Fernando Sabino o encontro marcado



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Encontro29.07.2016
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— Era loura e alta... Chamava-se Helga, e era bonita como um cavalo.

O porteiro não parece lembrar-se:

— Tanta moça loura e alta que passa por aqui...

— O pai dela era dono de uma porção de fábricas... Era a moça mais importante da cidade.

— Então deve ser a filha de seu Koetz — sugeriu o por­teiro. — O escritório dele é ali no fim da rua. Ela trabalha lá. Hoje não é importante, não. Passa aqui em frente todo dia.

— Ainda é bonita?

— Bem...


Não era um escritório, era uma espécie de depósito de mercadorias: caixotes por todo lado, poeira, penumbra. Ao fundo um estrado, duas ou três mesas, dois ou três empregados, uma mulher. O tempo dos cavalos havia passado.

— Helga...

Ela ergueu a cabeça — custou a reconhecê-lo. Os cabelos eram louros, ela era alta, aqueles lábios ele havia beijado.

— Não se lembra de mim?

— Me lembro, você andava fardado.

— Eu era tenente — disse ele.

A pele já não era fresca — meio áspera, terrosa. Os lábios agora mais finos, o cabelo mais escorrido — o ves­tido preto.

— Você está de luto?

— Estou: mamãe morreu há dois meses.

Não tinham o que dizer, e evitavam olhar-se. Ela se fingia distraída com o lápis.

— Você se casou, não? Eu soube...

Ele sorriu, depois explicou:

— Imagine que eu ia para o Rio e de repente resolvi saltar aqui, para lembrar aquele tempo...

Se lhe viesse à cabeça uma palavra ao menos daquele tem­po. Em vez disso se despediu:

— Então, adeus, Helga. Prazer em vê-la.

— Adeus, tenente — disse ela, tentando sorrir.

Naquela mesma tarde deixou Juiz de Fora num ônibus.

Sozinho no apartamento. É noite. Debruçado à janela, ele olha a rua. Um bonde, dois automóveis. Conversa de notí­vagos na esquina, o vigia da construção. Um choro de criança, miado de gato, tosse de homem, são ruídos esparsos, débeis sinais de vida que não iludirão a morte, nessa hora em que todos se esquecem e dormem. Uma noite semelhante, no Ho­tel Elite... O que me impede de morrer? Um dia fui dizer uma coisa no bar e percebi que não tinha nada a dizer. Não soube escolher, fui escolhido. Pois agora agüenta a mão, ra­paz! Não vai chorar mais não, que não adianta. A princípio chorava tanto que se acostumara a encarar o pranto com certo bom humor: muito bem, está chegando a hora, daqui a pouco começa a choradeira. Ou então: isto é bom, principalmente antes do jantar — é duro sofrer assim, mas abre o apetite. Encarava-se ao espelho com simpatia, quando o sofrimento fazia escorrer lágrimas de seus olhos: “Então, garotão, como vão as coisas? Tem cabimento um homem chorando dessa ma­neira? Não liga não, é assim mesmo, mais tarde passa...”

Mas as lágrimas acabaram secando e ele se limitava a ficar andando pela casa, sem ter o que fazer, com preguiça de bar­bear-se, vestir e sair. “Uma de menos”, dizia seu Marciano, enxugando o rosto a cada manhã. Mal se arriscava até a es­quina para comprar cigarros, comer qualquer coisa, e voltava logo para casa.

Um dia encontrou Neusa, a menina sua vizinha. Já não era menina: tivera um namorado.

— Não quero que essa menina fique por aí, tomando intimidade conosco.

A vida é assim mesmo, pensou, de novo sozinho, resolvido a esquecê-la sem remorso. Nos desmentimos a cada passo, o velho Germano afirmara. Mas não há verdade nenhuma nos nossos ombros como uma cruz. Para que esperar? Ele havia triunfado, precipitando o seu destino.

E assim passavam os dias, não tinha sequer em que pensar. Rebuscava pensamentos que antes o seduziam, acabava organizando listas: listas dos livros que já lera, das coisas que mais o irritavam, das mulheres que já conhecera, de seus au­tores prediletos. Com estes compôs um time de futebol para jogar com o time das mulheres.

— Assim eu acabo doido mesmo — reconhecia, de súbito sentindo pena de si mesmo, já se vendo doido manso, inter­nado num hospício. Antonieta o visitaria? e recomeçava a chorar.

