Fim das cidades ou cidades sem fim?”



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Fim das cidades ou cidades sem fim?”


Carlos Vieira de Faria *
Janus 2008

Partindo daquilo que já se anuncia sobre o que virá a ser o modelo dominante da globalização das economias, é natural que nos interroguemos sobre o impacto urbano de tais mudanças estruturantes. Na era industrial, a expansão urbana processou-se sobretudo em torno dos centros urbano-industriais, alguns dos quais se impuseram como grandes metrópoles ou áreas metropolitanas. Importará saber se a globalização implicará o fim das cidades tais quais hoje as conhecemos ou se iremos assistir ao aparecimento de megacidades, como sugere Castells, ou de cidades globais, como as nomeou Saskia Sassen1.

Se é certo que a humanidade caminha para um mundo genericamente urbanizado onde tendencialmente tudo será urbano, não será imperioso proceder à mudança das categorias mentais e às políticas de gestão com vista a uma abordagem das novas e distintas formas de relação entre sociedade e espaço? Tudo isto faz sentido, tanto mais quanto é certo que fenómenos como a revolução tecnológica, a revolução informacional e comunicacional e a globalização da economia sugerem um possível desaparecimento das cidades como formas específicas de organização territorial.

O mérito de todas estas questões será o de colocar as cidades no centro das interrogações sobre o futuro das sociedades industriais, terciárias e/ou quaternárias e urbanizadas do terceiro milénio.



Donde vimos e onde nos encontramos
A cidade, ab initio, emergiu, e continua emergindo ainda, como a expressão de uma civilização, sociedade ou cultura. A história das cidades tem sido coincidente com a história das civilizações e vice-versa.

Daí que a matriz fundadora tenha afirmado as cidades como lugares de troca e de diálogo, pelo que ao longo dos séculos o seu desenvolvimento não deixou de espantar e apaixonar uma plêiade de historiadores, filósofos, cientistas, tecnólogos e muitos outros pensadores. Obra inteiramente humana, desde cedo a cidade se tornou em um lugar de cobiça, pelo que a sua existência fabricou bem cedo a utopia da procura incessante de segurança urbana. Não era de estranhar que, consequentemente, a cidade se impusesse, de imediato, como lugar de poder, fundando novas formas de governança e de justiça, sem todavia ter sido capaz de evitar múltiplas injustiças e a exposição de complexos fenómenos de marginalização. Habitada por homens livres, a cidade foi olhada, na sua rota histórica, como lugar de orgulho e, por isso mesmo, como um espaço de inovação em todas as áreas, como um ambiente imbuído de sedução e beleza, como um palco de reinvenção da arte, cultura e urbanismo, como uma fonte de criação de um imaginário urbano. Neste sentido, as cidades representaram e continuam a representar a força vital de um país, cultura ou civilização.

Sendo assim, as cidades sempre se afirmaram, ao longo dos tempos, como forças motoras de múltiplas oportunidades para cidadãos, famílias e empresas exercerem as suas capacidades de realização. Mas foi, sobretudo, a partir dos séculos XV-XVI que as cidades da Europa conheceram um forte impulso causado pela pujança da actividade mercantil, impondo-se nos tempos do mercantilismo renascentista e do capitalismo da era industrial como florescentes centros comerciais, monetários e financeiros. O quadro que se segue apresenta, entre 1500 e 1800, os valores percentuais da população urbana, valores que escondiam, naturalmente, realidades bem distintas, por regiões e países.

Importará recordar que a nascente economia mundial (iniciada com os descobrimentos, desde então prenúncio do futuro, agora tornado realidade), que serviu de suporte a este crescimento urbano, assentava essencialmente na actividade comercial, funcionando essas cidades como “nós” de uma rede que englobava portos, plantações, fábricas e minas. A partir de então, a produção da riqueza não deixou de estar centrada exclusivamente nas cidades-mãe. A exploração e povoamento dos novos territórios, agora descobertos, conduziram à construção de novas cidades, primeiro por espanhóis e portugueses e, depois, por holandeses, ingleses e franceses. Esta dinâmica do renascimento urbano cedo impôs as cidades como meios de uma importância crucial, porque permitiam o controlo dos meios de produção: (capital, trabalho e matérias-primas) e minimizavam os custos da mobilidade dos produtos. Isto constituiu o princípio da “economia-mundo” de que falava Braudel.

Importa lembrar, todavia, que foi sobretudo com a revolução industrial e a civilização industrial a que deu origem, iniciada nos finais do século XVIII e início do século XIX, que se assistiu a um aceleramento galopante e caótico processo de urbanização. De forma nunca vista no passado, sucessivas vagas de população abandonavam os campos à procura de uma mudança de vida e de destino nos centros urbano-industriais que se foram constituindo e crescendo ao longo desses quase dois séculos nos diferentes países e regiões industrializados.

A título de exemplo, vejamos o resultado dessas migrações demográficas e a sua concentração nos novos centros industriais da Inglaterra e do País de Gales. A aceleração do processo de urbanização fica bem patente se se observar a percentagem da população vivendo em cidades com mais de 100 mil habitantes:

(ver imagem “Percentagem da população a viver em cidades com mais de 100 mil habitantes”).

