Fernando Sabino o encontro marcado



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Fernando Sabino


O encontro marcado

Contra Capa

“De tudo ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.”

Orelha (I):

ESTA é a história de um jovem em desesperada procura de si mesmo e da verdadeira razão de sua vida. Quase absorvido por uma brilhan­te boêmia intelectual, seu drama interior evolui subterraneamente, expondo os equívocos fundamen­tais que vinham frustrando sua existência e sufocando sua vocação.

O encontro marcado é a história de Fernando Sabino? Sim, mas não se trata de uma autobiografia. É a história atormentada de toda uma geração, naquilo que ela tem de essencialmente dramático. No meio das confusões da vida, procura-se um valor que dê sentido à des­concertante experiência pessoal de quem trava um duelo de morte com a vocação furtiva.

História de adolescência e juven­tude, de prazeres fugidios, deses­pero, cinismo, desencanto, melan­colia, tédio, que se acumulam no espírito do jovem escritor Eduardo Marciano, um homem que ama­durece num mundo desorientado. Ele vê seu matrimônio quebrar-se quando já não pode abdicar; por força de sua própria experiência, o suicídio deixa de ser uma solução. Nessa paisagem atormentada, ele deve renunciar a si mesmo, para comparecer ao encontro com uma antiga verdade.

Orelha (II):

UMA obra que já revela o escritor em plena posse de si mesmo, nesse livro de sua verdadeira estréia no plano da grande literatura.(...) E o drama de uma geração, de uma idade, de uma época social e daí lhe vem, igualmente, a importância que passa a ter na história de nossas letras.”

TRISTÃO DE ATHAYDE
O RITMO do livro é muito bonito. E a história é ‘subjetiva’ sem a pieguice do ‘subjetivo’. O livro todo parece filmado em luz de rua. Por isso às vezes dá a impressão desconcertante da falta absoluta de ‘literatura’ e então se sente que este é o mundo até sofisticado da literatura. O estratagema é quase uma ausência de estratagema.”

CLARICE LISPECTOR
O ROMANCE de Fernando Sabino nos põe em contacto com o drama dos moços sem raízes que não sabem o que fazer do corpo, da alma e da vida.(...) O grande problema, apesar da insistência com que alguns personagens declaram que não existe problema, é o da humana sorte. Na realidade, é Deus o personagem principal do romance. Com extremo bom gosto, e sem nenhuma preocupação edificante, Fernando Sabino deixa o extraordinário misturar-se ao ordinário da vida, e o invisível comandar o visível.”

GUSTAVO CORÇÃO
O encontro malogrado

entre a vida e Marciano

(destrói o vento a haste

sem que à flor cause dano)

Deus murmura de lado

entre divino e humano:

Comigo é que o marcaste.”



CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE




http://groups.google.com/group/digitalsource

DO AUTOR


Os grilos não cantam mais, contos — A marca, novela — A cidade vazia, crônicas de Nova York — A vida real, novelas — Lugares-comuns, dicionário — O encontro marcado, romance — O homem nu, contos e crônicas — A mulher do vizinho, crônicas — A companheira de viagem, contos e crônicas — A inglesa deslumbrada, crônicas — Gente, crônicas e reminiscências — Deixa o Alfredo falar!, crônicas e histórias — O encontro das águas, crônica sobre Manaus — O grande mentecapto, romance — A falta que ela me faz, contos e crônicas — O menino no espelho, romance — O gato sou eu, contos e crônicas — O tabuleiro de damas, esboço de autobiografia — De cabeça para baixo, relatos de viagem — A volta por cima, crônicas e histórias — Zélia, uma paixão, romance-biografia — Aqui estamos todos nus, novelas — A faca de dois gumes, novelas — Os melhores contos, seleção — As melhores histórias, seleção — As melhores crônicas, seleção — Com a graça de Deus, leitura fiel do Evangelho segundo o humor de Jesus — Macacos me mordam, conto em edição infantil, ilustrações de Apon — A chave do enigma, crônicas, histórias e casos mineiros — No fim dá certo, crônicas e histórias — O galo músico, contos e novelas — Cartas perto do coração, correspondência com Clarice Lispector — Livro aberto, páginas soltas ao longo do tempo — Cartas na mesa, aos três parceiros, meus amigos para sempre: Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos Cartas a um jovem escritor e suas respostas, correspondência com Mário de Andrade — Os movimentos simulados, romance (Editora Record).

A vitória da infância, crônicas e histórias — Martini seco, novela — O bom ladrão, novela — Os restos mortais, novela — A nudez da verdade, novela — O outro gume da faca, novela — Um corpo de mulher, novela — O homem feito, novela — Amor de Capitu, recriação literária — Cara ou Coroa?, seleção infanto-juvenil — Duas novelas de amor (Editora Ática).

Os caçadores de mentira, edição infanto-juvenil (Editora Rocco).

O pintor que pintou o sete, história infantil inspirada em quadros de Scliar (Editora Berlendis & Vertecchia).

Obra reunida (Editora Nova Aguilar).

Fernando Sabino

O

Encontro


Marcado

82ª EDIÇÃO




CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte

Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.


Sabino, Fernando, 1923-2004

S121e O encontro marcado / Fernando Sabino — 82ª ed.

82 edição — Rio de Janeiro: Record, 2006.

304p. 21cm

1. Romance brasileiro. I. Título.

75-0504 CDD — 869.93

CDU — 869.0(81)-31

As fotos do encarte pertencem ao arquivo da família.

Concepção do encarte: Eliana Sabino, Hugo Naidin e Leonora Teixeira Sabino

Projeto gráfico e execução do encarte: Rafael Nobre

Proibida a reprodução integral ou parcial em livro de qualquer espécie ou outra forma de publicação sem autorização expressa do autor.

Reservados todos os direitos de tradução e adaptação.

Copyright © 1956 by Fernando Sabino,

Rua Canning, 22, apt° 703, 22081-040,

Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
EDITORA RECORD LTDA.

Rua Argentina 171 — Rio de Janeiro, RJ — 20921-380 — Tel.: 2585-2000




Impresso no Brasil

ISBN 85-01-91200-X

PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL

Caixa Postal 23.052

Rio de Janeiro, RJ — 20922-970




Figura 1: 1956 — A primeira edição nas mãos do autor

RESENHAS PUBLICADAS A ÉPOCA DO LANÇAMENTO



o encontro marcado é um livro flagrante de mocidade e até mesmo de adolescência. Será o próprio romance do seu autor, na me­dida em que o romancista não pode fugir a se prolongar em suas per­sonagens. Mas é, igualmente, o drama de uma geração, de uma idade, de uma época social e daí lhe vem, igualmente, a importância que passa a ter na história de nossas letras.

Tristão de Athayde
Seu livro, tão duro, é muito bonito. O modo como às vezes um personagem sai de cena, com uma mudez, uma determinação. O ritmo todo do livro é muito bonito. E a história é “subjetiva” sem a pieguice do “subjetivo”. O livro todo parece filmado em luz de rua, sem maquillage. Por isso dá às vezes a impressão desconcertante de falta abso­luta de “literatura” — e então se sente que este é o modo até sofisticado (sofisticado como contrário de naive) de literatura. O estratagema é quase uma ausência de estratagema.

Clarice Lispector
Ele é uma crônica brilhante de cenas provincianas e citadinas. As cenas de boemia são definitivas em qualquer literatura. O livro todo, aliás, é uma coleção de trechos antológicos, com perdão da palavra.

Dalton Trevisan
O livro de Fernando Sabino é uma espécie de Educação Senti­mental, com características e peculiaridades do nosso tempo. Gostaria que o encontro marcado fosse percorrido por um sopro de poesia maior, mais amplo, mais úmido de lágrimas, sinal de salvação à vista. Mas Sabino não pode fazer diferente. O que prova ter sido fiel e autêntico. É por isso que reputo o encontro marcado um livro de muita significação.

Augusto Frederico Schmidt
Li o livro com atenção mantida e com proveito. Com interesse e com emoção. Apreciei a boa medida com que o mistério intervém. Sa­boreei as coincidências e os prenúncios que o autor teve a coragem de usar. E quando cheguei ao termo da leitura, achei-me querendo pro­longar a convivência, o contato, com a esquisita vontade de rezar pelos personagens, e com a vontade mais razoável de rezar pelo autor.

Gustavo Corção
DEPOIMENTOS COLHIDOS EM 2006

o encontro marcado marcou toda uma geração. Aliás, várias gerações. Minha geração foi tão influenciada que a gente imitava os personagens e repetia falas como: “Vamos puxar angústia! Vamos puxar angústia!”

Zuenir Ventura
Toda a minha geração está representada em o encontro marcado. Sempre que faço a barba repito “Menos uma!”, como o pai do Eduardo Marciano.

Carlos Heitor Cony






Figura 2: O autor de Com a

graça de Deus: leitura fiel

do evangelho segundo o

humor de jesus

Figura 3: Campeão sul-americano de nado de costas pelo Minas Tênis Clube de Belo Horizonte



Figura 4: Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos

e Otto Lara Rezende.


MENOS UMA

Imagina uma agulha, vinte agulhas

Novecentos e noventa e nove milhões

Dentro de um copo de uísque

Ou laranjada com gim

No monastério-botequim

O passional sem o crime

Nossa condicional sem fim

Nosso regime é assim,

a li­berdade que morre

E a nossa vida é um porre —

estudantadas, meu Pai!

A carne fraca, a preguiça...

A pressa!

Pra ir à missa

Ou trepar no viaduto

E colher a podridão que

amadurece antes do fruto.
Imagina uma folha, vinte letras

Mil escolhas

Puxa o ar e puxa angústia e

vai atrás dessa fagulha

E mergulha, e se afoga

Se apaga, se joga fora

Rasga todos os originais

Arranha o rosto

Afinal quem nunca teve um

dia nojo de si mesmo?


Sou precoce e sou um burro

Sou do tempo dos cavalos

Sou mais um, seguindoem frente

Suicida recorrente

Recortando num jornal a

própria foto legendada:

“Recordista do nado no nada”

Fui campeão

A piscina tá vazia

Mas não analisa não.


Gabriel O Pensador



Figura 5
LEITORES

Um dia eu tive coragem de deixar de ser eu para ser um pouco Eduardo Marciano — e foi decisivo: descobri que a gente vive mesmo para “puxar angústias” em Praças da Liberdade; vive para subir em via­dutos sem ter medo de cair; vive para escrever ou reinventar a própria história. Nunca o vi, nem o conheci pessoalmente. Mas não me impor­tava a distância física ou temporal entre nós, pois eu tinha certeza que ele, Fernando, estaria, desde então, ao meu lado, direto da tranqüila Rua Canning, 22, certo de que mudara para sempre o meu destino.



Caio Tozzi
Minha vida literária se divide em antes e depois de o encontro marcado. A partir daí o amor cresceu, os dias ganharam nova perspectiva e, aos poucos, o(s) encontro(s) foram se realizando de tal maneira que, muito mais do que apenas um livro, o encontro marcado se tornou um insight. E então Fernando Sabino se tor­nou parte de mim, assim como sua obra. Tal genialidade marcou meus dias com brisas (ou vendavais) de sabedoria, e por isso tão merecida é a comemoração de 50 anos de o encontro marcado. Parabéns, Sabino!

Prussiana Fernandes
Quando o encontro marcado foi lançado em 1956, eu ainda não tinha nascido. Vinte anos depois, ainda criança, ganhei o livro au­tografado pelo autor e, quando o li, me dei conta de minha existência. Fernando estava lá nesse dia e continua aqui, hoje. Seja nessas linhas que reluto em escrever, seja porque me ensinou a ser imortal, indepen­dente de Academias, seja porque me disse que é a Literatura quem nos eleva à condição sossegada da imortalidade; seja porque, bem cedo, tornou-se imortal para mim. Por tudo isso, desse Encontro ninguém sai ileso: fica-se Marcado para sempre pela magia e pela genialidade simples de Sabino. E viva Fernando!!!

