Fernanda Gonçalves Universidade de Évora; cel



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Fernanda Gonçalves

Universidade de Évora; CEL (UÉ e UTAD); CLUL (UL) (col.)



frg@uevora.pt
Portugal e Brasil – dois países, quantas línguas?

Critérios para a definição de entidades linguísticas no espaço lusófono
Genericamente, a definição dos critérios que nos levam a delimitar entidades linguísticas é complexa, podendo-se identificar, desde logo, os que são de natureza sócio-política, por oposição àqueles que têm natureza estritamente linguística. A aplicação de uns e de outros pode conduzir a resultados muito distintos, tal como é visível, por exemplo, na determinação das variedades que devem ser identificadas como “língua” (por contraste com dialecto, ou outras entidades linguísticas), ou mesmo como “língua oficial”. Um aspecto ilustrativo claro tem que ver com a existência ou não de um modo de representação escrito (ou até de uma norma de escrita) associado à entidade linguística em causa: do ponto de vista estritamente linguístico, tal existência é indiferente, já que é o modo de representação oral o determinante – uma língua é “viva” quando é falada; do ponto de vista sócio-político, a escrita é muitas vezes considerada como crucial. Refira-se a este respeito, no âmbito do espaço lusófono, o caso do crioulo de Cabo Verde. Pense-se ainda, de novo a título ilustrativo, nos casos em que factores sócio-políticos, como a vontade de divulgar uma determinada variedade, podem levar a que seja “promovida” a língua oficial; veja-se o caso do mirandês.

Como é fácil verificar, os pontos de vista subjacentes a linguistas e a decisores políticos e outros agentes sociais podem ser muito diversos. É da interrelação entre os contributos daquelas naturezas diversas que poderá resultar (ou não) o fortalecimento de um sentido de “Lusofonia”.

Neste contexto, importa reflectir sobre o papel que tem sido desempenhado pelos linguistas e sobre qual deveriam ter. A este respeito, afirma-se em Castro (2010:66): «Pode, em resumo, afirmar-se que os linguistas portugueses, pelo menos nos seus sectores mais respeitáveis, pouco ligam a movimentos conjuntivos no espaço lusofalante.»

O mesmo autor identifica neste espaço forças convergentes e divergentes (Castro (2010:65-66): “pulsões conjuntiva e disjuntiva, que nenhuma política linguística formulada com conhecimento da realidade se permitirá ignorar”. Cita como manifestações da “pulsão conjuntiva”: ”as tentativas de arranque de uma organização comunitária dos estados que têm o português como língua oficial, a CPLP; a ironicamente designada «refundação» de um Instituto Internacional da Língua Portuguesa que, na verdade, nunca passou do papel; a entrada em vigor do acordo ortográfico de 1990, cuja falta não se fizera sentir durante duas décadas; e, atravessando tudo isto como se fosse uma teoria, o confuso ideário que dá pelo nome de Lusofonia.”

O caso do Acordo Ortográfico é especialmente notório, pela cadeia de reacções, inesperadas e muito vincadas, que veio a desencadear em Portugal. Tal caso veio comprovar que os linguistas não se podem alhear das reacções sociais ao seu trabalho. Neste caso concreto, um instrumento concebido para uniformizar a norma escrita do Português (logo, como paradigma da força conjuntiva) foi por muitos sentido como uma “cedência” às normas da variedade brasileira, desencadeando tensões claramente disjuntivas, neste âmbito.

Independentemente de se concordar com a formulação do Novo Acordo, ou de se considerar que foi ou não oportuno, importa reflectir sobre as manifestações de clara intolerância contra a norma brasileira que desencadeou em Portugal. Ora, os linguistas podem e devem alertar para as consequências da intolerância perante a variação intralinguística, no geral, de que este foi um exemplo claroi. Se a tendência disjuntiva (nos vários espaços de utilização do Português) for levada ao extremo, continuará a fazer sentido falar de Lusofonia? É pois relevante reflectir sobre o sentido a dar a este espaço. Neste âmbito, importa reter diversos alertas que têm sido veiculados por linguistas portugueses.

A propósito das relações com os PALOP, Castro (2010:68-69), citando Faraco (2009), ilustra como portugueses e brasileiros podem ter visões distintas sobre o papel que o nosso país deve desempenhar, com maior ou menor protagonismo, afirmando: “Mas é esse papel mais elevado, por acções bilaterais, que Portugal efectivamente tem desempenhado e deve continuar a desempenhar.”

