Filosofia como totalidade do saber



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INTRODUÇÃO À DISTINÇÃO E À CLASSIFICAÇÃO

ARISTOTÉLICA DOS SABERES


FILOSOFIA COMO TOTALIDADE DO SABER

Filosofia, saber e ciência são uma só coisa (para Aristóteles e para todo o Ocidente até o séc. XIX). A filosofia é a totalidade dos saberes teoréticos, práticos e poiéticos. A tarefa gigantesca de adquirir todos esses saberes, organizá-los, classificá-los, indicar como podem ser adquiridos e ensinados constitui a obra de Aristóteles. Essa obra é monumental, mas não se trata de uma coleção desarticulada de saberes, e sim de uma gigantesca articulação, em que se buscam as relações necessárias entre os diversos saberes, em que se procura a unidade que estrutura e sustenta a multiplicidade dos fenômenos e dos conhecimentos.

Toda ciência investiga os princípios, as causas e a natureza dos seres que são seu objeto de estudo. Só há ciência quando conhecemos pelas causas (esse é o lema de Aristóteles e do pensamento ocidental).

As ciências possuem em comum o procedimento de busca de princípios e causas, mas diferem conforme a natureza do objeto que investigam. Essa diferença de natureza faz com que os princípios e causas também difiram.



CIÊNCIAS TEORÉTICAS

Saber teorético é aquele cuja finalidade é o próprio saber, é a verdade, e cujos objetos são seres que existem independentemente da vontade e da ação dos homens (e por isso podem ser apenas contemplados por nós). Os saberes teoréticos se diferenciam de acordo com a natureza de seus objetos.

O cientista teorético investiga os princípios (universais e necessários) de que os seres (aqueles que são seus objetos) dependem para existir e para ser como são, e também deduz e demonstra os efeitos (universais e necessários) que decorrem da existência e atuação desses seres. Aristóteles recusa que só haja ciência do imutável ou imóvel e usa o movimento como critério de classificação das ciências teoréticas.

Há três grandes saberes ou ciências teoréticas:

1. A FÍSICA (que estuda os seres naturais, que possuem em si mesmos o princípio de seu movimento e repouso, i.é., as causas de suas transformações qualitativas, quantitativas, de lugar e tempo, de geração e perecimento): compreende filosofia natural (hoje chamada de física), biologia, botânica, zoologia, psicologia, cosmologia etc.

2. AS MATEMÁTICAS (que estudam os seres imóveis, não sujeitos à transformação e ao devir, ainda que não existam separadamente dos seres físicos dos quais são as superfícies, as figuras, os volumes etc.): compreende aritmética, geometria, astronomia, acústica, harmonia ou música. Embora os objetos das matemáticas só tenham existência nas coisas físicas, podem ser estudados em si mesmos, sem relação com a materialidade em movimento.

3. A FILOSOFIA PRIMEIRA (ou teologia, ou, como passou-se a chamar tardiamente, metafísica, a mais alta das ciências teoréticas). A filosofia primeira estuda: a) o ser enquanto ser, sem determiná-lo num aspecto específico, e enquanto não submetido ao devir (nesse sentido, trata-se do conhecimento dos primeiros princípios e causas de todas as coisas, da ciência que fornece os princípios dos quais dependem os princípios das demais ciências, da ciência mais universal de todas, pois o ser estudado por ela não é nenhum ser particular – físico, biológico, geométrico etc. –, e sim o “ser enquanto ser”); b) o primeiro e principal sentido ou modo do ser: a substância (nesse sentido, trata-se da ciência da substância); c) a substância divina, que é primeiro motor do movimento de todas as demais substâncias (nesse sentido, trata-se de teologia, da ciência da substância divina, de Deus, do divino).
CIÊNCIAS DA AÇÃO

Ciências teóricas, mas não teoréticas, pois seu princípio ou causa é o homem como agente, e seu objeto de conhecimento depende da vontade e da ação humanas. Também diferem das ciências teoréticas pelo fato de que seu objeto não é necessário, nem universal, e sim possível (pois seu objeto, que é a ação, é aquilo que pode acontecer ou não, uma possibilidade que depende da vontade racional do agente) e particular (porque seu objeto, a ação, depende das características pessoais do agente, das circunstâncias e da finalidade da ação). Por fim, se distinguem das ciências teoréticas pelo fato de sua finalidade última não ser o próprio saber ou a verdade.

Só existe uma ciência da ação porque pode-se falar em princípios, causas e regularidade da ação humana, visto que há nela algo que lhe confere uma certa necessidade e universalidade: a finalidade. Se uma finalidade se mostra estável e geral, ela se torna uma referência e fornece regras constantes para o agente escolher entre várias ações possíveis.

Há duas grandes modalidades de ação humana: a ação que tem como finalidade a produção de uma obra (poiesis) e a ação que tem seu fim em si mesma, i.é., na própria ação (práxis), na ação excelente, na vida feita de ações excelentes, vida virtuosa ou boa vida.

Para Aristóteles, o ser e o saber mais excelentes são aqueles que são livres (princípio de autarquia), i.é., que não dependem de outros para existir e têm em si mesmos seu próprio fim. Segundo ele, é bom ou é um bem aquilo que contribui para aumentar ou conservar a independência ou autarquia do agente. Por isso, a práxis é superior à poiesis, visto que a ação que tem em si mesma seu fim é superior àquela que é realizada em vista de outra coisa, tendo seu fim fora de si, na obra.

OBS: É bom lembrar que a sociedade grega é escravista, que nela predominam os valores aristocráticos (mesmo quando o regime é democrático) e que também por isso o trabalho manual – técnico – não é uma ocupação elevada, mesmo quando realizado por um homem livre.

No interior da práxis, a política é superior à ética, pois para um grego o indivíduo só existe como cidadão.
1. POIESIS (arte ou técnica ou ciência produtiva): agricultura, metalurgia, olaria, navegação, pintura escultura, arquitetura, medicina, artesanato, poesia, dança, retórica etc. As ciências produtivas se referem à ação fabricadora. Cada ciência produtiva se refere a um aspecto particular da capacidade fabricadora ou técnica dos homens, e por isso são tão numerosas. O ponto de referência, fim ou critério da ação fabricadora é o paradigma ou modelo daquilo que se vai fabricar.

2. PRÁXIS: ética (que estuda a ação do homem como alguém que deve ser preparado para viver na cidade; que estabelece os princípios racionais das ações virtuosas, ações que visam ao bem do indivíduo como um ser que vive em relação com outros) e política (que estuda a ação do homem como um ser social, procurando estabelecer, para cada regime político, os princípios racionais da ação política, ação que visa ao bem da comunidade, ao bem comum).


LÓGICA ou ÓRGANON (analítica = desembaraçar a trama do pensamento e da linguagem): Aristóteles também estabeleceu os princípios e as formas de todos os conhecimentos e discursos, e determinou as regras do pensamento e do discurso científicos. Na classificação das ciências, costuma-se achar que Aristóteles não insere a lógica no conhecimento teorético nem no poético ou no prático. A razão disto seria que a lógica não se refere a seres, a conteúdos; ela é instrumento para o pensar correto, só se refere a formas, estruturas de pensamento e linguagem. A lógica seria um saber instrumental, pré-requisito para a boa realização das investigações próprias às ciências propriamente ditas.


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