Fernando Sabino o encontro marcado



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Encontro29.07.2016
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Em alguma parte de sua vida ele se deixara ficar.

— Se eu conheço Sílvio Garcia?

Este, já não sabe por onde anda, nunca mais teve dele a menor notícia. Vítor morto. Mauro médico. Hugo professor. E ele? e ele? Gerlane com Amorim. Joubert com uma casa de decorações, ganhando dinheiro. De Térsio leu afinal a pro­metida entrevista, de completa adesão, anunciando a volta do homem ao poder. E finalmente, de Antonieta, sabia por meias notícias de seu compromisso com um diplomata na Europa, pretendiam casar-se em breve. De maneira que todos se arranjavam, se acomodavam às exigências da vida, abriam com o corpo sua passagem, iam vivendo. O tempo já não tinha im­portância: não se contava senão em anos, para que se pudesse ver a curva dos dias com mais perspectiva, já convertidos em experiência... Eis afinal o que Toledo lhe quisera dizer e não conseguira. Numa idade em que os outros mal começam a existir, sem perceber atingia vorazmente a parte mais defi­nitiva de si mesmo.

— Sou quase feliz — reconheceu, espantado, na sua nova fórmula de viver. Resolveu escrever uma carta para sua mãe, dando e pedindo notícias.

Em alguma parte de sua vida.

— Como é que ele vai se chamar?

Ficou inesperadamente comovido no batizado do filho de Misael.

— Você é o meu melhor amigo, Misael.

— Ora, deixe disso, compadre. Agora vamos até lá em casa que vai haver uns docinhos.

Em alguma parte.

— Eu vou fazer uma viagem — comunicou de súbito. O outro se espantou:

— Viagem? Para onde?

— Tentar a vida noutro lugar. Antes tenho que cumprir uma promessa.

— O que você está dizendo?

— Nada. Olhe, sua promoção vai sair, há uma vaga. Pedi demissão hoje.

— Não! Você não fez isso! — e os olhos do amigo se encheram de lágrimas.

Naquele mesmo dia arrumou suas coisas na mala, pagou a conta e deixou o hotel. Sentia-se mesmo como na iminência de uma longa viagem — tomou um táxi para o centro. Diante da ladeira de pedras já familiares se deteve, respirou fundo: eu podia subir de joelhos esta aqui mesmo, pensou, e sorriu. Avistou, à porta do convento, a figura do monge que, já avi­sado, o esperava, acenando para ele. De súbito uma lembran­ça perdida lhe veio da infância e começou a rir, enquanto se aproximava do amigo.

— Mas que milagre foi esse... De que você está rindo?

— Tínhamos um encontro — explicou. — Mauro, você e eu. No ginásio, se lembra? Você era o terceiro. Exatamente você.

O monge não se lembrava.

— Só eu fui... Mas não tem importância.

— Não acreditei que você viesse.

— Vim por um ou dois dias. Depois...

Calou-se. Não tinha importância também o que lhe aconteceria depois.
Rio, março de 54 julho de 56
CITAÇÕES E REFERÊNCIAS

EM O ENCONTRO MARCADO

APRESENTADAS PELO AUTOR

p. 41. “— Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.” — Princípio de Lavoisier, químico francês, criador da química moderna. “— Um corpo mergulhado num líquido recebe um impulso (...)” — Princípio de Arquimedes: ‘Todo corpo mergulhado num fluido recebe um impulso de baixo para cima igual ao peso do volume do líquido deslocado.”

“— Então me diga quem foi Laplace.” — Físico e astrônomo francês, autor de uma hipótese cosmogônica sobre a origem do universo, de­monstrada com uma gota de azeite dentro d’água, a partir de um núcleo condensado girando num eixo central.
p. 42. “— Leônidas nas Termópilas, melhor! combateremos à sombra.” — Referência ao episódio do Rei de Esparta, defendendo em 380 a.C. o Desfiladeiro das Termópilas com apenas 300 soldados, contra a inva­são persa. Diziam os invasores que o número de suas flechas era capaz de fazer com que elas cobrissem o sol, e ele teria respondido: “Melhor, combateremos à sombra.”

