Fev– 1999 Coordenação Geral do gipe-cit armindo Bião Equipe de Editoria



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Cadernos do GIPE-CIT N. 3
Os Novos Dramaturgos
Gil Vicente Tavares e Cláudia Barral

Fev– 1999
Coordenação Geral do GIPE-CIT

Armindo Bião


Equipe de Editoria

Christine Greiner (coordenação), Luiz Cláudio Cajaiba e Renata Pitombo


Diagramação

Antonio Firmo


Capa

André Mustafá


Revisão

Arthur Brandão

Juliana Gutmann



Universidade Federal da Bahia

GIPE-CIT. Escola de Teatro. Programa de Pós-Graduação

Ficha Catalográfica
Cadernos do GIPE-CIT: Grupo Interdisciplinar de Pesquisa e Extensão em Contemporaneidade, Imaginário e Teatralidade/ Universidade Federal da Bahia. Escola de Teatro, Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas. Escola de Dança. - n. 1, nov. 1998. - Salvador: UFBA/ PPGAC, 1998 –
n ; 21cm.

Irregular

ISSN 1516 - 0173



  1. Teatro-Periódicos. 2. Dança-Periódicos. 3. Etnocenologia-Periódicos. 4. Contemporaneidade e Imaginário-Periódicos. I. Universidade Federal da Bahia. Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas.

CDD 705


CDU 7(05)



Cadernos do GIPE número 3
Os novos dramaturgos

Sumário


Apresentação 7

Christine Greiner, coordenadora editorial do GIPE-CIT 7



Parte 1 – Gil Vicente Tavares 8

Ato Único (peça em 1 ato) 8

Canto Seco (peça em 1 ato) 17

Os Javalis (peça em 1 ato) 35

Quartos – Quatro Monólogos sobre Solidão 61

MONÓLOGO 1 (SEM TÍTULO) 61

MONÓLOGO 2 (SEM TÍTULO) 68

MONÓLOGO 3 (SEM TÍTULO) 74

MONÓLOGO 4 (SEM TÍTULO) 79

PARTE 2 - Cláudia Barral 84

A Conversa de Lucila 84



Apresentação

Cadernos do GIPE número 3 reúne uma coletânea de textos inéditos de dois jovens dramaturgos baianos: Gil Vicente Tavares e Claudia Barral.

Gil Vicente, filho do poeta e escritor Ildásio Tavares, tem 21 anos, é também músico e aluno de Direção da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia.

Cláudia Barral, 19 anos, aluna do curso de direção da Escola de Teatro da UFBA tem se destacado entre os talentos da nova dramaturgia baiana.

A coleção de Cadernos do GIPE vem publicando ensaios e artigos de pesquisadores ligados ao Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Contemporaneidade, Imaginário e Teatralidade da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia e, a partir deste número, amplia as suas possibilidades de atuação no meio editorial com esta reunião de textos teatrais que deverá ter prosseguimento, divulgando a obra de novos autores, para fertilizar, não apenas os meios acadêmicos, mas também os artísticos onde, a cada dia, os conhecimentos teórico-práticos parecem mais enamorados.

Mais do que uma proposta para o futuro, que os nossos leitores entendam este nosso desejo de divulgar os novos talentos como um convite e que nos enviem os seus textos inéditos para que sejam analisados e publicados!




Christine Greiner, coordenadora editorial do GIPE-CIT




Parte 1 – Gil Vicente Tavares

Ato Único (peça em 1 ato)



Personagens:
Mulher A

Mulher B
Minha loucura, outros que me a tomem



Com o que nela ia.”

(Fernando Pessoa, Mensagem).