Lia Falcão
Eu tinha 19 anos quando li o encontro marcado pela primeira vez. Quatro anos atrás, portanto. Eu me senti o próprio Eduardo Mar­ciano. Foi uma época decisiva de minha vida. Era a época de fazer al­gumas escolhas que poderiam determinar o resto dela. Ao menos era o que eu pensava. Mas depois de ler o romance, o que ficou foi a lição de que é sempre tempo de recomeçar. (Essas palavras nem de longe resumem o quanto o encontro marcado me afetou. É um livro que tenho lido ao menos uma vez por ano, desde que o li pela primeira vez. É uma fonte inesgotável de energia. É o maior romance de nossa literatura, em minha opinião.)

Rafael Rodrigues



Figura 6

OS FILHOS



o encontro marcado é a vida do meu pai transfigurada naquilo que ele chamava “a verdade que existe atrás da realidade”. Embora, na realidade que encobre a verdade, eu faça parte da família, não me senti identificada com esse aspecto da vida do protagonista. Identifiquei-me, sim, totalmente, com a angústia existencial de Eduardo Marciano, sua perplexidade diante da grandeza de tudo e a sensação de não con­seguir fazer, sequer reconhecer, o papel que lhe cabia na vida. Nele eu encontrei o que há de transcendental em mim — não só eu, mas tam­bém muita gente da minha geração, da geração antes da minha e das que vieram depois. A diferença é que o encontro dos outros leitores foi com Eduardo Marciano e o meu foi com meu pai: um privilégio que me esforço para merecer.

Eliana Sabino
Só aos vinte anos fui liberada por meu pai para ler o encontro marcado. Ávida, levei poucas horas da noite devorando as pá­ginas em busca das passagens picantes e proibidas na minha imaginação. Ao terminar, tive aquela sensação de : “É só isso? Acho que não entendi...”

E não entendi mesmo, como constatei vinte anos depois ao reler o livro, que foi então o verdadeiro encontro com meu pai. Nele conheci suas angústias e alegrias, seus medos e indagações, seus amores e seus sonhos. Conheci o sentido de amizade e companheirismo e percebi seu amor e carinho ao me proteger de interpretações equivocadas em relação a personagens e situações. Este amor e atenção me acompa­nharam pela vida, às vezes de longe, mas nunca ausentes.



Leonora Sabino Teixeira
Ler o encontro marcado me permitiu um conhecimento verdadeiro de duas realidades que no decorrer do tempo se mostraram interligadas. A primeira, a trajetória de vida do personagem Eduardo Marciano, alter ego de meu pai, com seus sentimentos, angústias e contradições. E a segunda, a minha própria realidade, tão calcada em seus exemplos.

Pedro Sabino
Desde pequena me perguntam como é ser filha de Fernando Sabino. O fato é que ser filha de alguém especial como meu pai sempre me fez sentir especial também. Agora, com as comemorações dos 50 anos de o encontro marcado, revejo o romance que li aos 15 anos de idade, em plena adolescência. Emocionante. E a pergunta me vem à cabeça novamente: como é ser filha de Fernando Sabino?

Um privilégio, um privilégio...



Verônica Sabino
Quando eu tinha em torno de sete anos, papai sentava-se comigo ao colo na cadeira de balanço e me contava histórias da sua infância e adolescência. Ao ler o encontro marcado pela primeira vez, per­cebi que Eduardo Marciano era ele, meu pai, e, já conhecendo muitas passagens do livro, tive a sensação de fazer parte delas — como se eu as tivesse vivido também.

Bernardo Sabino
Quando eu tinha 16 anos fui conversar com meu pai sobre algu­mas inquietações diante da vida. Ele me disse que eram angústias nor­mais da idade e que para tanto não havia remédio senão o tempo, mas sugeriu que eu lesse o encontro marcado, pois já estava “pronta” para compreender a sua mensagem. Foi um encontro emocionante com meu pai. Estavam ali a sua trajetória, a busca constante, os dile­mas e coragem de sempre seguir adiante. E cada vez que releio o livro novos encontros se realizam em meu coração.

Mariana Sabino
Este encarte é uma homenagem dos filhos de Fernando Sabino ao grande escritor que comoveu, consolou e divertiu tantas pessoas; ao ho­mem generoso e íntegro; e ao pai de quem nos lembramos com orgulho e gratidão.

Eliana, Leonora, Pedro, Virgínia (In memoriam),

Verônica, Bernardo e Mariana.



Figura 7: Natal de 2001 — Fernando Sabino com os filhos



Figura 8


Figura 9: Fernando Sabino aos 14 anos, já escritor.
Não aceitei a imposição de um caminho

que não era o meu, e procuro olhar tudo

como se fosse a primeira vez.”



Figura 10: Aos 11 anos, indo para a

escola. Nessa idade, Fernando Sabino publicou seu primeiro conto.


Nunca levei nada na brincadeira, nem mesmo a brincadeira. Nem quando criança.”



Figura 11: Escoteiro dos 9 aos 14 anos.
Passei seis anos da minha vida com um lenço enrolado no pescoço, flor-de-lis na lapela e pureza no coração, para descobrir que não passava de um candidato à solidão. Alguma coisa ficou, é verdade: a certeza de que posso a qualquer momento arrumar a minha mochila, encher de água o meu cantil e partir. Afinal de contas aprendi mesmo a seguir uma trilha, a estar sempre alerta, a ser sozinho, fui escoteiro.”



Figura 12: A outra vocação do escritor.

Se hoje tivesse que trocar de vocação, escolheria outra que curto mais, que é a música de jazz, com toda a espontaneidade da alegria de criar coletivamente.”






Figura 13: Fernando Sabino com Érico Veríssimo e sua esposa Mafalda, durante as filmagens de Um contador de histórias.
Concebi esses filmes com muito carinho e com uma visão a um tempo cinematográfica e literária, que pudesse interessar também a quem não conhece a sua obra. Quase todos têm como texto a própria fala do escritor. (...) Procurei apresentar cada um de maneira inédita para o seu público.”


Figura 14: Foto oficial do lançamento da Editora Sabiá, em 1966. Na casa de Rubem Braga (sentado, à esquerda), amigo e sócio, Fernando Sabino (à direita), com alguns dos seus editados: Paulo Mendes Campos e Sérgio Porto (de pé), José Carlos Oliveira (ao centro) e Vinicius de Moraes (sentado).



Figura 15: Os mesmos, vistos por Lan.
De tudo ficaram três coisas:

a certeza de que ele estava sempre começando,

a certeza de que era preciso continuar

e a certeza de que seria interrompido

antes de terminar.”



Figura 16
Nestes 50 anos, O encontro marcado teve 82 edições e vendeu mais de um milhão de exemplares. Foi publicado em Portugal, na Inglaterra, Alemanha, Holanda e Espanha.

INDICE


primeira parte

A PROCURA

I — O Ponto de Partida 28

II — A Geração Espontânea 76

III — O Escolhido 130

segunda parte

O ENCONTRO

I — Os Movimentos Simulados 202

II — O Afogado 255

III — A Viagem 306


citações e referências 372

O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conse­guirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contem­plá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O co­meço da sabedoria consiste em perceber que te­mos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz da­quele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do pos­sível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome.”

(De uma carta de Hélio Pellegrino.)

PRIMEIRA PARTE

A PROCURA

I — O PONTO DE PARTIDA

A casa tinha três quartos, duas salas, banheiro, copa, cozinha, quarto de empregada, porão, varanda e quintal.

Que significava o quintal para Eduardo?

Significava chão remexido com pauzinho, caco de vidro desenterrado, de onde teria vindo? minhoca partida em duas ainda mexendo, a existência sempre possível de um tesouro, poças d’água barrenta na época das chuvas, barquinho de papel, uma formiga dentro, a fila de formigas que ele seguia para ver onde elas iam. Iam ao formigueiro. Um pé de manga-sapatinho, pé de manga-coração-de-boi. Fruta-de-conde, goia­ba, gabiroba. Galinheiro. A galinha branca era sua, atendia pelo nome:

— Eduarda!

Ela se abaixava, deixava-se pegar. Às vezes punha um ovo. Quando Eduardo ia para o Grupo, deixava-a debaixo da bacia. Um dia o pai lhe disse que aquilo era maldade: gostaria que fizessem o mesmo com você? As galinhas também sofrem. Um domingo encontrou Eduarda na mesa do almoço, pernas para o ar, assada. Eduarda foi comida entre lágrimas. É, sofrem, mas todo mundo come e ainda acha bom.

Desgostou-se, jurou nunca mais ter galinha na sua vida.

O porão — trastes e móveis velhos, objetos de outro tempo, uma máquina de fazer sorvete que nunca funcionou, livros roídos de traça. A arca cheia de mistérios que mãos de criança violavam. Esconderijo de bandidos. Caverna de piratas. Al­mas penadas durante a noite. De repente um escorpião de­baixo do tijolo.

A varanda. De noite, o pai e a mãe, sentados nas cadeiras de vime, depois de jantar, conversando. Que conversavam? Eduardo chegava, mudavam de assunto. Um dia se esgueirou de mansinho até bem perto, para ouvir. Conversavam sobre ele, Eduardo! Então já era assunto de gente grande.

— Também não é tanto assim — dizia seu Marciano.

— Não sei — dizia dona Estefânia: — Às vezes fico pen­sando em levá-lo a um médico.

— Por quê? O menino não é doente nem nada.

— Muito nervoso. Fico impressionada.

— Luxos.

Luxos? Eduardo não via luxo nenhum. Era uma coisa den­tro de casa, como outra qualquer: menino acaba tendo de ir para a cama, galinha acaba sendo comida no almoço.

— Rabatacha niquenique babarucha! — saltou ele, caindo no colo do pai. Ambos se assustaram:

— Que é isso, menino? Coisa feia, escutando conversa dos outros. Não faça mais isso.

— Babarucha! — repetiu.

— Que bobagem é essa?

— É turco.

— Quem te ensinou?

— Miguel, lá no Grupo. Quer dizer nome feio.

E riu. Os pais riram também. Qual, não havia jeito. Filho único era assim mesmo.

— Aprendeu a ler sozinho.

— Já sabe uma porção de coisas,

— Ontem me perguntou o que quer dizer meretriz!

— Leu no jornal.

— Precisamos tomar cuidado.

— Faz um discurso aí, Eduardo.

Inflamado, o menino soltava a língua horas seguidas. Quando era levado para a cama, ainda estava falando sem parar: vermelho, suado, alinhando palavras sem sentido. A mãe achava graça, seu Marciano ficava apreensivo:

— Você mesma é culpada. Ainda incentiva.

— Tão inteligente que ele é — dona Estefânia sacudia a cabeça.

Seu Marciano punha o paletó, pegava a bengala e saía.

Floripes era a ama. Dava banho em Eduardo, vestia-lhe o uniforme do Grupo. Um dia Eduardo gritou-lhe de dentro da banheira:

— Floripes! Tem um osso no meu pipiu!

Desse dia em diante a preta decidiu que ele já podia tomar banho sozinho. Quase sete anos.

— Não quero. Quero você.

— Está na hora de ir para o Grupo.

— Hoje eu não vou.

— Vai.

— Não vou.



Era agarrado à força, carregado ao colo. Esperneava:

— Você mesma disse que não me carregava mais. Que eu já sou homem. Não preciso de mulher para nada.

E arranhava o rosto da ama, desgrenhava-lhe os cabelos. Era largado no chão, chorando, Floripes ia cuidar da vida. Ficava estudando a simetria dos ladrilhos do banheiro, preto e branco, preto e branco, o pai chegava para fazer a barba. Recomeçava a chorar.

— Por que está chorando, menino?

— Porque já sou homem, não quero que ninguém me mande.

— Homem não chora.

— Eu choro.

E punha a boca no mundo. O pai não se importava, começava a rir. Em protesto, Eduardo se despia, ficava nu, saía correndo pela casa. O pai apanhava a kodak, fingia que ia tirar uma fotografia.

