Filosofia – 3º ano ensino médio 1º bimestre – 2001 prof. Tiago fávero



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FILOSOFIA – 3º ANO ENSINO MÉDIO

1º BIMESTRE – 2001

PROF. TIAGO FÁVERO

FRIEDRICH NIETZSCHE:
Intérprete do próprio destino:

Friedrich Nietzsche é, sem dúvida alguma, o mais polêmico de todos os filósofos. Isso se deve à diversas páginas atípicas, tanto de sua biografia, quanto de suas obras. Como ele mesmo diz: “Eu conheço a minha sorte. Um dia, meu nome será ligado à recordação de uma crise como nunca houve outra semelhante na terra, ao mais profundo conflito de consciência, à decisão proclamada contra tudo o que até então fora criado, exigido e consagrado. Não sou homem, sou dinamite (...). Contradigo como nunca foi contradito e, apesar disso, sou a antítese de espírito negador (...). E, malgrado tudo, sou também, necessariamente, homem do destino. Com efeito, se a verdade entra em luta com a mentira de milênios, teremos tais abalos e tais convulsões de terremoto que nunca antes haviam sido sequer sonhados”.

Nietzsche se considera como homem de destino, como aquele que contradiz aquilo que nunca foi contradito. Ele contradiz o positivismo e sua crença no fato, pela simples razão de que “o fato é sempre estúpido e em todos os tempos sempre se assemelhou mais a um bezerro que a um deus”. Contradiz o entusiasmo dos idealistas e dos historicistas por um sentido evidente e progressivo da história. Sua própria vida é exemplo de contradição e de uma crise constante. A paixão pela música de Wagner, pela filosofia de Schopenhauer, o rompimento repentino com eles, a paixão não correspondida por Lou de Salomé, a loucura na fase final da vida... tudo isso é exemplo da complexidade de sua biografia.

O “dionisíaco”, o “apolíneo” e o “problema Sócrates”

Nietzsche é o pensador da inversão. Em “O Nascimento da Tragédia” (1872) ele procura mostrar como a civilização grega pré-socrática explodiu em vigoroso sentido trágico, que é aceitação extasiada da vida, coragem diante do destino e exaltação dos valores vitais. E, com isso, Nietzsche subverte a imagem romântica da civilização grega. Entretanto, a Grécia de que fala Nietzsche não é a Grécia da escultura clássica e da filosofia de Sócrates, Platão e Aristóteles, e sim a Grécia dos pré-socráticos, da tragédia antiga, etc... O pensador alemão identifica o segredo desse mundo grego no espírito de Dionísio. Dionísio é a imagem da força instintiva, a saúde, a embriaguez criativa e a paixão sensual. É o símbolo de uma humanidade em plena harmonia com a natureza. Ao lado do dionisíaco, Nietzsche pontua o espírito de Apolo, que é visão de sonho e tentativa de expressar o sentido das coisas na medida e na moderação, explicitando-se em figuras equilibradas e límpidas.

Entretanto, segundo Nietzsche, o pensamento grego, tipicamente formado por Sócrates, forja uma compreensão muito idealizada do mundo. Apolo assume o centro no lugar de Dionísio. As conseqüências diretas disso dizem respeito à afirmação de uma vida idealizada, a uma moral estúpida. O homem se esquece que é caos, e procura se esforçar e sofrer para viver numa ordem atípica. A verdade é que “os filósofos e moralistas enganan-se a si mesmos, acreditando sair da decadência pelo simples fato de que travam guerra contra ela (...); o que eles escolhem como remédio, como âncora de salvação, nada mais é do que nova expressão da decadência: transformam sua expressão, mas não a eliminam. Sócrates foi equívoco: toda a moral do aperfeiçoamento, inclusive a cristã, foi equívoco (...). A mais crua luz diurna , a racionalidade em contraste com os instintos, isso era apenas doença diferente – e de algum modo retorno à virtude, à saúde, à felicidade. Sócrates é simplesmente esteve longamente doente. Era hostil à vida, quis morrer. Disse não à vida e abriu uma época de decadência que esmaga até a nós.

