Fernando Sabino o encontro marcado



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II — O AFOGADO

Em algum lugar dentro da noite um telefone toca sem parar mas ele não ouve nada. Vai caminhando com decisão, prosseguindo na sua busca. Atravessa ruas, dobra esquinas, sobe escadas, bate em portas, entra, pergunta, olha; sai, torna a andar. Procura entre os rostos que passam, que riem, que se mexem, e se escondem atrás de outros rostos. Na esquina há um letreiro luminoso, mas basta, já esteve aqui, não há cabaré, nem dancing, nem botequim, nem pensão que não tenha esquadri­nhado — nuns dizem que não, noutros dizem que sim mas vão ver estão enganados, noutros não dizem nada. Portas que não se abrem, bocas que não se abrem, olhos que nada viram, uma mesa e quatro cadeiras, cerveja, vestidos de cetim, seios e axilas, o garçom eunuco não sabe de nada, a gorda de olheiras nunca ouviu falar, é uma procura inútil, dez anos já se passaram.

— Gerlane — insiste ele. — O nome dela é Gerlane.

Pela porta aberta uma ponta de cama baixa, coberta vermelha, uma luz vermelha, saia de feltro vermelho de uma boneca na cadeira. Uma perna, duas pernas. Perfume, vase­lina, esperma.

— Marlene? Tenho uma menina aqui chamada Marlene, mas ela agora está ocupada. O senhor não pode esperar?

— Marlene não: Gerlane — corrigiu. Esta não sabe, nem esta, nem esta outra, uma cabeleira loura se volta com espanto, Gerlane? e a boca vermelha maior do que a boca sorri uma falha de dois dentes assim meio de lado, não, me desculpe, não conheço, mas como é mesmo o nome dela? Gerlane, Ger­lane, Gerlane — repete ele para os sapatos que desistem a cada degrau. Enquanto isso o telefone continua a tocar, há um século, sem parar, longe, muito longe, sem parar, será interurbano?

Estendeu o braço ainda de olhos fechados, tateando. A mão bateu no despertador à cabeceira da cama e o atirou no chão, a campainha ainda disparada. Completamente acordado, er­gueu-se de um salto e procurou prendê-lo nas mãos como um pássaro assustado.

— Quem diabo botou este despertador? — resmungou.

— Você mesmo, quem havia de ser? — respondeu Anto­nieta, lá do banheiro. — Hoje você não vai trabalhar?

Eduardo dirigiu-se ao banheiro em passos pesados. A lembrança do sonho o perseguia: por que prostituta? Abriu a torneira da pia, deixando escorrer algum tempo o jato de água fria até tomar coragem. Prostituta? Tentou relembrar tudo, mas o sonho se perdia já, escorrendo na memória como a água entre os dedos, misturando-se às lembranças da noite. Incli­nou-se e molhou agitadamente a face, os cabelos. Qualquer coisa de dez anos passados...

Ficou a olhar Antonieta que, sentada na borda da banheira, se ocupava em raspar os pêlos da perna. Era uma mulher, a sua mulher. Uma bela mulher — dessa beleza que um dia, pela manhã, haveria de desaparecer do rosto sem deixar ves­tígios. O corpo jovem tinha já certo ar de coisa usada que pode passar por nova e ele de algum modo era responsável por tudo que lhe viria a acontecer: rugas, gordura, disformi­dade, cabelos brancos, dores no fígado ou no útero, doença, morte. Dela finalmente nasceria o filho, que ainda não se adi­vinhava — e para isso a mulher fora feita. No mais, era apenas aquilo: um feixe de nervos e carnes em cima dos ossos, um con­junto de glândulas, vísceras, vasos, sangue, humores, tudo co­berto de uma pele macia, delicada, boa de se passar a mão...

— O que é que você está me olhando? — perguntou ela.

Pêlo nas pernas.

— Você está usando meu aparelho — queixou-se ele. — Quero fazer a barba.

— Toma. Já acabei.

Pernas. Coxas, a confluência das coxas, pêlos escuros sob a camisola transparente. Ela lhe estendeu o aparelho de bar­ba mas ele, em vez de segurá-lo, tomou-a pelo braço, puxou-a para si:

— Vem.


Ela virou o rosto para que ele não a beijasse.

— Que é isso, Eduardo. Tome modos. Você nem escovou os dentes, ainda está cheirando a bebida.

— Me desculpe — disse ele, respirando fundo e largando-a. — Bebi um pouco ontem.

— Seu lenço está todo sujo de batom.

Ele sorriu, apreensivo:

— O que é que você tem de ficar mexendo nos meus bolsos?

— Não mexi em coisa nenhuma. Não grite comigo, não. Você deixou o lenço atirado na cadeira. Nem ao menos tem o cuidado de esconder.

Eduardo escorou a cabeça nas mãos em frente à pia, desanimado. É verdade, como fora esquecer de jogar fora o lenço?

— Não precisa se zangar: você acha que se o lenço fosse meu, eu teria trazido para casa? — disse, sem convicção.

Ela não queria, mas acabou perguntando:

— De quem é, então?

— Do Térsio. Entornou uísque na minha roupa, pedi o lenço dele emprestado, distraído guardei no bolso.

— Não me consta que o Térsio usa batom.

— Gerlane usa. Térsio tem um caso com ela.

Imediatamente se arrependeu. Tudo, menos tocar nesse nome. Mudar logo de assunto:

— Você não tem mais sentido enjôos, tem?

— Depende do que você chama de enjôo — respondeu ela, e ele prudentemente não disse mais nada.

No mesmo dia preveniu Térsio:

— Se Antonieta lhe falar qualquer coisa de lenço, agüenta firme.

— O que é que você andou arranjando?

— Gerlane.

— Outra vez? Isso anula acaba mal.

— Não tenho nada com ela. Somos amigos, apenas.

— Para cima de mim, Eduardo?

— Ela é meio doida: disse que tem complexo de ser virgem.

— Fácil de curar.

— Vou estar com ela, hoje, pela última vez.

— Conta essa para outro.

Estavam no bar da cidade, onde costumavam se encontrar todas as tardes.

— Você não acredita, mas eu, realmente, na minha situa­ção, você compreende, não pretendo absolutamente, você com­preende?

— Eu compreendo — encerrou Térsio.

Que diria a Antonieta? Depende do que você chama de enjôo. Um filho, um filho seu afinal, era o que esperava para levar afinal uma vida reta, tranqüila, feliz, como sempre qui­sera. Sempre não quisera? Afinal. Pois então? Tinha de ima­ginar uma desculpa bem convincente, várias noites seguidas! Dois sambistas amigos de Térsio haviam se chegado à mesa, um deles lhe explicava que muitos sambas de Noel Rosa na verdade não eram de Noel Rosa.

— Já me disseram... Já me disseram... — concordava, distraído. O desejo que sentira por ela naquela manhã, como um remorso. Antonieta o que pensaria? Uma desconhecida, sua própria mulher. Não desejava mais nada senão Gerlane.

— Vocês me desculpem, mas vão me dar licença... Tenho um encontro...

Alguém que chegara recentemente dos Estados Unidos se sentara com eles e falava muito, contava casos de lá:

— Eles estão se preparando para uma nova guerra, vocês nem tenham dúvida.

Levantou-se, foi ao telefone:

— Não vou poder jantar em casa — disse simplesmente. Não tinha mais ânimo de mentir.

— Eu já sabia — respondeu Antonieta, num tom neutro: — Nem precisava avisar.

Desligou o telefone, amargurado: por que diabo as mulheres não podiam entender certas coisas? Se chegasse para ela e dissesse: Antonieta, você me desculpe, mas estou apaixonado por Gerlane, isso não dura muito, você agüenta mais um pouco, tenha paciência que assim que acabar vou me dedicar inteiramente a você, saber finalmente quem você é... Seguiu direto para o bar do encontro em Copacabana — um bar fe­chado e discreto onde já tinham estado outras vezes. Eram dez horas da noite.

Ao segundo uísque (e eram já seis, com os que tomara no outro bar) convenceu-se de que ela não viria. Onze e meia — mais de uma hora de atraso. O bar quase vazio, como um palco, dois casais abraçados na penumbra e esquecidos de tudo, o garçom cochilando atrás do balcão, uma canção fran­cesa a tocar em surdina. Deixou pender a cabeça: quando ela chegar já estarei completamente bêbado.

À meia-noite em ponto a porta de vidro se abriu. Ergueu os olhos ansiosos — a chegada de Gerlane lhe parecia agora algo de imprescindível como se estivesse para decidir o seu destino — e deu com um homem magro, alto, pálido, vestido de smoking, cravo vermelho na lapela, e que o olhava da por­ta. Devia estar a caminho de alguma festa. Veio sentar-se na mesa ao lado e o garçom, voltando à realidade, se apres­sou em servi-lo.

— Pippermint — pediu o desconhecido. Sua voz era clara e precisa como a de um locutor. “Algum artista do cinema nacional”, concluiu Eduardo, voltando a pensar em Gerlane. Estava indeciso entre pedir mais um uísque e ir embora ime­diatamente. Antes de tudo, precisava comer alguma coisa — se esquecera de jantar e daí aquela sensação de leveza, de inse­gurança, que lhe viera de súbito, como trazida pelo vento frio quando a porta se abrira. Foi então que o homem a seu lado lhe dirigiu palavra:

— Pode me informar as horas?

Consultou o relógio:

— Meia-noite. Mas parece que está parado — e levou-o ao ouvido para se certificar: — Está parado. Não deve ser muito mais do que isto.

O homem sorriu:

— Não tem importância... Um relógio parado até que é bom: dá a impressão de que conseguimos sair fora do tempo.

Eduardo o olhou, intrigado:

— Eu já não o conheço de alguma parte?

O homem provou o líquido verde que o garçom lhe trou­xera num cálice:

— É possível. Daqui mesmo, talvez. Venho sempre aqui.

— Vai a alguma festa?

