Fernando Sabino o encontro marcado



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II — A GERAÇÃO ESPONTÂNEA

Procurou o homem? — perguntou-lhe seu Marciano, a mesa do jantar.

— Não.

Sentou-se, passando a perna por cima da cadeira. Dona Estefânia limitou-se a levantar os olhos, enquanto lhe servia sopa.



— Passei lá, ele não estava. Fiquei de voltar depois, quan­do voltei ele já tinha saído.

Procurou o homem? Falou com o homem? Ultimamente o pai já perguntava por hábito, não esperava mais que ele pro­curasse o homem.

— É muito difícil. Gente besta. Pensam que têm o rei na barriga. Mandam esperar no gabinete — ainda não chegou, já saiu. Não dou para isso não.

— Você andou bebendo, meu filho — observou seu Marciano.

— Tomei um chope antes de vir.

— Fica por aí tomando chope, chegando tarde em casa, e a situação não está para brincadeira. Sabe que seu pai está passando dificuldade, ele arranja emprego para você, você nem se mexe.

— Estefânia — cortou seu Marciano. De novo para o filho: — Ouvi no rádio que Paris está por pouco. Que é que você soube?

— Nada. Ainda não passei na redação hoje.

— Você continua com essa história de jornal? — interveio a mãe. Em vez de cuidar de seus estudos.

— Você mesma não estava dizendo que eu preciso traba­lhar? Agora vem com estudos. Entenda-se.

Seu Marciano olhou-o, duro:

— Não fale assim com sua mãe. Peça desculpas.

— Desculpe.

O pai, de novo sereno:

— Não tenho nada contra você trabalhar em jornal. Só que não te pagam, estão te explorando.

— Vão começar a pagar no mês que vem.

Depois do jantar resolveu passar pela redação. À entrada encontrou o Veiga em conversa com um rapaz magro, alto, rosto sombrio, uma espinha na testa, cabelos desgrenhados.

— É o melhor livro dele — dizia o rapaz.

— Prefiro “Fome”. Mais autêntico, mais humano — e o Veiga voltou-se para ele: — Você já conhece o Hugo?

— Ainda não.

— Ele disse que já te conhece.

— Só de vista — disse o rapaz. E de ler.

— De ler?

De ler, naturalmente — seus artigos, os que, através do Veiga, vinha publicando no suplemento de domingo. Dois ou três artigos de crítica literária.

— O que é que vocês estão conversando?

— Knut Hamsun — respondeu o rapaz. — Já leu?

— Já — mentiu Eduardo.

— Sou muito amigo de um amigo seu.

— Quem?

— Mauro Lombardi. Foi seu colega de ginásio.



— Ah... Não vejo Mauro há muito tempo.

Veiga os deixou sozinhos:

— Mais tarde, ali por volta da meia-noite, a gente pode se encontrar lá na oficina.

Eduardo queria agradar o rapaz, não sabia como:

— Você vai ficar aí?

— Não, vou sair, dar uma volta.

— Então vamos.

Saíram pela Avenida, àquela hora cheia de gente. Moças passeavam de braço dado, rapazes ao longo da calçada espia­vam o movimento.

— Também escreve? — perguntou Eduardo.

— Quem, eu?

— É.

— Também — confessou o outro. — Vamos tomar um café?



Tomaram um café em pé, e o rapaz lhe ofereceu um cigarro.

— Obrigado, não fumo.

Foram andando. O rapaz procurou puxar conversa:

— Você já leu “O Lobo da Estepe”?

— Já... — e, distraído, Eduardo apontou um carro que passava: — Olha ali, Buick deste ano, é o primeiro que eu vejo.

O rapaz se calou, ressentido. Em frente ao cinema Glória despediu-se:

— Vou tomar o bonde ali no abrigo.

— Então até logo. Como é mesmo o seu nome?

— Hugo.

— Por que você não aparece mais tarde lá na oficina?



— Que oficina?

— Oficina do jornal, nunca foi lá? Tem um botequim onde sempre se toma qualquer coisa...

— Não posso beber. Sofro da vesícula. Ainda ontem...

— Deixa disso, rapaz — e Eduardo bateu-lhe nas costas cordialmente: — Uma cachacinha de vez em quando não faz mal a ninguém. Apareça lá. Encontrar o Veiga.

— Não conheço bem o Veiga... Apenas ligeiramente. Quase tanto quanto você.

Eu conheço bem o Veiga.

— Quase tanto quanto conheço você — esclareceu o outro. Separaram-se. Não seria daquela vez que haveriam de se entender.

Veiga se empenhava, com outros redatores, numa discussão sobre a guerra. Bebiam batida apoiados no balcão da cantina, e Amorim, o repórter de polícia, sustentava que em breve a Inglaterra também seria invadida. Eduardo pôs-se a beber com eles:

— Hitler é capaz de tudo. É um carismático. Aprendera aquela palavra e usava-a pela primeira vez.

Olhou de lado para o Veiga, ele não parecia ter ouvido. Java, um revisor, é que respondeu:

— Capaz de quê? De invadir a Inglaterra? E a União Soviética?

— Capaz de tudo — retrucou com segurança.

— Deixa disso, menino, você não sabe nada. Só porque na França...

— Na França, se o marechal Pétain...

— Pétain é um traidor.

— Eu sei — ele não sabia: — Mas estou querendo dizer... Não sabia também o que estava querendo dizer.

— ...a burguesia foi responsável.

— A burguesia! — o outro soltou uma gargalhada. — Olha só esse filhinho do papai falando em burguesia. Você não sabe o que está dizendo. Um burguês feito você...

— Eu? Burguês? — e se ergueu, insultado. Um homem que se encontrava com outros à meia-noite na oficina de um jornal, que bebia cachaça e escrevia artigos literários jamais poderia ser burguês. Burgueses eram os outros.

— Vai para a...

Esboçou-se um começo de briga. Java se enfurecia:

— A culpa é sua, Veiga. Traz esses meninos bonitos para aqui, não sabem beber, dá nisso.

— Menino bonito é a...

— Pára com isso, gente — interveio o Amorim: — Você também não sabe nada, Java. Você é um mascarado, com essa mania de comunismo.

— Eu sou comunista — e Java bateu com o punho fecha­do no peito magro. — A União Soviética...

— Que União Soviética nada. Por que você não fala Rús­sia, como todo mundo?

A roda se dissolveu. Alguns voltaram ao serviço na oficina, os outros se dispuseram a sair. Eduardo ficou indeciso.

— Vou com vocês — resolveu, enfim. Veiga o olhou, apreensivo:

— Nós vamos dar uma volta lá embaixo — explicou.

— É capaz de não te deixarem entrar — gracejou Amorim.

À porta do cabaré ele se fez de homem, pediu um cigarro ao Veiga, acendeu-o e foi entrando. O porteiro estendeu o braço:

— Proibido menores.

— Menor, eu? — e, tonto de humilhação, evitou os olhos dos companheiros. Amorim se pôs a rir:

— Eu não disse? Volta no ano que vem...

Veiga parlamentava com o porteiro:

— Me responsabilizo por ele.

Entraram, afinal. Eduardo procurava apoio, correndo os olhos ao redor, com simulada displicência. Algumas mesas em torno da pista de danças, uma orquestra, homens bebendo cerveja, mulheres espalhadas pela sala. Não tinha nada de mais, como numa festa qualquer. Aquelas eram as mulheres, as famosas mulheres da “zona”. Seriam todas prostitutas? Nenhu­ma delas estava nua, nem sumariamente vestida. Procediam como qualquer mulher procederia. Apenas, quando dançavam, requebravam-se, apertando o parceiro, dando passos ousados. Arranjavam fregueses, certamente — quanto cobrariam? Moravam em pensões por perto. Talvez algumas estivessem ali só para se divertir. A semi-escuridão do ambiente não permitia ver bem suas feições, arranjadas de maneira a parecerem be­las, atraentes. Fixou-se numa, sozinha na mesa junto à orquestra: o olhar perdido, as mãos candidamente cruzadas no colo.

— Aquela também será? — não se conteve, perguntou ao Veiga em voz baixa. Haviam-se sentado em torno a uma mesa, tomavam cerveja.

— Qual? Será o quê?

— Aquela perto da orquestra. Tão menina ainda.

Veiga apertou os olhos por detrás dos óculos, para enxergar melhor.

— É a Jupira, parece. Não é má, não.

— Menina, a Jupira? — e um dos rapazes riu, voltando-se para os outros: — Ouçam esta! Eduardo disse que a Jupira é menina.

— Daqui não estou vendo direito...

Aproveitou-se de um bocejo para assumir uma atitude de adulta indiferença:

— Vocês vão ficar?

— Daqui a pouco vamos embora. Também estou com sono.

Veiga, por seu lado, assumia ares discretamente protetores — seu pai dentro do mundo. Inquietava, mas era confortante.

Uma mulher veio sentar-se com eles. Aquelas eram as mulheres. De onde viriam? Onde teriam nascido, onde brincaram? Alguém, ao microfone, anunciava uma bailarina. A mulher a seu lado disse que se tratava de uma grande artista. Pôs-se a acariciar-lhe a perna, por baixo da mesa.

— Vamos embora — e o Veiga fez sinal ao garçom.

— Eu vou ficar.

— Ficar?

Todos o olharam, surpreendidos.

— Vou ficar com ela — e apontou a mulher com naturalidade. No íntimo preferia a Jupira. — Onde é que você mora?

— Aqui perto.

Veiga, de pé, hesitante:

— Bem... Espero você no restaurante da esquina.

Já se encaminhava para a porta quando Eduardo o alcançou, puxou-o de lado:

— Você pode deixar algum dinheiro?

Um dos rapazes se atrasara:

— Cuidado, que essa mulher sofre de estreitamento...

Não sabia o que queria dizer aquilo, a razão do gracejo, temia pegar doença. Devia ter-se prevenido antes, na farmá­cia. Já arrependido, deixou que os companheiros se afastassem e foi-se com a mulher na direção oposta.

Veiga esperava, sozinho, no restaurante.

— Onde estão os outros?

— Por aí. Tão depressa assim?

— É. Vamos indo?

— Comer alguma coisa...

— Não, estou sem fome.

— Que cara é essa? Aconteceu alguma coisa?

— Nada. Vamos embora.

