Fernando Sabino o encontro marcado



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Encontro29.07.2016
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— Como foi acontecer uma coisa dessas. Tenho pena é de Maria Elisa.

— Você está sumido — disse Eduardo apenas.

— Você é que está... Não te vi no enterro.

— Não gosto de enterros.

Estive viajando, a serviço do jornal — e Térsio olhando para os lados, para evitar o constrangimento do amigo, constrangido ele próprio: — Agora vou ao Sul para ver se consigo uma entrevista com o homem. É a minha grande chance. Idéia do Amorim. Fundou um jornal, você sabia? Estou tra­balhando com ele.

— Não me dou mais com Amorim.

— É, eu soube... Vocês tiveram uma briga, não foi? Boba­gem sua, Amorim é um bom sujeito.

— Não interessa, Térsio.

O outro o encarou, finalmente, em desafio:

— E você?

— Eu o quê?

— Continua... Continua morando lá?

— Continuo.

— Qualquer dia desses apareço. Se eu conseguir a entrevista...

— Você se lembra das 48 horas?

Não, Térsio não se lembrava.

— O seu primeiro tópico, contra o ditador...

— As coisas mudaram muito desde então, Eduardo.

— Vítor queria que todos nós escrevêssemos.

— É isso mesmo... Que coisa tremenda, o Vítor. Assim de repente.

E Térsio sacudiu a cabeça, depois se despediu.

Outro amigo morto — pensou Eduardo, e fez sinal para bonde que se aproximava.



Da repartição o advertiram que dali por diante teria de cum­prir horário, assinar o ponto: determinações do novo prefeito.

— Chegou a fase do trabalho — reconheceu ele.

E passou a comparecer pontualmente, desdobrava-se em eficiência, informava processos, aprendia enfim a trabalhar.

— Também não exagere — queixava-se o chefe, jovialmente, tropeçando com ele a todo momento. — Você assim acaba criando problemas para mim.

— Sou pago para trabalhar. Por isso é que este país não vai para a frente. O que é que eu faço agora?

Diante de si um homem baixo, dentes escuros, fisionomia vagamente familiar:

— Estou vendo que você não se lembra de mim.

— Confesso que não.

Mas se não era o Afonso! — fantasma de um período negro na sua infância. Afonso era menino distinto, dizia a mãe. Debaixo da escada — Afonso já usava calça comprida.

— E o que é que você deseja?

— Soube que você hoje é importante. Minha situação. Qualquer coisa. Com boa vontade. Seu sogro.

— Vamos ver o que se pode arranjar.

Sentiu pena do homem. Um dos funcionários chegara a sussurrar-lhe: “Conheço a pinta: facadista — e pederasta”. A que ponto descera! Deu-lhe algum dinheiro e Afonso se eclip­sou, sorrateiramente como surgira, para o seu mundo sombrio. Fosse algum tempo antes e lhe teria dado um bom murro na cara.

— Já não sou mais um menino — sorriu para si mesmo, com simpatia.

Naquela noite foi visitar Maria Elisa.

— Pensei que você não viesse mais — disse ela.

— Maria Elisa, eu... Eu senti tanto, foi horrível.

A todo momento ela se erguia, para cuidar dos filhos — três crianças rebeldes que não queriam ficar na cama. Uma mulher jovem e bela ainda, largada no mundo com três filhos, sem ter mais com quem repartir o encargo — era a fêmea sozinha protegendo as crias:

— Mamãe se ofereceu para me ajudar a cuidar deles, mas eu não quero, são meus.

— Vai ser difícil para você, Maria Elisa. Viver sozinha...

— Você não está sozinho?

— Bem, eu não tenho filhos.

— Pior ainda.

Sou homem, é diferente.

Prometeu tornar a procurá-la e ela se despediu dele, o rosto pasmado mas os olhos enxutos. Ele é que sentia vontade de chorar. Resolveu procurar Antonieta:

— Fui visitar Maria Elisa — contou-lhe. — Nunca pensei que ela fosse tão corajosa. Não se deixou abater. Depois de um choque daqueles...

— Eu imagino... Li no jornal. Coitado do Vítor.

— Eles viviam tão felizes, ultimamente.

— Eu imagino — repetiu ela.

— O que teria acontecido conosco? — ele perguntou, abstraído.

— Conosco?

