Fernando Sabino o encontro marcado



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Encontro29.07.2016
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Levantou-se, para espantar a sensação vertiginosa de mor­rer sozinho ali, num quarto de hotel. Deu dois passos em direção à janela. Ao mesmo tempo uma coisa escura, como um saco, passou lá fora ante seus olhos, quase ao alcance do braço. Recuou de susto. Que seria aquilo? Ouviu uma pancada lá embaixo, nas latas da marquise, seguida de um baque seco. Alguém no quarto ao lado resmungou sonolento: “Que barulho!” Depois mais nada, senão a treva e o silêncio.

Correu à janela. A princípio, pôde ver apenas algo de forma indefinível tombado na calçada, junto ao meio-fio. A marquise estava amassada, como se tivesse recebido pesado impacto. Pequenos ruídos noturnos agora pontilhavam o silêncio: tosse, miado de gato, música distante de algum dancing. Quantas horas seriam? Umas três, não mais. Alguém acabava de sur­gir da esquina e vinha caminhando, mãos nos bolsos. Ao aproximar-se do vulto estendido na calçada, curvou-se, riscou um fósforo... e saiu correndo em direção à outra rua. Da janela Eduardo também pudera divisar um corpo caído — corpo de mulher, o vestido arregaçado, pernas à mostra.

Lembrou-se da mulher que subira com ele no elevador. Uma criatura caía lá de cima e ninguém aparecia, todas as janelas fechadas. Era preciso fazer alguma coisa, e ele não tinha ânimo, sequer, de se mover. Quanta coisa para um só dia! Viu então as pernas se crisparem lentamente.

— Ela está viva — falou em voz alta, e foi como se despertasse: vestiu às pressas a capa de chuva, e precipitou-se até o telefone, no corredor:

— Caiu uma mulher lá de cima.

Voltou à janela, na expectativa de que o rapaz da portaria aparecesse na rua. Como ele demorasse, tornou a sair, lan­çou-se precipitadamente pelas escadas. Na portaria encontrou o rapaz, todo assustado:

— Aonde?

— Aí fora, no beco — e ia levá-lo à rua, quando viu um guarda passar correndo, seguido de dois homens (o que vira o corpo certamente dera o alarme). Voltou à janela e, mais calmo, ficou a assistir ao espetáculo. Em volta da mulher se formara um ajuntamento: gente vinda de todos os lados, não se sabia de onde, como brotada da terra. Luzes se acendiam ao longo do beco, perguntas corriam de janela a janela. “Eu bem que ouvi um barulho”, explicava um sujeito em camisa de meia, debruçado à esquerda.

Meia hora depois chegava a ambulância. Os enfermeiros abriram caminho, puseram a mulher na maca, recolheram-na e partiram. A multidão foi-se dissolvendo, entre comentários: em breve, já não havia ninguém na rua. As janelas foram-se fechando, as luzes se apagaram, e a noite continuou.

Eduardo tornou a deitar-se. Era inútil: o acontecimento o precipitara numa zona de angústia em que ele agora se deba­tia, prisioneiro de um insuportável nojo da vida. Imagens se sucediam na sua cabeça, o professor Leitosa, Sílvio Garcia, o porteiro do cassino, Antonieta. Nauseado, levantou-se para vomitar. Devia ser a mistura de bebidas, o estômago vazio, os camarões do almoço. E era a noite que parecia querer en­volvê-lo na sua miséria, nos seus ruídos ignóbeis, na sua trama de súbito revelada. Ansiava pelo novo dia que vinha nascendo para libertá-lo; às cinco horas pôs-se a arrumar a mala apressadamente: libertava-se também da cidade hostil, que não chegara a vencê-lo. Desceu até a portaria:

— Tire a minha conta. Quero ver se ainda alcanço o rá­pido mineiro.

O rapazinho não sabia explicar nada sobre o suicídio.

— O senhor vai embora? Olha lá, podem precisar de testemunha...

— Testemunha, eu? Sei tanto quanto você.

— Eu dei meu nome...

— Pois então? Olha, isso aqui é para você. Será que eu arranjo um táxi a esta hora?

Na estação correu à bilheteria:

— O rápido para minas já saiu?

— Calma, calma — disse o homem: — Mineiro não perde trem.

Logo ficou sabendo que perderia o seu: o passe não servia senão para o noturno.

— Mas é a mesma coisa!

— A mesma coisa? Olha, eu vou lhe explicar.

Desanimado, viu o trem sair sem que o bilheteiro se rendesse aos seus argumentos. Finalmente o cansaço o dominava — sentia o corpo moído, os olhos pesados. Duas noites sem dormir! Tomou um café, perambulou pela estação sem saber o que fazer, acabou se decidindo a voltar para o hotel. Mas não aquele — entrou no primeiro que encontrou nas proxi­midades.

— O senhor vem de onde? — perguntou o gerente, um gordo em mangas de camisa.

— De Minas.

— A esta hora? — estranhou o homem.

— Vim de ônibus.

Pior do que o outro — mas pelo menos tinha uma cama, e era tudo. Dormiu até as três horas da tarde. Tomou banho, fez a barba e saiu para almoçar. Comeu espaguete num res­taurante da Lapa, o melhor que já comera em toda a sua vida. Depois, mais feliz, pôs-se a andar à toa. De súbito se deteve numa esquina: e por que não? Afinal, tudo conside­rado, ela não lhe fizera nada, pelo contrário: ele é que fora grosseiro, estúpido, vulgar. Telefona amanhã, ela dissera.

— Você me desculpe a cena de ontem à noite. Devo ter-lhe causado péssima impressão.

Não chegou a dizer nada disso:

— Telefonei só para...

— Eu também te amo — interrompeu ela, apenas.

— Hein? O quê?

— Onde você está?

— Bem, obrigado — murmurou ele, confuso.

Ela riu:

— Perguntei onde você está.

— Ah! No centro da cidade. Estou falando de um café. Mas o que foi mesmo que você disse?

— Quero me encontrar com você.

— Eu vou embora hoje — explicou ele, sem saber mais o que dizer. Não entendia mais nada. Eu também te amo! Ainda bem que tomara banho, fizera a barba.

Encontraram-se mais tarde numa confeitaria. Ela pediu um sorvete que mal provou, ele pediu um vermute para impres­sioná-la.

— Que história é essa de ir embora hoje? — e Antonieta estendia a mão sobre a mesa, apertava carinhosamente a sua.

— Você não ficou zangada por causa de ontem?

— Zangada não; fiquei assustada. Quase morri de rir, depois.

— Também não vejo motivo para graça.

— Que foi engraçado, foi. Você entrando assim, de re­pente... Papai perguntou se eu estava dançando com um ar­tista do show. Tive de inventar uma porção de mentiras para explicar.

— Engraçado, então, estava seu pai.

— Não liga, não: ele é assim mesmo. Vamos sair daqui?

Levantou-se e foi saindo. Parecia não saber que se pagava a despesa, esperava troco. Juntou-se a ela na porta:

— Para onde, agora?

— Vamos a um cinema.

No cinema Eduardo beijou-a pela primeira vez — mais fácil do que esperava. Era como se tivesse entrado ali para isso. Depois ela ficou prestando atenção no filme, mas ele, excitado, não desviava os olhos dela — queria abraçá-la, bei­já-la outra vez.

— Tenha modos — sussurrou ela, enlaçando-lhe os dedos: — Os outros estão reparando.

À saída, ele se lembrou do suicídio, comprou um jornal. Lá estava, na terceira página: morrera ao dar entrada no hos­pital. Não era hóspede do hotel, não fora identificada, mor­rera sem dizer uma palavra.

— Amanhã você vai à praia comigo?

Não era hóspede do hotel? Então que diabo estaria fa­zendo lá?

— À praia? — e ele dobrou o jornal, pensativo: — Mas eu ia embora hoje...

— Vai amanhã.

— Não trouxe calção.

Ela riu:


— Mineiro mesmo. Então você não pode comprar um?

— Você pensa em tudo...

Não podia ficar comprando muita coisa, não. Nisso ela não pensava.

— E trocar de roupa aonde?

— Na praia mesmo. Vai de calção por baixo. Até logo, meu bem, estou atrasada. Telefona, sim?

Na esquina um carro oficial a esperava.

Eduardo saiu assobiando pela rua, foi comprar um calção. Comprou também um livro, jantou, e, sem ter mais o que fazer, tomou o caminho do hotel.

Do Hotel Elite, por distração. Quando deu pelo engano, já se achava em frente ao velho prédio. Dobrou a esquina, ficou a espiar o beco, o lugar onde a mulher havia caído, a marquise amassada. De que janela teria saltado? Natural­mente da que ficava logo acima da sua, que agora estava fe­chada e às escuras. Falecera ao dar entrada no hospital — o jornal dizia. Afastou-se com alívio daquele lugar. A lem­brança da noite anterior de novo o deprimia. Foi para seu novo quarto e ficou lendo até que o sono viesse.



Grupo de moças e rapazes estendidos na areia da praia, Anto­nieta no meio deles. Eduardo constrangido, sorriso forçado a cada fase da conversa sem rumo de que não chegava a par­ticipar.

— És mineiro? — perguntou uma das moças.

— Sou mineiro pela graça de Deus — arriscou, e foi bem sucedido: todos riram.

— Pois então vamos batizar o mineiro de Antonieta.

— Todo mundo n’água!

Eduardo se deixou ficar. Antonieta se deteve junto dele, o corpo jovem à mostra na exígua roupa de banho. Era bonita, vista assim de pé contra o azul do céu, indócil, incontida:

— Você não vem?

— Não, vou esperar.

— Não precisa ter medo que não vamos muito no fundo. Você sabe nadar?

Os outros gritavam por ela. A moça partiu em disparada e foi diminuindo até a orla de espuma branca, a água verde... A vida é boa — pensou ele: nos proporciona um ângulo de visão, uma perspectiva — o ser que eu amo lá longe, distante, não mais que uma mancha cor-de-rosa e negra, que daqui a pouco virá crescendo de novo para mim... Antonieta ati­rou-se n’água.

Levantou-se em movimentos preguiçosos e seguiu em direção ao mar. Desviou-se do grupo de banhistas, já dentro d’água, em braçadas lentas e seguras foi-se distanciando da praia. Passou a arrebentação e continuou nadando ainda algum tempo — depois mergulhou.