— Vou mostrar a todo mundo, você pelado dessa maneira.

Ele corria as unhas pelo rosto, arranhava-se até sangrar.

— Tira o retrato agora, tira.

Seu Marciano estacava, impressionado. A mãe acorrendo, aflita:

— Não disse? Ê levá-lo a um médico. Onde já se viu isso, Nossa Senhora. Machucar assim dessa maneira.

Não foi ao Grupo, ficou em casa, fez o que bem quis.

Então quando não lhe faziam a vontade, era assim: abria a boca e arranhava o rosto até tirar sangue. Aquilo não podia continuar! Um dia seu Marciano perdeu a paciência, deu-lhe umas correadas. Depois foi sentar-se na varanda, ofegante, aniquilado. Nunca tinha feito aquilo, seu próprio filho! Não adiantou: Eduardo arranhou-se mais ainda e, não satisfeito, apanhou a lâmina de barbear do pai:

— Vou cortar os pulsos.

— Não corta! Me dá isso.

— Estou desiludido da vida.

— Meu Deus! Esse menino anda lendo jornal.

Seu Marciano passou a guardar as lâminas em lugar seguro. Mas o menino sempre arranhando o rosto. Dona Estefânia era mais prática: mandou a Adelaide costureira fazer uns sa­quinhos de pano, com cordão. Era só o menino começar e lhe metiam à força os saquinhos nas mãos, atados pelo pulso. Arranhe agora, se você puder! Ele não podia, ficava olhando espantado, nem chorava mais. Um dia saiu correndo e deu com a cabeça na parede. Um galo surgiu na sua testa, a mãe veio com a faca, encostou o frio do aço na cabeça do menino.

— Esse menino, Deus meu.

Os saquinhos foram abolidos. Eduardo já não se arranhava mais, bastava ameaçar.

— Faço uma camisa de força para ele — dizia a Adelaide costureira: — Uma boa surra dava jeito nisso.

Eduardo se vingava: a costureira costurando na máquina de costura sentada na ponta da cadeira, ele passava e com o pé puxava o pé da cadeira. Adelaide se estatelava no chão, com um grito de susto:

— Ai, meu santo!

E arrebanhava as suas coisas, a fita métrica, fechava a máquina, ia embora.

— Não volto mais aqui.

Eduardo imperando dentro de casa, ditando normas: hoje eu vou ao Grupo! ele dizia! e a mãe sorria satisfeita: a pro­fessora já havia reclamado. Ah, é? Pois então pão vou.

— Sei escrever melhor do que ela.

Tudo era pretexto: Maria fritou um ovo para mim, não saiu redondo como eu gosto: não vou. Mamãe chamou minha merendeira de latinha: não vou. Quéde meu Caderno? Quéde minha borracha? Tem ladrão nesta casa.

Seu Marciano pensava em quê? Seu Marciano fazendo a barba, o menino sentado no chão, olhando, depois de uma cena: o menino não queria comer, Floripes queria que o me­nino comesse à força, o menino mordeu a mão de Floripes. Depois veio a mãe:

— Se você não comer, fica de castigo.

— Toma aqui, castigo.

E o menino fez um gesto. Onde aprendeu isso, menino! Que coisa feia! Não sabe que isso é uma coisa muito feia? Não, o menino não sabia, vira apenas os outros meninos faze­rem, estava sabendo agora. Pois então, toma! Outro gesto. Uma palmada. O menino foi chorar no banheiro. O pai, a barba. Choro manso, o pai pouco está se incomodando. A bacia com água morna; o pincel, o sabão cuidadosamente espalhado na face; o aparelho abrindo estradas caprichosas na espuma. Por que ele insistia tanto em repassar a pele exatamente onde não tinha mais espuma? Por que fazia pri­meiro para baixo e depois para cima? Por que tanta careta? Por que a espuma? Choro esquecido, o menino ficava olhando:

— Se o senhor não fizer todo dia, quanto tempo leva para chegar até aqui?

O pai não responde: passa a mão no rosto escanhoado, suspira e comenta: “Uma de menos”. Um dia Eduardo se verá no espelho fazendo a barba e vai se lembrar disso. O pai estará morto. Seu Marciano morto! Não, seu Marciano ainda não parece que vai morrer. Está vivo, se preocupa:

— Estefânia, esse menino. Você sabe aquela coisa de nique-nique babarucha que ele vive falando? Sabe que é turco mes­mo, e quer dizer nome feio?

— Quer dizer o quê?

— Quer dizer o nome da mãe. Nassif me contou.

Nassif é um turco de armazém. Amigo de seu Marciano.

— Eduardo é um portento. A professora dele me chamou lá, disse que é para a gente tomar cuidado com ele. É um portento!

Eduardo ri, sai correndo para a cozinha:

— Maria! Eu sou um portento!

E saracoteia ao redor da cozinheira, levanta-lhe a saia. A cozinheira não acha graça:

— Sai pra lá, coisa ruim.

Eduardo se crispa de raiva:

— Maria peituda! Maria peituda!

Depois vai para o quarto, vê o uniforme preparado sobre a cama, resolve vesti-lo sem tomar banho.

— Sabem de uma coisa? — e experimenta mostrar os den­tes no espelho: — Hoje eu estou com vontade de ir ao Grupo.

O grupo era dona Amélia, a professora. A mulher mais bonita do mundo.

— Dona Amélia, eu quero casar com a senhora.

Declaração a sério, longamente preparada. Na hora do recreio, todos lá fora brincando, dona Amélia sozinha na sala de aula.

— Comigo? — disse ela rindo: — Você podia ser meu filho.

— A senhora não é virgem?

Dona Amélia não resistiu, pôs Eduardo no colo. Que me­nino, meu Deus. Eduardo relutou, quis descer: homem não sentava no colo de ninguém. Ficou excitado com o cheiro de dona Amélia. Milton vinha entrando e viu:

— Dona Amélia beijando Eduardo lá na sala, na hora do recreio! Eu vi.

Malícia, aprendizado, primeiros desejos:

— Passei a mão nas coxas dela.

As coxas de dona Amélia. Vinha dar a lição, de carteira em carteira, apoiava o joelho no assento, encostava a perna no menino. Quando se inclinava para apanhar o lápis no chão todos olhavam para a linha da calça em V, sob o vestido fino. No recreio as conversas fervilhavam.

— Abriu as pernas.

— Ela tem noivo.

— Será que ele enfia nela?

Milton, mais alto, vesgo, sabido, egresso de outras escolas, já tinha penugem no sexo, mostrava para todo mundo:

— Cuidado, gente, olha o Eduardo: ele é inocente.

Ofendia-se: inocente uma ova! Já sabia tudo. Só não podia ainda admitir que sua mãe fizesse aquilo com seu pai.

— Eduardo, filho de uma pu...

— Cachorro! Eu te...

— ... ríssima donzela.

Risos. Eduardo reagia, caindo sobre o engraçado aos socos. Logo se organizava a hierarquia das brigas:

— Milton ganha do Miguel. Miguel ganha do Paulista. Paulista ganha do Tartaruga. Tartaruga vai brigar com Eduardo! depois da aula.

Depois da aula saíam em bando. Vai haver briga hoje! Tartaruga com Eduardo. Corria a palavra de ordem, todos a postos! Iam seguindo pela rua. Aonde? Não, aqui está muito perto. Mais para lá. Eduardo insistia em afastar-se mais. Está com medo? perguntava o Tartaruga. Medo, eu? e ia descendo a rua, seguido pelo resto. Ao fim de alguns quarteirões o entusiasmo ia passando: vamos voltar, pessoal, eles não vão brigar nem nada. Tartaruga também desistia, dando as costas ao adversário. Covarde! sabia que apanhava. Eduardo sabia. Levaria o Tartaruga até o fim do mundo, se fosse preciso, mas não brigava assim à toa.

— Não brigou.

— Maricas!

Isso também era demais: o tapa estalou na cara do Milton, inesperadamente. E a briga foi ali mesmo, no pátio do recreio. Milton, com quem ninguém podia! Eduardo chegou em casa de olho roxo.

— Fui suspenso.

Suspenso, o Eduardo? Batiam no seu filho, deixavam o olho dele daquele jeito, e ainda era suspenso? Dona Estefânia foi reclamar da diretora, dona Salomé. Dona Salomé ouviu calada.

— Ele disse que não volta mais — queixava-se dona Estefânia, chorosa.

— ... se não foi ele que provocou — ponderou a diretora.

No dia seguinte Eduardo se apresentava no gabinete:

— Só volto se ele me pedir perdão. Me chamou de maricas.

— Milton, pede perdão a ele.

— Não peço.

— Pede

— Não peço.



— Você vai ser expulso. Chamo seu pai aqui.

Milton só temia o pai, um chofer de caminhão. Um dia foi chamado ao Grupo (Milton escrevera imoralidade na pa­rede) e desceu o braço no filho, na vista de todo mundo. Milton temia o pai.

— Assim não, pede direito,

— Perdão — resmungou ele, de cara amarrada.

— Pede direito, menino. Dá a mão ao seu colega, façam as pazes.

— Perdão. Que merda também!

Milton foi suspenso uma semana. Quando voltou, disse que Eduardo ia aprender. Mauro interveio:

— Covarde: bate em mim se você é homem.

Milton desbancado, Mauro passou a imperar — amigo de Eduardo.

Um dia Milton propôs:

— Vamos beijar a Valderês?

Valderês era uma das gêmeas — Valderês e Maria Inês — iguaizinhas, a diferença estava na fita verde ao. redor da cabeça. A de uma, qual? era um pouco esgarçada.

— Lá na sala, na hora do recreio. Ela sempre sai atrasada.

Arranjou dois cúmplices e lá se foram os três. Eduardo foi atrás para espiar. A menina estava distraída, arrumando as suas coisas. De repente deu um grito: segura pelos dois braços. Milton chegou calmamente e beijou. Na boca. Eduardo espia­va. Os outros beijaram também, ela gritava. Eduardo não bei­jou, nem chegou perto. Na mesma tarde, a professora ordenou:

— Milton, Tobias, Miguel, Eduardo: apresentem-se ao gabinete.

— Eu também?

No gabinete dona Salomé indignada, enquanto Valderês, toda trêmula, apontava chorando:

— Foram eles. Me agarraram à força, me beijaram.

— Fizeram mais coisas, minha filha? — dona Salomé perguntou ainda,

— Fizeram. Milton fez. Os outros só beijaram.

Eduardo não protestou. Milton foi expulso no mesmo dia, os outros três suspensos. Por quê? pensava ele, a caminho de casa. Não beijei ninguém. Só espiei. Resolveu voltar, ficou na porta do Grupo esperando. Escondido atrás de uma árvore. Saíram todos, saíram as meninas pelo portão das meninas. Saiu Lêda — Lêda, a mais bela. A melhor da classe. E saiu Valderês com a irmã. Eduardo se aproximou:

— Valderês, fui suspenso por sua causa. Mentira sua, eu não te beijei nem nada.

— Beijou.

— Não beijei. Não fiz nada, só fiquei olhando.

— Por que você não falou?

— Porque eu devia ter beijado. Agora eu quero meu beijo.

— Você está doido? Eu conto para dona Salomé.

— Pode contar. Já fui suspenso.

— Sua alma, sua palma.

— Valderês — segurou-lhe o braço com raiva — me dá um beijo.

— Você está doido? — repetiu ela: — aqui na rua!

— Aqui na rua. Naquele cantinho ali.

Encostou-a no muro, meio à força, e ela deixava. Então tentou beijá-la.

— Na boca.

— Na boca, não,

— Na boca, sim.

Beijou-a na boca, desajeitadamente, depois lambeu os lábios para ver que gosto tinha: gosto de cuspe. A menina baixou os olhos:

— Agora somos namorados — sussurrou.

— Não: eu quero que você me faz um favor, você faz?

— Faço.