O anúncio da morte de Deus

No entanto a passagem mais famosa da filosofia de Nietzsche e também de toda história da Filosofia é o anúncio da morte de Deus. Na Gaia Ciência, o homem louco anuncia aos homens que Deus está morto: “o que houve com Deus? Eu vos direi. Nós o matamos – eu e vós. Nós somos os seus assassinos”. Pouco a pouco, por diversas razões, a sociedade ocidental foi se afastando de Deus: foi assim que o matou. Mas, “matando” Deus, eliminam-se todos os valores que serviram de fundamento para a nossa vida e, consequentemente, perde-se qualquer ponto de referência: “O que fazemos separando a terra do seu sol? Para onde vai ela agora? Para onde vamos nós, longe de qualquer sol? Não continuaremos a nos precipitar para trás, para os lados e para a frente? Ainda existem um alto e um baixo? Não estaremos talvez vagando por um nada infinito? (...) Deus está morto! Deus permanece morto! E nós o matamos!”.

Para Nietzsche, nós eliminamos o mundo do sobrenatural, mas, assim fazendo, infringimos também o quadro dos valores e ideais a ele ligados. E, assim, nos encontramos sem ponto de referência: nós matamos Deus e com ele desapareceu o homem velho, mas o homem novo ainda não apareceu. Diz o louco em A Gaia Ciência: “Venho cedo demais, ainda não é o meu tempo. Esse acontecimento monstruoso ainda está em curso e não chegou aos ouvidos dos homens”.

A morte de Deus é fato que não tem paralelos. É acontecimento que divide a história da humanidade. Não é o nascimento de Cristo, e sim a morte de Deus que divide a história da humanidade: “Quem quer nascer depois de nós, por isso mesmo, pertencerá a uma história mais elevada do que qualquer outra transcorrida”. E esse acontecimento, a morte de Deus, anuncia antes de mais nada Zaratrusta, que, depois sobre as cinzas de deus, erguerá a idéia do super-homem, do homem novo, impregnado do ideal dionisíaco, que “ama a vida” e, voltando as costas para as quimeras do “céu”, voltará à “sanidade da terra”.

Proclama, portanto, Zaratrusta: “Oh, meus irmãos, aquele Deus que eu criei era a obra louca de um homem, como são todos os deuses (...), o cansaço, que de um só salto – com salto mortal – pretendia alcançar o cume, esse pobre e ignorante cansaço, que ademais não sabe sequer querer: ele criou todos os deuses e o sobrenatural”. E aqueles que pregam mundos sobrenaturais são “pregadores da morte”, porque “todos os deuses estão mortos”.

A morte de Deus é acontecimento cósmico, pelo qual os homens são responsáveis e que os liberta das cadeias daquele sobrenatural que eles próprios haviam criado. Falando sobre os padres, Zaratrusta afirma: “Dão-me pena esses padres (...), para mim eles são prisioneiros murchos. Aquele que eles chamam de redentor os carregou de grilhões de falsos valores e loucas palavras! Ah, se alguém pudesse redimi-los do seu redentor!”.

Precisamente esse é o objetivo que Nietzsche quer alcançar com o Anticristo, que é uma “maldição do cristianismo”. Para ele, um animal, uma espécie ou um indivíduo é pervertido “quando perde os seus instintos, quando escolhe e quando prefere o que lhe é nocivo”. Mas, pergunta-se Nietzsche, o que fez o cristianismo senão defender tudo o que é nocivo ao homem? O cristianismo considerou pecado tudo o que é valor e prazer na terra. Ele “tomou partido de tudo o que é fraco, abjeto e arruinado; fez um ideal de contradição contra os instintos de conservação da vida forte; desgastou até a razão das naturezas intelectualmente mais fortes, ensinando até a sentir os supremos valores da intelectualidade como pecaminosos, como fontes de desvio, como tentações”.