— Eu não morri, nem você. E estamos sozinhos. Podía­mos ter sido felizes...

Ela também ficou absorta, olhando fixo para frente:

— Não sei... Temperamento, Eduardo. Se você fosse diferente, menos torturado, com mais vontade de vencer...

Ele pôs-se a rir:

— Mais vontade de vencer, eu? O que você chama de vencer?

— Vencer na vida: fazer carreira, ganhar dinheiro, levar uma vida confortável.

— Para mim, o ideal de conforto é uma camisa limpa para mudar todos os dias. E isso, pelo menos, honra lhe seja feita: no que dependia de você, eu quase sempre tinha.

— E hoje não tem?

Ele sorriu:

— Hoje, depende da lavadeira.

Ficaram em silêncio, pensativos.

— Você sabe que eu sempre tentei vencer escrevendo — recomeçou ele, sem queixa.

— Ninguém lia — ela comentou, quase para si mesma.

— É verdade: ninguém lia. Nem por isso... e ele se er­gueu para partir: — O advogado me pediu para lhe avisar que os papéis já deram entrada, estão em andamento. Vai haver uma audiência.

— É muito complicado? — ela o acompanhou até a porta.

— Não. Basta o juiz dar a sentença.

Encontrou-se com ela ainda uma vez, a última. Foi um encontro formal, sem uma palavra a mais, diante do pai, de­pois o advogado, depois o juiz.

— Sinto muito, meu rapaz, é isso mesmo, se eu pudesse, mas enfim — disse-lhe o sogro, se despedindo dele para sempre.

Tudo ficou resolvido: não havia problemas.

— Não há problema — foi mesmo a última coisa que disse para aquela que era a sua mulher.

Não tinha dúvida, humanizava-se: algum tempo antes as coisas eram piores, ele era pior. Algum tempo antes sofria, sim, mas sofria mal, atropeladamente, o próprio tempo aos poucos ia-lhe ensinando a sofrer melhor, E a incapacidade de amar? Hugo lhe dissera um dia: incapacidade de amar — orgulho — solidão — renúncia. Pois bem, eis a renúncia, eis a solidão. Onde o orgulho? Sua estrela de orgulho se apagava, ninguém queria ver, ninguém via. O amor concebido em termos de dádiva, em aceitação e entrega genéricas, não com relação a uma pessoa apenas, mas a várias, a muitas, ao maior número possível, até que muitas pudessem ser tidas como todas — a maioria. O amor como regra, não como exceção. Elevado à perfeição, tudo e todos, seria talvez o amor de Cristo pela humanidade, quando disse que seus irmãos eram aqueles que o ouviam. Que O ouviam.

Sentindo-se um nada, pequeno, ínfimo, ridículo, indo para casa passo a passo, heroicamente, para enfrentar a noite da solidão. Sua grandeza, ainda não revelada.

Os homens — não era difícil amá-los — a todos, indistintamente — olhando ao seu redor e se deixando viver. Ele duro, ele cheio de arestas, defendido, cortante, hostil, se enojara de viver porque viver era fácil. Era só ainda ser e já ter sido. Pois bem — e agora? Agora via em volta que o seu mundo era dos outros também, carregando cada qual a sua cruz — pobres criaturas de Deus. E como eram simpáticas, essas criaturas. Nada da sordidez que via antes em cada olhar, da miséria em cada gesto, o cotidiano sem mistério, a surpresa adivinhada em cada corpo, o segredo assassinado em cada boca.

— “Não és bom nem és mau: és triste e humano” — citou ele.

— De quem é isso? — perguntou frei Domingos.

— De Bilac.

— Pois não parece — disse o monge.

Veja o exemplo de frei Domingos — nem bom nem mau, apenas um monge. Em Belo Horizonte se chamava Eugênio Maldonado, seu colega de ginásio, dos mais humildes, mais recatados, mais esquivos... E, agora, era frei Domingos, vivia num convento. Mandara um recado a Eduardo, que o fosse procurar. “Mais um” — pensava ele: “mais um para se meter na minha vida — e desta vez um padre”. Mas frei Domingos tinha outro assunto á tratar:

— Estamos com um caso na Prefeitura, questão de impostos... Soube que você trabalha lá, me encarregaram de lhe pedir esse favor.

