Fios e tramas da mediunidade: conversando com médiuns



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Ações e recursos utilizados no grupo
junto aos médiuns

Apresentaremos aqui as principais ações e recursos que utilizamos no Grupo de Apoio aos médiuns. Faremos uma descrição mais geral, destacando que pode haver pequenas variações e adaptações dependendo de cada situação. Quanto a essas variações, creditamo-las à intuição e às inspirações advindas dos Mentores Espirituais do Grupo. Quanto à indicação, a experiência tem-nos mostrado quando uma ou outra mais específica deve ser utilizada.
Atenção para a prece
A prece é uma invocação; por ela um ser se coloca em comunicação mental com outro ser ao qual se dirige.”

(ESE, cap. XXVII, item 9.)


Nesse mesmo capítulo de O Evangelho segundo o Espiritismo, encontramos a explicação de que a prece, ao nos colocar em contato com os Bons Espíritos, nos dá força moral para vencer as dificuldades e reencontrar o caminho certo. Tem o efeito de evocar a inspiração salutar e de nos proporcionar forças para resistir aos maus pensamentos, que nos podem levar a causar o mal. A prece nos coloca na situação daquele que solicita bons conselhos, mas está livre para segui-los ou não, tendo respeitado seu livre-arbítrio. Compreendemos que o poder da prece se prende ao pensamento, por isso, ela deve ser feita com pureza de coração, ou seja, com sinceridade de intenção. Não são as palavras ditas, mas a intenção atribuída a elas, o sentimento que as anima, a direção impressa pelo pensamento que nos colocará em comunicação mental com os Bons Espíritos. A partir deste entendimento, recomendamos a prece sempre.
Exercícios disciplinares diários
Denominamos aqui “exercícios disciplinares” a algumas ações desenvolvidas no intuito de auxiliar o médium a prestar atenção à sua vida atual, a tranquilizar-se diante das dificuldades existenciais, e a criar uma íntima relação com seus mentores espirituais.
Preparação para dormir
A prece é um recurso recomendado sempre. No entanto, há um momento em que sua ação se faz em especial, quando nos preparamos para dormir. No livro Os Mensageiros, cap. 41, encontramos uma explicação de Aniceto muito esclarecedora: “O dia e a noite constituem, para o homem, uma folha do livro da vida. A maior parte das vezes, a criatura escreve sozinha a página diária, com a tinta dos sentimentos que lhe são próprios, nas palavras, pensamentos, intenções e atos, e no verso, isto é, na reflexão noturna, ajudamo-la a retificar as lições e acertar as experiências, quando o Senhor no-lo permite”. Compreendemos, dessa forma, a importância da preparação para dormir; por isso, recomendamos aos médiuns procederem assim. Cuidamos da escovação dos dentes, de colocar uma roupa limpa, de selecionar as cobertas que aquecerão o nosso corpo; devemos também preocupar-nos com os caminhos que iremos trilhar enquanto nos encontramos emancipados pelo mecanismo do sono.

Antes de se recolher ao leito, ainda com a luz acesa, a pessoa deverá trazer à mente as preocupações que a afligem. Ao fazer isso de forma humilde e sincera diante de Deus, o ser se sensibiliza. Essa sensibilização lhe ajuda mobilizar todo o seu potencial espiritual no sentido desejado. Conversar com Deus, com seu Espírito Guardião, expondo-lhe suas preocupações. Logo após, deverá fazer a leitura de uma mensagem. Sugerimos alguns dos livros de Emmanuel: Caminho, Verdade e Vida; Pão Nosso; Vinha de Luz; Fonte Viva. Por fim, deverá fazer sua prece, animando-a com todo o seu sentimento, direcionando seu pensamento a Deus, pedindo-lhe que permita, na medida do seu merecimento e de suas condições, que os Espíritos Guardiães possam acolher sua alma, enquanto seu corpo repousa. Que eles possam lhe inspirar bons pensamentos e conselhos salutares, esclarecendo sobre sua preocupação, acalmando suas angústias. Finda a prece, deve recolher-se ao leito com o desejo sincero de acordar no dia seguinte com novo ânimo para a vida. Sabemos que os Bons Espíritos secundam a nossa vontade, por isso é tão importante termos, para nós mesmos, clareza do que queremos e precisamos. Quando demonstramos o desejo sincero e o trabalho assíduo no sentido da nossa melhoria, contaremos, então, com o auxílio dos Espíritos com os quais sintonizamos.