“— Aí vem o General Valdez bloquear a cidade de Leide!(...)” — Trecho de O Cerco de Leide, de Luiz Guimarães Filho (poeta e prosa­dor brasileiro de fins do século passado), que até hoje sei de cor, cons­tante da Antologia Contemporânea, de Cláudio Brandão, adotada no Ginásio Mineiro.


p. 47. “Passara-se para os romances policiais: gostava de Malpas, o assas­sino que, no fim, era o próprio detetive. De Fu-Manchu não gostava, tinha medo. (...) Seus heróis, até então: (...) Sherlock Holmes, Rafles, Tom Mix (...) Tarzan (...) Winnetou (...) Jack Dempsey, Friedenreich, Lindberg.” — Malpas, personagem de Um Perfil na Sombra, romance policial de Edgar Wallace, então em plena moda. O detetive assassino, se bem me lembro, era de O Círculo Vermelho, do mesmo autor. Fu-Manchu: misteriosa figura de criminoso chinês, personagem dos ro­mances de Sax-Rohmer, também muito lido então. Sherlock Holmes: detetive criado por Conan Doyle mas não o dos livros; assim como o ladrão elegante Rafles, personagem de folhetos apócrifos que circula­vam entre a meninada do meu tempo. Tom Mix: ator de cinema, um dos primeiros “mocinhos” em filmes de faroeste. Tarzan: personagem dos romances de Edgar Rice Burroughs, também muito lidos. Winnetou, Cacique dos Apaches: admirável romance de aventuras, do alemão Karl May, em três volumes, todos eles lidos cinco, seis vezes, sempre com a maior emoção; não creio mesmo que encontrarei ao longo da vida outro escritor como este, que encantou a minha juventude. Jack Dempsey, Friedenreich, Lindberg: heróis infantis da década dos trinta, respectiva­mente no boxe, no futebol e na aviação.
p. 48. “— Olhem aqui, vejam se isso é poesia: ‘É preciso fazer um poema sobre a Bahia... Mas eu nunca fui lá.’ Vejam, este outro: ‘Café com pão, café com pão, café com pão...’” — Versos dos “poetas modernistas” Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, ridicularizados pelo professor de português.

“A lua banha a solitária estrada...” — Verso de um soneto de Raimundo Correia.

“Cândido de Figueiredo, Moraes, Aulete, J.J. Nunes (...)” — Gramáticos de grande prestígio na época.
p. 61. “Peter Fick, Taris, Arai, Yusa (...)” — Campeões de natação por oca­sião das Olimpíadas de Berlim em 1936.

“(...) o próprio Weissmuller...” — Johnny Weissmuller, um dos maio­res recordistas de natação de todos os tempos, mais tarde famoso como ator de cinema no papel de Tarzan.


p. 69. “— Tem Alencar (...)” — Menção a autores proibidos aos alunos na biblioteca do Ginásio (tirante José de Alencar, Coelho Neto, Euclides da Cunha e Rui Barbosa, mencionados pelo reitor): Machado de Assis, Gustave Flaubert, Honoré de Balzac.
p. 72. “Leu-lhe poemas de Omar Khayyam, de Rabindranath Tagore.” — Primeiros poetas lidos por Eduardo Marciano (e por mim), um persa e outro indiano, graças em geral a magníficas traduções de Abgar Renault.
p. 73. “— (...) Gide disse (...)” — André Gide, escritor francês falecido em 1951, até então influente e controvertido em nossa geração, especial­mente através de seu volumoso Journal.
p. 74. “Emprestou-lhe três livros de contos em francês: Merimée, Flaubert e Maupassant.” — Prosper Merimée: famoso na época pelos seus livros Mateo Falcone e Carmen. Gustave Flaubert: Trois Contes. Guy de Maupassant: La Maison Tellier, Bol de Suif.

“Lera Madame Bovary, lera Eugénie Grandet, lera Gargantua.(...)— Romances respectivamente de Gustave Flaubert, Honoré de Balzac e François Rabelais.


p. 77. “— Prefiro Fome.” — Romance de Knut Hamsun, escritor norueguês, Prêmio Nobel de 1929, muito em voga na época. Ao fim da Segunda Guerra o autor foi acusado (injustamente?) de colaboracionista.
p. 78. “— Você já leu O Lobo da Estepe?” — Romance de Hermann Hesse, poeta e romancista alemão naturalizado suíço, Prêmio Nobel de 1946, também muito lido entre os jovens do meu tempo, autor ainda de Demian e O Jogo das Contas de Vidro.
p. 84. “Sentia-se encarnado em Raskolnikoff”... — Personagem do romance Crime e Castigo, de Dostoiévski, um dos deslumbramentos literários desde a minha mocidade e para todo o sempre.