— Quero namorar primeiro a Lêda. Pergunta a ela se ela quer me namorar.

— Estou de mal com você para toda a vida — e a menina saiu correndo.

Ficaram de mal para toda a vida.

Lêda. Estavam namorando? Ele não saberia dizer: emprestou-lhe um livro chamado “Travessuras de Juca e Chico”. Muito engraçado. Lêda leu, achou muito engraçado, devolveu com uma manchinha de manteiga.

— Desculpe.

— Não tem importância, é para manchar mesmo.

— Por que você não põe uma capa? Eu encapo todos os meus livros.

— Eu não.

— Pois eu sim. Sou a primeira das meninas. Você não é nem o quinto ou sexto dos meninos.

Ser o primeiro. Ficava em casa estudando, fazendo exer­cício. Dona Estefânia, estranhando, maravilhada:

— Não sei o que deu nesse menino. Agora é isso toda noite. Eu não dizia? Eu não dizia?

— Dizia o quê, mulher? — resmungava seu Marciano.

— Que ele endireitava? Verdadeiro milagre.

Milagre de amor. Amava Lêda, mas não ousava sequer pensar em beijá-la. Beijo não era bom assim feito diziam. Amando em silêncio. Às vezes se declarava:

— Lêda, eu gosto muito da sua letra.

— Lêda, eu gosto muito do seu estojo.

— Lêda, eu gosto muito.

De noite, dormia abraçado com ela, era bem melhor. Lêda cariciosa, Lêda travesseiro. Iniciava-se naquilo que iria ser, vida afora, o motivo de suas horas mais alegres e mais mise­ráveis: imaginava tudo — passeios, conversas, piqueniques, banho na piscina. Um dia salvou-a de morrer afogada. Lêda tinha piscina em casa. Lêda era toda queimada de sol, devia ser branquinha debaixo do vestido — imaginava tudo. Um dia imaginou um presépio.

— Papai, quero fazer um presépio.

Era Natal. O pai ajudou Eduardo a fazer o presépio — seu Marciano mesmo ajeitou o papel fingindo de montanha, serrou madeira, colocou o espelho, fingindo de lago, com dois patinhos de celulóide, trouxe da cidade as figuras. Eduardo compareceu com dois soldadinhos de chumbo, espingarda ao ombro, para montar guarda à manjedoura. Mas a finalidade última — chamar Lêda para vir ver — não foi atingida. O menino não teve coragem, e foi melhor assim. Na casa dela havia de ter um presépio muito mais bonito. E achava a sua casa velha demais para ela: tinha um vidro partido na janela da sala, a pintura do lado de fora descascando — a sala de jantar mesmo era antiquada, móveis velhos e gastos — era preciso reformar os móveis, reformar a casa e reformar o mundo, para merecer a presença de Lêda. Foi melhor assim.

— Este menino é mesmo esquisito — convenceu-se seu Marciano. — Convém a gente nunca discutir com ele. Não vê que ele estava dizendo que ainda ontem, no Grupo...

Último ano, último dia do ano: Lêda é a primeira entre as meninas, Eduardo é o primeiro entre os meninos. Por desfastio, já não queria impressioná-la assim:

— Juro que não queria ser o primeiro.

— O que é que você queria?

Não sabia o que queria, e vida afora se faria cada vez mais infeliz, agindo como se soubesse. Naquele dia, por exem­plo; houve a manifestação promovida pela diretora, Lêda iria ganhar uma medalha de ouro por ter sido a primeira da classe. Os meninos protestaram:

— Não faço manifestação.

— Para um pedaço de latão.

Eduardo uniu-se a eles, impensadamente, rompendo com sua deusa. Ganhou também uma medalhinha, mas não ligou: preferiu a gritaria. Lêda, desde esse dia nunca mais viu, ficou por isso mesmo.

Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se trans­forma.

— Um corpo mergulhado num líquido recebe um impulso de baixo para cima igual ao peso do volume do líquido des­locado.

— Não é fluido, não?

— Não: é líquido. Líquido e fluido é a mesma coisa.

— Olha o bobo. Líquido e fluido a mesma coisa?

Discutiam:

— Manteiga é sólido, líquido ou gasoso?

— Então me diga quem foi Laplace.

— Laplace foi o da banheira.

— Da banheira foi Arquimedes, seu.

— E o da maçã?

— Da maçã foi Newton.

— Então quem foi Laplace? Diga você.

— Foi o da gota de azeite.

Hemisférios de Magdeburgo, dois cavalos puxando não conseguiam separar. Conjuga o verbo pelocupar no condicional. Ilhas do Japão: Sakalina, Yeso, Nipon, Sikok, Kiusiu, Fujika e Mozaka. Fujika Mozaka era a japonesinha da turma B, jogava vôlei, não era ilha do Japão. Anos mais tarde seria assassinada pelo marido em Lafaiete: Mauro e Eduardo, já homens, veriam o retrato no jornal, se lembrariam. Agora ainda são meninos, estão voltando do Ginásio.

— Mauro, nós somos sábios pra burro. Se Platão ressuscitasse, sabia muito menos coisas que a gente, havia de ficar besta.

— Ele não sabia que a terra é redonda, uai.

Provas da redondeza da terra: um navio se afastando pelo mar, o mastro sumia por último. Tomemos por exemplo uma laranja. O Golfo de Biscaia onde fica? La maison du voisin est vaste et commode. Sujeito, predicado e complemento, H2O. Leônidas nas Termópilas, melhor! combateremos à sombra. Que é anacoluto? É a soma do quadrado dos catetos. Qui quae quod, o sertanejo é antes de tudo um forte. Mauro, heróico, trepado no muro do pátio:

— “Aí vem o general Valdez bloquear a cidade de Leide! Aí vem a guerra mais desumana, mais carniceira e mais da­ninha de que há memória nos séculos dos séculos!”

E dali de cima cuspiu no Macedônia (Alexandre Macedo), que era menor, não podia com ele. Eduardo tomou as dores do Macedônia. Rolaram na poeira, engalfinhados, trocaram sopapos e pescoções, durante meia hora. Afinal o Macedônia, que era o juiz, decidiu que a briga terminava empatada, por estar na hora de ir para casa. Suados e sujos, uniformes em frangalhos, foram para casa, pela mesma rua, guardando res­sentida distância um do outro, como se não se conhecessem. Antes de chegarem, porém, o inesperado: instintivamente se aproximaram, e, de súbito, sem uma palavra, abraçaram-se em silêncio. Depois, sentados no meio-fio, sem dizer nada, começaram a chorar. Um dia, depois de anos e anos de convivência diária, se lembrariam daquele momento, e não saberiam sequer que fim levara o Macedônia.

Jadir morava na casa dos fundos. Com ele Eduardo jogava pião, bola de gude, empinava papagaios. Esse Jadir não era boa coisa — a mãe dizia. Não convinha ficar andando com ele. O pai dele bebe. A mãe vive por aí. Pois o que dona Estefânia não via que não convinha era andar com Afonso. Afonso era mais velho, usava calça comprida e, ainda assim, brincava com os meninos do Grupo, menores do que ele. Jadir também era mais velho, mas só na idade, e, com Afonso, era diferente.

Foi ainda no tempo do Grupo: brincavam de esconder, Eduardo foi se esconder debaixo da escada da cozinha. Jadir era o pegador — ali não o descobriria, havia uns caixotes — Afonso já se escondera atrás dos caixotes.

— Eduardo, vem cá, vem. Aqui ele não pode te ver.

Ficaram juntos, e Afonso quis abusar dele. Cedeu até certo ponto, depois não deixou mais: não sabia nada, mas era qual­quer coisa de repulsivo.

— Deixa — sussurrava o outro.

— Não. Depois.

Afonso passou a persegui-lo. Toda hora aparecia em sua casa. Eduardo relutava, inventava pretextos — e, enquanto isso, ia aprendendo no Grupo as coisas da vida. A primeira que aprendeu foi que era uma vergonha fazer aquilo. Digno do maior desprezo, da zombaria dos colegas. Silvinho era. Viviam bulindo com ele, não deixavam o pobre em paz. De­licado, todo cheio de coisas. Eduardo era delicado, mas não era cheio de coisas.

— Não deixo, já disse.

— Se você não deixar, eu conto.

— Conta o quê?

— O que você já deixou.

Escondia-se atrás do armário, Afonso procurando-o por toda a casa. A mãe o denunciava:

— Eduardo, Afonso está aí, veio te visitar, você se escondendo dessa maneira.

— Não gosto dele.

— Por quê, meu filho? Tão bom, tão educado que ele é. Em vez disso, esse Jadir...

— Jadir é meu amigo. Afonso não é.

— Mas por quê, meu filho?

— Porque não sou fresco.

Dona Estefânia não entendeu bem, contou a seu Marciano. Seu Marciano, por via das dúvidas, cortou aquelas visitas do Afonso — muito grande para ficar andando com nosso filho. Dona Estefânia não entendeu bem.

Afonso fizera alguma coisa com ele? Não fizera? O pró­prio Eduardo não entendia bem. Trancado no banheiro, exci­tava-se à idéia do que meninos como Afonso podiam fazer.

As coisas da vida eram tristes: pecados, miséria, doenças, mulheres da vida. Um dia, alguém surgiu no Ginásio com um recorte de jornal que correu de mão em mão: todos riam, maliciosos, passavam o anúncio para frente: anúncio de remédio contra uma doença. O que vinha a ser aquela doença, Eduardo não sabia: imaginava. Zé Gomes apareceu arrastando a perna no corredor do Ginásio, mas se perguntavam o que Zé Gomes tinha, ninguém respondia, limitavam-se a sorrir, e a se cutucar, apontando: lá vai ele. Foi na empregada. Eduardo também sorria, mas não entendia bem: que teria Zé Gomes?

— Zé Gomes, o que é que você tem? — perguntou um dia.

— Você é muito criança para saber essas coisas.

— Criança nada, tenho onze anos: foi na empregada, não foi?

Zé Gomes sorria, superior, e se afastava, capengando. Todos acabavam pegando, mais dia, menos dia. Era o que diziam. Eduardo afetava naturalidade, mas ficou impressionado. Lembrou-se do anúncio: Zé Gomes estaria usando aquele remédio? Por causa de um anúncio desses apavorou-se, certa vez, pen­sando estar com catarro na bexiga.

— Mauro, me aconteceu uma coisa horrível — confessou ao amigo: — Estou com catarro na bexiga.

Mauro riu. Sabia mais do que ele:

— Você está virando homem. Só isso. Olha aqui, já tenho pedra na maminha.

Aprendia uma porção de coisas: puberdade, masturbação. Vou masturbar-me — disse para si mesmo, compenetrado, no dia que aprendeu essa palavra, e trancou-se no banheiro. An­dava bem vestido, terninhos elegantes que a mãe comprava na casa Guanabara, meia três-quartos, sapatos de duas cores. Um retrato de Ronald Colman na “Cena Muda”, de sobretudo com gola de veludo, cachecol, cartola e bengala era ser ho­mem: passou a usar o cachecol do pai — seu Marciano não se importava. Ia passear na Praça, lançava olhares para as meninas. Onze anos? Algumas tinham treze e eram belas, eram mulheres. Namorar era sair do footing, e ir passear do outro lado, sozinho com a menina, sentar-se com ela na matinê do cinema. Quando segurasse na mão, estava ganha a batalha, vinha contar para os outros; já estou segurando na mão.

Mariinha, irmã de Jadir — o pai bebia, a mãe vivia por aí, não era companhia para ele. Com Mariinha, dona Estefânia podia ser que tivesse razão. Dentro da garagem, dentro do carro do pai dela, que vivia bêbado:

— Mariinha, deixa pôr em você.

— Eu tenho medo, Eduardo.

— Então segura.

Conheceu Letícia num passeio de bicicleta. Marcou encon­tro para de noite. Letícia foi. Perto da casa dela, que era perto da Rádio Emissora. Passou a encontrar-se toda noite com ela — dizia, em casa, que ia à Rádio Emissora.