— Vou. Passei por aqui só para matar o tempo. Mas já que o tempo parou... — e o homem acendeu um cigarro ame­ricano.

No íntimo Eduardo lastimou que ele logo pagasse a des­pesa para partir. Gostaria de conversar com quem quer que fosse — Gerlane não viria mais e não tinha disposição de ir para casa, ela ainda viria.

— Você é escritor, não? — perguntou-lhe o homem, enquanto esperava o troco. Espantou-se:

— Como é que você sabe?

— Eduardo Marciano... — sorriu o desconhecido: — Co­nheço de nome. Domingo passado escreveu um artigo sobre a técnica do romance.

Pensou em convidá-lo a tomar um último, mas se conteve: lembrou-se de incidente semelhante, anos atrás, num trem, o professor de medicina que o reconhecera.

-— Já vai embora? — limitou-se a dizer, quando o homem se levantou. — Ainda é cedo...

— Nem cedo nem tarde, pelo seu relógio. Mas ainda have­mos de nos encontrar.

O homem se despediu e partiu. Pronto, estou sozinho — correu os olhos em torno. Os dois casais haviam saído sem que ele percebesse, o garçom voltara a inexistir atrás do bal­cão. Devia ser mais de uma hora. Sozinho. Como sempre desejou viver! Podia se estender de comprido e dormir. Po­dia chorar, podia tomar veneno, morrer. Sozinho — sozinho no mundo, isolado, incomunicável, fora do tempo, abando­nado, perdido... Mudou com esforço a ordem dos pensamen­tos, tentou reanimar-se dentro de sua embriaguez: angustiado diante da angústia, o poço negro em cujo vórtice fora apa­nhado uma vez, em Ouro Preto. “Não tem perigo; a mão de Deus está pousada na minha cabeça”.

— É, mas a paciência de Deus tem um limite.

Ergueu os olhos: quem falara aquilo? Ele próprio? Não viu ninguém. Ele próprio, então. “Estou mesmo bêbado”, decidiu-se.

Às duas horas Térsio e os dois sambistas irromperam no bar e o encontraram cochilando. Acordaram-no às gargalha­das:

— Você ainda aqui?

— Ele tinha um encontro com ele mesmo.

— É isso! E nenhum dos dois apareceu.

As risadas estouraram. Eduardo se reanimou:

— Sabem de uma coisa? — a voz já pastosa se recusava: — Estava aqui pensando um samba formidável: “Sinto a mão de Deus na minha testa”. Térsio, o que é que eu devo tomar para rebater um pileque e iniciar outro?

— O que você estava tomando?

— Uísque.

— Então toma outro.

Todos riram, como se o que Térsio dissera fosse irresistivelmente engraçado. O garçom serviu-lhes uísque. Já não sa­biam bem o que diziam:

— Surgiu um sujeito aqui que me disse que eu estou fora do tempo — olhando o relógio: — Olha aí, meia-noite só.

— Então vamos tomar mais um.

— Garçom, mais um!

— Assim nós ainda vamos acabar bêbados.

— E disse também que é isso mesmo, que hoje é sempre...

— Por que você não quebrou a cara dele?

— Como é mesmo o samba? A mão de Deus, o que é que tem?

— Na minha testa. Oh Térsio, você acha que vale a pena telefonar para ela?

— Para a mão de Deus? — e um dos sambistas disparou a rir.

— Não seja imbecil — protestou, magoado.

— Olha, rapaz — e Térsio inclinou-se para ele, falando com dificuldade: — Nesse seu negócio com Gerlane eu não me meto. Sou gato escaldado.

— Então ao menos tire aí na minha caderneta o telefone dela, que eu me esqueci. Já não estou enxergando mais nada.

Térsio segurou com dedos grossos a caderneta que lhe era estendida, pôs-se a folheá-la.

— Você está olhando no W, sua besta.

— Dabliú! Dabliú! — fez um dos sambistas, e entornou um copo.

— Oba! — gritou o outro.

Dirigiu-se em passos trôpegos ao telefone. Em pouco ouvia a voz sonolenta de Antonieta.

— Gerlane? Você...

De Antonieta?

— Onde é que você está? — perguntou afinal, tudo se confundindo na sua cabeça.

— Estou em casa, você não ligou para cá?

Sem uma palavra, Eduardo desligou o telefone. “Oba, digo eu”, murmurou, perplexo, e voltou para a mesa:

— Mulher é glândulas. É tudo glândulas.

— Você hoje está muito endocri... nológico — gaguejou Térsio.

— Tudo glândulas. Eu vou-me embora, vê quanto é minha parte.

Olhou o relógio. “Meia-noite. Está mesmo na hora de ir para casa”. Eram três horas da manhã. Deixou os três em­penhados numa discussão:

— Então o samba nasceu na Bahia? Ora, vamos deixar de bobagem, Motinha.

Tomou um táxi na esquina, foi conversando com o motorista para não dormir. Falavam em política.

— Os Estados Unidos estão se preparando para uma nova guerra, o senhor nem tenha dúvida.

Antonieta não lhe disse nada sobre o telefonema. Ele pró­prio havia esquecido que telefonara. Mas naquela mesma ma­nhã ela começou a sentir-se mal, queixando-se de dores.

— É assim mesmo — tentou ele. — Nesta fase...

Quando as cólicas ficaram insuportáveis e ela começou a perder sangue, chamaram o médico.

— Melhor vermos isso no hospital — ordenou ele depois de um rápido exame.

Três dias mais tarde ela estava novamente em casa, já restabelecida. O médico lhe recomendou apenas um pouco de repouso:

— Ainda bem que a coisa se precipitou por si mesma. Vocês devem dar graças a Deus. Gravidez tubária costuma às vezes ser bem complicada.

Eduardo procurava consolá-la nos dias que se seguiram, não arredando pé de casa:

— Não tem importância, meu bem. Você já está quase boa, ainda podemos ter outro filho...

Ela chorava:

— Nunca mais quero ter outro — e pela primeira vez parecia olhá-lo com ódio.

— Você me olha com ódio, como se eu fosse culpado.

Mas no íntimo se sentia mesmo culpado, com se a perda do filho fosse decorrência da vida que vinha levando — e ten­tava ferozmente esquecer Gerlane. Por que fora se meter naquilo? Logo agora, que tudo parecia ir tão bem, a mudan­ça de casa, o esforço para recomeçar. Era inútil, vivia sem­pre recomeçando, não nascera para vencer, mas para encher raia, tirar o terceiro lugar. Gerlane surgindo-lhe inesperadamente no caminho quando já se julgava a salvo com sua mulher: era inútil, o filho perdido, ele próprio perdido.

Passou duas semanas sem vê-la. Um dia, enfim, a encon­trou no ateliê de Joubert. Ali se tinham visto pela primeira vez:

— Eu fazia uma idéia completamente diferente de você — ele dissera, desapontado. Os cabelos aparados rente davam-lhe certo ar de rapazinho vestido de mulher: a blusa de malha colada ao peito quase liso e o corpo esguio nascendo de ancas largas, adultas, as pernas longas e fortes. Qualquer coisa de bailarina, de menina de circo, de modelo mesmo para pintor. Nada da mulher a que ninguém resistia, que se acostumara a imaginar.

— Que idéia você fazia?

— Pensei, por exemplo, que você posasse inteiramente nua.

Agora, porém, não dizia nada — limitava-se a mirá-la em silêncio. Mal respondeu ao seu cumprimento.

— Você está sumido — insistiu ela. — Por onde tem an­dado?

— Em casa — respondeu, com raiva. — Por que você não aparece? Minha mulher teria muito prazer.

— O prazer seria todo meu. Gostaria muito de conversar com ela... umas coisas sobre você.

Ele mudou de tom:

— Por que você não foi ao nosso encontro?

— Que encontro?

— Você sabe muito bem.

— Porque não gosto de me encontrar com homens casados.

— Vamos deixar de brincadeira, Gerlane. Então é assim que se faz? Me deixar esperando?

— Você esperou porque quis.

— Você me disse que ia.

— Mudei de idéia.

— Podia ao menos ter avisado.

— Me esqueci.

Segurou-a pelos pulsos, irritado:

— Escuta, menina, você está facilitando muito comigo. Ain­da acabo perdendo a paciência.

— Me larga, você está me machucando! Joubert, olha esse bruto querendo me bater.

Joubert limpava pachorrentamente um pincel e nem se deu ao trabalho de olhar:

— Veja lá, rapaz, não vai me estragar o modelo.

— Vem comigo — disse, puxando-a pelo braço.

— Aonde?


— Vamos tomar alguma coisa.

— Já falei que não saio com homens casados.

Ele ficou indeciso, acabou rindo:

— Ah, não? E Amorim, o que é?

— Desquitado. E não vejo Amorim há séculos.

— Para mim é a mesma coisa.

— Eu sei que você é um puritano.

— Puritano é a mãe — estourou ele, e saiu sem se despedir.

Encontrou Antonieta se vestindo para um jantar:

— Pensei que você tinha se esquecido — disse ela. — Já estamos arrasados. Eu até já tinha ligado para o bar.

— Pois fez muito mal, já te disse que não tem graça nenhuma ficar telefonando para tudo quanto é lugar à minha procura. O que é que os outros vão dizer?

— Vão dizer que você em vez de vir para casa vai para o bar.

— Há vários dias que estou vindo do serviço direto para casa. Hoje custei a achar condução — e sentou-se na cama, desanimado: — Que jantar é esse?

— Eu sabia que você tinha se esquecido: hoje é. aniversá­rio de papai, te avisei que nós íamos jantar lá.

Antes que ele pudesse responder, o telefone tocou. Foi atender, era Gerlane.

— Preciso muito falar com você — a voz dela era ansiosa, descontrolada: — Você pode sair agora?

— Ah, sim, pois não — confirmou, num tom neutro. — Pode deixar que eu aviso a ele.

Voltou para junto de Antonieta, que acabava de se pentear em silêncio:

— Recado para Térsio — explicou.