Outras eram as suas águas — doces, macias, envolventes. Aquelas eram vivas e pareciam rejeitá-lo como um intruso — o sal ardia nos olhos e o gosto na boca era amargo. Nadou mais um pouco, logo se cansou. Voltou nadando de costas e já na areia aproximou-se dos outros corpos nus que secavam ao sol. Ninguém parecia ter notado que. ele nadava tão bem. Estendeu-se na areia ao lado de Antonieta.

Depois, à tarde, era a confeitaria, Antonieta já em meio a outra roda de amigos. Desta vez ele protestou, chamando-a a parte:

— Escuta, meu bem, quero ficar sozinho com você um instante. Afinal de contas, vou embora hoje...

Tiveram pouco tempo para conversar, sentados num banco da praia.

— Já estou sentindo saudades suas — confessou ele, inquieto, olhando para os lados. Não foi possível beijá-la. Da estação, como sobrasse tempo, ainda lhe telefonou para despedir-se mais uma vez:

— Você me responde se eu lhe escrever?

Foi uma viagem longa, monótona, interminável. Ao che­gar, uma surpresa o aguardava: fora convocado, juntamente com Mauro e outros, para o serviço militar. Hugo Obtivera dispensa por motivos de saúde.

— Acharam aqui o nosso homem com o pulmão meio carunchado — explicou Mauro. Hugo protestou:

— Pára de falar isso! Daqui a pouco todo mundo começa a me tratar com se eu fosse tuberculoso.

Mauro o olhou, surpreendido:

— Uai, que é isso, Radiguet? Você agora está com preconceitos burgueses?

— E nós, para onde vamos? — perguntou Eduardo.

— Para a Cavalaria. Começa no fim do mês.

— Justamente nas férias!

— Isso é que é pior.

Estavam numa leiteria, cercados de outros amigos. Eram estudantes, mais jovens ainda.

— O Veiga está protegendo os meninos, ajudando, publicando, pontificando. Daqui a pouco começam a desancar o Veiga, como nós.

— Deviam desancar é conosco — comentou Eduardo. — Dizer que nunca fizemos nada, somos uns canastrões.

— Espera aí! Estamos com vinte anos.

— Aos vinte anos Radiguet já tinha morrido, Rimbaud deixado de escrever.

— Radiguet morreu com vinte e três.

— Álvares de Azevedo, então.

— Eles agora estão descobrindo Rilke.

— Daqui a pouco estão subindo no Viaduto.

— Agora é que nós devíamos estar fazendo essas coisas. Somos umas bestas, uma geração temporã, amadurecida antes do tempo.

— Tudo murcha, Eduardo Marciano.

— Apanhamos o fruto verde e deixamos que ele apodreça nas nossas mãos.

— Deixe de literatura.

— Literatura coisa nenhuma. Você nem queira imaginar a impressão que esses meninos estão me dando, discutindo aí problemas de estética. Parecem anões. De noite, na cama... você sabe. Nós ao menos na idade deles já tínhamos as mu­latas.

Lembrou-se da viagem, o professor Leitosa. Mexeu-se na cadeira, procurando fugir ao pensamento. Mauro lhe res­pondia:

— Não exagere: ainda temos. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Quando não temos... Eu não me envergonho disso não, acho uma contingência natural da solidão. Somos ima­ginativos, isso é inevitável. Só que não temos mais aqueles temores ridículos da infância, preconceitos religiosos, a submis­são a tabus, medo do pecado, horror de ser castigado por Deus.

— Vai devagar, Besta-Fera. Você agora é ateu?

— Ateu, não: agnóstico.

— Pois eu te dou quinhentas pratas se você me disser o que quer dizer essa palavra.

— Ora, para começar, você não tem quinhentas pratas. Estou conversando a sério e você me vem com molecagem. Acho que Deus é uma coisa, os padres outra. O ranço das sacristias me enoja. Tenho horror ao bafo clerical dos confessionários! O bem que a confissão pode nos fazer é o de uma catarse, um extravasamento, que a psicanálise também faz, e com mais sucesso. Estou mesmo com vontade de me especializar em psiquiatria.

— Só mesmo um doido te procuraria.

Mauro não pode deixar de rir. Eduardo acrescentou:

— Você vai ter de se curar primeiro para depois curar os outros.

— É isso mesmo — concordou o outro, sério: — Estou exatamente preocupado com o meu próprio caso. Já iniciei o que eu chamo de “a minha libertação”.

— E o que eu chamo de “a sua imbecilização”.

— Vista pela sua, que já é completa. O que eu chamo de libertação é a possibilidade de me afirmar integralmente, como homem. O homem é que interessa. Se Deus existe, posso vir a me entender com ele, mas há de ser de homem para homem.

Aborrecido, Eduardo não lhe deu resposta. Hugo deixou os outros com quem conversava e voltou-se para eles, neutra­lizando a discussão já armada:

— Então, Eduardo, como é que foi a coisa?

— Qual coisa?

— A coisa lá no Rio.

— Conheci Sílvio Garcia. O tipo do cafajeste.

— Pois saiu um poema dele no domingo que é uma beleza. Mas não é isso que eu estou perguntando.

— O que é que você está perguntando?

Cheio de evasivas, Eduardo se recusou a falar da viagem: mudava de assunto, evitava tocar no nome de Antonieta.

— Sabe de uma coisa? — concluiu o outro: — Você está mesmo apaixonado. Quando começa assim...

Estava apaixonado. Só foi reconhecer quando se viu a telefonar para Antonieta quase todas as noites, da Companhia Telefônica. Não se arriscava a escrever-lhe, temia que ela não respondesse. E não havia dinheiro que bastasse. Tinha de conversar com os olhos no relógio, contando os minutos. A moça não parecia dar conta deste problema, prolongava a con­versa, e nada tinham a conversar.

— Você gosta de mim?

— Muito. E você?

— Quando é que você vem me ver de novo?

— Tão cedo não posso: fui convocado.

— Talvez vá com papai a Poços. Ele acabou resolven­do ir...

— Vai sentir saudade de mim lá?

— Vou.

— Jura?


— Não é preciso.

— Você me ama?

— Ora, meu bem.

— Então até logo.

— Um beijo para você.

— Até logo, meu amor.

No fim do mês começou o serviço militar. Todas as manhãs seguia com Mauro para o quartel no alto da Serra. As vezes, quando à noite se encontravam para um chope ou uma conversa, que se prolongava até alta madrugada, já saíam far­dados de casa, seguiam direto do banco da Praça para a ins­trução. E não agüentavam o sono e cansaço, caíam do cavalo. Sentados nos travões da cerca, os oficiais assistiam ao treinamento dos recrutas, entre risos:

— Bate as pernas, sua besta!

— Olha aí, vai refugar!

— Larga a patilha, animal!

À tarde, na repartição, Eduardo lia ora Flaubert, ora Stendhal. Ficou na dúvida, acabou preferindo Stendhal.

— Preciso arranjar um emprego melhor — pensava.



Recebeu um aviso de que deveria comparecer à Polícia Cen­tral. Intrigado, compareceu imediatamente:

— O que é que há, Barbusse? Não fizemos nada.

— Há muitas coisas. Primeiro que tudo, pára de me chamar de Barbicha! Fui transferido para aqui e se isso pega eu estou perdido.

— Henry Barbusse, um romancista francês.

— Olha, tenho aqui uma precatória do Rio para te fazer umas perguntas. Antes de mais nada: o que é que você foi fazer no Rio?

— Já sei de que se trata: deve ser sobre uma mulher que pulou da janela, não é?

Contou-lhe tudo que sabia — o escrivão tomava notas. Depois de fazê-lo assinar o depoimento, o delegado deixou que ele se fosse:

— Não se preocupe. Se for preciso, te chamo de novo.

— Acho que não vai ser preciso, vai?

Em casa, resolveu contar o caso ao pai. Ao contrário do que esperava, seu Marciano ficou preocupado:

— Você fez mal, meu filho. Não devia ter saído do hotel assim de repente.

— Mas eu não tinha nada com o caso!

— Você disse que a mulher subiu com você no elevador?

— Subiu uma mulher. Nem posso afirmar que fosse ela.

Olhou o pai com estranheza:

— O senhor não está pensando que estou escondendo alguma coisa, está?

— Não: estou com medo de que eles pensem.

— Qual, bobagem...

O velho se alarmava à toa, não entendia bem certas coisas, vivia um pouco fora do mundo.

Dias depois, contudo, Eduardo o procurava, irritado:

— O senhor tinha razão: fui chamado de novo à Polícia.

— Vou com você — disse o pai.

— Aquele depoimento não serviu — explicou o delegado: — Se eu fosse você dava um pulo no Rio.

— No Rio? Para quê? Não haveria um jeito de evitar isso?

— Acho melhor você ir, meu filho — decidiu seu Mar­ciano.

O delegado procurou tranqüilizá-los:

— Essas coisas, quanto mais depressa esclarecer, melhor.

Eduardo resolveu concordar; ir ao Rio significava ver Antonieta. No dia seguinte tomava um avião — seu Marciano facilitou-lhe tudo. Antes de se apresentar na delegacia, porém, procurou o Amorim:

— Me lembrei de você. Esse negócio de polícia você en­tende melhor do que eu.

— Não sou mais repórter de polícia, você sabe disso. Ainda mais aqui no Rio! Prefiro não me meter.

— Custei tanto a te encontrar! Em todo caso, muito obrigado.

Irritou-se com a má-vontade do outro, foi sozinho. Depois de duas horas de espera foi atendido por um comissário. Re­petiu tudo o que sabia, respondeu a várias perguntas. Desta vez ninguém tomava notas.

— Você disse que naquela noite esteve no Cassino Atlântico?

— Estive.

— E na mesma noite deixou o hotel, voltou para Minas.

— Isso mesmo. Quer dizer, deixei o hotel mas não pude embarcar: minha passagem só servia para o noturno.

— Embarcou à noite, então.

— Na noite seguinte.

— Voltou para o hotel?

— Para outro hotel.

— Por quê?

— Bem, porque...

— Você não voltou ao Hotel Elite?

— Quando?

— Na noite seguinte.

— Não. Isto é, passei lá por curiosidade, não cheguei a entrar. O hotel em que eu estava hospedado...

— Isso não tem importância.

O comissário pediu-lhe que esperasse, e saiu da sala. Quando Eduardo já se dispunha a protestar contra a demora, apa­receu com um papel na mão:

— Assine aqui, e está dispensado.