— O que é que esse menino tanto faz na Rádio Emissora? — inquietava-se a mãe. Em vez de estudar, toda noite...

Acabou indo mesmo à Rádio, em companhia de Letícia, para assistir aos programas. Depois, saía com ela de mãos dadas — beijo, não, ela não deixava, ele não insistia. Letícia era diferente, Eduardo amava Letícia.

— Eu te amo para o resto da vida.

— Eu também.

— Então escreve isso aqui, na minha caderneta.

Letícia escrevia: “eu te amo...

— Eternamente.

— ... eternamente para o resto da minha vida”.

— Agora assina.

Letícia assinou.

— Olha minha mãe na janela.

Eduardo tinha medo, queria fugir. Mas a mãe de Letícia acenava para eles.

— Não tenha medo.

A mãe de Letícia era diferente, falava umas coisas engraçadas, deixava que a filha namorasse. Eduardo fazia planos para o futuro.

— Quando eu crescer, vou ser artista.

— Artista de quê?

— Não sei: artista.

No Ginásio, o professor de português dizia que ele era o melhor em português.

— Você tem jeito para redação.

Começou a escrever contos policiais, mostrava ao professor. Passara-se para os romances policiais: gostava de Malpas, o assassino, que, no fim, era o próprio detetive. De Fu-Mauchu não gostava, tinha medo. Os contos não eram de fazer medo, eram de fazer chorar o professor de português:

— Pode estar muito bom, Eduardo, mas você precisa aprender português. Olhe aqui: “entre eu e ele...” Entre eu, seu Eduardo!

“Entre eu e ele se estabeleceu logo uma misteriosa suspeita de que o fio da meada finalmente se deslindava graças à ar­gúcia do inspetor John, da Scotland Yard...” O inspetor John, ou Jimmy, ou James, era sempre alto, forte, simpático, de 22 anos de idade. Entrava pela Baker Street, saía em Trafalgar Square, passava pelo Soho, acabava no West End.

— Não posso mais escrever sem uma planta de Londres — reconheceu, afinal.

E abandonou a Scotland Yard com seus inspetores, em busca de novos heróis. Seus heróis, até então: aos dez anos, Sherlock Holmes, Rafles, Tom Mix; aos onze, Tarzan, o Rei das Selvas; aos doze, Winnetou, Cacique dos Apaches; aos treze, os ins­petores da Scotland Yard. Aos quatorze trocaria todos pelos da vida real: Jack Dempsey, Friedenreich, Lindbergh. Entre a vida real e a literatura, preocupado em escrever, aprender português — o professor dissera. O professor era poeta, tinha noventa sonetos prontos, quando completasse cem publicaria um livro.

— Noventa sonetos? — os meninos se admiravam.

Nunca quis ser poeta, nunca escreveu um verso: noventa sonetos era demais, tudo rimado e metrificado. O professor só queria assim, era contra os futuristas:

— Olhem aqui, vejam se isso é poesia: “É preciso fazer um poema sobre a Bahia... Mas eu nunca fui lá”. Vejam este outro: “Café com pão, café com pão, café com pão, café com pão...”

Os meninos riam.

— Agora vejam: “A lua banha a solitária estrada...”

E, para acabar, “a lua a solitária estrada banha”. Reparassem: no princípio a estrada ainda vazia, eles vinham vindo, os fidalgos, de volta da caçada, as trompas soando, o remanso da noite embalsamada. Depois, eles passam, alegres, rindo, can­tando, e agora já passaram, foram para o lado de lá, portanto a lua não banha a solitária estrada. A lua a solitária estrada banha... Quer dizer que mudamos de posição, de pers-pec-ti-va! Até isso o soneto tinha. Para tanto era preciso conhecer o léxico.

Eduardo resolveu conhecer o léxico. Gramática Expositiva. Escrever Certo! Questiúnculas de Português. Escreveu um ar­tigo sobre colocação de pronomes no jornalzinho do Ginásio, que terminava assim: “Os pronomes, nunca os pomos onde es­tamos”. O professor achou original, embora dissesse que o final era um tanto galhofeiro, não chegava a ser um plágio, era uma paródia.

Cândido de Figueiredo, Moraes, Aulete, J. J. Nunes eram, agora, os seus heróis. Abriu vôo sobre a gramática histórica, as origens da língua portuguesa: “É ponto incontroverso e indiscutível que a língua portuguesa se originou do sâns­crito...” Depois, surgiu o latim: latim clássico e latim popu­lar. Por exemplo: cátedra e cadeira. Sístoles e diástoles, toda palavra começada em al vem do árabe — há exceções. Hirondina deu o quê em português? — perguntaram-lhe na ma­ratona intelectual, promovida pelo Ministério da Educação. Tirou o segundo lugar, empatando com Mauro; um judeuzinho de outro colégio tirou o primeiro. Tema da dissertação: minhas leituras prediletas. Abro o livro de minha leituras prediletas, que tem por prefácio a cartilha... Lastimou não ter usado a palavra prolegômeno. Foram receber o prêmio no Rio, um conto de réis dividido em dois: quinhentos para cada um. Mauro foi acompanhado de um tio, Eduardo foi só: disse em casa que iria acompanhado do tio de Mauro. Não quis ficar com eles no Hotel Avenida: não precisava de nin­guém, ficaria no hotel que bem quisesse. Quis o Hotel Vi­tória, no Catete.

— Depois seu pai vai dizer — queixou-se o tio de Mauro.

— Meu pai não vai dizer.

Entrega de prêmios no salão nobre do Ministério. O mi­nistro chamava um a um pelo nome.

— Aluno Eduardo Mariano.

Eduardo não foi.

— Vai, Eduardo — Mauro o cutucava: — É você.

— Não sou eu: meu nome não é Mariano.

— Eduardo Mariano!

— Não vou.

— Não é você? — perguntou o ministro.

— Não: meu nome é Marciano. Não esqueça nunca mais.

Anos mais tarde, Eduardo encontrou o ministro numa livraria. Já se conheciam, o ministro nem era ministro mais. Eduar­do lembrou-lhe o episódio, o ministro havia esquecido. Dante não esqueceria: dizem que Dante, quando era menino, lhe perguntaram: Dante, qual é o melhor alimento? para provar sua memória extraordinária. Ovos, respondeu Dante. Anos depois, Dante já homem, lhe perguntaram apenas: como? E Dante respondeu: fritos. Gostava dessa anedota, queria ser igual a Dante.

Viu o mar, achou muito cinzento e opaco. Andou pelas ruas, tomou sorvete de pistache, foi ao cinema, comprou um terno de calça comprida, deixou que Mauro e o tio se fossem, re­cusou-se a voltar. Para não ser encontrado, passou-se para o Hotel Elite, onde, em vez de quinze, pagava treze mil réis por dia. Com refeições. Um dia encontrou uma formiga no arroz:

— Olha aqui, tem uma formiga no arroz.

— Por este preço o que é que o senhor queria?

Em todo caso, gostou de ser chamado de senhor pelo garçom, um japonês, gostou da ironia do japonês. Por aquele preço, era lógico, era justo, não podia querer que tivesse outra coisa no arroz, senão formigas. Riu sozinho, concluiu que na vida é preciso ter ironia.

Ao fim de quinze dias de vagabundagem, o dinheiro aca­bou. Saiu pela rua, mão no bolso, sentindo que naquele mo­mento começava a viver. Pobreza, fome, miséria — tudo era preciso, para tornar-se escritor. Escrevera um conto em que dizia isso, mandara para um concurso de contos. No Largo do Machado pediu para ver um exemplar da revista — pronto, lá estava seu conto premiado no concurso. Cem mil réis. Com­pareça à redação para receber... Compareceria imediatamente. E a pobreza, a fome? Na vida tudo seria assim, a solução se apresentando imediatamente, mal começasse a buscá-la, gozando ainda as dificuldades do problema? Na vida tudo lhe seria assim.

Não tinha dinheiro nem para o bonde, foi a pé do Largo do Machado à Praça Mauá.

— Você é muito precoce — disse o diretor, quando soube que ele não tinha nem quinze anos.

Não agradeceu, ficou na dúvida: não sabia o que queria dizer precoce.

Voltou ao hotel com o dinheiro, mas não chegou a entrar: na porta encontrou seu Marciano.

— Você mata seu pai, menino.

Até à polícia seu Marciano fora, quando soube que o filho se mudara de hotel.

— Que é que você ficou fazendo aqui?

— Eu? Nada. Passeando.

— E suas aulas? E sua mãe? Então é assim que se faz?

— Ganhei cem mil réis, olha aqui. No concurso.

— Que concurso?

Seu Marciano foi com ele à esquina, não queria acreditar. Comprou a revista, comprou dez exemplares.

— Você pode ser escritor — disse-lhe à noite (seu Mar­ciano resolvera ficar no Rio um ou dois dias com o menino) — mas tem de estudar primeiro. Ser escritor é muito bom, mas ninguém vive disso. Quero você formado. Eu não me formei, e me arrependo muito.

Seu Marciano dormindo na cama ao lado — usava camisa de meia debaixo da camisa, tinha pêlos brancos no peito e nas costas, tirava a dentadura para dormir. Seu Marciano ron­cava. Pai da gente é assim mesmo — pensava Eduardo.

Passearam pela cidade, foram ao Pão-de-Açúcar. Seu Marciano conhecia o Rio mas nunca tinha ido ao Pão-de-Açúcar. Voltaram de trem para Belo Horizonte.

— Você precisa estudar. Ser alguma coisa na vida.

Quando dona Estefânia viu o filho, abraçou-o e pôs-se a chorar:

— Meu filho! Fazer uma coisa dessas com sua mãe.

Letícia também chorou:

— Você foi para o Rio sem se despedir de mim.

Letícia mudara-se para o bairro de Santo Antônio. Era de tarde no bairro de Santo Antônio, passeavam de mãos dadas. Ao longe o sol se escondia no horizonte de Belo Ho­rizonte, céu arroxeado. Aquela hora deixava Eduardo triste: crepúsculo era coisa triste. Não respondeu. As sombras dos dois se alongavam, compridas e finas, como as de duas árvores. Letícia diferente, seu corpo ia-se transformando, os peitinhos já sobressaíam na blusa de jérsei, modos de mulher.

— Letícia — Eduardo parou, segurou-a nos ombros: — Estou triste, eu queria... Eu queria...

— Fala — a menina o olhava com ternura, emocionada, à espera.

— Não sei — seus olhos se encheram de lágrimas.

— Não fica assim, meu bem.

— Tudo é tão ruim, Letícia. Tudo tão triste.

Abraçou-se a ela.

— Não fique triste. Você está comigo.

Beijaram-se pela primeira vez. Eduardo se sentia tonto, alguma coisa estalava e rompia no seu coração:

— Letícia, que será de mim, Letícia, responde! Que será de mim.

Naquela mesma noite dizia a Jadir, seu amigo, que morava na casa dos fundos:

— Às vezes tenho vontade de morrer.

Jadir riu. Jadir agora era mais velho do que ele, andava de terno e gravata, trabalhava para o pai, já conhecia mulher:

— Você teria coragem de suicidar?

— Suicidar? — e Eduardo se compenetrou: — O suicídio é uma covardia. A menos que...

— O quê?


— A menos que você faça alguma coisa. Por exemplo: eu, se tivesse de suicidar, antes havia de fazer uma porção de coisas, um estrago louco. Matava o presidente da República, qualquer coisa assim. Morria, mas passava para a História.

Pensou um pouco, seus pensamentos ganharam nobreza.

— Ou me oferecia para experiências, piloto de provas, para mártir. Já que queria morrer mesmo...

Jadir ficou pensativo:

— Não adianta... Quem quer morrer mesmo, não pensa em nada disso, só pensa em morrer.

No dia seguinte — era de tarde — estava com Letícia na esquina da casa dela, ainda com uniforme do Ginásio, Mauro apareceu correndo:

— Eduardo! Ainda bem que te encontrei! Passei na sua casa.