— De Gerlane?

— Não. Por que havia de ser de Gerlane?

— Você disse outro dia que ela tem um caso com ele.

— Não, era o Motinha — esclareceu, mudando de tom: — Um sambista aí amigo dele. Disse que se o Térsio apare­cesse, não deixasse de procurá-lo na Rádio ainda hoje.

E continuou sofregamente a desenvolver a mentira:

— Térsio deu agora para andar com essa gente, acho que vai fazer um programa de rádio, ou coisa parecida. Imagine você, Térsio no rádio. Olha, eu vou sair um instante, me es­queci de comprar cigarro.

— Tem cigarro na gaveta da penteadeira.

— Você agora deu para fumar? — e saiu sem esperar resposta.

Ligou para Gerlane do botequim da esquina:

— Você está ficando doida, telefonar lá para casa? Que aconteceu?

— Preciso me encontrar com você de qualquer maneira.

— Hoje é impossível, tenho um jantar. Amanhã.

— Tem de ser hoje. Agora.

— Já disse que hoje...

— Um instante só, por favor! Te espero na esquina.

— Você não pode ao menos me dizer o que aconteceu?

Saiu do botequim ansioso, desnorteado, em vez de voltar para casa tomou um táxi:

Depressa, para Copacabana.

Gerlane o esperava com um sorriso. Entrou no carro despreocupadamente.

— Que cara é essa?

Ele a olhava sem compreender. Ordenou ao chofer que esperasse:

— Antes de mais nada: você quer me dizer o que acon­teceu?

— Aconteceu que cheguei em casa, mamãe tinha saído, fiquei triste de ter que jantar sozinha.

— Então se lembrou de mim.

— Fiz mal? — perguntou ela, os olhos grandes. Ele res­pirou fundo, antes de responder:

— Olhe, Gerlane, se você pensa que eu vou estragar minha vida por sua causa, está muito enganada. Vamos, desce do carro. Deixei minha mulher esperando.

— Não estou querendo que você estrague sua vida: estou querendo apenas que você me leve para jantar.

— Então vem. Eu vou jantar na casa do meu sogro, posso te levar. Vamos em frente.

— Para onde? — perguntou o chofer.

— Estou falando aqui com ela. Escuta, menina: já estou atrasado, convém você ir para sua casa que eu vou para a minha.

— Você vai jantar comigo — insistiu ela.

Ele começou a rir:

— Desde quando você manda em mim?

— Não estou mandando: estou pedindo.

— Vou te perguntar uma coisa: por que você, em vez de me pedir que te leve para jantar, não me pede que te leve para dormir?

Ela o olhou com firmeza:

— Primeiro vamos jantar.

Ele abriu a porta do carro:

— Desce.


Em vez de descer, ela atirou-se em seus braços, escondeu a cabeça junto ao seu rosto:

— Eduardo, não agüento mais, eu te amo — murmurava baixinho, a voz quase num soluço. — Não posso passar mais um minuto sem você.

— Desce — repetiu ele, e afastou-a. Viu seu rosto muito junto, transtornado, os olhos grandes cheios de lágrimas — ela chorava, e chorava mesmo, lágrimas já escorrendo pela face.

— Não fique assim — ele, perturbado, já não sabia o que dizer. Beijou-lhe os cabelos, a boca, os olhos. Ela não correspondia, mal contendo os soluços: — Você está chorando mes­mo, o que é que você tem, não fique assim, meu amor, amanhã nós conversamos...

Ela voltou-se e saiu do carro sem uma palavra. Pensou em segui-la, chegou mesmo a curvar-se para sair também do carro, hesitou, acabou recuando e derreou-se na almofada com um suspiro:

— Podemos voltar — ordenou ao chofer.

Não encontrou Antonieta em casa. A empregada avisou que ela saíra logo em seguida:

— Disse que o senhor não precisa de ir.

— Pois então não vou — decidiu.

E tornou a sair. Telefonou para a casa de Gerlane, nin­guém atendeu. Passou o resto da noite num bar, bebendo em companhia de um conhecido eventual. A todo momento se levantava para telefonar — era inútil, não atendiam.

— Você está ruim, rapaz — notou o outro. — Sei como são essas coisas. Uma vez conheci uma mulher...

Ao chegar em casa já encontrou Antonieta dormindo. Esquecera-se dela completamente, e do jantar, de tudo. Na ma­nhã seguinte, porém, ela se limitou a perguntar.

— Então: divertiu-se muito?

Não respondeu. Não havia o que responder. Antes de ir para o trabalho, telefonou a Gerlane da esquina.

— Onde você se meteu? Tentei falar com você a noite toda.

— Fui jantar — disse ela.

— Com quem?

— Mamãe tinha saído, aqui em casa não tinha jantar, eu estava sem dinheiro. E com fome. Alguém tinha de me levar para jantar.

— Espero que você tenha encontrado esse alguém na rua, depois daquela cena patética do carro.

— E você? Estava bom o jantar?

— Eu não fui, cheguei atrasado.

— E sua mulher?

— Sei lá... As coisas não estão boas. Ela já está des­confiada.

O próprio Térsio lhe avisou:

— Convém tomar cuidado com essa história de Gerlane. O que é que você está pretendendo, afinal? Outro dia Anto­nieta andou me perguntando umas coisas sobre ela. Por que você não dorme com a moça de uma vez e acaba com isso?

— Desconfiada por quê? — perguntou Gerlane, irritada: — Não há nada entre nós dois.

— Não posso fazer uma coisa dessas — dizia Eduardo: — E por uma razão muito simples: ela é virgem.

— E daí? — Térsio insistia: — Tem mais de dezoito anos, é o que interessa.

— Se não há nada entre nós dois então por que você disse que não podia passar um minuto mais sem mim?

— Já lhe disse que eu estava com fome — retrucou ela.

— Não posso fazer uma coisa dessas — repetia Eduardo: — Você vê as coisas de maneira diferente, Térsio.

— Diferente por quê? Mulher quando começa assim, não quer outra coisa.

— Eu sou casado — confessou ele.

Térsio perdeu a paciência:

— Ora, entenda-se! Então o que você pretende, afinal?

— Na hora você não disse que estava com fome — insistiu ele: — Você disse que me amava.

— E você acreditou.

— Acreditei porque também te amo. Ou você prefere aca­bar logo com isso?

— Acabe com isso — encerrou Térsio.

— Foi o que eu disse outro dia a ela: acabar logo com isso.

Em vez de acabar, voltava a encontrar-se com ela. Gerlane não sentia o menor constrangimento em ser vista com ele nas confeitarias, nas compras, no cinema.

— No cinema não convém — dizia ele, irresoluto, mas acabava entrando.

Um dia por pouco não esbarraram com Antonieta ao saírem de uma loja do centro. Eduardo se sentia ridículo, carregando embrulhos para ela.

— Não vou mais a esses lugares com você — decidiu ele, com firmeza.

O ponto de encontro mais seguro era o ateliê de Joubert, onde ela continuava indo quase todas as tardes para posar. Um dia, porém, o pintor o surpreendeu com uma notícia:

— Sua mulher esteve aqui hoje.

— Antonieta? Aqui? Fazendo o quê?

— Sei lá. Chegou de surpresa, disse que queria escolher um quadro meu não sei para quê... Passei bons momentos, com medo de você e Gerlane estourarem aqui de uma hora para outra.

Em casa, antes que interpelasse a mulher, ela veio lhe contar:

— Estive hoje no ateliê de Joubert escolhendo um quadro. Seria um bom presente para Maria Lúcia.

— Maria Lúcia? Que Maria Lúcia?

— Você não se lembra mais de nada... Aquela minha ami­ga que vai se casar no sábado.

— Por que não me avisou? Eu escolhia para você.

Eduardo tentava em vão se lembrar quem diabo seria Maria Lúcia.

— Não convém você ficar indo sozinha no ateliê de Jou­bert. Me dissesse.

— Eu te disse. Você não se lembra mais de nada — re­petia ela.

Ele se dizia nervoso, cansado, esgotado, pedia-lhe pa­ciência:

— Daqui a pouco tudo estará bem de novo, por favor, con­fie em mim.

E saía para telefonar a Gerlane, da esquina.

Uma noite Antonieta despertou quando ele entrava — costumava entrar em silêncio no quarto, despir-se no escuro e insinuar-se na cama, furtivo como um ladrão.

— Que horas são? — perguntou ela.

— Duas — mentiu. Eram quase quatro da manhã. Ela levantou-se e foi ao banheiro — por precaução ele atrasou o relógio de pulso e teve de ir à copa, atrasar também o de parede — fazer logo o serviço completo.

— Você está bêbado — disse ela, vendo-o regressar à cama em passos incertos.

— Um pouco. Estive bebendo com Vítor. Me encontrei com ele no bar. Quer por toda lei lançar meu livro na editora dele, me fez uma proposta. Deixa estar que não será má idéia...

— Você está bêbado — repetiu ela.

— Bêbado por quê?

— Você não escreveu livro nenhum.

— Ainda posso escrever, não posso? — retrucou ele, e de súbito ficaram calados no escuro do quarto. Ela se assustou:

— Eduardo — chamou.

Ele não respondeu. Em pouco ressonava pesadamente e Antonieta continuava de olhos abertos para o inevitável.

Em verdade se encontrara com Vítor, mas à tarde, na rua. Vítor estava mais gordo, mais velho, diferente... Não parecia o mesmo.

— Você é que nem parece o mesmo — dissera o outro. — Que aconteceu com você?

— Que está acontecendo conosco? — perguntou-lhe Antonieta um dia.

— Que você está pretendendo, afinal? — lhe perguntava Térsio.