No que diz respeito à relevância da assunção da variação intralinguística, importa igualmente reter alguns alertas. Assim, em Costa (2008), afirma-se: “É impensável continuar a impor uma norma única (ortográfica ou sintáctica) – a portuguesa – em todo o espaço lusófono, ou arriscamo-nos a ver o “brasileiro” decretado como língua oficial.” Em Mateus (2010:75), afirma-se ainda: “A política linguística deve ainda suscitar a aceitação da variação que exibem todas as línguas, variação que se aceita como diversidade mas não como prova de inferioridade ou superioridade. O reconhecimento desta diversidade contribui para criar nos indivíduos um espírito de cidadania tolerante. Estamos portanto, também aqui, a considerar a política linguística no que respeita à língua materna, visto que o conceito de variação se aplica tanto às variedades geográficas como sócio-culturais ou de registo de discurso.” Finalmente, cita-se Isabel Hub Faria, que se insurge contra o uso da expressão “países de expressão portuguesa”, afirmando (Faria, 2008:52-53): “Será que os políticos e os meios de comunicação não percebem que todos os países que têm o português como língua oficial não têm expressão portuguesa, antes constroem a sua própria expressão através da língua portuguesa? (…) Sem a aceitação da variação existente, teremos a médio prazo um “Português virtualmente globalizado” ou um “Português virtualmente global”, sem culturas, sem identidades, sem história, sem graça”.

Os linguistas poderão pois contribuir para a definição de políticas de língua de forma mais activa do que têm feito até agora, esforço crucial para a determinação do sentido que deverá tomar a Lusofonia, nomeadamente, participando na elaboração das políticas bilaterais de língua; alertando para a relevância da variação intralinguística e desempenhando o seu papel fundamental: proceder à descrição das variedades do Português, com a consciência de que as sociedades se apropriarão desse conhecimento com objectivos próprios, que favorecerão a convergência ou a divergência.

Relativamente à questão fundamental que se colocava no início – a definição de critérios para a identificação de uma nova entidade linguística – importa determinar, de um ponto de vista estritamente linguístico, quando acaba a variação intralinguística e começa uma nova língua.

É corrente referir o critério da intercomunicação, de acordo com o qual duas entidades linguísticas são variedades de uma mesma língua enquanto dois falantes conseguirem comunicar entre eles. Apesar de aparentemente simples, a aplicação prática de tal critério coloca dificuldades óbvias.

Outros critérios estritamente linguísticos têm sido explorados. No âmbito da Gramática Generativa, surgiu a Hipótese da Concordância Rica.ii De forma simplificada, de acordo com tal hipótese, a riqueza relativa do paradigma de concordância verbal é crucial para a determinação de uma língua; assim, o enfraquecimento daquele paradigma (com redução do número de formas distintas) conduz a mudanças em cadeia no sistema morfo-fonológico de uma língua, até estarmos perante o surgimento de uma nova entidade linguística. Importa pois determinar, neste âmbito, qual o limiar da mudança: quantas/que formas devem perder-se, para atingirmos tal limiar?

A proposta em causa insere-se num modelo teórico de Princípios e Parâmetros, de acordo com o qual se procura descrever as línguas identificando o que têm em comum – os princípios – e a forma como cada um desses princípios varia parametricamente.

Neste âmbito, tem merecido especial atenção o princípio segundo o qual todas as línguas conhecidas apresentam a função sintáctica que designamos como “sujeito” e a variação paramétrica a este associada, destacando-se o parâmetro do sujeito nulo, que permite distinguir as línguas que, regra geral, permitem a omissão do sujeito (como em Português, em “Ontem (-) fui passear”), por oposição àquelas em que tal não é possível (como em Inglês ou em Francês).

Muitos autores têm explorado a possibilidade de estar em curso uma mudança no valor associado a tal paradigma, no que diz respeito ao Português do Brasil (PB): este estaria a deixar de ser uma língua de sujeito nulo. Tal posição tem conduzido à defesa de uma “nova língua” no Brasil.

Neste contexto, há que referir um autor fundamental: Fernando Tarallo. Depois dele, muitos outros autores, desde a década de 1980 à actualidade, têm trabalhado no mesmo âmbito, como Eugênia Duarte, Mary Kato ou Charlotte Galves – veja-se, entre muitos outros, Roberts e Kato (1993) e Kato e Negrão (2000).

