Fernando Sabino o encontro marcado



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III — O ESCOLHIDO

Eram vistos em toda parte: no cinema, na Praça, na Avenida, nas confeitarias.

— Como é que um ministro deixa que sua filha...

— Um rapaz como aquele, boêmio, farrista.

— Boa coisa ela não deve ser.

Antonieta viera para uma temporada na casa dos tios:

— O calor do Rio está insuportável. Todo verão vamos a Poços. Este ano a política se complicou, papai não pôde sair, resolvi conhecer Belo Horizonte. Titia insistia tanto! Ela é muito boazinha, você querendo pode ir lá me visitar.

Eduardo se esquivava. Afinal de contas, simples namoro — não significava compromisso. Moça do Rio, outros hábitos, outra espécie de gente — gente importante, vida de luxo e conforto, talvez — ele mesmo não sabia explicar como e por que começara aquilo. Ela o aceitava como namorado antigo, e, até agora, nada sabiam um do outro. De mãos dadas, num banco da Praça — o mesmo banco dos amigos:

— Você é diferente de todo mundo.

— Diferente por quê? — perguntava ela.

— Não sei. Diferente.

Às vezes se abria com o Veiga:

— Meu caso com essa menina me preocupa. Acabo me envolvendo muito, quando abrir os olhos será tarde.

— Afinal, ela não tem culpa de ser filha de ministro.

— Não é por isso. É que... Você sabe, não nasci para isso.

— Para que você nasceu?

— Não sei. Para escrever, talvez.

— E que tem uma coisa com a outra?

— Ora, você não entende.

— Não vejo incompatibilidade entre literatura e casamento.

— E quem falou em casamento?

— Fala-se...

— Você não me conhece, Veiga.

Não durou muito: a tia da moça começou a ouvir os comentários, ficou preocupada, achou prudente comunicar ao irmão. E o ministro mandou buscar a filha. Encontraram-se pela última vez:

— Foi melhor assim. Não dava certo mesmo. — Tinha de acabar.

Estavam na Praça. Noutros bancos, namorados de mãos dadas se esqueciam, entregues, felizes, alheios à discreta vigilância dos guardas, entre os canteiros. O sentimento de despedida era pungente.

— Antonieta.

— Que é?

— Você me escreve?

— Não sei. Valerá a pena?

Separou-se dela com estranha sensação de alívio. Pronto, estava acabado. No dia seguinte encontrou o Veiga na re­dação, contou-lhe que a moça tomara o avião para o Rio.

— Não há mais problema.

— E você? O que está sentindo?

— Fome. Podíamos jantar na cidade.

Jantaram na cidade. Veiga lhe contava o enredo de um conto que pretendia escrever, ele não prestava atenção. Con­versaram sobre política — Eduardo pôs-se a descompor o governo com imprevista violência:

— E Minas em tudo isso? Já se foi o tempo em que Minas dava as cartas. Agora o Brasil é um feudo dos gaúchos.

— Pelo menos um ministro tem genro mineiro...

— Ora, não chateie, Veiga.

— Você está apaixonado.

— Apaixonado uma ova.

Depois do jantar se encontraram com Hugo, puseram-se a beber cerveja num bar do centro. Às onze horas, já alegres, voltavam pela avenida ainda movimentada:

Ai, Minas Gerais.

Quem te conhece,

Não volta aqui mais.

Cantando em plena rua — aquilo lhes trazia um pouco dos velhos tempos. A presença do Veiga, compenetrado e apreen­sivo, os constrangia.

— Pena que o calabrês não esteja aqui.

Sentaram-se na escadaria da igreja São José. Veiga pro­testava:

— Vamos, não façam isso. Olha só quanta gente aí. Vocês afinal não são moleques. Se comprometem à toa, não fica bem para vocês.

— Veiga, você é uma flor de sujeito.

— Veiga, você é uma graça.