Prometeu atendê-lo. Depois ficaram a conversar, Eduardo falou-lhe em Vítor, contou o caso da radiografia, da promessa que ele talvez não tivesse chegado a cumprir:

— Foi milagre?

— Não — respondeu prontamente o monge: — Não hou­ve neste caso o que caracteriza o milagre, isto é, um elemento de sobrenatural, um fenômeno acima da razão.

Chamá-lo de você ou senhor? Eugênio ou frei Domin­gos?

— Bem, eu saí do ginásio, você se lembra. Depois disso... Até que um dia...

De vez em quando, cansado da agitação da cidade, subia ao convento para vê-lo, conversar um pouco.

— Milagre, sim — insistia. — O que ele pediu foi que não tivesse nada. Contra a evidência, a radiografia era inso­fismável. E foi atendido: realmente não tinha nada, devia cumprir a promessa.

O monge sorria jovem, benevolente:

— Bem, não digo que ele não cumprisse a promessa... Mas é difícil, você sabia? Sei de muitos casos — a escada não é brincadeira, subir de joelhos. São 365 degraus.

— Ele já morreu.

— Você me disse. Reze por ele... E pelo outro.

— Que outro?

— O outro, o da radiografia. A radiografia evidentemente era de alguém...

Ora, eis que esse monge tem umas idéias que eu não teria — pensou. Nunca me ocorreria rezar pelo outro. E dizer que eu poderia ser assim, como ele. Cabeça raspada, ali dentro como ele e não aqui fora na rua, sem saber ao certo onde ir.

Foi visitar Maria Elisa. Dera agora para procurá-la de vez em quando. A caminho de casa passava por lá, de tarde, às vezes levava uma bala ou uma lembrança para as crianças:

— Eles estão crescidos, Maria Elisa.

Esquecido de si mesmo, ficava a olhá-la com simpatia, vendo-a às voltas com os meninos, ou reclinada sobre a mesa, uma mecha de cabelos louros caída na face, tomando a lição do mais velho, com um suspiro de cansaço. Um dia ela se ergueu, endireitou no corpo o vestido leve de luto já aliviado, caminhou resoluta até ele:

— Eduardo, preciso falar com você.

Tomou-o pelo braço, levou-o à janela, longe dos olhos das crianças.

— Vou ter de lhe pedir que não venha mais aqui.

Ele ficou a olhá-la, perplexo.

— Espere que eu lhe explico — sorriu ela. — Não precisa se assustar: não é nada contra você, não. É que os vizinhos andam comentando e, você compreende, na minha situação...

— Eu compreendo.

— Não me leve a mal, por favor. É tão difícil para mim. Não tem nada de mais, eu sei, mas essas coisas, quando co­meçam a falar... Espero que você compreenda.

— Eu compreendo, já disse.

— Se ao menos você não viesse sozinho...

— Com quem você queria que eu viesse?

Entardecia. Ele não a escutava mais e seu olhar se perdia para os lados do morro, onde o sol começava a se esconder. Um avião brilhava alto, longe, no céu dourado. Cigarras can­tavam numa árvore próxima. Da rua principal, na esquina, vinha o ruído áspero e tumultuado do tráfego. Dentro do pei­te o coração batia rudemente.

— Eduardo...

Voltou-se para olhá-la, e viu-a pela primeira vez.

O último raio de sol iluminava-lhe o rosto e ao redor da cabeça os cabelos se esfarinhavam numa auréola dourada. Os olhos, claríssimos, quedaram-se nos dele, imóveis, e os lábios, detidos em meio a uma palavra, eram vermelhos e intumesci­dos, como se fossem destacar-se do rosto.

— Não, Eduardo — ela teve tempo de murmurar, antes que ele a beijasse. Depois se deixaram ficar um instante de olhos fechados, as cabeças unidas. Logo um ruído qualquer das crianças os chamou à realidade.

— Nós somos amigos — ela advertiu apenas, emocionada.

— Eu sei...

Viu que ela se afastava — o corpo assim de costas num movimento elástico e harmonioso — para abrir-lhe a porta.

— Adeus, Maria Elisa.

Saiu dali, a cabeça num tumulto. A mão pesada de Vítor parecia descansar no seu ombro, amistosa, e ele horrorizado imaginava o corpo enorme apodrecido debaixo da terra.

— Não, não — balbuciava, andando pela rua.