Em síntese, afirma-se em Silva (1995:76), a propósito do trabalho de Fernando Tarallo, que a “nova gramática” emerge na viragem do século XIX para o XX, gerando “o português brasileiro, ou apenas, brasileiro”. A autora apresenta um conjunto de “características que, segundo a teoria paramétrica, apontam para o fato de a sintaxe do PB divergir estruturalmente da sintaxe do PE.”

A partir da síntese de Tarallo (1993:70), apontam-se em Lucchesi e Lobo (1996:305) as características fundamentais da “nova língua”, abaixo referidas em (i) a (iv):


  1. “A implementação de objetos nulos e o aumento da frequência de sujeitos lexicais, resultante de uma reorganização do sistema pronominal.”

Esta mudança leva a que, na frase abaixo (diferentemente do que ocorre em PE), “ele” esteja obrigatoriamente produzido, sendo correferente com “o João” (ou seja, remete para o mesmo ser); em PE só ocorre quando não é correferente. A segunda frase ilustra a produção de objectos nulos, que se terá intensificado, em termos estatísticos.

(1) João disse que ele levou o jornal. Maria disse que não levou (-).



  1. “A mudança nas estratégias de construção de orações relativas.”

A este respeito, em Silva (1995:72-73), apresentam-se exemplos dos três padrões que surgem agora em PB:

(2) Ganhei um sabonete do qual/de que não gostei (relativa padrão);

(3) Ganhei um sabonete que não gostei dele (relativa não padrão com pronome lembrete);

(4) Ganhei um sabonete 0 que não gostei (relativa não padrão cortadora)

Em Lucchesi e Lobo (1996:310), afirma-se: “a variante cortadora tende a ser implementada, já que a variante com pronome lembrete ainda é em certa medida estigmatizada”.


    1. “A mudança nos padrões sentenciais [i.e. frásicos] básicos, com enrijecimento da ordem SVOiii.”

    2. “A mudança, nas perguntas diretas e indiretas, de um padrão sentencial VS para um padrão SV.”

A este respeito, afirma-se que a ordem VS em declarativas cai, do século XVIII para a actualidade (Berlinck (1989), apud Lucchesi e Lobo (1996:310), de 42% para 21%. Assim, frases como a que se apresenta em (5) tornaram-se menos frequentes.

(5) Naquele momento, encontrou o João a solução para todos os seus problemas.

Também nas interrogativas a ordem SV se torna mais privilegiada, com mais de 90% no PB contemporâneo (igual ao Português do século XVI), mesmo nas interrogativas QU, sem nenhum movimento, ou com “que” (a par com “é que”). Assim, frases como as que surgem abaixo são gramaticais em PB e agramaticais em PE:

(6) Onde o Pedro estuda?

(7) O que esta cooperativa produz?

(8) Onde que está o livro?

Importa entender de onde terá emergido a “nova língua”, de acordo com a proposta referida. Tal proposta é atractiva, em termos teóricos, na medida em que todo o processo teria derivado de uma mudança ao nível morfossintáctico: o “rearranjo” nos sistemas flexional e pronominal e respectivas consequências ao nível da concordância, conduzindo à perda do sujeito nulo.

A este propósito, convém referir que a descrição daquele paradigma de concordância não é pacífico. De facto, coexistem três sistemas no PB. Tomando Lucchesi e Lobo (1996:306), tal paradigma comporta quatro, três ou duas formas distintas:

(i) eu amo; você/ele ama; nós amamos; vocês/eles amam – 4 formas distintas.

(ii) eu amo; você/ele/a gente ama; vocês/eles amam – 3 formas distintas.

(iii) eu amo; você/ele/a gente/ vocês/eles ama – 2 formas distintas.

As autoras afirmam: “(i) corresponde à língua escrita e à fala das gerações mais velhas ou das mais novas, em contexto formal; (ii) à fala das gerações mais jovens e à das mais velhas, em contexto informal; e (iii) é observado entre falantes analfabetos ou entre pessoas com baixo nível de escolarização.”

Refira-se que em PE o sistema comporta seis formas, com tendência de perda de uma (correspondente a “vós”), já que a forma pronominal cada vez mais corrente, “vocês”, implica o recurso à forma verbal que corresponde à terceira pessoa do plural: “eles vão”/”vocês vão”.