— Posso ler?

— Pode — o homem ergueu os ombros, indiferente.

— É mais ou menos isso mesmo — disse Eduardo, enquanto assinava. O senhor tem boa memória, guardou tudo na cabeça.

O homem sorriu. Eduardo se deteve, ao sair:

— Me diga uma coisa: como é que o senhor sabia que eu estive lá perto na noite seguinte?

— O porteiro — concedeu o comissário. — Isso também não tem importância...

— O criminoso sempre volta ao local do crime. — grace­jou Eduardo. Quem era ela, afinal?

— Ainda não foi identificada. Mas vai ser.

Eduardo o olhou, estarrecido:

— Quer dizer que... ainda não está enterrada?

— Por enquanto está.

— Por enquanto?

— Não se preocupe. Tudo isso é mera formalidade.

Agora, a parte da viagem que mais o interessava: rever Antonieta. Telefonou, e lhe disseram que tinha ido para Poços de Caldas.

— Nem para me avisar — queixou-se, amargurado.

Ao regressar, porém, soube que lhe haviam telefonado de Poços de Caldas.

— Deixaram algum recado?

Seu Marciano quis saber o que acontecera no Rio.

— Nada. Bobagem. Essa gente de polícia trata testemunha como se fosse criminoso. Mas quando é que telefonaram? O senhor disse que eu estava no Rio?

Foi imediatamente para a Companhia Telefônica. Com o dinheiro que lhe sobrara da viagem — passara apenas uma noite num hotel do centro, tomara o primeiro avião de volta — pôde localizar Antonieta depois de vários telefonemas:

— Por que você não me avisou?

— E você, que foi ao Rio sem me avisar!

— Isso é outra história. Depois te explico. Como é que vamos fazer?

— Fazer o quê?

— Não posso passar mais tempo sem te ver.

Dois dias depois Antonieta lhe telefonava:

— Tenho uma notícia para você. Conversei com papai so­bre nós dois, falei quem você era, consegui convencê-lo de que não havia nada de mais. Ele acabou deixando que eu passasse uns tempos aí na casa de titia.

Eduardo queria prolongar a conversa, pedir detalhes, mas a presença de dona Estefânia na sala o constrangia.

— Conversamos quando você chegar.

Agora os dois se viam quase todas as noites, na varanda da casa dos tios. Às vezes a velha aparecia para uma conversa — revelara-se uma boa criatura, afinal — mas a maior parte do tempo os deixava a sós. Nesses momentos, abraçados, fa­lavam de si, revelando-se mutuamente, se experimentavam, maravilhados, descobriam pontos de contato, afinidades insuspeitadas. Recompunham o mundo à sua maneira, tentavam um entendimento completo além das palavras.

— Nunca pensei que isso fosse possível.

— Nunca pensei que você pudesse entender.

Isso o quê? Entender o quê? Não sabiam. Suspiravam apenas, olhavam-se nos olhos, beijavam-se a cada instante. Eduar­do procurava conter-se, mas isso sim, nem sempre era possível. Continuava arredio e distante de mulheres, ainda que às vezes desse uma escapada furtiva à zona boêmia, de onde voltava cheio de nojo, decepção e arrependimento. Antonieta, tão pura! era preciso ao menos preservá-la, conservar-se tam­bém puro, respeitar o seu amor. Uma noite não resistiu, aca­riciou-lhe os seios — outra noite seus corpos se misturaram, deitados no sofá da sala, numa das ausências da tia. Eduardo se martirizava — era uma baixeza deixar que tais coisas acon­tecessem. Quando por acaso iam a alguma festa, dançava com ela como dançaria com uma mulher de cabaré! Era pre­ciso resistir — foi o que lhe disse um dia, quando en­fim se abriu com ela, revelando-lhe o motivo de sua aflição. Antonieta ficou pensativa:

— Achava que se a gente gosta um do outro...

— Não. Está errado.

— ...fosse uma coisa natural.

— Não é natural... E você tem de me ajudar.

— É pecado? — perguntou ela. — Eduardo olhou-a, intrigado:

— Não é por isso, mas... Sim, é pecado, você tem dúvida? Você é católica?

— Acho que sou...

Acabou procurando um padre para se confessar. O padre o ouviu com paciência, mas não deu muita importância aos seus pecados:

— A moça tem razão, vocês sentirem desejo é natural. O que não é natural é essa situação de namoro com tantas faci­lidades, com tantas ocasiões de tentação. Não prolongue isso por mais tempo. Trate de casar-se logo que puder.

— Casar?


Não, o padre não compreendia. Como casar-se, na sua idade, sem terminar o curso na Faculdade, não ganhava nem para o seu sustento! De qualquer maneira, precisava melhorar de vida. Ninguém vive de literatura — era o que seu Marciano costumava dizer. Um dia falava com entusiasmo a Antonieta sobre sua necessidade de publicar imediatamente um livro — iniciar a carreira, firmar-se como escritor — a moça o desapon­tou com um único comentário distraído:

— Você não acha que é um pouco cedo?

— Nunca mais hei de tocar neste assunto com ela — de­cidiu, magoado. — Ela também não entende.

Ao saber da vaga de assistente de português, num colégio secundário, procurou o Toledo, que lecionava lá. Hugo não era professor? Também poderia ser.

— Acho difícil — ponderou o amigo. — E não lhe aconse­lho. Não há vida mais miserável.

— Eu continuaria com meus outros empregos...

— Que outros empregos?

— A repartição e o jornal.

Seu salário no jornal, onde trabalhava na parte da tarde, fora finalmente fixado.

— Uma miséria. E na repartição também. Você acabaria feito eu. Escuta uma coisa, Eduardo: não tenho nada a ver com isso, mas esse namoro com a filha do ministro...

— Não sei o que ela tem a ver com isso.

— Desculpe ter tocado neste assunto. Mas eu perdi minha oportunidade, não gosto de ver você perder a sua.

— Que oportunidade?

— A de escrever. Vá em frente, rapaz. Case-se, mude para o Rio, fuja disso aqui enquanto é tempo. Antes que você acabe oficial-de-gabinete, feito eu. Conquiste sua independên­cia, vá escrever.

— Mas não era você mesmo que me dizia estar arrepen­dido de ter-se casado?

— Psiu, fale baixo, rapaz! Você quer provocar uma tra­gédia no meu lar? Isso é diferente: casando ou deixando de casar, a gente se arrepende sempre. Não tem importância.

— O que é que tem importância, então?

— Para mim? Mais nada. Para você, escrever. Fazer do seu arrependimento uma boa literatura.

— Não me arrependi ainda. Talvez ainda possa evitar...

— É impossível. O sentimento não é bem de arrependi­mento, é uma espécie de nostalgia — já lhe disse isso. Nos­talgia daquilo que a gente não é, dos lugares onde não esteve, das coisas que não chegou a fazer... Se você não tiver isso, se um dia se sentir satisfeito, pode ter a certeza de que você não é mais escritor.

— E será ruim, isso?

— O quê? Não ser escritor?

— Não: se sentir satisfeito, não ter essa espécie de nos­talgia.

— Seria até bom, se não fosse o risco de ficar apenas com a outra espécie de nostalgia: a de tudo que a gente realmente viveu. Uma precisa da outra, para se transformar em expe­riência.

— Bem, mas eu não posso viver de nostalgia. Que devo fazer, então?

— O ministro lhe arranja um emprego. Por este lado você não tem com que se preocupar.

— Você mudou de idéia a meu respeito.

— Não entendo.

— Dizia que eu não cometesse o erro que você cometeu.

— Pensei que seu caso fosse diferente... Mas você tam­bém não soube escolher, foi escolhido. Agora agüente.

Eduardo se irritou:

— Ainda está em tempo, Toledo. Eu não sou um vendido.

— E eu sou — é isto o que você quer dizer. Qual, essa linguagem do Mauro não serve para você, por favor, perceba! Mauro se engrandece assumindo atitudes assim. Você apenas se compromete.

— Não tenho medo do compromisso.

Toledo deu uma gargalhada:

— Não, você não tem medo! Tem apenas um horror cego ao compromisso, e sabe por quê? Pois eu vou lhe dizer: por­que para você o importante não é se comprometer, e sim cumprir o compromisso assumido. Está certo, mas aquele que quiser salvar a sua vida... Também já lhe falei isso uma vez, vamos agora falar de coisas agradáveis: aqui entre nós, você está mesmo gostando da menina?



Antonieta lhe comunicou inesperadamente que iria embora:

— Papai chega amanhã. Vai com o governador a uma exposição pecuária em Uberaba, quer que eu vá com ele. De lá seguimos direto para o Rio.

Logo agora, que tinham tanto a conversar! No dia seguinte, de volta do quartel, era ele que lhe contava pelo telefone:

— A visita de seu pai é oficial. Fomos escalados para a escolta do ministro logo mais, da estação ao palácio.

— A cavalo? Ah, eu quero ver! Então vou também.

Era a primeira vez que os recrutas cumpriam missão tão importante. Compenetrados, nervosos, formavam o piquete de cavalaria, armados de lanças e capacetes emplumados. Eduar­do, em menino, mais de uma vez saíra à rua para ver os famosos cavalos do Esquadrão. Agora era um dos cavaleiros e olhava por cima a curiosidade agitada de outros meninos, a cercá-los na praça da estação.

O ministro seguiu para o palácio em carro aberto, ao lado da filha que fora esperá-lo, e acompanhado pelo piquete em trote curto. Ao primeiro momento Antonieta localizou o na­morado — chegou mesmo a acenar-lhe com a mão, o que mais tarde foi motivo de gracejo entre os recrutas. Esta etapa da missão foi por eles cumprida com galhardia. Quando, porém, o carro deixou o palácio a caminho do Grande Hotel, onde se hospedaria o visitante, deu-se o imprevisto: esquecido da escolta, o motorista tocou o carro em disparada, rua abaixo, os cavalos galopando doidamente ao seu encalço. Escorrega­vam nos trilhos do bonde, nos paralelepípedos, se dispersa­vam em confusão. Alguns cavaleiros deixavam cair a lança na ânsia de conter os animais. Alguns enveredavam pelas ruas transversais, outros passavam de muito o Grande Hotel, iam parar no centro da cidade. Dois ou três sofreram quedas, e entre eles Mauro, que se contundiu, teve de ser levado ao Pronto-Socorro. O ministro e a filha não deram conta de nada.