Léon Denis, em O problema do Ser, do Destino e da Dor, sugere que escolhamos, entre as grandes almas, aquela que possa nos ser modelo a seguir. Um exemplo que possa nos inspirar quando estivermos em alguma situação difícil. Sugere ele, “em todas as circunstâncias difíceis, em todos os casos em que nossa consciência oscila entre dois partidos a tomar, inquirirmos o que ela teria resolvido e procedermos no mesmo sentido”. Acredita que, assim, aos poucos, iremos construindo um ideal de moral que servirá de diretriz segura para nossa vida. A caminhada para um ideal a ser alcançado é construção diária de nossos esforços, por isso devemos direcionar nossos pensamentos e a vontade consciente em sua direção.
Preparação para o dia
Logo ao acordar, sugerimos que a pessoa faça o que denominamos “exercício de respiração”. Por ser um exercício disciplinar, deverá inspirar profunda e lentamente, exalando o ar de forma bastante tranquila, por tão somente cinco vezes. É fundamental que a pessoa o faça de forma consciente, para não entrar em estado de abstração; o que ocorre de forma automática nas mentes viciosas. Por isso, sugerimos que conte conscientemente as respirações. Logo após, levante-se e inicie seu dia de trabalho com a certeza do amparo dos Bons Espíritos.

Por que esse exercício? A mente indisciplinada e enferma age de acordo com os condicionamentos negativos do passado. Esse exercício inicia uma nova postura mental, mais de acordo com a vontade do que se quer hoje, de tal forma que, ao longo do dia, quando se vê em alguma situação de risco, para o equilíbrio mental e das emoções, a vontade pode buscar, conscientemente, pela respiração, manter-se controlada e em paz.


Leitura, reflexão e meditação
Léon Denis, no livro O problema do Ser, do Destino e da Dor, esclarece que “nas horas matinais, a alma, pela oração e pela meditação, eleva-se com mais fácil impulso até às alturas donde se vê e compreende que tudo – a vida, os atos, os pensamentos – está ligado a alguma coisa grande e eterna e que habitamos um mundo em que potências invisíveis vivem e trabalham conosco” (p. 338). Por isso sugerimos que, se possível, ainda pela manhã, o médium faça o exercício da leitura, reflexão e meditação. Esse exercício deve ser feito em hora prefixada, exigindo, assim, uma prévia organização. Esse compromisso ajudará a mente viciosa, no cotidiano e no frívolo, a criar hábitos de disciplina mental, preparando-se para o bem.

Temos percebido que esse exercício traz bons resultados quanto à disciplina dos pensamentos e à criação de recursos para a substituição destes. Indicamos a leitura e reflexão dos livros Agenda Cristã ou Sinal Verde, ambos de André Luiz, que contêm pequenos parágrafos e de fácil entendimento. A pessoa deverá escolher um horário de acordo com sua organização diária, quando não será incomodada. Fazer a leitura de um único parágrafo, refletindo sobre ele: “Que ensinamentos me traz?” “Que sentidos me oferece?” “Como o compreendo?” Sugerimos que escreva sobre sua reflexão, o que fará com que seu pensamento se volte para o que está fazendo no momento.