— Sabe de uma coisa, Veigote? Damos para você tudo que é nosso, não é mesmo, Hugo? Até a nossa roupa do corpo.

Eduardo começou a despir-se, ali mesmo. Hugo o imitou. Tiraram o paletó, a gravata, a camisa e, gravemente, iam depositando tudo nos braços perplexos do jornalista.

— Por favor, parem com isso. Vocês acabam presos. Olhem o caso da vitrine. Já está juntando gente. Por favor.

— Então não podemos dispor do que é nosso?

— Estamos ou não estamos numa democracia?

— Meus senhores! — berrou Hugo, segurando as calças.

O povo se aglomerava, curioso; era hora da saída dos cinemas. Veiga não esperou mais: antes que os dois tirassem o resto da roupa, abriu caminho e disparou a correr. Que foi? Que aconteceu? — perguntava-se ao redor. Eduardo não po­dia de tanto rir:

— Sabe, Radiguet? Você ainda é dos bons!

— É o nosso protesto — prosseguia o orador para a massa estupefata. — Não podemos admitir, passou dos limites! Que nos levem a roupa do corpo, que nos tirem tudo — nossa dignidade ficará de pé!

— O que ele está dizendo?

— Por que sem camisa?

— O que ele está...

— Muito bem! Apoiado! — saltou uma voz familiar no meio da multidão já submissa. Alguém abriu caminho enquanto Hugo falava, veio subindo de costas os degraus — era Mauro, já deitando falação:

— Eis um comovente espetáculo, meus senhores! Um ho­mem que protesta é o mais comovente, o mais legítimo, o mais generoso dos espetáculos, se em nome do povo, pelo povo e para o povo! Um homem que se despe é a imagem desse mesmo povo, perseguido e humilhado, despojado da própria roupa para vestir os poderosos!

Os outros dois se vestiam apressadamente:

— Vamos embora, Besta-Fera, que daqui a pouco começa a guerra.

Alguém mais iniciava um discurso, enquanto os três escapuliam.

— Eu ia passando num bonde, vi o ajuntamento, vim ver o que havia. Quase morri de rir, quando dei com vocês dois no meio do povo, sem camisa, e o Veiga fugindo espa­vorido...

— Mas que coincidência! Você também está bêbado?

— Não, mas posso ficar. Vocês estão?

— Não pensei que ainda fôssemos capazes.

— Há quanto tempo, hein?

— Que há com ele? — perguntou Mauro. Eduardo se pu­sera a gemer em voz alta.

— Dor-de-corno, você não está vendo?

— Por quê?

— A ministrinha foi embora.

— Por que ele não foi também?

Hugo se entusiasmou:

— Isso! Eduardo Marciano, você está na obrigação de ir também.

— Como é que deixa sua namorada escapulir assim, sem mais nem menos?

— Você é homem ou não é?

— Soy un gitano legítimo. Vamos ali, na Telefônica. Vocês têm dinheiro?

Juntaram o que dispunham — dava para alguns minutos de conversa. Já passava de meia-noite quando Eduardo conseguiu a ligação.

— Tenham paciência, arredem para lá, me deixem falar.

— Nós também pagamos.

A moça foi acordada, chamada ao telefone:

— Tem cabimento, meu bem? A esta hora!

— Você fez boa viagem? — era tudo o que conseguia dizer.

Quando desligou, ficou-lhe uma impressão de fracasso.

— Querem saber de uma coisa? Dane-se.

— Pois agora você vai: nem que seja à força.

— Não pode deixar a menina esperando, uai. Você disse que ia.

Naquela noite dormiu abraçado a ela. Na manhã seguinte procurou Toledo:

— Quero que você me arranje um passe. Preciso ir ao Rio, de qualquer maneira, estou sem dinheiro.

Sua vida se iniciava naquele instante.

— Só se for sem leito.