Para Nietzsche, o cristianismo é a religião da compaixão. “Mas se perde força quando se tem a compaixão: ela obstaculiza em bloco a lei do desenvolvimento, que é a lei da seleção. Ela conserva o que está maduro para o declínio, opõe resistência em favor dos deserdados e dos condenados pela vida”. A realidade, diz ele, é que a “compaixão é a práxis do niilismo” e que “nada é mais malsão, em meio a nossa malsã humanidade, do que a compaixão cristã”.

Nietzsche vislumbra no Deus cristão “a divindade dos doentes; um Deus degenerado a ponto de contradizer a vida, ao invés de ser a sua transfiguração e o seu eterno sim. Em Deus, está declarada inimizada à vida, à natureza, à vontade de viver! Deus, a forma de toda calúnia do aquém e de toda mentira do além! Em Deus, está divinizado o nada, está consagrada a vontade do nada”. O budismo também é religião de decadência, mas Nietzsche o considera “cem vezes mais realista do que o cristianismo”: com efeito, o budismo não luta contra o pecado, mas sim contra a dor. E, ademais, “um clima muito suave, uma grande tranqüilidade e liberdade de costumes, sem nenhum militarismo, são os pressupostos do budismo”.

Apesar de tudo isso, Nietzsche é tomado pela figura de Cristo: “Cristo é o homem mais nobre; o símbolo da cruz é o símbolo mais sublime que já existiu”. Ele faz distinção entre Jesus e o cristianismo (“O cristianismo é algo profundamente diferente do que o seu fundador quis fazer”). Cristo morreu para apontar como se deve viver: “A prática da vida é o que ele deixou em herança aos homens: a sua atitude diante dos juízes, dos sicários, dos acusadores e de toda espécie de zombaria e calúnia, a sua atitude sobre a cruz (...). As palavras dirigidas ao ladrão sobre a cruz encerram em si todo o Evangelho”.

Para ele, Cristo foi um “espírito livre”, mas com Cristo morreu o Evangelho. “O evangelho também ficou suspenso na cruz”, ou melhor, transformou-se em Igreja, em cristianismo, isto é, em ódio e ressentimento contra tudo o que é nobre e aristocrático: “Paulo foi o maior dentre todos os apóstolos da vingança”. Os cristãos, do primeiro ao último são por instinto rebeldes contra tudo que é privilegiado – vivem e combatem sempre por direitos iguais.

No Novo Testamento, Nietzsche só encontra um personagem digno de ser elogiado, Pôncio Pilatos, em virtude do seu sarcasmo em relação à verdade. Mais tarde, na história da nossa civilização, o Renascimento tentou a transvalorização dos valores cristãos e procurou levar à vitória os valores aristocráticos, os nobres instintos terrenos. Mas o que aconteceu? Aconteceu que “um monte alemão, Lutero, veio a Roma. Trazendo dentro do peito todos os instintos de vingança de padre mal-sucedido, esse monge, em Roma, indignou-se contra o Renascimento. Lutero viu a corrupção do papado, quando se podia tocar com a mão justamente o contrário: na cadeira papal, não estava mais a antiga corrupção”.

São dessa natureza, portanto, as razões que levam Nietzsche a condenar o cristianismo: “A Igreja cristã não deixou nada intacto em sua perversão: ela fez de cada valor um desvalor, de cada verdade, uma mentira, de toda honestidade uma abjeção da alma”. A Igreja, “com todo seu ideal clorídrico da santidade, vai bebendo até a última gota todo sangue, todo amor e toda esperança de vida”. O além é a negação de toda realidade e a cruz é a conjuração “contra a saúde, a beleza, a constituição bem-sucedida, a valentia de espírito, a bondade da alma, contra a própria vida”.

A moral, a vida e o niilismo:

Neste mesmo sentido, Nietzsche, em sua obra A Genealogia da Moral, faz uma cuidadosa análise dos preceitos morais de seu tempo e percebe que há uma grande inversão. Primeiramente, há uma exaltação de fraquezas e faltas e uma rejeição à tudo aquilo que, de fato, é virtuoso. Além disso, Nietzsche observa também que existem dois tipos de moral, a saber, a moral aristocrática dos fortes (que supõe a afirmação de si) e a moral dos fracos, dos escravos (que postula o contrário, ou seja, a auto negação). É a moral da dominação que causa um grande ressentimento e, em última instância, sinaliza para o niilismo.

