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FERNANDA RECHE SELISTRE

PEQUENO RECORTE DE UMA GRANDE EXPERIÊNCIA DE GRUPO – ESCRITO POR UMA NOVA GESTALT-TERAPÊUTA

Monografia apresentada como requisito para obtenção do Título de Especialista em Psicologia Clínica e Certificado de Especialização em Gestalt Terapia pelo no Comunidade Gestáltica – Clínica e Escola de Psicoterapia.


Orientadora: Angela Schillings


Florianópolis, fevereiro de 2009.

Dedico este trabalho aos meus pais, que me deram apoio em mais um trecho de minha caminhada.

Ao meu noivo que participou ativamente neste processo de conhecimento e autoconhecimento.

E por fim as minhas maravilhosas amigas pelo apoio incondicional nesses três anos de aprendizagem.

“Ariadne, que, para poder se unir a Teseu, acompanha-o até a entrada do temível labirinto, lhe dá um novelo e o instrui a ir desenrolando o fio à medida que se encaminha para enfrentar o Minotauro (o pai da moça exigiu que ele enfrentasse e derrotasse o monstro para poder ser digno de sua filha). Ariadne confia na astúcia e capacidade nas artes do combate de Teseu, mas teme que ele se perca posteriormente lá dentro. É o fio de novelo, esse vínculo, que vai orientá-lo no caminho de volta... E é assim também no processo psicoterápico: o vínculo é que norteia a busca...

( Jean Clark Juliano, 1999, p.63)”.


SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 05

2. DISCUSSÃO TÉORICA ACERCA DA GESTALT TERAPIA..........................07

3. VIVÊNCIAS EM GRUPO........................................................................................12

4. CONCLUSÃO............................................................................................................22

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................24

1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho refere-se à experiência de uma psicóloga em busca do seu aperfeiçoamento enquanto gestalt terapêuta. Durante o último ano de sua Especialização em Gestalt Terapia, transcorrida em 2009, onde teve a possibilidade de desenvolver um trabalho em grupo, na Clínica Social da Comunidade Gestáltica – Clínica e Escola de Psicoterapia.

A perspectiva utilizada para a ação da profissional durante os trabalhos realizados foram de base fenomenológico-existencial que sustenta a Gestalt Terapia.: Segundo Yontef (1998) deve-se estudar o fenômeno que é dado pela experiência, utilizando para esse fim um método descritivo que pressuponha confiança na experiência crua, imediata; vivência no aqui e agora; busca de um insight das inter-relações funcionais, incluindo nisso todos os dados, conforme vão sendo vivenciados. Esta abordagem de campo fenomenológica estuda o campo conforme ele é experienciado pela pessoa num dado momento.

Durante a investigação fenomenológica os “à prioris” são postos de lado para permitir, segundo este mesmo autor, que a pessoa experiencie o que é a ocorrência vivida, sem contaminação e acrescenta ainda que, neste método, o observador faz parte da situação na qual está trabalhando, visto que, afeta seu objeto de estudo.

A idéia de expor as impressões vivenciadas surgiu a partir de algumas colocações advindas de vários profissionais, psicólogos e adeptos de outras ciências e de que existem muitas dificuldades na coordenação de um grupo, pelo bloqueio que a maioria das pessoas possui na exposição de suas singularidades frente a outras pessoas.

A relevância desse trabalho decorre da possibilidade de, com base no relato descrito, auxiliar na desmistificação existente de que a eficácia de um trabalho terapêutico deve ser apenas através da terapia bi-pessoal, ou seja, o setting terapêutico composto apenas pelo terapêuta e o cliente. Também é objetivo demonstrar que existem formas alternativas de se trabalhar terapeuticamente em grupo com uma clientela que não possui experiência anterior na psicoterapia grupal.

Desta forma, a partir do relato apresentado, busca-se mostrar a experiência de uma profissional em um trabalho de grupo, com o objetivo de incentivar um número maior de terapêutas que, ou por temerem a exposição de um encontro com pessoas “estranhas” ou por não conhecerem a sua efetividade, perdem a riquíssima possibilidade de experimentar um trabalho altamente compensador. O referido trabalho proporciona possibilidades infinitas, como a de perceber o processo de mudança rápida e transparente, permitindo o reconhecimento das singularidades e semelhanças das pessoas.

Esta maneira de ser gestalt terapêuta conhecida no último ano do Curso de Especialização foi extremamente rica e prazerosa, tanto no crescimento profissional, quanto pessoal da psicóloga, possibilitando desenvolver sua capacidade de se emocionar, ser tocada pelas experiências e pelos relatos, disponibilizando empatia a partir do reflexo quando uma fala, um gesto, um movimento, um som ou a falta destes afetam ou podem afetar quem se encontra no campo. Essas vivências são magnificamente percebidas quando se está trabalhando com um grupo de pessoas dispostas a ter um encontro verdadeiro num processo terapêutico grupal.

O presente trabalho tem início com a retomada do marco teórico das bases que fundamentam a Gestalt terapia e seus conceitos chaves. Na seqüência serão descritas as ações do terapêuta no processo clínico, suas intervenções como profissional e sujeito participante do processo terapêutico grupal, abrangendo-se questões referentes aos experimentos efetuados e ao fechamento deste processo.

Esta discussão será sustentada pela visão de processo grupal de diferentes autores da Gestalt Terapia, bem como de algumas outras contribuições de autores de outras abordagens. Importante ressaltar que a escolha por autores que não são da Gestalt Terapia, deve-se ao fato de que as colocações dos autores escolhidos fazem sentido face ao referencial gestáltico utilizado não ferindo seus princípios sustentadores, e pelo contrário, fornecem uma perspectiva de ampliação ao referencial utilizado.



2. DISCUSSÃO TÉORICA ACERCA DA GESTALT-TERAPIA

O presente capítulo apresentará a abordagem teórica sobre gestalt-terapia, propiciando uma discussão sobre os assuntos levantados por autores acerca desta corrente terapêutica.