Mauro ofegante, nervoso, excitado. Eduardo sorriu, com o ar de homem que costumava ostentar ao lado de Letícia:

— Que é que aconteceu, rapaz?

— Vim te avisar: Jadir suicidou! Passei na sua casa, sua mãe me contou.

— Minha mãe? Jadir? Suicidou?

Letícia começou a chorar.

— Espera aí, menina, não chora não. Mas, o Jadir? Que história é essa?

— Ela estava saindo para lá. Me pediu que te chamasse.

— Ela quem? Para onde?

— Sua mãe. Para a casa do Jadir.

Eduardo se despediu de Letícia e se foram os dois, quase correndo. No caminho Mauro contou, gesticulando:

— Diz que deu um tiro no peito com o revólver do pai.

— Mas por quê, meu Deus? Ainda ontem... Nós vamos lá?

— Não sei...

Seguiram para a casa de Eduardo, ficaram na varanda. Não conversavam: a idéia da morte os fazia mais velhos. Na hora do jantar, chegou dona Estefânia — vinha de vestido preto, estava diferente, muito séria, cara fechada:

— Eduardo, hoje você não sai.

— Mamãe...

Ela não lhe deu mais palavra, foi entrando. Eduardo se­guiu-a:

— Mamãe, eu tenho de ir lá?

— Mais tarde. Agora, me ajuda a passar umas cadeiras por cima do muro. Seu pai está do lado de lá para segurar.

Passaram as cadeiras para o quintal da casa de Jadir.

— Agora, vai trocar de roupa. Veste seu terno azul-marinho. Pede à Maria para lhe dar jantar e, depois, vai se encontrar comigo lá.

Dona Estefânia não disse mais nada: estava enérgica, fria, decidida, transfigurada. Voltou para a casa de seu Marinho, pai de Jadir. O que vivia bêbado. Mauro se foi.

Eduardo não esperava encontrar tanta gente. A mãe de Jadir chorava, era abraçada, todo mundo olhava, ninguém dizia nada. Mariinha, olhos vermelhos, também nada dizia, mas não chorava. Eduardo abraçou-a:

— Meus pêsames.

E ficou junto dela até a hora de ir embora. Num canto, sem entrar lá na sala — a própria Mariinha lhe confessou que não tinha coragem de olhar.

— Mas como foi, Mariinha? — arriscou-se, por fim, ten­tando naturalidade. Decidiu, naquele instante, nunca contar a ninguém a conversa que tivera na véspera com o suicida.

Mariinha lhe contou a mesma coisa que Mauro já lhe contara, acrescentando um pormenor:

— Encontraram uma carta no bolso dele. Foi por causa de uma mulher.

— Mulher?

Tentou assumir o ar compungido dos circunstantes. Chegou a repetir o que ouvira, havia pouco, alguém dizer:

— Ele era tão moço...

Arriscou um olhar para a sala de visitas, onde as velas crepitavam. Muitas senhoras cercavam o caixão, ajeitando flo­res. Ao divisar, cauteloso, o rosto do morto, estranhou que estivesse tão amarelo e com um lenço amarrado no queixo. Um tiro de revólver no peito. Não, não podia acreditar. Dona Marion, mãe de Jadir, já não estava na sala. Seu Marinho, o pai, olhava tudo sem compreender.

Voltou para casa com os pais — dona Estefânia só tornou a sair quando o viu na cama, pronto para dormir. Tomava cuidados especiais com ele naquela noite. Ouviu o que ela dizia para o marido:

— Foram as más companhias. Culpa dos pais.

— Não diga isso — fez o pai.

Dona Estefânia retornou ao velório — seu Marciano não saiu mais. Ficou andando pela casa, acordado, até altas horas. Eduardo não conseguia dormir.

Agora, todas as noites, era aquilo: não conseguia dormir. Um tiro no peito. No coração, portanto. E o amigo morto, lenço amarrado no queixo. Durante o dia andava triste, aba­tido, pelos cantos, já pensando em outras coisas, não pensando em nada — tão diferente daquele menino que arranhava o rosto, dava gritos, fazia discursos. Não sabia o que se passava consigo; sabia que tudo era triste, o mundo era mau. Havia mistério em tudo, a alegria da infância era apenas lembrança. De súbito, a morte estava para abater-se sobre ele a qualquer momento. Morreria cedo, na flor da idade — mas não daria um tiro no coração. Dizem que enchendo o quarto de flores, no dia seguinte a gente acorda morto. Há outros meios tam­bém. Ele morto. Dona Estefânia, seu Marciano, Letícia cho­rando, todo mundo. Muito precoce. Menino prodígio, capaz dos maiores heroísmos. Salvar os outros à custa da própria vida. Às vezes tinha momentos de total arrebatamento. A imaginação se desgarrava, ganhava forças. Às vezes chorava, sem razão, às vezes sentia desejos violentos — não sabia bem de que, mas acabava por entregar-se ao vício antigo, seguido sempre de remorso. E, sem estímulo algum, já não imaginava cenas, não pensava em nada. Aquilo era mais do que pecado, uma aberração. Ele era um anormal — por que Deus fora tão ruim com ele, dando-lhe um sexo mais forte do que a vontade? Vontade de extirpá-lo, coisa inútil, fonte de angús­tia. Sentia, naquelas noites alucinadas, estar perdendo a pró­pria seiva que o sustinha. Secava depressa mas deixava man­cha no pijama, dona Estefânia podia ver, que haveria de pensar dele? Continuava a encontrar-se com Letícia, a mãe agora lhe policiava os menores passos:

— Onde você vai? Já estudou sua lição? Não, não pode sair de noite.

— Por quê?

— Porque não pode.

Sabia que os pais conversavam sobre ele mais do que nunca, depois do jantar, na varanda. Já não se escondia para surpreendê-los — ia passando, a mãe o chamava:

— Onde você vai?

— Na casa do Mauro. Estudar para a prova — mentia. Ia se encontrar com a namorada.

— Não vai, não. Mauro se quiser que venha estudar aqui.

Não ousava protestar. Razão mais forte ditava a atitude da mãe, não ousava enfrentá-la. Certa noite ouviu, sem querer, o que ela dizia ao pai:

Eternamente. Escreveu e assinou.

Eu te amo eternamente... na caderneta! A mãe já espio­nava até suas coisas, mexia na sua caderneta. Tremeu de ódio, de vergonha, de orgulho ferido. Encolheu-se mais, para melhor escutar o que diziam.

— Isso não é tão grave assim — dizia o pai. — Afinal de contas, quando eu tinha a idade dele...

— Não é tão grave? Olha o que aconteceu com o filho do seu Marinho.

— O que ele está precisando é de se divertir um pouco. Praticar esporte. Anda muito magro, abatido. É a idade.

— Você devia conversar umas coisas com ele.

— Conversar o quê?

— Conversar — insistia a mulher: — Ensinar umas coisas a ele.

— Eu... — e seu Marciano ergueu os ombros: — Para mim ele é que tem coisas para me ensinar. Vive lendo livros. Sabe coisas. Essa mocidade de hoje é diferente de nós, Estefânia.

— Criança ainda.

— Quem?

— Eduardo, homem de Deus.



— Criança, mas ganhou cem mil réis, assim! com um conto que escreveu. Ele tem talento, senão não ganhava. Tem merecimento.

— Isso não estou negando.

— Deus sabe o quanto me custou ganhar meus primeiros cem mil réis.

Eduardo não ouviu mais — no dia seguinte Letícia lhe dizia:

— Sua mãe esteve lá em casa.

— Em sua casa? Quando?

— Hoje de manhã. Conversou com mamãe.

— Que história é essa? Elas nem são conhecidas, nem nada. Conversou o quê?

— Sobre nós. Mamãe quer conversar com você, disse para você ir tomar lanche conosco.

A mãe de Letícia não teve meias palavras:

— Sua mãe esteve aqui — disse, e passava manteiga num biscoito. Na casa dele não havia biscoito: — Quer que vocês acabem com esse namoro. Eu, por mim, não me importo. É só andar direitinho, não ficar se escondendo por aí. Sei que não adianta proibir. Mas, se ela quer acabar, acabou-se. Vocês dois não vão se encontrar mais, não. Muito crianças para ficar namorando, ela disse.

Eduardo mal podia de vergonha. Saiu dali, foi direto à mãe:

— Mamãe, a senhora hoje foi à casa de uma amiga minha.

— Eu? — e dona Estefânia, apanhada de surpresa, nem sabia o que dizer. Mudou de assunto: — Meu filho, você pre­cisa cortar esse cabelo.

— Na casa de Letícia — continuou ele. — Dizer à mãe dela que não queria mais que a gente se encontrasse. A se­nhora nem conhecia a mãe dela.

— Eu? Quem lhe disse isso?

— A mãe dela.

— Não quero mesmo — decidiu-se, afinal, dona Estefânia, formalizando-se: — Essa menina não serve para ficar andando com você. Acabar com isso, esses encontros. Essa menina...

— Não admito que a senhora fale mal dela.

— O quê? Onde já se viu? Não admite. Que petulância! Falar assim com sua mãe. Pois não quero, e acabou-se.

Eduardo deu-lhe as costas, foi chorar no quarto.

Chorou a noite toda. Mordia o travesseiro para não soluçar alto — não queria, por nada no mundo, que os pais ouvissem. O mundo era mesmo sujo. Não sabiam respeitar nada. Mexiam na sua caderneta. Os pais, seus inimigos, inimigos de Letícia, inimigos de seu amor. Eternamente, para o resto da vida. Violavam seus guardados, seus segredos, vai ver que mexeram até na fita que Letícia tirara dos cabelos e lhe dera e que trazia escondida no fundo da gaveta — “um pedaço de fita sem importância”. Não respeitavam nada, procuravam, falavam, tramavam contra ele. Tinham medo de que desse um tiro no coração. Se tivesse coragem, dava um tiro no coração, acabava logo com aquilo, havia de ver como chorariam, como senti­riam pena. Tão moço. Por causa de uma mulher.

Chorou dias seguidos — o ambiente em casa cada vez mais tenso: onde você estava? onde você vai? A vigilância cada vez mais cerrada. Seus encontros com Letícia eram furtivos, difíceis. Eduardo perdia o apetite, emagrecia, os pais cada vez mais preocupados:

— Este menino assim não vai — resolveu, um dia, seu Marciano. — Precisa praticar esporte, levar uma vida sadia.



Eduardo e a vida sadia. Seu Marciano tornou-se sócio do clube, o filho praticava natação.

— Por que você não joga basquete? — sugeria Letícia — Natação é tão sem graça...

— Porque natação não depende de ninguém, só de mim.

Em seis meses era o melhor nadador de sua categoria, e ameaçava já o récorde dos adultos. Uma espécie diferente de emoção — a de poder contar consigo mesmo, e de se saber, numa competição, antecipadamente vencedor. Os entendidos sacudiam a cabeça, admirados:

— Quem diria, esse menino...

Era uma espécie de êxtase: fazer de simples prova de natação, a que ninguém o obrigava, uma disputa em que parecia empenhar o destino, fazer da arrancada final uma luta contra o cansaço, em que a vida parecia querer prolongar-se além de si mesma.

Dia de competição. As luzes da piscina acesas, as arquibancadas cheias. Ambiente de expectativa, medo, alegria, excitação. Alto-falantes comandando ordens, convocando nadadores, apostas, previsões, torcida, gritaria. Nada da paz quase bucólica da piscina nos dias de treino — o rigor e a monotonia dos exercícios, de manhã e de tarde, o longo, lento e meticuloso esforço durante meses e meses, para ganhar dé­cimos de segundo na luta contra o cronômetro. Refugiado no vestiário, enrolado em cobertor, Eduardo aguardava o mo­mento de sua prova, ouvindo, lá fora, os aplausos da multidão. Logo chegaria a sua vez. Chico, o roupeiro, aparecia para dar-lhe a notícia da competição.