Ao chegar em casa, horas mais tarde, cansado e trôpego, Eduardo soube quê Antonieta lhe havia telefonado, convidan­do-o para a festa do clube naquela noite, em homenagem ao pai.

— Será a rigor? — resmungou.

— Não — estranhou seu Marciano. — Ela insistiu mesmo em dizer que você podia ir, não era a rigor. Você não tem aí o seu...

Smoking, papai.

Vestiu-se e foi para a festa. Ao vê-lo, Antonieta atirou-se em seus braços:

— Meu bem, você não está ferido? Só agora soubemos, eu estava morrendo de aflição, pensando que fosse você.

— Souberam o quê?

— Que um de vocês se feriu gravemente. Pois imagine que nem vimos nada...

— Não, ninguém se feriu gravemente — Eduardo tranqüilizou-a, displicente: — Foi o cavalo de Mauro que boleou, isto é, caiu para trás. Ele não teve nada, só torceu o pé. Mas então você pensou mesmo que tivesse sido eu?

— Vem — disse ela, puxando-o pela mão: — Quero te apresentar ao papai.

O ministro estava rodeado de gente. Cumprimentou Eduardo com jovialidade:

— Então: deram hoje um galope extra, tenente?

— Tenente, não: soldado raso — sorriu Eduardo, tentando o mesmo tom.

A vida de soldado raso não era atraente: tinha de estar no quartel às cinco horas, lavar cavalo, dar ração a cavalo, enci­lhar cavalo, montar a cavalo. Eduardo e Mauro se rebelavam, desafiando os superiores, fugindo às instruções:

— Hoje você responde chamada para mim, amanhã eu respondo para você.

Naquela manhã, Eduardo foi direto da festa ao quartel, mal teve tempo de vestir a farda. Mauro se aproximou mancando:

— Meu tombo ontem, você viu? Fiquei preso pelo pé. Vou pedir dispensa ao capitão Pílulas.

O capitão Pílulas era o médico que atendia os recrutas:

— Pílulas, que negócio é esse? Todos os dois machucados? Você não caiu, Eduardo.

— Cair, a gente cai todo dia... Levei um coice.

Foram examinados sumariamente, Eduardo obteve licença de três dias.

— E eu? — pediu Mauro, impaciente.

— Você não tem nada — tornou o capitão. — Você é um desenquadrado, não quer nada com o Exército. Enquanto Eduardo estuda, se interessa, você vive na farra, pílulas! não aprende nem a montar a cavalo. Mire-se no exemplo do seu colega!

Mauro, perplexo, olhou para Eduardo como para um espelho.

— Mas eu caí ontem! — insistiu.

— Não posso dispensar os dois. Coice é mais importante. Cair, você cai todos os dias.

Mauro saiu maldizendo o capitão e o amigo:

— Você procedeu como um autêntico sacana.

Eduardo ria:

— Vou dar um jeito nisso.

Foi de novo ao departamento médico e dentro em pouco voltava:

— Pronto, o Pílulas te deu uma semana de licença. Mas você tem de fazer uma reportagem.

Mauro não queria acreditar:

— Reportagem? Reportagem sobre o quê?

— Sobre qualquer coisa: sobre o serviço médico no Exér­cito, por exemplo. Contanto que você cite o homem. Ele vai te dar os dados. Você pede ao Veiga para publicar.

— Depois o Veiga não publica...

— Bem, esse problema é seu.

Ao chegar em casa, soube que fora chamado de novo à polícia.

— Pílulas! — explodiu.

O delegado lhe disse que o caso devia ser mais complicado do que parecia à primeira vista.

— Pelo jeito você vai ter de ir de novo ao Rio.

— Mas será possível!

— Estou cumprindo ordens, filho.

— E eles? O que é que estão pretendendo?

— Não sei... Essas coisas são assim mesmo.

E o delegado se inclinou, mudando de tom:

— Escuta aqui, Eduardo: se a tal mulher estava com você, pode dizer, não há nada de mais nisso. Ficou provado que ela pulou...

— Nunca a vi mais gorda.

— No elevador?

— No elevador vi uma mulher, não sei se foi ela. Não che­guei a ver o corpo de perto.

— Não esteve no seu quarto? Nem um instante?

— No meu quarto? Você está doido? Nem clava tempo. Pulou do quarto acima do meu dez minutos depois que eu cheguei.

— Meia hora.

— Quem te disse?

O delegado o segurou pelo ombro, paternal, levou-o até à janela:

— Aqui dentro a gente fica sabendo de tudo. Olha, eu não devia, mas vou te contar: já soube, por exemplo, que o quar­to acima do seu estava trancado.

— E o de cima?

— Do quinto andar? — e o delegado debruçou-se à janela: — Veja. Estamos no quinto andar. Você acha possível alguém pular daqui lá embaixo e não morrer imediatamente?

— Em resumo: levei a dona para o quarto, joguei pela ja­nela e fui avisar o porteiro.

— Não precisa se zangar! Estou exatamente procurando a melhor maneira de te tirar dessa história. Convém ficar por aí esses dias, aguardar um aviso meu.

— Quer saber de uma coisa, Barbusse? — respondeu Eduardo, mal-humorado: — Esta brincadeira já está passando dos limites.

— Engraçado... Você brincou a valer, pintou o diabo, agora se queixa: pensa que aquele esqueleto não me deu tra­balho até apurar? E a porta da coletoria?

Acompanhou-o até a saída;

— Mas fique tranqüilo que isso dá em nada.

Eduardo se sentiu realmente tranqüilizado, nem contou nada a seu Marciano. Não pensou mais no assunto, e naquele mesmo dia embarcou para Uberaba: seguia com a orquestra encomendada para o baile. Conseguira que o Veiga o man­dasse pelo jornal, para fazer a reportagem da exposição pecuária.

— Deixo Mauro no meu lugar. Ele tem aí uma reportagem para fazer, você vai ver só.

— A passagem está arranjada — disse o Veiga. — O resto por sua conta.

— O resto por minha conta — repetiu.

O resto era Antonieta. Não lhe falara nada, queria fazer-lhe uma surpresa. E durante a festa no clube a idéia de segui-la ainda mal ganhara corpo. Despediu-se com intensidade:

— Estão sempre nos separando...

— Ninguém há de nos separar.

Buscaram a varanda para um último beijo. Abraçados a um canto, já nada diziam. Naquele clube se haviam conhecido, naquele clube se separavam. Estas foram as últimas palavras que trocaram. Agora, ele seguia para Uberaba num trem desconfortável — foram 36 horas de viagem penosa, ao fim das quais encontrou a cidade em festa, hotéis superlotados, con­fusão. Ninguém se entendia, milhares de pessoas tinham vindo de outras cidades para ver, se divertir, negociar:

— Quanto você quer pela novilha? — diziam, num café.

— Não vendo por menos de doze contos.

— Doze contos? É muito. Dou dez.

— Então dá onze — arrematava o outro.

O governador, o ministro e até o presidente da República estavam presentes — a prefeitura local inauguraria várias obras com o nome de cada um deles. Eduardo se hospedou com a orquestra num grupo escolar, em meio a outros foras­teiros que dormiam em colchões, pelo chão. Logo nos primei­ros minutos lhe furtaram uma caneta-tinteiro — de um dos músicos furtaram o saxofone. Conseguiu trocar de roupa e saiu à procura de Antonieta.



Regressou a Belo Horizonte dois dias depois, num trem cheio de retirantes. Sua cabeça fervilhava, tinha o corpo moído de cansaço: estivera com ela, é verdade, mas foram dois dias e duas noites de permanente agitação: festas, recepções, ban­quetes, solenidades, nas quais a moça sempre arranjava jeito de incluí-lo, em meio a oficiais-de-gabinete, autoridades, jor­nalistas, admiradores.

— Essa gente não serve para você — queixou-se ele, num dos raros momentos em que se viram a sós. — Essa vida que você leva...

— Está com ciúme? — desafiou ela.

— É possível. O Aragão, por exemplo: quem diabo é afinal esse Aragão? Por que tem tanta familiaridade com você? Pas­sou a noite me explicando seu temperamento, assumindo um ar de proteção.

Aragão era um rapaz da comitiva oficial, em cujo quarto no hotel, graças a Antonieta, Eduardo fizera pouso.

— Você já o conhecia, meu bem: esteve conosco aquele dia na praia, não se lembra? Ê aviador. Filho de um amigo do papai.

— E eu, o que é que sou? — disse ele, dramaticamente.

— Você? É o meu namorado.

— Eu não sou nada — continuou, sem ouvir: — Fico no meio dessa gente feito um importuno, um admirador a mais. Você é minha! e eles nem sabem. Precisamos ficar noivos, para que nos respeitem.

— Vou conversar com papai.

Deixaram o assunto para o dia seguinte. Eduardo estava irritado com tudo e com todos. Queixou-se de que a polícia continuava a aborrecê-lo com o caso do Hotel Elite.

— Vai ver que você estava mesmo com a mulher — gra­cejou ela, o que ainda mais o irritou. E, deixando-o, saiu para dançar. Estavam numa festa. Antonieta tinha que dançar com um e outro, largando-o sozinho a cada instante. Desta vez, ele trouxera o seu smoking, mas se arrependera; não devia ter-se metido naquilo. Ela é que tinha de vir para a sua vida. Filha de ministro, do Rio de Janeiro, tão diferente dele, obscuro rapaz de Minas — outro ambiente, outra educação. Não dava certo.

— Foi melhor assim.

— Tinha de acabar.

Pois então por que diabo não acabara mesmo naquela ocasião no banco da Praça? Para se sentir cada vez mais infeliz por uma coisa que não teria nunca?

No dia seguinte, ao acordar, sentiu no ar algo de diferente, um silêncio lá fora, uma calma... Não viu no quarto do hotel as coisas do Aragão. Chegou à janela: os empregados da Pre­feitura removiam as faixas com os dizeres “Benvindo Seja a Uberaba” e as bandeirolas festivas com que haviam enfeitado a rua. Vestiu-se, desceu à portaria. Informaram-lhe que todos tinham partido naquela manhã, o presidente voltara inespera­damente ao Rio, de avião, o governador voltara a Belo Hori­zonte.

— E o ministro? A filha do ministro?

Sem um bilhete, uma despedida! Arrumou as coisas e ia saindo, acabrunhado, carregando a mala, quando o homem da portaria o deteve:

— Quer sua conta agora?