Segundo Perls (1988), o que pode ser tido como novo na abordagem gestáltica, não será necessariamente as partes e fragmentos que irão constitui - lá, mas o modo pelo qual são usadas e organizadas. Estes aspectos sim darão a essa abordagem sua singularidade e o apelo, a sua intenção. O autor defini gestalt, como uma palavra alemã para a qual não há tradução equivalente em outra língua. Sendo esta uma forma, uma configuração, o modo particular de organização das partes individuais que entram em sua composição. Afirma que a premissa básica da psicologia da Gestalt é que a natureza humana é organizada em partes ou todos, que é vivenciada pelo indivíduo nestes termos, e que só pode ser entendida como uma função das partes ou todos dos quais é feita.

Após esta breve introdução da teoria da gestalt, a pesquisadora realizará a explanação de conceitos pertinentes visando a posterior discussão prática do processo grupal vivenciado pela profissional. Além destes, serão citadas algumas definições de grupo e de terapia por diferentes autores.

A Gestalt Terapia pode ser descrita como fenomenológica, visto que estuda os fenômenos que aparecem à consciência evitando interpretações apriorísticas. Leva em consideração a relação EU-TU1, baseando-se no holismo que faz a integração corpo-mente, fantasia e realidade. Esta corrente de pensamento tem como base a Teoria de Campo que percebe a realidade como um campo unificado, que segundo Yontef (1998) enfatiza a totalidade das forças que, em conjunto, formam uma totalidade integrada e determinada as partes do campo. Ou seja, as pessoas e os eventos existem apenas como sendo “de-um-campo” e o significado é alcançado somente pelas relações no campo.

Yontef (1998) faz uma contribuição acerca desta teoria, dizendo que o objeto estudado é o fenômeno que é dado pela experiência. E o método utilizado para a exploração da teoria de campo fenomenológica é o descritivo que pressupõe: a confiança na experiência crua, imediata, a vivência no aqui e agora; e a busca de um insight das inter-relações funcionais, incluindo nisso todos os dados, conforme estes vão sendo experenciados. Essa abordagem fenomenológica estuda o campo conforme ele é experenciado pelo sujeito num dado momento. Durante a investigação fenomenológica os preconceitos são postos de lado para permitir, segundo Yontef (1998), que o sujeito experencie o que é “dado” na situação, sem contaminação. E acrescenta que nesse método fenomenológico o observador faz parte da situação que está trabalhando, visto que, afeta seu objeto de estudo.

A visão de homem a qual Perls (1977) defende, passa pela idéia que este nasce com o propósito de obtenção de um equilíbrio, seja, ele social, psicológico ou fisiológico. Sendo assim, cada movimento deste homem terá como objetivo a obtenção do equilíbrio entre suas necessidades pessoais e as demandas da sociedade. Contudo dificuldades irão emergir, visto que quando estes movimentos colocarem em conflito sua personalidade e a sociedade, seja porque este indivíduo se arriscou demais, seja por ter entrado em choque com a sociedade, será chamado de criminoso. Por outro lado, se a busca do equilíbrio o levar a retirar-se mais e mais, não permitindo que a sociedade o influencie, separando-o assim do convívio social, poderá ser chamado de neurótico. Tanto o neurótico quanto o criminoso não podem fazer a distinção entre si e o resto do mundo, entretanto o primeiro não pode ver claramente suas necessidades e o segundo não pode ver as necessidades dos outros. Segundo Perls (1977), o homem não pode ser visto como um ser isolado, ele estará sempre presente em um campo de interação organismo-meio, ou seja, ambos estão numa relação de mutualidade. Este autor percebe o homem como um organismo vivo em relação adaptativa com o meio que delimitará e selecionará para si um meio propício onde desenvolverá formas próprias e possíveis de auto-conservação, ou seja, formas funcionais dentre as possibilidades presentes.

A gestalt-terapia apresenta conceitos que podem ser considerados fundamentais embasando a teoria, dentre os quais: conceitos de figura-fundo, aqui-agora, todo-partes, contato. Tendo em vista que o relato vivencial que será explanado a seguir será respaldado nesta teoria, tais conceitos serão descritos nos parágrafos seguintes.

O conceito de todo e parte, segundo Ribeiro (1985) é fundamental para a compreensão da Psicologia da Gestalt. Afirma que ao se deparar com algo novo, a nossa percepção o capta como um todo e a seguir suas partes. Sendo assim concluí que o todo é anterior às suas partes. Coloca ainda que, o todo é na realidade, um fato fenomenológico global e é através desta globalidade que os fenômenos podem ser compreendidos, criando ou dando consciência de sua natureza intrínseca. Conclui afirmando que é importante para a compreensão do todo, que se descubra e se conheça a relação existente entre suas partes, que, de certo modo, elas possam estar ou ser definidas, para que o todo venha à luz.

Segundo Ribeiro (1985), Perls busca no conceito de figura e fundo um suporte para se compreender o problema psicoterapêutico, tendo este como um dos conceitos mestres. Trata-se da forma ou da formação de realidade ou aquilo que se chama “formação duo”: uma figura sobre ou dentro de outra. De acordo com Ribeiro a figura não é uma parte isolada do fundo, ela existe no fundo. Sendo que este último revela a figura, ou seja, permite à figura surgir.