— Que está acontecendo com todo mundo? — ele próprio se perguntava, olhando ao redor sem nenhuma perspectiva. O mundo parecia ter perdido a sua verdadeira configuração, tudo se deformava e se esbatia aos seus olhos, como se ele, reduzido à condição mais insignificante, se agarrasse sôfrego ao que pu­desse tocar com as mãos e perdesse a noção do conjunto. Pen­sava no filho mal concebido como se com ele tivesse perdido a última esperança. Mas esperança de quê? Também se sentia mal concebido e mal conformado para viver, faltava-lhe uma di­mensão para mover-se livremente no mundo, estava preso, tolhi­do, escravizado ao seu destino como um desenho à folha de papel.

O que pretendia? Espere, era preciso crescer primeiro, vol­tar ao tamanho normal, à sua condição de homem, para saber responder a essa pergunta: pretendia, era lógico, viver de acordo com as suas convicções. Mas era tão difícil, a vida tendia ela própria a afrouxar as mais empenhadas decisões do espírito, num permanente convite às acomodações. Vamos com calma: e quais eram mesmo as suas convicções? Errar não tinha importância, desde que não pactuasse com o erro, endossando-o, justificando-o. Não, ele não justificava nada. Errar todo mundo erra — em determinadas circunstâncias todo mundo erra, é natural, é compreensível. O que se dizia ser a parte frágil, o lado humano. E o outro lado? Isso é que os outros não viam, o outro lado. Ser humano, isto é, errar e acei­tar, era o que chamavam experiência, ganhar experiência. Então só faltava erigir dessa oscilação entre o bem e o mal uma nova moral feita ao sabor do acaso, instável como a pró­pria vida, uma ética de ocasião para justificar o erro — não, isso ele não faria. Daí sua conduta, aberta numa dualidade irremediável: de um lado o que ele queria ser e de outro o que ele realmente era. Agora, por exemplo, estava apenas no que realmente era, a ponto de nem saber direito o que queria ser. Onde estivesse aquilo que buscava, e o que quer que fosse, o certo é que tomara o caminho mais longo.

— Você é um maniqueísta em disponibilidade — gracejava Térsio.

— O importante é saber cumprir com o compromisso assumido — repetindo Toledo com alguns anos de atraso.

— Jesuíta! Jesuíta! — gritou-lhe o velho Germano:— Você assim vai mal.

— Desgraçado daquele que vê: há de pagar pelo crime de ter visto pouco.

Monsenhor Tavares, diretor do ginásio, era um jesuíta.

— Isso é um pastiche do Novo Testamento, não quer dizer nada, não resiste! Quer ver? Experimente: desgraçado daquele que ouve: há de pagar pelo crime de ter ouvido pouco. Des­graçado daquele que fala: há de pagar pelo crime de ter fa­lado pouco. Desgraçado daquele que anda, que dorme, que come... Serve para tudo e não serve para nada. Experimente agora com alguma palavra do Cristo, para você ver.

— Jesuíta por quê? — protestou Eduardo: — Eu quis dizer apenas que quem vê as coisas como elas são, há de pagar por não ter visto como elas deviam ser.

— Você não quis dizer nada. Isso é julgar, e quem julga é Deus.

O velho aproximou-se, exaltado, tomou-lhe o copo:

— Hoje você não bebe do meu uísque. Me diga por que Deus gosta mais do filho pródigo, se é capaz.

— Porque voltou.

— Não senhor. E o outro, que nem saiu?

— Então por quê?

— Porque ele era mais simpático, só por isso. Assim deve ser a justiça de Deus: diferente da dos homens, a gente não sabe como é. Deus gosta mais de uns do que de outros e isso não é injustiça não, ouviu? Ele sabe o que faz, tem suas preferenciazinhas. Deus gosta, por exemplo, mais dos poetas, dos mendigos, dos doidos, dos pródigos. E sabe por quê?

— Não — confessou Eduardo.

— Porque o homem é o brinquedo de Deus. Olha, se você continua assim Deus acaba não gostando de você não. A pa­ciência de Deus tem um limite.

Alguém já lhe dissera aquilo — onde e quando, não se lembrava. Atormentava-se, já sem saber por quê — seus encon­tros com Gerlane haviam sido subitamente interrompidos, desde o dia em que Antonieta lhe confessou de surpresa que queria ter outro filho.

— Mas você disse que nunca mais — estranhou ele.

— Mudei de idéia.

Foram para o quarto naquela noite como para o local do sacrifício. Desde então se agarravam silenciosamente à idéia como náufragos, mas sentiam que era inútil, a praia estava perdida, uma corrente irresistível os arrastava cada vez para mais longe. Ela cada vez mais apática, sem uma palavra de queixa ou de censura para com a ausência dele, que a pre­sença agora constante só fazia acentuar. Ele abandonava exausto o corpo da mulher como ao fim de uma batalha e se deixava, devorar pelo escuro e pelo silêncio até adormecer. Seu sono era atormentado, cheio de pesadelos. Dera para sonhar com natação, via-se empenhado em competições difíceis mas nadando sem parar, numa água grossa, viscosa como melado, que lhe impedia os. movimentos — ou então a piscina ia se esvaziando à medida que nadava, acabava se debatendo em seco, ferindo as unhas no cimento do fundo.

Rodrigo, aquele seu companheiro de natação de quem você falava tanto — disse Antonieta.

— Hoje é aviador. O que é que tem ele?

— Diz aqui que ainda não foi encontrado. Todos os outros se salvaram.

Assustado, saltou da cama, tomou-lhe o jornal da mão, leu avidamente. O avião caíra no mar — todos os tripulantes sal­vos, menos o tenente Rodrigo.

— Mas por quê? — perguntava, aflito. — Justamente ele, que sabia nadar!

Passou o resto do dia agoniado, telefonando aos jornais:

— Alguma notícia?

As buscas prosseguiam — aviões da Força Aérea sobrevoavam o local. À noite Eduardo não conseguiu dormir: pensava no companheiro perdido, naquele instante talvez nadando no escuro, na vastidão do mar... Lembrava dele, a procurá-lo no vestiário:

— Olha, você tem de ganhar. Apostei em você...

Não ganhara; como poderia agora contar com o amigo, esperar que ele não falhasse?

— Bem, deixa ver: em longa distância ele era melhor do que eu. Quanto tempo se agüentaria? Naquela época podia nadar horas e horas seguidas, não se cansaria. Mas muitos anos passaram, vai ver que nunca mais voltou a nadar. É ver­dade que numa emergência dessas...

— Com certeza nadou em direção oposta em vez de nadar para terra — e Antonieta procurava acalmá-lo: — Por que não tenta dormir um pouco? Afinal vocês não eram tão ami­gos assim, não se viam há tanto tempo...

— Ora! — e Eduardo andava pelo quarto, irritado: — Um amigo meu está perdido no mar e você me manda dormir? Se eu não pensar nele, quem há de pensar? Não posso fechar os olhos e o vejo nadando a meu lado... Mas ele há de che­gar, não vai fazer isso comigo.

De um jornal lhe avisaram que tinham suspendido as buscas até a manhã seguinte, os aviões haviam regressado às suas bases.

— Estúpidos! Como se ele pudesse ficar esperando até de manhã!

Durante dois dias e duas noites durou sua agonia. Ao terceiro dia deram o tenente por desaparecido e os jornais di­ziam: “O ex-Nadador Morreu Afogado”.

— O radiotelegrafista afirmou que ainda viu Rodrigo nadando ao lado dele. Sujeira, suspenderem as buscas!

Por essa época, ao recortar um artigo seu no jornal de domingo (era mais um artigo sobre “A Arte do Romance”) deu com seu nome no verso do recorte, num trecho da seção de esportes: “...A marca anterior pertencia a Eduardo Marciano, de Minas Gerais...” Então haviam batido o seu récorde!

— Olha aqui, Antonieta: afinal bateram o meu récorde. E por dois segundos! Esse menino deve ser muito bom...

— Só dois segundos? — estranhou ela.

— Você não entende disso — irritou-se. — Levou anos para ser superado. Hoje não sou capaz de nadar duzentos metros...

As ondas se arrebentam com violência, trazendo espuma até seus pés. Vai avançando, enquanto lhe sobe pelas pernas o frio esperado da água que o sol mal chega a tocar de leve, arrancando reflexos. Em pouco se atirará de cabeça e o corpo reagirá num arrepio de protesto, até que se acostume à água, seu elemento, a ela integrado, em movimentos livres, harmo­niosos, completos. É um nadador.

Foi nadador. Esquece-se de que os anos passaram e se distrai, para experimentar, nadando como antigamente, sem medir distâncias, deixando-se levar pelo ritmo fácil das braçadas, largado ao embalo das águas, seduzido pela amplidão envol­vente do verde... Ao longe um navio cruza lentamente a bar­ra. Sob seu corpo, o mistério iridescente do mar.

Ignorante del agua, voy buscando



Una muerte de luz que me consuma...”

Os versos de Garcia Lorca lhe vêm como uma advertência. Em breve está respirando difícil, os braços lhe pesam, o corpo se rebela e o medo o domina, ao sentir a corrente traiçoeira arrastá-lo. Agora pode compreender por que Rodrigo não se salvou. Nada com força para a praia já distante, deixa em pânico que uma onda mais poderosa o empolgue como um objeto largado e afinal se vê, ofegante e trôpego, em areia firme. Recebe ainda uma última lambada de espuma nas per­nas, despedida irônica do mar, e vem redimir-se da imprudência cá fora, a um sol esquivo, sob cuja luz raros banhistas mais precavidos se aquecem.

— Telefonei para sua casa, Antonieta me disse que você tinha vindo à praia. Que idéia é essa?

Térsio senta-se a seu lado, enquanto ele estende preguiçosamente na areia o corpo esguio, branco, ascético.

— Não agüento nadar nem duzentos metros. Meu récorde foi batido. Você leu meu artigo de domingo?

— Li.


— Que tal?

— Bom.


— Estou pensando em abrir com esse artigo um livro sobre o romance — e, animado, começou a inventar: — “As Tenta­ções da Facilidade” seria um dos temas: imposições de fim de capítulo, descrição dos personagens, etc.. ‘“A Reabilita­ção do Lugar-Comum” seria outro; outro ainda sobre a téc­nica, propriamente: o corte, a interseção de diálogos, contra­ponto, etc..

