheres que, também unidos, se entrincheiraram em barricadas para derrubar a monarquia constitucional de Luis Felipe de Órleans.

- Esta luta inseriu os problemas de questão social nas discussões sobre direitos políticos, introduzindo, assim o problema do “direito ao voto”.

- O sufrágio ‘universal’, implicitamente masculino, baseado na supremacia, logo, na diferença de classes, contradizia a teoria da igualdade política formal enunciada em termos do indivíduo abstrato.

- A Segunda República tinha por princípios a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade e seus fundamentos eram a Família, o Trabalho, a Propriedade e a Ordem Pública. Esses como “direitos sagrados”, no entanto, restritos ao homem.

- A Lei de 28 de julho de 1848 vedava à mulher qualquer participação na esfera política.

Se o voto era o instrumento que traria transformação social, então todos que desejassem mudanças sociais deveriam ter direito ao voto. Assim como o direito ao trabalho estava diretamente ligado ao direito de propriedade, tendo em vista que só o trabalho possibilitaria ao indivíduo adquirir alguma propriedade. Logo, se mulheres e homens trabalhavam, ambos deveriam ter o direito à propriedade. Se eram parte da sociedade, pertencentes à mesma nação, e contribuíam para o progresso e funcionamento da mesma, por que não teriam direito ao voto? Se o trabalho garantia individualidade e se a mulher trabalhava, por que negar cidadania às mulheres?

A paternidade era entendida como a expressão da supremacia do homem sobre a natureza. Enquanto a maternidade era considerada natural, a paternidade era um direito do homem, era a forma pela qual a natureza se transformava em objeto/função social.
A igualdade política dos dois sexos, isto é, a admissão de mulheres para funções políticas próprias de homens, é um sofisma refutável não apenas pela lógica, mas pela consciência humana e pela natureza das coisas.

(PROUDHON, Le Peuple, Paris, abril de 1849, apud Scott, 2002)



O papel das mulheres não está na vida exterior, na vida ativa e na agitação, mas na vida íntima, nos sentimentos e na tranqüilidade do lar [...] A pureza e a moralidade ganham mais nas celebrações patriarcais de família do que nas ruidosas manifestações da política.

(PROUDHON, Le Peuple, dezembro de 1848 apud Scott, 2002)

Ao insistir que os direitos à família e à propriedade pertenciam ao homem, legisladores afirmavam que as mulheres “deviam” filhos aos maridos e à sociedade, e “deviam” cuidados maternos a seus filhos e, em troca destes deveres, receberiam o cuidado e a proteção dos maridos na condição de dependerem deles e a eles pertencerem. Pode-se perceber, então, que a posição do pai era equivalente à posição do Estado: o Estado devia proteção e cuidado aos oprimidos e dependentes.

O governo enunciado na moralidade evidenciava o social e abarcava os deveres como pré-requisito para serem considerados como cidadãos.



A política na Terceira República era radicalmente diferente da de 1848. Entravam em voga as questões de pobreza e desigualdade econômica; encarando a questão social em novos termos.

Cronologia/Contexto - Terceira República (1870-1940):

- A derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871)

- Fim do Segundo Império (derrota de Napoleão III)

- Derrocada da Comuna de Paris em 1871

- A luta dos grupos políticos pelo controle gerava instabilidade no poder, não sendo alcançada a “ordem pública”.

- A Terceira República foi fundada por uma assembléia monarquista. A fim de evitar a anarquia e o estado de desordem, os políticos não discutiram a questão dos direitos na legislação, e limitaram o voto àqueles que, por deterem propriedades, tinham verdadeiro interesse no futuro da nação.

- No entanto, republicanos mais radicais julgaram impossível uma república sem sufrágio “universal” – lembrando que este ‘universal’ era restrito a ‘masculino’.

- Socialistas defendiam a soberania do povo. Republicanos eram mais ambivalentes e divididos: o “medo da plebe” era permanente, a experiência da desordem marcada pela Comuna de Paris era aterrorizante.

- A questão social ficou separada dos direitos políticos, de forma que não permitisse que as classes populares atingissem o processo da política. O Estado deveria garantir a ordem, o progresso e sua legitimidade, controlando as classes populares.

- Socialistas eram contra a idéia de classe, de hierarquia; acreditavam que os trabalhadores teriam que se unir e formar uma identidade contra seus exploradores, à luta pela igualdade. Os Republicanos apresentavam a idéia de divisões sociais de trabalho funcionais, hierarquizadas, porém, complementares. Acreditavam que a complementaridade das classes (diferentes entre si) substituísse os déficits de cada uma, ainda que ambos concordassem na questão de identidade coletiva.