A figura será aquilo que o organismo necessita em dado momento para satisfazer as suas necessidades e assim, restabelecer seu equilíbrio. Esta pode ser a definição de ciclo de contato, um processo, que segundo Perls (1977), será desencadeado por uma sensação que irá se tornando figura, até mobilizar certa energia para posteriormente impulsionar o organismo para a ação. Este movimento atenderá suas necessidades e restabelecerá a homeostase. Sendo assim, o comportamento humano pode ser entendido e pautado na idéia de um contínuo processo de surgimento de necessidades como figura a partir de um fundo. Este fundo fará parte da pessoa como um todo e será sua história e suas experiências, situadas num tempo em um espaço, no “seu mundo”. Quando o indivíduo satisfaz sua necessidade, fecha-se a gestalt e assim tomará outro assunto como sendo sua necessidade. Para que isso venha a ocorrer, o indivíduo terá de ser capaz de manipular a si mesmo, assim como o seu meio.

Outro conceito de suma importância é o de aqui e agora. Segundo Ribeiro (1985) quando se fala aqui e agora, está-se de fato perguntando se a experiência de uma percepção passada de um objeto ou sua forma influencia ou não a visão de um objeto que se está vendo aqui e agora. O presente ou o aqui e agora convivem com o organismo e com o passado que é sua história, numa relação de figura e fundo, de todo e parte. É, segundo Ribeiro (1985) o princípio da contemporaneidade. O passado e o corpo estão presentes, aqui e agora, na pessoa como um todo, e isto basta para entendê-la e para que se possa lidar com ela criativamente. Neste sentido conclui: o aqui e agora é a - histórico, ele simplesmente é.

E por fim, a conceituação de contato, que no entendimento de Perls, Hefferline e Goodman (1997), é criativo e dinâmico, não aceitando de forma passiva ou meramente se ajustando a situação, tendo em vista que a novidade deve ser assimilada. Segundo estes autores, o novo permite a mudança e o crescimento ocorrendo assim à formação de uma figura de interesse contra um fundo ou contexto do campo organismo-meio. Relatam ainda que a partir da existência de uma nova configuração, tanto o antigo hábito consumado do organismo contactante, como o estado anterior, abordado e contatado, são destruídos no interesse do novo contato.

Segundo Polster e Polster (1979) o contato pode ser compreendido como uma função contemporânea, não sendo prejudicial em idade alguma, haja vista que cada idade tem a capacidade de criar seus próprios estilos e abrir novos caminhos, na medida em que as direções são abertas por frutos de novas tecnologias.

O indivíduo tem a necessidade de realizar o contato com outros seres humanos, assim como precisa de comida e bebida, no nível fisiológico, como afirma Perls (1977). O sentido de relação com o grupo lhe é tão natural quanto seu sentido de relação com seus impulsos fisiológicos de sobrevivência. E uma vez que o campo está em constante mudança, devido a sua própria natureza e ao que se faz com ele, as formas e técnicas de interação desse homem com esse meio estão também em constante mudança. Sendo assim, Ele precisa se adaptar ao meio para sobreviver. Se esse homem é incapaz de alterar suas técnicas de manipulação e interação surge à neurose.

Neste ponto será realizada uma explanação acerca de definições de grupo para se prover o embasamento teórico das vivências grupais. Inicialmente, a definição de Perls (1977) que considera um homem saudável como aquele que pode viver dentro de uma sociedade sem ser tragado por ela, e nem completamente afastado. O autor define grupo como “família, estado, círculo social, companheiros de trabalho, qualquer ou todas as combinações de pessoas que tenham uma relação funcional específica com o outro, em qualquer tempo” (Perls, 1977, p. 42).

A Gestalt, segundo Perls (1977) em sua perspectiva fenomenológica, entende o grupo como um espaço vital, onde cada elemento funciona como um vetor que atua no sentido de entrar e/ou sair, dependendo do equilíbrio que se quer instaurar ou romper. Ou seja, pode ser entendido como um campo de forças, onde cada um atua sobre o outro e onde cada um compartilha a natureza de todos. Havendo uma necessidade pessoal cuja satisfação está no grupo, podem ser instaurados os conflitos, visto que indivíduo e grupo possuem necessidades diferentes. Senso assim, o indivíduo deve ter clareza na hora de decidir o que fazer.

Segundo Tellegen (1984), o grupo pode ser entendido como possuidor de várias partes, compostas e complexas, contudo, contido em um meio social com o qual manterá relações de mutualidade. Faz-se necessário assim ter em mente, que ao se realizar uma discussão acerca de grupos, deve-se levar em conta os valores e os padrões do contexto social a qual esse grupo está inserido. O autor afirma ainda haver uma tendência da maioria dos grupos por uma homogeneização à base de pressão, ou seja, são estabelecidas formas de conduta, forçando a uniformidade e desconsiderando a singularidade de cada um.

Segundo Pichón Riviere apud Osório (1989), o grupo pode ser visto como um conjunto restrito de pessoas, que ligadas por constantes de tempo e espaço, e articuladas por sua mútua representação interna, se propõe de forma explícita ou implícita à realização de uma tarefa que constitui sua finalidade, inter-atuando para isso através de complexos mecanismos de adjudicação e assunção de papéis. Através da interação continuada e dos processos de comunicação e aprendizagem, os integrantes podem estabelecer a noção de vínculo, cada um internalizando os demais. De acordo com o mesmo autor, o grupo pode fazer a passagem do “eu" para "nós” quando desenvolve a mútua representação interna onde cada integrante, ao ser internalizado pelos outros, passa a tomar parte do grupo interno, e cada um sabe que conta com os demais, na medida em que o grupo, em função da necessidade, fundamento motivacional do vínculo, estabelece objetivos comuns e se propõe a alcançar a realização de uma tarefa.

Permanentes comunicações dentro do grupo, quer sejam palavras ou gestos, são relações do indivíduo com a realidade que o cerca. Ribeiro (1994, p.36) define “o grupo não como sendo apenas algo físico, visível, que só existe na sala de terapia, é uma entidade psíquica, existindo mesmo quando as pessoas não estão fisicamente presentes no mesmo lugar”.



