Filho pródigo o filho mais novo



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FILHO PRÓDIGO

O filho mais novo - o filho mais velho - o Pai

Francamente nunca tinha pensado em mim como sendo o filho mais velho. Quando essa hipótese começou a rodopiar na minha cabeça, a primeira coisa que pensei foi que, efectivamente, sou o mais velho dos meus irmãos. Em seguida, dei-me conta de quão obediente fui na minha vida. Nunca sai de casa, jamais perdi tempo nem desperdicei dinheiro em busca de satisfações sensuais; tampouco o meu coração ficou insensível por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida. Durante toda a minha vida fui responsável, tradicional, caseiro.

De repente vi-me de uma forma totalmente nova. Vi os meus ciúmes, ira, susceptibilidade, obstinação, ressentimento e, sobretudo, o meu subtil farisaísmo. Reconheci o muito de que me queixava e verifiquei que uma grande parte dos meus pensamentos e sentimentos eram fruto de ressentimento.

Sempre pensei em mim como sendo o filho mais novo, mas agora tenho toda a certeza de ser o filho mais velho. Era o filho mais velho, mas estava tão perdido como o seu irmão, embora tivesse ficado em casa toda a vida. Trabalhei na quinta do meu pai, mas nunca saboreei completamente a alegria de estar em casa. Em vez de me sentir grato por todos os privilégios que recebi, converti-me numa pessoa ressentida: ciumento dos meus irmãos e irmãs mais novos que tão à aventura tinham andado e que, apesar de tudo, eram tão calorosamente recebidos.

 

* Chamado a ser o Pai



Foi durante um período de imensa tristeza interior que um dos meus amigos pronunciou a palavra que precisava de ouvir: "Podes ter sido o filho mais velho, podes ter sido o filho mais novo, mas fica ciente que és chamado a ser o Pai!".

Estas palavras foram como um balde de água fria! Após muitos anos, nunca tinha reparado que o Pai era quem melhor exprimia a minha vocação. Foi então que pensei: «tens andado toda a vida à procura de amigos, implorando afecto; interessando-te por mil coisas, suplicaste que te apreciassem, que te quisessem, que te considerassem. Chegou a hora de assumires a tua verdadeira vocação: ser um pai capaz de acolher os filhos em casa sem lhes pedir explicações e sem lhes pedir nada em troca. Olha para o Pai e verás aquele que és chamado a ser. Os outros não precisam que tu sejas um bom amigo, nem um bom irmão. Têm  necessidade de encontrar em ti um pai capaz de reclamar para si a autoridade da verdadeira compaixão».

Chegar a ser pai foi uma luta lenta e muito dura; as vezes sinto o desejo de permanecer no papel do filho e de nunca crescer. Mas é necessário ser pai por saborear a alegria dos filhos que regressam à casa, a alegria de lhe impor as mãos num gesto de perdão e bênção. Ser um pai que já não faz perguntas, pois o que deseja mais do que tudo é acolher os filhos em casa

 

FILHO MAIS NOVO



A partida do filho mais novo é um acto muito ofensivo. Pressupõe a rejeição do lar em que o filho nasceu e foi alimentado. É uma rotura com a tradição cuidadosamente observada pela comunidade de que fazia parte. Mais que uma falta de respeito, é a traição dos valores da família e da comunidade. O país longínquo representa o mundo que ignora tudo o que em casa era considerado sagrado.

Não foi fácil para mim reconhecer-me no filho mais novo. Foi duro descobrir na minha vida uma rebelião tão contundente. Não me reconhecia como rejeitando os valores da minha própria herança. Mas quanto mais me detenho a pensar nos subtis caminhos por onde andou a minha vida, melhor vejo que preferi a terra distante ao lar, e então o filho mais novo surge rapidamente. Refiro-me a um abandono do lar espiritual, que é diferente do facto físico de ter passado a maior parte da vida fora da minha pátria.

Considerando o amor infinito e sem fronteiras que é revelado na parábola do Evangelho e situando a minha historia sob a luz do amor divino, vejo claramente a relação entre o abandono do lar e a minha própria experiência espiritual.

Deixar o lar é muito mais que um simples acontecimento concreto: é a negação da realidade espiritual de que pertenço a Deus, de que Deus me tem à salvo num abraço eterno. Deixar o lar significa viver como se não tivesse casa e me visse obrigado a andar à procura de alguma.

 

* O lar é o centro do meu ser



O lar é o centro do meu ser, o centro onde posso ouvir a voz que me diz: "tu és o meu filho muito amado". É a voz que fala a todos os filhos de Deus. É a voz do Amor que não cessa de amar. É a voz que fala desde a eternidade e que dá vida e amor onde quer que seja escutada. Quando a oiço, sei que estou em casa com Deus e que não preciso de ter medo de nada, "mesmo que atravesse os vales sombrios, nenhum mal temerei" (Sl 23).

Como amado, posso lutar seja contra o que for, consolar, admoestar e animar, sem receio de ser rejeitado, sem necessidade de afirmação. Como amado, posso sofrer perseguição sem sentir desejos de vingança; posso receber louvores sem ter que recorrer a eles para provar a minha bondade. Como amado, posso ser torturado sem duvidar, por pouco que seja, de que o amor que me é dado, é mais forte que a morte. Como amado sou livre para receber, livre para amar, livre até para morrer.



Jesus fez-me compreender que também eu posso escutar essa voz que ele escutou no rio Jordão e no Monte Tabor: "tu és meu filho muito amado". Fez-me ver claramente que eu, tal como Ele, tenho a minha morada junto do Pai. Esta morada sempre ali esteve e sempre ali estará: no santuário íntimo do meu coração.

 

* Abandonar a minha casa



Abandonei o lar uma e outra vez. Fugi das mãos benditas do Pai e corri para lugares longínquos à procura de amor! Esta é a grande tragédia da minha vida e da vida de tantos e tantos que encontro pelo caminho. Fiz-me surdo à voz que me chama: "meu filho muito amado".

Abandonei o único lugar onde posso ouvir essa voz. Tudo isto à partida soa a incrível. Quanto mais penso nisto, maior consciência tenho de que a verdadeira voz do amor é uma voz muito suave que me fala dos pontos mais recônditos do meu ser. Não é uma voz ruidosa que se imponha e exija atenção. É como a voz dum Pai, quase cego, que muito chorou e muitos combates travou por causa dos filhos. É uma voz que só pode ser escutada por aqueles que se deixam tocar.

 

 * Escutar outras vozes



Há muitas outras vozes, vozes fortes, muito sedutoras. Estas vozes dizem: "Sai e mostra o que vales". É a mesma voz que tentou Jesus no deserto. Estas vozes não me são desconhecidas. Estão sempre presentes e sempre atingem o mais íntimo de mim mesmo. Elas tocam o ponto onde me interrogo sobre a minha bondade e duvido do meu valor. Sugerem-me que, por meio de uma série de esforços e de um trabalho muito duro, alcançarei o direito de ser amado. Querem que me prove a mim mesmo e aos outros, que mereço que me queiram, e impelem-me a que faça tudo o possível para ser aceite. Negam que o amor seja um dom totalmente gratuito. Deixo o lar cada vez que perco a confiança na voz que me chama: "filho muito amado".