— Por que você em vez de ficar escrevendo sobre roman­ce, não escreve logo um romance?

Magoado, Eduardo retrucou:

— E você, por que em vez de se dizer poeta, não publica logo um livro de poemas?

— Eu não me digo poeta: eu me digo jornalista.

Calaram-se ambos, voltados para o mar. Ondas furiosas rebentavam, espumando. Agora já não havia mais ninguém na praia, além deles dois. Deviam ser mais de cinco horas da tarde. Viram aproximar-se um banhista baixo e gordo, aban­donar a toalha na areia e aventurar-se ao mar. Eles mal ousa­vam molhar os pés.

— Aquele gordinho está meio afoito — comentou Térsio.

— Ainda há pouco eu quase me afoguei.

— O mar não está para brincadeira.

— Não está não.

Os dois ficaram calados e graves, olhando o banhista.

— Vamos embora? — sugeriu Eduardo, afinal.

— Vamos — respondeu Térsio.

Apanharam as camisas e saíram da praia sem olhar para trás. Na areia ficou a toalha abandonada. Escurecia rapida­mente, em breve seria noite.

Se ele se afogar, não tenho culpa — pensava Eduardo, aliviado. Afinal de contas não sou palmatória do mundo, sou? Rodrigo era um grande nadador e morreu afogado. Térsio nunca mais escreveu um poema e se diz poeta. Acaso serei insensível como um poste, reto, duro, seco e inexpugnável? Também não sou feito de carne e osso, para sofrer ou gozar, acertar ou errar? Também não sou frágil? Também? Quer dizer que eu tendo uma força, isto é, tendo sido por exemplo campeão de natação, tenho de salvar o afogado ou morrer com ele. Acreditando numa coisa mas fazendo outra, tenho de al­terar o mundo para que ele passe a funcionar segundo a minha maneira de ser — por que não alterar a minha maneira de ser? Resolveu conversar com Germano, teve a surpresa de saber que o velho se mudara.

— Sabe que o Germano se mudou? Alugou a casa e foi para um hotel na cidade.

— É? — e Antonieta não deu maior importância à notícia.

— O que teria havido? — insistiu.

— Como é que eu posso saber?

— Assim sem me avisar, sem nada.

— Avisar como? Você não pára em casa.

— Podia ter avisado a você — e Eduardo prudentemente evitou a discussão: — Você não fica em casa o dia todo?

— Com certeza se cansou daqui — Antonieta afinal resolveu encontrar uma explicação: — Morar numa casa, sozinho daquela maneira! No Pálace ele fica mais à vontade.

Eduardo concordou — mas logo a olhou com estranheza:

— Como é que você sabe que ele foi para o Pálace? Me disseram só que se mudou para um hotel...

— Ora, Eduardo, não seja idiota.

— O quê? — disse ele, surpreendido com a reação da mulher. — Idiota por quê?

— Ele vivia dizendo que gostaria de morar no Hotel Pálace.

— Nunca me disse nada.

— Disse a mim.

Eduardo ficou pensativo, mudou de tom:

— Por causa disso não precisa me chamar de idiota. Você anda nervosa, irritada com qualquer coisa...

— Tenho motivos para andar irritada.

O que ele queria mesmo com o velho Germano? Ah, sim — conversar sobre as suas idéias, qualquer coisa sobre o mun­do e a sua maneira de ser. Mas o que, precisamente? Qual era o problema? Gertrude Stein, agonizante, dissera: “Qual é a resposta?” E pouco depois, ao morrer: “Qual é a questão?” Foram suas últimas palavras. Ser ou não ser, that is the question. O problema é o seguinte: Não há problema! Resolveu escrever um artigo sobre Gertrude Stein.

Seus artigos. Eternamente se preparando para tornar-se escritor, eternamente começando, em pouco seria tarde, não mais teria direito de escrever asneiras, teria de começar com uma obra-prima. Não depois que lera “Guerra e Paz”. Jamais ne­nhum romancista seria capaz de escrever algo de mais com­pleto, e no entanto ninguém deveria ambicionar menos. A literatura se dividia em duas partes: antes e depois de “Guerra e Paz”. Isso era fácil de dizer, tudo na vida se dividia em antes e depois; antes e depois de casar, antes e depois de amar, antes e depois de escrever. A própria literatura: antes e depois de Proust, de Kafka, de Joyce... Para um escritor o impor­tante não era antes nem depois, mas durante. Colocar-se na­quela postura de quem vai escrever — eis tudo, o resto era fácil. Quando iria ele. afinal, levar sua vocação a sério, começar?

Resolveu escrever um artigo sobre “Guerra e Paz”.

— Estou dirigindo uma editora — lhe dissera Vítor: — Faço questão de lançar um livro seu.

Livro sobre o quê? Para quê? Só sabia escrever sobre a arte de escrever — o que também era uma arte. Acabaria es­crevendo sobre a arte de escrever sobre a arte de escrever — e assim indefinidamente, enfiando-se na sua obstinação como um escravo entre dois espelhos, até o último andar da torre onde o haviam aprisionado. Esta não o levaria ao céu, pelo contrário, fixava-o ao chão, para sempre. Cada vez se tornava mais penoso escrever ou mesmo ler o que quer que fosse, a não ser aquilo que o ajudasse a entender-se, a configurar seus limites e aptidões... Encontrou em Valéry preocupação igual: “Esta doença secreta nos priva das letras, apesar de estar nelas a sua fonte...” Mas não chegou a pensar em escrever um artigo sobre Valéry.

— Não é possível que eu só tenha defeitos — reagiu: — Devo ter algumas qualidades também.

Esta talvez fosse a primeira — aceitar a existência de seus defeitos. Portanto:

— Não exagerar as qualidades e sim corrigir os defeitos.

— O perigo do virtuosismo!

— A ubiqüidade é impraticável.

— Não cruzar a ponte antes de atingi-la.

— Calma! O espetáculo começa quando você chega.

Estava, assim, armado para viver? Não, estava se armando como quem vai enfrentar a morte. Nascemos para morrer. Isso também não queria dizer nada! Germano tinha razão. Senão, vejamos: nascemos para morrer. Morremos para nascer. Dá na mesma. Muero porque no muero. Nascemos para viver e morrer — vamos ser lógicos, meu filho, nosso nascimento é fruto de um momento de fraqueza de nossos pais. Vivemos por displicência e morremos por exaustão, cansados de nos agarrarmos a fórmulas de viver para não nos afogarmos. Ro­drigo, por exemplo, se afogou apesar de tudo. Pela primeira vez pensou na morte como solução. Solução de que, se não havia problema? Um dia ia abrir a boca na sua roda costu­meira no bar da cidade, para dizer uma coisa, viu que não tinha nada a dizer, não chegou a abrir a boca. Vasculhou-se interiormente, não encontrou nada; nem uma idéia, um pen­samento aproveitável. Estava vazio, literalmente vazio, nada interessava, nada tinha importância.

— Eu acabei completamente! — descobriu, abismado.

Suicidar-se, resolução afirmativa. Pronto, estava criado o problema. Tinha dali por diante de sustentar uma resolução negativa, a de não se suicidar. Finalmente o círculo vicioso o aprisionava: sua razão de viver era esta — não morrer.

— Você precisa tomar cuidado — dizia Térsio, apreensivo. — Neurastenia não é brincadeira. Se você começar a ficar triste sem razão, abra o olho, melhor procurar um médico. Principalmente se sentir vontade de chorar sem motivo...

— E com motivo, pode?

Térsio ergueu os ombros.

— Bem, com motivo é diferente.

Então ele se pôs inesperadamente a chorar. Não confessava o motivo nem a si mesmo: Gerlane? Não. Gerlane ficara para trás — já não se encontrava com ela, já não tinha de mentir em casa, já podia dizer tranqüilamente, sem remorso, que ficara na rua com um amigo até tarde. Os mais avisados diziam que se um homem fica na rua é porque alguma coisa está errada em casa. O que estaria errado na sua?

O corpo de um afogado deu à praia. O do aviador conti­nuava desaparecido.

De errado não havia nada, propriamente — e isso é que o intrigava: não tinha de que se queixar. Seria natural que Antonieta é que se queixasse, censurando-o pela irregularida­de de sua vida — ou ao menos procurasse saber o que havia com ele. A princípio ela dava a entender em meias respostas que se ressentia — ultimamente nem isso.

— Você ainda gostaria de ter um filho? — perguntou-lhe um dia, de surpresa.

— Agora é tarde — respondeu ela e não lhe deu mais explicações. Evitava-o quanto podia, o que não era difícil. Ele aos poucos deixara de procurá-la e dormiam em horas desencontradas. Quando telefonava da rua para avisar que não iria jantar, ela nada dizia — mesmo quando se esqueceu de tele­fonar, ela não reclamou. Uma noite, depois de avisar que não iria, mudou de idéia: num inesperado movimento de ternura pela mulher, que a ele próprio surpreendeu, decidiu voltar cedo, levá-la a um cinema. Não a encontrou. Esperou até onze horas da noite.

— Posso saber onde você estava? — perguntou-lhe apenas, num tom deliberadamente neutro, quando ela finalmente che­gou. Deixara-se ficar na poltrona, um livro na mão, fingin­do ler.

— Se lhe interessa.

— É claro que interessa.

— Você não disse que não vinha jantar?

— Disse.


— Que eu não esperasse?

— Disse. E daí?

— Resolvi não esperar mesmo. Fui jantar em casa de papai. Há algum mal nisso?

— Não, nenhum — suspirou ele, largando o livro: — Só que você podia ter voltado mais cedo.

— Depois do jantar fui ao cinema.

— Com quem?

— Sozinha.

— Não fica bem você ir ao cinema sozinha, pelo menos à noite.

— Não tenho quem me leve.

— Você pode achar graça, mas hoje eu tinha justamente a intenção de te levar. Que filme você viu?

