Fernando Sabino o encontro marcado



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SEGUNDA PARTE

O ENCONTRO

I — OS MOVIMENTOS SIMULADOS

Térsio ficou de aparecer — disse Eduardo.

— Ele arranjou o tal emprego?

— Não sei. Disse que precisava muito falar comigo. Deve estar sem dinheiro.

— Grande novidade.

— Pode ser outra coisa também, Antonieta. Não sei por que essa má vontade com ele.

— Não tem perigo: ele se arranja.

Calaram-se, ficaram olhando o mar. Estavam no bar da praia onde faziam ponto quase todas as noites, tomando chope ao ar livre com sua nova roda de amigos. Térsio, um rapaz de Belo Horizonte, viera tentar a vida no Rio, Eduardo procura­va ajudá-lo:

— Térsio é um poeta. É preciso entender as pessoas como elas são.

— Você fala como se eu não gostasse dele. A única coisa nele que me implica é andar desleixado daquela maneira. Sílvio também é poeta e no entanto faz a barba todos os dias.

— É diferente: Sílvio tem recursos, nome feito, é conhecido de todo mundo. E tem Vânia para cuidar dele.

— Então o que Térsio está precisando de arranjar é uma mulher — encerrou Antonieta.

Sílvio Garcia, o poeta, costumava aparecer em companhia da mulher. Estavam sempre chegando do cinema:

— Saímos no meio — dizia Vânia: — Não agüentei, minha filha. E esse pateta insistindo em ficar.

— Da próxima vez me avisem — pedia Antonieta — Eduardo não me leva nunca, tem sempre uma desculpa,

— Da próxima vez vamos nós dois, Nietinha — Sílvio prometia. — Eles não entendem de cinema. Vânia quer ser uma mulher diferente, não gosta de filme ruim.

Térsio comentava com Eduardo os últimos acontecimentos políticos:

— O homem custou mas caiu, você viu só?

— Caiu feito um fruto podre! como diria o Vítor.

Vítor era jornalista de oposição, vinha fazendo campanha contra o partido comunista:

— Ele acha que nós todos devíamos escrever: eu, você, até o Amorim.

— O que ele está pretendendo com aquilo? Ninguém sabe ainda qual vai ser a posição do partido!

— Ninguém sabe nem qual vai ser a posição do Amorim...

Amorim também costumava aparecer:

— Eu mostro a ele qual a minha posição. Você mudou o penteado, Antonieta?

— Tirei a franja. Lêda esteve aqui, disse que é para você deixar a chave debaixo do capacho.

Lêda era a mulher do Amorim — dizia-se que os dois estavam em vias de se separar.

— Debaixo do capacho? O que mais que ela disse?

— Foi uma pena — disse Sílvio: — Você ficava um amor de franja.

Aos poucos o bar ia-se enchendo de fregueses, mulheres com vestidos leves, rapazes de camisa-esporte. O garçom re­novava os chopes com regularidade. Amorim tomava conha­que, Sílvio se recusava a beber:

— Hoje estou celebrando.

— Celebrando o quê?

— Você hoje está com um ar muito misterioso.

— Fiz uma coisa que não fazia há muito tempo — disse Sílvio, com um ar misterioso.

— Dito assim fica meio indecente, meu bem — Vânia comentou.

Sílvio fez circular pela mesa um poema, todos leram. Térsio o devolveu em silêncio.

— Como é? Não gostou?

— Não.


— Acha que estou decadente?

— Acho.


— Obrigado pela franqueza.

Eduardo levava novamente o assunto para a política:

— Ninguém se lembrou de falar no último golpe dele.

— Qual foi o último golpe dele?

— As 48 horas que pediu para se retirar do palácio. Devia ser preso e deportado. Acabou saindo com todas as honras. Acaba voltando, você vai ver.

Térsio tinha de fazer um tópico de experiência para ser admitido num jornal:

— Queria até uma sugestão sua. Vou aproveitar essa idéia: o último golpe.

— Era isso que você queria comigo? — e Eduardo sorriu significativo para Antonieta.

— Vamos embora? — pediu ela. — Não estou me sentindo muito bem.

— O que é que você está sentindo?

— Não sei: estou meio tonta. Esse calor...

— Então pára de tomar chope.

Alguém fez um gracejo qualquer sobre gravidez. Antonieta protestou:

— Bate nessa boca.

— Já estava em tempo...

— Ela acha que ainda é cedo — disse Eduardo.

— Pois eu fiquei logo no princípio — e Vânia contava: — Continuei levando a vida de sempre. Só parei de beber no último mês.

Sílvio:


— E eu em casa de resguardo.

— Cínico! Imaginem que ele uma noite me apareceu em casa que era areia só: a cabeça, a roupa, o sapato, tudo um verdadeiro areal. Sabem que explicação me deu? Disse que ia passando pela praia com Vítor, estavam meio de pileque, resolveram deitar na areia para descansar...

Os outros riram:

— Com Vítor?

— Vítor entrou nessa areia como Pilatos no Credo.

Sílvio mudava rapidamente de assunto:

— Comprei hoje um álbum fabuloso de Duke Ellington, estou louco para ouvir. Vamos até lá em casa?

— Nossa vitrola está estragada, meu bem.

— Então vamos para minha casa — Eduardo sugeria: — Sílvio vai até a dele buscar os discos.

Todos se erguiam. Eduardo pagava a despesa, mandava que o garçom embrulhasse duas garrafas de Macieira. Térsio lhe pedia duzentos cruzeiros emprestados. Antonieta lhe de­volvia o sorriso significativo.

— Sílvio está demorando! — disse ele, já em seu apartamento. Antonieta, de short, comodamente sentada, pernas nuas sobre o braço da poltrona. À sua frente, Amorim, recostado no sofá, cálice de conhaque na mão. Térsio à janela, Eduardo sentado no tapete — como resposta ao que acabava de dizer, bateram à porta: Era Sílvio, em companhia de Maria Elisa, mulher de Vítor:

— Ele ficou lá discutindo política com Vânia — explicou ela. — Sílvio fez questão de me trazer. Eles ficaram de vir mais tarde.

Recusou o conhaque que Eduardo lhe oferecia:

— Vocês, que pensam como o Vítor, deviam escrever algu­ma coisa também. Ele vai ser muito atacado.

— E você quer que também nós sejamos atacados?

— Isso é bom para ele, que é jornalista.

— E vocês, o que são? — perguntou ela.

Antonieta respondeu por Eduardo:

— Funcionário da Prefeitura.

— Eu ia dizer “romancista”, mas Antonieta já respondeu por mim.

Sílvio respondeu por Térsio:

— Ele ia dizer “jornalista”, mas ainda não foi contratado.

— É isso mesmo. Por enquanto sou chômeur.

— Que é isso?

— Pergunte ali ao Amorim, que atualmente também é.

Chômeur é ser uma coisa e não ser, compreende?

— Hamlet, por exemplo, era um chômeur.

— É o “não-poder-ser” de que nos falava Bergson...

Todos riam. Maria Elisa voltava para um e outro os olhos claros, irresoluta, sem saber se devia rir também. Amorim ti­rava os sapatos e se estendia de comprido no sofá:

— Quando vocês conversarem alguma coisa de útil, me acordem.

Eduardo servia mais conhaque. Os discos de Duke Elling­ton se repetiam com estrépito na vitrola.

— No meu edifício não se pode fazer o menor barulhinho — disse Maria Elisa. — Vítor nem pode escrever a máquina de noite.

— Pois aqui nunca reclamaram. Ainda na semana passada fizemos uma macumba, parecia que o edifício vinha abaixo. Foi um sucesso, pena o Vitor não ter te trazido.

— Acho que você cometeu uma gafe, Eduardo — disse Antonieta, ante o silêncio da outra.

— Não, eu sabia que ele tinha vindo — esclareceu Maria Elisa.

— Veio também um admirador seu — disse Sílvio.

— Olha só como ela ficou encabulada...

— Eu, por exemplo, vim e sou admirador seu.

— Nós todos somos.

Estavam já sob o efeito da bebida. Amorim acrescentou, sem se mover, os olhos pesados de sono:

— Ouvi dizer que ele recebeu dez contos adiantados para fazer um painel em São Paulo. Precisamos pegar o homem de jeito para beber os dez contos dele.

— Dele quem? — perguntou Maria Elisa.

— Do Joubert, ora de quem. Acabou o conhaque, Eduardo?

Eduardo abriu a segunda garrafa. Alguém mais acabava de chegar, era Lêda. Ficou indecisa à entrada, quando viu Amorim.

— Você é engraçadinho, hein? — decidiu-se afinal, caminhando em direção ao marido: — Fiquei lá até agora procurando a chave. Tinha um cachorro vagabundo rondando a porta, fiquei até com medo de que ele tivesse engolido.

Amorim lhe estendeu a chave:

— Com certeza você esperava que eu fosse até lá só para deixar a chave debaixo do capacho. Quéde a sua?

— Ficou com aquele sujeito lá em casa

— Sujeito? Que sujeito?

— Você estava tão bêbado que nem se lembra. Apareceu com ele ontem, disse que era seu hóspede. Me arranja cada amigo! Se enxugou com a minha toalha, ficou com a minha chave e ainda me pediu cem cruzeiros emprestados.

Amorim começou a rir:

— Eu tinha me esquecido! É o Java. Um bom sujeito. Lá do jornal de Minas. Você se lembra dele, Eduardo: aquele revisor. Estava por aí, num porre tremendo, e sem saber aonde ir.

Sílvio renovava os discos na vitrola:

— Duke Ellington está ficando muito sofisticado, metido a Stravinski. Olhem só este solo de trumpete. Vem dançar isso comigo, vem.

Puxou Maria Elisa pelo braço:

— Você está usando falsies, menina?

Falsies? Que é isso?

— Seios postiços.

— Ih, Sílvio, você é tão vulgar! Nem parece poeta.

— Sabem de uma coisa? A conversa está muito boa, vocês são muito simpáticos, mas eu estou morta de sono. Me desculpem, mas vou para o quarto dormir um pouco.

Antonieta foi para o quarto dormir um pouco. Alguém assobiava insistentemente lá fora, na rua. Térsio se debruçou à janela:

— É Joubert. Parece que está meio alto. Mando subir?

— Já começou a gastar os dez contos.

— Manda — e Sílvio parou de dançar com Maria Elisa, veio espiar: — Aquele calhorda me prometeu um quadro, deu para Gerlane.

— E você mesmo queria dar o quadro para Gerlane — concluiu Maria Elisa.