O niilismo, diz Nietzsche, é a “conseqüência necessária do cristianismo, da moral e do conceito de verdade da filosofia”. Quando as ilusões perdem a máscara, então nada resta: o abismo do nada. Como estado psicológico, “o niilismo torna-se necessário, em primeiro lugar, quando procuramos em todo acontecimento um sentido que ele não tem, até que, por fim, começa a faltar coragem a quem procura”. Aquele sentido podia ser a realização ou o fortalecimento de um valor moral (amor, harmonia de relações, felicidade, etc). Mas o que devemos constatar é que a desilusão quanto a esse pretenso fim é “uma causa do niilismo”.

Em segundo lugar, “postulou-se totalidade, sistematização e até organização em todo o acontecer em sua base”. Entretanto, o que se viu é que esse universal, que o homem construíra para poder crer no seu próprio valor, não existe! No fundo, o que aconteceu? “Alcançou-se o sentimento da falta de valor quando se compreendeu que não é lícito interpretar o caráter geral da existência nem com o conceito de fim, nem com o conceito de unidade, nem com o conceito de verdade”.

Caem assim “as mentiras de vários milênios” e o homem fica sem os enganos das ilusões, mas fica só. Não há valores absolutos; aliás, os valores são desvalores; não existe nenhuma estrutura racional e universal que possa sustentar o esforço do homem; não há nenhuma providência, nenhuma ordem cósmica: “A condição geral do mundo, por toda a eternidade, é o caos, não como ausência de necessidade e sim, no sentido de falta de ordem ou de estrutura, de forma, de beleza, de sabedoria”. “O mundo não tem sentido: eu encontrei em todas as coisas esta certeza feliz: elas preferem dançar com os pés do acaso”.

Eterno Retorno e Amor Fati:

Não há ordem, não há sentido. Mas há uma necessidade: o mundo tem em si a necessidade da vontade. Desde a eternidade, o mundo é dominado pela vontade de se aceitar e de se repetir. É essa a doutrina do eterno retorno que Nietzsche retoma da Grécia e do Oriente. O mundo não procede de modo retilíneo em direção a um fim (como acredita o cristianismo), nem o seu devir é progresso (como pretende o historicismo hegeliano e pós-hegeliano), mas “todas as coisas eternamente retornam e nós com elas; nós já existimos eternas vezes e todas as coisas conosco”. Toda dor e todo prazer, todo pensamento e todo suspiro, toda coisa indizivelmente pequena e grande retornará: “Voltarão até essa teia de aranha e este raio de lua entre as árvores, até este idêntico momento e eu mesmo”.

O mundo que se aceita a si mesmo e que se repete: essa a doutrina cosmológica de Nietzsche. E, a ela, Nietzsche vincula a sua outra doutrina, do amor fati: amar o necesário, aceitar este mundo e amá-lo. O homem descobre que a essência do mundo é vontade, vê que ele é eterno retorno e se reconcilia voluntariamente com o mundo: recolhe em sua própria vontade de aceitação do mundo a mesma vontade que se aceita a si mesma. Ele segue voluntariamente o caminho que outros homens seguiram cegamente, e aprova esse caminho e não procura mais fugir dele, como fazem os doentes e decrépitos. É o que ensina Zaratrusta: “Tudo aquilo que existiu é fragmento, enigma, acaso espantoso, até que a vontade criadora agrega: assim queria eu que fosse, assim quero que seja, assim eu quererei que seja”.

