Fernando Sabino o encontro marcado



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III - A VIAGEM

No princípio limitou-se a aceitar passivamente seu novo es­tado: relaxava o corpo, abandonava o espírito e deixava que as idéias flutuassem soltas, sem tentar ordená-las em torno de qualquer pensamento objetivo. Ficava andando pela casa, barba crescida, sem hora certa de comer ou dormir, olhando uma coisa e outra, o armário da mulher completamente va­zio, a ausência dos objetos dela nas gavetas e na penteadeira, o lugar que ela antes ocupava na cama a seu lado. Impregnado de solidão, sentiu, afinal, mais nos olhos da empregada que o observava perplexa do que propriamente nas exigên­cias de sua condição, que precisava reagir, fazer alguma coi­sa, readaptar-se. Começou por despedir a empregada. Depois, passado o estupor dos primeiros dias, para que a lembrança não o martirizasse, buscou distração em martírio maior, pri­vando-se do cigarro, impondo a si mesmo um sistema rígido de disciplina: passou a dormir no escritório, acordava cedo, tomava banho frio, fazia a barba e ia para o trabalho. Na volta, mais de uma vez resistiu ferozmente à necessidade de beber. Não queria ver ninguém, evitava até mesmo as proximidades do bar — e sabia que beber sozinho naqueles dias seria a sua perdição. Fazia as refeições no restaurante da esquina e em casa punha-se a ler com uma obstinação quase física, mas como a atenção se recusasse, mais obstinada ainda, castigou-se buscando estudar alguma coisa de árido e penoso, elegeu o latim.

— Labor improbus omnia vincit.

Não pensar, não pensar de maneira alguma — se impunha, andando de um lado para outro e recitando em voz alta declinações já meio esquecidas, até que o cansaço e o sono o vencessem. Quem o visse o tomaria por louco — e nunca se sentira tão asceticamente lúcido, tão ciente de si, de sua força e de suas limitações. Até que, uma manhã, resolveu procurar Antonieta de novo, e aceitou serenamente a idéia, embora sem saber o que lhe diria desta vez.

Marcou a visita pelo telefone, conforme a estrita regra de conduta que se tinham imposto, mas teve o cuidado de esco­lher uma hora em que o pai não estivesse em casa.

— Você conversou com ele? — perguntou, ao vê-la. Procurava ser o mais objetivo possível.

— Conversei.

— Quer dizer que para ele eu não estou mais em viagem.

— Não. Contei a verdade. Ficou muito triste, mas eu convenci a ele de que não havia nada a fazer, era melhor assim. Você tornou a falar com o advogado?

— Ele ficou de telefonar quando os papéis estivessem prontos. Escuta, Antonieta...

Calou-se, sem saber o que dizer. Olhando-a, notava pela primeira vez que ela se vestira para recebê-lo: usava um ves­tido verde, tinha brincos e um colar. O cabelo também estava diferente, fora cortado. Ele era uma visita, simples visita — e nem um mês havia passado. Em silêncio, ela esperava que ele continuasse, preocupada e já na defensiva.

— Você cortou o cabelo — comentou ele, idiotamente.

Aliviada, ela passou a mão pelos cabelos, num gesto seu de antigamente, o primeiro:

— Cortei e já estou arrependida — sorriu. — Mas, e você? Está se dando bem na sua vida de solteiro?

Não havia no tom de sua voz um mínimo de ironia, mas ele não entendeu assim:

— Não estou levando vida de solteiro — respondeu, subitamente irritado: — Estou levando vida de viúvo. Vida de solteiro eu levava com você.

Levantou-se como se fosse sair sem despedir-se. Não sairia, contudo; também era nele apenas um gesto de antigamente, que ela logo reconheceu:

— Não precisa se zangar. Afinal, já conversamos tanto...

Ele andava ao longo da sala.

— Antonieta — recomeçou, buscando as palavras: — Eu quero saber apenas uma coisa. Se você... Se sua resolução é definitiva.

— Já conversamos tanto — repetiu ela, com um suspiro resignado.

Ele se deteve em frente à mulher, decidido, olhando-a nos olhos:

— Então me responda a uma última pergunta, para que eu saiba ao menos o que pensar. Você está gostando de alguém?