Tal aceleração já foi particularmente notória em meados do século XX na maioria dos países industrializados ou que pretendiam integrar esse grupo, mas será nas décadas posteriores à II Guerra Mundial que as cidades se afirmarão claramente, a partir de então, como sendo aquilo que os países eram cada vez mais. No contexto da revolução industrial, a economia mundial assentava na exploração de matérias-primas e na produção em massa, passando as cidades a constituir os pontos fulcrais da produção de riqueza e do comércio. Este salto qualitativo tornou-se possível graças ao desenvolvimento das redes de transportes públicos (metro e caminho-de-ferro), e privados (automóvel). Estes centros urbano--industriais, sempre com uma população superior aos 100 mil habitantes, cresceram a um ritmo nunca visto, distanciando-se visivelmente das restantes cidades. À medida que o século XX se aproximava do seu ocaso, várias destas aglomerações haviam já ultrapassado largamente o milhão ou os milhões de habitantes, enquanto os meios rurais e as pequenas vilas e cidades acusavam uma regressão populacional. A tal ponto que nos 80-90, demógrafos e outros especialistas se referiam claramente ao processo de metropolização que de forma acelerada atravessava as grandes cidades.



O impacto da globalização sobre a estrutura espacial e social das (mega) cidades
Mais do que descrever abstractamente este processo de metropolização, retenhamos momentaneamente a nossa atenção no caso concreto de Madrid, estudado entre 1986 e 1990 por Jordi Borja e Manuel Castells3. É um exemplo lapidar desta nova dinâmica. Segundo estes autores, Madrid, até 1986, não passava de um lugar relativamente apagado da economia global. Contudo, a adesão da Espanha (e Portugal) nesse ano à União Europeia abriu por completo a economia madrilena ao capital estrangeiro, investindo nas operações bolsistas e bancárias, na aquisição de património empresarial e propriedades imobiliárias. O investimento directo estrangeiro ascendeu de 8.000 milhões de pesetas, em 1985, a quase 400.000 milhões, em 1988. Em resultado disto, a cidade foi profundamente transformada pela saturação do valioso espaço do centro e por um processo descontínuo de suburbanização periférica que, até então, havia sido um fenómeno discreto, limitado e espacialmente contínuo.

Outros exemplos poderiam ser mencionados, mas o que nos interessa agora é salientar que o conceito de cidade global, ao contrário das metrópoles ou megacidades, não repousa em critério como a população ou a riqueza, mas no papel de “posto de comando”que esta ou aquela (mega)cidade assume em determinados contextos ou conjunturas. Por exemplo, a primeira cidade global alemã não foi Berlim, Hamburgo ou Munique, mas Frankfurt, sede das bolsas do Bundesbank e dos principais bancos alemães e multinacionais. É por esta vertente que a obra de Saskia Sassen explana um certo número de características que permitem identificar, nas grandes metrópoles, as cidades globais.

Segundo esta autora, nas cidades globais, a concentração de sedes de grandes empresas multinacionais ficou a dever-se à forte implantação de serviços (“serviços de equipamento”), altamente rentáveis e funcionais, que estas empresas procuram e das quais necessitam como o “ar que se respira”. Mais do que a concentração de população, estes núcleos fortes da economia global concentram as funções planetárias de direcção, de produção e de gestão, dominam os médias, a capacidade simbólica de criar e difundir mensagens, numa palavra, elas representam o poder real4. A título de exemplo, lembremos que a região parisiense agrupa 40% de todos os serviços às empresas sediadas em França e 80% do terciário superior sofisticado5.

Resultado do processo de metropolização que vinha trabalhando desde os anos 70 o seio das principais cidades existentes, as megacidades impõem-se, hoje, como vastas concentrações humanas (10 milhões de habitantes, às vezes muito mais, às vezes menos), que irão caracterizar a urbanização do terceiro milénio.

Este processo de transformação urbana caracteriza-se – segundo níveis de desenvolvimento de cada país, sua história urbana, cultura e instituições – pela ocupação extensiva de espaços, dando origem à formação de verdadeiras nebulosas urbanas onde, de forma descontínua, se integram ao mesmo tempo campo e cidade. Como que cidades sem fim... Mas para lá do peso da sua população, importa considerar também o dinamismo económico e tecnológico, social e cultural que estas grandes cidades revelam, não apenas nas respectivas regiões e países, mas também a níveis transnacionais, devido à importância das funções de centros de comando e controlo que as projectam como centros nodais do sistema mundial. Não queremos deixar também de anotar que esta evolução das grandes cidades, policêntricas por natureza, é adversa aos respectivos centros (históricos), cada vez menos adaptados à vida económica e à vida das relações que dominam as populações urbanas actuais. Caminha-se no sentido da museificação dos centros (históricos ou não), apesar das políticas urbanas de combate à desertificação da sua população e à dinamização do seu comércio. Em Lisboa, ao contrário de outras cidades, a lenta agonia da Baixa apresenta um carácter gravíssimo e sem solução à vista, devido à incompletude cultural da classe político-partidária e à histórica lentidão da sociedade portuguesa em responder aos desafios sociourbanísticos da pós-modernidade.