De repente sentiu vontade de vomitar. A náusea subiu-lhe à boca num ímpeto, mal teve tempo de precipitar-se até a rua, apoiar-se num automóvel. Alguém que passava o evitou com um sorriso de nojo.

Veiga o seguira, preocupado:

— Quem sabe se você...

— Nada. Estou melhor. Foi aquela cachaça.

Em casa, já deitado, recompôs a cena: o cabaré, a mulher, o quarto da mulher. Pela janela, o letreiro luminoso. Uma bo­neca na cadeira. Cheiro enjoativo de pó-de-arroz, vaselina. Retratos na penteadeira, uma luz vermelha junto à cabeceira da cama — a mulher estendendo o braço e apagando a luz. O corpo da mulher no escuro, o cheiro do corpo, o sexo mais escondido do que imaginara — recôndito, inatingível. Estrei­tamento? Buscava-o, em movimentos bruscos, desajeitados, in­controláveis, a mulher procurava ajudar, mas era tarde, já havia acabado.

— Não tive culpa — preveniu ela, enquanto se vestia, com medo de que ele não quisesse pagar.

Pois agora, sozinho, excitava-se, lembrando detalhes. Agora se sentia capaz de conter-se o tempo que quisesse, ir até o fim. Prolongou o prazer de imaginar, reavivou minúcias, agora sim, não acabava logo, era mais fácil, assim devia ser, e mais ainda, agora sim, por que resistir? se era bom, a mesma coisa, não precisava de mulher, tudo se completava.

Logo o remorso se abateu sobre ele — sentia-se frustrado, diferente dos outros homens, proscrito, tinha nojo de si mesmo.

Toledo continuava a lhe emprestar livros. Leu os romancis­tas brasileiros, alguns franceses, esqueceu tudo em favor de Dostoievski. Sentia-se encarnado em Raskolnikoff, chegou a pensar em cometer o crime perfeito. Aos poucos se eviden­ciava para ele a superioridade do ser perseguido sobre o ser perseguidor. Mauro, com quem voltara a encontrar-se, parti­lhava de igual entusiasmo, era seu cúmplice na aventura:

— Sem nenhum motivo. Matar alguém sem nenhum mo­tivo, jamais descobrirão.

A noite, juntavam-se aos literatos do jornal. Não havia ali quem não tivesse em casa algo inédito que seria o melhor do país, no dizer dos demais. O próprio Java era autor de um citadíssimo — por ele mesmo — romance proletário, que des­crevia revoluções, o ruído da metralha, toques de corneta, gemidos, explosões:

— É uma espécie de polifonia literária — explicava ele, exalando cachaça. — O processo, em si, não é novo. Na União Soviética...

Panait Strati, Gorki, “Jean Cristophe”, “Cimento”, “A Montanha Mágica”. Tudo mais inteiramente superado. Abaixo a literatura de gabinete! Abaixo a arte de salão! Não era pre­ciso aprender nada, nem ler, nem estudar. Viver — eis o que importava:

— Veja o exemplo de Van Gogh: largou tudo e foi viver.

— Quem largou tudo foi Gauguin, sua besta.

— Largou tudo e foi pintar.

A princípio, Eduardo e Mauro se davam bem com essa gente. Hugo, o novo amigo, já mais arredio, desconfiado:

— São uns morcegões. Nunca escreveram nada.

Acabaram formando um grupo à parte. Os outros se ressentiam:

— Os gênios incompreendidos.

— Três cretinos iluminados.

Não ligavam: eram superiores. Juntos, faziam suas descober­tas literárias. Que literatura proletária! Verlaine, isso sim; Rimbaud e Valéry. Juntos, choraram Baudelaire. Neruda, Gar­cia Lorca, Fernando Pessoa, soltos pelas ruas:

— Sucede que me canso de ser hombre!

— La luz del entendimiento me hace ser muy comedido.

— O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...

Veiga os protegia, publicando-lhes os trabalhos no suplemento. Em paga, faziam de graça a paginação. Mas também o Veiga tinha seus contos, mostrava-os meio ressabiado, os três eram implacáveis;

— Isto não é conto nem aqui nem na China.

— Corte toda a primeira página que talvez melhore.

— Daria, quando muito, uma crônica.

O autor protestava, tirando os óculos e citando Mário de Andrade:

— Conto é tudo que chamamos de conto!

Eduardo renegara os que havia escrito, fizera novos. Preocupava-se com o fenômeno da criação artística, a consciência profissional, a missão sublime do escritor, o artesanato. Nada de concessões; a arte pura não devia ser conspurcada, a ver­dadeira mensagem tinha de ser transmitida. Pensou mesmo em fundar uma revista de estética chamada Mensagem, mas já existia outra, sem mensagem alguma, com esse nome. Co­municava suas idéias aos amigos, que faziam coro:

— Salvar o mundo para quê?

— A injustiça é necessária para que a justiça se revele.

— O artista é o profeta do passado.

Estudando juntos, para as provas de Direito. Mauro, aluno de Medicina, vinha estudar Direito também. Logo, uma dis­cussão qualquer os empolgava, esqueciam tudo para conver­sar, descobrir o mundo e o perder, na ânsia de sair pela cida­de, farrear, beber.

— Estou sem dinheiro.

— Eu, também, para variar.

Precisavam justificar o estado de embriaguez em que já se achavam.

— O jeito é vender o Yorick.

Yorick — o esqueleto — pertencia ao pai de Mauro, que era médico.

— Vou fazer prova de anatomia. Tenho vivido noites de Hamlet, com aquela caveira me espiando. Quem teria sido? Como viveu? Que pensou? Para quem aqueles dentes se mos­traram num sorriso? Que palavras saíram daquela boca?

— Você nunca leu “Hamlet”, calabrês.

— Fiz um poema chamado “Balada Macabra”, vocês que­rem ouvir? É uma obra-prima.

— Depois, depois. Vamos ao que interessa: quanto vale o esqueleto?

— Tive uma oferta de cem cruzeiros. É pouco.

— Pouco? Eu venderia o meu por dez, só para tomar um chope hoje.

À porta de casa Mauro os deteve:

— Vamos com calma. Há qualquer coisa de podre no reino da Dinamarca.

A luz do gabinete estava acesa.

— Vocês sobem e fazem o serviço. Eu distraio o velho.

Enquanto o esqueleto saía pela janela, dependurado num barbante, Mauro distraía o velho:

— Meu filho, você tem prova amanhã?

— Tenho.


— Estudou?

— Já.


— Então me fale no aparelho digestivo.

— Ora, papai, tem cabimento falar no aparelho digestivo? “Comigo se hay vuelto loca toda la anatomia. Soy todo corazón!”

— Que bobagem é essa?

— É um verso de Maiakovski, um poeta russo.

— Poesia não enche barriga de ninguém. E isso não é russo, é espanhol.

Agora os três seguiam pela rua, carregando o esqueleto aos trambolhões, assustando os transeuntes. Não encontraram em casa o provável comprador. Foram procurá-lo no centro, en­traram de supetão numa confeitaria, houve pânico, um garçom chegou a derrubar uma bandeja de sorvetes. Sentaram-se no bar de costume, o esqueleto acomodado numa cadeira, pernas cruzadas, cigarro à boca.

— Chope para três. Hoje é ele que paga.

O dono do Dar não gostou da brincadeira, ameaçou chamar a polícia. Já alta noite, acabaram, os três, num banco da praça, desanimados e secos, cismando na impassibilidade do esqueleto que um dia tivera carnes, sentira fome, sede, talvez tomasse chopes.

— Coitado, afinal merece respeito.

— Seria uma baixeza vendê-lo.

— Não posso voltar com ele. Leve para sua casa.

— Eu? Você quer que eu mate minha mãe de susto?

— E você, Hugo?

— Não fico sozinho com ele, de jeito nenhum.

Eduardo foi à sua casa, em pouco voltava com uma pá de jardim.

Depressa, antes que apareça alguém.

Abriram rapidamente uma cova rasa na terra fofa do canteiro.

— Assim. Deita ele aqui. Adeus, Yorick! Remember me! Agora joga terra.

Se endireitaram, compenetrados, persignaram-se, e sumiram na noite em disparada.

Mundo, mundo, vasto mundo”!

— “Grito imperioso de brancura em mim”!

— “Meu carnaval sem nenhuma alegria”!

De súbito, um deles sugeriu:

— Vamos subir no Viaduto?

Hugo era o mais ágil: galgava o parapeito com presteza, corria sobre a estreita fita de cimento, a trinta metros do solo, como se andasse em cima de um muro. Curvado, subia o grande arco que se elevava, abrupto, sobre a própria amura­da. Eduardo subia do outro lado. Lá em cima se encontra­vam, equilibristas de circo, passavam um pelo outro, vacila­vam, ameaçavam cair. Mauro ainda não tivera coragem; os dois se sentavam na viga de cimento armado suspensa no es­paço, balançavam as pernas no ar, gritavam para ele:

— Sobe, carcamano!

— “Mijemos em comum numa festa de espuma”!

Naquela noite Mauro se animou a subir. Quando se viu largado no vazio, tendo sob os pés apenas meio metro de cimen­to e lá embaixo, muito embaixo, os trilhos da estrada de ferro a brilhar, um trem passando exatamente naquele instante, não resistiu à vertigem. Deitou-se de bruços, agarrou-se com força, dilacerando as unhas na superfície áspera, pôs-se a chorar:

— Não desço mais. Pelo amor de Deus me tirem daqui. Chamem o Corpo de Bombeiros!

Era extraordinário que a brincadeira imprudente não terminasse em tragédia. E se repetia porque (rezava a tradição) um poeta (um grande poeta) havia feito aquilo antes, para se divertir. Anos mais tarde Eduardo lhe perguntaria se era verdade e o poeta haveria de confirmar:

— Parece difícil, mas não é tanto, você não acha?

No seu tempo, subia às três da tarde, depois de tomar apenas um copo de leite, pour épater les bourgeois. A nova geração procurava imitá-lo nos versos e nas proezas, mas precisavam beber para criar coragem.

Alguém soltou um berro. Era Zaratustra:

— “É preciso um grande caos interior para parir uma es­trela dançarina”!

— Que Nietzsche, que nada!

— E daí? Só porque você não leu?

— Então soletra ao menos o nome dele, se você é capaz.

— Nietzsche também nunca leu Nietzsche.