Agora não está chorando. Tem os olhos secos e busca ou­tra janela, a que dá para o fundo de outros apartamentos. A área entre os edifícios se abre com um poço. O que me im­pede de morrer? Inclina-se e olha para baixo. Se algum dia tiver de suicidar faço um estrago louco... Mas Jadir não pensava assim. Hoje ele também não pensava assim. Nada de violências! o tresloucado gesto na noite do Hotel Elite, me conte tudo sobre a morte da meretriz. Nada disso, a coisa tinha de ser suave, delicada, impressentida... Um tubo de luminal, Antonieta não deixara atrás de si, no armário do ba­nheiro, um tubo de luminal ainda fechado? Por que diabo teria comprado aquilo? Foi ao banheiro, abriu o armário do banheiro. Para que ele se lembrasse de tomar, depois que ela se fosse? Deitar, dormir e morrer. Escovaria os dentes? Daria corda no relógio? Apanhou o tubo, abriu-o, despejou os comprimidos na palma da mão, brancos, puros, inofensi­vos. Vinte comprimidos, era o que se chamava uma dose ca­valar. O tempo dos cavalos... De repente tocaram a campainha da entrada.

— A esta hora?

Por um momento pensou em Neusa — enfiou rapidamente os comprimidos no tubo, guardou-o no bolso do pijama e foi abrir.

— Você?

Era Vítor. Entrou meio constrangido, sorrindo de lado, tentando naturalidade:



— Estava passando aí por perto, resolvi te fazer uma visita. Então, como vão as coisas?

Aqui por perto? Desde quando alguém do outro mundo passava jamais aqui por perto? Assim de noite, sem mais nem menos, como antigamente. Não há de ser para pedir que lhe dê um livro para a sua editora. Pois então sente-se aí, esteja à vontade, espere um instante, vou ali na máquina e escrevo um livro para você. Escrevo um romance, o meu romance. Esse bestalhão saberá que o tempo dos cavalos já passou?

— Como vai a editora?

— Vai indo. Estamos pensando em fundar uma revista. Aliás, seu nome foi lembrado...

Eduardo o olhava, tentando simular interesse. Nem ao menos alguma coisa para beber, nada a oferecer-lhe para que­brar o constrangimento da visita. Quem sabe você aceitaria tomar uns comprimidos de luminal?

— E Maria Elisa?

— Está bem. Tivemos mais um filho, sabia?

Alguma coisa ele queria dizer. O que quer que fosse, me­lhor que dissesse logo. Ou não dissesse — ninguém tinha nada com sua vida.

— Soube que você está sozinho.

— Escuta, Vítor — começou, mas o visitante o interrompeu, incisivo:

— Não pense que vim aqui te chatear as idéias, me meter na sua vida. Apenas acontece o seguinte: toco neste assunto porque não vejo outro jeito de dizer o que eu quero dizer. Mas é só para dizer que o que eu quero dizer...

De repente se perdia em palavras e olhava Eduardo como a pedir ajuda:

— Bem, é o seguinte: vim aqui para lhe dizer que sou seu amigo, conte comigo para o que der e vier. Era isso. E está acabado, não se fala mais no assunto.

Eduardo o olhava, estupefato.

— Fica meio cretino eu dizer isso assim sem mais nem menos — continuou ele — mas que hei de fazer? Venho pen­sando há vários dias, não vi outro jeito. Afinal, você era o meu melhor amigo...

— Também não exagere...

— Não é exagero — protestou o outro: — De toda aquela turma você foi sempre o melhor e em quem eu mais confiei.

— Ora, deixe de bobagem.

— Estou falando sério.

— E hoje?

— Ainda confio — disse Vitor, com firmeza. — Você vai para a frente, estou certo disso. E vai por caminhos estra­nhos. Ainda mais agora, que você não tem desculpa. Eu confio em você.

— Obrigado, Vítor — disse Eduardo, comovido.

— Então não se fala mais nisso — e ambos respiraram aliviados. Depois começaram a rir, felizes:

— Você esteve viajando, não?

— Por aí...

Eduardo agora se tomava de inesperada euforia, pôs-se a falar, explicar, contar casos. Falou-lhe da viagem a Belo Ho­rizonte, de Mauro, da nova geração, das intelecções. Vítor o ouvia, interessado, de vez em quando fazia um comen­tário:

— Que estamos vivendo o fim de uma época, não há dúvida. Por que você não escreve o que está me dizendo?