O que iria mesmo fazer no Rio? Passado o efeito da bebida, a idéia parecia-lhe louca e sem sentido. Tudo considerado, nada havia a fazer, ela se fora para sempre, não queria coisa alguma com ele.

— Melhor assim.

— Não dava certo mesmo.

Mas era evidente que não dava certo — por quê, então? Vida diferente da sua, amigos que não conhecia, carioca, ou­tros namorados talvez, um mundo que não era o seu, impe­netrável, hostil. Filha de ministro.

— Os ministros passam, as filhas ficam — concluiu.

Olhava, pela janela do trem, a estrada passando rápida: uma casa, um barranco, um cavalo pastando, a cerca de arame farpado. A esta hora, meu bem, tem cabimento? “A esta hora”, ela dissera. E tinha razão: aquilo não era hora para se telefo­nar para filha de ministro. Ele, Eduardo Marciano, morador de Belo Horizonte, telefonara para a filha de um ministro, no Rio, depois de meia-noite. Sorriu, satisfeito. Estudantadas. Estudante de Direito, escritor, boêmio, farrista, não servia para nada, quem diria para Antonieta. Dera trabalho vir. Convencer os pais, licença na repartição, dinheiro. Seu Marciano ele próprio lhe adiantara quinhentos cruzeiros:

— Já que você quer ir de fato, meu filho, tome aqui uns cobres.

— Não é preciso, papai.

— Toma: vai por conta da firma. Você se lembra quando fomos ao Pão-de-Açúcar?

Não dissera a verdade ao velho: iria ao Rio ver se arran­java editor para o seu livro. Agora se arrependia:

— Papai, vou por causa de mulher.

Que diria ele? Certamente haveria de compreender. Seu Marciano compreendia mais do que deixava transparecer. Mu­lher — mas Antonieta não era uma mulher. Era uma menina, era uma...

— Este lugar está ocupado?

Endireitou-se na poltrona:

— Não, pode sentar.

Recolheu sua mala para que o intruso se acomodasse. Haviam passado Barbacena, restava uma noite inteira de viagem pela frente.

— Nós já não nos conhecemos?

— Tenho uma vaga lembrança.

— Ciro Leitosa... Não se lembra?

— Ah...

Eduardo não se lembrava.



— Sou professor da Faculdade de Medicina.

— Sei.


Se da Faculdade de Medicina, era lógico que não podia lembrar-se. Não conhecia os professores da Faculdade de Medicina. E aquele homem não tinha nada de professor de faculdade nenhuma — a não ser os óculos, de lentes grossas. Que estaria fazendo ali, surgindo naquele instante, a meio caminho do Rio? Teria embarcado em Barbacena?

— O Senhor deve ser professor de um amigo meu — experimentou.

— Quem?

— Mauro Lombardi.



O homem sorriu, satisfeito:

— Filho do Dr. Lombardi? Conheço muito. É um jovem inteligente. Um pouco irrequieto, mas inteligente. Meio poeta. Você também escreve, não?

— De onde o senhor me conhece?

— Não me chame de senhor. Afinal, não sou tão velho assim... Você não tem travesseiro?

Enquanto falava, retirou da mala um pequeno travesseiro:

— É um transtorno isso de viajarmos sentados. Olha, acho que dá para nós.