Nosso entendimento para o aconselhamento desse exercício se deu a partir das orientações de Léon Denis em O problema do Ser, do Destino e da Dor, na terceira parte, quando fala da disciplina do pensamento e da reforma do caráter. Convida-nos a estar em contato, pelo pensamento, com os escritores de gênio de todas as épocas e países, por meio da leitura e meditação de suas obras, impregnando-nos da substância da sua alma. Afirma que “as radiações de seus pensamentos despertarão em nós efeitos semelhantes e produzirão, com o tempo, modificações de nosso caráter pela própria natureza das impressões sentidas”. Mas não basta simplesmente ler toda a obra com a impulsividade de nosso ser. Julgamos importante transcrever toda a orientação do autor: “É necessário escolhermos com cuidado nossas leituras, depois amadurecê-las e assimilar-lhes a quintessência. Em geral lê-se demais, lê-se depressa e não se medita. Seria preferível ler menos e refletir mais no que se leu. É um meio seguro de fortalecer nossa inteligência, de colher os frutos de sabedoria e beleza que podem conter nossas leituras. Nisso, como em todas as coisas, o belo atrai e gera o belo, do mesmo modo que a bondade atrai a felicidade, como o mal atrai o sofrimento. O estudo silencioso e recolhido é sempre fecundo para o desenvolvimento do pensamento. É no silêncio que se elaboram as grandes obras. A palavra é brilhante, mas degenera demasiadas vezes em conversas estéreis, às vezes maléficas; com isso, o pensamento se enfraquece e a alma esvazia-se. Ao passo que, na meditação, o Espírito se concentra, volta-se para o lado grave e solene das coisas; a luz do mundo espiritual banha-o com suas ondas”.

Alguns médiuns reclamam que tentam fazer esse exercício, mas não conseguem registrar nada do que leram. Manoel Philomeno de Miranda, em Tramas do Destino, esclarece que tal dificuldade procede da falta do hábito salutar da leitura e da convivência com bons livros. Chama a atenção para o fato de que “a mente viciosa, indisciplinada, acostumada ao trivial, ao burlesco e ao insensato, se recusa atenção e interesse no esforço novo. Conveniente, desse modo, insistência e perseverança”. Sugere que se leiam pequenos textos e se façam acompanhar as leituras de subsequente reflexão da parte examinada; recomenda-se o estudo com anotação como exercício gráfico, para que não aconteça à mente entrar em ociosidade nem em recusa ao aprendizado do que foi lido.

Sendo assim, aconselhamos que o médium escolha um pequeno parágrafo e faça a sua leitura, mas que o faça com a sinceridade da alma e a atenção que possa levá-lo a perceber sua essência espiritual. Internalizando, permitindo-se sensibilizar-se pelo que lê. Léon Denis sugere que meditemos “em direção ao ideal sonhado. Meditemos nele todos os dias, à hora certa, de preferência pela manhã, quando tudo está sossegado e repousa ainda à nossa volta, nesse momento a que o poeta chama ‘a hora divina’, quando a Natureza, fresca e descansada, acorda para as claridades do dia”.