É o caso das vozes que me propõem uma imensa variedade de formas para alcançar o amor que tanto desejo. Cólera, ressentimentos, ciúmes, desejos de vingança, luxúria, cobiça, antagonismos e rivalidades, são os sinais que me indicam que eu sai de casa. E acontece com bastante facilidade.

Se parar a pensar o que me passa pela cabeça, chego à conclusão de que são muitos poucos os momentos do dia em que me sinto realmente livre destas emoções, paixões e sentimentos obscuros. Caio constantemente na mesma armadilha e, antes de ter disso plena consciência, pergunto a mim próprio o motivo de alguém me ter feito mal, me ter rejeitado ou não me ter dado atenção. Sem me dar conta ando obcecado pelo êxito, pela minha solidão e pela maneira como o mundo abusa de mim. Apesar dos meus constantes esforços, sonho acordado, frequentemente imaginando ser rico, poderoso e famoso.

Todos estes jogos mentais me revelam a fragilidade da minha fé em que sou o filho muito amado, aquele em que repousa o amor de Deus. Tenho tanto medo de não agradar, de que me censurem, me ponham de lado, não contem comigo, me persigam, me matem, que estou continuamente a inventar novas estratégias para me defender e me certificar do amor que penso necessitar e merecer. E ao faze-lo, afasto-me cada vez mais do meu pai e opto por viver num país longínquo.

 

* Procurando no país longínquo



A quem pertenço, a Deus ou ao Mundo? Muitas das minhas preocupações diárias sugerem-me que pertenço mais ao mundo de que a Deus. Qualquer pequena crítica me aborrece, qualquer pequena contradição me deprime. Qualquer pequena oração basta para me levantar o ânimo e fico emocionado com qualquer pequeno êxito. Animo-me com a mesma facilidade com que me deprimo.

Frequentemente sou como um pequeno barco no oceano, completamente à mercê das ondas. Todo o tempo e energia que gasto a manter um certo equilíbrio para não cair, prova-me que a minha vida é, sobretudo, uma luta pela sobrevivência; não uma luta sagrada, mas uma luta inquieta, provocada pela ideia errada de que é o mundo que dá sentido à  minha vida.

Enquanto ando a correr por todo o lado e a perguntar se gostam de mim, estou a dar importância às vozes do mundo e ponho-me no lugar do escravo. O mundo me diz que gosta de mim se for elegante, inteligente, se gozar de boa saúde; se for bem educado, se tiver uma boa colocação e bons contactos; se produzir muito, se vender muito e comprar muito. O mundo põe muitas condiciones para merecer o amor.

Enquanto continuar a procurar o meu verdadeiro eu no mundo, no amor condicional, continuarei preso ao mundo, projectando, falhando, voltando a projectar. O mundo fomenta as dependências porque o que oferece não pode satisfazer no mais íntimo do coração.

 

* Porque continuo a ignorar o lugar do verdadeiro amor?



Estou muito espantado por continuar a receber os presentes de Deus, a saúde, os dons intelectuais e afectivos, e continuar a utiliza-los para impressionar as pessoas, para me afirmar, em vez de os utilizar para a glória de Deus. É verdade, muitas vezes levo-os comigo para a terra distante e ponho-os ao serviço do mundo que os explora e não reconhece o seu verdadeiro valor. E quase como se quisesse provar-me a mim mesmo e ao mundo que não preciso do amor de Deus, que posso viver sozinho, pensando em mim, querendo ser totalmente independente.

Por detrás de tudo isto está a verdadeira rebelião: o não rotundo ao amor do Pai. O não do filho pródigo reflecte a rebelião original de Adão: a rejeição de Deus, cujo amor fomos criados e cujo amor nos sustenta. É a rebelião que me põe fora do jardim, fora do alcance da árvore da vida. É a rebelião que me incita a afastar-me para um país longínquo.

 

* O que se passa no país longínquo



A sequência dos acontecimentos adivinha-se com facilidade. Quanto mais me afasto do lugar onde Deus habita, menos sou capaz de ouvir a voz que me chama: "meu filho amado"; e quanto menos oiço esta voz, mais me enredo nas manipulações e jogos de poder do mundo.

Passa-se qualquer coisa como isto: não tenho a certeza de ter um lar e vejo outros que parecem estar melhor de que eu. Então pergunto-me como poderia chegar onde eles estão. Esforço-me por agradar, ter êxito, ser reconhecido. Quando fracasso sinto ciúmes e ressentimentos contra eles. Torno-me desconfiado, ponho-me na defensiva e entro em pânico ao pensar que não vou conseguir o que quero ou perder o que tenho.

Apanhado nesta rede de desejos e necessidades, já não sei quais são as minhas motivações. Sinto-me vitima do ambiente e desconfio do que fazem e dizem os outros. Sempre alerta perco a liberdade interior e divido o mundo entre os que estão comigo e os que são contra mim. Pergunto, então, se alguém se importa realmente comigo. Começo a procurar argumentos que justifiquem a minha desconfiança. E como os encontro a toda a parte, concluo que já não posso confiar em ninguém. Pergunto-me ainda se alguma vez alguém gostou de mim. O mundo tolda-se à minha volta. O meu coração endurece-se. O meu corpo enche-se de tristeza. A minha vida deixa de ter sentido. Estou perdido.

 

* O desejo de voltar



Embora tivesse perdido tudo, dinheiro, amigos, reputação, dignidade, paz interior, ainda continuava a ser filho. O regresso do filho mais novo dá-se no preciso momento em que ele reclama a sua dignidade filial, apesar de a ter perdido. Parece que foi preciso perder tudo e olhar para trás, para o pródigo entrar na profundidade do próprio ser. O Ter recuperado a consciência de, apesar de tudo, ser filho, ele pude ouvir - embora quase imperceptivelmente - a voz de Deus que o chamava «amado».

 

* O longo caminho do regresso



Ando sempre envolvido em diálogos intermináveis com interlocutores ausentes, antecipando as suas perguntas e preparando as minhas respostas, como o filho pródigo: "pai pequei contra o céu e contra de ti, já não mereço chamar-me teu filho. Trata-me como um dos teus empregados". Eu próprio fico surpreendido com a energia emocional contida nestas conversas interiores.

Sim, volto para a minha casa ... mas porque tantos preparativos de discursos que nunca pronunciarei? A razão é obvia. Enquanto reclamo a dignidade de filho, continuo a viver como se Deus, para quem regresso, me vá exigir explicações. Considero ainda o seu amor como um amor condicional, e o lar como um lugar ainda não totalmente seguro.