— É um interrogatório?

— Não. Curiosidade. Não precisa reagir como se eu esti­vesse desconfiando de você.

— Pois parece.

— Não está no meu temperamento.

— Então não se queixe.

— Não estou me queixando.

— E eu posso saber por que você veio cedo? Que milagre é esse?

— Estou com fome — disse ele, sem responder. — Não jantei até agora. Vou sair para comer qualquer coisa.

Milagre? Sim, parecia viver à espera de um milagre. Havia alguma coisa de errado, sim, de fundamentalmente errado, sim. Se descobrisse o que era, estaria salvo.

Ao chegar, sem sono ainda, ia para o escritório. Ficava tentando ler ou escrever, mas não lia nem escrevia nada. Mesmo seus artigos semanais, cada vez menores, lhe saíam penosos, difíceis: as idéias, sopradas de alguma parte de sua mente, não chegavam a impressionar a consciência, não se traduziam em palavras e permaneciam difusas, feitas em estados de es­pírito. Depois ia dormir, despindo-se no escuro para não acor­dar a mulher. Às vezes fazia chá e o tomava na sala com todos os requintes, como num secreto ritual da solidão.

Por que ela o evitava? Era evidente que o evitava. Mesmo quando ele só para experimentar a procurava, ela se confor­mava em aceitá-lo apenas como quem rende o corpo a um sacrifício necessário e inevitável. E no princípio fora tão dife­rente — quando se sentiam integrados um no outro, comple­tados, perfeitos.

— É tarde por quê? — perguntou ele.

— O quê?

— O filho.

— Ora... — e ela se afastou sem dizer mais nada.

Que significava o casamento para ela? — pensava então, irritado. A gente se casa é para isso mesmo: ter filhos e tocar o barco para a frente. Constituir uma família. Quem não pensar assim que não se case.

E ele próprio? Afinal, que fizera de seu casamento senão um campo aberto às acomodações, e a todas as transigências, ludibriando, burlando a vigilância de Deus?

— Mas escuta aqui, Eduardo Marciano, você acredita mes­mo em Deus? — ele se interrogava ao espelho, fazendo care­tas. Ou quem sabe acreditava apenas em certos preceitos, certas regras de conduta que não chegava sequer a praticar, certos ensinamentos recolhidos e conservados como as roupas de alguém que já morreu?

Basta de interrogações. Sim, acreditava em Deus, mas um Deus longínquo, esquecido, distraído, voltado para outras preocupações, que não o seu mesquinho problema de apren­der a viver. Ou de não ter problemas. Não pensar mais nisso, pois. Às vezes, quando Antonieta já estava dormindo, não resistia e tornava a sair. Ia a um bar qualquer, beber um pouco mais em companhia de algum conhecido da madrugada até que o sono viesse. Conhecidos é que não faltavam. Ha­via os antigos freqüentadores do bar, perdidos como ele pela noite à procura de esquecimento ou convívio — quando não os encontrava, fazia relações com o primeiro que aparecesse. Uma noite, já bêbado, seguiu com um desses até uma casa de mulheres, deitou-se com uma delas. No dia seguinte nem se lembraria o que chegou a fazer com ela, mas no momento em que entrou novamente na intimidade de seu quarto que cheirava a tranqüilidade e sono, o sono de sua mulher, teve vergonha de si mesmo, teve remorso, deixou-se cair de joelhos junto à cama, começou a chorar. Antonieta acordou sobres­saltada.

— O que foi? Você está doente?

Espantou-se ao vê-lo assim todo vestido:

— Você vai sair? Por que está chorando?

— Por causa de meu pai — soluçou ele, sem erguer a ca­beça. Ela chegou a sorrir, passou a mão pelos seus cabelos:

— Seu pai já morreu há tanto tempo...

— Mas só agora eu estou sentindo. Ele era tão bom para mim, Antonieta.

Em verdade, passara sem transição a chorar a morte do pai.

— Você saiu e andou bebendo. Está cheirando a uísque. Vem dormir que já é tarde.

— Não! Vou ler um pouco.

Foi dormir no escritório, porque naquela noite não queria se aproximar de Antonieta.

Abriu a carta com sofreguidão pensando ser de Hugo ou Mauro, lembranças de um tempo morto. Era do Veiga: “Que­ria uma reportagem sobre o momento político. Coisa viva, movimentada, inteligente, como só você saberia fazer”.

— Vou fazer uma reportagem política. Talvez seu pai pos­sa me ajudar.

Tentava amparar-se num entusiasmo de ocasião: coisa viva, movimentada, inteligente, só ele saberia fazer — Veiga tinha razão. Ficou um pouco desconfiado: por que ele teria se lem­brado justamente de mim? Já não publicava mais nada — o jornal cortara seus artigos semanais por falta de espaço. E desde estudante não escrevia sobre política. O Amorim, por exemplo, seria muito mais indicado: entendia do assunto, tam­bém era mineiro, também trabalhara com o Veiga... Não lhe agradava a idéia de visitar o ex-ministro especialmente para isso. Era-lhe penoso enfrentar a roda de políticos que o cer­cava — bajuladores, aproveitadores eventuais, trocavam de idéia e de convicções como quem troca de camisa, segundo as conveniências do momento. Ele, pelo menos, ainda acredi­tava numas tantas coisas.

— São uns vendidos — concluiu, no mesmo tom de Mauro, antigamente.

Desta vez, porém, iria procurá-lo como jornalista — afinal de contas, era um escritor, um profissional, a quem uma mis­são fora confiada. Como só ele saberia fazer. Sabia outrora fazer artigos desafiando a censura, atacando o governo, exi­gindo democracia. Onde ficara tudo aquilo? Ali talvez esti­vesse a oportunidade para recomeçar algo de útil, voltar a escrever, influindo, participando. Movimentada, inteligente. Quanto mais gente lá estivesse, melhor. Conversaria com um e outro, contaria tudo que ouvisse.

Não durou muito o entusiasmo: teve a surpresa de encon­trar o velho sozinho, sentado na varanda, e desde o primeiro instante o calor e a simpatia com que foi recebido neutrali­zaram sua agressiva disposição de escrever fosse o que fosse.

— Reportagem? Mas como você anda fora do mundo! Já não tenho mais nada com isso, meu filho, Deus me livre de política. Desde que deixei o ministério não me meti mais. Aceitei ser ministro apenas para servir à minha pátria. E ser­vir ao presidente, meu amigo pessoal. Mas agora o presidente é outro... As coisas não andam nada boas, meu rapaz. Aqui, tome alguma coisa. Já soube que você gosta de um uísque.

Segurou-o pelo braço, levou-o à sala:

— A política só me deu aborrecimento. Fiz os maiores sa­crifícios e nem reconhecem. Almoçava apenas uma vez por dia! Quero dizer, não tinha tempo nem de almoçar. Não en­tendo a orientação desse governo. Ainda agora estão dizendo que vão pedir uma comissão de inquérito contra mim. Ima­gine! Dizem que isso é coisa do Sousa, aquele menino que foi eleito deputado. Logo o Sousa, não saía de minha casa! Não acredito que o Sousa seja capaz de uma coisa dessas. Algum inimigo meu, na certa.

— Na certa — repetiu Eduardo, para dizer alguma coisa. Nem sabia quem era o Sousa. Mas o homem não conversava, estava pensando em voz alta:

— E se a imprensa souber disso, adeus meu sossego. Aí é que a comissão sai mesmo. Aliás, nada tenho a temer. Minha consciência está tranqüila. Sempre procurei cumprir meu de­ver. Mas então você quer fazer uma reportagem? Quem sabe o Marques não poderia ajudá-lo? Dizem que ele vai ser líder da maioria. Espera, vamos ver se o Marques está em casa. Aqui, tome outro. Sirva-se à vontade.

Foi ao telefone e discou um número. Onde aquele ministro desempenado e seguro de si que o tomava pelo braço e dizia “me conte tudo sobre a morte da meretriz”? O Marques não estava em casa.

— Fica para outra vez — disse Eduardo, se erguendo.

— Espere, espere! — e o homem o reteve acaloradamente: — Ainda é cedo! Você não contou nada. Então, como vão as coisas? Como vão as letras?

Forçou Eduardo a sentar-se de novo, terminar o seu uísque.

— Vocês andam sumidos, não aparecem!

Parecia buscar mentalmente um assunto que interessasse o genro, como se temesse ficar só. Num inesperado movimento de simpatia, Eduardo pensou em convidá-lo a sair, dar uma volta.

— O senhor é que nunca nos visita — arriscou apenas.

— Não saio mais, a não ser para ir à igreja. Às vezes vou a um cinema...

Eduardo o olhou, surpreendido: jamais imaginara que aquele homem fosse de igreja.

— Busquei o consolo da religião. A política me absorveu, mas desde que perdi minha mulher me sinto muito só. Depois minha filha se casou... Mas vocês apareçam de vez em quan­do! Ela nunca mais esteve aqui.

— Outro dia mesmo ela veio jantar com o senhor.

Saiu dali deprimido, as idéias embaralhadas. Era cedo ainda e a perspectiva de encontrar Antonieta lhe pareceu de súbito insuportável. Já não tinha o que lhe dizer e precisava isolar-se, tomar mais um uísque, aguardar os acontecimentos, aguardar o inimigo.

— As coisas não vão nada boas, meu rapaz — repetia mentalmente as palavras do sogro.

No bar, inesperadamente: Amorim, bebendo sozinho junto ao balcão.

— Você está parecendo um fantasma! — espantou-se o outro.

Pensou em escusar-se e sair: passara ali só por acaso, tinha alguém à sua espera... Era tarde, porém. Amorim o forçava a sentar-se, pedia um uísque para ele.

— Onde é que você se meteu?

— Por aí...

— Imagine que eu estava aqui pensando justamente em você. Como vai indo Gerlane?

— Nunca mais vi.

— Estava pensando em telefonar a ela, chamá-la para to­mar qualquer coisinha comigo, imaginei que você...