A compreensão desta nova e complexa realidade sociourbanística, mundialmente emergente, passa pelo saber articular o global e o local, uma vez que não se trata de fenómenos que se opõem, mas que se complementam. Sendo assim, toda a (grande) cidade é simultaneamente algo de global e local. A maioria das pessoas vive as suas vidas quotidianas a nível local. O que é global são as funções direccionais que a (grande) cidade podem vir a desempenhar em certas conjunturas. Castells tem mesmo uma postura mais crítica, sustentando que não há cidades globais, i. e., a cidade global não é concreta, é uma rede interterritorial de espaços locais conectados numa rede global de capital e informação. É da posição que ocupar nesta rede que, em boa medida, dependerá a sorte das cidades e dos cidadãos.

Sem nunca deixarem de ser uma realidade local, as cidades com funções globais continuam, por isso, a enfrentar os desafios de reabilitação urbana das áreas centrais (históricas ou não) cada vez mais despovoadas, segurança urbana, ofertas culturais e turísticas, grandes projectos de desenvolvimento urbano e de afirmação de identidade colectiva (ligados a certos eventos ou derivados de programas estratégicos de amplo consenso político-cívico, como, por exemplo, o Museu Guggenheim de Bilbao, aberto ao público em Outubro de 1997, ou a Exposição Mundial de Lisboa, em 1998). Neste processo contínuo de reestruturação urbana, para além destes problemas urbanos, estas mesmas cidades enfrentam alterações profundas da sua estrutura social originadas por fluxos globais de capital e consequente diversificação dos estratos sociais em virtude do crescimento das imigrações ilegais, da fragmentação do mercado de trabalho, onde sobrevive uma massa de trabalhadores não qualificados destinados a trabalhos repetitivos e de execução. A permanência ou o agravamento de situações de segregação, desigualdades sociais e pobreza, levou Castells a falar de cidade dual, em consequência do agravamento do fosso entre grupos sociais produtores de informação e detentores de um elevado status social e grupos sociais excluídos ou vivendo perto da condição de marginalização.

Aspectos marcantes da nova realidade urbana
Se ao longo dos tempos as cidades sempre desempenharam um forte protagonismo nos vários níveis da vida económica, social e cultural, esse protagonismo, hoje mais do que nunca, abarca dimensões mais complexas e multivariadas, projectando as cidades, mais concretamente depois da crise industrial das décadas 70 e 80, como verdadeiros actores sociais. Porém, enquanto actores sociais, as cidades do século XXI estão a exigir uma nova cultura de governação, o que implica não apenas uma administração local esclarecida e interveniente, mas também uma articulação entre esta e as administrações públicas (locais e outras), agentes económicos públicos e privados, organizações sociais e cívicas, sectores intelectuais e profissionais, sem esquecer os meios de comunicação social.

Este tipo de governo das cidades facilitará uma efectiva congregação de interesses e vontades comunicantes, constituindo por isso um passo decisivo de modo a impedir que a dominação estruturante dos fluxos globais dos interesses internacionais se sobreponha aos interesses locais das cidades (enquanto lugares de democracia). A expressão desta convergência no governo das cidades permitirá a formação de um espírito de conexão de partilha de códigos culturais, possibilitando o lançamento de pontes culturais e físicas de modo a permitir a inflexão desses dois universos paralelos: o global e o local. As cidades do século XXI poderão então ser recuperadas pelos cidadãos-citadinos na medida em que estes sejam capazes de reconstruir, “de baixo para cima”, uma nova relação espacial entre os fluxos (já integrados) da economia global e o espírito das cidades enquanto lugares (mas ainda fragmentados) onde subsistem graves problemas sociais e urbanos, alguns deles acima aflorados.



* Carlos Vieira de Faria

Licenciado no Institut Catholique de Paris. Mestre em Sociologia Urbana na École Pratique des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris). Doutor em Sociologia Urbana pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Docente na Universidade Autónoma de Lisboa.



Notas

1 O título deste texto foi-nos sugerido pelos livros de Chombart de Lauwe (La fin des villes: mythes ou réalité, 1982) e de Saskia Sassen (The global city: New York, London, Tokyo, 1991).

2 Silva, Nunes da – Cidades em Rede, Cidades sem Rede, comunicação apresentada em Seminários sobre “Desenvolvimento Sustentável”, entre 10 de Outubro e 25 de Novembro de 2005. O carácter tardio do capitalismo industrial português está bem manifesto no facto de, em 2000, a população urbana do país não ir além dos 68%, quando a média da UE-15 era já de 78%, sendo que a Inglaterra e o País de Gales se situavam muito acima desta média, com 89%.

3 Borja, J. e Castells, M. – Local y Global. La gestión de las ciudades en la era de la información, Madrid: Taurus.

4 Castells, M. La Société en Réseaux, Paris: Fayard, 1998: 454.

5 Sassen, Saskia – Global Cities. http://globalcities.free.fr




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