Eduardo recostou-se a contragosto, sentindo a proximidade desagradável de outra cabeça, o cheiro de outros cabelos. A mão do professor tombara, naturalmente, sobre o seu joelho, parecia vir subindo... Incomodado, fingiu que dormia, aguar­dando o momento de mudar de posição sem ofendê-lo. Seria proposital? A idéia de que pudesse ser proposital, ao mesmo tempo que o chocou, trouxe-lhe inesperada volúpia, uma inér­cia feita de susto, expectativa e prazer. Excitava-o imaginar o homem também fingindo que dormia... e a mão, num mo­vimento quase imperceptível, leve, delicado, subindo sempre. Não tinha mais dúvida — e a surpresa o paralisava num qua­se gozo pela sordidez daquilo, a baixeza, o escuso, o incon­fessável. Como poderia aquele homem, o professor Leitosa, da Faculdade de Medicina, tê-lo escolhido para aquilo? E se ele se levantasse ostensivamente, descompusesse o atrevido, acusando-lhe a perversão para que os passageiros ouvissem? Ninguém parecia reparar em nada: no trem, àquela hora, to­dos cochilavam como podiam. Eduardo permanecia imóvel, mas tenso de emoção. Era preciso reagir, não deixar: logo seria tarde. Bem notara no homem certo ar melífluo, untuoso... aquela oferta do travesseiro, a maneira de o abordar, puxar conversa. Lembrou-se de Afonso, que o escolhera para vítima. Este o escolhia como homem — antes que a mão o tocasse intimamente, tudo já se consumava num estreme­cimento.

— Com licença.

Ergueu-se, num ímpeto, o homem chegou a assustar-se. Sen­tia uma súbita náusea, não podia conter-se. Precipitou-se até o toalete do trem, lavou-se, molhou o rosto e os cabelos. De­pois, foi para a plataforma: ficou vendo, entre fagulhas lumi­nosas, a noite gelada correr lá fora, enquanto tentava pensar no acontecido. Como permitira? Pensou em Antonieta, sentiu-se sórdido, lágrimas começaram a rolar-lhe nas faces. Ele, o puro, o escolhido, o que não se contaminava — trazia em si o germe do pecado e da podridão. Não voltou mais ao seu lugar; para castigar-se, viajou na plataforma até o amanhecer, de pé, imóvel, perplexo, estarrecido com as contradições desta vida. Somente quando o trem passava pelos subúrbios, já dia claro, voltou para localizar sua mala. Não tornou a ver o professor Leitosa.

Da estação telefonou à casa de Antonieta. Temia que o pró­prio ministro atendesse.

— Dona Antonieta foi à praia.

Esquecera-se de que estava no Rio de Janeiro, esquecera-se da existência das praias. Esmagava-o a consciência de uma vida mais rica, movimentada, complexa, que Antonieta levaria, vida a que jamais teria acesso, e que o humilhava.

Tomou um táxi, mandou tocar para o Hotel Elite, no Ca­tete, onde estivera da primeira vez. O tio de Mauro, o prêmio, o ministro da Educação.

— Eduardo Mariano.

Assim eram os ministros — assim deveria ser o pai de Antonieta. Depois, a sordidez do hotel, o arroz com formiga, a revista comprada na esquina, o conto premiado: cem mil réis.

— Você é muito precoce.

Seu Marciano chegando, o Pão-de-Açúcar, seu Marciano a abraçá-lo:

— Meu filho, você é exatamente como eu gostaria de ter sido, não conte para sua mãe.

Fez a barba pensando no pai — por que a espuma? por que uma vez para cima e outra para baixo? Imitou-o ao ter­minar:

— Uma de menos.

Tomou banho, vestiu-se e saiu sem destino certo. Tomou um ônibus, foi a Copacabana e ficou a ver os banhistas na areia. Certamente nenhum deles sabia nadar. Mulheres se­minuas, belas e lânguidas, inatingíveis: nem ao menos o olhavam. Mas, também, não era possível que homem algum as conquistasse, jamais seriam de ninguém. Ônibus, cheiro de óleo queimado, maresia — era o Rio de Janeiro. Almoçou sozinho no primeiro restaurante que encontrou, ousou pedir camarões, tomou chope. Voltou a telefonar a Antonieta.

— Está no cabeleireiro. Quer deixar recado?

Deu o nome e desligou, contrariado. Arrependia-se de ter vindo. Meteu-se num cinema, voltou a telefonar, ao anoitecer.