— Essa aí ouviu cantar o galo e não sabe onde — concluiu Amorim.

— Eu nem conheço essa Gerlane — escusou-se Eduardo.

— Ele sabe muito bem a quem estou me referindo.

Térsio, da janela:

— Como é? Mando Joubert subir?

Sílvio, já com um copo d’água na mão:

— Espera! Vamos jogar água nele.

Despeja o copo pela janela. Ouve-se lá fora meia dúzia de palavrões como resposta.

— Não faz isso com o coitado — pediu Maria Elisa.

— Não faz isso com a Elisinha — emendou Amorim.

— Então manda ele subir.

— Eu vou-me embora — disse ela. — Vítor está demoran­do muito. Sílvio, você quer me levar em casa?

— Como é: mando ou não mando?

— Joubert te leva em casa.

Lêda, olhando para o marido, que já está dormindo:

— Vou com vocês, então. Esse aí já está dormindo.

Maria Elisa, não olhando para ninguém:

— Não quero que Joubert me leve. Ele já está bêbado.

Térsio, gritando da janela:

— Joubert! Você não vai levar ninguém! Você está bêba­do! — e volta-se para dentro, rindo: — Ele mandou uma banana e foi embora danado da vida.

Sílvio recolhe os discos da vitrola e se dispõe a sair com as duas.

— Bem que Antonieta podia fazer um cafezinho — sugere Térsio, já a sós com Eduardo. — Para tomar com esse co­nhaque.

— Antonieta já está dormindo. Tem cerveja na geladeira, você quer?

Eduardo vai buscar a cerveja. Térsio vai ao banheiro uri­nar, e não se dá ao trabalho de fechar a porta, pode-se ouvir da sala o ruído da urina caindo. Depois é o silêncio, quebrado apenas pela respiração forte de Amorim a dormir. Por um momento o ar, pesado de fumaça e exalação de pulmões, fica parado e morto. A noite começa a apodrecer. Eduardo e Tér­sio voltam à sala ao mesmo tempo, ficam bebendo cerveja, naquele silêncio de amigos que já não precisam falar para se entender. Notam-se em seus rostos os sinais da vigília inú­til, ficaram um dia mais velhos, mais uma noite a eles se incorporou.

Vitor veio encontrá-los assim, calados, ficou a olhar um e outro, o corpanzil oscilando sobre as pernas. Depois apontou o corpo de Amorim estirado no sofá:

— Morto?

— Ainda não. Onde é que você esteve até agora?

— Vocês estão com um ar de velório... Maria Elisa foi embora há muito tempo?

Deixou-se cair na poltrona com um suspiro:

— Fiquei tomando uma coisinha com Vânia, conversa vai, conversa vem, me atrasei. Vocês leram meu artigo de hoje?

Passou logo a censurar a indiferença dos dois:

— Vocês mineiros são engraçados: muito prudentes, muito hábeis, muito cépticos, muito discretos... Essa nova geração de vocês é mesmo uma merda. Ai, estou com a garganta seca.

— Toma cerveja.

— Não. Vou até o bar. Eu hoje estou com vontade de esvaziar a alma até o rabo, como nos romances russos. Vocês ficam?

— Antonieta já está dormindo — disse Eduardo, indeciso.

— Você é que está dormindo...

Ergueu-se, ergueu um dedo e ergueu a voz:

— Acorda, rapaz! Vamos embora, Térsio.

Vitor e Térsio saíram, sem se despedir. Amorim, incomo­dado com a conversa, havia-se passado do sofá para o divã no escritório, onde continuava a ressonar. Eduardo pôs-se a recolher os copos e os cinzeiros. Voltou-se: Antonieta acabava de surgir à porta do quarto, estremunhada, vestindo o pegnoir:

— Uê, você está aí sozinho? Ouvi alguém gritar: “acorda”!

— Foi Vítor — disse ele rindo e puxando-a para perto de si: — Acabou de sair com Térsio. Amorim está dormindo ali no escritório. Maria Elisa e Lêda foram embora com Sílvio.

— Não estou entendendo mais nada.

— Escuta, meu bem: você não fica zangada se eu te disser uma coisa?

— Não. Pode dizer.

— Você não devia ter apontado aquela palavra feia no poe­ma do Sílvio.

Ela o olhou, surpreendida:

— Uê! Mas se foi ele que escreveu! Você tem umas bobagens...

— Não devia ter chamado a atenção. Fingisse que não viu.

— Ora, também você está cheio de coisas: e os palavrões que Vânia fala toda hora?

— Vânia é diferente, mais velha que você, ela é assim mesmo, que se há de fazer? Meu amor, pode parecer purita­nismo de minha parte, mas não gosto que você ouça palavra feia, não gosto que você seja feito essa gente. Você não é feito eles. Já notou como te tratam de maneira diferente? Como certas coisas não falam na sua presença?

— Não notei nada.

— Pois então preste atenção, para você ver. O caso dessa tal Gerlane com Amorim, por exemplo...

— Com Amorim, não: com Vítor. Com Amorim já acabou.

— Como é que você sabe?

— Todo mundo sabe.

— Bem, podem saber, mas não falam nisso com você diretamente.

— Me acham muito criança. Amanhã nós vamos ao ci­nema?

— Não é questão de ser criança; é que você é muito pura para eles. Essa gente não tem moral, não tem princípios nem nada.

— Então por que você anda com eles? Entenda-se.

— Porque são meus amigos, ora essa. Mas o fato de serem amigos não quer dizer que eu tenha de ser como eles. Eu não sou como eles. Veja o caso do Térsio, por exemplo. Ele é como eu, da minha idade, da minha geração. Sabe as mesmas coisas que eu sei, é um excelente poeta. A gente se entende.

— Nunca li nada dele.

— Não é preciso ler para saber. Já vem você com sua implicância. Mas o que é mesmo que eu estava falando?

— Que amanhã nós vamos ao cinema.

— Está bem, está bem — e Eduardo sentou-se, puxou-a para o colo: — Vamos ao cinema. Aliás, já estão levando o “Cidadão Kane”, Térsio me disse que é muito bom.

Fez uma pausa, ficou pensando.

— Gostei da franqueza dele com Sílvio. Também não achei bom aquele poema.

— E por que não falou?

— Porque exige muita explicação, não é só ir falando como Térsio “não gosto” e acabou-se. Afinal de contas, você tem de reconhecer que pelo menos Sílvio é um poeta. Mas anda frouxo, relaxado, não sei... A poesia é boa, não tem dúvida, versos muito bem feitos, mas... Você veja: em matéria de arte...

— Tenho de ir ao cabeleireiro amanhã cedo. Você acha que ainda posso usar franja?

— Não sei... Gosto de você assim. De qualquer maneira fica bem.

— Tenho medo de pensarem que estou querendo parecer criança.

— Você é uma criança — e puxou-lhe o rosto para si. Antonieta esperou que ele a beijasse e depois se ergueu, espreguiçando-se, disse-lhe que ia dormir. Ele perguntou se ela não queria antes fazer um café. Ela pediu desculpa, mas es­tava morrendo de sono. Quer dizer que você não pode me esperar, ele perguntou então. Ela pediu que não ficasse zan­gado, mas estava tão cansada. Ele disse que não tinha im­portância, ela saiu. Ele continuou a recolher os copos e os cinzeiros. Por um momento se deteve e ficou a olhar fixa­mente, como se quisesse enxergar alguma coisa além da mesa e além do chão. Depois foi para a cozinha.

— Foi bom ele ter ido embora. Não agüenta a parada — dizia Vítor, uma hora mais tarde, no bar da praia. Estava em companhia de Joubert e ambos, já embriagados, bebiam chope e conhaque alternadamente...

— Não agüenta não.

— Térsio é metido a gente, mas qual! esses meninos de hoje não sabem beber.

— Não sabem não.

— Não sabem o que é dor-de-corno, daquelas boas! das legítimas.

— Das legítimas.

— Pára de me repetir!

— Só estou falando...

— “Só tô falano”. Você não está falando, está grunhindo — e Vítor soltou uma gargalhada: — Você está é de porre, olha aí.

De porre, eu? Facilita comigo não, que hoje sou muito homem de te mandar a mão na cara.

— Homem coisa nenhuma, seu pintor de merda.

Joubert empunhou um garfo:

— Repete que eu te arranco o olho com este garfo e depois chupo, está ouvindo? Depois chupo.

— Chupa essa, olha aqui.

Joubert se ergueu num ímpeto, avançou para o companheiro, que também se ergueu, ambos perderam o equilíbrio. O garçom interveio, conciliador:

— Parem com isso, onde já se viu? Amigos há tanto tempo, brigando à toa.

Joubert, voltando a sentar-se:

— Então me traz um conhaque. Hoje eu vou até o fundo do poço.

— De onde nunca devera ter saído — Vítor deu outra gargalhada.

— Pára com isso, rapaz! Olha, se você está com dor-de-corno, cuidado comigo, que também estou. Hoje eu mato um.

— Mata nada. Por que você não matou o Térsio, então? Ele até que dava um bom defuntinho.

— Te mostro — e Joubert empunhou de novo o garfo. Antes que outro pudesse contê-lo, voltou-se e aplicou violenta garfada de baixo para cima no assento de vime da cadeira vizinha, onde estava sentado um freguês. O freguês deu um salto e um grito de dor, avançou para o agressor aos berros. Os garçons acorreram. Grande rebuliço no bar.

— Eu arrebento esse desgraçado! — ameaçava o homem, punhos fechados.

Vítor tentava contê-lo:

— O senhor não faça isso. Desculpe. Ele não sabe o que faz. Está apaixonado, por isso te espetou.

— Que é que eu tenho com a paixão dele? Vai espetar a puta-que-o-pariu!

A custo foi contido pelos garçons. Vítor e Joubert final­mente se safaram do bar, mas se detiveram na calçada, puse­ram-se a urinar calmamente junto à árvore da esquina.

— Você também vai dar uma garfada daquelas no homem! Devia ao menos ter escolhido o outro, aquele gordinho. Se ele te pega, te arrebenta.

— Arrebenta é a mãe. Vamos voltar lá.

— Não, deixa o homem. Olha aqui, escuta uma coisa: se eu te contasse o que me aconteceu hoje... Guarda esse garfo.

Esperou que o outro guardasse o garfo no bolso:

— Dizer que eu marquei encontro com Gerlane e aquela vagabunda não apareceu.

— Não chama ela de vagabunda não, que é minha amiga.

— É minha também, essa é boa.

— Então não chama de vagabunda.