— Já pensei nisso. Mas, e você? Como é mesmo, o plano dessa revista?

Era um homem de meia-idade, Vítor — pensava, a obser­vá-lo com simpatia, enquanto ele falava. Um pai de família, um homem respeitável, um pouco ingênuo, mas vivo, coerente, reto, convicto, vivendo de acordo com suas idéias — como ele gostaria de ser, como seu Marciano gostaria que ele fosse. O que acontecera para Vítor mudar tanto?

— Cheguei à conclusão de que aquela vida que nós levávamos não servia, resolvi tomar outro rumo. Tem de ser de uma vez só: ou vai ou racha. Aos pouquinhos é que não adianta. Mas outro dia me aconteceu uma coisa engraçada — e Vítor sorriu, desajeitado, sem saber se contava ou não: — Você ainda é católico?

— Eu nunca lhe disse que era católico.

— Qual, vocês mineiros são todos católicos. Mas, eu dizia, o que me aconteceu foi o seguinte: fui a um médico, porque estava sentindo umas dores esquisitas. Tirei radiografia do pulmão, fiquei de voltar no dia seguinte. No dia seguinte o médico me pega e me leva a um canto: seja homem, rapaz — essa coisa toda. Você está com câncer no pulmão.

— Não é possível!

— Ouve o resto: levei a radiografia a outro médico, que confirmou. Fui para casa daquele jeito, você pode calcular — mas resolvi esconder de Maria Elisa a notícia. Quando cheguei não agüentei mais, me tranquei no banheiro, tive uma crise de choro. Quando dei por mim estava pedindo a Deus um milagre, fazendo uma promessa: se eu não tivesse nada no pulmão, subiria de joelhos a escadaria da Penha. Me lembrei disso porque é o que todo mundo promete...

E Vítor fez uma pausa, respirou fundo:

— Só mesmo um milagre, porque a radiografia não podia mentir. Pois bem: no dia seguinte o médico me telefonou todo afobado, dizendo que a radiografia fora trocada, eu não tinha absolutamente nada no pulmão.

Eduardo ficou calado, à espera.

— O que eu quero saber é o seguinte: houve milagre? Por favor, não conte isso a ninguém, que acho o caso todo meio ridículo, mas eu teria de cumprir a promessa?

— Tem — e Eduardo, sem saber por que, se lembrou de Germano.

— Mas foi apenas um engano do médico...

— Você fez um pedido, não foi? O que você pediu? Que não tivesse nada no pulmão. Pois está aí, você não tem nada no pulmão. Com muito menos do que isso Graham Greene escreveria um romance. Cumpra a sua promessa.

— Mas continuo a pensar que se foi engano...

— Você acredita em Deus?

— Não sei, Eduardo... Quando estou sozinho eu acredito. Nunca tinha pensado nisso antes...

— Talvez o milagre tenha sido a sua esperança no mi­lagre...

O rosto de Vítor era agora o de um menino:

— Se é assim eu subo a escada, não tem dúvida. Vou lá de madrugada, quando não tiver ninguém... Agora é uma questão de teimosia. Milagre ou não, a verdade é que se pro­meti eu cumpro.

— Não sei, tudo é milagre... Se você não viesse hoje aqui, por exemplo, quem sabe?

Conversaram até as quatro horas da manhã. Despediram-se alegres e cansados, prometendo-se mutuamente se encontrar sempre, se visitar, voltar ao convívio antigo, feito agora em outros termos. E nunca mais se viram: uma semana depois, na noite de Natal, Vítor foi atropelado e morto quando um ônibus desgovernado subiu na calçada e o prensou contra a parede.

Bem, e agora? — pensa Eduardo no bar. Chegou o tempo de beber sozinho, sentado junto ao balcão. Neste bar se en­controu tantas vezes com Gerlane — inclusive a última, em que brigaram por causa do Amorim. Agora vem quase todas as noites tomar uns uísques até que o sono o domine. Ter insônia não é nada engraçado, mas já não há luminal em casa, jogou fora naquela noite. Eu confio em você. Eduardo. Exatamente como Rodrigo, anos antes no vestiário da piscina: você tem de vencer. Vencer o quê, agora? Vencer na vida? Morte, aí está a tua vitória. A morte é para os que confiam. Os que confiavam nele acabavam morrendo. Mas todos aca­bam morrendo, mais dia, menos dia. Vítor morreu para que ele vivesse. Na noite de Natal! Para que Cristo nascesse. Mas isso já era uma idéia sem sentido.