Encharcados de literatura, pelas ruas da cidade.

— Eu sou um tímido! — gritou Mauro para os transeun­tes espantados.

— “Vivo em ti minha tímida ternura” — citou Hugo.

— De quem é esse verso?

— Meu, uai.

— Ti-ti-tê? Titica.

— Aliteração, seu merda. Você não entende dessas coisas. Já não se identificavam com o ambiente na oficina do jornal.

— Veiga, esta vida está te matando. Você se mediocriza aqui dentro, a troco de quê?

— Acaba subliterato, feito o Java.

Java ia passando:

— Subliterato é a puta-que-pariu.

Os três puseram-se a cantar:

O pau rolooou... caiu!

Vamos pra puta-que-pariu.

— Não se incomode, Java; é uma espécie de polifonia literária.

— Está tudo bêbado — constatou o Veiga, dando de ombros.

No caminho de volta, sentiram-se mal, resolveram deter-se no canal do córrego Leitão:

— Vamos vomitar, minha gente.

— Atenção! Vomitar!

Procederam meticulosamente ao ritual: tiraram o paletó, afrouxaram a gravata, debruçaram-se na amurada, meteram o dedo na garganta. Depois, aliviados, foram subindo a pé a rua deserta. Nova distração: arrancar placas das paredes, trocar a numeração das casas e o nome das ruas. Uma noite a placa “É Proibido Pisar na Grama” do jardim da igreja de Lourdes foi parar no jardim da casa do delegado. O delegado, peque­no e de cavanhaque, costumava aparecer no bar, pela tarde. Travava com os rapazes longas discussões sobre literatura. Chamavam-no de Barbusse.

— Imagine o que uns moleques me fizeram ontem — dizia ele.

Os três se punham a rir. O delegado não deixava por me­nos: na sua primeira noite de plantão mandou um guarda percorrer a cidade:

— Prenda o primeiro que encontrar, se possível os três. Já devem estar bêbados.

Pouco tempo depois, estavam presos. E bêbados.

— Não fizemos nada.

— Barbusse, abra essa porta senão vai ter.

— Nosso despertar será terrível!

Logo, o delegado começava a discutir com eles, através das grades:

— Superado o parnasianismo? Ora, vamos deixar de bobagem, meninos! Depois de Bilac o que foi que houve no Brasil, hein? Me digam! Pois fiquem sabendo que Alberto de Oli­veira...

Vingaram-se, trancando o portão de sua casa com um rosário de cadeados furtados de outros portões. O delegado não pôde sair à rua.

— Vocês ainda se estrepam comigo — ameaçava, parti­lhando com eles uma cerveja.

Nada mais a fazer — a cidade dormia e a noite avançava. Cansados, deixaram-se ficar num dos bancos da praça:

— Chegou a hora de puxar angústia.

Puxar angústia era abordar um tema habitual, como el sentimiento trágico de la vida, le recherche du temps perdu, to be or not to be:

— Você já pensou que daqui a cem anos estaremos mortos?

— O que são cem anos, diante da eternidade?

— Esta vida é uma merda.

Tema habitual de Hugo: o efêmero da existência. Nada va­lia nada, tudo precário, equívoco, contraditório. Vinha escre­vendo um livro, uma espécie de ensaio poético, em que pro­curava traduzir este sentimento da inutilidade das coisas. Era a palavra-chave; bastava dizer, a certa altura, com um suspiro de desalento: “mas que cooooisa!” e a angústia baixava logo as negras asas sobre os três. “Angústia? Mal sabíamos com que estávamos brincando”, diria cada um para si mesmo, anos mais tarde, quando a verdadeira angústia os apanhasse.

Tema habitual de Mauro: a incidência no tempo e no espa­ço: a inexorabilidade do fortuito na vida de cada um. Seu pai jamais se encontrara com sua mãe. Ele próprio nascera cem anos atrás. Cada gesto, cada palavra, cada pensamento seu refletia-se nos outros, alterava-lhes a vida, comandava-lhes o destino. Ali, sentado no banco do praça, ele estava, por uma série de relações, ou ilações (gostava desta palavra) negativas, alterando o curso das coisas, talvez o curso da guerra.

— Vivo em mim a humanidade inteira! — e se erguia, entusiasmado.

Tema habitual de Eduardo: o tempo em face da eternida­de. Caminhamos para a morte. O futuro se converte, a cada instante, em passado. O presente não existe. Vivemos a morte desde o nascimento.

— Nascemos para morrer.

E ficavam calados, solenizados, angustiados enfim, diante da gravidade do que Eduardo sentenciara.

— Para isso vivemos. E está certo, é a nossa chance, a que todos têm direito. Matar não é tão grave como impedir que alguém nasça, tirar a sua única oportunidade de ser. O aborto é o mais horrendo e abjeto dos crimes. Nesse ponto, Job es­tava completamente enganado: nada mais terrível do que não ter nascido.

Uma noite Eduardo e Hugo foram ao banco da Praça, já de madrugada, especialmente para chorar. Encontraram-se por acaso numa festa de carnaval. Em meio à animação rei­nante, o efêmero das coisas juntou-se ao tempo-versus-eternidade, e não resistiram: foram chorar na Praça o tempo per­dido. Mais tarde viriam a saber que, por um desses milagres de afinidades eletivas que os unia, Mauro, em casa, saqueie mesmo instante chorava também. A incidência no tempo e no espaço.

Mauro encerrava a sessão de angústia propondo que alimentassem a besta:

— Chega, gente, é demais. Forniquemos.

Sem dinheiro como viviam, o hábito era percorrer as ruas da cidade, noite adentro, à cata de mulatas.

— Uma grande instituição.

— “O último ouro do Brasil”.

Perdiam-se pelo Bairro dos Funcionários vendo em cada sombra de árvore ou em cada capote de guarda-noturno uma empregada a caminho de casa. Certa madrugada, Mauro abor­dou um vulto de mulher que seguia apressado, de braços cruzados.

— Sozinha, meu bem?

— Não — e a mulher lhe brandiu à cara um rosário: Com Deus.

Impressionado, desde então Mauro pontificava:

— Nunca abordar mulheres de braços cruzados. Estão indo para a missa das cinco.

Eduardo esquivava-se, disfarçava: desde a primeira experiência, não estivera mais com mulher. Nada dissera a ninguém, chegara mesmo a inventar histórias. Em casa, a empregadinha deixava aberta a porta do quarto, que dava para a cozinha, expondo o corpo seminu aos seus olhos, quando ia tomar um copo de leite antes de dormir. Mas um incidente em casa de Mauro pusera água na fervura, temia que lhe acontecesse o mesmo, temia que seu Marciano descobrisse. Depois de várias incursões furtivas e bem sucedidas até o quarto da empregada de sua casa, Mauro, pesado que era, quebrara estrepitosamente o catre onde dormia a mulatinha, acordando toda a família.

— Um filho meu!

— Não respeita o próprio lar!

A mãe de Mauro chorava, o pai de Mauro bramia:

— Vergonha! Nunca, na minha família! Amanhã você vai embora daqui.

No dia seguinte ia embora a empregada.

O ancinho do jardineiro desenterrou uma ossada humana no jardim da Praça. O encontro macabro foi noticiado pelos jornais.

— Yorick ressuscitou.

— Precisamos celebrar.

Não foram longe, naquela noite: no caminho de um a outro bar, Hugo começou a sentir-se mal:

— Não sei o que estou sentindo... Meu Deus, me segurem!

E caiu. Eduardo e Mauro se precipitaram, ergueram-no do chão:

— Radiguet! Oh Radiguet! O que é que há com você, rapaz?

Raymond Radiguet entreabriu os olhos, arfante, apoiado nos companheiros:

— Não sei... Estou sentindo... Estou... Me segurem, já vou de novo. Me segu...

Tornou a desmaiar. Os dois se entreolharam, apreensivos, resolveram transportá-lo:

— Para onde?

No Pronto-Socorro, foram atendidos por um enfermeiro:

— Coma alcoólica — disse. — Que diabo vocês andaram bebendo?

— Cachaça, doutor.

— Não sou doutor. Me ajudem aqui. Vocês dois também não estão lá muito bons.

Ajudaram-no a descansar o corpo do amigo na mesa e o enfermeiro aplicou-lhe uma injeção de coramina.

— Daqui a pouco começa a espirrar feito um maluco, vocês vão ver só. Vai dizer que se resfriou.

Hugo voltava a si, olhava em torno, aparvalhado, dava um espirro.

— Peguei um resfriado.

Outro espirro. Cambaleou, ao tentar um passo, amparou-se nos companheiros:

— Meu Deus, essa gripe! — disse, entre dois espirros.

Na rua, mal podia caminhar. Apoiou-se ao muro, deu cinco espirros seguidos:

— Por favor, estou passando mal. Fico por aqui, vocês podem ir andando.

Curvou-se para a frente e emborcou. Contiveram-no a custo.

— Me larguem. Bestalhões. Cachorros.

Tentaram dominá-lo, mas ele se espalhava, aos safanões:

— Quem me encostar a mão, eu mato.

Sentou-se no meio-fio, escondeu a cabeça nos braços.

— Que porre mais esquisito. Está nos desconhecendo.

— Até que não bebeu tanto assim.

Sentaram-se ao lado do companheiro, na esperança de conquistá-lo com brandura:

— Hugo! Que é isso, rapaz? Somos nós.

— Não fica assim não, minha flor.

Ele afundou mais a cabeça entre os joelhos: estava vomitando. Entre seus sapatos, na sarjeta, surgiu uma mancha vermelha.

No dia seguinte o pai de Hugo telefonava ao pai de Mauro, seu velho conhecido.

— Esses rapazes estão impossíveis, Lombardi. O meu, ontem, me apareceu passando mal, completamente embriagado. Esteve por aí, na pândega, em companhia do seu.

— Eu estava mesmo para lhe falar sobre isso! — explo­diu o outro. — Esse menino é a tragédia da minha vida. On­tem, por pouco não botou fogo na casa. Dormiu de cigarro aceso.

— O meu me preocupa por causa da saúde. Não é lá muito forte, e agora deu para isso...

— E o meu? Não sei como fui ter como filho um banda-lho destes.

— Precisamos conversar.

— Isso! Conversar.