Ela desviou os olhos:

— Eduardo, por favor. Não vamos recomeçar. Você já me perguntou isso. Já lhe disse que não houve nada, já lhe pro­vei, você me disse que não houve nada, já nos convencemos disso, que mais que você quer?

— Você não me respondeu.

— Já lhe disse que não! — gritou ela afinal, transtornada, erguendo-se e encarando-o: — Você não quer acreditar, pa­ciência! Pode ter a certeza de que se eu tivesse de gostar de alguém não haveria jamais de ser de você.

Ele ficou imóvel, a olhá-la estarrecido.

— Por que então você se casou comigo?

— Não sei. Porque eu era muito criança, não sabia o que estava fazendo. E por favor vá embora, me deixe sozinha.

Ele ficou em silêncio, a olhá-la estarrecido.

Sua vida terminava naquele instante.

Voltou-se em silêncio e caminhou para a porta.

— Eduardo — ouviu que a mulher o chamava e se deteve, assim de costas, para o que ela tinha a lhe dizer: — Não quis magoar você, me desculpe, estou nervosa, mas por favor compreenda, você mesmo é culpado, fica insistindo, insistindo...

— Não tem importância — balbuciou, e sua voz morreu num engasgo. Ela avançou para abrir a porta e ao dar com seu rosto crispado e subitamente envelhecido, os olhos esga­zeados a fitá-la como à procura de alguém, teve pena, num gesto hesitante tocou-lhe o braço:

— Não ligue para o que eu disse. Por favor, esqueça.

Ele chegou a sorrir, agradecido:

— Não tem importância — repetiu, a voz sumida. Voltou-se em direção ao elevador, mas ela, apreensiva, o deteve ainda:

— O que pretende fazer?

— Não sei... Como haveria de saber? — e, constrangido, evitava olhá-la pela última vez: — Sabe, Antonieta? Estive pensando, estou com vontade de fazer mesmo uma viagem...

Em vez de extenuar-se no estudo ou na leitura até que o sono viesse, acendeu então o primeiro cigarro e pôs-se deliberada­mente a pensar no que lhe acontecera, como a ver se encon­trava entre os restos do desastre alguma coisa pela qual con­tinuar a viver.

— É inútil, Eduardo.

— Vamos ser razoáveis.

— Tinha que acontecer.

Agora ele está andando pelo apartamento vazio. Tudo nos seus lugares. Acende as luzes à medida que avança, observa meticulosamente os móveis, os livros na estante, um grampo de Antonieta esquecido no parapeito da janela, quase um mês e o grampo ali na janela, já enferrujado. Tinha de acontecer.

— Vamos ser razoáveis — repetia, para si mesmo.

Uma noite, tomado de súbita decisão, foi ao telefone e dis­cou para Gerlane.

— Preciso muito falar com você — pediu, num tom grave.

— Eu tenho mais o que fazer, Eduardo — e ela desligou.

Atordoado, ele ficou ainda um instante com o fone na mão. Bem, se é assim — e afastou-se afinal do telefone assobiando baixinho, esfregando as mãos, embora seus olhos se turvassem de lágrimas: aquilo também estava resolvido, nada mais a fa­zer. O que era preciso é que não se sentimentalizasse, ora diabo, não começasse a se sentir um pária, repelido por todo mundo, não era isso mesmo? um miserável, ora tinha graça, um pobre coitado sem ninguém — e já falando em voz alta palavras soltas, enquanto arrumava a mala em passinhos lépi­dos entre o armário e a cama:

— Meias. Camisas. Cuecas? É isso mesmo. Não analisa não. Põe isso aqui... isso aqui... e isso aqui... O que mais? Se eu tivesse de gostar de alguém... Dane-se! Toca para frente: dois lenços. Tenho mais o que fazer, Eduardo. Está bem, está bem, sua vaca. Só porque eu não quis... Uma gravata, duas, mais umazinha só... E pronto, acabou-se. Não quis o quê? Ah, Gerlane. Não se deixar abater. Algum livro? Térsio tinha razão: mulher, quando começa assim... Não, que livro nada! Nem passado e nem futuro, a vida presente, minha enfim, liberta, sem limitações. E chega! Descansar um pouco, ainda é cedo.

Assim mesmo vestido, esticou-se na cama para aguardar a manhã.