— Conta?


— O senhor não está de partida?

— Estou, mas... faço parte da comitiva — explicou, confuso.

— O seu nome não consta...

— Com o Aragão — acrescentou, a voz mais firme. — Aquele aviador. Eu estava no quarto dele.

— Bem, mas...

— Ele pagou a conta? — perguntou, irritado. — Não: ele era da comitiva. O nome dele...

— Pois então, paciência! Também não pago. Em que ele é melhor do que eu?

O homem ergueu os ombros e continuou firme: não cederia.

— Não quero favor de ninguém — disse Eduardo, afinal. Quanto é?

E aquele sujeito a tratá-lo cheio de mesuras, quando passava com Antonieta pela portaria! Examinou a conta com raiva: duas diárias completas, dez por cento de gorjeta.

— Não almocei nem jantei aqui. Dormi uma noite. Na outra mal cheguei e saí. Pago uma diária, o que já é roubo. E não dou gorjeta.

Atirou a nota no balcão, a única de que dispunha, e saiu a passo firme, sem esperar o troco. O que era um contra-senso: afirmara que não daria gorjeta. Não nascera para aqui­lo. Vou usar botinas e deixar crescer o bigode — se prome­teu, enraivecido. Com os níqueis que lhe sobraram, comprou pastéis e um sanduíche — foi sua única refeição até Belo Ho­rizonte. A orquestra não voltou, ficara por lá. Teve de ir para casa a pé, ao peso da mala. Naquela mesma noite, mal refeito do cansaço, procurou o velho Marciano.

— Papai, tenho um assunto importante a tratar com o senhor.

Seu Marciano mandou que esperasse: assuntos importantes, só depois do jantar, na varanda. Ele próprio, sentindo a importância da conversa, não quis que dona Estefânia participasse.

— Antes de mais nada, meu filho: o Mafra, aquele seu pro­fessor de natação, está atrás de você.

— O que ele quer?

— Não sei: pediu para você procurá-lo assim que chegasse.

— Bem, deixemos isso — e Eduardo limpou a garganta: — O problema é o seguinte: eu quero me casar, papai.

— Casar? — e o velho procurou disfarçar o espanto. — Mas antes de casar você tem de ficar noivo, meu filho.

— Eu estou noivo. Isto é, quero ficar noivo. É isso: ficar noivo.

— Mas para isso era preciso que você tivesse uma situação, terminasse seu curso... Você não acha que é um pouco cedo? Está com vinte anos, não? Sempre quis que você se formasse. Veja o meu caso: se eu tivesse me formado...

— Eu me formo — cortou Eduardo, impaciente. — Quanto a isso não tenha dúvida. Já prometi, pois então acabou-se. Acho que não adianta nada, mas me formo. O problema não é esse.

— Qual é o problema, então?

— O problema é que...

Seu Marciano resolveu abrir-se com o filho:

— Você sabe, nunca falei nisso porque esperava que um dia você viesse conversar comigo. Hoje você veio, pois vamos conversar: eu já sabia do seu caso com essa moça — não tenho nada contra ela, pelo contrário, já soube que é moça distinta. Mas isso é uma coisa que vem me preocupando muito, ultimamente. A mim e à sua mãe. Principalmente a ela. Já por duas vezes ela quis conversar com você, eu é que não deixei. Quando você foi ao Rio e agora a Uberaba. Acontece que essas coisas o povo fala muito, meu filho, não perdoa nada. E ainda mais se levarmos em conta a situação da moça, sua posição social...

— Fala o quê? — protestou o rapaz: — Não vejo motivo para falarem de nós.

— Falam exatamente isso que você está me falando: que vocês estão precisando casar. Só que tem que falam com ma­lícia, e nem sempre sem razão. Também já fui moço, sei como são essas coisas. Noivado, quando chega a um ponto, é preciso casar mesmo.

— Mas eu nem noivo estou — protestou Eduardo.

— Pois é isso: nem noivo está — e o pai o fitou, perceben­do que tinham voltado ao ponto de partida.

— Antonieta ficou de conversar com o pai dela.

Era a primeira vez que Eduardo mencionava o nome da moça para seu Marciano.

— Então depende dele, não de mim.

— E se ele consentir?

— Se ele consentir...

E os dois ergueram o ombro, olhando-se com simpatia. Não havia problema, pois. O problema é o seguinte: não há pro­blema.

— Como é que o senhor ficou noivo, papai?

Naquele mesmo dia o delegado lhe telefonava:

— Você foi embora sem me avisar. Te avisei que não saísse da cidade.

— Você sabe de tudo, hein, Barbusse? — retrucou Eduar­do, bem-humorado. — Pois então fique sabendo que resolvi mandar às favas esse caso. Não volto aí nem que você ponha toda a polícia atrás de mim.

— Não vai ser preciso. Já tomei providências, não vão te aborrecer mais. O caso foi encerrado.

Na redação do jornal, Eduardo encontrou Mauro às voltas com a reportagem.

— Olha só o que você me arranjou. O capitão Pílulas mon­tou na minha alma: está me chateando, não me larga mais.

Eduardo se lembrou, começou a rir:

— E o que é que você está escrevendo?

— Sei lá! Você agora me tira disso. É lógico que o Veiga não pode publicar esta merda.

Leu o que Mauro havia escrito. Era uma digressão sobre a restauração das liberdades democráticas em todo o país.

— Está ótimo, mas não sei aonde você quer chegar.

— Agora vou entrar no papel do Exército, etc.. Até chegar no Pílulas.

— Não faça isso. Dá encrenca na certa.

— Quer aproveitar para a sua reportagem sobre Ube­raba?

Eduardo sentou-se à máquina e continuou no mesmo tom: entrou a atacar as iniciativas governamentais, acabou falando em pecuária. Citou o triste espetáculo da exposição de Ube­raba, para especulações entre os negociantes de gado: mem­bros do governo, ministros, e até o presidente, se valiam do pretexto para festas dispendiosas, enquanto a carne subia de preço. E o povo passando fome.

— Isso, rapaz — Mauro aplaudia, entusiasmado, lendo por cima do seu ombro. — Estou gostando de ver! O Veiga não vai publicar.

— Se eu assinar, ele publica.

Na mesma noite telefonou para o Rio, soube de Antonieta que a viagem fora decidida na última hora, não tivera tempo de despedir-se.

— Fiquei com tanta pena, deixar você lá sozinho... Volta­mos no avião do presidente.

— Conversou com seu pai?

— Conversou o quê?

— Já esqueceu?

— Ah! Mas assim tão depressa? Preciso aguardar uma boa oportunidade, para não estragar tudo. Ele está muito bonzi­nho, interessado em você. Falei com ele sobre aquele caso do suicídio, ele deu ordem para não te amolarem mais, não.

— Então foi isso...

Na manhã seguinte não havia instrução no quartel. Lembrou-se do Mafra, foi procurá-lo:

— E então?

Encontrou-o à borda da piscina, o quebra-luz de celulóide verde na testa, treinando os novos nadadores.

— Veja só o estilo daquele menino — o treinador apontou um jovem que cortava a água em braçadas lentas. — Não tem nem dezesseis anos e já está fazendo 1,4.

— Vai bater meu récorde, então.

— Se continuar, vai. Se for como você, interromper... Mas precisamos conversar.

Levou-o para a sede do clube:

— Como é que você vai de saúde?

— Bem, obrigado.

— Fumando muito?

— Não: pouco. Por quê?

— Daqui a um mês será o campeonato. Estamos com os pontos contados, o pessoal do interior vem forte este ano. Há um nadador de Juiz de Fora que vai ganhar os cem livres, não tenho ninguém para ele. Pela primeira vez vamos perder, a menos que... Pensei em você.

— Em mim? — Eduardo, espantado, começou a rir: — Só se for para juiz... Você está doido, Mafra? Há séculos que não entro n’água.

— Temos ainda trinta dias.

— É pouquíssimo. Estou com o corpo duro de montar a cavalo, sem fôlego, perna-de-pau. Morro afogado. Nem para encher raia.

— Que encher raia! Para ganhar. Te ponho em forma. Em trinta dias você estará fazendo o seu tempo novamente.

— E aquele menino do 1,4?

— É fraco para o outro. Só mesmo você. Não custa tentar. As férias iniciavam-se naqueles dias. Eduardo começou a treinar, entusiasmado. Nos primeiros treinos o técnico não quis tomar-lhe o tempo, para não desanimá-lo.

— A coisa vai. É preciso intensificar. Onde você foi arran­jar essa puxada de mão esquerda? Muito rápida. Observe a pegada dupla.

Mafra deixou os outros nadadores entregues ao treinamento costumeiro, dedicou-se inteiramente a Eduardo: castigava-o com massagens, ginástica, regime especial.

— Dormir cedo, não comer fora de hora. Nada de álcool, nem de mulher.

— É inútil, não tenho mais fôlego — queixava-se o nada­dor, desconsolado.

— É o cigarro. Não tem importância: você ainda agüenta. Uma prova só.

Aos poucos o cronômetro começou a registrar as baixas de tempo. Em vinte dias Eduardo já estava a dois segundos do seu antigo recorde.

— Acho que até aquele menino vai ganhar de mim.

— Agüenta a mão, rapaz. Experiência também conta. O braço esquerdo já está perfeito, agora é melhorar a saída e as viradas.

— Eu morro — gemia Eduardo.

— A partir de domingo você pode morrer.

O treinador era de uma persistência fria e impiedosa, que se fazia contagiante. Eduardo se empolgava agora pelo de­sejo de vencer:

— Quanto faz esse rapaz de Juiz de Fora?

— O mesmo que você.

— E quanto eu estou fazendo?

— Não é da sua conta.

E Mafra esfregava as mãos, satisfeito:

— Vamos ter surpresa.

Os jornais anunciavam a volta de Marciano, o recordista dos cem metros, faziam prognósticos. Eduardo se via na sua antiga atmosfera, familiar e agitada, feita de expectativa, an­siedade, obstinação. No dia da competição se sentiu estranha­mente calmo, seguro: era o único nadador veterano; os outros eram mais jovens, não vinham de seu tempo. Rodrigo apare­ceu no vestiário para abraçá-lo:

— Você é duro na queda, hein? — e o antigo companheiro de prova o olhava com admiração.

— Idéia do Mafra — sorriu, encabulado. — E você? Nunca mais nadou?