— Me deixou esperando.

— Então não chama.

— Não quero nada com ela.

— Eu te avisei que ela não dava.

— Mas em compensação, fui para a casa do Sílvio, fiquei lá discutindo com Vânia, e de repente... Não te conto nada. Sílvio e Maria Elisa já tinham ido embora.

Joubert de súbito se interessou:

— Embora para onde?

— Para a casa do Eduardo. Mas a Vânia, quem diria...

— Ela estava lá?

— Quem, Vânia? Pois eu não estou dizendo...

— Maria Elisa, imbecil.

— Imbecil é a mãe.

— E aqueles calhordas, que não me deixaram entrar!

— Não vai me dizer que você está apaixonado é pela Maria Elisa.

— É.

— É o quê?



— É isso mesmo.

Vítor, o corpo oscilante, olhou com pena o amigo:

— Você está mais bêbado que uma vaca.

— Não quer acreditar, paciência.

— Pela Maria Elisa?

— Pela Maria Elisa.

— Então, seu ordinário, a dor-de-corno é por causa da minha mulher?

— Ela mesma.

— Não sei onde estou que não te prego a mão na cara.

— Por quê? — e Joubert, por via das dúvidas, empunhou novamente o garfo: — Eu não fiz nada! Você devia até ficar satisfeito. Ela não quer nada comigo.

— Isso você não precisa me dizer, eu conheço minha mu­lher. Ela tem bom gosto. Uma grande mulher.

— Uma grande mulher — concordou o outro.

Vítor ficou comovido:

— Um anjo de mulher.

— Em todos os sentidos.

— Em todos... Espera: em todos quais? Que história é essa?

— Em todos, uê. Não começa...

— Guarda esse garfo, homem de Deus.

— Você acha crime a gente se apaixonar por uma mulher?

— Mas logo a minha, pombas!

— Você não se apaixonou pela minha?

— Desde quando Gerlane é sua mulher?

— Não é mas podia ser. Fui eu que descobri.

Vítor ficou a olhar o amigo, deslumbrado:

— Mas sim senhor. É incrível. Você, apaixonado pela Maria Elisa. Logo você — e desandou a rir.

— Também não vejo nada de tão engraçado nisso — resmungou Joubert, ressentido.

— Ela sabe que você está apaixonado?

— Acho que não...

Vítor lhe deu um tapa nas costas, entusiasmado, Joubert quase caiu:

— Pois então vamos até lá em casa contar a ela!

Saíram os dois pela rua, abraçados, amparando-se um no outro.

Últimos dias do ano. Andava no ar uma agitação insólita, todos indo e vindo, se encontravam, se separavam. Pela manhã, depois de mais uma noitada insone no bar ou em casa de alguém, Eduardo se interrogava ao espelho: um dia mais velho. Que estou fazendo de minha vida? — se perguntava, e saía para o trabalho. Mas um de seus amigos tocava violão; outro dizia coisas engraçadas e imitava as pessoas, todos muito in­teligentes — e isso era tudo. Térsio se arranjara afinal no matutino, aparecia todas as noites depois do serviço, a ca­minho da pensão onde morava. Eduardo lhe expunha as suas idéias, já sem muita convicção:

— O que é preciso é escrever! seja o que for. Veja o exem­plo de Stendhal: escreveu a “Chartreuse” em quarenta dias. Trancou-se no quarto e só saiu de lá com o livro pronto.

Lêda finalmente separada de Amorim. Uma noite Eduardo foi levá-la em casa, acabou beijando-a — um beijo com gosto de cigarro.

— Melhor eu ir embora enquanto é tempo. Amanhã eu não poderia olhar para o Amorim.

— Não tenho mais nada com ele.

— Ou para você — acrescentou. — Gosto de você como de uma irmã.

Lêda de súbito abraçou-o e pôs-se a chorar. “Santo Deus”, pensou ele, “nunca imaginei que essa mulher também fosse de chorar”. Decidida, experiente, com idéias próprias, não parecia precisar ou depender de ninguém. No entanto ali es­tava, soluçando, frágil ser em seus braços, ele sem saber o que fazer com ela.

Amorim por onde andava? Diziam que fazia política elei­toral, trabalhando para um dos candidatos, tentando tirar partido da situação. Cavava publicidade, fazia “contactos”. Ora, quem diria! O Amorim não passaria jamais da reporta­gem de polícia. Sílvio protestava:

— É um grande sujeito.

— Pode ser. Mas você é diferente.

— Diferente por quê?

— Você é poeta. Muito antes de te conhecer, eu sabia seus versos de cor! No entanto hoje você não escreve mais nada que preste.

— Na sua opinião. Para você nem parece que houve uma guerra. Você queria que eu ficasse escrevendo poema sobre uma flor, enquanto o mundo se arrebenta?

Eduardo se indignava:

— Faz então mais uma ode a Garcia Lorca.

Vítor às voltas com a moça Gerlane. Quem era essa Gerlane, ninguém sabia explicar. Aparecera como modelo de Jou­bert, mas era de boa família, diziam. Independente até certo ponto, dali para a frente ninguém conseguia nada, era o que também diziam, e Vítor confirmava. Maria Elisa revoltada com ele:

— Imaginem que uma noite ele me chega bêbado às cinco da manhã, trazendo Joubert mais bêbado ainda, e me acorda para dizer que os dois estavam morrendo de paixão por mim.

Vânia e Térsio quase presos como agitadores num comício dissolvido pela polícia.

— Dissolvido a bala! Tive que me agachar atrás de um automóvel para não levar tiro, mas Vânia deu um chute na canela de um guarda... Foi um custo para nos livrarmos.

— Também, que diabo de idéia é essa de ir a comício comunista? Vânia ainda vá lá, mas você!

— Você porque vive fora do mundo. Se visse, ficava re­voltado também. Seu sogro vai falar hoje no rádio.

Eduardo pediu mais um chope — estavam no bar — e voltou-se para Antonieta:

— Está vendo? Não adiantava a gente ir lá.

— Nós não íamos lá: nós íamos ao cinema.

— Já sei: e eu acabo sempre não indo a lugar nenhum.

Foram finalmente visitar o ex-ministro. Encontraram-no cercado de políticos, pouco se demoraram:

— Pode ter certeza de uma coisa: nenhum deles é amigo de seu pai.

Dona Estefânia veio passar uns dias com o filho — o mesmo disse de seus amigos:

— Essa gente com quem você anda não serve para você, meu filho. E você está tão diferente...

Voltou logo para Belo Horizonte, desgostosa. Eduardo também se desgostava consigo mesmo. Dessa época, uma carta que escreveu a Hugo:

“Sei apenas que estou vivo. Nada mais sei. Sinto em mim um sangue que talvez exista para ser derramado e não para correr frouxamente pelas veias. Existem palavras essenciais: amor, infância, pureza, espaço, tempo. Com elas eu escreveria um romance, cem romances. O amor como atitude estética diante da vida, realização da pureza no espaço e da infância no tempo. Tudo mais é literatura”.

“Isso também é literatura” — respondeu-lhe Hugo.

Para Mauro:

“Literatura. Já não escrevo nada. Está tudo esgotado. Ou se faz alguma coisa de verdadeiramente novo, ou é melhor esperar os tempos novos. Alguma coisa nova se anuncia, eu vejo, eu sei, eu juro que alguma coisa nova está para surgir para nós e para o mundo — se eu estiver enganado, então o melhor é mesmo comer, beber e dormir, porque nem morrer será preciso. Estou na expectativa — descrente das fórmulas gastas, esgotadas. Tenho sentido muita falta de vocês”.

Mauro não lhe respondeu.

Passaram o ano em casa de Vítor. Antonieta mandara fazer um vestido diferente dos que usava até então: parecia mais adulta, o corpo mais seguro de si emergindo do decote, as formas acentuadas sob a seda justa.

— Essa menina afinal virou mulher — disse Vítor, abraçando-a.

Grande confusão no pequeno apartamento do casal: eram escritores, jornalistas, pintores, gente de toda espécie que se acotovelava nas duas salas, abraçando-se, felicitando-se:

— Feliz Ano Novo!

Maria Elisa já nem sabia onde pôr tanta gente. Iam entrando, enchendo a sala, invadindo os quartos.

— O que vocês fizeram das crianças? Venderam?

— Mandei os dois para a casa de mamãe — explicava ela, afogueada.

Cada um que chegava trazia uma garrafa de uísque ou de champanhe debaixo do braço. à meia-noite em ponto apaga­ram as luzes. Eduardo procurou Antonieta em meio à con­fusão, não encontrou. Recebeu abraços, apertos, beijos — beijou várias bocas que se ofereciam no escuro da sala.

— Antonieta!

Deixou-se ficar a um canto até que as luzes se acendessem novamente. Estava irritado, de mau humor:

— Você viu Antonieta? — perguntava a um e outro.

Encontrou Maria Elisa na cozinha, às voltas com os copos:

— Ela saiu com Sílvio, foi buscar mais gelo na casa dele.

Ia afastar-se, ela tocou-lhe o braço, solidária:

— Acho horrível tudo isso, Eduardo — desabafou.

Buscar mais gelo — num movimento brusco, procurou a saída do apartamento. Alguém quis retê-lo à porta — era Lêda:

— Como vai, meu irmãozinho? — e se encostou a ele, provocante.

Desviou-se sem uma palavra. No vestíbulo encontrou dois casais abraçados, um terceiro se refugiara no elevador, detendo-o entre os andares. Desceu os três lances da escada, ganhou a rua. Foi seguindo sem destino até a esquina — havia uma porta iluminada, gente, muita gente — era uma igreja. Duas pretas passaram por ele, xale na cabeça, e entraram. Entrou também, apoiou-se na coluna. Assistiu, obstinado, ao resto da primeira missa do ano. Aquilo era uma missa. E não lhe dizia nada, gestos mecânicos de um ritual sem sentido. Ao lado uma velha, ajoelhada, mexia os lábios molemente. À frente os ombros quadrados de um homem ocultavam metade do altar — paletó escuro, com farelo de caspa. À esquerda duas meninas, uma gorda e outra magra, de véu branco na cabeça. Gente, gente por todo lado, e ele sozinho. Havia um mundo ao seu redor, do qual não participava — e ninguém reparava nele, ninguém dava conta de sua presença. Lá fora os fo­guetes do Ano Novo espocavam e ali dentro, aquele silêncio. De súbito, a massa humana se agitou, todos se ajoelharam. Ite, Missa est, disse o padre. Foi buscar gelo — respondeu. E voltou-se bruscamente, saiu da igreja. Era querer demais, que o aceitassem num momento daqueles. Continuou a andar pela rua, agora a caminho de um bar. Foi buscar gelo e saiu tosquiado.