Enquanto caminho para casa, tenho dentro de mim dúvidas sobre se serei realmente bem recebido. Penso na mia trajectória espiritual e reconheço que durante a minha longa viagem de regresso vivo sentimentos de culpabilidade por causa do passado e de preocupação para o futuro. Tomo consciência dos meus fracassos e da perda da minha dignidade de filho amado. Não consigo imaginar a possibilidade de retomar o lugar que me competiria como filho. Não é fácil chegar à fé cega no total e absoluto perdão.

 

* Um regresso cheio de ambiguidades



O regresso do filho pródigo está cheio de ambiguidades. Ele reconhece que seria mais bem tratado como escravo na casa do seu pai do que como pária em terra estrangeira; no entanto está longe de se fiar do amor do pai. Sabe de ser filho, mas se prepara para aceitar a condição de escravo. É sim arrependido, mas não é um arrependimento à luz do imenso amor de Deus; é um arrependimento para ter a possibilidade de sobreviver. Deus é o último recurso que lhe resta e continua e ser visto como um Deus severo, um Deus justiceiro, um Deus que lhe faz sentir o peso da culpa. A submissão a este Deus não lhe confere uma verdadeira liberdade interior; apenas consegue alimentar a amargura e o ressentimento.

Um dos grandes desafios da vida espiritual é receber o perdão de Deus. Há qualquer coisa em nós que nos faz ficar presos aos nossos pecados e nos impede de chegar a um verdadeiro arrependimento e a uma verdadeira reconciliação. Ás vezes parece que quero demonstrar a mim mesmo e a Deus que a minha obscuridade é grande demais para ser superada. Enquanto Deus quer devolver-me a minha dignidade filial, eu continuo a afirmar que me contentaria com ser um empregado.

Será que quero realmente que me seja devolvida toda a dignidade e responsabilidade de filho? Será que desejo ser totalmente perdoado? Terei fé suficiente em mim para uma conversão tão radical? Desejo realmente acabar com a rebelião contra Deus e render-me ao seu amor tão absoluto que pode fazer surgir em mim uma pessoa nova?

Receber o perdão de Deus implica a vontade de deixar que Deus seja Deus; implica deixar que Ele me cure, me renove profundamente. Sempre que quero fazer sozinho acabo sempre por me conformar com soluções do tipo "converter-me em empregado". Como empregado posso continuar a manter a distância, a ser rebelde ou queixar-me do salário. Mas se for filho amado, tenho que reclamar a minha dignidade e assumir a minha verdadeira vocação: ser pai.

 

O FILHO MAIS VELHO



É para mim muito duro reconhecer que, espiritualmente, estou próximo do filho mais velho: este homem azedo, ressentido e aborrecido. Na verdade, quanto mais penso no filho mais velho, mais me revejo nele.

São os filhos mais velhos que querem corresponder em tudo às expectativas dos pais e desejam ser considerados obedientes e cumpridores em tudo. Querem sempre agradar e temem desiludir os pais. Mas também experimentam, desde muito cedo, uma certa inveja dos irmãos mais novos que parecem menos preocupados em agradar e revendicam a liberdade e a própria autonomia.

É este o meu caso: sempre me senti atraído, de uma forma estranha, para levar uma vida desobediente, o que nunca me atrevi a fazer, mas que vi fazer a muitos outros à minha volta. Sempre fiz  o que me pediram os pais, os professores, os directores espirituais ..., mas ao mesmo tempo pergunto a mim mesmo qual a razão de nunca ter tido a coragem de me afastar, como fez o filho mais novo. Parece estranho dizer isso, mas no fundo, tive inveja do filho desobediente.

A vida obediente e serviçal de que me orgulho parece-me como uma carga que me puseram nos ombros e que continua a oprimir-me. Por isso é que não me custa identificar-me com o filho mais velho. A obediência converteu-se numa carga pesada e o serviço em escravidão.

Há muitos filhos mais velhos que andam perdidos, apesar de permanecerem em casa. O juízo, a condenação, a ira, o ressentimento, a amargura e o ciúme são os sinais deste afastamento espiritual.

Frequentemente pensamos no "extravio" como um acto espectacular. O filho mais novo pecou numa forma visível. A sua perdição é obvia: malgastou o dinheiro, o tempo, os amigos, o próprio corpo. Insurgiu-se pela luxúria e pela cobiça. Depois, vendo que aquela conduta apenas lhe acarretava miséria, reflectiu, voltou e pediu perdão. O filho mais novo representa o clássico erro humano que acaba em bem.

Pelo contrário, o extravio do filho mais velho é muito mais difícil de identificar. Tudo o que ele faz parece bem feito. As pessoas respeitam-no, admiram-no, consideram-no como um filho exemplar. Aparentemente ele não tem defeitos. Mas quando viu a alegria do pai por causa do regresso do irmão mais novo, algo de oculto manifestou-se. De repente apareceu a pessoa ressentida, orgulhosa, severa e egoísta que estava escondida e que, com os anos, se tornara mais forte e poderosa.

Há muito ressentimento, julgamento e condenação entre os "justos" e os "rectos". Há muita ira entre as pessoas preocupadas em evitar o pecado. O extravio do filho mais velho é tão difícil de reconhecer precisamente por estar estreitamente ligado ao desejo de ser bom e virtuoso.

 

* O filho mais velho: sem alegria em casa



Na queixa do filho mais velho da parábola, descubro o filho mais velho que há dentro de mim. Dou comigo a queixar-me, frequentemente, por causa de pequenas rejeições, faltas de consideração ou descuidos. Observo dentro de mim, frequentemente, um rumor surdo, um gemido, uma queixa, um lamento, que cresce, cresce, mesmo sem querer. Quanto mais me refúgio nele, mais complicado se torna. Há uma enorme força oculta nesta queixa interior. A condenação dos outros, a condenação de mim mesmo, o farisaísmo e a rejeição vão crescendo cada vez mais e tendo mais força. Sempre que me deixo seduzir por ela, enreda-me numa interminável espiral de rejeição. Quanto mais penetro no labirinto das minhas queixas, mais e mais me perco, até que, por fim, me sinto a pessoa mais incompreendida, mais rejeitada e mais desprezada do mundo.

De uma coisa estou certo: queixar-me é contraproducente. Sempre que me lamento de qualquer coisa com a esperança de inspirar sentimentos de compaixão e de assim obter satisfação o resultado é sempre o oposto do que pretendo conseguir, isto é a uma rejeição ainda pior. Compreendo agora a incapacidade do filho mais velho de partilhar a alegria do pai.

O irmão mais novo voltou, há festa em casa, mas nele se vislumbra o receio de que o tenham mais uma vez excluído, de ficar sempre à margem das coisas. O criado é ansioso, confiante e desejoso de lhe comunicar a boa noticia: "o teu irmão voltou e o teu pai matou o vitelo gordo porque o recuperou são e salvo". Mas este grito de alegria não foi bem recebido; em vez de alívio e gratidão, produziu nele ressentimento. A música e os cantos de festa tornaram-se, para ele, causa duma maior rejeição.