— Estamos ganhando. Daqui a pouco é você.

Encolhido num canto, o nadador mal ouvia as palavras do preto. Sua emoção se traduzia em longos bocejos, o medo era quase náusea, a expectativa era uma ilusória, persistente e irresistível vontade de urinar. A multidão voltava a aplau­dir lá fora. — “Daqui a pouco é você”. Nunca saía do ves­tiário antes da hora de nadar.

— Quanto está a água hoje? — perguntava ao roupeiro.

Era o único nadador que não interrompia os treinos no inverno, sozinho, a água gelada, a piscina fechada aos sócios. Tudo importava: a temperatura da água, a raia que lhe ca­beria, as condições do adversário. Já o tinha sob controle, sabia o que deveria fazer desde a saída — sabia que deveria esquecê-lo tão logo começasse a nadar, esquecer a assistência, nadar apenas contra o cronômetro — a menor quebra do ritmo necessário significaria um décimo de segundo a menos, talvez — significaria a derrota. Nadar era difícil, ficava cada vez mais difícil... Onde quer que surgisse um recordista, logo surgia outro para abaixar-lhe o recorde. Já se fora a época de Peter Fick, Taris, Arai, Yusa, campeões esquecidos, superados — o próprio Weissmuller, absoluto em todas as distâncias, ficara para trás... Sozinho no vestiário, esquecido da competição que arrancava gritos de entusiasmo na assis­tência, Eduardo pensava em seus novos heróis.

— Marciano, a sua vez! — vinham lhe avisar.

Nada a fazer. Ali estava ele, pronto para o sacrifício, convocado como um condenado para a execução. Ia seguindo em direção à mesa dos juizes, para assinar a súmula, sem olhar para os lados. Sentia que todos os olhos o seguiam, ouvia vagamente os aplausos, procurava ignorar tudo, concentrar-se. Vontade de dormir, de desistir, fugir, sair correndo, esquecer aquele suplício. Medo. Os outros também se sentiriam assim, fragilizados pela emoção, sucumbidos pela espera? Munira-se de alguns minutos de descanso e solidão, curtidos em agonia no vestiário — era a sua reserva. Ali fora, os nervos se esbandalhariam ante o que o aguardava — que viesse ime­diatamente.

— Mostra a essa gente, Eduardo.

— É pra valer!

— Capricha, menino.

— Está bem, está bem...

Deslumbrado pela luz dos refletores, desprotegido e nu, ia caminhando para o sacrifício. Era como se o mundo interrompesse o seu giro e se equilibrasse, oscilante, debaixo dos pés. Nada mais existia senão a fatalidade, da qual agora não poderia fugir. Os homens se dividiam em duas espécies: os que nadam e os que vêem os outros nadar; os que já nadaram e os que ainda vão nadar; os que vencem e os que perdem.

— Eduardo Marciano!

Apresentava-se.

— Raia quatro.

A seu lado, o adversário mais temido. A assistência os identificava, à borda da piscina, prorrompia em gritos. Um fotógrafo se aproximava, o flash explodia, iluminando por um instante o rosto juvenil dos nadadores, envelhecidos pela emo­ção, como num palco.

— Concorrentes a postos! — comandava o alto-falante. — Para a saída!

Mafra, o treinador, ditava-lhe rapidamente as últimas ins­truções:

— Rodrigo vai forçar para você nos primeiros cinqüenta. Deixe ele ir. Olhe o ritmo. Nade sozinho.

Subia vagarosamente a banqueta, relaxava o corpo. Curvado, ficava à espera, sem olhar para os lados. A superfície da água ia-se amansando, depois da agitação da última prova. Raios de luz dos refletores submersos dançavam lentos, verbe­rando nos azulejos e dando uma limpidez fantástica ao verde-azul da piscina.

— Atenção!

O apito do juiz. A multidão silenciava, de súbito, e não se ouvia um só ruído, como se algo de terrível estivesse para acontecer. Os nadadores se imobilizavam, crispados nas suas banquetas, aguardando o tiro de saída. O juiz erguia o re­vólver, o dedo se contraía no gatilho.

— Oh! — fazia a assistência.

Um dos concorrentes armara o salto, mas dera saída em falso. Um desastre para o nadador, seus nervos não resis­tiriam.

— Atenção!

Ouvia-se novo apito do juiz. Outra vez a assistência silenciava, em suspenso, e os nadadores se enrijeciam como estátuas, curvados e tensos. Um tiro, e todos se atiravam para a frente, a água se estilhaçava.

Quebrou vários récordes, foi ao Rio e a São Paulo compe­tir com os maiores nadadores nacionais. Vivia para a nata­ção: dormia cedo, alimentava-se bem, fazia ginástica. O pai começou a preocupar-se:

— Você não está exagerando? De que lhe serve tanto esforço...

— Seus estudos — dizia a mãe.

Na própria piscina havia muito que aprender. Os rapazes perdiam horas e horas conversando, distraindo-se, inventando brincadeiras. Um dia, invadiram o vestiário das moças, houve pânico, gritaria, suspensões. Um dia, dois deles foram surpreendidos juntos no vestiário vazio, acabaram expulsos. Um dia, uma das moças foi deflorada no alto do último trampolim, teve de casar-se na polícia.

Seus novos amigos: andava com eles de automóvel, pôs a primeira gravata, começou a freqüentar festas. Onde ficava Letícia em tudo isso? Não ficava em parte alguma: tudo se acabara entre os dois, sem que ele soubesse explicar como nem por quê. No Ginásio já não era dos melhores alunos; refugia­va-se entre os que ignoravam os estudos, só queria passar de ano. Abandonou Mauro, seu antigo companheiro. Aspirava apenas a terminar o curso, já no último ano, sair dali o mais depressa possível, abandonar o uniforme humilhante, tornar-se homem. Odiava o Ginásio, o regulamento, a disciplina, a su­jeição aos professores. Prometeu a si mesmo vingar-se daquele lugar — não sabia bem de quê — no último dia em que viesse ali, quebrando o globo de iluminação da entrada. Sentia-se diferente de todos, superior, privilegiado, único. Olhava com desprezo a massa ignara dos colegas, seres vulgares, relaxa­dos, não sabiam se vestir, andavam despenteados, suados, su­jos, jogavam bilhar, preocupavam-se com os exames — passar nos exames era tão fácil! Um dia Mauro o provocou, na aula de História Universal:

— Como vai essa belezinha? — e atrapalhou-lhe os cabelos.

Eduardo sabia-se forte, nadador conhecido, nome nos jornais — cuidava de si, fazia perfil, e o ar modesto que costu­mava assumir logo se turvava ao primeiro desafio:

— É a mãe.

Mauro reagiu e se agarraram ali mesmo, dentro da sala de aula. Foram expulsos, enviados ao Monsenhor Tavares, dire­tor do Ginásio. Magro, esquálido, esguio dentro da batina negra, o padre inspirava pavor aos alunos: ir à sua presença já significava o pior dos castigos. Os dois rapazes ouviram calados a reprimenda, inesperadamente branda: o diretor che­gara, certa vez, a esbofetear um aluno que lhe faltara ao respeito.

— O que me admira é que dois moços inteligentes, bem dotados como vocês.

— Vão assumir um compromisso comigo.

— Conto com vocês, deviam dar o exemplo.

— Prometer nunca mais agir dessa maneira.

— Reconhecer que erraram. Mauro?

Mauro aquiesceu rápido: reconheceu tudo, prometeu tudo, na ânsia de sair logo dali. Eduardo não dizia palavra, não fazia um gesto.

— E você, Eduardo?

— Não reconheço nada. Não prometo nada.

O padre ficou pálido, foi-se erguendo lentamente da cadei­ra, por trás da secretária. Mal se fez ouvir a sua voz, quando ciciou para Mauro:

— Você pode sair.

Mauro, hesitante, olhou o colega, o diretor, a porta que o braço estendido indicava. Aturdido, voltou-se e saiu da Dire­toria em passos lentos.

Eduardo procurava encarar o padre, mas as forças lhe fugiam. Não suportou o silêncio por mais tempo:

— Porque não fiz nada de mais. Não fiz nada de errado. Ele me insultou, eu reagi...

— Cale a boca.

Seguiu-se uma pausa ainda mais difícil. O padre lhe voltou as costas e ficou espiando a rua pela janela, como se nada mais tivesse a dizer. Mas respirava fundo quando perguntou, assim mesmo de costas:

— Que você pretende da vida?

Assustou-se: ele? pretendia da vida? Não respondeu. Chegou, mesmo, a supor que o diretor se dirigia a alguém lá fora.

— Você é atrevido, orgulhoso, indócil, malcriado — desfechou o padre, voltando-se para ele solenemente, acusando-o com o dedo: — Que pretende da vida? Acha que com tudo isso estará aparelhado para viver?

— Não — murmurou, sem saber se acertava na resposta. O padre o segurou inesperadamente — por um instante pensou que ia ser sacudido pelos ombros:

— Acompanho seus passos desde o dia em que você entrou nesta casa. Você veio muito bem recomendado. Foi o primei­ro no exame de admissão. Sei que você é persistente, ambi­cioso, consegue o que quer. Que você quer?

— Quero ir embora.

— Você vai ser expulso.

— Não quero ser expulso.

— Escute, menino — e o diretor agora, voltando a sentar-se, brandia um lápis em sua direção: — Você precisa perder esse hábito de responder. Precisa aprender a ouvir, quando os outros falam.

— Mas o senhor estava perguntando — balbuciou ele, perplexo.

— Limite-se a responder o que lhe for perguntado.

— Está bem. Mas eu queria...

— Cale-se! Você não tem querer, eu mando aqui dentro: se eu quiser, você será expulso, se não quiser, não será. Pois agora estou perguntando: você acredita em Deus?

A pergunta o deixou confuso, desconcertado, sem resposta. Já se fizera a mesma pergunta mais de uma vez, mais de uma vez adiara a resposta. Diante de um padre, porém, dificil­mente poderia haver alternativa: vacilar significava expulsão.

— Acredito — respondeu, sem convicção.

Monsenhor Tavares só aguardava a afirmativa para prosseguir:

— Então por que não freqüenta as aulas de Apologética?

— As aulas de Apologética não são facultativas?

— Pelo fato de serem facultativas não quer dizer que você não precise freqüentá-las.

— Uma vez fiz uma pergunta ao padre Lima, na aula de Apologética, e ele não soube me responder.

— Não soube lhe responder? E posso saber qual foi essa pergunta?

— Por causa dela o padre Lima me expulsou da sala. Nun­ca mais voltei lá. Prefiro que o senhor pergunte a ele.

— Ele me disse que o expulsou da sala porque você lhe faltou ao respeito.

Eduardo se indignou, não pôde conter-se:

— Mentira do padre Lima. Fiz a ele uma pergunta e ele não soube responder.

— Cale a boca. Não se fala assim de um professor. Não se fala assim de um padre. Retire imediatamente o que disse.

— Sabe de uma coisa, Monsenhor? — e fez um gesto de impaciência: — O melhor é o senhor me expulsar logo de uma vez.

O padre o olhou nos olhos, fixamente, procurando intimi­dá-lo. Desviou o olhar para a janela, ficou à espera. O silêncio se prolongou, insuportável. Já se via expulso, levando a notí­cia aos pais... Último ano, alguns meses mais e terminaria o curso.

— Sente-se aqui, malcriado — ordenou, súbito, o diretor, indicando-lhe a cadeira próxima. Obedeceu. O padre tornou a respirar fundo, a voz se fez deliberadamente branda: — Me diga o que foi que você perguntou ao padre Lima.

Passara o perigo. Sentado na ponta da cadeira, ganhou confiança:

— Perguntei a ele o que seria de Cristo, se Judas não o traísse. Ele disse que eu estava debochando, que estava que­rendo fazer graça, faltar ao respeito, essa coisa toda.

— O que seria de Cristo... — o diretor se inclinou, interessado: — Explique-me essa história: se Judas não traísse...