— Ite, Missa est.

Entrou, sentou-se, pediu uma cerveja bem gelada. Na mesa ao lado quatro operários celebravam o Ano Novo a copos de cachaça:

— É o que eu digo! — berrava um. — Pedro II foi e será sempre o maior! Saía do palácio a pé, andava por aí, con­versava com todo mundo...

— Isso não é vantagem, o pequenino também fazia.

Voltaram-se para Eduardo:

— Moço, o senhor quer dar um palpite aqui?

Ite... Eduardo chegou-se a eles.

— Quem foi o maior: Pedro I ou Pedro II?

— Não sei. Na escola a professora torcia por Pedro II, mas acho que Pedro I foi mais simpático.

— Não falei? — gritou um dos pretos, entusiasmado. — É o maior! Moço, tome uma cachaça com a gente.

Deixou-se ficar com eles, bebendo cachaça. De imperado­res passaram a músicas de carnaval. Olhou o relógio e eram três horas da manhã. Já embriagado, voltou para o aparta­mento de Vítor, custou a localizar o edifício.

Antonieta abraçou-se a ele, ansiosa:

— Eduardo, onde é que você estava?

— Na missa — e desvencilhou-se dela.

— Me deixar assim, sem nem avisar?

— Sem nem avisar? — repetiu ele, e atravessou a sala em passos difíceis. Olhou ao redor, notou vagamente que alguma coisa havia acontecido: a festa acabara. Restavam alguns casais enlaçados pelos sofás, um já havia mesmo deslizado para o chão. Alguém dormia a sono solto, estirado no tapete, e era só. Na cozinha copos quebrados, vômito pelo corredor. Antonieta o seguia:

— Eduardo, onde você vai? O que é que você tem? — e o segurava pelo braço.

— Me larga.

— Vamos embora, meu bem. A festa já acabou. Estava só esperando você.

— Dane-se.

— Não fica assim, Eduardo, por favor!

— Não estou me sentindo bem, acho que vou vomitar.

Fez um esforço para conter-se e saiu com ela. Na rua pôs-se a respirar em largos haustos, Antonieta o amparava. Tomaram um táxi.

— Você está melhor, meu bem?

— Não se preocupe. O que foi que aconteceu?

— Aconteceu que Vítor convidou Gerlane, Maria Elisa fez uma cena. Alguém se trancou no banheiro com a mulher de um sujeito, aquele cantor de rádio, me esqueci o nome, houve uma briga, quebraram tudo. Enquanto isso Vítor saía com Ger­lane, Maria Elisa foi atrás, surpreendeu os dois dentro de um automóvel lá na rua. Voltou, anunciou para todo o mundo que estava se separando dele naquela noite. E foi embora, ninguém sabe para onde. Vítor voltou, soube de tudo, ficou feito louco, começou a chorar, alguém para fazer graça chamou a polícia...

— Enquanto isso você foi buscar gelo com Sílvio.

— Fui, mas voltei logo. Fomos de táxi. Por quê?

— Por nada.

— Ele me pediu...

— Podia ao menos ter avisado.

— Naquela confusão, não te encontrei — e ela tentou abraçá-lo.

— Me larga.

Recusou-se a conversar, dali por diante. Em casa se re­cusou a dormir:

— Estou sem sono. Vou escrever um pouco.

Trancou-se junto aos seus livros, passou o resto da noite acordado, mas escreveu apenas:

“Não posso responsabilizar ninguém pelo destino que me dei. Como único responsável, só eu posso modificá-lo. E vou modificar”.

Para começar, rasgou o papel em que escrevera. Depois pôs-se a rasgar papéis, originais de contos, romances iniciados, notas, rascunhos.

— Basta. Chega de literatura.

Quando Antonieta acordou, encontrou-o extenuado, arrumando seus livros, excluindo vários da estante e empilhando-os no chão:

— Já li tudo isso. Para que guardar?

Eliminou todas as traduções:

— Vergonha! Anatole France, e ainda por cima em espa­nhol: “Los dioses tienen sed”. Lixo!

Esquivou-se da mulher, não estava para muita conversa. Térsio veio encontrá-lo à noite ainda às voltas com os livros.

— Que há com ele? — perguntou a Antonieta.

— Não sei. Está assim o dia inteiro. Nem dormiu, de ontem para hoje.

Térsio aproximou-se de Eduardo, curioso:

— Por que essa fúria?

— Vou fazer uma limpeza na minha vida. Se quiser levar esses aí, pode levar.

— Fechado para balanço — e Térsio se agachou para examinar os livros empilhados no chão. Eduardo parou um pouco, enxugou o suor do rosto:

— Sabe de uma coisa, Térsio? Quem não tem plantação, não vai para frente não.

O outro refletiu um momento e se ergueu:

— Então vamos tomar um chope.

— Só se formos nós dois sozinhos. Noutro bar. Estou cansado de todo mundo.

— Você vai sair? — perguntou Antonieta.

— Vou.

— E eu: fico?



— Não me ouviu dizer que estou cansado de todo mundo?

— Não sabia que você estava me incluindo nesse “todo mundo”.

— Pois então fique sabendo.

Térsio, constrangido, quis abrandar:

— Deixa disso, rapaz. Leva a moça, o que é que tem?

— Se ela quiser vir, venha — reconsiderou ele.

— Não — disse Antonieta.

— Ora, vem logo, hão chateie.

Perdi a vontade, juro.

— Você não vem porque não quer.

— Prefiro ficar. Você vai voltar cedo?

Acabaram indo ao bar de sempre. Térsio insistia em saber o que havia com ele.

— Nada. Só fiquei irritado com aquela festa de ontem, você viu só que bacanal? E irritado com a vida que estou levando. Vou acabar com isso.

— Vítor se separou de Maria Elisa. Por causa de Joubert, parece.

— De Joubert? Mas ouvi dizer que foi o contrário: que Ma­ria Elisa surpreendeu Vítor com Gerlane dentro de um carro.

— Não sei: a verdade é que se separaram. Maria Elisa foi para a casa da mãe dela, deixou Vítor entregue às baratas. Mas você estava lá? Nem te vi.

— Nem eu a você.

— Quem estava no carro com Gerlane era eu — confessou Térsio, afinal. — Vítor podia estar com alguma outra. Aliás, perdi meu tempo.

— Gostaria de conhecer essa Gerlane — murmurou Eduardo.

Alguém pôs a mão em seu ombro:

— Se eu der licença...

Era Antonieta, em companhia de Sílvio:

— Passei lá em sua casa, encontrei sua mulher sozinha, triste feito um passarinho. Resolvi trazê-la. Como vão as coisas?

— Você disse que se eu quisesse podia vir...

Eduardo ocultou seu aborrecimento enquanto lhe arranjava uma cadeira. Queria estar a sós com Térsio, não queria con­versar com mais ninguém.

— Eu estava contando a ela o que me aconteceu ontem — disse Sílvio: — Vocês nem imaginam.

— Posso imaginar — resmungou Eduardo.

— Pois então imagine o seguinte: na hora em que a con­fusão era maior, ninguém se entendendo mais, todo mundo de pileque, quem resolve me passar uma cantada?

— A cozinheira — disse Térsio.

— Sua mulher — disse Antonieta.

— Nada disso: aquele cantor de rádio, como é mesmo o nome dele, Eduardo?

— Eu é que vou saber?

— Ninguém diria que ele era veado. É forte como o diabo, eu havia de pensar? Passei meus bons apertos. Uma hora lá, fui ao banheiro, ele foi atrás, e...

— Você não vai contar, vai? — e Eduardo se ergueu.

— Que há com você, rapaz?

— Nada. Vamos embora, Antonieta.

Agarrou a mulher pela mão, soprou para Térsio:

— Passe lá em casa: preciso muito falar com você. Despediu-se, foi para casa. Não trocou uma só palavra com Antonieta. Em pouco chegava Térsio.

— Sílvio ficou danado da vida com você. Achou que você não gostou que ele tivesse levado Antonieta ao bar. Disse que não tinha nada com isso, ela é que pediu, insistiu...

— Que se danem. Escuta, Térsio, não sei o que há comigo, mas sinto que alguma coisa de importante está acontecendo, não sei... É preciso que eu faça alguma coisa, tome alguma providência.

Andava de um lado para outro, excitado. Era mais de meia-noite, Antonieta fora dormir. Um vento fresco entrou pela janela.

— Você está nervoso, cansado, é isso.

— Cansado desta vida. Vontade de me mudar do Rio, ir para um lugar sossegado, ter um filho, criá-lo longe daqui, constituir uma família, compreende? Levar uma vida decente. Não nasci para isso. Só você, que me conhece melhor, pode me compreender. Nós somos diferentes um do outro, eu sei; mas você sabe que eu não nasci para isso. Eu queria ser um homem simples, direito... Um homem como meu pai. Mas o que é aquilo?

Recuou assombrado: um vento mais forte entrava pela janela. Deixou-se ficar, olhos parados, sentindo-se tomado de um estupor inexplicável:

— Como meu pai — repetiu ainda, para si mesmo, sem desviar os olhos da janela. Térsio seguiu a direção de seu olhar, depois caminhou para ele:

— Eduardo, que foi isso — e sacudiu-o, enquanto ele escondia o rosto nas mãos, como se fosse chorar. — Você está nervoso, esgotado, vendo coisas. Precisa descansar. Por que não vai dormir um pouco?

De repente, três ruídos simultâneos se fizeram ouvir: o relógio da sala deu uma hora, uma porta bateu, impulsionada pelo vento, e o telefone pôs-se a chamar. Os dois se entreo­lharam em silêncio:

— É interurbano — sussurrou Eduardo, afinal, como de dentro de um sonho.




Passou o resto da noite com Térsio, pendurado ao telefone, tentando arranjar lugar num dos primeiros aviões. Conseguiu reserva para as nove da manhã. Acordou Antonieta:

— Tenho certeza de que ele morreu. Senti uma coisa...

— Quer que eu vá também? — perguntou ela, aflita.

— Não, você tem medo de avião. Fica em casa de seu pai.

— Tenho medo, mas sendo preciso — ela insistiu, já inteiramente acordada. Abraçou-o, penalizada: — Gostaria de poder fazer alguma coisa por você.

— Faz um café.

— Se for preciso, você me avisa que eu vou.