 

* Uma questão em aberto



A parábola do filho mais velho não tem um fim feliz. Deixa-nos frente a frente com um dos mais difíceis dilemas espirituais: confiar ou não confiar no amor de Deus que perdoa tudo. Só eu posso escolher, ninguém pode fazê-lo na minha vez. O ressentimento do filho mais velho não se percebe com facilidade e não pode ser tratado racionalmente. É bom ser obediente, serviçal, trabalhador e cumpridor da lei, mas os ressentimentos do filho mais velho parecem estarem misteriosamente ligados a estas louváveis virtudes.

É claro que, sozinho, não posso encontrar-me. É muito mais difícil curar o filho mais velho do que o filho mais novo. Experimento a impossibilidade da auto-redenção. Entendo melhor agora as palavras de Jesus a Nicodemos: "é preciso renascer". Isto é, tem de acontecer em mim algo que eu não posso fazer acontecer. Não posso voltar a nascer, o não posso fazer com as minhas forças, com a minha inteligência, com as minhas ideias. Mas, o que para mim é impossível, é possível a Deus.

O pai quer que ambos os filhos regressem. Também o filho mais velho precisa de ser conduzido à casa da alegria. Irá ele responder à súplica do seu pai, ou ficará bloqueado na sua amargura? O Evangelho deixa em aberto esta questão.

 

* Una conversão possível



Ambos os filhos apontam para um esforço espiritual que é necessário fazer. O dois irmãos não são qualificados como um bom e outro mau. O Pai ama-os e corre ao encontro de um e do outro convidando-os à mesa, a participar da sua alegria. Não sabemos qual foi a resposta do filho mais velho, mas para mim, é de crucial importância que esta conversão seja possível também para ele.

Jesus revelou que Deus ama também o filho mais velho: "Filho tu estas sempre comigo e tudo o que é meu é teu". É nestas palavras que devo prestar atenção, deixando-as penetrar até ao centro de mim mesmo. Deus chama-me "meu filho".

As censurar duras e azedas do filho mais velho não recebem em troca palavras de condenação. Não há nenhuma recriminação nem acusação. O pai não faz nenhum comentário acerca do comportamento do filho mais velho: passa por cima de qualquer apreciação; sublinha simplesmente a relação íntima que já existe entre eles, embora esse filho ainda não a tenha percebida: "tu estas sempre comigo". Esta declaração de amor incondicional anula qualquer possibilidade de pensar que o filho mais novo é mais querido que o filho mais velho.

 

* Pôr de parte a rivalidade



Na casa do pai há muitas moradas, cada filho tem o seu lugar, portanto tenho que pôr de lado todo o intento de fazer comparações. Tenho que abandonar a rivalidade e a competição e render-me ao amor incondicional do Pai. Preciso, para tal, de dar um salto de fé, pois tenho muita pouca experiência do amor incondicional do Pai e desconheço a força do amor. Enquanto permanecer fora, na escuridão, fazendo comparações, só encontro motivos de queixa e ressentimento. Fora da luz, o meu irmão mais novo parece-me mais querido do Pai do que eu; ainda mais, fora da luz, nem sequer o reconheço como meu irmão!

Deus implora-me que volte para a casa, que volte a entrar na sua luz, para descobrir de novo que, Nele, todas as pessoas são amadas, única e totalmente. Na luz de Deus, vejo que o meu irmão, o meu próximo, pertence a Deus tanto como eu. Fora da casa de Deus, irmãos e irmãs, maridos e mulheres, amantes e amigos, convertem-se em rivais e até em inimigos; cada um deles vive dominado pelo ciúme, pela desconfiança e pelo ressentimento.

Reconheço, de facto, quão perdido anda o filho mais velho. Converteu-se num estranho dentro da própria casa: não é capaz de confessar os seus pecados, nem sequer é capaz de receber o perdão. Haverá alguma saída? Não creio que a possa encontrar sozinho.

Não posso perdoar-me a mim mesmo. Não posso obrigar-me a sentir amor. Posso desejar, esperar, rezar, mas não posso fabricar a minha verdadeira liberdade. A história do filho pródigo é a história de Deus que me procura e que não descansa até me encontrar.

 

* Ter confiança e gratidão



Sem confiança não posso deixar-me encontrar. A confiança é a convicção profunda de que o Pai me quer em casa. Se desconfiar, acho que não mereço ser encontrado e penso que gostam menos de mim do que os meus irmãos mais novos, enfim, não me deixo encontrar. Devo convencer-me de que Deus está à minha procura, seja onde for, para me encontrar. Ele ama-me, quer-me em casa, não descansa até que não estiver ao pé dele.

Mas oiço em mim uma outra voz, muito forte e perigosa, que me diz precisamente o contrário, isto que Deus não se interessa de mim, prefere o filho mais novo, pecador arrependido, que volta à casa depois de ter esbanjado tudo. De mim, que nunca abandonei o lar, não faz caso. Não sou o seu favorito. Não creio que me vai dar o que realmente desejo. Preciso de uma grande energia espiritual para acreditar que o Pai gosta de mim e me quer em casa como o filho mais novo. Preciso alcançar um grande auto-domínio para superar as queixas de sempre e pensar, dizer e agir convencido de que Deus está ainda à minha procura. Sem este auto-domínio volto a cair no desespero.

Se desconfiar, pensando que não sou suficientemente importante para ser encontrado, as minhas queixas aumentam, até chegar a ficar completamente surdo à voz de Deus que me chama. Devo portanto dizer "não" a essa voz de auto rejeição e proclamar a verdade de que Deus me quer realmente abraçar, tal como abraça os meus irmãos mais novos. Esta confiança precisa de se tornar cada vez mais profunda, mais forte de que a sensação de extravio.

A par desta confiança deve andar a gratidão, que é o oposto do ressentimento; é este que bloqueia a percepção e a experiência da vida como dom e me diz que nunca me dão o que mereço. A gratidão, no entanto, vai além de qualquer pensamento egoísta; exige o reconhecimento de que tudo na vida é puro dom.

Sempre pensei que a gratidão fosse uma resposta espontânea aos dons recebidos, mas agora começo a perceber que também pode ser entendida como um estilo de vida. A lei da gratidão é o esforço explícito por reconhecer que tudo o que sou e tenho foi-me dado como dom de amor, dom a receber com simplicidade e alegria.



A gratidão é uma escolha consciente. Quando estou dominado pelos sentimentos de dor e ressentimento posso sempre optar pela gratidão. E são certamente muitas as vezes em que posso optar pela gratidão em vez de me queixar e lamentar, por exemplo, quando me criticam, embora o coração reaja com amargura.

Posso falar da bondade e da beleza mesmo quando o meu coração resmunga, preso em sentimentos de vingança. Posso escolher a atitude do perdão e dar atenção aos rostos que sorriem. É sempre possível escolher entre ressentimento e gratidão porque Deus surgiu na minha escuridão, me animou a voltar à casa dizendo-me que está sempre comigo e que tudo o que é dele é meu.