Os socialistas imaginavam um mundo em que as diferenças de classes como divisoras da sociedade acabariam caso triunfasse a vontade soberana do povo, enquanto os republicanos tendiam a ver um mundo em que essas mesmas diferenças consistiriam num aspecto permanente da organização da sociedade (Scott, 2002).
De acordo com isso, os socialistas viam que o voto era uma maneira de suprir as diferenças e, mais, de igualar – mesmo que formalmente – o povo. Além de igualdade, o voto seria um instrumento utilizado pelos trabalhadores como forma de luta. Por outro lado, os republicanos consideravam as diferenças como precedentes à igualdade e, com o voto, as diferenças de funções e de poderes seriam desconsideradas e submetidas à igualdade.

De uma maneira ou de outra, o voto era considerado como a expressão dos diferentes interesses que as diferenças sociais produziam e, como conseqüência, as mulheres, parte integrante da sociedade e com interesses próprios, também deveriam ter permissão de votar. Muitas eram as divergências a respeito da emancipação da mulher. O argumento da Evolução (entendida, neste caso, como progresso) é adotado para ensinar que a diferença sexual tinha sua base na natureza, o que constituía uma tentativa de estabelecer a masculinidade como um fato independente da ação do Estado e transcendente ao mesmo. Isso permitia, como uma justificativa, tornar as intervenções do Estado mais sutis, reduzindo a possibilidade de interpretarem suas ações como agressivas. Amenizaria não suas medidas, mas o impacto com que seriam recebidas, conferindo constantemente aquela imagem de pai protetor ao Estado.

Neste momento, feministas, especificamente Hubertine Auclert, se recusam a aceitar tais justificativas, alegando que as mesmas contrariavam as promessas republicanas de igualdade para todos, independentemente de diferenças sociais e funcionais. Procurou estabelecer uma aliança com os socialistas que apoiavam a doutrina da soberania popular, segundo a qual a única forma de governo realmente representativa era a “república social”. Ela tentou provar que a negação do direito de voto às mulheres estava ligada à negação do caráter político da questão social: visto as mulheres serem identificadas com o social (mesmo como seres dependentes, carentes de proteção), seus direitos decorreriam da soberania popular e do direito da mesma de se auto-representar.



Hubertine escrevia para o jornal sufragista La Citoyenne; apelava às mulheres para que não aderissem ao nome dos maridos ao se casarem e insistissem no regime de separação de bens em seus contratos matrimoniais; persistia em lutar pelos direitos das mulheres ao voto e pelo fim da diferença de classes; exercendo militância desde 1870 até sua morte, em 1914.



A Revolução assumida pelas mulheres. ‘A função invertida’. (Hubertine liderando mulheres à ‘tomada da Bastilha’, a qual estaria fortificando homens).

Procurando agir conforme os padrões republicanos, Hubertine via como uma maneira de não provocar alardes que eles se opusessem de cara, e persuadi-los através da “racionalidade”, “moralidade” e “intelectualidade” – que tanto caracterizavam um cidadão ‘aos moldes republicanos’, às idéias iluministas – de maneira a provar que as mulheres também podiam ser cidadãs. Seus discursos eram sempre embasados pela lógica e freqüentes em apagar as imagens que tinham das mulheres: a figura histérica, com sentimentos exacerbados; indisciplinadas, desordeiras. E, ao mesmo tempo, a serva pia, altamente influenciada pelo padre e pelos padrões religiosos.

A influência clerical era altamente temível e considerada como ameaça à República, vista como conservadora, manipuladora, remetendo às ordens do Antigo Regime. Excluir o voto da mulher era, portanto, não permitir a influência da Igreja num sistema republicano. Fundamentando este argumento na religiosidade, o Estado mais uma vez concebia a mulher fora dos limites do controle racional, do Estado: era, novamente, uma característica baseada na natureza do sexo.

A grande ironia é que os padres tinham o direito de votar. Logo, de uma forma ou de outra, a influência religiosa se fazia presente.

Outra ironia é que, ao fundamentar seus discursos em fatos concretos e na persuasão, Hubertine estava agindo conforme o próprio padrão exigido e contemplado na época. Tentava utilizar um modo de retórica inteligente que se entendia, pela lógica, por ‘persuasão’, ao invés de utilizar a força. Aderiu à racionalidade, a moralidade, a intelectualidade, mas os políticos, no entanto, afirmavam que a persuasão era uma característica do sexo feminino; não era vista como uma estratégia lógica, mas como um estratagema do sexo, como um poder abstrato e ameaçador do gênero feminino.