Como lhe sobrasse tempo, resolveu passar em casa do pai de Antonieta, a caminho do aeroporto.

— Avise ao ministro que preciso falar com ele.

Em pouco o criado voltava:

— O ministro manda perguntar de que se trata.

— Diga-lhe que vou agora para Belo Horizonte, que meu pai... que eu... Não, não diga nada: pergunte se ele deseja alguma coisa para lá. De novo o criado:

— O ministro manda dizer que lhe deseja boa viagem.

— Pois então manda o ministro a... — mas se conteve, pensando em Antonieta.

No avião não conseguiu repousar. Morrera — tinha certeza disso. Era essa espécie de intuição que tivera, nascida do cansaço e da excitação. Seu próprio pai, quando pensava, quando falava justamente nele. Exemplos de pressentimentos como este não eram raros. Seu pai! — e as lágrimas lhe escor­riam pelo rosto, que se esquecera de barbear.

No aeroporto encontrou Veiga à sua espera:

— Seja forte, rapaz. Prepare-se para o pior.

— Já sei: ele morreu. Mas como? Quando? Você sabe me dizer a hora exata?

Estava excitadíssimo. Olhou longamente o corpo do pai estendido no caixão, na sala de visitas — o rosto largo tão seu conhecido. Por que será que não choro? — pensava. Devo chorar, devo chorar, preciso chorar. Reagia vagamente aos abraços das pessoas, tanta gente conhecida, tanto rosto com­pungido ao seu redor, mas não discernia nada — mal pôde distinguir Mauro e Hugo entre os presentes. O cheiro das flores, as velas crepitando — lembrou-se de Jadir, o velório de Jadir, havia tanto tempo. O corpo pequeno, descarnado, feito esqueleto debaixo da terra. Em breve, o de seu pai — o velho Marciano morto, nunca pensara nisso, ele não parecia que um dia iria morrer. Isso alterava fundamentalmente a sua vida? ou não lhe traria sequer a mais ligeira modificação no modo de ser e encarar as coisas — sempre fora, era assim, sempre seria, ele vivendo, a morte do pai já em sua vida incorporada. Mais uma época ali se encerrava? Acaso não vivia sempre encerrando épocas e inaugurando outras? De onde vinha, para onde ia? Que sentido tinham as coisas? Nenhum, nenhum, se dizia, sentindo finalmente seus olhos se encherem de lágrimas. Disfarçou, já agora para não ser visto chorando, foi à cozinha, tomou o café que lhe ofereciam — alguém, uma mulher. Era justamente dona Marion, a mãe de Jadir, a quem dona Estefânia ajudara quando o filho mor­reu. Chegara a sua vez de ajudar também, prestar auxílio, fazer café, consolar dona Estefânia. Exatamente aquela que vivia por aí, dizia-se que não prestava. Olhou em torno: uma porção de conhecidos desentocados, todos muito cheios de dedos, meus pêsames, é isso mesmo, quem diria, tão forte que ele era. Dona Estefânia nem chorava mais: olhos ver­melhos, rosto inchado, deixava-se ficar, perplexa, junto ao corpo do marido, mãos na face fria e amarela, sem compreen­der o que se passava. O encontro com o filho fora novo mo­tivo de choro e desespero, dificilmente amainado: caíra-lhe nos braços, meu filho! e não queria desgarrar-se dele, seu úl­timo refúgio.

À noite se lembrou de Antonieta, resolveu telefonar.

— Não está aqui não — disse o próprio ministro, vindo atender. — Só agora eu soube. Porque você não me disse pela manhã que era isso? Dei ordem para enviarem uma coroa, não sei se chegou a tempo...

— Não está? — insistiu Eduardo. — Ela não vai dor­mir aí?

— Que eu saiba, não. Isto é, não me falou nada.

— Dava muito trabalho, acabei ficando por aqui mesmo — explicou ela, quando ele ligou para casa.

— Você está sozinha?

— Estou. Por quê?

— Por nada. Você vem?

— Se for preciso... Quando é o enterro?

— O enterro foi hoje mesmo, à tarde.

— Quanto tempo você ainda fica aí?

— Não sei: depende de você.

— Se você acha que é preciso...

— Não vem não — concluiu ele.

Desligou o telefone, atordoado, voltou para junto da mãe, que agora dormia, depois de ter tomado à força um calmante. O médico não permitira que ela fosse ao cemitério. Eduardo fora como um sonâmbulo, não falou com ninguém, não viu nada do que se passava à sua volta.

Ficou ainda em Belo Horizonte por três dias. Não tornou a comunicar-se com Antonieta. Qualquer coisa se rompera entre eles: revia-se solteiro, morando em Belo Horizonte, em sua própria casa. Afinal, o tempo não havia passado, ali es­tava ele de novo... Durante a noite chorava como antigamente, no seu quarto de antigamente, abafando os soluços no travesseiro. Não sabia por que chorava: se pela morte do pai, pela solidão em que viveria sua mãe, ou por si mesmo. Afinal, não conto mais com ninguém — pensava. Nem com meus amigos, nem com meu pai, nem com minha mulher, nem comigo mesmo. Estou sozinho, não há salvação.

Não conseguiu ter com Mauro e Hugo os momentos que esperava: nem um encontro fecundo, nem ao menos uma conversa, um diálogo como os de outrora. Não sabia o que acontecera: se a morte do pai o traumatizara, se eles é que haviam mudado — o certo é que, juntos, já não eram os mesmos. Mauro terminava seus estudos de medicina, descrente de tudo, depois de seu fracasso em política: não conseguira inclusão de seu nome na chapa de deputado, como candidato dos estudantes. Passava os dias numa desolada inatividade, quando não estava bebendo pelos bares com novos companheiros: dois ou três jornalistas vencidos pelo cansaço, pela falta de estímulo, pela estagnação intelectual.

— Você precisa é se mudar para o Rio — Eduardo pro­curava incentivá-lo. — Se lembra do Amorim, aquele repórter de polícia? Pois está lá, vencendo na vida. Se tivesse ficado aqui, teria desaparecido.

— Prefiro desaparecer. Me deixa por aqui mesmo.

— Está bebendo demais — informou-lhe Hugo. — Nós deixamos aquela vida, Mauro continua. Não lê nada, não es­creve nada, não estuda. Não percebe que está se desmorali­zando pelos botequins, com essa turma de jornal, uns fra­cassados.

Eduardo se lembrava dos rapazes do jornal, que antiga­mente o deslumbravam e com quem andava, Veiga à frente. Seriam assim, como os de hoje? Mauro, porém, se queixava de Hugo:

— Radiguet não é nem a sombra do que foi. Perdeu aquele ar doentio que lhe ia tão bem. Você se lembra que nós alimentávamos uma esperançazinha de que ele estivesse fraco do peito, acabasse um poeta descabelado e desmilingüido? Qual o quê! Perdi meu futuro cliente: está forte, saudável, profes­sor, vive estudando filosofia, filologia, psicologia, tudo para acabar descobrindo um dia que a vida é isso mesmo. E vive rodeado de meninos, alunos dele. Já sugeri que ele devia andar de calças curtas e fundar uma associação de escoteiros.

Hugo se justificava:

— Alguns deles são muito inteligentes, você precisa conhe­cê-los.

— Você não percebe que está sendo exatamente aquilo que censurávamos no Veiga? O que você está fazendo de si mes­mo? Se esses meninos forem como nós fomos, haverão de estar rindo de você como nós ríamos...

— Ninguém será como nós fomos — cortou Hugo, amargo.

Toledo também lhe pareceu amargo — mais velho, acabado:

— Estou pensando em ir para o Rio: Já não agüento mais isso aqui. Com a mudança da política começaram as injusti­ças, as perseguições...

— Não vai me dizer que a política mudou para pior, Toledo.

— Para mim, foi. Perdi o meu cargo no gabinete, voltei a chefe de seção. A vida cada vez mais cara, o dinheiro cada vez mais curto, as aulas cada vez mais longas...

— E a literatura?

— Não tenho tempo para literatura, nem para nada. Não saio, não vejo ninguém. Converso de vez em quando é com Hugo, mas ele vive em companhia de efebos. Está pensando em fazer concurso para uma das cadeiras da Faculdade assim que terminar o curso.

E Toledo baixou a voz:

— Dizem dele por aí umas coisas, mas não acredito, é lógico.

— Dizem o quê? — estranhou Eduardo.

— Dele com os meninos.

Estarrecido, Eduardo recusava-se sequer a pensar, a continuar aquela conversa. Diziam coisas de Hugo com os meninos! A palavra meninos é que lhe ficou ressoando na cabeça: meninos eram eles próprios, os três! Por que se sentirem assim, precocemente envelhecidos, sem poder exercer sua mocidade?

— Nós somos muito precoces — comentou apenas. Toledo não entendeu.

Uma noite Mauro lhe telefonou — era tarde, mais de duas horas.

— Eduardo, vem aqui no bar, preciso de você, estão querendo me bater.

Saiu de casa apreensivo: a voz de Mauro trêmula, inse­gura, humilde. Ele nunca fora assim. E parecia bêbado. Ao chegar deu com um ajuntamento à porta do bar: abriu ca­minho e entrou. Mauro também abriu caminho ao vê-lo, caiu-lhe nos braços:

— Eduardo, mon semblable! Mon frère!

Dois garçons procuravam contê-lo, um guarda telefonava, os fregueses o rodeavam, curiosos.

— Que foi que houve?

— Estão querendo me bater — lamuriou-se ele. Estava completamente embriagado. — Me tire daqui, por favor, use seu prestígio, mostre a esses sacripantas quem você é, quem somos nós.

— Quis sair sem pagar a despesa — explicaram-lhe. — É a terceira vez que ele faz isso. E agrediu um garçom.

— Eu pago a despesa. Quanto é?

— Tens uns copos quebrados também — disse o gerente, irresoluto.

— Vamos, Eduardo! — dizia Mauro, já confiante. — Eles não sabem que nós somos generais.

— Fica quieto.

Conseguiu livrá-lo do bar, dispensar o guarda. Foram subindo a pé a rua da Bahia. Mauro mal podia andar.

— Agüenta a mão, que ali no Grande Hotel tomamos um carro. Como é que você foi me promover um estrago da­queles?

Alguém saía justamente do Grande Hotel, vinha-lhes ao encontro. Mauro se contraiu, soltou um berro:

— É ele! É o Barbusse! Foi quem me denunciou. Traidor!

Avançou furioso para o delegado. Tomado de surpresa, o homem recuou dois passos, voltou-se e saiu correndo, perse­guido pelo rapaz:

— Segura! Socorro! Ele está louco!

