Fernando Sabino o encontro marcado



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Encontro29.07.2016
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— O que eu queria saber...

Ela tornou a sentar-se. Ele não sabia o que queria saber. Chamou o garçom.

— O que é que você quer tomar?

Esperando um filho seu. Mas um filho não constituía problema hoje em dia, o essencial era não perder a cabeça.

— Vamos pensar com calma — repetiu. — Quanto tempo já tem?

— Isso que você está pensando eu não faço.

— Não estou pensando nada. Há de haver um jeito.

— Prefiro morrer.

— Não diga bobagem. Você não é a primeira.

Nem o primeiro nem o último. Por onde diabo andaria o tal oficial de marinha?

— Você não pode fazer nada, pode?

— O quê?


— Você não pode fazer nada — ela repetiu, e se concentrou no menu que o garçom trouxera, escolhendo um refresco. Ele a observava: quem está esperando filho não pensa em refresco.

— O que você está pretendendo, Neusa?

— Nada.

— Eu sou casado, você sabe disso.



— Desquitado.

— Dá na mesma. Se você...

Lembrou-se de Gerlane: já me disseram que você é um puritano.

— Não quero parecer puritano, mas para assumir essa responsabilidade...

Ela estourou, afinal:

— Não quero que você assuma coisa nenhuma! Não sei que estupidez a minha, vir a esse encontro. Chame o garçom, por favor, eu quero ir embora.

Ela nem chegara a tocar no refresco. Como eu posso ser tão mesquinho, pensou ele, enquanto conferia o troco. Não lhe ocorria dizer nada, fazer nada. Despediu-se dela prome­tendo telefonar à noite.

— Não se aflija, tudo há de dar certo, de um jeito ou de outro. Naturalmente você antes de tudo vai ter de consultar um médico... Você já consultou um médico?

Passou o resto do dia vazio e distraído, incapaz de qualquer idéia consistente: o céu é azul, pensava; estou sem fome; hoje é terça, amanhã é quarta.

À noite, porém, ela é que lhe telefonou:

— Olha, Eduardo, estive pensando no que você disse, cheguei à conclusão de que você tem razão, não há outra coisa a fazer.

— Mas eu não disse nada! O que você está pensando em fazer?

— Pensando, não: já fiz. Fui ao médico hoje, marquei para amanhã de manhã.

— Marcou o quê?

De súbito ele caiu em si:

— Você está louca? Que médico é esse? Marcou o quê?

— Você mesmo disse...

— Eu não disse coisa nenhuma! Você não pode fazer uma coisa dessas!

A consciência do que estava acontecendo lhe veio como um clarão: aquela mulher estava grávida, um filho seu. O seu filho, seu verdadeiro filho, morrera já, arrancado ao ven­tre da sua mulher como semente mal nascida. Pior do que morrer é não ter nascido, ele dissera um dia, quando ainda acreditava na vida e tinha uma missão a cumprir — a de dar seu testemunho. Testemunho de quê? Do pecado. Outra espécie de ordem, dizia frei Domingos — que ordem era essa, cuja transgressão se fazia necessária para que o homem se redimisse? Essa vida é mesmo sórdida, se repetia, aflito, sem saber onde buscar forças para resistir. Se era preciso errai primeiro, escorregar, cair, para depois entregar-se às mãos de Deus, matéria de salvação, aproveitasse! aí estava a ocasião de queda: esse era o problema a enfrentar. Estarrecido como se não só a sua sorte, mas a do mundo inteiro dependesse daquele passo. A salvação do mundo só poderia vir do Cristo... Era como se o objetivo de sua vida fosse esse: tudo o que fizera até então, desde o nascimento, o trouxera por caminhos confusos até a última prova, o teste definitivo da sua natureza de homem.

— A que médico você foi? — perguntou, para ganhar tempo.

— Uma amiga minha me indicou.

— Vocês são muito experientes hoje em dia, conhecem a vida, têm solução para tudo... Sabe que isso é considerado um crime? Sabe que isso é um...

— Não seja ridículo, Eduardo — cortou ela.

— É uma coisa perigosa — ele evitava a palavra abjeta: — Você não podia esperar um pouco?

— Esperar o quê? Quanto mais tarde, mais perigoso.

— Esperar que ele nasça. Dá-se um jeito — insistiu.