Estudo do Evangelho no Lar
Quando o Evangelho penetra o Lar, o coração abre mais facilmente a porta ao Mestre Divino” (Emmanuel).
O que vem a ser a nossa vida no lar? Esta foi uma pergunta feita pela sogra de Pedro ao Mestre Jesus (Neio Lúcio, Jesus no Lar), à qual o Mestre respondeu: “O lar é a escola das almas, o templo onde a sabedoria divina nos habilita, pouco a pouco, ao grande entendimento da Humanidade”. A experiência tem mostrado que a família é um grande amparo para o médium, quando se encontra em harmonia, e clima de acolhimento. Sabemos que as dificuldades do médium afetam todo o núcleo familiar, por isso, sugerimos como ação muito importante o estudo do Evangelho no lar. Muitos já realizam essa prática, mas não raros a fazem como mera formalidade. Buscamos orientar e sensibilizar para a eficácia dela quando motivada pelo desejo de harmonizar o ambiente doméstico e trazer tranquilidade às relações familiares. André Luiz, no livro Desobsessão, cap. 70, chama a atenção para a necessidade dessa prática compreendendo-a como “a lâmpada acesa para todos os imperativos de apoio e do esclarecimento espiritual”.
Intervenção magnética por meio do passe
Há alguns médiuns, em relação aos quais percebemos, por intuição e pelo estudo dos seus relatos, que necessitam de uma intervenção magnética mais direcionada. Em nosso grupo acontece isso, principalmente quando há complicadores como regressão de memória que esteja causando sofrimento moral, ou, ainda, doença física instalada. Nesses casos, temos a contribuição de duas experientes companheiras, que trabalham conosco há muitos anos, que assumiram o compromisso de direcionar sua atuação mais especificamente para essa intervenção. Atuam por meio do passe, com o direcionamento voluntário do pensamento e das vibrações para o restabelecimento específico com relação ao problema em questão. Em contrapartida, deve haver por parte de quem vai recebê-lo o mesmo movimento para si próprio; assim, a vontade de ambos se conjuga para um só resultado. Com certeza, não nos faltará a intervenção direta dos Mentores Espirituais do grupo.

Dessa forma, percebemos, mais uma vez, a concretização da ideia de que os Espíritos secundam a nossa vontade: tanto os médiuns que aplicam o passe quanto aquele que o recebe direcionam sua vontade consciente para o mesmo objetivo, no intuito de reequilíbrio de funcionamento do Corpo Espiritual e do psiquismo.

Alguns médiuns relatam uma mudança significativa após o início dessa intervenção. A intenção dos médiuns passistas, que atuam como magnetizadores, se faz no sentido contrário ao proposto quando se quer que haja a emancipação da alma. Busca-se o restabelecimento da harmonia do espírito com o corpo por meio da redução do ritmo vibratório da alma, cerceando o acesso do Espírito encarnado aos seus arquivos espirituais. Percebemos nos médiuns que encaminhamos para esse tratamento a existência do que Yvonne A. Pereira denomina, no livro Recordações da Mediunidade, de distúrbio vibratório(8), o qual seria, então, o causador de sofrimento moral e muitas vezes físico. Assim, a ação da intervenção magnética se faz para reintegrar o Espírito encarnado à sua organização física, com predomínio dos seus sentidos, com seus interesses e preocupações da atual existência.

A duração do tratamento se faz, normalmente, de quatro a seis semanas seguidas, mas esse prazo é flexível, dependendo do resultado que o próprio médium apresenta.




8 Falaremos mais detalhadamente sobre abalo vibratório e distúrbio vibratório no próximo tópico.

Algumas explicações: recordação do passado, abalo vibratório e distúrbio vibratório
Algo recorrente nos conflitos dos médiuns é a existência de nuanças do passado no presente, com graus e intensidades que variam, com afetações diversas em suas vidas. Em função desse fato constante, resolvemos pontuar aqui, com mais detalhes, o que estudamos sobre a questão.

No livro Recordações da Mediunidade, cap. 3, Yvonne A. Pereira cita Kardec (O Livro dos Médiuns, cap. XVI, questão 193, item 3º) ao falar sobre os Médiuns Positivos. Em seu entendimento, esses médiuns possuiriam grandes forças intermediárias, tais como eletromagnetismo, vitalidade, intensidade vibratória, sensibilidade superior, vigor mental em diapasão harmônico com as forças físico-cerebrais: são mais aptos do que as demais criaturas para o fenômeno de reminiscências do passado, o que se dá por predisposições particulares. Tal esclarecimento nos leva a compreender que o fato de recordar o próprio passado reencarnatório é uma faculdade que talvez seja mediúnica. Sendo assim, poderá, quando bem desenvolvida e equilibrada, não alterar o curso da vida do seu possuidor. No entanto, quando ainda não equilibrada, é possível que venha causar lamentáveis distúrbios emocionais, como qualquer outra faculdade mediúnica. Tal situação faz com que muitos médiuns sejam considerados loucos por todas as opiniões leigas e técnicas, embora não o sejam realmente. Aqui, em sua maioria, trata-se de efeito de causas pretéritas graves. Pelo lado positivo, tal disposição natural pode ser reflexo da aquisição de mentes trabalhadas pelo esforço da inteligência, fruto do cultivo dos dons da alma. Tal diferenciação poderá ser compreendida a partir das consequências de tal recordação na vida do médium, se implica distúrbios conscienciais ou não.