— Eu? Vou à praia, de vez em quando... Estou morando no Rio, entrei para a aviação. Vim passar as férias aqui, vi seu nome no jornal... Olha, você tem de ganhar. Apostei em você, não vai me fazer perder meu dinheirinho.

— É lógico que vou ganhar.

Tirou a roupa, Rodrigo lhe fez massagens nos braços:

— Fui ver ontem o treino desse menino de Juiz de Fora na piscina do Atlético. Não se impressione com o ritmo dele: tem uma braçada muito curta.

— De que lado ele respira?

— Do esquerdo. Mas eu se fosse você não me preocupava com isso: nade sozinho.

E Rodrigo o abraçou, se despedindo.

— Conte comigo — prometeu Eduardo, inesperadamente emocionado.

— Eu quero ver sangue — incentivou Mafra, satisfeito, ao se aproximar a hora da prova.

Foi apresentado ao adversário à borda da piscina: um jovem magro, esguio, de cabelos louros. Quis puxar conversa mas Eduardo o observava como a um inimigo. Ele há de ver co­migo — dizia, para si mesmo. Por inexplicável movimento de pudor que aos outros e à própria assistência pareceu anties­portivo, recusou-se a ser fotografado ao lado dele.

Todas as raias seriam ocupadas. Feito o sorteio, o nadador de Juiz de Fora ficou à sua esquerda. “Melhor”, pensou, “só serei visto na volta”.

— Respire de um só lado — advertiu Mafra.

— Atenção!

Já na banqueta, de súbito pôs-se a tremer. Que idéia, essa de voltar! A luz dos refletores o deslumbrava, a água verde e ondulante lhe parecia traiçoeira como a de um pântano, os gritos da assistência, aclamando-o, o tonteavam. E aquela vontade de urinar à última hora, aquele enjôo, aqueles boce­jos tão seus conhecidos. À sua direita o nadador que fazia 1,4 aguardava, sereno, imóvel, o tiro de largada. Pronto, o apito! O juiz de saída ergueu o revólver. Eduardo crispou-se, armou a saída, perdeu o equilíbrio e caiu n’água. A vaia costumeira saudou o incidente. Isso nunca lhe acontecera! Acontecia sem­pre com algum outro, nunca com ele. Aproveitou-se para mo­lhar o corpo, em movimentos deliberadamente livres, harmo­niosos. Não costumava molhar o corpo, como os outros nada­dores, preferia nas provas de curta distância o impacto violento da água fria. Nadou uns vinte metros, a assistência finalmente identificou o seu belo estilo, tão conhecido antigamente, prorrompeu em aplausos, procurando incentivá-lo.

Foi dada a partida. Logo às primeiras braçadas o ritmo acelerado do outro o surpreendeu. Como se fosse o tiro final! Estaria fazendo aquilo para confundi-lo? Toda a emoção, toda a ansiedade de segundos antes passara por completo. Sentia-se firme, seguro, confiante: trazê-lo sob controle, custasse o que custasse, conquistar uma pequena frente — e a volta faria o resto.

Viraram juntos. Agora era dar tudo o que tinha, naquela conhecida sensação de estar nadando sempre no mesmo lugar, cavando obstinadamente a água. Os últimos cinco metros lhe pareceram terríveis, como sempre: teve tempo de odiar tudo aquilo, mandar Mafra ao diabo, a natação, e a vontade de vencer... Mal conseguia respirar, quando sua mão tocou a borda, e o treinador teve de retirá-lo da piscina.

— Ganhei? — perguntou, ansioso.

Mafra o consolou, batendo-lhe nas costas: tirara o terceiro lugar. Foi para casa sozinho, a cabeça em tumulto. Por que tudo aquilo, santo Deus? Que idéia descabida, que estranha teimosia aquela, esquecer tudo durante um mês, para dedicar-se como louco a experiência tão dura, que não lhe traria pro­veito algum! Vaidade? Solidariedade com seu clube? Ora, bem sabia que tais coisas não existiam mais para ele. Por que, en­tão? O pai lhe dissera, apreensivo: “Você está exagerando, meu filho. Isso não pode fazer bem”. Não lhe dera ouvidos, e agora o resultado ali estava: pela primeira vez, terceiro lugar, seu récorde batido até pelo outro nadador do clube, o jovem de dezesseis anos. Ele próprio conseguira apenas fazer o tem­po que antes fazia — o que já era muito. Mas o outro, o de Juiz de Fora... Mafra lhe havia mentido. Escalara-o apenas para encher raia, para fazer pontos.

— Então, meu filho?

Estranhou encontrar o pai ali, àquela hora, na cadeira de vime da varanda. Deixou-se cair na outra cadeira com um suspiro resignado:

— É... O senhor tinha razão.

— Eu estive lá — disse então seu Marciano. Eduardo se espantou:

— Lá na piscina?

— Não tinha nada a fazer, me deu vontade de ir — con­fessou o velho.

— E gostou? — perguntou Eduardo, amargo.

— Sabe de uma coisa, meu filho? Não entendo disso, mas se me perguntar minha opinião, achei que você nadou mui­to bem.

— Grande consolo.

— Escuta, Eduardo — e o velho se inclinou para ele: — Para que um ganhe, é preciso que o outro perca. Só que hoje foi você esse outro... Não passa de uma espécie de jogo. Se você ainda tivesse feito feio, chegando muito atrás...

— Seria engraçado.

— Não sei... — sorriu o velho, sem entender. — Enfim, você teve vontade, não custava tentar. Não tem importância nenhuma. Vamos dormir?

Não tem importância — tentava acreditar, nos dias que se seguiram. Mafra o enganara, o nadador era melhor do que ele jamais fora, não poderia ganhar. Ainda mais em trinta dias! Impressionado ele próprio com a violência de sua de­terminação, agora obsessiva, continuou a freqüentar a piscina. Longe dos olhos do técnico, fora das balizas de treinamento, continuou a exercitar-se. Pedia a Chico, o roupeiro, que lhe cronometrasse os tiros. Deixou de fumar, fazia ginástica res­piratória. Passou a coordenar, ele próprio, o tempo das pas­sagens:

— Não posso cair mais de 4 segundos em cada 25 metros — calculava.

Sua luta era contra o cronômetro. Corrigiu a posição da cabeça e ganhou alguns décimos de segundo; aperfeiçoou a pegada dupla, treinou saídas, viradas e batidas de perna até a exaustão, ganhou mais alguns décimos. Ao fim de um mês dirigiu-se a Mafra, que o observava de longe, intrigado, fin­gindo não ver:

— Pode convocar os juizes da Federação.

— Você vai querer que alguém te puxe?

— Não: prefiro nadar sozinho.

Marcaram a tentativa para um sábado à tarde, depois de encerrado o movimento da piscina. Aos olhos apenas de um pequeno grupo de pessoas — juizes da Federação Aquática, cronometristas, dois jornalistas, o próprio Mafra — Eduardo fez calmamente a sua ginástica, foi massageado pelo roupeiro.

— Seu novo técnico — gracejaram.

Subiu à banqueta e olhou com carinho a piscina clara e amiga: sabia que ia lutar agora contra o seu maior adversá­rio, e pela última vez.

— Pronto?

— Atenção... Já!

A nova marca oficial, estabelecida naquela tarde, levaria alguns anos para ser superada. Eduardo saiu d’água, enxugou-se, agradeceu os cumprimentos, despediu-se e deixou a pisci­na para sempre.

De súbito, a caminho de casa, lágrimas de raiva e despeito saltaram-lhe dos olhos. Era um choro nervoso e sem sentido, odiava a si mesmo e o que fizera. Tudo aquilo, afinal, para quê? Tanto sacrifício! Perdera tempo, esquecera os amigos, os livros, a literatura quase de todo abandonada. Sentou-se num banco da Praça, buscou acalmar-se olhando os jardinei­ros que, indiferentes, aparavam a grama no jardim. Eles, sim, sabiam viver. Nenhuma pressa, nenhuma aflição: obedeciam ao ritmo que lhes era imposto, harmonizavam-se à ordem das coisas ao redor, Era como se ele, apenas ele, excedendo a si mesmo, num movimento brusco saltasse fora da engrenagem e, desgovernado, pudesse ver de longe o mundo pacífico e feliz de que não sabia participar.



Pouco falara com Antonieta ultimamente. A idéia do noivado fora adiada: por acaso caíra sob os olhos do ministro a sua reportagem sobre Uberaba, o homem nem queria ouvir falar nele:

— Vejam só a ousadia desse menino: diz aqui que eu fui uma das figuras mais importantes da exposição de animais.

— Como é que você teve coragem... — queixou-se Anto­nieta.

— O que me admira é que nosso noivado, nossa vida in­teira, vá depender de uma bobagem dessas. Também, como é que eu podia imaginar que seu pai ia acabar lendo um jor­nal de Minas?

Os telefonemas agora corriam por conta de seu Marciano.

Meu filho, você deixou a repartição? Anda faltoso, relapso...

— Perco meu tempo naquela burocracia estúpida e o que ganho é uma vergonha. Minha vida não vai para a frente, não, às vezes me dá vontade de desistir de tudo e sair por aí...

— Tome juízo, menino — censurava dona Estefânia. — Não fale assim que Deus te castiga.

— Ora, Deus... Deus anda mesmo muito preocupado comigo.

— E seus estudos? — perguntava o pai.

— Não tenho nada para estudar: as aulas não prestam, os professores são umas bestas.

— Meu filho, você não era assim.

— Pois agora sou — retrucava.

Terminara o serviço militar, fora promovido, aguardava convocação para o estágio. Uma noite Antonieta lhe telefonou com uma notícia inesperada:

— Papai está disposto a lhe arranjar um emprego aqui no Rio, mas disse que antes precisa conversar umas coisas com você.

— Umas coisas? Que coisas? E que reviravolta foi essa?

— Não sei: disse que precisa te dar uns conselhos...

— Diga a ele que não estou querendo emprego nem conselhos.

— Então paciência.

Discutiram e brigaram pelo telefone, sem saber direito por que Eduardo estava nervoso, excitado, doente: o esforço com a natação o extenuara. Seu Marciano chamou-lhe a atenção:

— Meu filho, você não tem razão: o homem quer te aju­dar, não vejo por que se ofender.

— Não estou pedindo conselho a ninguém.

— Não está pedindo? — seu Marciano ficou lívido: — Você nunca me falou nesse tom.

— Falo no tom que quiser.