A questão crucial – a que mais importa igualmente no âmbito do presente texto – consiste em saber se a diversidade interna do PB consiste em variação intralinguística, ou se indicia realmente mudança linguística e, neste caso, se permite concluir que se trata de uma “nova língua”.

Note-se que tal diversidade interna não se restringe ao paradigma de concordância verbal; a propósito da concordância nominal, também com grande variação no PB, com uma única forma por sintagma nominal nas produções mais inovadoras, como em (9), afirma-se, citando Naro e Scherre (1991), (Silva, 1995: 65)): “(…) a questão da perda da concordância não é tão simplificável, mas (...), em um mesmo grupo social, variáveis externas como “orientação social”, mercado de trabalho e escolaridade interferem na aquisição da regra. Concluem então que convivem, em uma mesma comunidade de fala, aqueles que estão indo na direção de um sistema sem regra de concordância e aqueles que estão adquirindo a regra, o que resulta em um padrão de variação estável, no sentido laboviano, e não no sentido de mudança com a perda da regra.”

(9) “Os menino alto vai passear”.

Neste contexto, os dados de aquisição da linguagem apresentam-se como especialmente relevantes, na medida em que, se houver mudança linguística, esta estará necessariamente reflectida em tais dados. No âmbito generativista, afirma-se mesmo que qualquer teoria proposta para a norma de uma língua deve ser compatível com o que se observa nos primeiros estádios do processo de aquisição. Neste processo, ocorre uma fase crucial: o período em que se adquirem as regras básicas de funcionamento de uma língua, sensivelmente entre os dois e os três anos de idade.

Relativamente ao tópico em causa, alguns estudos pareciam comprovar a perda da propriedade do sujeito nulo em PB; a comparação com o PE era crucial. Assim, concebeu-se um estudo comparado sobre a aquisição do PE e do PB, de que resultou Gonçalves (2004).



Os dados trabalhados tiveram origem no Laboratório de Psicolinguística da Universidade de Lisboa (sob responsabilidade da Profª Isabel Hub Faria) e no Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio (CEDAE) do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade de Campinas, Unicamp, (sob responsabilidade da Profª Charlotte Galves. Recorreu-se ainda à base de dados do CHILDES (MacWhinney, 2000).iv

Analisaram-se os dados de quatro crianças portuguesas, recolhidos pelos Profs. Maria João Freitas (RAP e LUI) e António Quintas Mendes (JOA e PED), e de três crianças brasileiras, recolhidos pelas Profªs. Ester Scarpa (RAB e TIA) e Leonor Scliar-Cabral (PAU), com idades compreendidas entre 1;08.21 e 3;01.15.v Foram recolhidos em 60 sessões com intervalos mensais; em observação espontânea, naturalista e longitudinal; em interacção com pais ou adultos que lhes eram familiares; em casa ou ambiente igualmente familiar; em tarefas de brincadeira, alimentação ou higiene. Recorreu-se ao sistema CHILDES, já referido, para transcrição, codificação e análise dos dados. A dimensão da amostra foi a seguinte:







Nº total de linhas dos ficheiros

Nº de enunciados das crianças

Nº de formas verbais

LUI

25639

6366

3723

RAP

18201

4908

2769

JOA

9829

2680

1790

PED

6854

2210

1932

PAU

22054

5348

2537

RAB

9285

2425

2065

TIA

5096

1261

507

Totais globais

96958

25198

15323

Trataram-se os tópicos agora enunciados, por forma a testar as hipóteses apontadas para cada um deles, respectivamente:

- (i) A concordância verbal, por forma a avaliar comparadamente a marcação morfológica respectiva.

• Hipótese: O PB apresenta um paradigma mais reduzido que o PE por via da perda da marca específica de segunda pessoa do singular e, eventualmente, das marcações associadas à primeira pessoa do plural, sempre em favor da forma de terceira pessoa do singular. PE e PB apresentarão assim processos de aquisição da concordância verbal distintos em alguns aspectos fundamentais, nomeadamente em relação ao traço de [pessoa].

- (ii) O sujeito, pela tendência que alguns autores atribuem para a perda da possibilidade do sujeito nulo referencial em PB.