— Você é casado.

— Não tem importância. Eu reconheceria. Afinal de con­tas o filho é meu, não é?

— E depois? Você se esquece de uma coisa, Eduardo: o filho é seu, mas eu não sou.

— Não importa, Neusa: o filho seja de quem for...

Afastou-se do telefone em estado de pânico: sua sorte es­tava lançada. Não dependia de mais ninguém senão dele: forças poderosas se juntavam, um mecanismo gigantesco se punha em movimento para triturá-lo, submetê-lo à grande ten­tação, até que se cumprisse o que estava escrito. Esses eram os desígnios de Deus, reconhecia-os afinal: o sacrifício exigido. Mas o que pretendiam dele? se resistir era a sua decisão, úl­timo rasgo de fidelidade a tudo em que um dia acreditara? Onde a tentação, onde o sacrifício? Já não entendia mais nada, de novo indeciso, andando da sala para o quarto, do quarto para a sala. Bastava ir buscar Neusa em sua casa, sacudi-la pelos ombros, enfrentar sua mãe, contar-lhe tudo, impedir aquela loucura. E depois? O filho espúrio largado no mundo para crescer, viver, enfrentar os mesmos proble­mas, cometer os mesmos erros, desperdiçar sua chance de sal­vação. Essa a nossa chance, a que todos têm direito — ele afirmara quando jovem. Chance, mas de nascer para uma vida de misérias e ir morrendo diariamente pelas ruas. Desgraçado o dia em que eu nasci, ele pensava, e a noite em que se disse: foi concebido um homem.

Pouco depois voltava ao telefone, chorando:

— Você tem razão, Neusa, não há outra coisa a fazer. Mas eu quero ir com você...

Da sala ao quarto, do quarto ao banheiro, já pedindo a Deus um milagre. A promessa de Vítor, também feita num banheiro, a escadaria da Penha de joelhos, a radiografia tro­cada, e se não houvesse filho algum? e se os exames se ne­gassem, o médico se enganara, os sintomas se desfariam, e Deus perdoava, e não mais precisava imolar o filho, como no sacrifício de Abraão. O que era preciso para haver um mi­lagre? E eis que o anjo do Senhor gritou do céu, dizendo: Abraão, Abraão. E ele respondeu: aqui estou.

— Meus Deus, eu não posso pagar esse preço, é demais para mim.

(E o anjo disse-lhe: não estendas a mão sobre o menino e não lhe faças mal algum.)

Debruçado à janela do quarto, via a noite envelhecer sobre a cidade imensa onde homens e mulheres se esqueciam, e copulavam, e dormiam. Nada mais existia sobre a terra — Deus, entediado do mundo, havia adormecido também. E o mundo não conheceria outros anjos, senão os que germinavam no ventre e não chegavam a nascer. Em verdade te digo: antes que o galo cante, eu te negarei três, dez, vinte vezes! Esse é o desígnio do homem, sozinho dentro da noite. E den­tro da noite um galo cantou.

Às duas horas da manhã ele ainda estava à janela, como um sonâmbulo, à espera de que alguma coisa acontecesse.

Às três horas ele disse: eu não posso fazer nada.

Às quatro horas sentiu sede, foi à cozinha e bebeu um copo d’água.

Às cinco horas adormeceu, sentado na poltrona.

Marquei um encontro aqui com uma moça chamada Neusa...

— Ela está sendo atendida pelo médico.

Olhou com estranheza o homem de avental branco que o recebera. Tinha um bigode fino, bem aparado, e era ainda um rapaz.

— Desculpe, pensei que o senhor fosse o médico.

— Ela é sua mulher?

— Bem... Eu...

— Vamos passar à outra sala?

Eram nove horas da manhã. Depois de esperá-la meia hora à porta do edifício, como combinara, subira ao consultório, aflito, temendo que ela já tivesse entrado. Passaram à outra sala e ele mal podia andar: as pernas se recusavam. O ho­mem lhe pôs a mão no ombro:

— O médico sou eu mesmo. O senhor não precisa ficar nervoso. Correu tudo bem. Ela está repousando agora.

— Correu tudo bem? Mas eu vim aqui para...

— Não precisa gritar! Tem gente ali fora.