Frei Domingos a princípio não entendeu bem:

— Se ela lhe pediu que não voltasse lá e você mesmo acha que não deve voltar...

— Não é isso — insistia ele: — É que eu senti desejo por ela e não podia, não tinha esse direito.

— Por causa dele?

— Não sei. Por causa dele, talvez. Por causa dela, das crianças.

O monge o olhou, inquiridor:

— Olha, Eduardo, vou lhe perguntar uma coisa...

— Não me pergunte se acredito em Deus que é uma pergunta meio irritante.

— E no demônio, você acredita?

— O demônio eu sei que existe.

Frei Domingos riu, depois continuou:

— Mas não era isso que eu ia perguntar. E pergunto porque é preciso para que eu possa entender: se você... vivendo sozinho... bem, como é que tem se arranjado nesse setor.

— Não vai querer que me confesse, vai? — brincou ele.

— Seria bom — respondeu o padre, sério.

— De vez em quando levo alguma mulher lá em casa, mas nem sempre, em geral depois tenho nojo.

— Eu calculava.

— Um dia levei uma moça que mora perto de minha casa. Quando ela era mais nova vivia me provocando, eu resistia por causa de minha mulher. Mas agora me disse que foi en­ganada pelo namorado — a história de sempre. Com ela não tive nojo. Foi uma espécie de triunfo...

— Triunfo do demônio — acrescentou o padre.

— Mas isso não chega a constituir problema para mim. Para dizer a verdade, eu não me importaria de ser casto, se fosse possível.

O monge tornou a sorrir, e ficou silencioso.

— Tudo isso não tem nada a ver com o que senti por Maria Elisa. Foi diferente. Eu tive desejo mesmo, de todo o co­ração. Não sentiria nojo depois. Senti nojo antes, nojo de mim mesmo, tive uma espécie de remorso antecipado pelo que po­deria vir a acontecer. Não é possível, Frei Domingos, é sór­dido demais. Se eu continuar assim, eu estou perdido.

O monge tocou-lhe o ombro, se despedindo:

— Pelo contrário — falou com firmeza: — Se você conti­nuar assim, você está salvo.

A caminho da repartição, comprando na banca o jornal do Amorim. Na terceira página a notícia numa coluna social: nomeado embaixador, levaria para a Europa a filha, recente­mente desquitada.

— Eles sempre se arranjam — murmurou, pensando no sogro: — São assim mesmo: não querem nada, só sacrifícios, servir a pátria, e tal, e coisa, mas eles sempre se arranjam.

Dobrou o jornal e guardou-o no bolso. Procurava obstinadamente não pensar em Antonieta.

Qualquer coisa no ar, entre os colegas de serviço. Olha­vam-no de maneira diferente, calavam-se quando ele se apro­ximava. A certa altura resolveu interpelar o chefe.

— Bem — fez o homem, constrangido: — Cada um tem seus problemas, cada um é dono de sua vida. Resolvi proibir que aqui dentro se falasse no assunto, para deixá-lo mais a vontade.

Afastou-se, irritado. Tudo isso por causa de uma simples notícia de desquite? Não disse mais nada a ninguém, foi ao toalete. Misael, um funcionário meio calvo, casado e cheio de filhos, também ia urinar.

— Olha, Eduardo: ele não quer que se fale nisso, mas eu falo. Para mim você continua o mesmo. Não acredito em nada daquilo, sei que você é inocente, deve ser alguma con­fusão. Gostaria só que você me contasse se...

— Sobre o que você está falando? Explique-se logo, homem de Deus — retrucou ele, impaciente.

O outro puxou-lhe o jornal do bolso, exibiu a última página:

— Será possível que você ainda não leu?

“Crimes para sempre insolúveis”, de uma série de reportagens: o crime do Hotel Elite. Leu atropeladamente, ali mesmo, as três colunas historiando a morte misteriosa da bela desconhecida. O jovem Eduardo Marciano, recém-chegado ao Rio, que viera fazer? Procurar uma mulher — disse a várias pessoas. Forçou entrada no Cassino Atlântico com uma gran­de gorjeta — depoimento do porteiro no inquérito. Visto entrando com sua vítima no hotel. As contradições do jovem: dizia nunca tê-la visto em sua vida, deixou apressadamente o hotel para Belo Horizonte, passou-se para outro hotel, como se acabasse de chegar de Belo Horizonte... Feita a exuma­ção, constatou-se que a mulher havia sido Seviciada antes da queda. Seu companheiro estava nu quando comunicou ao porteiro o “acidente”. A interferência oportuna do sogro, en­tão ministro, fêz arquivar o processo — mais um crime sem punição.