ATO ÚNICO

(Mulher sentada. Uma das mãos enfaixada. Costura uma colcha.)
A - Ela não chegou. Já se passam duas horas e ela ainda não chegou.(Pausa). A porta entreaberta vai permitir que ela entre sem que me incomode. De ladrão não tenho medo, botei tudo no seguro. O relógio está quebrado. O cavalinho de vidro poderia até ser roubado, mas com a luz apagada ninguém vai ver. Sorte minha.(Pausa). No escuro ela não vai conseguir enxergar...(Barulho de vidro quebrando).
B (De fora) - Ôh de casa. A porta estava aberta...
A - A mesinha...
B (Entra) - Me desculpe, a luz estava apagada e...
A - Pode sentar.(Aponta a cadeira. B senta-se). Quantos anos?
B - Quem, eu?
A (Olha pra ela) - Menos de trinta, suponho!?
B - Mais ou menos.
A - Não parece. Achou a cadeira confortável?
B - Sim.(Pausa). Olha, eu trouxe as rosas que você pediu.
A - Que rosas?(Sorri pra si mesmo).
B - Vermelhas, rosas vermelhas. Deixei lá na frente, perto do piano. Tem algum problema?
A - Você ainda estuda música!?
B - Acabei de ganhar um concurso. Meu pai ficou muito orgulhoso.(Pausa). Isto foi no ano passado, um pouco antes de...
A (Larga a costura friamente, interrompendo) - Fale-me de seu pai.
B - Ele é bonito, alto, charmoso. Está um pouco pálido por causa dos remédios que ele toma...
A (Cortando) - Fale-me da vida de seu pai.
B - Todos os dias, uma mulher de branco troca suas roupas e lhe dá comida. Ele só sai de casa aos domingos. Vai ao Jockey-club em sua cadeira de rodas e aposta sempre no cavalo errado. Ele adora cavalos. No dia em que ganha alguma coisa, leva rosas pra minha mãe. Rosas vermelhas!
A - Você gosta de rosas vermelhas?
B - A primeira vez que eu ganhei foi de um namorado meu. O único. A gente nunca tinha se beijado, mas nesse dia eu agarrei ele e...(Pausa). Depois disso ele ficou com medo, eu cresci, fiquei feia e ninguém mais me mandou rosas, de qualquer cor que fosse. Só meu pai, quando as levava pra casa, é que me fazia lembrar o cheiro do primeiro beijo, com gosto de chiclete. Era moda na época. Beijar com chiclete.(Pausa). Depois eu vi a porcaria que era. Aliás, meus pais estavam certos. Beijar na boca é uma porcaria danada. É nojento. Minha mãe disse que José e Maria nunca beijaram de língua.
A - Eu já. E com chiclete...
B - Você gostou?
A - Você gostou?
B - A única coisa que eu gostei na vida foi de meu pai ter morrido. Nunca mais vou sentir o cheiro das flores me perseguindo, impregnando a casa toda...
A - Você não me falou da morte de seu pai. Ainda há pouco...
B - Foi hoje. Um pouco antes de eu vir pra cá. É por isso que eu estou de preto. Minha casa está toda de luto.
A - E sua mãe, não se abalou com a notícia?(Pega a costura do chão e volta a costurar).
B - claro que não, se foi ela quem matou!?
A - Ela o quê?
B - Foi. Foi por amor. Disse que não agüentava mais ver meu pai sofrendo, indo ao Jockey, essas coisas...
A - Você ajudou?
B - Mais ou menos. Fiquei lá embaixo, na sala de visitas, conversando com a mulher de branco, enquanto minha mãe sufocava ele.
A - Com o travesseiro.
B - Isso, exatamente!
A - De quem era o travesseiro?
B - Meu, por quê?
A - E você vai conseguir dormir nele depois de tudo o que aconteceu?
B - É claro que não. Vou lavar ele com bastante cuidado pra sair a baba, o sangue. Eu sempre fui muito asseada.
A - E você sabe lavar uma fronha...
B - No melhor aniversário de minha vida, minha mãe disse que eu podia ir ao Jockey com meu pai. Ela me arrumou toda, dos pés a cabeça. Botou um vestido vermelho em mim e um laço de fita no cabelo. Eu odiava trança, porque ficava puxando minha testa e dava dor de cabeça. Pedi pra minha mãe fazer um rabo de cavalo, já que estava indo ao Jockey e ela aceitou a desculpa. Toda festa que tinha eu sempre usava o mesmo vestido. Era amarelo...