Aqueles que apoiavam o sufrágio feminino argumentavam que as mulheres alimentavam interesses a serem considerados, e que também tinham uma habilidade, um conhecimento especializado em questões de previdência social como família, assistência, higiene, proteção de crianças, ou seja, não eram consideradas senão como exclusivo fator de colaboração social, para o bem da nação, da sociedade.

Estrutural e socialmente, as mulheres eram como os operários e vice-versa. A mulher, considerando-se como um ser explorado (pelos discursos de Hubertine aos operários), apagou a distinção entre mulher e operário, pois na linguagem do movimento os operários eram, por definição, criaturas exploradas.

Hubertine propõe, então, uma aliança entre a classe trabalhadora e as feministas, num discurso que fez, em 1879, no Congresso Nacional de Trabalhadores. Alegava, assim como os socialistas, que a crescente divisão social do trabalho não trouxe consigo a harmonia fraternal, mas lutas de interesses conflitantes – oprimido contra opressor, explorado contra explorador - da mesma forma que a crescente divisão sexual do trabalho nada mais trouxe consigo do que a proletarização das mulheres.


Estou aqui, cheia de estima por esta grande assembléia, o primeiro grupo de delegados-trabalhadores livremente eleitos na França desde séculos, que permitiu que uma mulher, não por ser operária, mas por ser mulher – ou seja, uma explorada - , delegada-escrava de nove milhões de escravas, apresentasse as reivindicações na metade deserdada da espécie humana.

(AUCLERT, “Rapport de Hubertine Auclert”. In: Egalité sociale et politique de la femme et de l’homme. Discours prononcé au Congrès Ouvrier Socialiste de Marseille, 1879. Apud Scott, 2002)

Enquanto o social (o todo) permanecesse subordinado/dissociado do político, nunca, ninguém, de fato, conseguiria representá-lo. A emancipação da mulher traria a emancipação social e vice-versa. Estas organizações lutavam pelo sufrágio universal sem restrições, e pelos direitos independentemente do sexo; pela importância do social abrangendo a todos, considerando que todos deveriam ser legalmente reconhecidos. Mesmo que os dois sexos tivessem naturezas fundamentalmente diferentes, o valor social das contribuições dos homens e das mulheres para a nação era equivalente, tinha a mesma importância vital, e como tal deveria ser reconhecido.
O sufrágio é uma máquina de progresso [...] À semelhança de muitas outras invenções modernas, que só se tornaram úteis com o auxílio de certas articulações, o sufrágio necessita de todas as energias masculinas e femininas de uma nação para tornar-se um instrumento de evolução capaz de transformar a ordem social.

(AUCLERT, “Les femmes à l’assaut des urnes”, L’Eclair, maio de 1908, apud Scott, 2002)


Pode-se concluir, de modo geral, que cada movimento teve suas particularidades, com meios diferentes, mas com finalidades, na grande maioria das vezes, em comum, seja para combater a soberania da diferença do sexo sobre os direitos, seja para restituir o sufrágio universal, seja para lutar pela igualdade, de fato. (É importante saber que até mesmo movimentos feministas tiveram seu caráter ‘contraditório’, se destruindo muitas vezes por pregarem a supremacia do sexo feminino em detrimento do masculino).

O século XIX não iniciou esta luta na França, que vem desde o XVIII com sua explosão na Revolução Francesa, que permitiu tornar público o que se pensava, deu voz ao que outrora era reprimido, fazendo com que movimentos como esses explodissem e não acabassem, visto que as contradições do sistema não acabavam. Contradições ou, como diria Arno Mayer, a “força da tradição”?



Consideramos como contradições porque refletimos com o olhar de hoje, a partir da compreensão distante de todos os processos já desencadeados. Mas, provavelmente, a partir de uma análise não generalizante, os agentes históricos daquela época talvez não vissem como contradição, visto que muitos combatiam aquilo que estava enraizado em si mesmo. Melhor que seja entendido como um período e um processo de contínuas transformações, cuja vontade de mudar e colocar em prática os novos ideais ainda entrava conflito com as permanências, com a essência.
Referências bibliográficas:
DUBY, Georges; PERROT, Michelle. História das Mulheres no Ocidente. Porto: Edições Afrontamento.
HOBSBAWM, Erick J. A Era do Capital: 1848-1875. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 12ªed, 2007.
MAYER, Arno J. A força da tradição: a persistência do Antigo Regime (1848-1914). São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
PERROT, Michelle. Os Excluídos Da História: Operários, Mulheres e Prisioneiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
SCOTT, Joan W. A Cidadã Paradoxal: as feministas francesas e os direitos do homem. Trad. Élvio Antônio Funck. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2002.


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