O delegado recebeu-o a sorrir:

— Este mundo dá muitas voltas, hein, rapaz?

Custou a reconhecê-lo: havia raspado a barba.

— Como é que você veio parar aqui? — perguntou.

— Está espantado? Consegui minha transferência, afinal foi mais fácil do que parecia. Você se lembra, não? Não, você não se lembra. E vim servir aqui, na própria Chefia.

— O que significa isso? — e Eduardo exibiu-lhe o jornal.

— Mandei chamá-lo exatamente por causa disso. Me lem­bro que na época seu depoimento foi colhido por mim mesmo, por precatória... Que coincidência, você não acha? O chefe está muito interessado em dar solução a esses casos, fazendo revisão de processos, etc.. A imprensa, você sabe, não perdoa nada... No seu caso, a coisa é simples. É só provar...

— Imprensa nada — retrucou Eduardo, enraivecido: — Imprensa aqui é o Amorim, que você conhece muito bem. Você deixou que ele fizesse isso comigo, até ajudou. Pensei que você fosse meu amigo, Barbusse.

— Que é isso, rapaz? Fale baixo, até aqui você quer me desmoralizar? Não deixei coisa nenhuma. Apenas não podia impedir... Pois se é ordem do próprio chefe! Mas no seu caso não se aflija, não creio que essa reportagem seja justifi­cativa bastante para a reabertura do inquérito...

Deixou enojado a polícia, tornou a ler a reportagem que toda a cidade estaria lendo. Seu nome estaria sob os olhos de todos como suspeito de um crime, “o crime do Hotel Elite”... Antonieta estaria lendo, Maria Elisa, os conhecidos, os vizinhos. Não podia ficar assim, tinha de dar um des­mentido.

— Acho imprudente — disse frei Domingos: — Muita gente que não leu da primeira vez, lerá da segunda.

— É a minha honra que está em jogo.

— Ora, que bobagem... Isso não tem a menor importân­cia. Tem importância apenas a seus olhos.

— Acha então que não tem importância nenhuma passar por assassino aos olhos de todo mundo?

E já descontrolado, quase chorando:

— Por que eles tinham de fazer uma coisa dessas comigo? E eu que já começava a acreditar nos outros... Como a na­tureza humana pode ser tão sórdida?

— Você está enganado. A natureza humana não é sórdida. Você diz: e eu que começava a acreditar nos outros... A solução não é acreditar nos outros, mas em Deus. E tudo mais vem por acréscimo.

— Não mete Deus nisso não, frei Domingos. A solução seria eu sair daqui, ir lá no jornal e dar um tiro naquele filho-da-puta.

— A solução pode ser boa, mas a expressão é que é um pouco forte para ser dita aqui..

— Perdoe.

— Você não vê sua própria contradição? Indignado por­que te chamaram de assassino, pensa logo em assassinar quem te calunia.

— O que eu poderia fazer de mais justo?

— Muita coisa — disse o monge, pensativo: — Essa po­bre mulher desgraçada, por exemplo, se atirando assim da janela, lembre-se dela, esqueça um pouco o seu problema...

— Ela não tem mais nenhum problema: já morreu há mui­to tempo.

— Pois então? Reze por ela...

Já vinha de novo aquele monge descobrir ângulos inéditos nos casos para depois mandá-lo rezar. Era verdade, nunca lhe passara pela cabeça o drama vivido pela suicida. Ela tam­bém amava, sofria, buscava a morte como solução. E tacita­mente a considerava apenas uma meretriz... Talvez fosse esse o seu crime, pelo qual estava pagando.

— Não sei... Eu não posso continuar vivendo assim, um dia terei de escolher: aceitar tudo, ou fechar os olhos e me precipitar de cabeça no desconhecido...

— Aceitar o quê? O pecado?

— Não sei... Prefiro dizer o erro. O que me desagrada nessa história de pecado é o aspecto de imposição, de ordem, porque a sociedade exige...