Eduardo pôs-se a falar, veemente:

— Porque o grande medo de Cristo era de que Judas falhasse, e não houvesse a crucificação, nem nada. Isso o mundo deve a ele: Judas não falhou. Mas como a salvação do mundo só podia vir de Cristo, Judas condenou o mundo, se suici­dando.

— Condenou o mundo... se suicidando? — repetiu o dire­tor, lentamente. — Espere, mais devagar. Explique isso direito.

— O senhor está me pedindo exatamente o que eu pedi ao padre Lima: que me explicasse isso direito.

Monsenhor Tavares o olhava, estupefato. Sacudiu afinal a cabeça, ergueu-se, batendo a mão na mesa:

— Basta. É demais. Vá-se embora daqui. Volte para a sala de aula.

Eduardo ergueu-se a medo, ficou indeciso:

— Quer dizer que não vou ser expulso?

— Desta vez não. Isto é, não sei, ainda não resolvi. O gran­de medo de Cristo... Onde já se viu isso? Você acha possível Deus ter medo de alguma coisa? Onde você anda tirando essas idéias? O que você fica fazendo em vez de ir à aula de Apologética?

— Fico lendo na biblioteca — mentiu ele: na verdade fi­cava pelos corredores, à toa, se escondendo dos fiscais.

— Lendo o quê?

— Nada — confessou: — Tudo que tem lá, que ainda não li, é proibido aos alunos.

O diretor se espantou:

— Como proibido? Tanto livro bom! Os clássicos...

— Os clássicos podem ser bons, mas não agora. A gente lê agora, depois não lê mais, não adianta nada. São bons para a gente ler depois de velho.

— Tem Alencar, Coelho Neto, Machado...

— Machado o senhor proibiu.

— Eu? Proibi Machado?

— Proibiu Machado, Eça de Queiroz, os franceses quase todos: Flaubert, Balzac... — enumerou, farejando simpatia.

— Você sabe ler francês?

— Mais ou menos — mentiu: só lia traduções.

O diretor voltava ao tom familiar, conselheiral, andando de um lado para outro:

— Tem Euclides da Cunha...

— Já li.

— Já leu? “Os Sertões”?

— Só “O Homem” — admitiu ele: — “A Terra” é muito chato, só tem descrição...

— Não diga isso, meu filho, não diga isso — murmurava o padre, sem ênfase, já pensando em outra coisa. — Tem Rui Barbosa... Você não gosta de Rui?

— Não.

— Por quê?



— Acho que eles exageram muito a importância de Rui Barbosa, na falta de outro.

Quando deixou o gabinete do diretor, a aula de História Universal já havia terminado. Encontrou os colegas no cor­redor e todos o cercaram — o próprio Mauro, esquecido da briga, queria saber o que acontecera. Para eles, Eduardo tra­zia uma surpresa: não só não fora expulso, nem sequer sus­penso, como Obtivera ordem de ler os livros proibidos. E ante o pasmo dos colegas, saiu comentando, displicente:

— É um camaradão, o monsenhor.

Você acredita em Deus? Não sabia por que, sentia que de­veria decidir-se, era uma pergunta que ficara sem resposta, queria sempre poder responder a tudo, estar pronto a ser in­terrogado, fugir às respostas dúbias, hesitantes, que nada diziam. Olhou pela janela o céu estrelado, a imensidão infi­nita do céu... Não foi preciso muito para concluir que, sem Deus, jamais chegaria a entender onde o universo começava e onde acabava, de onde vinha ele, para onde iria. Concen­trou-se, respirou fundo, e declarou com firmeza:

— Acredito.

Era um ponto de partida. Imediatamente saltou da cama, rezou um Padre-Nosso e uma Ave-Maria. Depois tornou a dei­tar-se, sentindo que um mundo de novas perspectivas se abria para ele — precisava estudar Apologética mesmo, quem sabe? apurar umas tantas coisas, ver os acontecimentos através de nova maneira de pensar — teria muito em que pensar no dia seguinte, e nos dias seguintes, em todos os dias seguintes de sua vida.

Ao contrário do que esperava, não fez da descoberta um grande problema: sim, Deus existia, era claro, evidente, indiscutível que Deus existia — e então? Era como se sempre tivesse existido para ele. Fizera a primeira comunhão, acostumara-se a ir à missa aos domingos — hábito imposto pela mãe desde cedo e que nunca se dispusera a interromper.

Por essa época seu Marciano se aposentou. Começava a passar dificuldade, o dinheiro da aposentadoria era curto. Eduardo não tinha mais coragem de lhe pedir dinheiro:

— Você está precisando, meu filho.

— Não estou — e desconversava.

— Quando você sair do Ginásio, lhe arranjo um emprego. Aprenda datilografia.

Aprendeu datilografia e, com isso, sua literatura ganhou sopro novo. Escrevia contos e mais contos — num deles con­tava seu namoro com Letícia, noutro descreveu o próprio pai. Seu Marciano leu, não gostou.

— Você precisa viajar, ver coisas novas. Vive aqui muito confinado, vendo só a gente, não tem sobre que escrever.

Decidiu tornar-se mesmo escritor. Um livro de contos — os outros publicavam livros, por que ele próprio não podia pu­blicar? Tinha dois contos premiados em concursos — se foram premiados, deviam ser bons. Consultou seu Marciano — seu Marciano concordou:

— Devem ser bons. Não entendo dessas coisas. Talvez se você esperasse mais um pouco...

Mandou que o filho procurasse o Toledo, seu amigo, que era escritor.

— Um moço muito distinto e competente. Era meu colega de repartição. Hoje acho que está no gabinete.

Toledo acabara de publicar um romance em editora do Rio, seu nome era conhecido nos meios literários.

— Toledo, meu menino está querendo mesmo ser escritor. Vê se ensina umas coisas a ele.

Eduardo foi à casa do romancista, levando seus contos numa pasta, debaixo do braço. Ficou impressionado com a quanti­dade de livros que o homem tinha no escritório:

— Não vai me dizer que o senhor já leu tudo isso — comentou, tentando intimidade.

A intimidade lhe foi logo concedida:

— Não me chame de senhor. Ainda vai chegar o dia em que você achará graça de me ter chamado de senhor, de ter vindo aqui mostrar seus contos. Deixe ver.

Depois de ler, ali mesmo, enquanto Eduardo fingia displicência olhando os livros, Toledo separou dois ou três:

— Estes são os melhores. Quanto aos outros...

— Um foi premiado — defendeu-se o jovem.

— Não quer dizer nada. Falta conteúdo, falta poesia. Você não lê poesia?

— Não — confessou Eduardo, envergonhado.

— Pois precisa ler. Você acha que poesia é coisa para mulher, para gente piegas, afeminada, não é? Pois não é nada disso. Escute lá.

Leu-lhe poemas de Omar Khayyam, de Rabindranath Tagore. Eduardo escutava e assentia com a cabeça, quando To­ledo interrompia a leitura para comentar: “É uma beleza. Uma maravilha”. Na realidade não achava beleza nenhuma, mara­vilha nenhuma, nem sequer conseguia fixar sua atenção, a não ser nos cabelos do escritor, que já escasseavam — quantos anos teria?

— Escuta — disse-lhe de súbito o homem, fechando o livro: — Você pode ser que vá para a frente, eu não fui. Fique sa­bendo de uma coisa: eu sou um caso perdido, espero que você não cometa o erro que cometi.

— Qual o erro que o senhor cometeu? — perguntou o jo­vem, subitamente impressionado, voltando ao tratamento res­peitoso. Toledo começava a ganhar dimensões diante de seus olhos.

— Meu erro foi acreditar que a vida poderia fornecer ma­terial para a minha literatura. Viver escrevendo. Não escrevi o que devia — este foi o meu erro.

— E seu romance, publicado agora?

— É uma merda.

— Então por que publicou?

— Porque não havia outro jeito, já estava escrito. Escrever é renunciar — eu não sei renunciar. Gide disse que o diabo desta vida é que entre cem caminhos, temos de escolher ape­nas um e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove. Pois bem: a literatura é como se você tivesse de renunciar a todos os cem...

Eduardo nunca ouvira falar em Gide.

— Parece preceito evangélico: aquele que perder sua vida, a salvará. Mas às avessas, procurar Deus onde ele não se encontra. A atividade literária é exatamente isso. Não se deter diante de nada, não respeitar nada. Valerá a pena? Os que têm nojo, fracassam. Que se faria do lixo, se ninguém quisesse ser lixeiro? Mas isso ainda é um pouco cedo para você entender.

— Eu entendo — mentiu Eduardo, aturdido.

— A arte é uma maneira de ser dentro da vida. Há ou­tras... É uma maneira de se vingar da vida. Assim como se você procurasse atingir o bem negativamente, esgotando todos os caminhos do mal. É preciso ter pulso, é preciso ter estô­mago.

— Mas, se o seu romance — começou Eduardo.

— Deixe o meu romance. Esqueça o que lhe disse. Um dia conversaremos sobre isso. Não dê importância, hoje eu estou chateado, amargurado, pessimista. Estava esperando um telefonema, ela não me telefonou. Você vê como são as coisas: por causa de uma namorada a gente chega a emitir conceitos sobre Deus e o mundo, sobre literatura, dizer que a vida é uma merda.

Eduardo o olhava sem compreender. Telefonema? Namorada? Mas, se ele era casado — não tinha visto lá na sala a mulher, os dois filhos? Escritor é mesmo gente esquisita — pensava, confirmando uma opinião de seu Marciano. Em todo caso, a familiaridade daquele homem com ele, e com temas tão vastos, a coragem de dizer palavrões, de revelar sua vida íntima, seu pessimismo, seu fracasso — tudo isso marcava Eduardo fundamente, fazia-o sentir-se homem.

— Você quer ser contista, não é? — e Toledo o reteve, quando se despedia: — Pois então leia isso... E isso... E isso.

Emprestou-lhe três livros de contos em francês: Merimée, Flaubert e Maupassant.

Acostumara-se a ler os franceses — os proibidos — na biblio­teca do Ginásio, em traduções. Lera Madame Bovary, lera Eugénie Grandet, lera Gargantua — pouco lucrou com a lei­tura. Com este último ficou impressionado: como um livro podia conter tanta palavra baixa, tanta cena escabrosa, tanta porcaria. Mas achava engraçado, por isso ia lendo. Comprou um dicionário, prendeu-se em casa durante muitas noites, len­do à força os três livros de contos que lhe foram emprestados. Não entendeu muito bem, não gostou muito:

— Se isso é que é boa literatura, então meus contos são uma merda — concluiu, imitando seu novo amigo.

Últimos dias de aula. Eduardo, Mauro e Eugênio (um rapaz franzino, pálido e de olhar vivo, que viera transferido de outro colégio) conversavam no corredor sobre a vida que iam en­frentar lá fora, o destino que os esperava. Resolveram, os três, assumir um compromisso: qualquer que fosse o caminho que eles tomassem, vinte anos depois voltariam a reunir-se ali, na­quele lugar.

— Vinte, não: quinze — objetou Eduardo: — Vou morrer antes disso.

— Então quinze — concordaram os outros dois, sem se importar que ele morresse. Onde estivessem, acontecesse o que acontecesse.

— Neste mesmo lugar.

— Mesmo que tenham derrubado o Ginásio, nos encontraremos no lugar onde havia o Ginásio.

Marcaram data certa, dia e hora, cada qual escreveu num papelzinho.

— Quem faltar, é porque morreu.

— Ou então está preso...

— Só não pode esquecer...

Calaram-se, e ficaram pensando...

— Que será de nós? — perguntou um deles, distraído.

Que seria deles? Não sabiam, e não se incomodavam. Eduardo deixava aquele lugar sem saudade. Não chegou a ter outra conversa com o diretor: pouco tempo depois o padre morria, nem houve solenidade de formatura por causa disso.

No último dia não chegou a quebrar o globo de luz da entrada principal.

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