— Eduardo! — disse ela, aflita: — Estava preocupada, sem saber onde você se hospedou! Já telefonei para tudo quanto é hotel. Hoje vou a uma festa, mas você também vai, encon­tra-se comigo lá.

Então era assim? Sem a menor surpresa por ele ter vindo, com se fosse a coisa mais natural deste mundo: só comprar a passagem, encher o bolso de dinheiro e embarcar. Ela jamais se lembraria de telefonar para o Hotel Elite.

— Não vou, não.

— Mas, por que, meu bem? É a única maneira de nos vermos hoje ainda. No Cassino Atlântico, uma festa de caridade. Você trouxe traje a rigor?

Por pouco não dissera um palavrão, ao desligar. Esse palavrão, repetia agora, para si mesmo, andando horas sem rumo pelo centro. Sentou-se numa mesa de calçada, pediu um re­fresco, ficou a olhar o movimento. Não, aquilo não tinha mes­mo sentido: jamais se entenderiam. Traje a rigor. Era preciso que ela o aceitasse como ele era. Era preciso que ela sou­besse da existência da vida cá fora, o Hotel Elite, a formiga no arroz, viagem sem leito, o professor Leitosa. Sacudiu a cabeça com desgosto: a vida era mesmo sórdida. Chamou o garçom:

— Ponha aí uma dose de gim.

— Na laranjada?

— Na laranjada. O que é que tem?

O garçom o atendeu e depois ficou a observá-lo, disfarçado, a poucos passos. Provou a bebida: intragável. Teve ódio do tipo, fingiu que bebia com prazer. Esperou que ele se virasse, derramou o resto no chão, sob a mesa. O garçom o olhava, sorrindo.

— Me traga outra — desafiou. — Com gim.

Logo se arrependeu. Começava a fazer asneiras. Gastar dinheiro à toa, já era noite, deveria pensar em comer. Em vez disso, provou de novo a bebida: já não lhe pareceu tão en­joativa. Acostuma-se com tudo nesta vida. Antonieta não sabe como vive um escritor. Ora, Antonieta.

Alguém estava de pé a seu lado: era Amorim.

— Você por aqui? — espantou-se.

— Deixei o jornal, não se lembra? Vim para o Rio. Estou numa agência de publicidade... Melhor do que ser repórter de polícia. Conhece Sílvio Garcia?

Eduardo se ergueu, emocionado, para cumprimentar o homem baixo e ainda jovem que via à sua frente — mais jovem do que imaginava:

— Conheço de nome — sorriu, querendo dizer ainda algu­ma coisa, não sabia o quê. Não o chamaria de senhor: — Pensei que fosses mais velho. Não quer sentar-se um pouco?

Sentaram-se. Amorim agora se voltava para o amigo:

— Eduardo também escreve. Trabalhávamos juntos, lá no jornal em Minas.

— Trabalhávamos é um modo de dizer.

— Bem, eu trabalhava — corrigiu Amorim. — Eles faziam o diabo. Um dia roubaram um esqueleto.

Eduardo, mais à vontade, pôs-se a contar para Sílvio Gar­cia a história do esqueleto. Depois se arrependeu: deveria con­tinuar triste, preocupado, pensando em Antonieta. Esquecera por completo a namorada. Surpreendeu-se já falando ao poeta em Mauro e Hugo, no que pensavam de sua poesia.

— E você o que escreve?

— Oh, bobagens — e acrescentou: — Escrevi um artigo sobre seu último livro.

Percebendo o que dissera, perturbou-se e começou a rir. O poeta também ria:

— O que você está bebendo?

Eduardo hesitou:

— Laranjada com gim — confessou afinal.

— É capaz de ser bom — e o outro sacudiu a cabeça, pensativo. — Com gim, mas sem açúcar.

E pediu uma também para si.

— E você — perguntou Amorim: — O que é que está fa­zendo por aqui? Passeando?

— Mais ou menos. Vim ver uma mulher.