A seu lado, ia um homem corpulento, bem vestido. Os demais passageiros se entreolhavam e estabelecia-se aquela muda solidariedade dos que secretamente esperam em Deus que o avião não caia. Apertavam em silêncio os cintos de segurança, enquanto o aparelho deslizava para a pista. O ho­mem a seu lado respirava desconforto, olhando duro para a frente; quando os motores ganharam força, preparando-se para a decolagem, ele relaxou o corpo na poltrona, tentando apa­rentar displicência, e lançou a Eduardo um olhar de curiosi­dade. Eduardo fingiu-se distraído. Agora que o avião corria pela pista quase a desgarrar-se do solo, o homenzarrão não resistiu e levou a mão à testa como se consertasse o cabelo, ao peito, depois ao ombro esquerdo como se tirasse um cisco do paletó, ao ombro direito e finalmente à boca, como se roesse a unha... Era o sinal da cruz mais camuflado de que ele seria capaz. Eduardo fingiu que não via nada, mas persignou-se também, abertamente, a mão espalmada para que o homem visse, enquanto o avião ganhava altura. O homem então o imitou, feliz, e respirou aliviado, Voltando-lhe um olhar solidário que era quase que um agradecimento. Eduar­do se sentiu mal: cínico, fingido, hipócrita — não se impor­tava se o avião caísse.

Encontrou a cidade diferente, mudada. Agitação pelas ruas, prédios novos, gente andando para lá e para cá, como se realmente tivesse urgência de ir a qualquer parte. Os elevadores funcionavam todo o tempo:

— Andares! — gritava o ascensorista, e ia dizendo: primei­ro! segundo! terceiro! quarto! e assim até o vigésimo, quando então a porta se abria: terraço! Vejam só que bela vista.

Depois alguém lhe batia no ombro:

— Você por aqui? Vamos tomar um café.

Era o Veiga. Estava gordo, meio calvo, e era diretor do jornal.

— Que tal se você iniciasse uma série de artigos no suplemento? Você sabe, não podemos pagar, mas enfim... Só que não pode ser de ataque ao governo.

O único que ainda acreditava ser ele um escritor... Veiga não tinha nada a lhe dizer. Eduardo também não tinha nada a dizer ao Veiga, não tinha nada a dizer à sua mãe, não ti­nha nada a dizer a ninguém:

— Meu filho, o que aconteceu com você? Onde está sua mulher? Ouvi dizer que você está morando sozinho.

A velha, acabada, doente, sempre com os parentes na Serra. Toda chorosa, abraçando-o:

— Escrevi três cartas para você, você nem ao menos se digna de responder.

— Não recebi, mamãe.

Teria recebido? Não teria? Nem se lembrava. Nada impor­tava mais, senão que haviam acabado com o banco da Praça. O novo prefeito fizera um estrago no jardim, pondo abaixo as belas touceiras de antigamente, substituindo tudo por uma grama rasa, bem aparada, ridícula. Os bancos agora eram de mármore, como túmulos. Nada mais o ligava àquele lugar:

— Chegou a hora de puxar angústia.

Chegou a hora. Mocidade velha, cansada, desnorteada, exaurida, quando chegaria enfim a tua hora? Quantos séculos de angústia coletiva te fizeram? Quantas horas de aflição fo­ram vividas, quantos corações se extenuaram no amor e na esperança para te entregarem desamparada ao mundo novo? e que será de ti neste mundo? que será do mundo? Perguntas sem resposta e sem sentido que ele largava na praça averme­lhada pelo crepúsculo. “Aqui outrora retumbaram hinos”, pensou, e logo se afastava dali. O fruto que apanhara ainda ver­de... Nem verde, nem maduro, nenhum fruto colhido: um livro cem vezes começado, um filho abortado, um casamento dissolvido. Para isso vivemos... Nada mais terrível do que não ter nascido! ele dissera um dia. E agora? Agora só a liberdade importava: liberdade de um dia olhar o outro nos olhos e di­zer: és tu — reconhecê-lo, identificar-se com ele logo que o encontrasse e enfim se deixar viver numa enfim conquistada disponibilidade, que a vida em si mesmo justificava. O ano­nimato, por exemplo, era uma antevisão do paraíso — andar desconhecido e livre pelas ruas, ninguém o identificava, nin­guém que parasse a todo momento para:

— Então, como vão as coisas?

— Não tão bem como você...

— Quando chegou?

— Como vai Antonieta?

— Ainda fica aqui algum tempo?