— Não temos nada um com o outro, quem lhe disse isso?

— Bem, eu pensei...

Para fugir à lembrança de Gerlane, Eduardo lhe contou que vinha da casa do ex-ministro, referiu-se à comissão de inqué­rito:

— Ele está preocupado, mas disse que não tem nada a temer. Isso é coisa do Sousa, aquele deputado.

Mostrar-se a par da situação política: revelar que se interessava por tudo, sabia o que pensar. Amorim agora era comentarista político num jornal.

— Mas veja lá, hein? isso não é para publicar. O Veiga me encomendou uma reportagem sobre a situação, mas, franca­mente, as coisas não vão nada boas: só se fosse para descer o pau. E isso não interessa ao Veiga...

Amorim lhe disse que estava pensando em fundar um jornal:

— Um jornal nas próximas eleições, bem orientado, toma conta deste país. O homem vai voltar, você escuta o que es­tou lhe dizendo.

— O que você chama de bem orientado?

Foi para casa cansado de política, cansado de Amorim, cansado mesmo de beber — era inútil: sentia-se cada vez mais lúcido, senhor de cada um dos detalhes da vida, só lhe fal­tando uma visão do conjunto. Antonieta ainda acordada, a esperá-lo:

— Então, fez a reportagem?

— Antonieta — e sentou-se na cama, estudando a melhor maneira de dizer: — Seu pai se queixou muito, dizendo que você nunca mais foi visitá-lo. Você não disse que outro dia jantou lá?

— Tenho culpa se ele nunca pára em casa? Sempre que vou lá ele não está. Outro dia jantei sozinha, porque ele não apareceu.

— Isso você não me contou.

— Você não me perguntou.

— Ele disse que não tem saído ultimamente — experimen­tou ainda.

— Só se ultimamente. Mas e a reportagem?

Ele passou a mão pelo rosto, exausto:

— Estive com o Amorim...

Na manhã seguinte ela veio acordá-lo:

— O que você andou dizendo ao Amorim? Papai telefonou muito aborrecido com você.

— O quê? Aborrecido comigo?

Mandou comprar o jornal: num dos tópicos do Amorim, o que lhe dissera sobre o ex-ministro.

— Aquele canalha. Foi só eu pedir que não publicasse, saiu dali e foi escrever. Mas ele vai ver comigo.

Somente à noite conseguiu se comunicar com o jornalista, pelo telefone:

— Você não tem caráter, Amorim. Bastou dizer que não publicasse.

— Mas aquilo não tinha a menor importância! — se es­cusava o outro. — Na redação todo mundo já sabia.

— Não tenho nada com isso. Eu disse que não pu­blicasse.

— Mas você não entende! Não era novidade nenhuma, segredo nenhum. A comissão de inquérito foi pedida hoje!

— Eu disse que não publicasse! — repetiu Eduardo, enfurecido. O outro estourou, afinal:

— Você não manda em mim, ora essa! Publico o que eu quiser.

— Porque você não tem caráter.

— Não facilita comigo não, Eduardo.

— Vá ameaçar sua mãe.

— Não facilita não — repetiu o outro.

Desligou o telefone num terrível estado de nervos. Mal po­dia conter-se. Antonieta o espreitava, alarmada:

— Também não fique assim! Afinal de contas, vocês são amigos.

— Amigos uma ova. Não sei por que acabei convivendo com um sujeito desses. Cafajeste, ordinário. Em Belo Horizonte era repórter de polícia. Você já viu gente da polícia prestar?

— Mas se todo mundo já sabia.

— Ainda por cima você dá razão a ele.

Então Antonieta inesperadamente lhe propôs que esquecessem o incidente e fossem dormir.

— A essa hora? — espantou-se. — Ainda é cedo...

Ela baixou os olhos.

— Não. Vou trabalhar um pouco.

Foi para o escritório, mas acabou desistindo ao fim de meia hora: não conseguia ler nem escrever. Rendeu-se, afinal — e encontrou Antonieta à sua espera.

Neusa era a vizinha. Tinha dezessete anos, se fizera amiga de Antonieta, costumava aparecer de short, entrava pela porta da cozinha, andava desenvoltamente pelos quartos. Às vezes invadia o escritório, dava com Eduardo sentado diante da máquina:

— “Genius at work” — gracejava, acomodando-se na extremidade da mesa, em frente a ele. Mauro e Hugo vinham surpreendê-lo em meio ao seu romance, fazia tanto tempo. Agora não tinha Mauro, nem Hugo, nem romance. Neusa viva, sau­dável, inquietante. Um dia foi esticar a mão para apanhar um papel, sem querer deslizou os dedos pelas coxas dela. A me­nina não se incomodou, fez que não viu. Desde então sua pre­sença passou a ser um suplício:

— Isso é uma loucura — censurava-se ele, revoltado.

Não resistia, inventava pretextos para retê-la no escritório, longe de Antonieta. Num sábado à tarde atirou todos os livros da estante no chão, chamou Neusa para ajudá-lo a arrumar:

— Fui mexer na estante, ela caiu.

E ficaram os dois, pretensamente atarefados em recolher os livros, mas na verdade se encostando um no outro enquanto amparavam a estante, e se ela abria um livro, fingindo ler, ele se debruçava sobre seu ombro, colando-se a seu corpo, fingindo ler também. Ficava alucinado de desejo, temendo descontrolar-se — o escândalo que seria! Mais de uma vez deixou-a e foi trancar-se no banheiro, antes que fosse tarde, usando Neusa na imaginação: era uma espécie de defesa, me­dida de precaução — dos males o menor. Depois se arrepen­dia como antigamente, sentia remorso:

— Tem cabimento isso, rapaz? — incriminava-se, com dureza: — Na sua idade!

Mas acabava repetindo Mauro, amortecendo a consciência no reconhecimento de que, justamente por não ser criança, não devia ter mais preconceitos — encarar tudo com naturalidade.

Neusa e sua pele jovem, macia, à mostra na roupa exígua. Saberia o perigo a que se expunha? Por que o procurava com tanta insistência, por que dissimulava?

— Ela está percebendo tudo, a safadinha — excitava-se ele.

Uma tarde em que Antonieta havia saído para a costureira, pediu a Neusa que o ajudasse a trocar a lâmpada do escritó­rio, que se havia queimado. Pôs a mesa sob o lustre. Vestia apenas um pijama fino e a lâmpada nem queimada estava.

— Não alcanço. Só se eu carregar você.

— Olha que nós dois caímos. Você me agüenta?

Neusa subiu na mesa, deixou que ele a erguesse, seguran­do-a fortemente pelas coxas. Ela estava de short, e procurava desatarraxar a lâmpada, enquanto a mão de Eduardo tocava-lhe a pele entre as pernas, o rosto apertava-lhe o ventre, e as narinas, ofegantes, buscavam o sexo. Deixou que ela escorre­gasse entre seus braços e todo o corpo dele tremia, mal se mantinha de pé, por pouco não tombaram ao chão. Assim, um instante: ela também tremia, abraçada a ele, a lâmpada mal segura na mão. Eduardo não resistiu mais e estremecia já, num espasmo final, comprimindo o próprio sexo contra o dela.

— Cuidado, nós caímos — murmurou a moça aos seus ouvidos, e fechou os olhos. A lâmpada tombou ao chão e explodiu.

Naquela mesma tarde Eduardo lhe pediu que não viesse mais à sua casa:

— Espero que você compreenda por quê — disse apenas.

Antonieta estranhava a ausência da moça.

— Não quero que essa menina fique por aí, tomando intimidade conosco.

— Por quê? Ela é tão boazinha.

— Não quero. Você parece que não pensa as coisas.

Ela parecia que não pensava as coisas. Ou talvez nem se importasse. Mas agora as relações entre ambos iam ficando inesperadamente acomodadas, o convívio se fazia mais fácil:

— Hoje vamos ao cinema — anunciava ele, depois do jan­tar, e ela chegava a sorrir. Voltavam a sair juntos, iam ao ci­nema, visitavam o pai de Antonieta.

— Sabe, Eduardo? — dizia ele: — Gostaria de montar um escritório de advocacia. Você viria trabalhar comigo...

A promessa feita ao pai, jamais cumprida.

— Pensei que o senhor tivesse se zangado comigo por causa daquela noticia.

— Qual, bobagem — protestou o homem: — você viu? Não apuraram nada contra a minha administração. Política é isso mesmo... Enfim, só tenho de prestar contas a Deus, a mais ninguém.

Ficava sentado na varanda, sozinho, triste porque os dois logo se despediam:

— Voltem amanhã, sim? Por que não vêm almoçar comigo?

— Sabe de uma coisa? — dizia Eduardo, a sós com ela. — Seu pai afinal de contas é um bom sujeito, não tem dúvida. É pena ter-se metido em política. Ficou tão amargurado... Não sei quem, acho que foi Guardini — aquele livro que eu es­tava lendo, sabe? — que disse: “o homem que quer justiça tem de colocar-se em nível superior ao da simples justiça”. Pois bem: isso serve para tudo. O homem que quer fazer polí­tica, tem de se colocar em nível superior ao da simples polí­tica. Você veja, por exemplo, o problema do romance...

— Eduardo... — interrompeu ela.

— O quê?


— Até quando vai durar isso?

— Isso o quê? — estranhou ele.

Ela não respondeu. Foram para casa pensativos, mas se juntassem todos os seus pensamentos, talvez não formassem com eles uma só idéia, senão a de que já não obedeciam mais à própria vontade, mas cumpriam como autômatos o ritual de um destino certo. Um dia ele encontrou Lêda, mulher do Amorim, num ônibus a caminho da cidade.

— Eduardo, há quanto tempo!

Estava mais velha, acabada. Eduardo não sabia o que dizer; mal a reconhecia — aquele rosto sem pintura, aqueles lábios outrora vivos e frescos, que ele num momento de loucura ousara beijar.

— Você também anda sumida — experimentou.