— Eu não queria que isso acontecesse — e ele se deixou cair numa cadeira. — Eu não queria...

— Não há perigo nenhum — o médico procurava acalmá-lo. — Correu tudo bem. Foi uma intervenção muito simples.

Intervenção? Eduardo o olhou com raiva: fora uma intervenção muito simples e aquele homem de mãos delicadas como as de um menino, jovem ainda, provavelmente recém-formado, assim ganhava a vida, não tinha nada do carniceiro que se acostumara a imaginar, o aborto era uma intervenção muito simples.

— É preciso coragem — disse apenas, num sussurro.

— Não tenho ilusões, meu amigo. Encaro a vida com realismo. Isso acontece.

O avental lhe envolvia todo o corpo, branco, imaculado, sem nenhuma mancha de sangue e ele, sentado de pernas cru­zadas, deixava entrever parte da meia, com alguma coisa en­fiada nela, era dinheiro! guardava dinheiro dentro da meia. O médico seguiu a direção de seu olhar e sorriu, desconcer­tado, descruzando a perna:

— O senhor vê, essa roupa não tem bolsos, e é tanta coisa a fazer, mal tenho tempo...

— O movimento deve ser grande. A sala ali fora está cheia...

— Sou um obstetra — defendeu-se o homem: — Minha profissão é essa. A moça precisava de uma intervenção.

Dinheiro — a única prova do crime.

— Ela já lhe pagou?

O homem se ergueu:

— Já está tudo acertado. Ela está descansando com a enfermeira aí dentro, vou ter de sair, mas se o senhor quiser esperar, daqui a pouco pode levá-la. Já disse a ela o que terá de fazer. Com dois dias de repouso estará inteiramente boa.

— Eu vou lhe pedir um favor — Eduardo disse então.

Ergueu-se também e os dois se olharam nos olhos. O mé­dico ficou calado, na defensiva.

— Quero que o senhor invente para ela uma história qualquer. Dizer que não foi um aborto, compreende? que era um tumor, um... qualquer coisa...

— O que o senhor pretende com isso?

— Quero que a responsabilidade seja toda minha.

— Não estou entendendo. Que responsabilidade? Não vai acontecer mais nada, já lhe disse. Se ela seguir minhas recomendações...

— A responsabilidade diante de Deus. Entende agora?

O médico o olhava, intrigado:

— Não entendo nada. Já lhe disse que a intervenção era necessária. O embrião se descolara, estava morto, e se essa moça...

— Estava morto? Quer dizer que...

O médico esperou um pouco, mas como Eduardo não dissesse mais nada, se despediu:

— Fique à vontade. Vocês podem sair por essa outra porta. Com licença.

Plantado no meio da sala, Eduardo não fez o menor movimento. Muito depois que o médico se foi, continuava na mesma posição, olhos fixos, braços caídos — estátua de dúvida, surpresa, aniquilamento. Estava morto. Inútil seu sofrimento, como no desastre de Rodrigo, o afogado, ele também estava morto, antes de sair do avião. Caminhou até a janela e olhou a rua. Um sol violento batia de chapa no mosaico da praça, faiscando nos automóveis que passavam, envolvendo a cidade numa festa de luz matinal. Então seu pedido fora atendido, como o de Vítor! restava a promessa de ambos, subir de joe­lhos a escadaria, e eram trezentos e sessenta a cinco degraus.

Voltou-se: uma porta se abrira e Neusa acabava de surgir, amparada na enfermeira. Estava pálida e caminhava com dificuldade. Precipitou-se para ela:

— Neusa, eu estava tão aflito, mas correu tudo bem, e eu soube que era preciso, se você não fizesse isso...

Ela não dizia palavra. Amparou-se em seu braço, olhando duro para a frente, saiu com ele do consultório, pisando com cuidado.

Na sala ao fundo médico e enfermeira conversavam:

— Já saíram? — perguntou ele.

— É uma boa menina.

— Acaba voltando. Essa gente não toma jeito. Ele é o pai?

— É. Sujeito esquisito, não parece muito bom da cabeça. Estava tão aflito que eu disse que tinha de sair, deixei ele lá. Pensei até que fosse me agredir...

E o médico sorriu:

— Não sei o que me deu, que para tranqüilizá-lo inventei uma história de descolamento do embrião, não sei se ele acreditou. Já estava até falando em Deus...