Um encontro: tratar do assunto, tomar providências. Mas era preciso convocar também seu Marciano, pai de Eduardo — a quem conheciam apenas de vista:

— E aquele é o pior. Já proibi meu filho de andar com ele — afirmou o Dr. Lombardi.

— Você desculpe, meu velho, mas o pior é o seu mesmo.

Telefonaram para seu Marciano, marcaram uma visita.

— Os pais de seus amigos vêm aqui — disse seu Marciano para o filho. — Se queixam de que vocês passam a noite na pândega.

— Esta palavra não se usa há mais de vinte anos. Na farra, o senhor quer dizer.

Seu Marciano olhou para o filho:

— Sei lá... Não entendo a mocidade de hoje.

— Estudantadas, papai.

— É isso mesmo — admitiu o velho.

Quando os dois vieram, solenemente, discutir a questão, seu Marciano procurou liquidá-la de saída:

— São moços, é preciso a gente compreender. Estudan­tadas.

— Estudantadas? No nosso tempo, estudante era algo respeitável...

— No nosso tempo... — começou o outro, seu Marciano fez um gesto:

— Ah! Não fale no nosso tempo, doutor.

— O senhor vai me desculpar, mas vou lhe dar um exem­plo: ainda outro dia soube que seu filho ameaçou suicidar-se, subindo no alto do Viaduto...

— Suicidar? Meu filho? — seu Marciano arregalou os olhos, voltou-se para dentro: — Eduardo!

Eduardo veio até a sala.

— Estão dizendo que você ameaçou se suicidar, subindo no Viaduto.

— Eu? Suicidar? Quem disse isso?

— Meu filho me disse que você — começou o pai de Hugo.

Eduardo o interrompeu:

— Não tem perigo nenhum. Estou acostumado a saltar do último trampolim, lá na piscina.

— E posso saber que proveito você tira, arriscando assim a vida?

— Posso saber que proveito vocês tiram, não arriscando a sua?

Seu Marciano mexeu-se na cadeira.

— Meu filho anda comprando bebidas na conta do arma­zém — denunciou o pai de Hugo.

— Isso não é nada! — e o pai de Mauro brandiu o punho: — O que vocês fizeram do meu esqueleto?

Voltou-se para os outros, desalentado:

— Sumiram com o meu esqueleto

Seu Marciano custava a seguir o curso que a conversa tomava. Olhou interrogativamente o filho.

— Surrealismo, papai.

— Surrealismo?

Os dois visitantes se entreolharam, sem entender. Seu Marciano suspirou, mais descansado.

— Surrealismo: a libertação dos impulsos do subconsciente em forma de arte. A vitória sobre a censura do consciente. So­nhos, Freud, psicanálise — essa história toda.

— E vocês... são surrealistas?

— Que pretendem, afinal?

— Não sabemos ainda. Pretendemos — e o jovem inclinou-se para a frente, juntando os dedos, olhar brilhante — não a libertação do nosso subconsciente em forma de arte, o que os surrealistas já fizeram e cansaram de fazer — vocês nunca ouviram falar em André Breton? Não, pelo jeito nunca ouvi­ram. Bem, mas eu dizia: não a libertação dos impulsos do subconsciente de cada um, compreende? mas o desencadea­mento das forças comuns a todo homem, de toda a humanidade, sabe como é? adormecidas, há séculos, pelas exigências da vida em sociedade. Subjugadas pelos preconceitos. A mo­ral burguesa. As convenções sociais. O lugar-comum. Essa coisa toda. Uma espécie de subconsciente coletivo, de que Freud não pensou, nem ele, nem ninguém.

— Você pensa que Freud... — e o Dr. Lombardi pigar­reou. Eduardo não o ouvia:

— Estudaram a psicologia das multidões mas se esquece­ram de levar o estudo até as profundas do inferno, isto é, do subconsciente da humanidade- Agora, esse subconsciente é que virá à tona, enfim liberto, e será belo, será terrível! Será o regime do terror, a própria loucura.

— Com loucura não se brinca! — advertiu Dr. Lombardi.

— Você precisa descansar, levar uma vida mais regrada — disse o outro, persuasivo. — Está um pouco nervoso, excitado. Quando eu tinha a sua idade...

Seu Marciano acompanhou-os até a porta:

— Não se impressionem com o menino. Ele é assim mes­mo. Fala essas coisas, mas, no fundo, é muito ajuizado.

— Cuidem de seus filhos, eu cuido do meu! — acrescentou, ao vê-los pelas costas. Voltou-se, ao dar com o rapaz:— Eduar­do, escuta aqui uma coisa: está muito bonito que você escreva aí suas poesias, se encontre com seus amigos, façam surrealis­mo, etc.. Só lhe peço uma coisa: termine seu curso de Direito, tire o seu diploma. Para isso, é preciso que você cuide de sua saúde, não deite tão tarde, não beba demais. Sei que não adian­ta falar, mas, enfim, estou cumprindo meu dever! Muito cuidado com a vida que você leva... Que história é essa de Viaduto?

— Não subo mais, prometo.

— Você subia lá em cima? Na parte mais alta?

— Naquele arco de cimento, sabe como é? A uns trinta metros do chão.

— Valha-me Deus! Você está maluco.

— É uma coisa à toa, papai. Muito mais difícil é saltar de trampolim.

— Você deixou mesmo a natação?

— Deixei: com o estudo, e a vida que eu levo, é difícil treinar. Mas meus récordes ainda não foram batidos.

— Quer dizer que você ainda é campeão.

— Sou.


Entreolharam-se, pai e filho. Seu Marciano pôs a mão no ombro do rapaz:

— Meu filho, não diga para sua mãe, ela se preocupa de­mais com você, não quero que comece a se preocupar tam­bém comigo. Mas você é exatamente como eu gostaria de ter sido.

Hugo ontem vomitou sangue.

— Eu vi. Aquilo era sangue?

— Só podia ser.

Calaram-se, impressionados, ficaram pensando.

— Você acha que isso quer dizer...

— Não quer dizer nada. Isso acontece, o álcool costuma irritar a mucosa do estômago, pode ferir. Ele bebeu com es­tômago vazio. Não era hemoptise.

— E o doutor acha que devemos dizer a ele?

— Doutor é a mãe. Não, não diga nada, para que assustar o rapaz?

Em pouco chegava Hugo:

— Então a coisa ontem esteve feia, hein? Dei muito trabalho?

— Se deu. Mas o doutor aqui acha que você está fora de perigo. Sabia que Bouvard e Pécuchet estiveram lá em casa, hoje?

— Como foi a reunião dos três grandes?

— Papai chegou falando o diabo de você.

— Foi uma palhaçada. Mas não tem importância. Olhem: comunico-lhes, solenemente, que está fundado o terrorismo.

Base do novo movimento: preconizar e difundir o terror, de todas as maneiras, em todas as suas manifestações. O Ter­ror nas Letras, cujo protótipo seria a novela “Metamorfose”, de Kafka.

— Kafka era um terrorista. Incentivar todas as situações terroristas, estabelecer o pânico, lançar o terror.

— E a solução? — perguntou Mauro.

— A solução é a conduta católica — respondeu o amanuense Belmiro.

— A solução é o próprio problema, sabe como é? Não há solução. Imagino a seguinte cena: um congresso de sábios, os mais sábios do mundo, que se reuniram para resolver o pro­blema dos problemas, o problema transcendental, o Problema, tout-court.

— O problema o quê?

— Tout-court. Vá à merda.

— Ah, tout-court. Merci.

— Pois bem: estão reunidos, os sábios, a postos para começar a trabalhar, encontrar a solução do problema, e o Presidente do Congresso dá por iniciada a sessão, anunciando que vai, enfim, dizer qual é o Problema que os reuniu. Faz uma pausa, e declara solenemente: “Meus senhores! O problema é o seguinte: Não há problema!”

— E daí?


— Daí os sábios terem de resolver o problema da inexis­tência do problema. É o terror.

— Confesso que não entendo.

— Vocês não entendem porque são burros: no nosso caso, é a mesma coisa. Só que o problema, o que não há é a solução. Logo, está solucionado.

— E qual é o problema?

— O problema é o terror

— Ah!


Calaram-se, os três, e riram, deslumbrados à idéia de que agora sim, estavam completamente doidos — os pais tinham razão.

— Es una cosa terrible, la inteligencia!

— Unamuno não era terrorista.

— Dê três exemplos de situação terrorista.

— Um grito na igreja, uma gargalhada no velório, um árabe no elevador.

— Muito brando. É o que se pode chamar, apenas, de “terrorismo cor-de-rosa”. O verdadeiro terrorismo é o absurdo mais terrível, por exemplo: o do homem que se apaixona por um fio de cabelo da amada, e quer viver com ele, dormir com ele, ter filho com ele...

— É, meus amigos, o inevitável aconteceu.

— Bom lema para o terrorismo: O Inevitável Aconteceu! Se considerarmos o aconteceu, aí, como substantivo e não como verbo.

— Precisávamos é de uma coisa para símbolo.

— A coisa — prosseguiu Eduardo: — A Coisa é o símbolo. Ninguém sabe o que é. Está em toda parte e não está em lugar nenhum. Assume todas as formas. Pode ser um senti­mento, um objeto, uma cor — só que tem de ser uma coisa, isto é: um substantivo. Por isso concluímos, há pouco, que aconteceu não era verbo. Onde a Coisa estiver, aí estará o terror.

Os outros dois ouviam, um tanto apreensivos. Eduardo falava sem parar:

— Me lembrei de uma coisa inventada por Salvador Dalí — A Coisa era um pão. Sairia no jornal com manchete assim: “O Inevitável Aconteceu — A Descoberta do Pão”. Um pão monumental, exatamente igual a um pão-francês comum. A diferença estaria no tamanho: mediria dois metros de comprimento. O pão era encontrado na rua, levariam para a polícia. Estará envenenado? Conterá explosivo? Propaganda política? Os comunistas, o pão-para-todos? Anúncio de padaria? Os jor­nais comentavam e discutiam o que fazer do pão. Era só o assunto ir esfriando, e um pão maior ainda, de cinco metros, amanhecia atravessado no Viaduto. Toda a cidade empolgada com o mistério, a polícia desorientada, o pão analisado nos laboratórios. E continuava o problema: que fazer com ele? Para despistar, um de nós escrevia um artigo sugerindo que fosse cortado em milhares de pedaços e doado à Casa do Pe­queno Jornaleiro. No Rio, em São Paulo, Recife, Porto Alegre começavam a aparecer pães, cada vez maiores, nos lugares públicos. Eram os membros de uma sociedade secreta já fun­dada, a Sociedade do Pão, que começavam a trabalhar. E um dia surgiria outro pão gigantesco em Roma, outro em Lon­dres, outro em Nova Iorque. A humanidade deixaria de se preocupar com seus problemas, as guerras seriam esquecidas, até que resolvessem o mistério do pão. Era a vitória pelo Terror.