Algum tempo. Mauro, casado, morando num bangalô:

— Estou trabalhando no Pronto-Socorro, dirigindo a seção de radiologia. Hugo me chama de fotógrafo... Temos uma equipe muito interessante, uma boa turminha. Vou te levar lá um dia desses, para você ter uma idéia do que pode acon­tecer numa cidade em apenas uma noite... Você, que é es­critor, precisa ver um plantão do Pronto-Socorro.

Eduardo mudou de assunto:

— Você nunca mais tomou daqueles porres colossais?

— Qual o quê — disse Mauro rindo: — Minha mulher é só farejar bebida, põe a boca no mundo. Mas não me chateia em nada, pelo contrário: é uma boa figura, você vai ver.

A mulher de Mauro era filha de portugueses, falava com ligeiro sotaque. Calada, humilde, levantava-se a todo momen­to para ir à cozinha, voltava à mesa de jantar:

— Meu marido me contou que ele e o senhor foram gran­des amigos — foi tudo quanto disse. — O senhor é médico?

— Que médico nada! — Mauro, rindo, respondeu por ele: — Eduardo é poeta, minha filha: e não chama de senhor não, que ele não é tão velho assim...

— Poeta é você — disse Eduardo: — Eu nunca fui.

— Imagine que essa aqui — disse Mauro, dando uma palmadinha carinhosa na mulher — foi fazer uma limpeza nas minhas coisas, encontrou uma pilha de poemas meus, jogou tudo fora pensando que era para jogar fora. Nesse dia tomei um porre, para celebrar o acontecimento. Um vastíssimo por­re, durou uma semana. Mas foi o último. Foi ou não foi, galeguinha?

— Foi — confirmou ela.

— Você não sente falta, não? — perguntou Eduardo.

— De quê? Da bebida?

— Do poeta em você.

Mauro deu uma gargalhada:

— Deixa de literatura para cima de mim! Olha que eu sou macaco velho nessas coisas.

— Para mim, na calada da noite, você ainda medita seus versinhos.

— Cadê tempo, rapaz? Fico batendo chapa o dia inteiro! Tanta perna quebrada neste mundo de Deus, você nem imagina. Eu por mim prefiro me realizar no pé quebrado diretamente.

— Esse é infame — protestou Eduardo, e ambos riram. Moviam-se cautelosos na sua nova forma de conviver:

— E o terrorismo? — lembrou Eduardo.

— É isso mesmo... O terrorismo...

Findo o jantar, sentaram-se na varanda e para celebrar a ocasião, Mauro desafiou a mulher mandando buscar na venda uma garrafa de conhaque.

— Você já esteve com Hugo? — perguntou, antes que Eduardo partisse: — Se estiver com ele dê meu abraço, diga para aparecer. Nem conhece minha mulher, aquele safado.

Encontrou Hugo cercado de jovens na leiteria:

— Não vejo Mauro há mais de um século. O carcamano acabou um bom burguês, ganhando dinheiro à custa da des­graça alheia. E nós que esperávamos dele no mínimo um Maiakovski!

— Nossa missão era outra, talvez — disse Eduardo, fitando o amigo: estava mais velho, os cabelos já um tanto ralos, via-se que ficaria calvo.

— A poesia é que era outra — comentou baixo um dos jovens. Eduardo ouviu e se inclinou, interessado.

— Como?


— Estava falando aqui com ele — esquivou-se o outro.

Hugo o preveniu com um sorriso:

— Não facilita com eles, não, Eduardo... São concretistas.

— O que é preciso é conduzir a linguagem verbal a uma condição de experiência orgânica — concedeu o jovem.

— Experiência orgânica? O que é isso?

— Poesia não é a notícia de determinada emoção poética ou da coisa que a provocou. Poesia é a própria emoção poé­tica integrada na coisa que a provocou. A linguagem diz de uma visão especial das coisas — formulação colocada no ex­tremo de uma série contínua e ascendente de intelecções.

— Ah... — e Eduardo desistiu de entender, voltou-se para Hugo: — E você, não tem escrito nada?

— Só pontos de aula. E algumas teses: vai haver uma homenagem ao reitor e estou escrevendo o discurso de sauda­ção no qual abordo a reforma do ensino, gostaria que você visse.

— Não, muito obrigado. Ainda me lembro da última homenagem ao reitor de que participei, você não se lembra?