Calou-se, pensativo, depois consultou o relógio, despiu o avental:

— Olha, eu vou mesmo sair um pouco, dar uma volta para espairecer. Não sei por quê, esse sujeito me estragou o dia...



Recostada no canto, Neusa seguia em silêncio no táxi ao lado de Eduardo.

— Você devia ter me esperado — queixou-se ele. — Eu tinha resolvido...

Ela começou a chorar em silêncio.

— Não fique assim, Neusa. Já passou, esquece, agora. Era preciso, o filho estava morto.

— Você diz isso só para me consolar — e ela voltou-se para ele, nervosa, ansiada: — Foi horrível, Eduardo. Por que você deixou?

— Eu não deixei nada, eu... Eu não queria, fui lá para impedir.

Ela não o ouvia:

— Até o último instante esperei que você não deixasse, e fizesse alguma coisa, ficasse comigo, me levasse embora com você...

— Não fique assim — ele repetiu, descontrolado, e seu coração se oprimia: — Por favor, esquece, tudo já passou. Eu juro que tinha resolvido...

Não havia mais o que dizer e ambos ficaram calados no táxi em movimento. À porta da casa ele se despediu dela:

— Então adeus, Neusa. Qualquer dia desses...

— Não quero te ver nunca mais — ela disse, com firmeza, e se foi.

Depois de comer qualquer coisa num restaurante do centro, Eduardo foi para a repartição e mergulhou no serviço. Pro­curava não pensar em nada, esquecer o que lhe sucedera. Em vão Misael tentou puxar conversa. Teve uma altercação com o contínuo por causa do sumiço de um processo.

— Deixem-no — recomendou o chefe. — Está nervoso com a tal história no jornal. Seria até melhor que esses dias ele não viesse aqui.

À tarde pensou em procurar alguém, um amigo, um conhecido. Não vou procurar ninguém, decidiu. Não tenho amigos, sou um homem sozinho, ninguém me reconheceria. Mas à noite, quando deu por si, estava entrando no bar de sempre. O que vim fazer aqui? se perguntava, depois de pedir um uísque. Jantara, fora a um cinema, estava sem sono, não tinha onde ir. Depois sinto vontade de conversar, não aparece ninguém que eu conheça, vou ao telefone, ligo para quem quer que seja, e me apanham na engrenagem maldita, começa tudo novamente... A sua solidão lhe pesava, espessa, impenetrável como um enigma prestes a ser decifrado — sentia-se devorado de uma nostalgia, pungente como uma recordação da infân­cia — e era essa a outra espécie de nostalgia, de que lhe falava o Toledo, finalmente a reconhecia — o homem que ele finalmente era — sozinho, nu e indefeso diante de si mesmo — e seus ombros se curvavam junto ao balcão, como sob o peso de uma cruz. “Que eu devia mesmo é ir para casa, ler ou escrever”, pensava. “Não sou um escritor? Escrever, al­guma coisa. O meu romance”.

Desta vez, o homem não estava vestido de smoking, mas num terno cinza, camisa azul de riscas, gravata de seda pra­teada e um cravo branco na lapela. O rosto era o mesmo do último encontro — pálido, fino, escanhoado. Eduardo tomava um uísque a seu lado, arrependido já de o haver reconhe­cido. Era inútil, sempre que bebia, alguma coisa de impre­visível lhe acabava acontecendo. Olhou-o, intrigado. Quem diabo seria aquele homem.

— Sobre o que, o seu romance?

— Não sei ainda. Só vou saber depois de escrito.

— Conheço um sujeito que está escrevendo um romance.

— Sobre o quê?

— Sobre você.

Eduardo se voltou, surpreendido:

— Sobre mim? Que história é essa?

— Um romance — repetiu o homem.

— E o que é que eu tenho a ver com isso? Ele me conhece?

— Você é o personagem dele — o homem insistiu, lacônico.

Eduardo calou-se e continuou a beber, pensativo, e continuou sozinho. Logo, porém, o homem se voltava para ele:

— Imagine você apenas personagem de um romance que está sendo escrito, só existindo na imaginação do romancista.

— Pirandello — limitou-se Eduardo.