3. VIVÊNCIAS EM GRUPO

Nesta etapa da pesquisa serão feitas colocações pertinentes ao processo vivenciado desde a preparação para o início dos trabalhos até o seu encerramento, sendo exposto para isso momentos experenciados durante os encontros grupais ocorridos no Comunidade Gestáltica no ano de 2009.

Anterior ao desenvolvimento do trabalho do grupo em si, fez-se necessária uma preparação das profissionais que atuariam como terapêutas no grupo. Esta preparação foi constituída pela leitura de textos e livros de diferentes autores. Além da realização de reuniões com a supervisora do trabalho de grupo.

Após esta preparação, foram feitas entrevistas iniciais e individuais com cada pessoa interessada em participar do grupo, sendo colocado a estas, como ocorreria o processo grupal.

Nestes momentos, proporcionados pelas entrevistas iniciais, os profissionais tiveram a oportunidade de conhecer cada cliente, assim como oportunizou que cada uma das participantes do grupo conhecesse a profissional que viria trabalhar com elas. Segundo Schillings (2008), a entrevista inicial pode ser considerada, como o primeiro contato frente a frente com uma pessoa que traz consigo a queixa que expressa seu sofrimento. De acordo com a autora, a queixa pode ser definida como figura que se sustenta por um fundo de contato interrompido, sendo vista ainda como a repetição de algo aberto que procura fechamento. Ou seja, a pessoa não consegue lidar com o novo que se apresenta e continua a dar respostas velhas a situações novas. Lima Filho (1997) faz uma contribuição acerca de entrevista dizendo que este é o momento inicial da relação pessoa-profisssional que sustentará a forma de lidar com o contrato com o cliente. Dessa maneira pode ser vista como a primeira forma de intervenção do processo terapêutico, onde o vínculo poderá se formar e possibilitará a intervenção na forma como esse conteúdo aparece no contato.

Segundo Frazão (1996), o que a pessoa traz no aqui e agora é o que ele sabe de si ou pode se comunicar. Porém o passado faz parte desta pessoa, sua história de vida, suas experiências, seus relacionamentos, seus sucessos e insucessos (fundo). Faz-se necessário assim compreender a queixa/figura e o fundo, visto que é a relação figura/fundo que dá sentido à figura. Neste funcionamento, as figuras irão surgir e começa-se a refletir sobre as figuras inacabadas, os fundos que estão inacessíveis, entre outros. Contudo nesta oportunidade, não deve ser feita nenhuma intervenção por parte do terapêuta, pois ainda não há suporte disponível.

Neste primeiro momento em que psicólogo e cliente encontraram-se frente a frente, fez-se a escuta2 ativa dos motivos e a queixa que levou este indivíduo a procurar o atendimento psicológico. Foi dada a cada cliente a oportunidade de se colocar, se expor sem ser julgado ou questionado. Referente à postura do profissional frente a esta situação, Juliano (1999) relata que para o terapêuta tudo o que é apresentando é novo e, sendo assim, deve se por atento e curioso. Essa curiosidade, esses olhos e ouvidos atentos incentivam o viajante, agora mais descansado, a rever de perto cada um de seus tesouros, permitindo-se fantasiar e sonhar na presença de cada objeto. A proposta é retomar a viagem em conjunto. E quando retornar ao ponto de partida, também estará transformado.

O gestalt terapêuta deve trabalhar com o fenômeno que é captado por sua percepção, através de seus olhos, seus ouvidos, valorizando assim o aspecto que ali existe e se manifesta. Segundo Juliano (1999), a atitude do terapêuta é descontraída e atenta, inteira, disponível, energizada; ficando com o fenômeno tal qual ele se apresenta tal qual ele é. A tarefa do profissional, segundo esta autora, será a de acolher o cliente com tudo o que este traz de tenebroso ou sublime, deixando-o depositar no chão sua bagagem, que se tornou pesada de tanto ser carregada nas costas. E na medida em que se desenvolve a intimidade e a confiança, o cliente se dispõe a abrir suas histórias, mostrando e compartilhando seus conteúdos. “Dialogando com seus monstros, o cliente toma tento para a valia e função deste monstro que nesse momento abandona a condição de inimigo que está lá fora e se constitui num ser conhecido aqui dentro” (Juliano, 1999, p.23).

No primeiro encontro do grupo, após terem sido realizadas as a apresentações, foi exposta a maneira pela qual se daria o funcionamento do grupo, sendo para isto colocados os objetivos e especificidades do trabalho, dentre outros aspectos que se fizeram necessários durante o processo. Em seguida, foi dada a palavra aos participantes do grupo que tivessem a disponibilidade de colocar os motivos que os levaram a procurar o Serviço de Psicologia, suas expectativas, suas dúvidas, e o que considerasse importante. Interessante pontuar que o silêncio aparece no exato momento em que é colocada a seguinte frase: “Alguém gostaria de começar?”, ou, “Alguém gostaria de falar algo?” Segundo Yontef (1998) o sujeito possui seus preconceitos, crenças, modos de pensar introjetados que determinam seus pensamentos, sentimentos e percepções, a pessoa se apóia nisto e estes fatores permeiam os seus contatos e processos de awareness.