— Se me lembro... Mauro foi de uma grosseria! E o pior é que ainda é o mesmo reitor — hoje somos bons amigos. Lá na Faculdade estamos realizando um trabalho interessante...

— Mauro me disse a mesma coisa.

— Sobre a Faculdade? — espantou-se Hugo.

— Não; sobre o Pronto-Socorro.

O jovem continuava:

— Poesia é, pois, a concretização em linguagem verbal dessa realidade última contida nas coisas. Tomemos por exem­plo esta garrafa. O conceito que fazemos desta garrafa.

No dia seguinte era o Toledo:

— Não sei o que eles pretendem, nem quero saber. Estou velho para essas novidades. Em verdade já nasci velho, como você. A diferença é que você tem uma chance e eu não tenho.

— Que chance eu tenho?

— A de romper com seu passado. Abrir mão de tudo o que vem constituindo você: sua sinceridade, sua fidelidade a si mesmo. O que é a sua sinceridade? A sinceridade de quando você não sabia nadar ou de quando você se tornou campeão?

— Hoje não sou capaz de nadar mais de duzentos metros — sorriu ele.

— Pois nade esses duzentos metros. Não se detenha diante de nada. Comece enquanto é tempo, rompa com tudo e cora todos! Quero você capaz de mijar na minha sepultura.

— Que devo fazer? — perguntou ele, impressionado.

— Não blefe. Jogue todas as cartas na mesa. Não fuja. Não tenha medo de perder. Nada mais digno do que, tudo feito, depois que não se poupa nada, saber dizer: perdi. Porque essa é a grande verdade: perdemos sempre...

— Eu não nasci para perder.

— É um bom começo saber isso: não ter medo de nada, nem de morrer. Você tem medo da morte? Então desista de uma vez, porque morrer não tem importância — Mário de Andrade morreu e está mais vivo do que eu, do que você. Estou repetindo palavras dele! Tenha medo é dos escorregões. Não escorregue, caia de uma vez. Os medíocres apenas escorregam. Os bons quebram a cabeça. Você é dos bons. Pois vá em frente! Pague seu preço e Deus o ajudará.

— Estou pensando em fazer uma viagem — disse ele, pensativo.

Mauro o saudou alegremente pelo telefone:

— Então quando é que aparece de novo? Depois que você saiu, fiquei triste como o diabo, enxuguei sozinho aquela gar­rafa de conhaque. Não resisti, acabei saindo à sua procura por tudo quanto é bar. O resto, já se sabe: tomei um daque­les porres homéricos de que você falava, estou escornado até agora.

Eduardo falou-lhe no encontro:

— Ah, sim, no Ginásio... Me lembro de qualquer coisa. Mas por que você não aparece?

Despediu-se do amigo pelo telefone mesmo. E foi ao Giná­sio, ao encontro marcado. Havia um terceiro de quem os dois nem mais se lembravam. Monsenhor Tavares morto. Na na­tureza nada se perde, nada se cria. Lago Titicaca, Popocatepelt — Fujika Mosaka não era ilha do Japão, era a japonesinha assassinada. Todo corpo mergulhado num fluido.

— A lua banha a solitária estrada.

Raimundo Correia não era poeta modernista. A poesia é uma série contínua e ascendente de intelecções... Formula­ção de uma visão, fusão de intelecção, linguagem verbal, ex­periência orgânica. Experiência orgânica era comer, beber e dormir. Poesia era água, alimento, suor, urina e fezes. Quem era mesmo o terceiro no encontro marcado?

O prédio, assim fechado, pareceu-lhe triste e envelhecido — não havia alunos, estavam em férias. Havia um poste de iluminação à entrada principal, o globo não fora quebrado. Agachou-se, apanhou uma pedra e atirou-a. Errou o alvo e foi-se embora, envergonhado, temendo que alguém tivesse visto.

Partiu no dia seguinte, de trem.

— Você escreve, meu filho. Dê notícias. Essa sua viagem para o estrangeiro... Antonieta vai também?

Antes passou pela piscina do clube, também vazia. Rodrigo não chegara sequer a sair do avião. O porteiro o reconheceu:

Pode entrar, andar aí dentro à vontade.

Não havia o que ver. No quadro de honra do clube seu nome fora substituído. Estavam construindo uma nova arqui­bancada que comportaria o dobro de espectadores. Chico, o roubeiro, sempre o mesmo, sacudindo a cabeça:

— Nadador como o senhor, nunca mais teve não.