— Não é nada disso: é outra espécie de ordem... É pre­cioso não pecar, mas docemente, suavemente, não por impo­sição: por amor. Se for preciso, contra a sociedade. Por que você não vem passar uns dias aqui conosco, para conversar­mos mais longamente? Temos um quarto de hóspedes...

Andando pelas ruas, sem ter aonde ir. Depois do jantar no restaurante, não conseguira ir para casa. Aquilo não podia ficar assim. Difícil de engolir, o conselho do monge. Amorim havia de pagar pelo que fizera. Pelo menos pregar-lhe um susto, dar-lhe uns tapas para que ele aprendesse sua lição. Resolveu procurá-lo, passando pelo bar de costume.

Não encontrou Amorim e deixou-se ficar, sozinho, tomando uísque. Vontade de esquecer tudo e se distrair, conversar com alguém... Mas alguém que o aceitasse sem condições, que não fizesse perguntas, que não soubesse de nada. Pro­curava afugentar a lembrança do monge: pense nessa pobre mulher desgraçada, reze por ela. Outra espécie de ordem. Aceitar o pecado. Se de súbito a porta se abrisse e Gerlane entrasse...

— Tenho mais o que fazer. Eduardo.

Todas tinham mais o que fazer. Maria Elisa com seus fi­lhos, não me leve a mal, vou lhe pedir que não venha mais aqui. Antonieta na Europa: temperamento, Eduardo. Se você não fosse tão torturado... Sim, era torturado! E daí? Ele também tinha mais o que fazer, não precisava de ninguém. De vez em quando levo uma mulher lá em casa... Triunfo do demônio! Lembrou-se de Neusa: uma mulher como as ou­tras — dezoito anos, é o que interessa, dizia Térsio. Não era o primeiro e nem seria o último. Que lhe importava? Dirigiu-se resolutamente ao telefone, discou para ela. A vida era assim mesmo.

— Estou esperando um filho seu — disse ela.

Tudo lhe parecia não passar de um equívoco já desfeito. Logo com Neusa, a quem mal conhecia! Nem bonita nem atraente. Como as outras — não parecia tão criança. Relembrara o encontro que tiveram:

— Quanto tempo, hein?

— Você se lembra?

— Nós éramos loucos...

Ela perguntara se era verdade que ele havia se separado de Antonieta.

— É o que dizem. Mas, e você, Neusa? Está tão diferente...

— Tanta coisa...

Depois ele a convidara para ir à sua casa:

— Conversar um pouco. Um instantinho só.

Ela contara a história do namorado, um oficial de marinha:

— Prometeu casar mas não acreditei. Não me arrependo...

O resto se passara no sofá, já nos braços um do outro, ela nem ao menos tirara o vestido.

— Como foi acontecer uma coisa dessas.

Mas era o que todas diziam, não acontecera nada de extraordinário. Agora estava grávida.

— Você tem certeza?

— Absoluta. Fiz os exames todos. O problema é minha mãe, se ela descobrir estou perdida.

Morava sozinha com a mãe, a velha lhe vigiava os passos.

— O que é que ela pode fazer.

— Ora, Eduardo.

Estavam numa confeitaria — naquele lugar ele se encontrara uma vez com Antonieta, séculos atrás, tomara um vermute. Depois tinham ido ao cinema, beijaram-se pela primeira vez,

— Espera, vamos conversar com calma. Você tem mesmo certeza...

— Já disse.

— Eu digo se você... se foi mesmo naquele dia? Ela se ergueu vivamente:

— Eu sabia que você ia dizer isso. Já tinha resolvido a não lhe contar nada, você jamais ficaria sabendo. Foi você quem me telefonou, quem insistiu em se encontrar comigo. Você pense o que quiser, eu me arranjo sozinha.

— Se for questão de dinheiro...

— Não é questão de dinheiro. Adeus, Eduardo.

Ele a reteve pelo braço, quando ela já se dispunha a sair:

— Calma, menina! Me desculpe, estou meio confuso, mas também não precisa se ofender! Sente-se aí. É que eu... Uma vez só! Não contava com essa.

— Muito menos eu.

Ele a olhou com curiosidade. Estava pálida e agora mais do que nunca parecia uma mulher: os cabelos, o vestido, a bolsa, os sapatos de salto alto. Nada da menina de short que o excitava tanto, nas ausências de Antonieta. Meu Deus, pensou ele, essa mulher é uma perfeita desconhe­cida para mim.

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