— Você já pensou no tamanho do forno para assar esse pão?

— Isso não é problema para nós: a idéia é de Salvador Dali, que, aliás, é um vigarista.

— É uma besta.

— Falso terrorista.

— Abaixo Dali!

A noite avançava e, de súbito, a Praça ficou inteiramente deserta. Fora-se o último casal de namorados e só restavam os três, no banco de sempre: o coreto vazio, o busto de D. Pedro II entre roseiras, o repuxo no lago.

— Vamos descer, pessoal? — propôs Hugo. — Comer al­guma coisa.

— Ou alguém — sugeriu Mauro: — Meu reino por uma mulata.

— Imaginem se o homem tivesse capacidade sexual limi­tada, digamos para trinta vezes. Idéia terrorista.

— Idéia cretina. Eu já teria gasto a minha há muito tempo.

— Os pródigos: aos vinte anos só teriam uma de reserva.

— Não, minha nega, tenha paciência, só me resta uma, não posso gastar com você.

— E os econômicos? Se continham a vida inteira e, na hora de morrer, se queixariam: e eu, que ainda tinha vinte e sete!

Mauro se ergueu, incontido:

— Proponho que gastemos imediatamente uma das nossas.

Foram para a zona boêmia. Eduardo já resolvera o seu problema, exatamente como no sistema terrorista: o problema existia, não existia era a solução. Haveria de arrastar, vida afora, o seu dilema, oscilando entre “as exigências da vida e sua ânsia de pureza” — como dizia num verso.

— Parece anúncio de sabão.

— O incorruptível Marciano.

— Eduardo, o Donzel Impenitente.

Mas Hugo acabava confessando, deprimido:

— Também não vejo solução: nos lugares mais puros, numa casa de família, na igreja, tenho os pensamentos mais safados. Ainda ontem, na missa, me surpreendi olhando as pernas de um menino. Numa casa de mulheres me sinto puro, tocado pela Graça. E passo a catequizar as putas, falando de Deus, na salvação eterna.

— Pois eu não — trovejava Mauro: — Me sinto sórdido!

E citava o poeta:

“...uma pureza que não tenho, que perdi.”

Continuavam a conversar por citações, insensivelmente. Já haviam incorporado à sua gíria familiar todos os versos do poeta que mais admiravam:

— Perdi o bonde e a esperança, volto pálido para casa, cismando na derrota incomparável, sem nenhuma inclinação feérica, com a calma que Bilac não teve para envelhecer, tudo somado devias precipitar-te de vez nas águas, seria uma rima, não seria uma solução — eta vida besta, meu Deus.

— Estive pensando... Por que não fundamos uma revista? Que fosse representativa de nossa geração, desse o nosso testemunho...

— E nos desse um dinheirinho...

Eduardo telefonando a Hugo:

— Radiguet, sabe de uma coisa? A Besta-Fera está queren­do fundar uma revista.

Marcaram encontro para fundar a revista: selecionaram os colaboradores, conversaram horas.

— Como vai se chamar?

— “Revista” mesmo. Não vamos quebrar a cabeça com isso não: acaba não saindo.

— Por que não?

— Onde arranjar dinheiro?

— Se arranjarmos dinheiro não precisamos de revista.

E a revista morreu ali mesmo, transformada num plano qualquer de ganhar dinheiro:

— Tenho uma idéia: vender guarda-chuva em dia de chuva. A gente compra uma porção de guarda-chuvas baratos, no tempo da seca (a cigarra e a formiga) e, à primeira chuva que cair, põe dois ou três meninos vendendo pela rua, ao dobro do preço. Estou certo de que é negócio.

— Essa sua idéia é uma indecência. É o que os comunistas chamam de mais-valia.

Um dia Eduardo chegou em casa com a novidade:

— Sabe, papai? Procurei o homem! Estou empregado.

Seu Marciano não estranhou. Acostumara-se aos repentes do filho.

— O diabo é ter de ficar lá, das onze às cinco.

Informava processos e lia escondido do chefe, o livro den­tro da gaveta. Leu Machado de Assis, desistiu de ser roman­cista. Leu “Dom Quixote”, decidiu tornar-se picaresco. Toledo lhe emprestava livros de Azorin, Menendez y Pelayo, Ortega y Gasset. Que pretendia Toledo? Que ele se especializasse em literatura espanhola? Começou a ler Proust com dificuldade.

— Sabem de uma coisa? Não vai não.

Hugo protestou: seu autor de cabeceira.

— Você não tem sensibilidade para esse tipo de leitura.

— Pois um dia hei de ter: quando você não tiver mais.

E se afastou, ressentido. Mais tarde, reformaria o juízo sobre Proust, sobre a literatura em geral, sobre a vida.

— “A vida e o amor inclusive”.

— Pois vou começar a estudar inglês. É uma vergonha a gente ainda não ter lido “Ulysses”.

Mauro se limitou a erguer os ombros: não precisava ler inglês para saber que a vida não valia a pena e a dor de ser vivida:

— Olha aqui, você lê, depois me conta. Agora não tenho mais tempo, também estou trabalhando: estou vendendo re­médio.

Era uma pasta cheia de amostras que tinha de sair distribuindo pelos consultórios.

— Quem manqueja de sua influência, cedo tardará — arrematou.

Tinha mania de inventar provérbios:

— Quem as ganha, as mágoas amarfanha.

— Quem de si faz alarde, cedo o rabo lhe arde.

Eduardo deixava o paletó na repartição, esquivava-se pela porta como se fosse ao mictório, ganhava a rua, ia encontrar-se com Mauro e sua pasta de remédios:

— Besta-Fera, está uma tarde belíssima. Vamos à Pampulha tomar uma cerveja.

— Você está doido? Não posso, de jeito nenhum.

— Não analisa não.

Era a palavra de ordem, espécie de lema que comandava o destino dos três, diante do qual nenhum obstáculo se sustinha. Acordo tácito, compromisso de honra: não analisar, porque do contrário surgiriam problemas, todos tinham seus problemas: esmiuçando motivos, prevendo conseqüências, nenhuma atitu­de seria possível, a vida perderia a graça. Tinham de viver em cada momento uma síntese de toda a existência, não analisar jamais! Mauro abandonou sua pasta de remédios no meio-fio:

— Pronto, não tenho mais emprego, não tenho mais nada, sou apenas um coração solitário. Vamos.

Tomaram o ônibus:

— Experimente olhar a cidade com olhos de turista. Olha aquela casa ali, que esquisita. Estamos em Beirute. Olha a cara das pessoas. Todo mundo tem dois olhos para ver, que coisa estranha. É preciso ver a realidade que se esconde além, onde a vista não alcança. Sob o manto diáfano da fan­tasia, a nudez forte da verdade. Palma Cavalão, você é uma flor por ter tirado o meu emprego, não trabalho mais. Não sou mais representante de remédios, não sou mais represen­tante de coisa nenhuma, a não ser das minhas contradições mais absurdas. Você é a última flor do Lácio, inculta e bela! Devíamos ter trazido o Radiguet.

Hugo também estava trabalhando: arranjara um lugar de professor de português, num colégio particular. Vivia se quei­xando da saúde, não podia beber, tinha dor de cabeça, tinha de acordar cedo, de corrigir provas, um milhão e meio de encargos, era um infeliz, seu pai lhe pedira que pusesse uma carta no correio, como pôr uma carta no correio se não tinha selo? como comprar selo, entrar na fila, esperar, oh, viver como era difícil, não, não podia sair com eles, não tinha dinheiro, não tinha onde cair morto, estava mesmo para mor­rer, sentia umas cólicas, umas pontadas...

— Não posso, de maneira alguma.

— Não analisa não!

— Dentro de meia hora estarei aí.

Depois de várias cervejas, Eduardo propôs que fossem, aquela noite, a uma festa no clube. Mauro aceitou a idéia entusiasmado, Hugo vacilou:

— Festa no clube? Eduardo tem cada uma... Além do mais não tenho roupa de festa. Meu terno terá chegado do tintureiro? Mesmo que tivesse, eu não iria. Ou iria, não sei. Pois vá logo, senhor. Vá, tome um porre, deixe a vida correr. Se entrar em casa com o pé direito, vou. Por que você não foi à festa? Porque entrei em casa com o pé esquerdo — onde já se viu? Então fica resolvido assim: mais tarde eu re­solvo. E chega! Pensar noutra coisa. Se eu fosse um sujeito bem sucedido na vida, já teria arranjado emprego melhor. Mas não vou à festa, quer dizer, não vou pensar nisso agora. Meu Deus, esta vida, sem a eternidade, seria uma molecagem. Não vou de jeito nenhum. Depois de jantar vou... Vou? Vovô. O viúvo viu a ave. Ah, então vou, não é? Eu sabia que acabava indo.

Não foi, mas prolongou a agonia até as três da madrugada. No dia seguinte, queixou-se com Eduardo:

— Estou ficando cada vez pior: cheguei a me aprontar para ir, acabei dormindo vestido. Que tal a festa?

— A mesma coisa de sempre. Mauro amarrou um porre que só vendo. Tocou trombone na orquestra, dançou sozinho, acabou expulso do salão.

— E as raparigas em flor?

— Cada vez melhores. Conheci uma menina, filha de um ministro, veio passar uns tempos aqui.

— Bonita?

— Mais ou menos. Um pouco irritante.

Eduardo nunca mais se encontrara com Letícia.



Seu romance, iniciado na repartição. Agora, escrevia todas as noites — os amigos queriam, a viva força, arrancá-lo para a rua, ele inflexível:

— Não. Tenho de escrever.

Escrever toda noite. Se não tivesse o que escrever, pagar o tributo devido à arte. Começou a fumar, a instâncias de Mauro.

— Não sei por que diabo só você não fuma.

— Eu era nadador...