Outras situações corriqueiras nos trabalhos foram às fantasias dos participantes frente ao trabalho grupal, sendo costumeira a fantasia da obrigação em ter algo para falar durante os encontros. Isto pôde ser notado em diversas falas de diferentes pessoas em diferentes momentos, contudo ao longo do processo grupal este pensamento pode ser desmistificado. Esta mudança percebida na postura dos participantes demonstra a capacidade das pessoas em promover a mudança em si e no meio ao qual esteja inserido. De acordo com, Perls, Hefferline e Goodman (1997) o novo permite a mudança e o crescimento ocorrendo assim à formação de uma figura de interesse contra um fundo ou contexto do campo organismo-meio. Os autores afirmam ainda que a partir da existência de uma nova configuração, tanto o antigo hábito consumado do organismo contactante, como o estado anterior, abordado e contatado, são destruídos no interesse do novo contato

Passo importante na construção do grupo e de sua identidade grupal pode ser compreendido como o contrato terapêutico momento onde a formulação de regras possibilita o início dos vínculos. O estabelecimento do contrato terapêutico3 pode ser entendido como uma etapa importante de todo trabalho terapêutico. Cabe colocar que esta etapa pode e deve ser modificada durante o processo do grupo perante as necessidades que forem surgindo durante o andamento dos trabalhos. Na prática do grupo a construção deste contrato iniciou-se primeiramente com as entrevistas individuais, processo este, que foi dado continuidade no primeiro encontro quando foram realizadas as apresentações dos participantes, sendo colocadas e discutidas questões práticas acerca do andamento do grupo (regras, horários, início, término das atividades, comprometimento grupal e individual...). Entretanto a cada saída ou entrada de um novo integrante, eram refeitos novos acordos entre os facilitadores e os participantes da nova estrutural grupal. E por último, com a saída de uma das facilitadoras do grupo, foi discutido como seriam realizados os encontros seguintes, agora, com uma nova configuração.

Durante o processo grupal, algumas expectativas referentes ao andamento do grupo podem surgir, expectativas estas que podem, ou não, serem correspondidas durante o trabalho e que podem gerar desconforto no profissional. Nestas vivências aqui relatadas, mais especificamente, a frustração pôde ser sentida com a ausência de pessoas no grupo que haviam confirmado sua presença, bem como quando houve desistências por parte de alguns membros. Diversos introjetos4 poderão aparecer nestes momentos, entretanto a atitude do profissional de evitar “tomar para si” o que não é seu e a habilidade deste para lidar com estas situações podem ser aprendidas e controladas durante o andamento de todo o processo grupal. É importante que o profissional faça uma pausa para a reflexão dos motivos que levaram o participante a desistir do trabalho em grupo, para assim ter mais clareza das ocorrências nesse campo que envolve tantas singularidades.

Durante o processo grupal foram elaborados alguns experimentos5 que seriam colocados em prática no encontro, entretanto a idéia não era levada ao grupo devido à indisponibilidade de um ou mais participantes para desenvolvê-lo, ou por surgirem demandas mais urgentes. Sendo assim, apesar da preparação, o experimento não era realizado. Por exemplo, as participantes possuíam o costume de falar muito sobre seus sentimentos e sobre situações que ocorriam em seu dia a dia. Mas quando lhes era oferecida a oportunidade de levar tal situação para a ação, algumas participantes, recuavam. Uma maneira discutida em supervisão para lidar com estas dificuldades seria o uso de material lúdico, tal qual folha, canetas coloridas e giz de cera, para o desenvolvimento de atividades lúdicas, entretanto não era feita a utilização do material tendo em vista as demandas que surgiam durante o encontro grupal.

Segundo Zinker (1995) o processo de negociação com o cliente para a elaboração do esboço de um experimento e a disponibilidade dele para participar é o que se chama de consenso. O cliente precisa saber que o profissional está a sua disposição, que ele não está só. Este acordo poderá ser feito de maneira explícita ou não, o terapêuta precisará identificar se a concordância está expressa no campo como algo verdadeiramente disponível ou como um introjeto pela necessidade do terapêuta e ainda a possibilidade de recusa a qualquer momento do cliente deve estar presente, estando o cliente ciente de que só se disponibilizará para aquilo que acha congruente no aqui e agora.

Alguns momentos marcantes foram vivenciados neste processo grupal, onde questões foram trazidas por integrantes do grupo que emocionaram e tocaram tanto facilitadores quanto os outros integrantes. Por exemplo, situações em que eram manifestados emoções e pensamentos referentes à desvalorização da vida, ideação suicida, a relação conflituosa de mãe-filho, a tristeza profunda, a falta de perspectivas de futuro. Neste grupo algumas pessoas se identificaram com questões relacionadas à vida e morte, mais especificamente com a temática do suicídio. Relataram que sofriam tanto que não percebiam mais saída para seus sofrimentos que não fosse dar fim a suas vidas. Todas as pessoas que sentiram necessidade de contar suas histórias foram ouvidas e após foi realizada uma reflexão sobre estas situações de desespero sobre o que, realmente, elas queriam “matar”: seu sofrimento ou sua vida? Sendo colocado a todas que, se estes momentos de desespero fossem recorrentes, seria necessária a procura de ajuda médica especializada, além do acompanhamento psicológico. Foi reforçada e valorizada a força e a capacidade de superação de todos que mesmo não “conseguindo ver mais saída”, puderam escolher viver e mudar algo

Durante o processo grupal pôde-se perceber que o grupo se fez e se constituiu no momento e pelas pessoas que estavam ali presentes, naquele campo6, no qual todos eram parte, tanto profissionais como clientes. Ambos passivos e ativos nesse processo, não havendo maneira correta disto ser realizado. O profissional, ao se permitir perceber e sentir o que está ocorrendo no aqui e agora no espaço grupal, incluindo todos os elementos, pode agir conforme o momento.

O profissional, assim como qualquer outro sujeito, possui sentimentos e emoções, que são tocadas pela fala ou atitude de um cliente, tendo em vista que está inserido num campo, numa relação EU-TU7. Plausível ao profissional que nestes momentos cuide de si e se disponibilize a pessoa que está a sua frente, prestando atenção das necessidades que aparecem no fluxo figura e fundo, e intervir da melhor maneira possível.