Posso optar por viver nas trevas, posso lamentar-me das inúmeras desgraças que sofri no passado e deixar-me absorver pelo ressentimento; mas posso também optar por olhar para Deus que anda à minha procura e reconhecer que tudo o que sou e tenho é puro dom, pelos quais devo agradecer.

É raro conseguir esta opção sem um grande esforço; no entanto, cada vez que a faço, a opção seguinte torna-se um pouco mais fácil, um pouco mais livre, um pouco mais espontânea.

Quem não agradece pelo pouco, também não agradece pelo muito. Fazendo actos de gratidão, a pessoa torna-se cada vez mais agradecidas pois, aos poucos vai reconhecendo que tudo é graça.

A confiança e a gratidão exigem a coragem de correr riscos; não é sempre fácil superar os sentimentos de desconfiança e os ressentimentos. Tenho de dar um salto na fé em muitas ocasiões: escrever uma carta amável a quem ofendi, telefonar a quem me rejeitou, dizer uma palavra de alento a alguém incapaz de a dizer. O salto de fé significa amar sempre, sem esperar de ser amado, dar sem pretender de receber, convidar sem esperar de ser convidado, abraçar sem pedir nenhum abraço.

Todas as vezes que dou um pequeno salto vejo um reflexo do Pai que corre ao meu encontro e me faz participar da sua alegria. A confiança e a gratidão revelam aquele Deus de amor que me procura e que deseja ardentemente que todos os meus rancores e queixas desapareçam, para me permitir que me sente a seu lado no banquete celestial.

 

* O verdadeiro filho mais velho



Para mim, o regresso do filho mais velho é um facto importante, não menos importante de que o regresso do filho mais novo. Como será o olhar dele quando ficar livre da ira, do ressentimento e do ciúme? A parábola não diz nada sobre a resposta do filho mais velho, pertence a cada um optar: ou escolher o Pai, ou continuar presos da auto-rejeição. Esta parábola foi contada por Jesus para a minha conversão.

 

 



O PAI 

O Pai deseja ficar com os filhos, adverti-los dos perigos e convencê-los que em casa podem encontrar tudo o que procuram em outros lugares. Ele gostaria de os salvar dos perigos com a sua autoridade paterna, mas não pode forçar, obrigar ou pressionar. Dá liberdade para rejeitar esse amor ou para lhe corresponder. Por isso é que a intensidade do amor divino é também causa de divino sofrimento. Deus, criador do céu e da terra, escolheu ser, em primeiro lugar e acima de tudo, um Pai.

O Pai deseja que os filhos sejam livres para amar. Esta liberdade inclui também a possibilidade de se afastar, de irem embora para um pais longínquo e perder tudo. Deseja que os filhos que ficarem em casa gozem da sua presença e da sua afeição. Quer oferecer um amor que seja recebido livremente.

Deus sofre quando os filhos o honram com os lábios e não com o coração. Conhece as línguas enganadoras e os corações mentirosos, mas não pode obrigá-los a amar. Como Pai, a única autoridade que reclama e a paternidade da compaixão: por isso os pecados dos filhos lhe penetram no coração. Não há luxúria, cobiça, ira, ressentimento, ciúmes ou vingança no filhos perdidos que não lhe cause uma dor imensa. É a partir do coração que o Pai abraça toda a dor humana e chega até aos filhos.

É nesse Deus que quero acreditar: um Pai que abraça os filhos com misericórdia, sem forçar ninguém, mas esperando sempre que os filhos regressem para lhe poder dizer palavras de amor e para deixar que, cansados, repousem nos seus ombros. Um pai que não castiga porque os filhos já receberam demasiados castigos por causa dos seus caprichos.

As mãos do Pai abençoaram-me no preciso momento em que foi concebido, deram-me as boas vindas quando nasci, sustentaram-me junto ao peito maternal, alimentaram-me e deram-me calor. Protegeram-me em momentos de perigo e consolaram-me em momentos de dor. Disseram-me adeus e deram-me as boas vindas. Foram as mãos de Deus, mas também as mãos dos meus pais, professores, amigos, superiores e de todas as pessoas que Deus pôs no meu caminho para me lembrar como vivo em segurança.

 

* Nem mais nem menos



Apesar de o Pai transbordar de alegria pelo regresso do filho mais novo, não se esquece do mais do velho. É verdade que o filho mais velho não sabia o que aconteceu. O Pai não teve o tempo de o avisar. A sua alegria era tão grande que mal podia aguardar que a festa começasse. Mas, quando ele chegou, deixou tudo, saiu fora para o receber e pediu-lhe que se lhe juntasse.

O filho mais velho, entre ciúmes e amargura, só percebe que ao seu irresponsável irmão se presta mais atenção do que a ele e chega à conclusão de que gostam menos dele. No entanto o coração do Pai não esta dividido. A reacção livre e espontânea do Pai não inclui nenhuma comparação. Pelo contrário deseja que também este participe na sua alegria.

Não me é fácil compreender isto. Não é fácil acreditar num amor totalmente gratuito e livre de qualquer comparação. Se ouço elogiar alguém, tenho muita dificuldade em não pensar porque é que eu não mereço que me louvem; se leio alguma coisa sobre a bondade e a grandeza das outras pessoas, tenho muita dificuldade em não me perguntar porque eu não sou tão bom como elas; e se vejo atribuir troféus, prémios e recompensas a certas pessoas, não posso impedir de me perguntar porque não os dão também a mim.

O nosso Deus, que é Pai e Mãe, não faz comparações. Embora, com a inteligência, eu saiba esta verdade, tenho muita dificuldade em aceitá-la, com todo o meu ser. Se oiço dizer que alguém é filho predilecto ou filha predilecta, a minha reacção imediata é que há outros filhos menos estimados, menos queridos. Não consigo compreender como é que todos os filhos de Deus possam ser predilectos. Mas assim é.

Quando penso no Reino de Deus, logo me vem à cabeça a ideia de um Deus-polícia, com um enorme marcador celestial, e receio sempre não atingir a pontuação necessária. Mas  quando penso nas boas-vindas de Deus ao mundo, descubro que Deus ama com amor divino, um amor que dá a cada homem e a cada mulher na sua unicidade, sem nunca fazer comparações.

O irmão mais velho compara-se com o mais novo e sente ciúmes. Mas o Pai não faz nenhuma comparação: ama-os ambos. Na parábola dos trabalhadores (Mt 20,1-6), Deus não faz comparações: dá a mesma paga a todos, quer os trabalhadores da prima hora, que suportaram o peso do dia, quer aos últimos chegados. Também aqui surge no meu coração um sentimento de indignação.