A experiência tem demonstrado que a imersão no passado espiritual ocorre mais comumente em três situações: a que se faz por intervenção e acompanhamento de um magnetizador ou hipnotizador (para o bem ou para o mal); a que se faz pelo desdobramento durante o sono do corpo físico (desta nem sempre nos lembramos); e, ainda, a que se faz naturalmente em estado de vigília. Estas últimas, provocadas por estímulos cotidianos sutis (uma música, um lugar, uma pessoa, uma imagem, entre outros) ou traumáticos, são as que vêm imersas em maior carga de sofrimento moral. No entanto, o princípio que possibilita as três situações é o mesmo: um abalo vibratório.

Começamos a entender essa questão com o estudo do livro O problema do Ser, do Destino e da Dor, de Léon Denis. O autor considera que a alma é um foco de vibração que irá variar em intensidade e amplitude, de acordo com o grau de elevação do ser. Sendo assim, cada alma tem sua vibração particular e própria. Segundo Denis, “as almas que vibram em uníssono reconhecem-se e chamam-se através do espaço” – sintonia que explicaria as atrações, as simpatias, a amizade e o amor.

Com a reencarnação, as vibrações da alma, antes livres, se amortecem sob o invólucro carnal. No entanto, durante o sono, no sonambulismo (natural ou por hipnose) ou no êxtase, tanto quanto no transe mediúnico, “desde que à alma se abre uma saída através do invólucro de matéria que a oprime e agrilhoa, restabelece-se imediatamente a corrente vibratória e o foco torna a adquirir toda a sua atividade”. Nessa condição, o Espírito se encontra novamente em seus estados anteriores de poder e liberdade: “Tudo o que nele dormia desperta. As suas numerosas vidas reconstituem-se, não só com os tesouros do seu pensamento, com as reminiscências e aquisições, mas, também, com todas as sensações, alegrias e dores registradas em seu organismo fluídico. É essa a razão pela qual, no transe, a alma, vibrando as recordações do passado, afirma as suas existências anteriores e reata a cadeia misteriosa das suas transmigrações”.

O autor continua explicando que tudo o que vivemos em nossa existência fica registrado em nós e deixa suas marcas. Isso acontece não apenas em uma única vida, mas temos registros de todas as nossas experiências, da presente encarnação e das anteriores. Tal registro se faz na forma de estados vibratórios, os quais poderiam ser comparados às camadas concêntricas observadas na secção de uma árvore. Durante o curso normal da vida, temos a impressão de que as perdemos, no entanto, quando se abre à alma uma saída através do invólucro da matéria, independentemente do meio pelo qual se faça, registros anteriores ficam ao alcance da nossa consciência. Acontece aqui o que denominamos recordação do passado. “O ‘sujet’ revive o seu passado, não só com o estado de alma e associação de ideias que lhe eram peculiares nessa época, ideias às vezes bem diversas das que ele professa atualmente, com os seus gostos, hábitos, linguagem, mas também reconstituindo automaticamente toda a série dos fenômenos físicos contemporâneos daquela época. Leva-nos isso a reconhecer que há íntima correlação entre a individualidade psíquica e o estado orgânico. Cada estado mental está associado a um estado fisiológico. A evocação de um na memória do ‘sujet’ traz imediatamente a reaparição do outro.” Essa correlação individualidade psíquica e estado orgânico nos ajuda a entender o mal-estar físico que pode acompanhar as regressões de memória.