“Panait Strati, Gorki, Jean Cristophe, Cimento, A Montanha Mágica.” — Panait Strati, também em voga então, na linhagem de Knut Hamsun, gênero literatura proletária: escritor romeno, autor de A Casa Turinger, Kira Kiralina, publicado em Paris na década dos vinte, com prefácio de Romain Rolland. Comunista, abandonou o Partido depois de visitar a Rússia. Constava na época que tinha tentado o suicídio por causa de uma mulher e fora salvo por Romain Rolland, autor de Jean Cristophe, romance famoso e volumoso. Máximo Gorki, romancista russo; Ci­mento, romance socialista do soviético Fiódor Gladkov; A Montanha Mágica, de Thomas Mann, outro romance que todos nós, quando jo­vens, tínhamos obrigação de ler.


p. 85. “(...) Que literatura proletária! Verlaine, isso sim; Rimbaud e Valéry. Juntos, choraram Baudelaire. Neruda, García Lorca, Fernando Pessoa (...)”— Estes eram alguns dos poetas que não podíamos deixar de ler.

“— Sucede que me canso de ser hombre!” — Verso de Pablo Neruda.

“— La luz del entendimiento me hace ser muy comedido.” — Verso de Federico Garcia Lorca.

“— O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...” — Verso de Fernando Pessoa.

“— Conto é tudo que chamamos de conto!” — Definição atribuída a Mário de Andrade.
p. 86. “— O jeito é vender o Yorick.” — Hamlet, de William Shakespeare. Yorick, o bobo do rei, cuja caveira Hamlet toma nas mãos, evocando lugubremente lembranças do passado: “Here hung those lips that I have kissed I know not how oft...”
p. 87. “— (...) Há qualquer coisa de podre no reino da Dinamarca.” — Verso de William Shakespeare em Hamlet.

“— Comigo se hay vuelto loca la anatomia. Soy todo Corazón!” — Verso do poeta russo Vladimir Maiakovski, em tradução espanhola, única que chegava até nós durante a Segunda Grande Guerra.


p. 88. “— ‘Mundo, mundo, vasto mundo!’” — Verso de Carlos Drummond de Andrade.

“— ‘Grito imperioso de brancura em mim!’” — Verso de Mário de Andrade.

“— ‘Meu carnaval sem nenhuma alegria!’” — Verso de Manuel Ban­deira.
p. 89. “— ‘Mijemos em comum numa festa de espuma!’” — Verso de Vinicius de Moraes.

“E se repetia porque (rezava a tradição) um poeta (um grande poeta) havia feito aquilo antes (...)” — Referência a Carlos Drummond de Andrade, quando jovem.

“Alguém soltou um berro. Era Zaratustra: — ‘É preciso um grande caos interior para parir uma estrela dançarina’!” — Citação de Friedrich Nietzsche, Assim Falou Zaratustra.
p. 91. “Chamavam-no de Barbusse”, Henri Barbusse, escritor francês, cujo romance Le Feu admiravam sem nunca haver lido.

“— Superado, o parnasianismo? (...) Depois de Bilac (...) Pois fiquem sabendo que Alberto de Oliveira...” — Olavo Bilac, Alberto de Olivei­ra, poetas parnasianos, que considerávamos superados.


p. 94. “— Radiguet! Oh Radiguet!” — Apelido posto em Hugo por seus companheiros Mauro e Eduardo, em razão do jovem escritor francês Raymond Radiguet, que se suicidou aos 20 anos, autor de Bal de Comte d’Orgel e Diable au Corp, romances que os três admiravam (haviam lido).
p. 98. “— (...) Freud, psicanálise, esta história toda.” Sigmund Freud, austríaco, criador da psicanálise, já então em plena moda.

“— (...) Vocês nunca ouviram falar em André Breton?” — Escritor francês, um dos criadores do surrealismo.


p. 101. “— (...) Sabia que Bouvard e Pécuchet estiveram lá em casa, hoje?” — Bouvard et Pécuchet, de Gustave Flaubert: romance sobre dois perso­nagens eruditos, pedantes e convencionais.

“— (...) O Terror nas Letras, cujo protótipo seria a novela Metamorfo­se, de Kafka.” — Romance de Franz Kafka, considerado precursor do surrealismo, sobre o cidadão chamado apenas k, que ao acordar certa manhã se viu transformado num gigantesco inseto.