— Louco é a mãe! Eu te mato, preboste! — gritava Mauro.

Cruzaram o jardim em disparada, o delegado fugindo espavorido, aos gritos. Quando ia alcançá-lo, Mauro tropeçou no meio-fio, caiu estendido no chão. O delegado, com suas perninhas curtas, já se perdia nas sombras da avenida João Pinheiro.

— Ai, estou ferido. Quebrei a perna — e Mauro se apal­pava, dramático. Eduardo aproximou-se, tentou erguê-lo. Ao sentir-se tocado, ele se levantou de um salto:

— Não chega não! Quem é você?

— Eduardo, sua besta.

— Eduardo, meu amigo! Você é meu amigo?

— Sou. Vamos embora.

— Então vamos tomar alguma coisa.

Conseguiu arrastá-lo até um carro de praça. Depois foi um trabalho convencê-lo a entrar em casa.

— Meu amigo, mon cher ami — repetia Mauro.

Não foi diretamente para o Rio — à última hora resolveu passar dois dias em Ouro Preto. Precisava descansar, pensar um pouco, meditar em sua vida, ver que rumo tomar. Deixava a mãe morando com umas tias, na Serra. Mais tarde teria de voltar, providenciar o inventário de seu Marciano — o que seria fácil, seu Marciano não deixara quase nada. Mas agora queria proceder ao inventário dos próprios bens. Pre­cisava saber com que contava, para prosseguir.

Em Ouro Preto se deixou ficar, pelas ruas quietas e frias, tentando ordenar as idéias, descobrir o que ocorria consigo, afinal. Não podia entender, não entendia nada, era como se os pensamentos lhe viessem envoltos em nuvem, uma nuvem de tristeza, desânimo, aniquilamento. Sua vida não estava certa. Esses amigos com quem você anda não servem — a mãe dissera. E assim eram todos — escritores sem livros, poetas sem versos, pintores sem quadros, arraia miúda da arte que vicejava ao seu lado, tirando-lhe o que lhe restava de melhor — entusiasmo, idealismo, mocidade. A que ponto che­gara: em Belo Horizonte lastimara Hugo e Mauro, agora per­cebia que também ele não escapava, eram os três que nau­fragavam lentamente. Mas ainda haveria de se salvai.

Como?

Estava à janela do hotel, olhando o casario que subia pelo morro. Era de tarde e um sol frio se escondia de Ouro Preto para que a noite baixasse. Viu um cavalo pastando à sombra de uma árvore, uma menina sentada numa pedra. De súbito o cavalo deixou de ser apenas cavalo, a menina deixou de ser menina e tudo — cavalo, árvore, menina, pedra — se tornou uma coisa só, ligada por elementos invisíveis num só bloco, espécie de síntese de todas as coisas criadas... Eduardo fe­chou os olhos e esperou, buscando em vão entender os pensamentos soltos que lhe acudiam vertiginosamente. Tornou a olhar e viu o cavalo se mover, vagaroso como um monstro gi­gantesco de quatro patas, a menina coçar o pé num gesto de experiência milenar e a pedra imóvel a desafiá-lo como um enigma. Um sino pôs-se a tocar na igreja próxima, denun­ciando o momento suspenso entre a realidade e o mistério. Apoiou-se à parede — seu corpo tremia, o coração disparava e todo ele parecia tocar o mais fundo da angústia. Sim, aquilo era angústia. Num grande esforço tentou ainda ordenar os pensamentos, entender as coisas ao redor — não entendia mais nada.



— Estou perdido — murmurou, deixando-se cair na cama.

Sentia-se inseguro como no instante de se atirar na piscina em dia de competição. Mas isso não era nada: era um estado permanente de angústia, crônico, suportável — era a fragi­lidade do ser diante da brutalidade e da crueza da vida, mas era ainda a vida, o existir e se saber presente. A evasão da realidade, o vórtice negro em que se sentira cair ali na janela, como num poço, é que era a angústia, o desespero, a negação de si mesmo — o não-ser, o vazio, o nada. Sua testa come­çou a porejar suor, quando viu que o poço novamente se abria, tudo começava de novo a perder o sentido, suas forças faltavam e ele se agarrava apavorado a uma idéia qualquer para não ser tragado...

— Não, não! — balbuciava, e começou a chorar. — Meu Deus, me ajude!

Aos poucos veio vindo o apaziguamento, numa espécie de letargia em que ele nada sabia de si mesmo e tinha medo sequer de se mover. Deflagrada a crise, ficava agora alagado, destruído, nada mais germinaria ali, tudo seria remorso e solidão. Desgraçado! candidato ao esquecimento.

A noite veio encontrá-lo na mesma posição, adormecido. Foi um sono espesso e sem sonhos.

Voltou para o Rio em estado de pânico. Não disse nada a Antonieta, mas se abriu com Térsio:

— Não sei, estou doente, estou com esgotamento nervoso. Deprimido, angustiado, o coração disparado...

— É natural. A morte de seu pai...

— Natural nada. Não senti a morte de meu pai, não con­segui me compenetrar sequer de que ele morreu.

Resolveu procurar um médico:

— Estou com taquicardia, doutor. Alguma lesão, talvez. Um estado permanente de expectativa, como à espera de um de­sastre, como se fosse morrer a qualquer momento.

— Você não tem nada no coração. Isso é angústia, e da boa. Deve procurar um psiquiatra.

Psiquiatra? Mas seria uma rendição, uma aceitação passiva de sua desordem interior, seria o reconhecimento da loucura.

— Não estou louco — se afirmava. — Tudo, menos louco. Sou o sujeito mais equilibrado, mais saudável, mais cheio de razão que existe.

Lembrava-se de Chesterton: é o que perdeu tudo, menos a razão. Neste caso estaria mesmo louco. Mas teria perdido tudo? Seus amigos, seu pai, sua mulher? Sua vocação de es­critor? Trancava-se no escritório, sentava-se diante da má­quina e ficava horas e horas tentando escrever alguma coisa — não havia o que escrever. Às vezes Antonieta acordava no meio da noite, dava por falta dele, vinha buscá-lo:

— Assim não é possível, você acaba doente mesmo.

— Preciso escrever.

— Assim não é possível...

— Eles me pegaram, Antonieta. Eles me pegaram.

— Eles quem? — perguntava ela, apreensiva.

Uma noite, depois de grande esforço, encontrou idéia para um conto: a história de um escritor que de súbito perde por completo a capacidade de escrever.

— E daí? — se interrogou, aflito. Escreveu apenas isto:

“Era um homem de certo talento que cedo foi apanhado e se mediocrizou. Agora está tentando achar um caminho e não consegue, porque para descobrir o caminho para o ta­lento é preciso talento.”

Leu o que escrevera e pôs-se a rir:

— Deixa estar que isso é engraçado. Já é alguma coisa. E pode ser um caminho...

No dia seguinte propôs a Antonieta:

— Sabe? Precisamos mudar de vida, antes que eu enlouqueça: mudar completamente. Mudar de bairro, mudar de há­bitos, de amigos, de nome: eu passo a me chamar Joaquim e você Guiomar.

E acrescentou, vendo que ela o observava, assustada:

— Isso é brincadeira, ouviu? Isso de mudar de nome. Ain­da não enlouqueci.

Transferiram-se para um apartamento maior, em Botafogo. Aos poucos tudo ia se acomodando: tomavam gosto pelo lugar, mandaram reformar os móveis, decorar as salas. O esforço que ele fazia era o de quando voltara a nadar, anos antes. Desta vez haveria de vencer.

— Agora vamos ser felizes — prometia.

Vinha do serviço diretamente para casa, trazia revistas para a mulher. Um dia trouxe-lhe um presente: atendendo a sú­bito capricho, entrou numa loja, comprou um colar, o que lhe pareceu mais bonito — ele que não entendia dessas coisas. Antonieta achou graça:

— Que colar! Você podia ter me dado o dinheiro, como faz sempre, que eu mesma comprava.

Ele riu também, conformado, sugeriu que dessem o colar à cozinheira, E assim, eles iam vivendo, Antonieta o esperava todas as noites, elegante com se fossem a uma festa. Iam ao cinema.

— Quero levar uma vida bem simples — dizia ele. — Viver para você, apenas. E para escrever.

Agora que a despesa aumentara, tivera de iniciar uma colaboração semanal na imprensa:

— Hoje eu tive uma idéia...

Aproveitava avaramente todas as suas idéias, que não eram muitas. Aos poucos elas iam frutificando, produzindo outras — começou a arquitetar um livro. Voltou a aperfeiçoar-se em inglês, descobriu uma nova linha de pensamento: Morris, Ruskin, o católico Eric Gill:

— Esse sim, foi um homem de grande caráter. Como eu gostaria de ser. Começou escrevendo livros, acabou cortando pedras.

— Uma carreira às avessas! — ria-se Térsio.

— Não seja imbecil: era um artesão, um entalhador. Ar­tista e operário ao mesmo tempo. Você precisa de ver as idéias dele. Olha aqui: “O artista não é uma espécie de ho­mem; todo homem é que é uma espécie de artista”.

— Você nunca mais teve aquelas coisas não? — pergun­tava Antonieta, preocupada.

— Não: às vezes sinto uma ameaça, mas já tenho minhas defesas. O segredo é ir para a frente e não para trás: é uma espécie de lodaçal em que a gente mete o pé. Se parar para tentar arrancar o pé, acaba deixando o outro e se afundando a cada novo esforço, compreende? Atolando-se no lodo até a boca, sabe como é?

— Você é tão mórbido...

— Ao contrário, estou explicando a você exatamente a maneira de sair. É não parar, ir tocando para frente. O que ficou para trás, ficou, não interessa. Recolher os despojos do naufrágio e deles fazer um barquinho, sair remando.

— Você está tão excitado! Não parou um instante. Por que não descansa um pouco?

Antonieta tinha razão: era preciso descansar, ter calma e paciência. Seu maior defeito ainda era a pressa, a ganância de viver. Organizou um decálogo de conduta no qual pressa, vaidade, teimosia, egoísmo, dispersão, eram defeitos a evitar, com o incentivo das virtudes correspondentes: calma, modés­tia, humildade, generosidade, concentração. Em vez de falar, ouvir; em vez de responder, refletir; em vez de decompor, reintegrar.