— Um personagem — prosseguiu o homem, pensativo, inclinando-se e pondo-lhe a mão no ombro: — Vivendo apenas o que o romancista quer que você viva.

— É, mas neste caso não estaríamos conversando sobre isso. Teríamos de obedecer ao nosso papel. Você seria per­sonagem também.

— Não: eu seria a única pessoa do lado de fora com quem você pode conversar. Uma espécie de janela aberta para a realidade. Sua chance de se rebelar contra o seu criador, se libertar. Longe de mim você será apenas escravo.

— Escravo, como? — perguntou Eduardo, já meio confuso.

— Escravo do romancista. Quando o romance é seu, o verdadeiro romancista é você.

Onde o escritor obstinado que dizia hei de vencer? Que se trancava em casa para escrever e dizia hoje eu não saio de jeito nenhum? Para quem todas as portas se abriam? A morte era uma porta.

— Vítor morreu — pensou, quase em voz alta.

O homem a seu lado não disse palavra.

— Eu te conheço de alguma parte — disse Eduardo.

— Daqui mesmo, deste bar — não se lembra?

— Não: antes...

— É possível.

De repente: o que estou fazendo neste lugar, bebendo com este sujeito que mal conheço?

— Sabe de uma coisa? Vou tomar um último e vou-me embora. Há muito tempo não bebia, estou ficando tonto.

Os olhos do homem o retiveram:

— Espere, ainda é cedo.

Eduardo olhou o relógio: como da outra vez, estava parado.

— Neste bar sempre acontecem coisas.

A porta se abriu para dar entrada a um casal.

— Olha aí, por exemplo: esses dois vêm sempre aqui, você deve conhecer. Estão vivendo juntos.

Assustado como diante afinal do inimigo: encolheu-se para não ser visto por Amorim e Gerlane que se acomodavam ao fundo.

— Tudo isso já aconteceu — disse, e chamou o garçom. Pagou a sua conta, o homem não fez um gesto. Ergueu-se, firmando-se nas pernas:

— Diga ao tal sujeito que o romance dele acabou.

Saiu, e respirou com volúpia o ar fresco da madrugada. Ergueu a cabeça e foi andando. Sentia-se estranhamente eu­fórico, feliz: agora morra tudo! eu vou começar — repetia, mentalmente. E pôs-se a conversar consigo mesmo, mãos nos bolsos, cadenciando os passos:

— Antes de mais nada: para onde você vai agora?

— Você não pode estar tão bêbado assim.

— O que pretende fazer?

— Você, personagem de romance.

— Então era o caso de telefonar para o romancista e perguntar: e agora, o que é que eu faço?

— Pela última vez: você acredita em Deus?

Deteve-se no meio da rua, pernas abertas, olhos fixos no ar:

— Acredito — respondeu com firmeza, e prosseguiu a caminhada.

— Cuidado com o automóvel. Com quê você conta?

— Eu me conheço, mas é só.

— Quem você está pensando que é? Scott Fitzgerald? Ele tem um romance que termina assim.

— Ele termina onde eu começo.

— É pouco.

— Conto com a minha experiência. Não sou inocente.

— Experiência... E o mundo ao seu redor? Olhe só quanta injustiça, quanta miséria, tanta gente sofrendo.

— Demagogia.

— Seu católico de merda. Sorriu e apressou o passo.

— Você é muito inteligente, mas vai preso assim mesmo.

Dobrou a esquina, relanceou os olhos em torno, pôs-se a recitar:

— Creio em Deus Padre, todo-poderoso, criador do céu e da terra, e em Jesus Cristo, um só seu filho...

Não sabia terminar. Inundado de alegria, começou a dan­çar no meio da rua:

— Acabou, acabou, acabou.

Depois se deteve, dedo em riste:

— Dizer o indizível? O silêncio é a linguagem de Deus. A linguagem do homem é difícil, retorcida, suja, atormentada. Tudo que se escreve é apenas uma paródia do que já está escrito e ninguém é capaz de escrever. Tudo que se vê é apenas uma projeção do que não se vê, sua verdadeira natureza e substância. Basta olhar para as minhas mãos para sentir que elas ocupam o lugar das mãos de Deus...

No dia seguinte contou a Misael, na repartição:

— Ontem tomei o porre mais estranho da minha vida.