— Deixa de bobagem, rapaz. Vontade de ser diferente. Olha, toma aqui um cigarro.

A noite inteira a fumar, olhos pregados no papel em branco. O romance chegara a um impasse: não sabia o que pretendia, escrevendo-o. Os amigos telefonavam:

— Não analisa não.

Não funcionava mais: sem analisar, se recusava. Tinha de escrever.

— Gênio incompreendido.

— Está querendo é nos humilhar.

Havia datilografado e pregado em sua mesa duas citações em inglês:

Here the man of creative imagination pays a ghastly price for all his superiorities and immunities. It is the particular penalty of those who pursue Strange hutterflies into dark forests, and go fishing in enchanted and forbidden streams.

Mencken


“We work in the dark we do what we can we give what we have. Our doubt is our passion and our passion is our task. The rest is the madness of art.

Henry James

— Ora, deixa disso, Lord Byron. Você não sabe inglês!

— Ele é bem capaz de estar estudando escondido.

Sorria, não dizia nada.

— Olha só o ar superior dele. Quer dizer o que significa isso aqui, if you please?

— Isso o quê?

— “Penalty of those”, etc.. É penalty mesmo, como em futebol?

Os dois saíram impressionados:

— Ele parece que resolveu mesmo levar a coisa a sério. Disse que escreveu 90 páginas, só aproveitou 10. Será ver­dade?

— Anda lendo coisas, o sacaria. Quem é esse Mencken?

— Henry James eu sei: tem uma novela que já foi tradu­zida. Isso ele pode ter lido.

— Você não acha que é um desaforo ele não querer sair conosco? Disse que não há força humana que o tire de casa hoje.

— No que ele muito se engana.

Em pouco Eduardo recebia pelo telefone um recado: o rei­tor da universidade queria falar-lhe, que fosse urgentemente à reitoria.

— Comigo? — espantou-se.

Quase não freqüentava as aulas; escrevera um artigo censurando a atitude do corpo docente em face de uma greve... Saiu de casa preocupado, já buscando argumentos para de­fender-se. Na esquina, encontrou os companheiros:

— Uai, Henry James, resolveu sair?

Com aquilo iniciou-se uma fase em que nenhum dos três tinha segurança mais: vivia-se em estado de expectativa, desconfiança, precaução, mal o telefone tocava.

— Por que não juntarmos nossos talentos? — resolveram, afinal.

Durante certo tempo o telefone foi a fonte de mistério que envolveu quase todas as figuras conhecidas da cidade. Era o Terror; houve até quem pedisse providências à Polícia. Mas os três, eles próprios, jamais descobriram quem lhes telefo­nava, quase todas as noites, sempre à mesma hora tardia, para não dizer nada.

— Papai está furioso.

— Lá em casa quem atende sou eu.

Acusavam-se mutuamente: é você! Eu? Então você. Eu não! Pois se telefonam lá para casa também!

— É o próprio demônio — sentenciaram.

Impressionados, decidiram, prudentemente, suspender a brincadeira, sair para novas emoções.

O demônio existia — Hugo acabara de ler um livro sobre demonologia, passara-o a Eduardo. Mauro se recusou:

— Demônios, bastam os meus.

— Deve ser o Veiga, lá da oficina. Tenho a impressão de que escuto um ruído ao fundo, pode ser de linotipo..

— A essa hora? Que linotipo! Chacoalhar de ossos. — E quem disse que no cemitério tem telefone?

— E quem disse que o Veiga não é o próprio demônio?

Até que os telefonemas acabaram cessando, o que era mistério continuou mistério. E, uma noite, Eduardo e Hugo viram o demônio.

Era uma noite clara, de lua. Os dois foram conversando até o Parque. Havia muito sobre o que conversar, como fa­lavam! Devassavam as razões da existência, descobriam a na­tureza íntima das coisas, tentavam penetrar o mistério do ser.

— Estamos imprensados entre estes dois acontecimentos: o nascimento e a morte. Temos apenas 60 anos para resolver o problema, talvez menos.

— Não há problemas: só há soluções.

— Só há uma solução: morrer.

— As nossas contradições. Vivemos segundo nossas emoções do momento, procurando localizar, descobrir uma constante e dizer: isso sou eu.

— Ninguém entende nada de nada.

Passaram pela ponte rústica, de madeira já podre, ganha­ram a ilha deserta, no meio do lago já seco. Havia uma tou­ceira de arbustos, um banco de pedra, uma estátua de már­more pálida de lua. Sentaram-se no banco e se calaram, ten­tando entender o silêncio. As palavras tinham um sentido além delas mesmas. O silêncio seria, sempre, o único meio de entendimento perfeito.

— Eduardo.

— O quê?

— Estou com medo.

— Eu também.

— Você não acha que este lugar...

Foram interrompidos por um ruído atrás do banco. Levantaram-se, assustados, voltaram-se, e viram — ambos viram — um homem alto, magro, lívido vestido de smoking, um cravo vermelho na lapela, sorrindo para eles. Com um grito de pavor precipitaram-se para a ponte e, em poucos segundos, estavam na rua. Pararam ofegantes, e puseram-se a rir, um riso nervoso, descontrolado. Na fuga, Eduardo deixara cair a caneta do bolso, Hugo torcera o pé.

— Você também viu?

— Quem era?

— Vestido a rigor, no Parque, a esta hora? Só pode ser o demônio.

— Reparou no sorriso, na palidez?

— Que diabo estaria fazendo ali, atrás de nós?

— Quando chegamos não havia ninguém, tenho certeza.

— Naquelas touceiras, talvez...

— Eu estava justamente pensando na estátua de Anita Garibaldi, a solidão da estátua naquela ilha... Senti uma coisa... De repente, olho para trás...

— Alguém que tivesse saído de uma festa, talvez bêbado.

O Automóvel Clube é ali perto.

— E aquele sorriso, aquela palidez?

— Algum pederasta.

— O que não exclui a hipótese de ser o demônio, pelo contrário.

— O melhor é a gente nem falar mais nisso.

— É melhor.

Ficaram pensando.

— Não posso suportar a solidão de Anita Garibaldi, na­quela ilha, naquele ermo...

— De mármore. Deve ser muito pesada.

Comunicaram o plano a Mauro: arranjariam um automóvel, de madrugada removeriam a estátua.

— Para onde?

Não sabiam. E nenhum deles tinha automóvel. A idéia de voltar àquele lugar os apavorava. Falaram a Mauro sobre o homem de smoking.

— É o terror — dizia Mauro, entusiasmado, porque não tinha visto.

Subiam a rua em direção à Praça. Detiveram-se diante da coletoria:

— Já repararam como esta porta é fácil de abrir? Basta tirar os pregos da dobradiça.

— Então me ajude aqui.

Em menos de cinco minutos, a porta era retirada. E lá se foram os três, a transportá-la, deixando a coletoria escancarada. A princípio, sem plano nenhum, decidiram depositá-la no jar­dim do delegado. Mas a porta era pesada. Então a depuse­ram na varanda da primeira residência cujo portão encontra­ram aberto.

No dia seguinte os jornais noticiavam, em manchetes, o assal­to à coletoria estadual. Alguém mais passara por ali, depois deles, dera com a porta aberta, resolvera entrar e arrombar o cofre. E o mistério era explorado: a porta fora encontrada na varanda de um antigo coletor estadual.

— Algum inimigo meu — protestava o homem.

— Isso é o cúmulo da coincidência.

— Até ele provar que não é elefante...

— O melhor é ficarmos quietos esses dias.

A porta foi fotografada, submetida à perícia. Amorim, o repórter de polícia, os preveniu:

— O delegado andou me baratinando. Disse que o esque­leto foram vocês que enterraram. E este caso da porta...

— Este caso da porta está me intrigando — disse o próprio delegado aos rapazes, no bar.

— Deixa disso, Barbusse. Você nos acha com cara de ladrões?

— Não sei, não... Vocês andam se excedendo.

Uma noite, afinal, envolveram-se em complicação maior. Esquecidos da prudência assumida, arrombaram a vitrine de uma casa de chapéus, pelo simples capricho de pôr na cabeça um chapéu de caçador.

— “Vamos caçar cutia, irmão pequeno!”

Um guarda, surgido inopinadamente da noite, prendeu-os. Tentaram argumentar, confundir o guarda:

— O senhor acha que pessoas de nossa categoria iam arrombar vitrine para furtar chapéu?

— A vitrine já estava arrombada.

— Foi justamente o que nos chamou a atenção.

O guarda protestava:

— Mas eu vi tudo! Estava ali, escondido atrás da árvore.

— Também, tem cabimento o senhor andar se escondendo atrás de árvores?

— Acaba vendo o que não deve.

— Não adianta, foram vocês — insistia o guarda. — Eu vi.

— As mãos são mais rápidas que os olhos.

— O que os olhos não vêem, o coração não sente.

— “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

Todos os habitantes da cidade, inclusive o guarda, pode­riam ter sido os autores do crime, exceto eles.

O guarda coçava a cabeça, confuso, mas irredutível:

— Qual, meninos, vocês são muito inteligentes, mas vão presos assim mesmo.

E pôs-se a apitar. Em poucos minutos acorriam guardas de todas as esquinas. Foram escoltados à delegacia.

— Quem mandou você rir?

— Quem riu foi você.

— Vamos ter de acordar o Barbusse.

Ficaram detidos até o nascer do dia, quando foram soltos sob fiança. Conseguiram, graças à intervenção do delegado amigo, ser autuados apenas por desordem e desacato.

— Outra que vocês fizerem, mando descer o pau.

Não gostaram da advertência. Sentiam no ar que a ameaça se concretizaria. Aquilo ainda acabaria mal: por pouco não foram apontados à cidade como ladrões. Não tinha nexo ta­manha leviandade — eles próprios, agora, protestavam. E bus­cavam um sentido, além da simples espontaneidade de viver. Compenetravam-se: estava findo o Regime do Terror.

Vocês pensam que podem reformar o mundo. Também já pensei assim. Com o tempo fui aprendendo umas tantas coisas. É preciso compreender, antes de julgar... A natu­reza humana é frágil, ninguém é perfeito. E é assim mesmo que o mundo tem de ir para a frente...

Começaram a olhar o Toledo com desprezo, não o pou­pavam:

— Literato raté.

— Academia com ele.