O amor fati é a aceitação do eterno retorno, é a aceitação da vida. Mas não se deve ver nele a aceitação do homem. A mensagem fundamental de Zaratrusta, com efeito, está em pregar o super-homem: “O super homem é o sentido da terra! Que a vossa vontade proclame: que o super-homem seja o sentido da terra! Eu vos conclamo, meus irmãos, permanecei fiéis à terra e não acrediteis naqueles que vos falam de esperanças sobrenaturais! Outrora, o delito contra Deus era o maior dos malefícios, mas Deus está morto. Agora, a coisa mais triste é pecar contra o sentido da terra!”.

E é o homem, o novo homem, que deve criar novo sentido da terra, abandonar as velhas cadeias e cortar os antigos troncos. O homem deve inventar o homem novo, isto é, o super-homem, o homem que vai além do homem e que é o homem que ama a terra e cujos valores são a saúde, a vontade forte, o amor, a embriaguez dionisíaca e novo orgulho. Diz Zaratrusta: “Um novo orgulho ensinou-me o meu Eu e eu o ensino aos homens: não deveis mais esconder a cabeça na areia das coisas celestes, mas mantê-las livremente: cabeça terrena, que cria ela mesma o sentido da terra”.

O super-homem substitui os velhos deveres pela vontade própria. Existe “um dragão enorme, que o espírito não quer mais chamar de seu patrão e se Deus. Chama-se ele: ‘Tu deves’. Mas, contra ele, o espírito do leão proclama as palavras: ‘Eu quero’. E existem os pregadores da vida eterna: eles pregam mundos sobrenaturais, mas Zaratrusta quer ser “a voz do corpo de novo entregue à saúde”. É a voz da coragem e do orgulho: pretende-se o amor ao próximo, mas “não foi a vossa compaixão, e sim o vosso valor que até agora salvou quem estava em perigo”.

“O homem é uma corda estendida, estendida entre o bruto e o super-homem, uma corda estendida sobre uma coragem”. E não está longe o momento da passagem do velho homem, embrutecido por seus desvalores e com a cabeça enterrada na areia das coisas celestes, para o homem que cria o sentido da terra, isto é, novos valores, todos terrenos: “E o grande sol meridiano da vida resplandecerá quanto o homem se encontrar no meio do seu caminho, entre o bruto e o super-homem e celebrar o seu crepúsculo como sua maior esperança, já que o seu crepúsculo será o anúncio da nova aurora. O futuro então se abençoará a si mesmo, feliz de ser alguém que vai além: o sol do seu conhecimento resplandecerá de luz meridiana”. Todos os deuses estão mortos: agora, queremos que viva o super-homem. É bem verdade que “O povo e a glória giram em torno dos comediantes”, mas também é verdade que “o mundo gira em torno dos inventores de novos valores”.

Assim como para Protágoras, também para Nietzsche o homem deve ser a medida de todas as coisas, deve criar novos valores e pô-los em prática. O homem embrutecido tem a espinha curvada diante das ilusões cruéis do sobrenatural. O super-homem “ama a vida” e “cria o sentido da terra” – e é fiel a isso. Aí está a sua vontade de poder.

“Deus já está morto! Oh, homens superiores, aquele Deus era o vosso perigo mais grave. Somente agora, que ele faz em seu sepulcro, é que podeis vos dizer ressuscitados. Agora, está próximo o grande sol meridiano; somente agora o homem superior torna-se senhor! Compreendeis essas palavras, irmãos? Vós estais aterrorizados: atingiu-vos talvez a vertigem? Abre-se talvez diante de voz um abismo escancarado? Talvez o cão infernal ladra contra voz? Pois bem, erguei-vos, homens superiores! Agora, somente a montanha do futuro humano se agina das dores do parto. Deus morreu: agora, nós queremos que viva o super-homem”. Assim falou Nietzsche-Zaratrusta.