“— A solução é a conduta católica — respondeu o amanuense Belmiro.” — Citação de uma frase do romance O Amanuense Belmiro, do escri­tor mineiro Cyro dos Anjos.
p. 103. “— Me lembrei de uma coisa inventada por Salvador Dalí.” — Refe­rência a uma idéia surrealista do pintor espanhol Salvador Dalí: a fabri­cação de um pão gigantesco, enunciada em sua autobiografia Vida Se­creta.
p. 105. “...uma pureza que não tenho, que perdi.” — Último verso de um soneto de Augusto Frederico Schmidt.

“— Perdi o bonde e a esperança, volto pálido para casa (...) seria uma rima, não seria uma solução — eta vida besta, meu Deus.” — Seqüência de versos de Carlos Drummond de Andrade.


p. 106. “Leu Dom Quixote, decidiu tornar-se picaresco. Toledo lhe emprestava livros de Azorín, Menéndez y Pelayo, Ortega y Gasset.”— Dom Quixote de la Mancha: romance picaresco espanhol de Miguel Cervantes de Saavedra; Azorín: pseudônimo do escritor espanhol José Martinez Ruíz, que andava em moda então; analista penetrante da alma espanhola no princípio do século XX, descobridor de talentos ignorados em seu país, autor, entre outros estudos, de uma “Rota de Dom Quixote”; Menéndez y Pelayo; crítico e historiador também espanhol, fim do século passado, grande erudição, autor de uma enorme Historia de las Ideas Estéticas en Spaña de 19 volumes, dos quais eu possuía todos e hoje possuo apenas dois — não sei que fim levaram os demais; Ortega y Gasset: outro espanhol mais ou menos da mesma época, escreveu, entre outros, As Meditações de Dom Quixote, A Rebelião das Massas.

“Começou a ler Proust com dificuldade.” — Marcel Proust, autor de A la Recherche de Temps Perdu, de leitura difícil mesmo, mas que todos nós tínhamos a obrigação de já haver lido.


p. 107. “— A vida e o amor inclusive.” — Verso de nosso amigo João Etienne Filho, poeta e jornalista.

“— É uma vergonha a gente ainda não ter lido Ulysses.” — Romance inglês de James Joyce, que até hoje continua sendo lido no original quando muito até a metade, como confesso ser o meu caso.

“(...) não precisava ler inglês para saber que a vida não valia a pena e a dor de ser vivida.” — Citação de um verso de Olavo Bilac.
p. 108. “Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez forte da verdade. Palma Cavalão, você é uma flor (...)” — Epígrafe do romance A Relíquia de Eça de Queiroz, só que invertida: “Sobre a nudez forte da verdade — o manto diáfano da fantasia.” Palma Cavalão, personagem de um de seus romances.

“Você é a última flor do Lácio, inculta e bela.” — Referência a verso do soneto de Olavo Bilac sobre a língua portuguesa.


p. 110. “Here the man of creative imagination (...)” — Citação de Selected Prejudices, de h.l. Mencken, escritor americano mordaz e atuante da primeira metade do século em Nova York, considerado “o demônio da crítica literária”.

We work in the dark (...)” — Henry James: Uma vida inteira não me seria suficiente para ler e admirar o escritor americano naturalizado inglês, cujos contos, novelas e romances tocaram o mais fundo de minha alma como apenas Dostoiévski havia feito antes — cada um à sua maneira. E não é para menos, dada a quantidade de obras-primas que produziu, principalmente na sua última fase.

“— Ora, deixa disso, Lord Byron.” — Referência ao escritor inglês George Gordon Byron, do século passado, protótipo do poeta român­tico e heróico.
p. 115. “— Vamos caçar cutia, irmão pequeno!”— Verso de Mário de Andrade.
p. 116. “— O coração tem razões que a própria razão desconhece.” — De Blaise Pascal, matemático, físico e pensador francês do século XVII em Pensées, Section IV, 277: “Le coeur a ses raisons, que la raison ne connaît point: on le sait en mille choses.”
p. 117. “— Quem foi que disse que todo homem é incendiário aos vinte anos e bombeiro aos quarenta?” — Não posso garantir, mas parece ter sido Tristão de Athayde.

“— Deve ter sido o Marquês de Maricá.” — Certamente não foi o Marquês de Maricá — político e escritor brasileiro do início do século passado, autor de Máximas, Pensamentos e Reflexões, tido pelos de nossa geração (não sei se injustamente) como autor de chavões e lugares-comuns.


p. 118. “— Hay que vigilar!” — Que eu saiba não é citação de nenhum poeta, senão de um garçom espanhol que usava esta precavida expressão a nosso respeito, ao nos servir chopes no bar que freqüentávamos.