Apesar de toda a preparação realizada anteriormente pela profissional e do embasamento teórico que pode servir de suporte no momento do atendimento, ocorreram situações durante o trabalho onde foram tomadas decisões por parte da facilitadora, sem ter ocorrido nenhuma discussão ou preparação para desenvolver tal atividade. Durante o encontro surgia a vontade, o desejo de fazer algo junto com uma participante quando ouvia-se esta falar sobre alguma situação que lhe incomodava. Então na medida em que havia disponibilidade da parte da pessoa para desenvolver um experimento, ele era proposto e colocado em prática. Isto tudo só era possível quando se estava presente no aqui e agora, livre de aprioris ou introjetos, pode-se agir assim espontaneamente e permitir que o verdadeiro encontro EU-TU acontecesse. Em uma situação mais específica, a profissional escutava uma pessoa falando sobre o momento que estava vivenciando. Durante a fala um objeto que estava constantemente posicionado no colo desta pessoa lhe chamou atenção e o desejo de tirá-lo da participante surgiu. A facilitadora então tira o objeto do colo da participante que imediatamente olha a profissional com espanto. E a partir daí o que estava sendo falado fica em segundo plano e o foco vira outro. Sai-se da fala e leva-se para a ação o conteúdo, sendo assim vivenciado um experimento.

Outras situações importantes a serem relatadas foram alguns momentos em que ocorreram falas ou ações de uma pessoa que tiveram reflexo direto em outra. Sendo assim, foi importante prestar atenção nas fisionomias, nos gestos, nas atitudes, nas falas e nas ações de cada participante do grupo. Uma experiência que teve resultados positivos no grupo foi a de propor um experimento a uma das integrantes e, em seguida era questionado se alguém mais estava disposto a participar do experimento. Isto possibilitou que todo o grupo trabalhasse em conjunto. Interessante, que durante esta experiência, a fala, a audição e a visão foram uma constante, assim como em todos os encontros grupais. Foram poucos os momentos onde o movimento, o toque e o olfato foram experenciados. Cabe colocar, contudo que, quando permitido tanto por parte da profissional quanto por parte de uma participante do grupo, o tato ou o movimento foi utilizado e a experiência teve outro valor, outra conotação, muito mais verdadeira, muito mais real e muito mais espontânea.

Polster e Polster (1979) descrevem sete processos como funções de contato: a visão, audição, olfato, gustação, tato, fala/linguagem e o movimento. Afirmam que é através destas funções que o contato pode ser obtido e através da corrupção destas funções que o contato pode ser bloqueado ou evitado. Estas funções são vulneráveis à diminuição do impacto através de distanciamento pessoal, como a inércia ou o desinteresse, ou por causa de desenvolvimentos técnicos.

E o tato com contato como o toque no qual há uma abertura de experiência sensorial do corpo aos afetos, sentimentos e emoções. A disponibilidade tátil do sujeito permite a mobilização de outros sentimentos de maneira ampla. Uma experiência do grupo que é importante ser relatada para exemplificar esta fala, foi a atitude da profissional que ao perceber a fragilidade de uma pessoa, tomou a decisão de abraçá-la dando-lhe carinho e suporte; uma ação espontânea e verdadeira que pôde viabilizar o verdadeiro encontro de duas pessoas. Segundo Ribeiro (1985) quando o cliente e o psicoterapêuta se encontram no mesmo campo comportamental, ambos “vivenciam” o mesmo espaço vital8, então a ação psicoterapêutica flui da harmonia e equilíbrio do campo. Assim, o cliente produz ações (figuras naturais) em íntima relação com seu fundo (organismo e terapêuta), o que faz com que ele próprio descubra o que procura e lide com suas descobertas. O terapêuta apenas mostra a ele o que já está nele, o que ele próprio já possui, ou seja, permite que o cliente tome posse de si próprio.

A Gestalt Terapia buscará o resgate da responsabilidade que cada pessoa tem por sua existência, possibilitando que ela adquira a habilidade para dar uma resposta às situações vivenciadas, permitindo que sua energia flua para além de si, disponibilizando o envolvimento e comprometimento com o mundo de forma criativa.

O método utilizado pela Gestalt Terapia, segundo Frazão (2008) é experiencial implica em vivenciar a emoção ao invés de falar sobre ela, permitindo a sua assimilação, se preocupa com o como e o que a pessoa está fazendo no aqui e agora (o agora nos mantém no presente e nos provê a consciência de que a experiência sempre ocorre no presente). Visa à focalização e direcionamento de energia, hierarquização de necessidades. Esta técnica exige que o cliente experiencie a si mesmo tanto quanto possa, solicita- se que ele se dê conta de seus gestos, sua respiração, suas emoções, suas voz. Quanto mais o cliente se der conta de si mesmo, mais aprenderá o que é seu “si-mesmo”. À medida que o cliente experimenta os modos pelos quais se impede de “ser” agora, poderá começar a experienciar o “si-mesmo” que interrompeu. Em alguns momentos desta experiência em grupo, uma participante estava falando sobre algum fato em sua vida e podia ser percebido que havia algo “preso” em sua garganta, que não era perceptível a pessoa. Então o profissional interrompeu a fala pontuando para a pessoa perceber sua respiração, sua postura, o tom, a força e a velocidade de sua voz. A participante se dá conta ao sentir o corpo, que há um nó em sua garganta e a partir desta sensação é desenvolvido um trabalho corporal com as pessoas.

Segundo Perls (1988), sendo uma terapia experiencial, o gestalt terapêuta solicita que o cliente não apenas fale sobre seus problemas, mas sim que este re-experiencie seus problemas (que são situações inacabadas no presente) no aqui e agora, visto que, se os problemas passados fossem realmente passados, não seriam mais problemas e, certamente, não seriam atuais.