Chegou o tempo de beber sozinho. Depois chega o tempo de andar, andar até não poder mais de cansaço: castigar o corpo. Depois chega o tempo de trabalhar, fazer alguma coi­sa, sentir-se vivendo de alguma maneira. Houve um que nesta última fase fundou uma cidade. Sim, ele sabe, conheceu nos outros e nos livros todas essas etapas. Nunca pensou é que pudesse acontecer com ele, logo com ele! que se julgava in­vulnerável. Por ora, beber apenas.

— Imagine um elefante — disse ele.

— Um elefante — disse o garçom.

— Imagine dois.

— Hum...

— Um, não: dois!

— Eu sei: dois.

— Imagine três. Dez. Vinte.

— Vinte elefantes — sorriu o garçom.

— Agora, imagine cem, duzentos, mil.

— Mil?

— Mil. Se você é capaz. De mil, cinqüenta mil, cem mil elefantes. Você é capaz?



— ...

— Pois agora imagine um milhão. Um milhão de elefantes galopando, um milhão! Já imaginou?

— Poeira, hein?

— Poeira, nada: elefantes! Um milhão. Um bilhão, chega?

— Um bilhão — o garçom repetiu.

— Novecentos bilhões. Novecentos e noventa e nove trilhões! de elefantes. Não posso mais. Acho que chega, você que acha?

— É muito elefante — concordou o garçom.

— É: muito. Pois agora você imagine uma pulga.

— Uma pulga — e o garçom suspirou, resignado.

— Isso: novecentos e noventa e nove trilhões de elefantes, de um lado: e uma pulga, do outro lado. — Morou?

— Não.

— É o terror — arrematou ele. — Me dá um uísque.



Havia também a história do homem que procurava o seixo que virava qualquer metal em ouro. Era uma vez um homem que procurava um seixo que virava qualquer metal em ouro. Saiu por aí — foi na Índia — saiu ainda jovem pela Índia, todo seixo que via no chão apanhava, batia na fivela de metal do cinto e atirava fora. Andou por todas as estradas da Índia catando seixos, colheu pedrinhas no fundo dos rios, e nada. Um dia, depois de anos e anos de procura, já velho e alque­brado, sentou-se à sombra de uma árvore para descansar e distraidamente olhou para a fivela do cinto — a fivela do cinto, que era de um metal qualquer, tinha virado ouro. Onde? Quando? Quer dizer que o seixo procurado estivera nas suas mãos! Resignado, o velho recomeçou a procura.

— Angústia, e da boa.

O médico dissera isso, depois de Ouro Preto. E finalmente, tinha um sonho assim: alguém o obrigava a apanhar no fundo do mar uma agulha — mas não sabia dizer precisamente onde: se no Oceano Atlântico, se no Oceano Pacífico. E ele saía mergulhando, durante anos e anos, nada de agulha. En­tão lhe diziam: talvez se você tentasse no Oceano Indico... Em geral acordava em pânico, suado, chorando.

Completamente bêbado, o corpo oscilando sobre as pernas, deteve-se no meio da sala, o copo na mão.

— Tenho de ir à missa.

Olhou em torno com olhos frouxos, tentando ordenar as idéias:

— À missa — repetiu.

Ninguém lhe deu atenção. Eram três horas da manhã e a festa ia no auge. Havia de tudo: mulheres vestidas a rigor, moças de calça comprida, rapazes de smoking, outros sem paletó. Um gaiato chegara mesmo a comparecer fantasiado: era uma festa de passagem do ano, e o ano já passara sem que Eduardo percebesse.

— Tenho de ir à missa — exclamou pela terceira vez. Al­guém a seu lado deu uma gargalhada:

— Ele disse que tem de ir à missa!

Voltou-se lentamente e contemplou com olhar crítico a mulher que tinha junto de si:

— Está rindo aí, sua boba? Vou-me embora, não tenho nada com esta festa.

— Não está me reconhecendo?

— Nunca tive o prazer — e estendeu o braço para cumprimentá-la. Perdeu o equilíbrio, teve de apoiar-se nela para não cair. Aproveitou o movimento e abraçou-a.