A - Rosa.
B - Não, vermelho! Vermelho como suas rosas...
A - Continue.
B - Está bom. Onde foi que eu parei mesmo? Eu estava falando...
A - Da festa.
B - Isso! Pois é, nesse dia teve bolo, bola de soprar, minha mãe tinha convidado um bocado de gente. Meu pai que não gostava. Era chato pra ele pois não podia sair do quarto. A mulher de branco ia embora cedo e não tinha quem cuidasse dele.
A - E sua mãe? Não podia levar ele pelo menos até a sala? Ele fazia o quê à noite?
B - Geralmente eu ia estudar piano e ele ficava ouvindo. Ele odiava música...
A - E por que te ouvia?
B - Não tinha outro jeito, ele e o piano eram pesados demais pra eu ficar carregando de um lado para o outro.
A - Você não terminou a história do Jockey...
B - Ah, sim, já tinha até me esquecido. O dia mais feliz da minha vida! Eu sempre tinha sonhado em ver um cavalo de verdade, assim, na minha frente. Aqui na cidade a gente de vez em quando esquece que existe muita coisa por aí que respira, anda, precisa comer. Eu fiquei impressionada quando vi um cavalo comendo. Pra mim ele só servia pra correr, só sabia fazer isso. Era costume de meu pai visitar os cavalos. Ele sabia o nome de todos, mas o preferido dele era o “Sargento”, um cavalo bonito, todo branco; era o mais manso também. Deixou eu alisar a cabeça dele e até me deu um beijo. Meu pai sorriu e me levou pra tribuna de honra, porque ia começar a corrida. Lá de cima deu pra ver o “Sargento”, com uma espécie de roupa toda verde, igual ao meu vestido. Meu pai disse que daria sorte. Eu segurei no vestido e comecei a torcer de olho fechado. Só dava pra ouvir os gritos de meu pai. A cadeira de rodas dele ia pra frente e pra trás, e ele gritando mais alto, cada vez mais alto, meu ouvido já estava doendo quando de repente ele calou. Ficou aquele silêncio e eu comecei a abrir o olho, bem devagarinho. Meu pai estava rasgando o bilhete com um olhar de raiva e tristeza. Olhei pra minha mão e vi um pedaço do vestido, a bainha estava toda descosturada. Meu pai olhou pra mim e deu um sorriso.
A - Só isso?
B - Depois a gente foi tomar sorvete. Tinha que ser rápido pois minha mãe não gostava que meu pai chegasse tarde, ainda mais hoje, que era meu aniversário e eu tinha que tomar banho pra botar meu vestidinho amarelo. Meu pai tirou uns trocados do bolso, pagou o sorveteiro e me deu o resto pra comprar tudo de doce. Comprei um monte de chiclete e fui pra casa. Meu pai disse pra guardar pra depois da janta senão minha mãe ia brigar. quando cheguei em casa, minha mãe tinha ido ao cemitério. Era dia de finados e ela sempre visitava o vovô. Levava rosas e conversava com ele.
A - Como é que você sabe que ela conversava com o morto?
B - Porque eu já fui com ela. No início eu estranhava, ficava ali, sem ter o que fazer; até que achei um menino da minha idade pra conversar também. Na verdade não era conversa, porque só quem falava era eu. O menino ficava quieto o tempo todo. Minha mãe disse que ele tinha morrido entalado, talvez seja por isso. Talvez ele também não gostasse muito de conversa. Será?
A - E os chicletes, você fez o que com eles?
B - Meu pai estava tomando sopa. Ele me chamou só que eu não fui. Estava sem fome mesmo. Peguei os chicletes e botei todos na boca...
A - E a festa, o bolo, sua mãe tinha esquecido?
B - Botei todos na boca... de vez...