O retorno, por parte do cliente que está vivenciando seu sofrimento, se expondo, na ação, no movimento, na fala, no olhar, no choro... Após a elaboração do ocorrido é extremamente gratificante. Exemplificando isto, na situação relatada no parágrafo anterior, após o espanto inicial da participante, foi colocado a esta pessoa como esta se sentia ao ser tirado o objeto de seu colo, o que ela gostaria de fazer com isso. Foi dada a oportunidade desta refazer a situação do jeito que lhe gostaria e ela aceitou. A pessoa se disponibilizou naquele momento, a situação foi vivenciada de outra maneira e após o término do exercício, a pessoa se deu conta do que fazia costumeiramente em sua vida e que acabava reproduzindo no espaço do grupo sem se dar conta. A mudança na pessoa após este momento foi nítida, sendo bastante gratificante para o profissional perceber isto em seu cliente e saber que pôde fazer parte deste processo. Esta vivência exemplifica o método experiencial utilizado pela gestalt-terapia assim como seu objetivo.

Com relação ao trabalho com o cliente, o terapêuta necessita estar atento e disponível para o campo: cliente – ambiente. Segundo Zinker (2001), somente quando o terapêuta estiver presente, com plena visão e com capacidade de ser relacionar compassivamente, de estar lá, é que pode ter o privilégio de dizer ao cliente aquilo que presencia. O terapêuta precisa estar aware9 de suas necessidades para não fazer uso delas no espaço terapêutico, de forma indevida. Isto diz respeito a dar-se conta de suas dores e alegrias para não fazer do cliente depositário delas.

Uma situação ímpar durante os encontros grupais pode ser descrita em um encontro do grupo quando a profissional escutava uma participante falar, estava simplesmente ali; estava ouvindo-a falar. De repente, a sensação na cabeça toma conta, a dor começa a ser insuportável. Existia ali uma apreensão de uma figura que a capturou e essa ação desejava uma resposta, ou seja, um horizonte de futuro e uma ação concreta. Identificada na fala da participante o que estava transparecendo no corpo da profissional, após dar-se conta do que estava acontecendo, pode então ser dado um significado a esta ocorrência, havendo assim um relaxamento. Percebido no corpo, a figura se delineou e “caiu” para o fundo, dando possibilidade à escuta, permitindo que a espontaneidade estivesse mais uma vez disponível.

Curioso e ao mesmo tempo rico, o terapêuta perceber em si, em seu corpo, em seus gestos, o que a fala ou a atitude do cliente está mobilizando-o, visto que neste processo o profissional também está aprendendo e sendo tocado pelas pessoas do grupo.

É importante para o terapêuta respeitar seu momento e suas necessidades, além das necessidades da pessoa que está ali a sua frente, se colocando, visto que, tudo o que é dito ou feito no campo, possui um reflexo no outro. É necessário que o profissional aprenda a respeitar as necessidades das pessoas, dando espaço para que elas falem, se expressem, ouvindo-as sem julgamento. O respeito ao momento e as necessidades do profissional pode ser relatado quando este toma a decisão de encerrar o atendimento em grupo, visto que pôde perceber quais eram as suas reais necessidades e prioridades naquele momento, optando por tomar a decisão de encerrar sua trajetória.

O encerramento da participação da facilitadora neste grupo deu-se de maneira tranqüila e com a aceitação e o entendimento das participantes. Foi dito que por motivo de sobrecarga de trabalho/estudo da profissional houve a escolha por parte desta de perceber suas prioridades e necessidades neste momento, sendo tomada a decisão de encerrar a participação do grupo. Foi colocado ainda que a outra facilitadora daria continuidade ao trabalho e em seguida foi dada a oportunidade para as participantes se colocarem perante esta nova informação. O retorno recebido foi positivo no sentido de que apesar da perda da profissional as pessoas entendiam a iniciativa desta e concordavam com a decisão de priorizar o que fosse mais importante neste momento para ela.



4. CONCLUSÃO

Foram expostos neste trabalho, aspectos significativos da experiência de uma profissional em sua aprendizagem como terapêuta de grupo. A utilização do referencial teórico da Gestalt Terapia para dar suporte à prática vivenciada foi imprescindível para dar sustentação e clarificar o processo vivido.

Os relatos desta experiência foram feitos de forma espontânea. Contudo a experiência de iniciar um trabalho em grupo não teve este mesmo começo. Inúmeras expectativas e certa ansiedade perpassaram pelo corpo e pela mente desta profissional. Pensamentos surgiram a todo o momento: “Quanta responsabilidade?” “Como se faz isso?” “De que jeito?” Eram recorrentes... Contudo durante as supervisões e o diálogo com a outra facilitadora estes pensamentos foram ao longo do processo sendo desmistificados.

Ao iniciar o projeto e perceber a presença de poucas pessoas, um sentimento de decepção e pessimismo sobre o andamento grupal foi sentido e vivido. Nos primeiros encontros, o nervosismo e o medo de fazer algo errado se fazia presente. Entretanto, após alguns encontros estes sentimentos foram dando espaço a uma sensação de pertencimento, mais segurança, conforto e ainda uma vontade de experimentar, levar para à ação aquele falatório constante das pessoas e que quando esta se disponibilizava a deixar sua zona de conforto e fazer algo a respeito, a sensação como profissional era revigorante e estimulante. A nova parceira que estava sendo feita era estranha em um primeiro momento, por não haver intimidade entre as profissionais ou talvez pelas diferenças existentes. Entretanto, após alguns dias havia sido construída uma linguagem única, com o respeito pelo tempo e limite uma da outra; acima de tudo se instalou companheirismo.

Com o passar do tempo entusiasmo e animação foram surgindo; a persistência e disponibilidade de algumas pessoas para o trabalho terapêutico tiveram influência para isso e as mudanças nítidas e drásticas nas pessoas trouxeram ânimo e disposição. Como foi relatado na experiência vivida pela participante do grupo ao ter seu objeto “roubado”.

A diferença de um trabalho individual e um trabalho grupal pôde ser percebida nitidamente com mudanças rápidas e intensas das participantes, tendo em vista a disponibilidade e mobilização nas falas e nas ações dos participantes do grupo. Outro dado significativo foi constatar como a “vergonha” de falar de si na frente do outro inviabiliza que as pessoas tenham um processo rico, valioso e gratificante em um curto espaço de tempo. Quando estas barreiras são ultrapassadas as possibilidades de crescimento são imensuráveis.