Mais uma vez se arrependeu. “Devo estar causando uma péssima impressão”, pensou.

— Nós também vamos ver uma mulher — disse Sílvio Garcia, e apontou o companheiro: — Esse calhorda me tirou de casa para isso.

— É uma admiradora do poeta — confirmou Amorim, sorrindo: — Estou fazendo o cafetão.

Sílvio Garcia:

— Espero traçar essa admiradora ainda hoje.

Eduardo observava o poeta, que ele também admirava. Não era possível! Enfim, a vida tem dessas surpresas. Gostaria de discutir literatura, perguntar, expor suas idéias — em vez disso levantou-se:

— Tenho de ir embora, sabem? Vocês me desculpem.

Não deixaram que ele pagasse a despesa.

Afinal de contas, tanto fazia sair como ficar — já andando pelas ruas, sem ter aonde ir. Ele também me causou péssima impressão. Sílvio Garcia, ora vejam: um poeta de gravata borboleta.

Andando sem destino, aqui uma confeitaria, um teatro, entrar outra vez num cinema não teria cabimento, a esquina, outro bar. Gim com laranjada? Pediu um chope:

— Me traz também um sanduíche.

Hoje vou a uma festa, você também. Tudo resolvido, deci­dido de antemão, como se ele não contasse, nem o sacrifício da viagem, o passe, os quinhentos cruzeiros. Traje a rigor. Não era palhaço para se prestar a semelhante papel. Então está bem — ela dissera, me telefona amanhã. Outro chope. Para ela devia ser indiferente que ele fosse ou não. Festa de caridade, tinha lá dinheiro para essas coisas? Dona Anto­nieta foi à praia. Dona Antonieta foi ao cabeleireiro. Tele­fona amanhã: pois sim. Nunca mais ouviria falar dele.

— Garçom, mais um.

Não pensar nisso, pois. E o Amorim, quem diria. Morando no Rio, amigo de Sílvio Garcia. Agência de publicidade — ares de grande jornalista, não sabia juntar duas palavras. Que queria dizer calhorda?

— Estava preocupada, já telefonei para tudo quanto é hotel.

E daí? Jamais o encontraria. Nem sequer garantira a sua vinda, viera sem mais nem menos, de trem... o professor Leitosa. Não, isso não: que diria Antonieta, se soubesse? Sílvio Garcia era possível que risse. Aceita laranjada com gim, e ainda diz que é bom. Traçar essa admiradora ainda hoje — estou fazendo o cafetão. Todos da mesma espécie, tudo se confundindo na mesma sordidez. O tempo passando, outro chope, ele ali sozinho, numa cidade estranha, fazendo o quê? Enfim, a vida tem dessas. Dessas contradições, costumava di­zer seu Marciano.

— A nota, faz favor.

Ergueu-se, procurando firmar-se nas pernas. Já na rua, fez parar um táxi. Ordenou ao chofer:

— Cassino Atlântico.

Depois suspirou satisfeito, e recostou-se. Fez todo o per­curso prestando atenção no ruído do taxímetro, procurando calcular quanto marcaria.

Foi barrado logo à entrada:

— O senhor não pode entrar assim.

— Assim como?

— Hoje é a rigor. Só para o salão de jogo. À esquerda.

— Está bem, está bem.

Ficou a observar o movimento de uma das roletas, com a segurança que o álcool lhe comunicara. Depois de aprender como se jogava, comprou vinte cruzeiros de fichas, espalhou-as pela mesa. Única maneira de nos encontrarmos hoje, ela dis­sera. Telefonei para todos os hotéis. Afinal, não podia ima­ginar que ele estivesse no Hotel Elite. Fiquei tão preocupada, meu bem. Disse meu bem? A festa talvez fosse apenas pre­texto para vê-lo. Não disse. Filha de Ministro não pode ficar saindo assim à toa não. Por que você não quer ir, meu bem? Certeza que disse.