“Liam Bernanos, Mauriac, Maritain — não chegavam até Santo Tomás, mas se diziam neotomistas.” — George Bernanos: romancista francês, católico, refugiado da guerra em Barbacena no princípio da década de 40 e onde os jovens escritores mineiros, seus admiradores, foram visitá-lo. Autor, entre outros, do romance Diário de um Pároco de Aldeia, traduzido pelo nosso conterrâneo e amigo Edgar de Gogoi da Mata Machado. Viramundo, o Grande Mentecapto, também esteve com ele quando andou por lá. François Mauriac: outro romancista francês e católico lido então com o mesmo fervor. Jaques Maritain: filósofo e pensador, que nos sugeria com o seu Humanisme Intégral uma renova­da orientação cristã, capaz de fazer face ao mundo de nossos dias. Santo Tomás de Aquino: teólogo italiano do século XIII, nossa fonte de inspi­ração do pensamento cristão com a sua Suma Teológica.

“— Ligeiramente Bilac: ‘Há no amor um momento de grandeza...’”— Verso de um soneto de Olavo Bilac.

“— E Raul de Leoni também: ‘nosso amor conceberia o mundo(...)’” — Penúltimo verso do famoso soneto “Eugenia”, também chamado “Per­feição”, do poeta brasileiro Raul de Leoni, precursor do modernismo, autor de Luz Mediterrânea.


p. 120. “(...) na luta pelo ‘amilhoramento político-social do homem.’” — Refe­rência a uma expressão usual de Mário de Andrade, com sua grafia peculiar.

Rerum Novarum. Quadragesimo Anno.” — Encíclicas Papais respec­tivamente de Leão XIII em 1891 sobre a questão operária e de Pio XI em 1931 sobre problemas sociais, que nos vangloriávamos de haver lido. Santo Ambrósio: outro santo de nossa devoção, embora o conhecêsse­mos praticamente só de nome.


p. 127. “— (...) ‘Je cherche en gémissant.’” — Referência a Blaise Pascal em Pensés, usada como epígrafe de Octavio de Faria na sua monumental série de romances Tragédia Burguesa, para nós então leitura obrigató­ria: “Je blame également ceux qui prennent parti de louer l’homme, et ceux qui le prennent de le blâmer, et ceux qui le prennent de se divertir; et je ne puis approuver que ceux qui cherchent en gémissant.”
p. 134. “— Soy un gitano legítimo.” — Verso de Federico García Lorca, em Romancero Gitano.
p. 155. “— Aos vinte anos Radiguet já tinha morrido, Rimbaud deixado de escrever. / — Radiguet morreu com vinte e três. / — Álvares de Azeve­do, então.” — Radiguet morreu mesmo aos vinte anos, como disse um deles, e não vinte e três. Arthur Rimbaud, outro de seus heróis. Impos­sível resumir em uma ou duas linhas o que foi para nós este extraordi­nário fenômeno literário — um jovem poeta francês que se consumiu nas chamas de sua genialidade antes de fazer vinte anos, para se tornar uma das mais poderosas influências da poesia moderna. Álvares de Azevedo, poeta brasileiro da fase romântica, atacado do chamado “mal do século” de que era protótipo o poeta Byron, na Inglaterra. Morreu romanticamente aos 21 anos. Suas obras (todas póstumas) eram culti­vadas pelos jovens de então: Lira dos Vinte Anos, Macário e Noite na Taberna.

“— Eles agora estão descobrindo Rilke.” — Rainer Maria Rilke, poeta austríaco do princípio do século, simbolista impregnado do sentimento da morte, leitura também obrigatória, principalmente Cartas a um Jo­vem Poeta e Os Cadernos de Malte Laures Bridgge, Elegias de Duíno, Sonetos a Orfeu.