A terapia de grupo que estava sendo disponibilizada tornou-se um processo terapêutico individual para a profissional, visto que, possibilitou que a mesma se percebesse, tomasse consciência de algumas partes de si mesma que estavam “apagadas” mas que eram presentes e se fizeram disponível.

A parceria na realização desta experiência foi positiva e construtiva para as partes, apresentou similaridades que possibilitou construir um trabalho com propósitos semelhantes. Com as “garotas” do grupo pude perceber a força de cada uma, que muitas vezes não sabemos existir dentro de nós e muito menos que está ao nosso alcance.

Para finalizar este processo deixo uma citação de Baumgardner (1978):

Ao confiar em nós mesmos, em nosso soma, o corpo de nosso organismo, para nos guiarmos intuitivamente, permitimos que nossa energia possa fluir para fora, mais além de nós mesmos. Ficamos à disposição para nos envolvermos de forma criativa e nos comprometermos com o mundo que permite a auto-transcendência. Em contato com o poder que procede de nós mesmos, podemos aceitar sem ansiedade nebulosa e sem angústia a experiência sensível que deriva do envolvimento (Baumgardner, 1978, p.24).


Concluo este trabalho, acreditando estar hoje melhor e mais capaz do que ontem para contribuir com aqueles que necessitarem realizar um verdadeiro encontro com a vida, com a felicidade e consigo mesmo.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1A relação EU-TU pode ser compreendida como “um encontro genuíno entre dois seres únicos no qual ambos respeitam a humanidade essencial do outro, aquilo que faz com que alguém seja único, irrepetível” (BUBER, 1985, p. 27).

2O Ouvir segundo Polster e Polster (1979) pode ser um processo ativo e aberto, assim um sujeito que esteja realmente escutando está avidamente recebendo os sons que entram nele. Este processo é muito freqüentemente evitado; considerado secundário, quando comparado ao comportamento mais ativo de falar ou de produzir outros sons. As pessoas geralmente dão a aparência de estar escutando, embora na realidade, estejam somente esperando a sua vez, esperando por uma chance para falar.

3Contrato terapêutico, segundo Rosa (2007), é um dos primeiros passos do momento de encontrar àquele que nos procura, nosso cliente; momento este em que será apresentada ao cliente a forma do terapêuta trabalhar. Demarca, após as entrevistas iniciais, a passagem dos primeiros encontros para o início do processo psicoterapêutico propriamente dito. Segundo Lima Filho (1997), a formulação do contrato ritualiza a passagem dos contatos iniciais ao processo psicoterápico propriamente dito. Marcaria a mudança de uma relação de um sujeito e um psicoterapêuta para um cliente e seu psicoterapêuta.

4 Segundo Perls (1988) o alimento psicológico que nos oferece o mundo externo tem que ser assimilado exatamente da mesma forma que o alimento real. Tem que ser desestruturado, analisado, separado e, de novo, reunido sob a forma que nos será mais valiosa. Se for meramente engolido inteiro não contribui para o desenvolvimento de nossas personalidades. Pelo contrário, nos torna algo semelhante a uma casa tão superlotada com coisas de outras pessoas que não sobra lugar para as coisas do dono.

5 De acordo com Zinker (1995) o experimento pede que a pessoa se explore de maneira ativa, tem como propósito aumentar o alcance da awareness, ampliar o entendimento da pessoa acerca de si mesmo, expandir a liberdade deste de agir com eficiência no meio e ainda de aumentar o repertório de comportamentos numa variedade de situações de sua vida. O autor afirma ainda que se o experimento ocorrer de maneira adequada ajudará a pessoa a dar um passo adiante e consolidar uma nova forma de expressar-se, ou pelo menos, levará este sujeito até o limite do que é conhecido para ele.


6 Ao introduzir a teoria de campo afirma que esta última indica o processo pelo qual pensamos, auxiliando a focar o que é importante, essencial e o que é periférico em nossas ações. O campo, segundo Yontef (1998) é constituído por uma teia de relacionamentos divida em partes que se inter-relacionam, sendo que sua organização muda durante o tempo e uma alteração em qualquer das partes ondula através do campo.


7 Na palavra princípio Eu-Tu, segundo Buber (2006) o Tu ou a relação seriam originários, sendo que o Tu se apresentaria ao Eu como sua condição de existência, visto que não haveria Eu em si, independentemente. E ainda, o Eu se tornaria Eu em virtude do Tu (na relação). Hycner (1997) afirma que esta experiência é estar plenamente presente quanto possível com o outro, com pouca finalidade ou objetivos voltados para si mesmo. Como uma experiência de apreciar a alteridade, a singularidade, a totalidade do outro, enquanto isso também acontece, simultaneamente, com a outra pessoa. Hycner (1997) descreve ainda este momento como uma experiência mútua, como uma experiência de “encontro”.


8 Segundo Granzotto (2005), Kurt Lewin descreve o espaço vital igualando ao conceito de campo dizendo que este é uma totalidade dos fatos que determinam o comportamento da pessoa num certo momento, sendo que este espaço incluiria a pessoa, o meio e as totalidades de eventos possíveis. Afirma ainda que o espaço vital é a expressão da pessoa e revela a relação estabelecida entre sua realidade espacial e existencial. Lewin acredita que algo só adquire realidade objetiva para um sujeito no momento em que este “algo” é trazido para o espaço vital se não permanece no mundo das hipóteses, da fantasia. Esta capacidade de comunicação entre estes domínios, Lewin denominou de permeabilidade.


9Awareness é estar consciente, é ter consciência da própria atenção, da própria consciência, segundo Ribeiro (1994). É um olhar de partes internas entre si. Trata-se de ver o interior e de se preparar para que ocorra o insight2 quando ocorrer.




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