Nunca pensei em que o dono queria que os trabalhadores das primeiras horas ficassem contentes ao ver a sua generosidade para com os últimos a chegar. Nunca me passou pela cabeça que os que trabalharam todo o dia haviam de ficar contentes por terem podido trabalhar para aquele patrão tão generoso. Portanto, é necessária uma mudança de mentalidade que me leve a não fazer nenhuma comparação. Essa é a mentalidade de Deus. Deus considera a todos como filhos de uma família e fica feliz para todos, quer que fizeram pouco, quer que fizeram muito.

Por isso Ele diz, com o desapontamento de um amante incompreendido: «Porque estas com ciúme por eu ser tão generoso?». É o mesmo desapontamento que brota do coração do pai ao dizer ao filho ciumento: «Filho, tu estas sempre comigo e tudo o que é meu é teu!».

Aqui radica o grande chamamento à conversão: não ver com os olhos da minha baixa estima pessoal, mas com os olhos do amor de Deus. Se olhar para Deus como um proprietário qualquer que quer tirar de mim o máximo a baixo custo, não posso deixar de sentir ciúmes, amargura e rancor. Mas se for capaz de olhar para o mundo com os olhos do amor de Deus e descobrir que a maneira de Deus ver não é a de um proprietário, mas dum pai que tudo dá e tudo perdoa. Ele não mede o seu amor pelos filhos segundo o seu bom comportamento, então vejo imediatamente que a minha única resposta tem de ser uma profunda gratidão.

 

* O coração de Deus



Não há duvida quanto ao modo de ser do coração do pai. Ele vai ao encontro dos dois filhos, gosta de um e do outro, espera vê-los juntos como irmãos ao redor da mesma mesa. Embora sejam diferentes, quer que sintam que pertencem à mesma casa e que são filhos do mesmo pai.

Se deixar que tudo isto se grave no meu íntimo, verei que a parábola do pai e dos dois filhos perdidos, apenas confirma que não fui eu que escolhi Deus, mas foi Ele que me escolheu a mim. Deus ama-nos com um amor ilimitado e incondicional e quer que nós sejamos tão carinhosos para com Ele.

Ao longo de toda a minha vida tenho lutado por encontrar Deus, por conhecer Deus, por amar a Deus. Mas, agora, pergunto-me se durante todo este tempo tive consciência de que Deus andava a minha procura. A questão não é "como hei de encontrar Deus?", mas "como hei de deixar que Deus me encontre?". A questão não é "Como vou amar a Deus?", mas sim: "Como vou deixar-me amar por Deus?". Deus anda por longe à minha procura, tratando de me encontrar e desejando levar-me para casa.

Porque é que Jesus come com os pecadores? Porque Ele é o Bom Pastor que vai à procura da ovelha perdida. Deus é o Pai e vai à procura dos filhos perdidos. Por estranho que pareça, Deus deseja encontrar-me mais do que eu desejo encontrar-me com Ele. Não fica em casa sentado à espera que os filhos voltem; não esta à espera que peçam desculpa, que peçam perdão e que prometam emendar-se. Pelo contrário, abandona a casa, sem fazer caso da sua dignidade, e corre à procura deles. Não quer saber de desculpas e promessas de emendas, e conduzi-los à mesa magnificamente preparada.

Não seria bom aumentar a alegria de Deus deixando-o encontrar-me e levar para casa e festejar com os anjos o meu regresso? Não seria maravilhoso fazer Deus sorrir, dando-Lhe a oportunidade de encontrar-me e de amar-me generosamente?

 

* Um amor primeiro e para sempre



Durante muito tempo considerei a baixa auto-estima como uma virtude. Tinham-me prevenido tanto contra o orgulho e a presunção que cheguei a pensar que desprezar-me era uma coisa boa. Mas agora, diante do amor incondicional do Pai, dou conta de que o verdadeiro pecado é negar o amor que Deus me tem, ignorar o meu valor pessoal. Porque se não reconhecer este amor primeiro e este valor, perco o contacto com o meu verdadeiro eu e começo a procurar em falsos lugares o que se encontra só na casa do Pai.

A parábola do filho pródigo é a história que fala do amor que já existia antes de qualquer rejeição e que estará sempre presente depois de terem acontecido todas as rejeições.

 

* O convite à alegria



É verdade que não estou habituado a imaginar Deus a dar uma grande festa. Isso parece-me uma contradição com a seriedade e a solenidade que sempre lhe atribuí. Mas Jesus descreve o Reino de Deus como um banquete de núpcias. Os convites foram dados, mas muitos não fizeram caso. Andavam demasiado ocupados com os seus negócios (Mt 22,4).

Jesus exprime o grande desejo do seu Pai de oferecer um banquete, mesmo que haja alguns que rejeitem o convite. Deus oferece o perdão, a reconciliação e a cura como prova da sua alegria. Deus não quer guardar a sua alegria só para Si. Quer partilhá-la com toda a gente.

Deus alegra-se. Não por terem sido resolvidos os problemas do mundo, não por terem acabado a tristeza e o sofrimento humanos, não porque milhares de pessoas se tenham convertido e estejam agora a dar-lhe graças pela sua bondade.

Não. Deus alegra-se porque um dos seus filhos se tinha perdido e foi encontrado. Ao que eu também sou chamado a unir-me a Sua alegria. É a alegria de Deus, não a alegria que o mundo dá. É alegria que advém de ver o filho a caminhar para casa no meio de toda a destruição, desolação e angústia do mundo.

Infelizmente, não estou habituado a alegrar-me com coisas tão pequenas e escondidas. Habituei-me a conviver com a tristeza que já não tenho os ouvidos sensibilizados para a alegria, nem os olhos para ver a felicidade que Deus produz nos recantos mais remotos do mundo.

O Pai entrega-se totalmente à alegria que lhe dá o facto de o filho ter voltado. Tenho de apreender a ser assim. Tenho de aprender a captar a alegria lá aonde se encontra. Sim, bem sei que nem toda a gente se converteu, que a paz não chegou ainda a todas as partes, que não se acabou com a tristeza, mas vejo pessoas que regressam e voltam a regressar à casa; oiço vozes que rezam; noto momentos de perdão e sou testemunha de muitos sinais de esperança. Posso saudar cada pequeno indício e alegrar-me porque o Reino de Deus está próximo.

Posso optar pela vida mesmo se as forças de morte são mais barulhentas. Posso optar pela verdade mesmo que esteja rodeado de mentira. Tenho tanta tendência de me impressionar com a tristeza que já não conto com a alegria que se manifesta em moldes muitos pequenos, mas autênticos. Se optar para as alegrias encontrarei a minha própria alegria.

Acabei por ficar convencido disso vivendo no meio de pessoas com doenças mentais. Há, entre nós, muitos sinais de desprezo e dor, e muitas feridas, mas se optar por descobrir a alegria no meio de tanto sofrimento, a vida transforma-se numa festa.



A alegria não nega a tristeza, mas transforma-a numa terra fértil para cultivar mais alegria.