• Hipótese: A redução no paradigma flexional acima referida teve reflexos ao nível da fixação do parâmetro do sujeito nulo, pelo que os dados aqui trabalhados revelarão percentagens significativamente mais elevadas de sujeitos preenchidos em PB do que em PE.

- (iii) O objecto, pela tendência assinalada por alguns para se produzirem mais objectos nulos em PB do que em PE.

• Hipótese: Serão detectados mais objectos nulos em PB do que em PE.

- (iv) Os infinitivos, pela associação normalmente estabelecida entre o parâmetro do sujeito nulo e a chamada fase dos infinitivos opcionais, procurando-se fundamentalmente determinar se tal fase existiria emPB.

• Hipótese: Os infinitivos opcionais serão detectados em PB, mas não em PE.

- (v) Os imperativos, por propostas recentes que associam a sua produção no estádio relevante ao fenómeno dos infinitivos opcionais em línguas como o Português.

• Hipótese: o número de imperativos deverá ser mais elevado emPB.

- (vi) O movimento do verbo, por ser hoje tido como mais restrito em PB.

Globalmente, antevia-se que a gramática do PB deveria apresentar características diferenciadoras claras no seguinte sentido: o parâmetro do sujeito nulo passou a ser fixado com o valor [negativo], dando origem a uma gramática fundamentalmente distinta da do PE.

Ilustra-se o tratamento dos dados relativos à produção de concordância verbal.

Na tabela abaixo, “1/1” representa a percentagem da primeira pessoa do singular onde esta deve constar (forma correcta, do ponto de vista da norma alvo), “3/1” representa a produção de terceira pessoa do singular onde deveria constar a primeira (como em “eu vai”) e assim sucessivamente.

Pode-se verificar o privilégio muito claro da terceira pessoa do singular, igualmente a substituir outras formas verbais.

Apresentam-se os valores médios (tendo em conta o conjunto de sessões) para as quatro crianças portuguesas:







1/1

2/2

3/3

1pl/

1pl


3pl/

3pl


3/1

3/2

3/3pl

Ou-

tros


Total

LUI

10.5%

2.3%

73.5%

1.1%

8.3%

1.0%

0.3%

2.1%

0.9%

100%

RAP

26.6%

5.8%

59.4%

1.1%

2.9%

1.4%

0.9%

1.1%

0.8%

100%

JOA

11.7%

2.8%

71.5%

2.7%

3.4%

3.7%

2.1%

1.3%

0.9%

100%

PED

16.0%

6.9%

63.2%

0.7%

3.7%

6.1%

0.4%

2.7%

0.3%

100%

Total

16.2%

4.5%

66.9%

1.4%

4.6%

3.1%

0.9%

1.8%

0.7%

100%


De seguida, apresentam-se os valores médios para as quatro crianças brasileiras:





1/1

3/3

1pl/1pl

3/1

3/3pl

3/3ref2

Outros

Total

PAU

19.9%

56.0%

1.7%

18.0%

0.1%

3.2%

1.1%

100%

RAB

34.5%

47.3%

5.2%

2.1%

1.1%

9.2%

0.7%

100%

TIA

5.3%

90.1%

0.9%

1.5%

0.3%

0.6%

1.2%

100%

Total

19.9%

64.5%

2.6%

7.2%

0.5%

4.3%

1.0%

100%


Em síntese, pode-se observar o seguinte, sobre a aquisição da concordância verbal em Português (variedades portuguesa e brasileira) como língua materna: verifica-se o grande predomínio da terceira pessoa do singular (“3/3”), em contextos em que pode ocorrer e em substituição de outras formas; em particular, 3/1 e 3/3pl (cf. igualmente 3/3ref1), com variação interindividual; genericamente, verifica-se um número pouco significativo de formas “desviantes”; 3/3 é claramente a forma não marcada (“default”); verifica-se um processo de subespecificação, usando-se aquela em vez de outras formas, com especificações de pessoa e número próprias; existe um processo de “atraso” relativo das formas de plural; verifica-se uma evolução global de ocorrências de terceira pessoa, seguida da primeira e, finalmente, da segunda (3>1>2), quer nos paradigmas de singular, quer de plural. Convém assim sublinhar que as formas que emergem mais tardiamente são as mais sujeitas à mudança: a segunda do plural em PB e, contemporaneamente, em PE e a segunda do singular em PB.