A - O vestidinho, os convidados?


B - Cheguei a pensar que ia ficar entalada, mas o cheiro do chiclete começou a ficar cada vez mais forte e aí me esqueci de tudo, só conseguia lembrar do meu primeiro beijo... minha mãe nunca soube... um beijo... com chiclete...
A - Você gostou?
B - Você gostou?
A (Para com a costura) - Você não gostaria de saber.
B - Ah, conta vai!
A - Não insista!
B - Conta!
A - Pare.
B - Por favor...(Pausa).
A - Está bem, eu conto. Mas antes traz as rosas.
B - Rosas vermelhas! Pode contar enquanto eu pego na sala. (Se levanta e vai saindo). Pode falar que eu estou ouvindo.
A - Meu primeiro beijo... meu pai era militar e quase nunca parava em casa. Quando aparecia era bêbado, fardado ainda, sempre mascando alguma coisa. Tinha a maior curiosidade de saber o que era, e descobri da pior forma possível. Aproveita que está aí e traz uns panos que eu deixei na cozinha...
B (De dentro) - Pode continuar que eu estou ouvindo.
A - Eu tinha começado a aprender piano. Toda vez que eu sentava pra estudar e meu pai estava em casa, ele vinha atrás de mim, com a desculpa que ia me ouvir tocar. Ele então sentava do meu lado, conferia se minha mãe estava na cozinha, e ia se aproximando de mim, cada vez mais perto, até que sua perna roçava na minha, sua arma me machucando, e começava a me tocar por debaixo da saia, beijava meu pescoço, minha boca, meus seios...
B (De dentro ainda) - Não achei os panos na cozinha não, vou ver se está na área de serviço.
A - Era sempre assim. O cheiro do álcool misturado com o suor da farda me davam mais nojo ainda. Pra mim, aquilo tudo era muito estranho. As poucas vezes que sua boca estava livre era pra me mandar continuar tocando. Ele dizia que se eu contasse pra mamãe, que ele ia me bater. Eu não sabia o que era pior.(Pausa). Até que um dia minha mãe descobriu tudo. Ela pegou o vaso de flores, enquanto meu pai me bolinava, e partiu pra cima dele. Meu pai viu a tempo e sacou a arma. Minha mãe parecia tão enfurecida que nem percebeu e continuou. Ele se apoiou no piano, deixando um acorde dissonante no ar, e atirou nela. Na mesma hora ela caiu.(Se concentra na costura). O vaso, as flores, o sangue, minha mãe tão mansa...(Pausa). Depois disso nunca mais vi ninguém, nunca mais ouvi ninguém... Agora eu costuro.
B (De dentro) - Não consegui achar os panos ainda. Quer que eu procure em outro lugar? Talvez no...
A - Olha...
B (Ainda de dentro) - Diz.
A - Já que está aí na sala, aproveita e toca uma música pra mim...
B - E as rosas?
A - Depois.
B - Se você prefere.(A sorri e B começa a tocar. A música vai aumentando à medida que A vai se exaltando).
A - Você toca bonito. Muito bonito mesmo. É lindo demais, lindo demais...(A música é cortada bruscamente)
C (Que será a mesma pessoa B, só que agora com outra maquiagem e vestida de enfermeira, ainda de dentro) - Falando sozinha de novo?
A - Hã!?
C (Entrando) - Eu conversei com o doutor, e ele disse que é perigoso botar outro espelho no seu quarto. (A olha a mão enfaixada). Parece que você vai perder seu eterno companheiro de conversa. (Coloca um xale em A e tenta lhe tomar a costura, A impede). Vamos dormir, sua cama já está pronta. (C sai amparando A carinhosamente até saírem de cena. A luz vai abaixando).

(CAI O PANO)


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