O cemitério — seu Marciano enterrado ali, na terceira sepultura a contar da esquerda. Deixou um ramo de flores ao pé da cruz, voltou para o carro que o esperava no portão:

— Depressa, para a estação.

Saiu da cidade como de um cemitério.

Por pouco não perde o trem. Que idéia, essa, voltar de trem... Professor Feitosa, quando foi isso? Feitosa ou Lei­tosa, não se lembrava: da Faculdade de Medicina. Naquele tempo viajava sem leito — era pobre, era alguém que vinha de um lugar e ia para outro, tinha um destino certo, uma missão a cumprir. Subitamente decidiu saltar em Juiz de Fora.

— Com licença, com licença...

Abriu caminho entre os passageiros que embarcavam em Juiz de Fora, era uma família inteira: um pai se esbofando com as malas, uma senhora gorda, três ou quatro meninos...

— Eduardo!

Parou, olhou para trás... O trem dava sinal de partida. Quem o chamava?

— Com licença...

Era a mãe dos meninos que lhe sorria, toda afobada e risonha. Letícia? Não, aquilo também era demais. Sentiu um aperto na garganta, uma vontade de chorar. Ajudou-a a en­trar, contendo a porta do vagão, sorriu enquanto lágrimas lhe saltavam dos olhos. Abaixou a cabeça para que ela não visse e ganhou rápido a plataforma da estação. Não tivera coragem de lhe dirigir uma palavra. Pensou confusamente que ao pas­sar pela porta ela comprimira contra ele os seios fartos, gordos, aqueles mesmos que ele vira um dia pequeninos, despontar sob a fina blusa de jérsei. Mas o que viera fazer ali, em Juiz de Fora, àquela hora da noite? Eu te amo eternamente — ela escrevera na sua caderneta. Foi seguindo a pé a rua Halfeld, em direção ao hotel, curvado ao peso da mala. Enfim, tanto fazia seguir como ficar. Poderia ficar morando ali para sempre. Ninguém teria mais notícias dele e o pior, ninguém daria pela sua falta. Jadir morto com dezesseis anos! Suici­dara-se por causa de uma mulher.

— Não, por uma noite: embarco amanhã para o Rio.

— O senhor não é o tenente Marciano?

Então o porteiro se lembrava dele! Seria sempre reconhe­cido pelos porteiros.

— Não. Isto é...

Na manhã seguinte foi visitar o quartel de cavalaria.

— Eu servi aqui — explicou ao sentinela. — Alguns anos atrás. Gostaria de dar uma olhada...

O sentinela chamou o oficial do dia.

— O que o senhor deseja?

Quando falou em cavalaria:

— Mas deve ter sido há muito tempo! Há anos que somos da motorizada.

E convidou-o a entrar. As baias haviam sido transformadas em garagens. Em vez de cavalos, tanques e jipes. O oficial, tomado de simpatia, explicava:

— Isso aqui... Aquilo lá...

— Houve um concurso de saltos. Não ganhei: quem ga­nhou foi o tenente Meireles, de Três Corações.

— Meireles? Deve ser o major Meireles — foi nosso comandante.

Mas isso não tem a menor importância! — pensou. Não tem a menor...

— Muito obrigado...

— Não quer ver lá dentro?

— Não, só dar uma espiada... Muito prazer, hein? Muito obrigado, hein?

O oficial bateu-lhe no ombro, jovialmente:

— É isso, meu velho, o tempo dos cavalos já passou.

Ora, eis que esse homem falou alguma coisa: o tempo passa e os cavalos também. E nós os cavalões comendo! Isso era um verso. A poesia, formulação da fusão da intelecção. Que ele era meio burro! Burro, besta, cavalo. Eduardo Marciano, ca­valo que passa. Mas romancista — romancista é diferente, não precisa saber nada disso, basta ir dizendo as coisas como elas acontecem: minutos após a entrada do conde, a marquesa sorriu e disse: — Como vai? Minutos após a entrada do conde. Como vamos? Minutos após a entrada. Como pois en­tretanto marquesa, como vai a senhora, exclamou o conde. Quem não tiver coragem de escrever isso não é romancista. Por isso Paul Valéry não era romancista. Minutos após... de repente se lembrou de Helga:

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