Irão chamar-me ingénuo, talvez pouco realista e sentimental. Irão dizer-me que ignoro os problemas reais ... mas Deus alegra-se com o simples regresso de um pecador arrependido. Um facto que, estatisticamente, não é muito relevante. Mas parece que a Deus não interessam os números. Quem sabe se o mundo ainda não foi destruído por uma, duas ou três pessoas que continuam a rezar, enquanto o resto da humanidade perdeu a esperança?

Na perspectiva de Deus, um acto oculto de arrependimento, um pequeno gesto de generosidade, um momento de verdadeiro perdão é suficiente para Se erguer do trono, correr  ao encontro do filho e encher o céu com brados de alegria divina.

 

* Não sem tristeza

Quando Jesus fala do mundo é muito realista: guerras, revoluções, terramotos, pragas, fome, perseguição e prisões, traição, ódios e assassinatos. Tudo isso está sempre presente, mas não nos impede de fazer nossa a alegria de Deus. É a alegria de pertencer à casa do Pai, cujo amor é mais forte do que a morte.

É esta a alegria dos santos. A alegria tem sido a característica dos homens e mulheres de Deus. Esta mesma alegria pode ver-se nos rostos de muita gente simples, pobre, que sofre e que vive no meio de uma grande agitação, mas que, no entanto, é capaz de ouvir a música e os bailes da casa do Pai. Eu próprio vejo isto todos os dias nos rostos dos deficientes da minha comunidade.

 

* Cinismo ou alegria

Existe uma enorme diferencia entre cinismo e alegria. Os cínicos, para onde vão, procuram a escuridão. Apontam para os motivos ocultos; ridicularizam a confiança, o perdão e o fervor espiritual. Consideram-se realistas e não se deixam enganar pelas "emoções". Mas ao desprezar a alegria de Deus, a sua escuridão provoca maior escuridão.

As pessoas que chegam a conhecer a alegria de Deus não negam a escuridão, mas optam para não viver nela. Acreditam que a luz que brilha nas trevas dá mais esperança que a escuridão e que basta um pouco de luz para dissipar muita escuridão.

Em cada momento do dia tenho a oportunidade de optar pelo cinismo ou pela alegria. Cada pensamento que me ocorre pode ser cínico ou alegre. Cada palavra que pronuncio pode ser cínica ou alegre. Cada acto que realizo pode ser cínico ou alegre. Cada vez que tenho maior consciência destas opções e cada vez mais descubro que cada uma das opções para a alegria, conduz a uma alegria maior e faz que se descubram mais razões para fazer da vida uma verdadeira festa na Casa do Pai.

Jesus viveu com alegria na Casa do Pai. Ele transmite a alegria do Pai: "Tudo o que pertence ao Pai também é meu" (Jo 16,15). Uma alegria sem limites. Mas também uma alegria que não anula a tristeza. No nosso mundo parece que alegria e tristeza excluem-se reciprocamente: a alegria seria ausência de tristeza e a tristeza ausência de alegria. Mas estas distinções não existem em Deus. Jesus Cristo vive tristezas e alegrias, mas vive tudo em Deus. Jesus nunca se separa do Pai.

Tal como Jesus, também eu posso fazer minha a alegria de Deus. Em cada instante sinto-me tentado pela tristeza, melancolia, cinismo, mau humor, pensamentos sombrios, especulações malsãs e vagas de depressão. Muitas vezes permito que esses sentimentos abafem a alegria de estar na casa do Pai. Mas quando creio de verdade que já cheguei e que o meu pai ma vestiu uma túnica, me pus um anel e umas sandálias, então tiro a máscara de tristeza do meu coração e faço desaparecer a mentira que me fala do meu próprio eu; então descubro a verdade, com a liberdade interior de filho de Deus.

 

* Um desafio: amar como o Pai ama



Uma criança não fica sempre criança: há-de se tornar adulta um dia. E os adultos hão-de se tornar pai ou mãe. Da mesma forma o filho pródigo que volta, não volta para ficar sempre criança, mas para descobrir a sua condição de filho e para se tornar pai.

O desafio é agora lançado: posso ser o filho mais novo, posso ser o filho mais velho, não importa, a minha vocação é converter-me em pai.

Este chamamento espanta-me. Durante muito tempo vivi com a ideia de que regressar a casa do Pai era o último chamamento. Mas quanto mais me aproximo de casa, mais claramente compreendo este novo chamamento: ser pai. Uma vez que descobri a minha condição de filho tenho de descobrir a minha verdadeira vocação: a paternidade.

 

* Um passo solitário

Tomo cada vez mais consciência de que, quer o filho mais novo, quer o filho mais velho, são elementos fundamentais da minha vida espiritual. Mas também que o Pai representa a minha verdadeira vocação.

A parábola dos dois filhos e do Pai misericordioso oferece-me a possibilidade de descobrir que o último passo da vida espiritual nada tem a que ver com o sentimento de medo do Pai, antes que é possível ser como Ele. A minha vocação última é ser como o Pai e viver a sua divina compaixão na minha vida quotidiana. Embora seja o filho mais novo e o filho mais velho, não sou chamado a continuar a sê-lo, mas a converter-me no pai. Ninguém chega a ser pai ou mãe sem antes ter sido filho ou filha, mas cada filho ou filha tem que escolher conscientemente de dar um passo decisivo e tornar-se pai ou mãe dos outros.

É um passo muito duro e solitário, mas, ao mesmo tempo, um passo essencial. Estou admirado por ver quanto tempo demorei a fazer do Pai o centro da minha atenção. Era tão fácil identificar-me com os filhos!

É bem certo que todos participamos, em maior ou menor grau, em todas as formas de miséria humana. Ninguém está completamente livre da cobiça, ira, luxúria, ressentimento, frivolidade ou ciúmes. A debilidade humana manifesta-se de mil formas, mas não há ofensa, crime ou guerra que não tenha alguma semente nos nossos corações. Por isso é que com facilidade identificamo-nos com um dos dois filhos.

Mas agora a pergunta é a seguinte: "Queres ser como o Pai?". Isto é, queres ser não só como quem é perdoado, mas também como quem perdoa; não simplesmente como a quem se dão as boas vindas, mas também como quem as dá; não só como aquele que recebe misericórdia, mas também como quem a dá?

O preceito mais radical de Jesus é mesmo o seguinte: "Sede misericordiosos como também o Pai é misericordioso" (Lc 6,36). A misericórdia de Deus não é só para me mostrar o que Deus sente por mim, ou para me perdoar os pecados e oferecer-me uma nova vida e muita felicidade, mas também para me convidar a ser como Ele, a ser misericordioso para com os outros como Ele é para comigo.

Se nós pecamos e Deus sempre perdoa, os pecados seriam simplesmente uma ocasião para Deus me perdoar. Vistas assim as coisas, nem sequer haveria lugar para um autêntico desafio. Resignar-me-ia a ser fraco e ficaria à espera de que Deus acabasse por fechar os olhos aos meus pecados e me deixasse entrar em casa, fosse o que fosse que tivesse feito. Tal mensagem, porém, tão sentimental e romântica, não é a mensagem do Evangelho.