O acesso a esse arquivo espiritual se faz por ação da vontade própria, manifesta seja por autossugestão ou por sugestão estranha. No entanto, há que esclarecer que, tanto em uma situação (autossugestão) quanto em outra (sugestão estranha), deverá ter a aceitação da pessoa; sendo assim, podemos concluir que ninguém lembra sem querer. Aberta a saída à alma, a vontade faz reviver uma lembrança pertencente a um período de nosso passado, surgindo com ela “todos os fatos de consciência que têm conexão com esse mesmo período”, os quais se desenrolarão em uma concatenação metódica.

Léon Denis fala da ação magnética, por meio da sugestão, que altera o ritmo vibratório da alma, possibilitando, assim, uma saída para esta (sua emancipação), o que possibilitaria pôr em movimento as potências vitais adormecidas, os sentidos psíquicos e as faculdades transcendentais.


Abalo vibratório
Nossos estudos e observações têm mostrado que, na maioria dos médiuns aos quais nos referimos aqui, o estado mental propício ao desprendimento é a abstração, no qual a mente viciosa permanece atenta ao que lhe interessa, ao que lhe prende a atenção de forma natural e inconsciente, sendo esse estado quase uma constante, o que os faz mais vulneráveis à imersão no passado, inclusive em estado de vigília, ou seja, fora da situação de sono do corpo físico ou magnetização na reunião mediúnica.

Nesse sentido, gostaríamos de chamar a atenção para o que Léon Denis, no livro O problema do Ser, do Destino e da Dor, denomina abalo vibratório: “Esse abalo, acelerando o movimento rítmico, tem por efeito restabelecer a relação entre a consciência cerebral e a consciência profunda, relação que está interrompida no estado normal durante a vida física. Então as imagens e as reminiscências armazenadas podem reanimar-se e tornar-se novamente conscientes; mas, ao despertar, a relação cessa logo, o véu torna a cair, as recordações longínquas apagam-se pouco a pouco e tornam a entrar na penumbra”. Para o autor, a explicação para muitos acontecimentos que envolvem o ser se explica pela “diferença dos movimentos vibratórios que ligam a alma e o seu corpo psíquico ao cérebro material”.


Distúrbio vibratório
O que a experiência tem-nos mostrado é que, passado esse primeiro abalo vibratório, que permite o acesso natural aos registros espirituais, muitos médiuns não têm logrado o restabelecimento do equilíbrio alma-corpo, o que tem como consequência um estranhamento diante da encarnação atual. Muitos dizem não se reconhecer no corpo que ocupam, nem seus familiares, nem suas relações presentes; com isso, se torna comum a rejeição à vida e, com ela, uma gama de sofrimento, podendo mesmo levar à doença física. Percebemos, assim, a configuração do distúrbio vibratório, estudado por Yvonne A. Pereira no livro Recordações da Mediunidade, e que se constitui de forma diferenciada do abalo vibratório.

O abalo vibratório se caracteriza como uma facilidade da mente de estabelecer relação entre a consciência cerebral e a consciência profunda, mediante um estímulo adequado (faculdade da alma que possibilita a relação entre a consciência cerebral e a consciência profunda); já o distúrbio vibratório se caracteriza por um desequilíbrio vibratório. Como explica Yvonne A. Pereira: “Um distúrbio vibratório poderá ter várias causas, e uma delas será o próprio suicídio em passada existência. Um distúrbio vibratório agudo poderá ocasionar um estado patológico, um transe cataléptico, tal o médium comum que, quando esgotado ou desatento da própria higiene mental ou moral (queda de vibrações e, portanto, distúrbio vibratório), dará possibilidade às mistificações do animismo e à obsessão”. Este último pode ser suscitado em função de alguma lembrança despertada pelo primeiro, o que não é raro acontecer. Após o despertar de uma lembrança, o médium pode se entregar a sofrimentos morais que acabam por caracterizar esse desequilíbrio. Nesse caso, a renovação mental será a terapêutica psíquica recomendada, uma vez que essa influi poderosamente no sistema de vibrações nervosas, possibilitando, assim, o retorno ao equilíbrio.