Não teve muita oportunidade de praticar tudo isso. Mesmo porque não sabia por onde começar, e concluiu que ao artista era essencial certo egoísmo, do contrário jamais exerceria sua imaginação criadora; também certa vaidade em se sentir capaz de criar. Concluiu que às vezes é mais importante perguntar do que ouvir a resposta; e se a pressa era inimiga da perfei­ção, certo grau de imperfeição era também indispensável à obra de arte, para dar a medida do homem que a produziu. O artista era uma espécie de homem! Reduziu, então, suas conclusões a uma norma apenas: restringir-se ao essencial. Mas o que era essencial? Para descobrir, muniu-se de um esquema de disciplina: ordem, obediência, respeito, lucidez e método. Pôs Térsio a par de suas conclusões.

— Você assim, ainda acaba mal — era o que dizia o outro, sacudindo a cabeça.

Térsio: o único amigo que continuava a freqüentá-lo. Sílvio e Vânia haviam embarcado para a Europa; Vitor também se mudara para outro bairro, voltara a viver com Maria Elisa, estava pensando em fundar uma editora. Diziam que já não levava a mesma vida, não bebia, não saía à noite. Um que se salvava: para quê? Amorim ganhara dinheiro ninguém sabia como, comprara um carro, era visto rodando por Copacabana. Joubert fora para São Paulo executar o famoso painel, de lá não voltara ainda. Lêda, correra notícia de que estava vi- vendo com um médico, mudara-se para Niterói. E de Gerlane ninguém mais ouvira falar. Os outros, os que apareciam e desapareciam ao sabor das circunstâncias, conforme a época, haviam se dispersado definitivamente em outras rodas. Nunca mais Eduardo voltara ao bar da praia.

— O garçom outro dia perguntou pela turma — disse Tér­sio. — Estive lá. Ninguém conhecido. Só mulheres da vida e cafajestes.

— Já era assim. Nós é que não notávamos.

Influenciado pelas novas leituras, Eduardo procurava orga­nizar as idéias, firmar as convicções. Não podia dizer que ainda fosse católico: de formação católica, apenas. E era o bastante. Continuava a freqüentar a igreja, de vez em quando — An­tonieta nunca fizera questão de acompanhá-lo — e, mesmo, a rezar distraidamente, uma noite ou outra, já deitado, adian­do sempre para o dia seguinte o problema de pensar no assunto, fazer também uma reforma radical em tudo aquilo. Urgia, antes, firmar uma convicção — pois vamos a ela: a industrialização foi responsável pela decadência do mundo oci­dental; o poder do Estado deveria ser reduzido às menores proporções, até desaparecer de todo, cedendo lugar a uma es­pécie de sindicalismo que se propusesse a eliminar para todo o sempre os males do estatismo: o nacionalismo e a burocracia; a finalidade da política sendo a preservação do bem comum, a liberdade, em última análise, depende de uma organização mais racional da produção e distribuição.

— Serei um anarquista? — se interrogava.

Não, era simplesmente romancista. E o romancista é um inocente, não sabe nada senão escrever. Aprender a escrever. Regressou à ficção: aprender com os que sabiam, se preciso plagiar, mas plagiar com sabedoria, com verdadeiro aproveitamento das idéias, desenvolvendo-as noutras idéias — e não apenas pastichar: escrever para os dias de hoje como eles escreveram para o seu tempo. E isso já não é plagiar, é recriar. Na literatura, como na natureza, nada se cria e nada se perde: tudo se transforma.

Térsio, a essa altura, começou a chamá-lo de La Palice.

— É isso mesmo — dizia o velho Germano: — Mas você tem de fazer a obra nascer sozinha: não tire nem acrescente nada, senão atrapalha. O importante é não colaborar.

O velho Germano passava o dia inteiro de pijama na casa em frente; quando não estava na varanda cuidando dos passa­rinhos, estava no quarto de solteiro lendo os Evangelhos, um copo de uísque na mão:

— Foi bom você ter aparecido, menino. Estou muito inteligente hoje.

Os dois conversavam durante horas. O velho era diplo­mata aposentado, viajara pelo mundo, mas suas lembranças eram confusas:

— Paris é isso mesmo que dizem: dá sempre a impressão de que a gente chegou lá com dez anos de atraso. Londres ninguém nunca viu: se tem fog não se vê, e sem fog não é Londres. Em Jerusalém eu nunca estive e no entanto nunca saí de lá, imagine. Em Berlim tinha uns meninos tão bonitos... Mas não vamos falar nisso. Vamos ouvir um pouco de mú­sica, tem agora um programa muito bom.

Pegava Eduardo pelo braço, levava-o para o banheiro. Seu rádio, pequeno e barato, só funcionava no banheiro, em cima do aparelho sanitário. Sem se preocupar em descobrir a ra­zão, o velho escutava música sentado no bidê.

— Deve ser por causa do encanamento que serve de antena — explicou-lhe Eduardo um dia.

O velho Germano fitou-o longamente, desligou o rádio, levou-o para fora do banheiro:

— Por isso é que você não vai para a frente, meu filho. Entende as coisas demais, quer encontrar explicação para tudo. Era tão simpático da parte dele, só tocando onde bem enten­desse. Então minha privadinha é uma antena? Você criou um problema para mim.

— Me desculpe.

— Não tem importância. A princípio eu achava que você fosse anjo, palavra. Custei muito a descobrir que não era.

— E por que não?

— Porque não tem asas. Você já viu anjo sem asas? A única coisa que anjo faz é voar: ir daqui para ali, dali para lá, feito um passarinho. O passarinho é um poema de Deus. Deus é poeta, você sabia? Qual, você conversa direitinho, sabe umas coisas, mas não sabe tudo não. Se sabe, me diga por exemplo: que é o pecado?

E o velho começava a folhear os Evangelhos com os dedos ávidos — um folheto gasto, esfacelado, em tradução portu­guesa, distribuído gratuitamente.

— O pecado é tudo que Cristo não fez. Se você, por exemplo...

— Espere, espere. Não seja apressado. Isso que você fa­lou tem coisa, pelo menos parece muito grave. Espere: é tudo que Cristo não fez... Olhe, vou até lhe servir um uísque. Você gosta de uísque?

— Gosto.

— Mas gosta mesmo? Olhe lá, hein?

Servia-lhe um uísque em dose medida rigorosamente:

— Você não é anjo mesmo não. Muito espertinho, discute comigo, toma meu uísque. O que nós estávamos falando? Ah, sim, o pecado: tudo que Cristo não fez? Não, está errado: isso é exagero, você está querendo ser mais cristão que o pró­prio Cristo. Cismático! Vá embora! Não quero mais conver­sar com você.

No dia seguinte, porém, voltava a recebê-lo:

— Sabe de uma coisa, Eduardo? Estive pensando muito em você. Seu erro fundamental é lembrar em vez de recordar. Há uma diferença entre lembrar e recordar; recordar é revi­ver, lembrar é apenas saber. O que é recordado fica, o que é lembrado é também esquecido.

— Kierkegaard já disse coisa parecida.

— Já vem você. Quem é esse? O jogador?

— Não: um filósofo dinamarquês.

— Ah! Eu estava confundindo com Friendenreich, aquele jogador de futebol. Pois se ele disse isso, ele é dos bons.

— Ele fala também nas “resoluções negativas”, essas que a gente toma e que em vez de nos suportar, nós é que temos de suportá-las.

O velho ficou pensando.

— É, isso é importante... — comentou afinal, balançando a cabeça: — Você veja, por exemplo, o problema do pecado: a grande dificuldade diante do pecado está em que para com­batê-lo temos de tomar resoluções negativas. O homem re­solve não pecar, isto é, negar alguma coisa que já existe, para recuperar sua condição original, que não existe ainda. Com o suicídio, por exemplo, é a mesma coisa: o homem resolve suicidar-se, mas nunca poderia resolver não se suicidar, como resolução afirmativa. Estou certo ou errado?

— Está errado: o suicídio tanto pode ser afirmação da morte como negação da vida. Tanto faz.

— É mentira! — bradou o velho, exaltado: — Olhe a morte de frente! Se você olha para trás, Deus pode te castigar, te transforma numa estátua de sal. Eu vou explicar: o suicida é aquele que perdeu tudo, menos a sua vida. Quis salvá-la e quem quiser salvar a vida a perderá. Não soube renunciar a si mesmo, não soube morrer — por isso se matou. O pecado dele é uma resolução afirmativa. A luta contra o pecado é a luta contra o suicídio. E no entanto, com a resolução negativa de continuarmos vivendo, estamos sustentando o mun­do. Veja o exemplo de Judas: condenou o mundo se suicidan­do. Porque a salvação do mundo só poderia vir do Cristo.

Eduardo o olhava, estupefato: lembrava-se de uma con­versa sua com o diretor do ginásio, fazia tantos anos, em que dissera praticamente a mesma coisa, por pouco não fora ex­pulso. Mas o velho Germano já estava meio bêbado:

— E há mais: há pecados para dentro e pecados para fora, é preciso distinguir. Pecado para dentro: orgulho. Para fora: assassinato. Pecados ativos e pecados passivos. Sabe que seu grande mal são os pecados para dentro? Se você talvez pe­casse um pouco para fora... Mas você não pode, seu grande mal é o orgulho — e sem orgulho você é um homem li­qüidado.

Antonieta não via com bons olhos aquela amizade:

— Tem cabimento você passar horas e horas conversando com esse velho maluco?

Eduardo ria:

— Talvez eu seja mais velho do que ele...

Germano não riu, pelo contrário, se fez sério.

— Sabe, Eduardo? Você não é mais velho do que eu: você é uma coisa sem idade. A eternidade de seu espírito impreg­nou seu corpo, de modo que parece que o corpo está se tor­nando imortal e em conseqüência o espírito envelheceu. Daí o desequilíbrio. Talvez uma cadeira de rodas resolvesse seu problema. Você paralítico, por exemplo, para castigar o corpo, conter o corpo e soltar o espírito. Você faria verdadeiras proe­zas na sua cadeirinha de rodas, circulando para lá e para cá, rindo satisfeito, abrindo porta, subindo escada. Que grandeza! Que despojamento, que liberdade! Já não peço tanto: ao menos se você capengasse, quando anda, arrastasse uma per­na... Por que você não passa uns tempos arrastando a perna, para experimentar?

Aproximou-se, segurou-o pelos ombros, nervoso, excitado, com ficava sempre que bebia:

— Sabe de uma coisa, meu aleijadinho? Vou lhe dizer, preste atenção: um dia, faz tempo, li um livro, parece que de Dostoievski. Me lembro de uma cena em que um rapaz vai visitar o místico, em companhia do irmão mais novo, que também era místico — o rapaz não, o rapaz era estroina — então o padre não dá importância ao irmão mais novo, mas cai aos pés do rapaz e beija-lhe os sapatos chorando, depois diz: “Faço isso pelo que você ainda vai sofrer”. Pois bem: estou sentindo que devia fazer o mesmo com você.