— Espera, espera! Está me molhando com esse copo. O que você está bebendo?

— Uísque.

— Onde arranjou? Aqui só tem batida...

— No bar. Eu estava lá muito sossegado tomando o meu uísque, apareceu não sei quem, me trouxe para cá, disse que era um absurdo eu passar o ano sozinho, me arrastou para esta festa. Não quero saber de festa, preciso ir à missa.

— Mas por que missa? — a mulher se preparava para rir, na expectativa.

— Você é meio burra, não é? Por que missa...

— É uma idéia — concordou ela: — Começar o ano indo à missa.

Começar o ano? Lembranças indistintas afloravam em confusão na sua cabeça, uma festa na casa de Vítor se misturando àquela em que estava agora, uma igreja iluminada, a primeira missa do ano, há quantos séculos? oh, como ele então era inocente! Deus rejeita os inocentes: não servem para nada. É preciso se perder primeiro, para depois se salvar. Antes, re­sistir bastante, para que a queda seja completa. Escarrapachar-se no chão, quebrar a cabeça. Pôs-se a rir: este era o privilégio do homem. Um direito, o direito de escolher. Um direito, ouviu? Deu um tapa nas costas da mulher.

— Ite, Missa est — despachou-a. Ela se ofendeu:

— Não faça isso. Você me machucou.

— Desculpe. Quem é você? Que diabo de festa é esta?

Todos se movimentavam agora, não caberia mais ninguém na sala. Ele foi empurrado de um lado para outro, procurava proteger o copo já vazio.

— Estou bebendo desde cinco horas da tarde,

— Está se vendo — disse a mulher.

— Pois então vamos beber alguma coisa.

A custo atingiram a mesa a um canto. Eduardo encheu seu copo de batida, que tomou de uma só vez. Fez uma careta de nojo, voltou-se para ela:

— Por que só servem cachaça, nesta casa? De quem é esta casa?

— Minha — respondeu ela, sorrindo. Ele não se alterou:

— Por que não disse logo? Então me dá um abraço.

Largou o copo na mesa e abraçou-a, cambaleando. Ainda a segurá-la, olhou-a nos olhos:

— É uma pena você não poder sair comigo. É tão bonita, tão simpática... Como é o seu nome?

Ela riu novamente:

— Você não está se lembrando de mim: Antonieta...

Ah! Aquela mulher era amiga de Antonieta: seu nome era Maria Lúcia e no seu casamento lhe haviam dado de presente um quadro de Joubert.

— Foi Joubert quem te trouxe — confirmou ela.

— Não tenho mais nada com Antonieta.

— Eu soube.

— Para mim ela morreu.

— Bebendo desse jeito, quem acaba morrendo é você.

— Sabe de uma coisa? Eu podia continuar bebendo assim até morrer, mas não posso, porque daqui a pouco...

— ...tem de ir à missa.

Ele a olhou, espantado:

— Como é que você sabe?

Alguém veio chamar a dona da casa, Eduardo aproveitou-se e foi saindo. No jardim pôs-se calmamente a urinar sobre as plantas, sem se importar com os casais que deixavam a casa para refugiar-se entre as sombras. Joubert bateu-lhe nas costas:

Vamos embora, isso aqui não dá mais nada. Vamos a Lili.

— Todos a Lili — secundou o jovem que o acompanhava.

— Quem é Lili?

— Vem conosco, você vai ver só.

— Todos a Lili — repetiu ele para si mesmo, abotoando a calça,

No carro, deixou-se cair no banco de trás, estirando o corpo.

— Deixa ele dormir — disse Joubert. — Deve ter bebido demais.

— É. Está num porre desgraçado.

Eduardo endireitou-se e pôs a mão na maçaneta:

— Porre é a mãe. Pára o carro.

Os dois se espantaram, voltando-se para vê-lo. O carro diminuiu a marcha:

— Que é isso, Eduardo? Você se ofendeu à toa, ele só falou...

— Falou é a mãe. Quem é esse menino para dizer que eu estou de porre? Pára o carro.

— Mas não vamos a Lili?

— Sei lá que Lili! Estou quieto no meu canto e vem esse merda-seca dizer que eu estou de porre. Pára o carro, que eu tenho de ir à missa.

Os dois riram:

— Ainda é cedo para a missa...

— Vamos em frente. Todos a Lili.

— Eu te mostro Lili. Pára essa joça!