Um caso de desequilíbrio vibratório foi narrado no livro Árdua Ascensão, de Victor Hugo, no cap. 2, quando a menina Augusta, em um momento de introspecção sofrida, rompe com “os depósitos do inconsciente, onde se arquivam as existências pretéritas, passando a viver conflitos difíceis de ser elucidados. Misturavam-se-lhe, no campo das ideias, as impressões mais vigorosas do ontem, portanto, mais deprimentes, com os acontecimentos atuais, atordoantes e desagradáveis. Percebemos, então, que os acontecimentos da presente existência podem oferecer os estímulos que abrem os arquivos e despertam as lembranças do passado, somando-os. Vemos também a ação do pensamento sobre nossas vibrações. Os pensamentos, em verdade, não se reportam exatamente às experiências traumatizantes sofridas no passado, eles são as representações das associações feitas por nós em relação às impressões de desconforto registradas pelo consciente, mas que, alimentadas pelo desespero, nos levam ao desequilíbrio.

Infelizmente, muitos médiuns desconhecem a ação e soberania do pensamento. Muitas pessoas acreditam em Deus, fazem preces, buscam a Sua ajuda. Basta, porém, que uma preocupação qualquer lhes chame a atenção, lhes ocupe a casa mental para se esquecerem de que confiam em Deus, que a tudo provê. Entregam-se, em desespero, a esses pensamentos e as consequências são marcadas por dores e sofrimentos, muitas vezes prolongados e desnecessários. Nesses momentos, quando a pessoa, não importa o motivo, entra no estado de desequilíbrio, é necessário lembrar-se de todo o conhecimento adquirido pelos estudos, toda confiança em Deus que a fé raciocinada proporciona, e sair para a sua realidade atual, a que a soberania da encarnação determina, empurrando o passado de volta para seu devido lugar.

Uma situação que ilustra essa soberania é o sonho vivido por uma companheira de trabalho, no qual ela encarnava uma personalidade sua do passado que gozava de grande prestígio social. Sentia-se, vestia-se e se comportava como aquela personagem, no entanto seu caráter era duvidoso; ela o sabia. Em seu sonho, corria apavorada, pois era perseguida por Espíritos que a acusavam e ironizavam seus títulos sociais. Essa perseguição durou intensos e dolorosos momentos. Muito aflita, ela já não sabia como fugir, nem se defender. E, sem que houvesse racionalizado, ela se lembrou da atual existência e prontamente inquiriu: "E hoje, eu não valho nada?" Como num passe de mágica, os Espíritos se afastaram. A condição moral da atual encarnação, ao ser solicitada, impôs respeito e a libertou dos perseguidores.

André Luiz, no livro No Mundo Maior, cap. 8, fala das recordações remanescentes dos dramas vividos no passado, que se manifestam como ações reflexas da alma, emergindo de um vasto e intricado túnel de sombras. Chama a atenção para o fato de que “Se o mal demanda tempo para fixar-se, é óbvio que a restauração do bem não pode ser instantânea”. Destaca, assim, a importância da disciplina e a persistência no bem, a fim de substituir as energias deletérias por energias positivas, surgidas do trabalho sincero no bem.

Quanto à ação no bem, o ensino dos Espíritos nos convida a examiná-la com atenção. Convida-nos a pensar, descrever, analisar, mas também a não nos permitir o divagar demasiado dos pensamentos, para que não nos embaracemos em nossas ações. Destaca que a existência no plano material deverá ser usada como alicerce para que possamos construir, com firmeza e equilíbrio, o edifício sólido do êxito, com a argamassa do bom ânimo, composta pelo esforço, qualificada pela vontade e embelezada pelo amor.

Segunda parte

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