Agora se diziam socialistas. Toledo, complacente, ouvia-lhes as idéias, as violentas idéias: tudo errado, administração corrompida, acabar com tudo, instaurar uma nova ordem.

— Eu também sou socialista — dizia ele, tentando ainda captar a simpatia dos rapazes. — Está bem, está bem, é preciso consertar, começar tudo de novo. Mas não posso fazei nada. Tenho minha mulher, meus filhos — um dia vocês ainda hão de ver que isso é o mais importante.

— O mundo não vale o meu lar.

— Vocês hão de ver. Quem foi que disse que todo homem é incendiário aos vinte anos e bombeiro aos quarenta?

— Deve ter sido o Marquês de Maricá.

— Abaixo os vendidos! — e Mauro cerrava os punhos, em plena Praça Sete. Os transeuntes se voltavam, paravam para ver. Mauro subia ao pedestal do obelisco:

— Meus senhores!

Empolgava-se, pouco se importando que o estivessem ouvindo, que o tomassem por louco — até que um dos amigos lhe tirava o entusiasmo:

— Olha a cana chegando. Vamos dar o pira.

Em geral um popular, também entusiasmado, já havia tomado a palavra e se inflamava contra o governo. Este sim, acabava preso — quando os três já haviam partido, deixando o comício formado.

Freqüentavam a missa aos domingos, mas afirmavam, em seus artigos, que não se dobravam ante o clero reacionário:

— Política não é questão de dogma.

— Olhem o caso da Espanha.

— Hay que vigilar!

Liam Bernanos, Mauriac, Maritain — não chegavam até Santo Tomás, mas se diziam neotomistas. O que uma vez ou outra despejavam no confessionário na manhã de domingo, tomavam a fazer na noite de segunda-feira. Por exemplo: be­ber chope no bar até saírem bêbados, praticando desmandos pela rua. Pecado por intemperança. Mauro se rebelava:

— Vai ver que os verdadeiros pecados são outros. Não acredito em códigos, em listas de proibição. Abaixo os dou­tores da lei! Deus me deu um corpo, um animal a zelar.

E saía pela cidade à procura de mulher.

— Trinta vezes, não: uma vez. O homem tem capacidade para uma só vez, e gasta a vida procurando a mulher com quem realizar esta única vez. Depois disso, nada mais in­teressa — atingiu o máximo de si mesmo, deu tudo de si num só jacto, numa só ejaculação, concebeu o mundo à sua ma­neira, pode morrer. Ver Nápoles e depois morrer. O que é que vocês acham?

— Ligeiramente Bilac: “Há no amor um momento de grandeza”...

— E Raul de Leoni também: “Nosso amor conceberia o mundo”, etc. e tal.

— Imbecis! Não é nada disso. A cópula única — o próprio mundo foi concebido assim. O mundo não é senão o fruto da intimidade de Deus consigo mesmo. Mas, vejam só esse espetáculo.

Era uma leva de retirantes dormindo debaixo do Viaduto. Haviam desembarcado na estação, não tinham para onde ir. Mais de cinqüenta famílias: homens magros, sujos, mulheres de olho fundo e cabelo desgrenhado, crianças encardidas e seminuas, trouxas de roupa, esteiras, baús, promiscuidade, mau cheiro, abandono. Revoltado, Mauro saiu dali e telefo­nou do primeiro botequim ainda aberto, para o palácio do arcebispo.

— Falar com o arcebispo? A esta hora?

— Quem está falando?

— É o irmão José, da portaria. Quem é o senhor?

— Um cristão. Basta?

— Um cristão?

— Chama o arcebispo aí, homem de Deus.

— A esta hora o arcebispo está recolhido, não pode atender — informou o irmão, cautelosamente.

— Não pode atender? Até uma farmácia pode atender dia e noite e o representante de Deus não pode?

— O senhor quer falar com o padre Marques? Ele está aqui.

Veio ao telefone uma voz macia, melíflua, delicada:

— Alô?


— Escuta, padre, quero que o senhor transmita um recado urgente ao arcebispo. Na cidade, debaixo do Viaduto, tem mais de cinqüenta famílias de miseráveis dormindo ao relento. São retirantes, parece. Cristãos, como qualquer de nós. E como cristão, exijo que sejam todos albergados aí no palácio.

— Aqui no palácio? — espantou-se o padre. — Mas não há lugar para tanta gente...

— Essa é muito boa: não há lugar! O senhor se esquece de que com sete peixes Cristo alimentou uma multidão inteira?

— Não posso fazer milagres...

— Olha, padre, que eu não estou brincando.

— O senhor podia dar o seu nome?

— Mauro Lombardi. Diga ao arcebispo que em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo...

— Pois não... Pois não...

— São uns vendidos — disse ele, desligando o telefone. — Deviam dar o exemplo.

— Por que você não leva para sua casa? — sugeriu Hugo.

Mauro sofria crises intermitentes de misticismo: Cristo: dizei somente uma palavra. Seu catolicismo era feito de he­roísmo e de conquista, renovado em iluminações brutais. O de Eduardo era sereno e humilde, de uma certeza sem pro­blemas: Deus não abandona àqueles que não O abandonam. O de Hugo era atormentado e sofrido: Senhor, piedade para os que sofrem. Esperança, Fé e Caridade. Os três se reuniam e, juntos, celebravam a páscoa dos militares. Por que dos militares? Não saberiam explicar.

Depois era a posição dos católicos na luta pelo “amilhoramento político-social do homem”. Rerum Novarum. Quadragesimo Anno. Santo Ambrósio. Chegaram, enfim, a Santo To­más: “um mínimo de conforto sem o qual a virtude é impossível”. Escreviam longos artigos que falavam em honra, liberdade, direitos do homem — burlavam os agentes do go­verno, que viam neles agitadores comunistas ameaçando a segurança do regime. Todas as noites o censor revia a ma­téria já composta, cortava, proibia, modificava — então eles se davam ao trabalho de ir à oficina, tornar a escrever, tornar a compor. Abaixo os burgueses donos da vida. Abaixo os exploradores do povo, abaixo os fascistas, abaixo a tirania, viva a liberdade! Aos poucos, aceitando a linha de conduta imposta pelos defensores da democracia, endossando alguns postulados socialistas (falavam muito em reforma agrária, exploração do homem pelo homem, infra-estrutura, participação nos lucros das empresas, socialização dos meios de produção), foram ingressando naquela massa amorfa, que vinha a cons­tituir a Oposição em plena atividade clandestina.

Mauro fazendo política estudantil — em pouco liderava os colegas. No dia em que o reitor da Universidade ia ser homenageado pela congregação dos professores, os alunos, convidados a comparecer, se recusaram, por verem nele um agente da ditadura. Mauro os incitou.

— Podemos ir. Deixem por minha conta.

Levou-os ao auditório da Reitoria, encheu a sala. O reitor e meia dúzia de professores surpreenderam-se com a presença dos estudantes — não contavam com reação tão acolhedora. Antes, entretanto, que o primeiro orador abrisse a boca, Mauro, do fundo da sala, gritou:

— Peço a palavra!

Sem que a palavra lhe fosse dada, anunciou que os estudantes ali estavam para manifestar sua repulsa a um homem indigno de ocupar o alto cargo de reitor da Universidade. E a um sinal seu todos se retiraram, esvaziando a sala.

Na rua os moços se reuniam, excitados, comentavam o incidente:

— Viu só a cara do reitor?

— Chegou a sorrir, pensou que Mauro fosse fazer uma saudação.

— Não esperava por esta.

No banco habitual da Praça, Mauro, inflamado, falava ain­da na sua façanha:

— Você não achou formidável, Eduardo?

— Confesso que fiquei meio triste.

— Triste? Ora essa é boa! Triste por quê?

— Você viu só a cara do homem? Foi como cuspir-lhe na cara, como esbofeteá-lo, como tirar o brinquedo de um menino.

— Que menino! Já vem você com literatura. Um bom filho-da-puta, isso é o que ele é.

— Meio impiedoso.

— Impiedoso nada! Impiedoso é você, defendendo um su­jeito que pactua com a ditadura. Você acha que nós estudan­tes devíamos ficar impassivos...

— Impassíveis — corrigiu Hugo.

— ...diante dessa indecência, homenagear um homem desses, que sempre foi contra nós, que nunca defendeu o direito de estudante nenhum, ficar de braços cruzados, não protestar?

— Não comparecer já era um protesto.

— E você acha que ele esperava que fosse alguém? Você acha, Hugo?

— Não sei. A discussão é de vocês dois.

Eduardo afirmava que não se humilha ninguém impunemente. Travassem uma discussão, um debate. Dessem ao ho­mem oportunidade de se defender. Insultá-lo sem mais aquela e sair da sala não estava direito. Mauro afirmava que um verdadeiro revolucionário não tem dessas bobagens.

— Você é revolucionário lá para as suas negras.

— Para um reacionário feito você.

Irritavam-se, e não chegavam a resultado algum. Hugo sugeriu que resolvessem a discussão no braço.

— Boa idéia — entusiasmou-se Mauro. — Você topa, Eduardo?

Tiraram o paletó, subiram na grama e, entre as palmeiras do jardim, dispuseram-se a brigar. Mauro ria, satisfeito:

— Eduardo Marciano, eu vou te partir a cara.

Não chegou a haver briga. Logo ao primeiro soco, Mauro deu com o adversário no chão, aparentemente desmaiado. Pre­cipitou-se para ele, fora de si:

— Eduardo! Eduardo! Eu te machuquei, minha flor?

Eduardo abriu os olhos, ergueu-se com dificuldade, ajudado pelo outro.

— É, você acertou de jeito.

— Quer dizer que eu ganhei a discussão.

— Ganhou.

— Pois então lhe presto uma homenagem indo embora, para que vocês dois possam falar mal de mim.

Depois que Mauro se foi, Hugo comentou:

— Eu não quis dizer nada, mas quem tinha razão era você.

Eduardo apalpava cuidadosamente a articulação do maxilar atingido:

— A Besta-Fera está cada vez pior.

E passaram mesmo a esculhambar o amigo ausente, como de costume, sempre que dois deles se encontrassem. (Não admitiam, porém, que ninguém mais o fizesse). Mauro andava diferente, mudado. Metia-se com outros estudantes entre os operários, fazia discursos, incitava-os à greve. Fundara um jornal clandestino, violentamente contra o governo, era vigia­do pela polícia. Hugo se limitava a assistir de longe, Eduardo não participava:

— Não nascemos para dar vaia em político no meio da rua, apedrejar casa de ninguém, pregar cartazes, pichar muros. Não somos moleques. Temos é de escrever, denunciar através da arte, dar nosso testemunho. Somos escritores, intelectuais, nossa missão é outra.