— Continuo morando em Niterói. E você, como vai indo? Que há com você?

— Comigo? Nada. Por quê?

— Não sei, você está tão... diferente... Tenho ouvido coisas.

— Fala-se muito — gracejou ele.

— E Antonieta?

— Vai bem — e olhou-a, intrigado.

— Não sei, Eduardo, vocês dois me preocupam tanto... Não gostaria que acontecesse com vocês o que aconteceu co­nosco. Lembra-se daquele tempo?

— O que aconteceu com vocês?

Ela sorriu tristemente:

— O que aconteceu conosco... Você tem visto Amorim?

— Estive com ele outro dia.

— E Antonieta? — insistiu ela. — Nunca mais estivemos juntas. Um dia destes a vi numa confeitaria com um senhor de idade — nem me reconheceu, parece.

Ele não respondeu. Na mesma noite, porém, perguntou a Antonieta:

— Com quem você foi a uma confeitaria num dia destes?

— Confeitaria? Eu?

— Estive com Lêda, ela me contou. Disse que te viu com um senhor de idade.

— Ah! — e ela se moveu pelo quarto, despreocupada: — Deve ter sido papai. Me encontrei com ele na cidade, fomos tomar chá.

— Isso também você não me contou.

— Por que haveria de contar? Você não me perguntou.

— Estou perguntando agora.

— Então pergunte — desafiou ela: — O que você está querendo saber?

Ele respirou fundo.

— Onde está morando o Germano, por exemplo. Gostaria de procurá-lo.

— Isso você já me perguntou.

— E você disse que era no Hotel Pálace.

— Então procure no Hotel Pálace. Mais alguma coisa?

— Antonieta, eu... — e não pôde prosseguir. A voz lhe faltava, um soluço atravessou-lhe a garganta. As coisas per­diam o sentido, a realidade lhe escapava, e era preciso uma verdade qualquer, uma verdade concreta, acessível e sem mis­térios a que se agarrar, para não ser tragado.

— Eu não agüento mais, Antonieta — disse ele, com esfor­ço, passando a mão pelo rosto num gesto de cansaço.

— Não precisa ficar assim. Descansa um pouco. Amanhã nós conversamos sobre isso.

— É preciso que você me ajude.

— Sinto muito, mas não posso fazer nada por você.

— Então eu estou perdido, eu estou perdido — e ele escondeu o rosto nas mãos. — Não sei mais nada, não conto com mais ninguém...

— Amanhã nós conversamos — repetiu ela.

— Você promete? — ele pediu, submisso.

— Amanhã você saberá de tudo.

— Amanhã talvez seja tarde...

— Não é não — encerrou ela, absorta, e acrescentou, olhando o relógio: — Já é tarde, eu vou dormir.

— Sempre é tarde. Sempre é tarde — dizia ele para si mesmo, já sozinho no escritório, cercado de fantasmas. E entregou-se a uma de suas crises de choro, a mais longa e violenta, que durou quase toda a noite. A manhã veio encontrá-lo ador­mecido na poltrona.



Teve a surpresa de dar com o velho hotel fechado aos hós­pedes, pronto para demolição. Pelo aspecto todos já se haviam mudado. Restava apenas um porteiro de vigia no prédio abandonado.

— Não há mais ninguém morando aqui? — perguntou.

Encontrou o velho sozinho num quarto do hotel vazio — pareceu-lhe extremamente agitado.

— Mas já não há ninguém morando aqui — disse-lhe Eduardo, perplexo.

— Por que você insiste em me procurar? — e Germano andava de um lado para outro, num roupão usado. Tomava longos goles de uísque, servindo-se da garrafa sobre a mesa. Não parecia seguro de si, sua voz se alterava, devia estar bêbado. — Me deixe sozinho no meu canto, pelo amor de Deus, vá embora.

— Antonieta — disse Eduardo apenas.

— Converse com ela e não comigo.

— Não há mais conversa possível entre nós dois.

— Nunca houve. Você nem sequer a conhece.

— Pois então? — e Eduardo sentou-se na cama.

— Pois então converse sozinho, mas não comigo. O que você quer de mim?

O velho sentou-se a seu lado, sem olhá-lo, sacudiu a cabeça:

— Não tenho nada a lhe dizer. Você jamais saberá nada, você não é capaz de saber coisa nenhuma desta vida.

— Por quê?

— Porque você se julga dono de seu destino, e ninguém é dono de coisa nenhuma neste mundo. Eu por acaso sou dono do meu? Não faço coisas que por si já são destinos? Ninguém conhece ninguém, nem a si mesmo, a cada passo nos surpreendemos, nos desmentimos, negamos o que um minuto antes nos pareceu a última das verdades. Olhe, só há uma verdade essencial, e essa a gente gasta a vida toda procurando, quando ela está montada no nosso ombro como uma cruz. Só um cego é que não vê. Eu estou morando sozinha neste hotel: todos os hóspedes já foram embora, só eu fiquei, pedi que me dei­xassem mais uma semana, só preciso de uma semana. Pois aqui estou eu, e os ratos. Há ratos por todo lado — às vezes pas­seio pelos corredores vazios, entro num quarto e noutro, tudo vazio, parece um navio abandonado, vai afundar. De noite fico quieto aqui no meu canto, não há luz, desligaram tudo, breve começam a demolir. Vejo até morcegos nos beirais do telhado, onde antigamente moravam pombas. O prédio estala e geme de velhice, parece que vai morrer...

— Por que não se muda? — perguntou Eduardo, impressionado.

— Para onde? Para quê? Estou cansado...

E o velho se estendeu na cama, prostrado. Em pouco ressonava pesadamente, a boca aberta, exalando álcool, o peito magro arfando. Eduardo o olhou durante algum tempo — tentando decifrar o enigma que era a máscara de um homem. Cobriu-o com a colcha, antes de sair. À porta perguntou ao vigia:

— Não seria melhor que vocês mudassem o velho logo de uma vez?

Escurecia sobre a cidade. Em vez de ir para casa, tomou insensivelmente o caminho do bar. Precisava beber alguma coisa, que já não se agüentava de aflição. Encontrou Térsio em companhia de dois ou três conhecidos — um deles Ara­gão, o aviador:

— Lembra do Rodrigo, aquele amigo seu? Foi encontrado.

— Encontrado? — saltou Eduardo.

— Retiraram afinal o avião do mar, o corpo estava preso na cabine. Ele ficou enganchado, não conseguiu sair.

— Mas o telegrafista disse que o viu nadando! — protes­tou Eduardo. — Na época do desastre todos os jornais...

— Foi engano: afundou com o avião, não chegou a nadar. Então Rodrigo não chegara a nadar. Inútil e sem sentido o sofrimento de dois dias e duas noites seguidas, o compa­nheiro perdido na imensidão do oceano, enfrentando a fúria das ondas, nadando, sempre nadando, como antigamente a seu lado... Já estava morto, afogado dentro do próprio avião, nem ao menos chegara a nadar. Sentiu certo alívio ao desco­brir que há sofrimentos inúteis também, gratuitos, imaginá­rios, cuja causa já se extinguiu como a da luz de uma estrela, ou que nem sequer chegou a existir. Em casa contou quase jovialmente a Antonieta:

— Sabe? Encontraram o cadáver de Rodrigo.

— Quem? — assustou-se ela.

— Rodrigo. Não chegou a nadar, ficou preso no avião. Agora, porém, Aragão já não falava no companheiro morto e sim na própria Antonieta — dirigia-se a Térsio, apontando Eduardo:

— Esse aí eu conheci em Uberaba, já faz muitos anos, morto de paixão pela namorada... Ele ficou no meu quarto, não havia lugar no hotel. Contribuí muito para o casa­mento deles, não tenha dúvida. Foi ou não foi, Eduardo? Eu era amigo de Antonieta... Ela sempre dizia que se tivesse de casar haveria de ser com um artista. Pois não foi mesmo?

— Você dizia que se tivesse de casar haveria de ser com um artista? — perguntou ele.

— De onde você tirou isso? — estranhou ela.

— Aragão me contou. Aquele seu amigo, estive com ele hoje.

— É possível... Coisa de menina.

— Eu não sou artista.

— Que bobagem é essa? Você não é escritor?

— Escritor é quem escreve. Eu não escrevo nada. E não sou artista nem aqui nem na China.

— O que você é, então? — disse ela, rindo ante o seu tom desalentado.

— Funcionário da Prefeitura.

— E daí?

— Você se casou com o homem errado. Olha, Antonieta, preciso ter uma conversa com você.

— Você bebeu?

— Um pouco, não muito. Ontem você prometeu que...

Foi interrompido pela campainha do telefone. Ambos se voltaram. Tudo se precipitava.

— Deve ser Amorim — disse ela: — Já telefonou três ve­zes para você.

— Amorim?

— É. Olha, Eduardo, estive pensando...

— O que é que ele quer?

— Não sei — e ela pôs-se a falar depressa, antes que ele atendesse: — Se eu lhe pedir uma coisa você faz?

— Depende.

— Depende de você — segurando-o pelo braço.

— Então pede — já com a mão no fone.

— Queria que você não saísse mais hoje.

— O quê...

— Queria que você...

— Alô! — disse ele ao telefone.

Era Amorim:

— Gerlane está comigo aqui no bar, me pediu que ligasse. Você quer falar com ela?

— Não.


— Então venha para cá.

Eduardo repôs o fone no gancho lentamente e fitou a mu­lher com olhos distraídos:

— O que é que você estava dizendo? — perguntou afinal, enquanto vestia o paletó.

— Nada. Você vai sair?

— Vou. Ele disse que precisa muito falar comigo. Deve ser por causa daquela nossa discussão. Preciso ir, fui muito estú­pido com ele naquele dia.

Aproximou-se da mulher, vendo que ela não se movia, despediu-se com um rápido beijo na testa:

— Amanhã nós conversamos.

Como ela não dissesse nada, voltou-lhe as costas e saiu. Sem olhá-la uma última vez.


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