p. 204. “— Ninguém se lembrou de falar no último golpe dele.” — Referência à derrubada do ditador Getúlio Vargas em 1945.
p. 205. “— Comprei hoje um álbum fabuloso de Duke Ellington (...)”— Pia­nista e band-leader de jazz de minha admiração, por influência de Vinicius de Moraes.
p. 206. “— É o ‘não-poder-ser’ de que nos falava Bergson...” — Paródia de Henry Bergson, se não me engano de L’Existence et le Néant, em L’Évolution Créatrice.
p. 213. “(...) já estão levando o Cidadão Kane (...)”— Filme de Orson Welles, considerado em 1945 um dos maiores de todos os tempos.
p. 225. “— (...) Anatole France, ainda por cima em espanhol”. — Outro escri­tor francês que tínhamos a obrigação de já haver lido e que durante a 2ª Guerra não se encontrava senão em tradução espanhola.
p. 235. “— Eduardo, mon semblable! Mon frère!” — Citação do último verso do poema de abertura de Les Fleurs du Mal de Charles Baudelaire, dirigindo-se ao leitor: “Hipocrite lecteur! Mon semblable! Mon frère!”
p. 239. “Lembrava-se de Chesterton: é o que perdeu tudo, menos a razão.”— Citação de G.K. Chesterton, grande pensador católico inglês, de seu livro Ortodoxy: “The madman is not the man who has lost his reason. The madman is the man who has lost everything except his reason.”
p. 241. “(...) descobriu uma nova linha de pensamento: Morris, Ruskin, Eric Gill.”— William Morris: pintor e crítico de arte inglês do século passa­do, cujo livro On Art & Socialism, seleção de ensaios e conferências, aborda temas relativos à arte em face da indústria e dos conflitos so­ciais, abrindo caminho para as bases de um socialismo cristão diver­gente do comunismo. John Ruskin: outro crítico de arte, sociólogo e escritor inglês, também do século passado, praticamente na mesma linha de pensamento em relação à arte e aos problemas de nosso tempo; seu livro Unto This Last representou para mim verdadeiro manancial de idéias fecundas nesta área. Eric Gill: dos três, talvez o mais criativo, pois além de grande pensador católico e fino ensaísta, foi extraordinário artista plástico, distinguindo-se na escultura, no desenho e nas artes gráficas; autor, entre outros, dos livros de ensaios It All Goes Together, Money and Morais e de uma admirável Autobiography.
p. 244. “Na literatura, como na natureza, nada se cria e nada se perde: tudo se transforma.”— Paródia do princípio de Lavoisier.

“(...) começou a chamá-lo de La Palice.”— La Palice, marechal da França ali pelo ano de 1500 e do qual se guardou apenas a memória de um verso a ele dedicado que dizia: “Quinze minutos antes de sua morte ele ainda vivia.” Seu nome passou a ser usado ao longo dos tempos para designar alguém que se caracterize pela enunciação de platitudes, de lugares-comuns ou, na original expressão de Nelson Rodrigues, do “óbvio ululante”.


p. 246. “— Kierkegaard já disse coisa parecida.”— Etapas no Caminho da Vida, de Soren Kierkegaard: filósofo e teólogo dinamarquês do século passado, de um estilo literário admirável que sempre me fascinou. E não estou sozinho: consta que Miguel de Unamuno, escritor espanhol também admirável, aprendeu dinamarquês somente para lê-lo no origi­nal. Não cheguei a tanto: mais modestamente, me limitei a ler em portu­guês, francês ou inglês com semelhante deslumbramento toda obra sua que me caísse nas mãos.
p. 247. “— (...) Se você olha para trás Deus pode te castigar, te transforma numa estátua de sal.”— Referência à mulher de Loth, sobrinho de Abraão — figuras do Velho Testamento: ao fugir da destruição de Sodoma, ela desobedeceu a instrução dos anjos e olhou para trás, transformando-se numa estátua de sal.
p. 248. “(...) li um livro, parece que de Dostoiévski.”— É de Dostoiévski mesmo, Os Irmãos Karamazov.
p. 250. “— (...) Rimbaud fez melhor: descobriu as cores das vogais.” — Referência ao soneto “Voyelles” de Rimbaud sobre a cor das vogais: “A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu ...”

“— On n’est pas serieux quand on a dix-sept ans.” — Primeiro verso do poema “Roman” de Rimbaud.


p. 276. “— Porque o homem é o brinquedo de Deus.” — Referência a uma frase de Platão em Leis: “O homem foi criado como um brinquedo de Deus e isto, de fato, é o que há de mais fino a seu respeito.”
p. 279. “Ignorante del agua, voy buscando / Una muerte de luz que me consu­ma...” — Versos de um poema de García Lorca em Asi que Pasen Cinco Años, que nunca me saiu da memória; como estes dois outros belíssimos versos do mesmo poema: “me he perdido muchas veces por el mar / como mi pierdo en el Corazón de algunos niños.”
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