O pai encarou-o fixamente: quis dizer alguma coisa ainda, não conseguiu. Estava ofegante, descontrolado. Eduardo, imó­vel, viu que ele afinal lhe dava as costas e se afastava sem mais uma palavra, indo sentar-se na varanda. Resolveu sair e passou por ele de olhos baixos, constrangido, sem cora­gem de olhá-lo. Entrou num cinema, mas não conseguiu distrair-se. Voltou para casa — o velho ainda estava no mesmo lugar:

— Papai, eu... — e sentiu a voz quase sufocada num soluço.

— Meu filho, você anda precisando descansar um pouco.

— Eu não devia ter respondido assim, papai, me desculpe...

— Agora, também, não exagere.

— Mas eu não queria dizer que não preciso de seus conselhos. Não preciso dos conselhos dele.

— Não vejo motivo para tanto orgulho.

— Não é orgulho, papai, é tédio dessa vida...

— Muito bonito, um rapaz de sua idade, forte, sadio, inteligente, se queixando de tédio da vida. Não tem cabimento. Onde já se viu isso?

— Está bem, está bem: aceito o emprego, acabado. Con­tanto que fique noivo.

Dias depois comunicava sua decisão a Antonieta. Ela, porém, o surpreendeu:

— Papai anda nervoso com a situação política, não sei... Mudou de idéia, disse que antes precisa colher umas infor­mações sobre você.

— Informações sobre o quê? Com quem?

— Me dê mais alguns dias — pediu ela: — Vou tentar convencê-lo.

Ainda bem que ele é viúvo — pensou: senão ela teria também de convencer a mãe... Mais alguns dias e Antonieta lhe telefonava chorando:

— Briguei com papai por sua causa...

— O que está se passando, afinal?

Os telefonemas foram interrompidos. Melhor assim, não havia dinheiro que bastasse — concluiu ele. Foi inesperada­mente convocado para o estágio em Juiz de Fora. Mauro requereu baixa, foi dispensado como terceiro-sargento.

— Faça o mesmo, rapaz. Deixa de ser besta.

— Não: prefiro ir. Já não agüento esta vida aqui.

O que se passava com ele? Sua inquietação, sua vontade de encerrar uma fase da vida e inaugurar outra era algo que saltava aos olhos de todos. Passou três meses em Juiz de Fora, servindo na caserna. Conheceu uma moça chamada Helga — era alta, loura, serena — tão diferente de Antonieta.

— Sabe, Helga? Eu devia ter te conhecido antes...

Helga não dizia nada e o beijava, lânguida.

Continuava a pensar em Antonieta. Não sabia como tudo havia acabado, assim de repente, sem nenhuma explicação. Um sábado, afinal, tomou um ônibus e foi até o Rio, pro­curou-a:

— Eu quero saber apenas o que foi que houve, afinal.

— Você não quis mais saber de mim.

— Você é que não quis. Eu estou aqui, não estou?

Ela riu:


— Eu também estou.

Não houvera nada, pois. Beijaram-se, como antigamente, ela prometeu conversar com o pai:

— Quando é que termina essa história de exército?

Começou a aproveitar as folgas de sábado e domingo para ir ao Rio: passava a noite numa pensão, encontrava-se com Antonieta na praia, iam ao cinema.

— E então?

— Meu pai quer me mandar para a Europa. Disse uma porção de coisas de você...

— De mim? O que é que ele sabe de mim?

— Nada, não precisa de se ofender. Só que você é muito moço ainda, não sabe direito o que quer...

— No mês que vem faço 21 anos e você já tem dezoito. Diga apenas isso a ele.

— Por quê?

— Se você quiser eu mesmo digo.

No quartel, para distrair-se, passava o dia treinando arduamente equitação — o que o dispensava de outras tarefas: ia haver um concurso de saltos. Foi classificado em segundo lu­gar — os oficiais superiores vieram cumprimentá-lo:

— Você tem jeito para a coisa, rapaz.

— Grande vantagem. Não ganhei o concurso...

Escreveu uma longa carta a Mauro e outra a Hugo se queixando por não ter ganho o concurso. Recebeu resposta de ambos: enquanto você cavalga, nós pastamos — dizia um; você deixou o barco quando já estava fazendo água — dizia o outro. Não se viam senão raramente. Mauro reclamava que Hugo dera para andar com uns meninos, os novos gênios da praça — Hugo dizia que Mauro recomeçara a salvar a pátria pelas esquinas e prometia candidatar-se a deputado, caso houvesse eleições.

Findo o estágio, foi direto ao Rio. Antonieta veio ao seu encontro ansiada, nervosa:

— Consegui convencer papai. Mas ele disse que primeiro precisa conversar umas coisas com você. Pode ir, não tenha medo.

— Medo, eu? Por que haveria de ter medo de seu pai?

Naquele mesmo dia foi ao gabinete do ministro. Assim que deu seu nome, fizeram-no entrar. Havia duas ou três pessoas na sala, mas o ministro o tomou pelo braço, familiarmente, levou-o a um canto:

— Escuta, meu rapaz: antes de mais nada, me conte tudo, mas tudo mesmo, hein? sobre a morte da meretriz. Pode falar sem susto, não me esconda nada.

Eduardo o olhou, estupefato:

— Que meretriz?

Percebeu logo que o homem se referia ao suicídio do Hotel Elite.

— Não sei nada sobre aquela mulher. Nem sei se era meretriz. Fui só testemunha do suicídio, ficou mais do que claro na época. Mas vou lhe contar tudo o que aconteceu.

O ministro o ouviu, silencioso e concentrado. Quando Eduardo terminou, disse apenas:

— Muito bem. Quer dizer que você jura que não estava com ela?

— Não estava — disse o rapaz, veemente.

— Pois me disseram que você tinha vindo com ela do Cassino Atlântico. Levou-a para o quarto, estava completamente nu quando ela se atirou. Se é mentira, eles hão de ver.

— É mentira. Quer dizer, é mentira que eu tenha jamais visto aquela mulher na minha vida. Agora, quanto a estar nu... Eu ia vestir o pijama quando ela pulou. Me lembro que pus uma capa e...

— Você viu quando ela pulou da janela?

— Vi. Isto é, não vi pular e sim... — Eduardo afinal per­deu a paciência: — Ora, ministro, o senhor parece que está querendo me confundir. O que eu vi já contei. Se o senhor não quer acreditar, o que é que eu hei de fazer? Que inte­resse eu tinha em negar, se a mulher estivesse comigo? Afinal de contas, não sou casado. Não devo satisfação a ninguém. O senhor mesmo disse que era uma meretriz. Eu não estaria fazendo mais do que todo mundo faz. Pouco me importava que viessem a saber. Se o senhor acha que por causa disso...

— Bem — interrompeu o ministro com decisão: — De qualquer maneira, o inquérito já foi encerrado. Queriam pedir prorrogação do prazo, eu é que não deixei. Não havia mais nada a fazer. Mesmo que você tivesse visto a infeliz se atirar da janela, que poderiam alegar? Você não teria culpa nenhu­ma. A não ser a de ter dado falso testemunho, de ter mentido. Você jura que não mentiu?

Eduardo respirou fundo. Tudo iria principiar novamente, e já não suportava mais repisar aquele caso: estava exausto. Era como se enfim percebesse uma conspiração que aos pou­cos se armava contra ele — era o Terror.

— Não pense mais nisso, meu jovem — disse o ministro, com simpatia, vendo-o tão abatido. Bateu-lhe nas costas: — Também já fui moço. Apareça lá em casa uma noite dessas.

Eduardo saiu do gabinete irritado: afinal, nem se mencionara o nome de Antonieta. Fora dela, o que é que aquele homem tinha com sua vida? Também já fui moço — queria dizer talvez que não acreditava numa só palavra sua, mas que tudo ficava por isso mesmo.

— Dane-se — concluiu.

Na manhã seguinte, porém, Antonieta o surpreendeu com a notícia:

— Papai concordou com o noivado! Parece que ficou bem impressionado com você. Sobre o que vocês conversaram?

— Sobre Kafka — resmungou.

Antonieta se voltou, desanimada:

— Você nem parece ter ficado contente.

— Fiquei. É que estou muito cansado.

— Ele impôs uma condição: disse que ainda somos muito moços para casar, temos de esperar pelo menos um ano. Você concorda?

— Concordo.

E ficaram olhando um para o outro, sem ter mais o que dizer.

Na mesma noite telefonou ao pai:

— Acho que o senhor vai ter de dar um pulinho aqui ao Rio.

Passou horas sob a estranha impressão de que não havia mais nada a fazer. Tinha vencido, afinal. Conseguira o que queria. E daí? Esperar, casar, morar, ter filhos, amar, sofrer, esquecer, envelhecer. Oh, viver era tão fácil, tão sem gosto e sem estímulo, o que importava era morrer.

Seu Marciano atendeu o chamado, mas agora estava apreensivo, intimidado:

— Escuta, meu filho, e se o homem não estiver para gra­ças, me passar uma corrida? Você está certo de que...

Eduardo ria:

— Pode ficar tranqüilo, papai, não há problema nenhum. Já está tudo resolvido.

— E o que vocês pretendem fazer? Morar no Rio?

— Quanto a isso, não sabemos ainda. Esperar um ano, é o que o homem quer. Em um ano há muito tempo para re­solver. De vez em quando venho aqui, Antonieta passa uns tempos lá...

— Só faço questão de uma coisa: que você...

— Termine meu curso. Se vier morar no Rio posso termi­nar aqui.

Seu Marciano ficou calado.

— Eduardo — disse afinal: — Não sei, às vezes tenho a impressão de que você é apressado demais, para tudo: fala depressa, anda depressa, pensa depressa. Agora há pouco eu ainda nem tinha falado...

— O senhor não fala outra coisa, papai.

— Você vive muito depressa, meu filho.

Foram os dois à casa do ministro, ambos de terno novo. Iam nervosos, mas seu Marciano procurava disfarçar a perturba­ção, estava loquaz, jovial:

— Quando eu fiquei noivo... Você me perguntou como eu fiquei noivo? Pois olha, não fiquei: sua mãe é que ficou.

E ria, excitado. À entrada segurou o braço do filho:

— Escuta, moço: se o homem me der um contravapor, você vai ver comigo.

Antonieta os recebeu, fez companhia aos dois na sala. Em pouco chegava o pai, seu Marciano se compenetrou:

— Senhor ministro...