Eduardo o olhava, constrangido. Tentou sorrir, mas sentiu lágrimas nos olhos. De súbito, o velho ergueu a mão espal­mada e esbofeteou a própria face com violência:

— Toma, fariseu! Para aprender a se calar.

Eduardo lhe falava de seus amigos de Minas. Germano se afeiçoava a eles, sem conhecê-los, comentava um e outro:

— Deixa Mauro beber, que é que tem? É o caminho dele. Ele se salva, fique tranqüilo. Só que me parece muito dis­traído e isso é mau, um poeta não pode ser distraído. Hugo é que ainda não sei bem: ele tem olhos verdes? Se tivesse olhos verdes estava explicado. Gostaria de conversar com ele para ver se sabe umas coisas que todo poeta deve saber. Se sabe, por exemplo, que a lua é uma vaca.

Uma noite Eduardo convidou-o para jantar. Germano des­piu pela primeira vez o pijama, barbeou-se, penteou-se, ves­tiu-se elegantemente — paletó mescla e calça listrada — e cruzou a rua. Antes de se sentarem à mesa, já se fizera amigo de Antonieta:

— Essa palhacinha finge que não sabe as coisas — dizia, entusiasmado — mas acho que sabe mais do que nós dois. Quer ver?

Para Antonieta:

— Que dia é hoje, palhaça?

— Dia 15.

Para Eduardo:

— Você sabia que hoje era dia 15?

— Não...

— Eu não disse? — e de novo para Antonieta: — Que dia da semana?

— Segunda-feira.

— De que cor?

— Segunda-feira? Acho que cinzenta...

— Isso mesmo! Às vezes é branca. E terça-feira?

— Verde?

— Não! Verde é quinta-feira. Terça-feira é amarela. Quar­ta-feira é marrom. E sexta-feira é engraçado: muita gente pensa que é alaranjada, e no entanto não é: é cor-de-rosa, você sabia?

— Cor-de-rosa não é domingo, não? — perguntou ela.

— Não: domingo é outra cor, vamos ver se você descobre.

— Vermelho — arriscou Eduardo.

— Cala a boca. Você não sabe nada. Vamos, menina!

— Dourado! — concluiu Antonieta.

— Isso! — e o velho se ergueu, beijou-a na face, contente como um professor: — E sábado é azul. É o ouro sobre o azul.

Findo o jantar Eduardo preparou-lhe um uísque — com­prara uma garrafa especialmente para ele.

— Sabe, Germano? — comentou, enquanto servia: — Essa história das cores dos dias da semana é interessante, mas Rimbaud fez melhor: descobriu as cores das vogais.

Germano o olhou, cauteloso:

— Quem? o Poetinha?

— Poetinha? Você chama Rimbaud de poetinha? Aos dezessete anos era um dos casos mais sérios da literatura.

— Não se é sério quando se tem dezessete anos.

— Mas isso é justamente um verso dele! — exclamou Eduardo, admirado. — “On n’est pas serieux quand on a dix-sept ans”.

— Está vendo? — o velho se voltou, vitorioso: — Não precisa traduzir que eu sei francês.

E se levantou, despedindo-se:

— Preciso ir embora, me levanto muito cedo. Tem um bem-te-vi que me acorda toda madrugada. Posso levar a garrafa?

Empunhou a garrafa de uísque e abraçou-se a Eduardo:

— Vamos fazer as pazes? Tem domingo vermelho, sim. Especialmente na Espanha.

Antes de sair, voltou-se para Antonieta:

— Ia lhe dizer agora uma coisa muito importante. Mas é tão importante que prefiro não dizer. Só é sincero aquilo que não se diz. Boa noite.

— Então isso também não é sincero — sorriu ela.

— Também não. Só o silêncio é sincero. O silêncio de uma pessoa dormindo, por exemplo. Como é sincero alguém dormindo! Sincero como uma flor. Imagine se uma flor fa­lasse, que ridículo não seria. Por isso é que eu não gosto de desenho animado. Dormindo é que cada um se revela, por causa do silêncio, ou seja: feito à imagem e semelhança de Deus.

— E os que roncam? — gracejou Eduardo.

O velho ful­minou-o com o olhar:

— Quem ronca no homem é o demônio. A luta se trava até dentro do sono, só cessa com a morte. Os mortos não ron­cam, seu doutor, porque Deus vence sempre. O silêncio é a linguagem de Deus. No princípio era o Verbo, vocês sabem o que é isso? O silêncio, o espantoso silêncio do princípio. Ah! o verbo e o silêncio são a mesma coisa. Que coisa bonita que eu falei, minha Nossa Senhora. É preciso escutar o silêncio, não como um surdo, mas como um cego! O silêncio das coisas tem um sentido. Quem não entende isso não entende nada.

Eduardo se viu de súbito transportado a uma noite já longínqua, no Parque, diante da estátua de Anita Garibaldi. O demônio mudo.

— E a música? — desafiou.

— A música — o velho traçou com o dedo uma pausa no ar — é a expressão mais completa do que estou dizendo. Ou do que não estou dizendo, pois é preciso ouvir apenas o que não se diz. Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça. Eu ia chegar nela. A música também é silêncio. Bach sabia disso, Mozart também. Beethoven só soube quando ficou sur­do. O ar não é silencioso? O vento não faz barulho? E que é o vento senão ar? A música é o silêncio em movimento.

— O mesmo com as palavras.

— Não senhor: as palavras estão em quem fala e em quem escuta. O silêncio fica entre os dois, intocado, um silêncio enorme, intransponível. Ao passo que a música está nela mesma, isto é, no que resta além de nós. E o resto é silêncio. Adeus.

Já à porta:

— Reparem como o meu silêncio é mais sugestivo do que qualquer palavra.

Olhou fixamente o casal durante algum tempo e voltou-se, solene, cruzou lento a rua, a garrafa de uísque na mão.

— Que homem extraordinário — disse Antonieta, deslumbrada.

— Você não viu nada — disse Eduardo, rindo. Passaram a visitá-lo juntos quase todas as tardes. Às vezes Antonieta ia sozinha, Eduardo chegava da rua e a encontrava lá, em conversa com o velho.

— Esta menina sabe as coisas — dizia ele.

Eduardo se alegrava com a mudança que sentia na mulher. Já não queria sair, ir tanto ao cinema, passear em Copaca­bana. Preferia ficar em casa à noite, lendo as revistas que ele lhe trazia. Enfim, pareciam constituir um casal feliz. Eduar­do fazia planos literários — um livro de ensaios, por que não? Faltava um crítico à sua geração, não era isso mesmo? Anto­nieta pensava em aprender alguma coisa, tomar aulas parti­culares — costura, datilografia, francês, ginástica, culinária. Desde que terminara o colégio, não estudara mais nada, que­ria sentir-se útil, encher seu tempo. Não faziam nada disso e à noite se buscavam sem pressa, para cumprir pacificamente os deveres de estado. Essa era a felicidade, pois. A rotina não sendo afinal o temido fantasma do tédio, mas a ordem, o equilíbrio, a permanência tornados hábito. Que se amassem apenas, não bastava; era preciso principalmente amar em comum alguma coisa além deles, e isso o que buscavam — seguissem vivendo paralelo como dois trilhos, eles nunca se encontrariam. E assim é que se poupavam, não mais aflitos, mas de prontidão, a casa arrumada como à espera de uma visita.

Eduardo voltou a Belo Horizonte duas vezes. Dona Este­fânia, com a morte do marido, estava velha, acabada. Conti­nuava morando na casa dos parentes, reclamava do filho não ter cumprido a promessa feita ao pai:

— Você não terminou seu curso, meu filho. Ele fazia tanta questão.

— Este ano vou me reinscrever na Faculdade — mentia ele com paciência.

Da última vez não chegou sequer a avistar-se com Mauro e Hugo:

— Mauro está um caso sério — lhe disse o Veiga, sempre à frente do jornal. — Há pouco tempo foi preso numa arruaça na zona boêmia. Iam mudar a zona de bairro, despejar as mulheres, Mauro então promoveu um verdadeiro comício, que­ria fazer uma passeata com elas até o Palácio do Governo.

— E Hugo?

— Hugo vive às voltas com um jovem poeta, aluno dele, um negócio meio escandaloso. Todo mundo comenta, só ele não percebe. Imagine que o menino foi expulso do colégio...

Voltou para o Rio desgostoso, em vão tentou esquecer os amigos. Eles que se danem! Por que não vieram também? Mas acabava escrevendo a ambos longas cartas, quando à noi­te a lembrança deles o perseguia, tirando-lhe o sono. Recebia respostas lacônicas; de Hugo, apenas meia dúzia de linhas mordazes: “Príncipe, você é dono de uma verdade, eu não sou dono nem de meu nariz. Sou apenas o destinatário humilde de sua brilhante literatura epistolar”. De Mauro recebeu um pedido de dinheiro: “É natural, você tem e eu não tenho. Para escrever poemas, como você quer, preciso comprar papel, uma caneta, cigarros e as obras completas desse poeta inglês que você citou, como é mesmo o nome dele?” Eduardo lhe passou um telegrama: “Camões morreu na miséria”. Mau­ro lhe respondeu: “Porque não lhe deram emprego na Prefeitura de Lisboa”.

Não tendo outra coisa a fazer, deu mais um balanço em sua vida. Para surpresa sua, apurou um saldo — pelo menos não tinha de que se queixar, como Mauro, Hugo e tantos ou­tros: estava bem de vida. Seus vencimentos na Prefeitura ha­viam aumentado, com uma pequena comissão nas multas, ago­ra aprovada — por este lado não tinha com que se preocupar. Ainda assim, continuava a escrever artigos semanais, seu nome ia-se tornando conhecido. Térsio ainda aparecia de vez em quando:

— Essa calmaria me assusta um pouco. Eu teria medo...

E Antonieta finalmente esperando um filho. Eduardo foi levar a notícia ao Germano. Da última vez que o procurara o velho lhe pedira que se retirasse: “Não posso conversar. Eu hoje estou de mal comigo”. Agora, porém, o recebia com os olhos molhados:

— Sabe Eduardo? Estou chorando por sua causa: essa tristeza antecipada diante das fatalidades que a gente não pode mudar...

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