TEXTOS PARA ESTUDO:


A) Assim falou Zaratrusta: “O super-homem”
No prefácio a Assim Falou Zaratrusta (1883), Nietzsche usa o estilo profético de seu personagem Zaratrusta, inspirado na tradição persa do zoroatrismo, em um texto de caráter bastante poético, para formular algumas das suas mais famosas imagens – por exemplo, a do homem como “uma corda sobre o abismo”, uma visão ao mesmo tempo trágica e heróica. Essa obra, em suas múltiplas significações, pode ser vista como um contraponto ao cristianismo, à sua concepção de virtude e à sua ética do sofrimento e da submissão, em grande parte responsáveis, segundo Nietzsche, pela decadência da civilização ocidental.
“Mas Zaratrusta contemplava, admirado, a multidão e lhe falou assim:

‘O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem – uma corda sobre o abismo. Perigosa travessia, perigoso percurso, perigoso olhar para trás, perigoso tremor e paralisação.

A grandeza do homem está em ser ponte e não meta: o que nele se pode amar é o fato de ser ao mesmo tempo transição e declínio.

Amo os que só sabem viver em declínio, pois são os que se transpoem.

Amo os que desprezam com intensidade, pois sabem venerar intensamente, e são flechas lançadas pelo anseio-da-outra-margem.

Amo os que não se satisfazem em procurar além das estrelas uma razão para serem declínio e oferenda, mas que, ao contrário, se sacrificam à terra para que esta um dia se torne terra do super-homem.

Amo o que vive para conhecer, e quer conhecer para que um dia o super-homem viva. E quer assim o seu próprio declínio.

Amo o que trabalha e inventa para construir morada do super-homem, e prepara para ele a terra, os amimais e as plantas. Pois assim quer o seu declínio.

Amo o que ama a sua própria virtude, pois que a virtude e a vontade de declínio e flecha do desejo.

Amo o que não guarda para si nem uma só gota de seu espírito, mas quer ser inteiramente o espírito de sua própria virtude. É dessa forma que ele, como espírito, atravessa a ponte.

Amo o que faz da virtude inclinação e destino, pois ele, por amor à sua virtude, quer viver ainda e não mais viver.

Amo o que não quer virtudes em demasia. Uma única virtude é mais virtude do que duas, pois ela é o nó mais forte onde se ata o destino.

Amo o que prodigaliza sua alma, e que, ao fazer isso, não visa à gratidão nem ao pagamento; pois sempre dá e nada quer em troca.

Amo o que se envergonha quando o dado cai a seu favor, e então pergunta: serei um trapaceiro? Pois é para sua ruína que ele quer se encaminhar.

Amo o que antecede com palavras de ouro os seus atos e sempre cumpre mais do que promete; pois ele quer o seu declínio.

Amo o que justifica os que serão e justifica e resgata os que foram; pois quer perecer por aqueles que são.

Amo aquele que pune seu Deus porque o ama; porquanto só poderá perecer pela cólera do seu Deus.

Amo o que, mesmo ferido, tem a alma profunda, e que um simples aças pode fazer perecer. Assim, ele atravessa de bom grado a ponte.

Amo aquele cuja alma transborda a tal ponto se esquece de si que todas as coisas nele encontram lugar. Assim, todas as coisas se tornam seu declínio.

Amo o que tem o espírito livre e livre o coração. Assim, sua cabeça não passa de vísceras para seu coração; mas o coração o empurra para o declínio.

Amo todos aqueles que são como pesadas gotas caindo uma a uma da negra nuvem que paira sobre os homens; anunciam a chegada do raio e percebem como anunciadores.

Vede; sou o anunciador do raio, uma gota pesada dessa nuvem. Mas o raio se chama super-homem’”



Referências Bibligráficas:
 NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Editora Escala, 2003.

_______________. A Genealogia da Moral. 3ª ed. São Paulo: Editora Escala, 2005.

_______________. Assim Falou Zaratrusta. 4ª ed. São Paulo: Editora Escala, 2006.

_______________. Ecce Homo. 2ª ed. São Paulo: Editora Escala, 2004.

_______________. Humano, Demasiado humano. 2ª ed. São Paulo: Editora Escala, 2004.

_______________. O Nascimento da Tragédia. 2ª ed. São Paulo: Editora Escala, 2004.



 REALE, Giovanne. História da Filosofia: do Romantismo até os nossos dias. v. 3. 6ª ed. São Paulo: Paulus, 2003.


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