Por outro lado, existem diferenças interindividuais muito claras, em vários aspectos, especialmente notórias em PB: compare-se, por exemplo, as percentagens de 1/1 para as várias crianças em PE e em PB, nas duas tabelas acima.



Não se pretendendo dar conta da investigação levada a cabo, no seu todo, mas antes ilustrar a metodologia (nomeadamente a dimensão da amostra e o tratamento dos dados), bem como a formulação de hipóteses, remete-se agora para as principais conclusões:

(i) Verifica-se contemporaneamente a existência de um momento de relativa estabilidade em PE e de instabilidade em PB. Tal instabilidade pode ter origem em opções gramaticais distintas para os vários falantes, ou numa mudança em curso; não se confirma no entanto a hipótese inicial, segundo a qual tudo teria derivado da refixação do parâmetro do sujeito nulo.

(ii) As diferenças entre as variedades estudadas não são tão significativas nem tão claras como esperado, sendo para vários aspectos mais notórias as semelhanças globais e as diferenças interindividuais.

(iii) As formas que são adquiridas mais tardiamente são as que mais sofrem processos de mudança.

Em síntese, não há ainda consenso quanto à natureza das diferenças entre PE e PB, já que não existe uma resposta definitiva para a seguinte questão: o PB apresenta variação estável ou mudança? Os dados da aquisição revelam mais a variação entre crianças, o que é compatível com uma ou outra hipóteses, do que a distância entre PE e PB, no sentido esperado – a existência de uma “nova língua”, tal como tem sido assumida pelos autores citados, deveria ser muito mais evidente nos dados da aquisição; seja como for, são indiscutíveis as diferenças entre uma e outra variedades.

Em Silva (1995:77), afirma-se o seguinte: “(…) esta “língua brasileira” pode já ser outra “língua”, no sentido de outra “grammar”, o que resta saber é se ideologicamente, se quer isso.”

Tal citação remete-nos de novo para as reflexões iniciais à volta da relação entre critérios de naturezas distintas e consequências da sua aplicação.

Independentemente da classificação das diferentes entidades linguísticas, o respeito pela variação deverá permanecer, com consequências muito claras nas sociedades lusófonas, nomeadamente ao nível dos sistemas de ensino. Em Silva (1995: 63) afirma-se, a propósito da variação no paradigma de flexão: “Ao professor caberá conhecer esses três sistemas e reconhecer o que é corrente na fala dos seus alunos. O sistema histórico, porque os seus alunos com ele se defrontam nos textos escritos fornecidos para a leitura; os sistemas simplificados, por serem aqueles que são usados no Brasil devendo-se assinalar o peso social de um e de outro”.

O mesmo princípio se deveria aplicar a todos os espaços da Lusofonia, em todos os contextos de utilização: mais importante do que a determinação de uma norma considerada “melhor” ou mais “pura”, é o reconhecimento da existência das formas linguísticas associadas aos vários tipos de variação – da geográfica à social, ou à que envolve registos diferentes. Só o respeito por essa variação – e, por extensão, por todos os utilizadores do Português – poderá garantir, em última instância, a continuidade da Lusofonia.

Referências Bibliográficas:


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Nota curricular


Fernanda Maria Ribeiro Gonçalves é actualmente Professora Auxiliar de Nomeação Definitiva da Universidade de Évora, instituição onde lecciona desde 1993, tendo aí defendido a sua dissertação de doutoramento em 2005, no domínio da Linguística Portuguesa. As suas áreas de investigação são a Aquisição da Linguagem, a Morfologia, a Sintaxe, a Linguística Comparada e a Linguística Aplicada ao Ensino.

iImporta referir que tal suposta “aproximação” da norma portuguesa (ou lusoafricana) à brasileira não tem os objectivos nem os contornos muitas vezes apregoados, mas a explicitação de tal questão fica claramente fora do escopo deste artigo, em que se pretendeu somente ilustrar a existência de forças disjuntivas com o que foi, porventura, o exemplo mais claro das últimas décadas.

iiPara referências bibliográficas e análise da HCR, com base em dados do Português, nas variedades portuguesa e brasileira, veja-se Gonçalves (2004).

iii“SVO significa “Sujeito – Verbo – Objecto”.

iv Veja-se o sítio http://childes.psy.cmu.edu/ .

vSegue-se a convenção “ano;mês.dia”.


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