De repente se passaram seis meses.

— São uns vendidos — protestava Mauro. — Os políticos fazem conchavos com o governo, prevaricam, atraiçoam. Fa­rinha do mesmo saco. Os comunistas são piores, aliam-se ao ditador, não têm nojo de nada. A Igreja se associa aos donos da vida. E todos cada vez mais gordos! Os intelectuais con­tinuam intelectuais, inteligentíssimos, muito perfumadinhos, o encanto da sociedade. Sórdidos! Mas, e vocês? Não me pro­curam mais, me abandonaram, que é que há?

— Continuo doente — queixou-se Hugo: — Não tenho tem­po para nada, não tenho gosto para nada, sinto um nojo des­graçado de tudo. A vida me esmaga, sou escravo de horários, não sou dono de mim, não sei mais de onde vim nem para onde vou. Mas aqui o Príncipe de Gales parece que vai bem. Está noivo.

— Ainda não — negou Eduardo. — Mas resolvi todos os problemas de minha vida numa fórmula só: a ter de me arrepender um dia, prefiro me arrepender daquilo que fiz e não daquilo que não fiz.

Resolveram aplicar imediatamente a fórmula de Eduardo e celebrar o encontro casual:

— Há quanto tempo não tomo um porre.

— Eu tomei um porre de política, chega.

— Se eu tomar um porre, morro no dia seguinte.

Ao quarto chope, Mauro começou a entusiasmar-se:

— Não sei, estou sentindo que este nosso encontro é para celebrar alguma coisa mais do que nosso encontro. Afinal de contas, aqui estamos juntos os três, até quando? Ninguém sabe, a verdade é esta.

— O que você pensa que é a verdade, talvez não seja o que eu penso — comentou Hugo: — Somos traduzidos em palavras. As palavras não querem dizer nada. Servem só para formar uma verdade comum a todos, que afinal não é de ninguém.

— Hoje nós estamos afiados para puxar uma angustiazinha.

Mauro propôs que, pela primeira vez na vida, fossem verdadeiros. Dizer cada um a sua verdade, o que pensava ser verdade:

— Dizer o que pensamos uns dos outros e de si mesmo. Dizer no duro, sem contemplações. Você topa, Hugo?

— Não sei... Há certas verdades que eu não digo nem a mim mesmo.

— Desde que nos comprometamos a engolir calados, não protestar, não brigar. E, saindo daqui, esquecer.

Debaixo do sorriso de aparente despreocupação, os três se haviam feito graves, sérios. Sentiam no ar a ameaça, o perigo da experiência, sentiam medo. Tiraram sorte, coube a Mauro começar.

— Bem: primeiro, o que eu penso de mim. Antes de mais nada, sou um sujeito inteligente, bastante inteligente. Mas de uma inteligência intuitiva, nada lógica, feita de iluminações, de clarões... Não sei se vocês estão me entendendo.

— Estamos. Continue. Começou bem.

— Inteligência de poeta. Sou um poeta. Agora: sou um desajeitado para viver. Não sei comprar uma camisa. Sou grosseiro, vulgar, suado, me sinto proletário, emigrante, pe­sado, sujo. Amo as pessoas e as coisas...

— E as mulatas.

— Não avacalhem. Amo as pessoas e as coisas mais do que sou amado. Sou um pobre-diabo, mas um pobre-diabo lírico, cheio de riqueza interior. Que não troco pela satisfação bem comportada dos ricos em espírito. Sou um sujeito...

— Chega. E nós?

— Você, Hugo, é um sujeito bom. Sua maior qualidade. Mas, como todo sujeito bom, é um fraco. Talvez influência da saúde, você é fraco e doentio, um sujeito que morre cedo. Não sei explicar... Você não tem mau caráter: tem caráter fraco, é isso. Indeciso, medroso. E como todo medroso, capaz de rasgos de coragem, subir no Viaduto, fazer um discurso em praça pública — Eduardo jamais fará um discurso.

— Não sou orador: sou escritor — interrompeu Eduardo.

— Capaz de nos surpreender com um rasgo de heroísmo, mas também capaz de nos surpreender com um rasgo de mesquinharia. É inteligente, não tem dúvida, mas de uma inteligência maliciosa, insinuante, irônica, o que não é bom sinal, pelo contrário: serve para a perfídia, a maledicência, a traição...

— Chega — pediu Eduardo, já incomodado. Hugo se mantinha imóvel, olhos fixos, nada dizia. — Eu agora.

— Você, Lord Byron, é inteligente também, mas uma inteligência fina, penetrante, como aço, como uma espada. Ao contrário de mim, você é mais capaz de se fazer amado do que de amar. Sua lógica é irresistível, mas impiedosa, irritante. É desses remédios que matam a doença e o doente. Você tem sentimento poético, e muito — no entanto é incapaz de escrever um verso que preste. Por quê? Sei lá. Há qual­quer coisa que te contém, que te segura, como uma mão. Sua compreensão do mundo, da vida e das coisas é surpreen­dente, seu olho clínico é infalível, mas você é um homem re­freado, bem comportado, bem educado, flor do asfalto, lírio de salão, um príncipe, o nosso Príncipe de Gales, como diz o Hugo. Tem uma aura de pureza não conspurcada, mas é ascético demais, aprimorado demais, debilitado por excesso de tratamento. Não se contamina nunca, e isso humilha a todo mundo. É esportivo, é atlético, é saudável, prevenido contra todas as doenças, mas, um dia, não vai resistir a um simples resfriado: há de cair de cama e afinal descobrir que para o vírus da gripe ainda não existe antibiótico.

— Opinião de estudante de Medicina — e Eduardo pro­curava ocultar seu ressentimento com um sorriso. — Você, agora.

Hugo limpou a garganta, tentou controlar-se:

— Bem, eu vou falar porque prometi. Mas acho esta brincadeira meio de mau gosto. Vou falar assim mesmo. E não me poupo como você fez; sei que sou um fraco, um vendido, um covarde...

— Não exagere! — os outros dois tentaram ainda um resto de alegria.

— Me deixem falar. Sou tudo isso, mas sou, também, dono de uma verdade que não se traduz em palavras e, sim, em gemidos. “Je cherche en gémissant”. Sou inteligente, sei disso, mas a minha inteligência não é capaz de iluminações, nem de distribuir justiça, como a de vocês.

— Primeiro você, depois nós.

— É inteligência de defesa. Defesa de menino, sou um menino que não aprendeu a viver e que se defende. Sou um pária, um marcado pela morte, um amaldiçoado.

— Em suma: outro pobre-diabo.

— E eu? — cortou Mauro.

— Você é uma besta. Aquela besta de carne que você tanto alimenta. É um poço de contradições. É um impulsivo, um bardo de esquina, uma poeta de opereta, um barítono de ba­nheiro, um mascate de sentimentos.

— Você está me esculhambando — Mauro se pôs a rir.

— Estou dizendo a verdade. Não é para dizer a verdade? Nem sempre adianta... Pois a verdade é esta: você é um peso-pesado, não há sensibilidade capaz de dar conta dessa tonelada de sensualismo. Tudo sensualismo, comércio obsceno, transação com os sentidos. “São uns vendidos!” Tudo para você, afinal, se traduz em termos de compra e venda. Quem fala em sangue, e não está sangrando, é um impostor. Seu amor ao povo, aos semelhantes, aos oprimidos, é uma válvula de escape de sua inclinação para o que é comum, fácil, vulgar. Você não tem verniz, Tudo em você é ostensivo, você é os­tensivamente amigo. E eu sou seu amigo. Mas tenho em mim uma coisa que você se esqueceu de dizer: a capacidade de amar anonimamente, sem pedir nada em troca, sem reconhe­cimento, sem perdão.

Calou-se. Ficaram os três em silêncio, compenetrados, pensando... Hugo estava visivelmente emocionado. Seria difícil aliviar a tensão que agora pairava entre eles. Voltou-se com esforço para Eduardo:

— E você, Eduardo. Você, o puro, o intocado, o que se preserva, como disse Mauro. Seu horror ao compromisso por­que você se julga um comprometido, tem uma missão a cum­prir, é um escritor. Você e sua simpatia, sua saúde... Bem sucedido em tudo, mas cheio de arestas que ferem sem querer. Seu ar de quem está sempre indo a um lugar que não é aqui, para se encontrar com alguém que não somos nós. Seu desprezo pelos fracos porque se julga forte, sua inteligência incômoda, sua explicação para tudo, seu senso prático — tudo orgulho. O orgulho de ser o primeiro — a vida, para você, é um campeonato de natação. Sua desenvoltura, sua excitação mental, sua fidelidade a um destino certo, tudo isso faz de você presa certa do demônio — mesmo sua vocação para o ascetismo, para a vida áspera, espartana. Você e seus escri­tores ingleses, você e sua chave que abre todas as portas. Orgulho: você e seu orgulho. De nós três, o de mais sorte, o escolhido, nosso amparo, nossa esperança. E de nós três, talvez, o mais miserável, talvez o mais desgraçado, porque condenado à incapacidade de amar, pelo orgulho, ou à solidão, pela renúncia.

Hugo não disse mais nada. E os três, agora, não ousavam levantar a cabeça, para não mostrar que estavam chorando. O garçom veio saber se queriam mais chope, ninguém o aten­deu. Alguém soltou uma gargalhada no fundo do bar. Lá fora, na rua, um bonde passou com estrépito.

— Vamos embora — murmurou Eduardo, afinal.

— Não: falta você — protestou Hugo.

Eduardo se ergueu:

— Eu me recuso, simplesmente. Se nós mesmos, que nos conhecemos mais do que ninguém, somos de tal maneira precários no julgamento de cada um, é porque não sabemos nada, não somos donos de verdade nenhuma, temos de buscá-la fora de nós. A consciência é inútil, sem uma convicção adquirida. Isso que estamos fazendo é inútil, é masoquismo. Não temos importância, somos apenas três coisas largadas, desarvoradas, aflitas. Está acima de minhas forças dizer alguma coisa mais...

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