Desta vez ele gritara com raiva — o jovem se assustou e parou o carro. Os dois mantinham agora um silêncio ressen­tido, enquanto ele abria a porta e saltava. Fez uma pirueta inesperada, buscando se equilibrar, despediu-se:

— Eu vou para a missa. Vocês vão para a...

O carro arrancou, as últimas palavras do xingamento morreram no ar.

— Lili — resmungou, enojado. Danem-se.

Olhou o relógio e coçou a cabeça, irresoluto: o diabo é que eles tinham razão, ainda era mesmo cedo para a missa. Foi caminhando pela praia e insensivelmente tomou o rumo do bar, o mesmo bar de onde Joubert o arrancara. Fez dois quarteirões num passo irregular e obstinado: a sede o consu­mia. Da esquina surgiu uma mulher, que o chamou sem ce­rimônia:

— Psiu!

Deteve-se, ela veio se aproximando:



— Sozinho, meu bem?

— Não — respondeu, lembrando-se subitamente de Mauro e começou a rir, apontou para cima: — Com ele.

— Com quem?

— Com Deus.

A mulher recuou um passo:

— Você está bêbado:

— É a mãe. Até logo, estou com pressa.

Enquanto caminhava, sentia os olhos se encherem de lágrimas. “Devo estar mesmo bêbado”, pensou, percebendo que era ridículo e sem nexo chorar na rua àquela hora. Mas a verdade é que estava mesmo sozinho. Procurou discernir as luzes do bar. Já não havia luz, o bar se fechara. Ficou re­voltado: era uma traição! Fora vítima de uma cilada. Ou, quem sabe? ainda havia alguém lá dentro. Pôs-se a sacudir a porta com violência:

— Abre isso aí!

Não havia ninguém, tudo às escuras. Enraivecido, apanhou uma pedra junto ao meio-fio e atirou-a contra os vidros da porta, que se partiram, retinindo. Depois ficou por ali, res­mungando. Dentro em pouco, alertada por um dos moradores do edifício, que ouvira o ruído, chegou a radiopatrulha e o prendeu.



Eram mais de sete horas da manhã quando conseguiu livrar-se da delegacia. Saiu a correr pela rua, entrou num táxi:

— Depressa! Para a cidade.

Agora sentia os pensamentos mais ordenados, as idéias mais claras: ela própria lhe telefonara, pedindo que não deixasse de ir. Já não fora ao enterro...

— Ele falou tanto em você nos últimos dias... Íamos te convidar para a ceia de Natal, naquela noite.

Morto há uma semana. Não tivera coragem de ir vê-lo morto, e agora ia perder a missa do sétimo dia.

— Sei que você não acredita nessas coisas, mas...

— Eu? Não acredito?

O motorista virou-se para trás:

— Como?

— Nada não. Mais depressa, por favor.



O efeito da bebida não passara de todo. Era aquela ca­chaça, bebera um copo de cachaça com limão, onde? na casa daquela mulher, conhecida de Antonieta. Para mim ela morreu.

— Depressa, por favor, é importantíssimo — pediu novamente, sentado na ponta do banco. Só então, ao ver-se refletido no espelho do carro, deu conta do estado deplorável em que se achava: roupa em desalinho, camisa encardida de poeira e suor, barba crescida... Passou o pente nos cabelos, endireitou a gravata, tentou recompor-se como podia. Não tinha importância. Maria Elisa devia estar muito abalada para prestar atenção nessas coisas.

Entrou na igreja precipitadamente, e estacou: a missa ia em meio, o sacerdote erguia lentamente a hóstia. Tudo imóvel e em silêncio, um mar de cabeças curvadas e submissas. Ago­ra as sinetas retiniam, as cabeças se agitaram, todos se er­gueram. Lá na frente, num grupo isolado, pôde distinguir Maria Elisa, de preto, véu negro sobre os cabelos louros. De súbito ela voltou a cabeça e seus olhos claros o descobriram, fixaram-se nos dele um instante.

Não teve coragem de se dirigir à Sacristia, finda a missa. Deixou-se ficar, irresoluto, à margem da multidão que saía, acabou saindo também. Viera à igreja, eis o que importava. Fora visto por ela, deixaria para visitá-la um dia desses. Deu consigo caminhando até a esquina, ficou à espera do bonde.

— Você por aqui?

Era Térsio que também acabava de sair da igreja.

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