Em meia hora, ganhou duzentos cruzeiros, foi recebê-los na caixa.

— E então? — perguntou depois ao porteiro.

— Então o quê?

Inclinou-se, persuasivo:

— Tenho a maior urgência de entrar aí, é importantíssimo.

Fiz uma longa viagem só para isso, cheguei hoje.

— Desculpe, mas só traje a rigor.

— Eu sei, mas... Um minuto só!

— O senhor nem convite tem.

— Tenho coisa melhor, olha aqui.

O porteiro ficou a olhar, perplexo, para a nota de duzentos cruzeiros que o moço lhe depositara na mão.

— Não posso. Olha, faz de conta que o senhor foi entran­do, eu não vi nada, estava de costas. Um minuto só, hein?

E voltou-lhe as costas. Eduardo se perdeu na confusão da sala, entre as mesas, procurando Antonieta. Surpreendeu-a no momento em que se erguia para dançar.

— Antonieta.

Enlaçou-a antes do outro, saiu dançando.

— Eduardo, você está louco? Me larga. Como é que você pôde entrar assim?

— Dei duzentos cruzeiros ao porteiro.

— E ainda por cima embriagado. Pelo amor de Deus, vai embora.

— Que eu ganhei no jogo.

— Todo mundo reparando! Papai ali na mesa...

— Vim aqui só para dizer que te amo.

— Você está louco. Vai embora, me deixa voltar para a mesa.

— Ouviu o que eu disse?

— Não se faz uma coisa dessas. Eu te avisei que era traje a rigor.

— Que tem isso? Já não estou aqui? Você quer mandar mais que o porteiro?

— Vai embora, por favor.

— Você me convidou.

— Não assim. E você disse que não vinha. Tem outras pessoas...

— Você disse que eu viesse.

— Por favor, não faz escândalo.

— Bonito o seu vestido.

— Por favor.

— Eu te amo.

— Fala baixo...

Viu o porteiro a procurá-lo, um garçom o apontava. Despediu-se.

— Telefona amanhã — pediu ela.

Não ficara cinco minutos ali: duzentos cruzeiros! Assim como veio, foi. Pensou em tentar de novo a sorte no jogo, e, de repente, veio-lhe um irreprimível desalento ante tudo aquilo. Agora, que o efeito do álcool ia passando, percebia como fal­tava sentido aos seus impulsos, como eram incoerentes as suas sucessivas reações. Cansado de tudo, foi andando ao longo da praia, vendo as luzes da rua se multiplicarem. Sen­tia-se miserável — tudo inútil, vazio, inócuo, despropositado. Ninguém entenderia jamais o que ele sentia naquele momento — bastava parar, sentar num banco da praia, meditar com calma, e faria dele um desses momentos capazes de decidir todo um destino. Um desses momentos — todo um destino. Em vez disso, tomou um ônibus, foi para a cidade.



Hotel Elite. Viera a pé desde a praia, cadenciando os passos no pensamento preguiçoso de que só lhe restava dormir. Apa­nhou a chave atrás do balcão, sem se importar com o rapa­zinho da portaria, que parecia cochilar na cadeira. No ele­vador, subiu também uma mulher morena, de cabelos pretos — o elevador era antigo, de grades, e rinchava como se fosse desmantelar-se.

Despiu-se devagar e, vencido pelo cansaço, apagou a luz, estendeu-se na cama assim mesmo, nu. A janela, aberta para o beco, deixava entrever uma lua baça, cuja luz avançava pelo chão do quarto, subia pela cama, vinha manchar-lhe o peito encalorado. Era uma noite quente — por que aquele súbito estremecimento, como se uma brisa gelada houvesse soprado? Não se ouvia o menor ruído, e o corpo imóvel, pés voltados para cima, parecia o de um morto. Pensou na morte, que existia como alguém respirando a seu lado.

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