Antonieta se ergueu e saiu — mais tarde contou a Eduardo que ficara atrás da porta. Seu Marciano foi direto ao assunto:

— Creio que o senhor já sabe o que nos traz aqui.

— Acho os dois muito jovens — foi tudo o que disse o ministro, num tom paternal. — Mas pode crer que hei de querer muito bem a seu filho. Aceita um vinho do Porto?

Estava selado o noivado. Na rua, seu Marciano respirou aliviado, dando o braço ao rapaz:

— Sabe, Eduardo? Confesso que agora é que eu gostaria de tomar um vinho do Porto.

Eduardo também respirou aliviado:

— O senhor se saiu muito bem. Melhor do que a enco­menda.

— O que é que você queria? — e o velho sorriu, satisfei­to: — Então seu pai não sabe conversar com um ministro?

Regressaram dois dias depois — seu Marciano fez um relato à mulher:

— O ministro está mais gordo, envelhecido... Não se pa­rece com os retratos. Sabe, Estefânia? Nos tratou muito bem, foi muito distinto. Disse que o Eduardo é mesmo que filho dele.

Antonieta veio passar uns tempos em casa dos tios. A notí­cia do noivado correra, todos felicitavam Eduardo:

— Muito bem! Você agora manda neste país.

Em pouco começaram a aparecer os primeiros pedidos, os agrados, os elogios. Eduardo se surpreendeu: não esperava por aquilo. Pessoas que nem conhecia lhe tiravam o chapéu, e eram homens idosos, alguns até importantes. Um dos secre­tários do governo um dia deteve o carro oficial em plena avenida para oferecer-lhe condução:

— Você é meu funcionário, não?

Na repartição o tratavam com despeito:

— Me admira você continuar trabalhando aqui. Eduardo se desgostava, queixava-se aos amigos. Veiga riu de seus cuidados, mas Mauro o levou a sério:

— Agora você não pode recuar: o jeito é ir para a frente. Faça carreira, se insinue, interfira, influa. Você tem uma grave responsabilidade, está destinado a exercer um papel qualquer, quem sabe você é quem vai um dia tirar o país desta miséria?

Hugo era mais prático:

— Ou quem sabe você é quem vai nos arranjar um bom emprego?

Mauro:


— Em seu lugar eu começava por botar o ministro em pânico: desancava com o regime, me revelava um agitador, um perigoso anarquista...

Hugo:


— Se eu fosse você me casava, trazia a moça para cá, alugava uma casinha na Cameleira e ia criar galinhas.

Sozinhos, porém, os dois se olhavam, apreensivos:

— Que será dele, afinal?

O delegado veio um dia visitá-lo. Estava lépido, jovial:

— Então, mestre, como vão as coisas? Cumpri ou não mi­nha promessa? Você não foi mais incomodado, foi?

— Não quero nunca mais ouvir falar naquele caso.

Depois de algum rodeio, disse a que vinha:

— Conseguir do ministro a minha transferência para o Rio. O que eu ganho aqui já não dá para viver.

— A vida no Rio é muito mais cara...

— Bem, mas lá o campo é outro. Você querendo, tudo se arranja. Basta uma penada.

Eduardo explicou-lhe que não se sentia em condições de pedir o que quer que fosse ao ministro. O delegado desapon­tou-se:

— Bem, se é assim...



Decidiram morar no Rio quando se casassem:

— Papai arranja um emprego para você.

— Não é preciso: posso trabalhar em jornal. Sei ganhar minha vida.

Encontravam-se à noite na casa da tia de Antonieta — voltava o problema que tempos atrás os havia atormentado:

— Precisamos tomar cuidado.

E se perdiam em carícias, ansiosos, descontrolados; às ve­zes se cansavam um do outro, descobriam motivos para discutir:

— Eu soube que você namorou uma moça em Juiz de Fora.

— Quem você queria que eu namorasse? Um soldado?

— Uma moça chamada Elza.

— Elza, não; Helga. E não foi namoro. Foi...

Ao fim de três meses Antonieta resolveu regressar ao Rio:

— Isso já está ficando demais. Deixe que eu convenço papai.

— Ele queira ou não queira.

A data do casamento foi marcada: assim que ficasse pronto o enxoval. Eduardo mudou-se para o Rio, tomou posse no emprego que o ministro lhe arranjara, e viu, num misto de apreensão e deslumbramento, aproximar-se o grande dia. Teve de enfrentar, depois da cerimônia, o longo desfile de cumpri­mentos de gente que via pela primeira vez.

— Pela primeira e última vez — assegurou a Antonieta, e escapou com ela da recepção na casa do ministro. Os únicos rostos familiares ali eram os de seu Marciano e dona Estefâ­nia, compenetrados e contrafeitos.

— Deus te faça muito feliz, meu filho — disse-lhe a mãe, comovida, procurando ajeitar-se ainda dentro do vestido novo.

— Não tenho jeito para essas coisas — confessou-lhe o ve­lho, os olhos úmidos, e abraçou-o em despedida. Pela primei­ra vez Eduardo percebeu que os deixava a sós, e para sempre.

Depois foram dias de intimidade passados num hotel fora do Rio, noites de abandono nos braços um do outro, e de súbito ela quis voltar.



— Precisamos começar a viver, Eduardo.

— E não estamos vivendo? — mas ele se sentia fora de seu mundo, esquecido de tudo, pacificado, feliz. O regresso, o apartamento alugado, a mobília comprada, a vida em comum afinal feita realidade. Tudo acontecia numa seqüência rápida, sem trégua, mal ele tinha tempo de acomodar-se a uma transformação em sua vida, e logo vinha outra, ainda maior. Que viria agora? — ele se interrogava, sem saber o que fazer de si, pela primeira vez sozinho, quando ela enfim, alegando cansaço, recolhera-se mais cedo. Sentia vagamente que se tornara instrumento de desígnios outros, poderosos, desconhecidos — já não era dono de si mesmo. Você não sou­be escolher — lhe dissera Toledo: foi escolhido. Escolhido por quem? Para quê? Desígnios de Deus? Lembrava-se do diretor do ginásio, séculos atrás: você acredita em Deus? já nem sabia em que acreditava, não tinha tempo para pensar. Você vive muito depressa — o pai tinha razão, era isso, de­pressa demais. Essa ganância de viver. Gostaria de ser um homem sereno, comedido, um escritor como Machado de As­sis. Era preciso ir devagar — saber envelhecer. O fruto que apanhava ainda verde, deixava apodrecer na mão. Casado. A vida o afastava de sua origem, de seus amigos. Já nem sempre estaria presente na lembrança deles, o tempo o empurrava com força demais e isso era terrível. Mal podia sentir o gosto das novas experiências, já não eram novas, ficavam logo para trás, o passado, ele que não tinha presente, não tinha nada, não fizera nada — por que não podia parar um pouco, des­cansar, não dar mais um passo? Queria adquirir seus hábitos também, certa maneira de ser, ele que era moço. Sozinho. Muito precoce, aprendeu a ler sozinho, fazia o que queria, bastava arranhar o rosto. Antonieta sua mulher, dia e noite, enfim conquistada: nada mais a fazer? Sozinho, o tempo pas­sando, ignorava tudo que ficara para trás: Mauro fizera um poema e ele não sabia, Hugo lhe mandara um telegrama, ape­nas um telegrama lhe mandara Hugo. Assim, eles iam mu­dando: nada de intimidades. Uma suave cortesia. Uma distinta amizade. Amabilidades de parte a parte. E falsidade, hipocrisia, conveniência. Pois não, também acho, com prazer. Com quem puxar angústia agora? Nascemos para morrer — nada pior do que não ter nascido. A vida tem dessas contra­dições, dizia o pai. Onde as verdades eternas? O tempo levava tudo, ele não tinha onde se ancorar. Oh, o Toledo era um tratado de psicologia. Tudo isso é natural, diria ele, natural, viver é assim mesmo. O tempo acontece, o que tinha de ser já foi, agora a nostalgia de já ter sido em experiência, etcetera, etcetera. Conheceria novas pessoas, pensaria outras coisas, ouviria em silêncio prudente e compassivo opiniões alheias que um dia já foram suas. E está certo! Não se pode fazer das dúvidas de outrora o pão nosso de cada dia: não posso responsabilizar ninguém pelo destino a que me dei. Sozinho: sozinho no mundo com uma mulher. O que significa isso? Sig­nifica que terei de amá-la, zelar por ela, sustentá-la, cumprir os chamados deveres de estado. Pois então o que é que estou fazendo aqui, sozinho? Não sou um homem? um marido, não sou? Há uma fresta em minha alma por onde a substância do que sou está sempre se escapando mas não vejo onde nem por quê. Depressa, não há tempo a perder. Também tenho o meu preço mas ninguém conseguirá me comprar, todo o di­nheiro do mundo não basta, hei de escapar como água entre os dedos da Coisa que me aprisionar entre os dedos — hei de fluir como um rio, dia e noite, nem que tenha de dormir de pé porque esta é a cama estreita que conduz ao reino dos céus. Não adianta pensar, a mão de Deus é pesada mas me protege a cabeça, tudo que faço nasce feito, sozinho, não adianta chorar, meu Deus, nem tenho motivos para isso, mui­to pelo contrário, é preciso reagir, a literatura não adianta, e os livros na estante e o cinzeiro cheio de cinza e a luz da cozinha acesa, poderia fazer um café, Antonieta dormindo e o botão do pijama, meu Deus, livrai-me do pijama, quero ser reto, quero ser puro, quero servir, pois vai trabalhar, moço, deixa de vaidade, tu és muito pretensioso, uma missão a cum­prir, ora vejam, perdulário que tu és, a vida é breve, não incomoda os que trabalham, os trabalhos do homem são pe­nosos, estou casado, estou cansado, estou abatido, em verdade estou destroçado, andei depressa demais, agora chega, basta, pára, pronto! acabou. Assim. Fique quieto. Que nenhum som te denuncie. Calma. Não olhe. Não mexa. Não queira. Não estou dormindo, estou vigilante, hay que vigilar las tinieblas, capisca? ai, Minas Gerais, já ter saído de lá, tuas sombras, teus noturnos, teus bêbados pelas ruas, Eduardo Marciano, minha mágoa, minha pena, minha pluma, merecias morrer afogado, o barco te leva para longe, a praia está perdida, mas voltarás nem que tenhas de andar sobre as águas...

De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da pro­cura um encontro.



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