O outro o olhou, penalizado:

— Você também levou muito a sério aquela história no jornal. Daqui a uns dias ninguém vai falar mais nisso, você vai ver.

— A sério levou minha senhoria: me comunicou hoje que não vai renovar o contrato. Aluguei o apartamento para morar com minha mulher e não sozinho. Ontem ela me viu chegando bêbado. Mas acabou confessando que leu a reportagem, disse que não quer complicações com a polícia.

— Ela não consegue nada — o outro procurou tranqüili­zá-lo: — Uma ação de despejo é a coisa mais difícil de se ganhar na justiça, hoje em dia. Ainda mais um absurdo desses.

— Nada disso. No fim do mês eu me mudo.

— Vem jantar na minha casa hoje. Aniversário de meu fi­lho, vai haver um leitãozinho. Ele também é literato, você vai gostar.

Esteve a ponto de dar uma desculpa qualquer, mas decidiu ir. A casa de Misael — num subúrbio distante, com um jardinzinho em frente, a filharada em torno à mesa, a mulher com uma criança de meses ao colo, a importância do chefe da família de súbito revelada:

— Luís, tira a mão daí! Maria, tenha modos. Hoje na repartição eu tive um caso complicadíssimo... Joana, serve mais arroz aqui para o Eduardo.

Findo o jantar, confessou-lhe que um dia ainda seriam colegas, tinha promessa firme de ser promovido assim que se desse a primeira vaga:

— Você compreende o que isso significa para mim: a vida com essa gente toda dentro de casa não é brincadeira, tudo tão caro, você nem faz idéia. É verdade que cortaram a par­ticipação nas multas, mas, enfim, eu nunca pretendia mesmo multar ninguém!

Misael e seu pequeno mundo: cadeiras de palinha, toalha xadrez, cortina na janela, horta, três galinhas, samambaias. Eduardo se esquecera de como era uma planta, desde a infân­cia não via uma galinha.

Vendeu seus móveis, depositou o dinheiro na conta de Antonieta. Encaixotou os livros, mudou-se para um hotel.

— O diabo são os caixotes — dizia, contrariado. — Quem sabe se seu filho...

— Você está maluco?

O filho de Misael o olhava deslumbrado como ele, aos dezesseis ou dezessete anos, olhara o Toledo pela primeira vez. Crivava-o de perguntas, quando ia jantar com seu novo amigo:

— Acha que a poesia hermética é mais importante do que a outra?

— Conhece Sílvio Garcia?

— Que pensa do concretismo?

Eduardo se voltava, surpreendido:

— Onde é que você aprendeu essas coisas, menino?

— Ele vive lendo — explicava o pai.

De súbito percebeu que devia ter agora a idade do Toledo, naquela época! Pensou em dizer ao menino a mesma coisa que ouvira então: eu sou um caso perdido, espero que você não cometa o erro que eu cometi. Mas qual fora mesmo o erro que o Toledo cometera? Qual o seu próprio erro? Não sabia: em alguma parte de sua vida ele se deixara ficar, es­quecido, abandonado, largado para trás — e agora teria de se buscar como aquela agulha do sonho, perdida no fundo do mar.

— Você é muito precoce — limitou-se a dizer.

Mas este sabia o que queria dizer precoce. Trabalhava de dia como empregado de escritório, pagava ele próprio seus estudos num curso noturno.

— Não chega para comprar livros.

Se lhe posso dar um conselho, é este: não tente apanhar o fruto verde para que ele não apodreça na sua mão.

Mandou-lhe, afinal, todos os seus livros:

— Não sei se estou lhe fazendo um bem ou um mal...

— Por que você fez isso? — dizia Misael, desvanecido e nervoso, torcendo as mãos: — Acho às vezes que você não re­gula bem, Eduardo... Todos os seus livros! Quer matar o meu filho de tanto ler?

— Isso não tem a menor importância, pode ficar certo, não tem a menor importância...

Segurou o amigo pelo braço:

— Você não entende disso, Misael, mas acredite: o menino é bom, deixe ele ir para a frente, não se assuste nunca com ele! O filho pródigo teve vitelo, o outro não.

— Por falar em vitelo: a patroa mandou avisar que sábado vai ter aquele pastel de que você gostou. E está contando com você para padrinho do guri, já está grandinho, ainda não foi batizado.

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