Quer que seja o filho mais novo, quer que seja o filho mais velho, a minha vocação e oferecer a outros a mesma compaixão que Ele me oferece. O regresso á casa do Pai é um desafio para que me transforme no Pai. Estar na casa do Pai exige que me leve a mesma vida do Pai e me transforme em imagem sua.

 

* A paternidade misericordiosa

Chegou a hora de derrubar todas as barreiras e de descobrir que o que realmente desejo é transformar-me no Pai misericordioso. Não posso ficar sempre criança. Preciso de descobrir agora o que realmente significa "ser Pai misericordioso", pois, tal como na parábola é este o objectivo da minha vida espiritual.

Converter-se no Pai não é apenas um aspecto importante dos ensinamentos de Jesus, é precisamente o núcleo da sua mensagem. A aparente impossibilidade das exigências que Jesus põe aos discípulos, são parte integrante do chamamento geral à conversão e sermos verdadeiros filhos e filhas de Deus.

Na medida em que continuamos a pertencer a este mundo, continuaremos a ser vítimas dos seus métodos competitivos a esperar recompensas por tudo o que fizermos. Mas se pertencermos a Deus, que nos ama sem condições, podemos viver como Ele. A grande conversão a que Jesus nos chama consiste em passar da pertença ao mundo à pertença a Deus.

Quando estivermos na casa de Deus como seus filhos e filhas, poderemos ser como Ele, amar como Ele, ser bons como Ele, preocupar-nos como os outros como Ele. É este o núcleo do Evangelho. A maneira de amar a que somos chamados, é a maneira como Deus ama.

 

* Dor, perdão e generosidade

Pode parecer estranho considerar a dor como uma forma de compaixão, mas assim é. A dor leva-me a reconhecer os pecados do mundo, abala-me o coração e faz-me derramar muitas lágrimas. Não há misericórdia sem lágrimas. Se não forem lágrimas choradas pelos olhos, tem que ser lágrimas choras pelo coração.

Se me detenho a pensar na desobediência dos filhos de Deus, na nossa luxúria, cobiça, violência, ira, rancor, e se vejo através dos olhos do coração de Deus, não posso deixar de chorar e gritar com dor. É a dor do coração que vê o pecado do mundo. A dor, portanto, é uma parte muito importante da oração.

O segundo caminho que conduz à paternidade espiritual é o perdão. Através do perdão chegamos a ser como o Pai. Perdoar do fundo do coração é muito difícil. Quase impossível. Muitas vezes perdoo, mas o meu coração continua aborrecido ou ressentido. Quero quer razão, procuro desculpas e justificações; quero ter a satisfação de receber em troca algum louvor, nem que seja só por ter perdoado.

No entanto, o perdão de Deus é incondicional; brota de um coração que não reclama nada para si, de um coração completamente vazio de egoísmo. É esta forma de perdão que tenho de praticar na minha vida. É um chamamento a passar por cima de todos os argumentos que dizem que o perdão é pouco prudente, pouco saudável e nada prático.

Este "passar por cima" é a autêntica lei do perdão. O perdão para acolher os outros no meu coração sem esperar nada em troca. Só quando me lembro de que sou filho amado, sou capaz de acolher aqueles que querem voltar para mim, com a mesma misericórdia com que o Pai me acolhe.

A terceira via para chegar a ser como o Pai, é a generosidade. Na parábola, o pai não só concede ao filho tudo quanto lhe pede, mas também, quando regressa, o enche de presentes. E ao filho mais velho diz: "tudo aquilo que é meu é teu". Esvazia-se de si mesmo e entrega tudo aos filhos.

Oferece mais do que seria esperar de um homem a quem se ofendeu; dá a si mesmo sem reservas. Os dois filhos são tudo para ele. Para chegar a ser como o Pai, tenho que ser generoso como ele.

Todas as vezes que dou mais um passo na generosidade, sei que me desloco do medo para o amor. Mas ao princípio estes passos custam a dar porque há muitas emoções e sentimentos que me retêm. Porque haveria de gastar forças, tempo, dinheiro e até atenção com alguém que me ofendeu? Porque havia de partilhar a minha vida com alguém que me faltou ao respeito? A razão é que tenho de perdoar porque aquele que me ofendeu pertence à minha família.

A verdadeira generosidade age a partir da convicção de que somos "parentes", pertencemos à mesma família. Cada vez que assim agir, esta verdade tornar-se-á mais evidente para mim. A generosidade nasce do espírito de família e cria família.

A dor, o perdão e a generosidade são, portanto, as três vias por meio das quais a imagem do Pai pode crescer dentro de mim. Com elas fico em casa. Já não estou simplesmente "à espera". Sinto dor por aqueles que se foram embora, espero por eles com a esperança de poder-lhes perdoar generosamente e oferecer-lhes a possibilidade de uma vida nova.

Quero acreditar que todos os desejos humanos podem ser encontrados em casa. Com o Pai, posso me atrever a assumir a responsabilidade de ser uma pessoa espiritualmente adulta, isto é acreditar que a verdadeira alegria e plenitude consiste em dar as boas-vindas em casa àqueles que estão feridos, amando-os com um amor que não pede nem espera nada em troca.

Esta paternidade espiritual tem um terrível vazio. Nela não há poder, nem êxito, nem fama, nem satisfação fácil. Mas este mesmo vazio é o lugar da liberdade. O lugar onde percebo que já não tenho nada a perder, onde o amor pode expandir-se livremente, onde encontro a verdadeira força espiritual. Sempre que consigo estabelecer dentro de mim este espaço vazio, terrível e fértil, sei que posso acolher os filhos pródigos e dar-lhes esperança. Recebendo os fardos dos outros, sem julgar, classificar ou analisar, torno-me uma pessoa livre, capaz de gerar uma confiança libertadora.

 

Viver esta paternidade ou maternidade espiritual requer a condição essencial de ficar em casa. Se me rejeitasse a mim mesmo e estivesse à procura de afirmação e afecto, ser-me-ia impossível amar sem pedir nada em troca.



 

A paternidade espiritual inclui a capacidade que eu deixe que o filho mais novo rebelde e o filho mais velho ressentido, que estão dentro de mim, saltem para fora para receber o amor misericordioso que o Pai me oferece. Sem esta experiência de acolhimento incondicional não é possível entrar na paternidade ou maternidade espiritual.

 

Portanto, os dois filhos que estão dentro de mim podem transformar-se, pouco a pouco, no pai misericordioso e assim realizar o desejo mais profundo do meu coração inquieto. Pois a maior alegria consiste em abrir os braços e abençoar os filhos recém chegados.



 

Páginas escolhida por Padre Leone Orlando



 

Autor: Henri J. M. Nouwen, O regresso do filho pródigo, Paulinas.


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