Fios e tramas da mediunidade: conversando com médiuns



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Estudo de casos
Nesta parte do livro, apresentaremos alguns estudos de casos que foram registrados ao longo dos anos no atendimento aos médiuns e outros mais recentes que foram notados a partir dos encontros com o Grupo de Apoio aos Médiuns.
Caso 1
Uma médium me procurou para conversar sobre sua participação na reunião mediúnica.

Começou a narrar sua história de vida. Desde a adolescência, lembrava-se, nunca gostou da vida. Sentia-se fora do mundo, fazendo coisas por fazer, sem sentir prazer em nada. Acordava durante a noite, sem conseguir mover o corpo, gritava, gritava e a voz não saía. Fechava os olhos e pensava: “vou dormir e quando acordar estarei melhor”. Em alguns momentos sentia que a vida não lhe pertencia, nem a mãe, nem os irmãos, nada era seu. E os dias se passavam entre uma tormenta e outra. Tinha, porém, um arrimo moral, seu pai. Quando este retornou à Pátria Espiritual, sentiu-se sem referência e só. Sentiu um peso muito grande ao ter que se responsabilizar pela própria vida, a dos irmãos e a da mãe, que passaram a ver nela seu apoio. Naquela mesma época, passou a assistir às Reuniões de Estudo do Evangelho em uma casa espírita. Teve acesso ao conhecimento sobre mediunidade, no entanto tinha horror à ideia de ser médium. Estudando a mediunidade deu-se conta de que muito do que sentia de estranho e inexplicável não passava de fenômenos mediúnicos. No entanto, a ideia de ser médium ainda a apavorava, pois estava ligada a sofrimentos, medos, desconhecimento sobre o assunto. Mesmo assim, continuava os estudos da Doutrina Espírita. Iniciou o Curso de Orientação e Educação da Mediunidade – COEM(9) e posteriormente ingressou em um grupo mediúnico. O trabalho mediúnico revelou-se um tormento. Chorava a semana inteira, detestava tudo que sentia. Criticava todas as manifestações que ocorriam através dela. Quando entrava no transe mediúnico, sentia-se gelada, paralisada; dava passividade, o Espírito manifestante era doutrinado e mesmo após a doutrinação permanecia o esfriamento, ficando assim até o final da reunião. De retorno ao lar, somente após algumas horas voltava a sentir-se “normal”. Disse que isso também acontecia durante a noite, acordando com o corpo frio, “batendo queixo”, totalmente desesperada. Sentia-se um “ET”, pois era diferente das outras pessoas. No grupo mediúnico enfrentava a crítica e a desconfiança, pois tudo questionava, sentia-se um incômodo, ao mesmo tempo em que não era acolhida incondicionalmente pelos participantes, já que estes não compreendiam o que estava acontecendo. Convidei-a para participar dos estudos no Grupo de Apoio aos Médiuns. Aqui começou a perceber que não era “anormal”, pois viu que existiam outras pessoas com situações semelhantes. Com o passar do tempo, a médium decidiu que gostaria de mudar de grupo mediúnico, pois suas relações com aquele de que participava estavam muito sensibilizadas. Foi então para outro grupo, que, tendo conhecimento da sua história, se propôs a ajudá-la. Continuei a acompanhar sua caminhada. Após muito estudo e pedido de orientação dos Espíritos Protetores do grupo, decidimos, juntas, que ela deveria fazer um exercício, pela vontade consciente de mudar o foco do seu trabalho. Não mais trabalharia com psicofonia, pois esta lhe trazia sofrimento, passaria a trabalhar no apoio ao grupo, principalmente ministrando passes aos médiuns que necessitassem.
9 Estudo oferecido pelo IDE aos seus participantes, que tem como objetivo primeiro o estudo da mediunidade e suas manifestações.

A decisão de mudar o foco de trabalho da médium deu-se a partir das nossas conversas e seus relatos sobre a facilidade indisciplinada que tinha de desdobramento. Entrava em transe com muita facilidade e frequência, não só nas reuniões mediúnicas, mas em outros lugares, inclusive em casa. Qualquer situação era motivo para que ela se abstraísse e tornasse alvo vulnerável às ações dos Espíritos. Esse estado frequente de abstração (transe) configurava um quadro patológico para a médium, que se via imersa em sofrimento físico e moral.

Buscamos entender tal situação, o que se deu a partir dos estudos de O Livro dos Médiuns, cap. XVIII, questão 221, na qual Kardec esclarece que o exercício da mediunidade para algumas pessoas é mais prejudicial que benéfico. Kardec explica que há casos em que “é prudente a abstenção, necessária mesmo, ou, pelo menos, o exercício moderado, tudo depende do estado físico e moral do médium”. E continua no item seguinte: “Há pessoas relativamente às quais se devem evitar todas as causas de sobre-excitação e o exercício da mediunidade é uma delas”. Sendo, portanto, inconveniente o transe mediúnico. Na médium em questão, bastou o deslocamento do foco do trabalho no grupo mediúnico. Ela deixou de exercer a mediunidade de psicofonia, no entanto direcionou suas forças mediúnicas para o auxílio aos outros médiuns. Hoje essa médium continua trabalhando em um grupo mediúnico, é uma auxiliar imprescindível, transmite confiança aos companheiros e é aceita por todos. Não que seus conflitos já estejam todos resolvidos, mas tem-se esforçado para aprender a vencer uma batalha de cada vez. Sente-se bem no grupo, o que lhe dá segurança e uma relativa tranquilidade.
Tratamento magnético e vontade consciente
Em seu tratamento, paralelo ao estudo e análise das diversas situações apresentadas no Grupo de Apoio, a médium passou por um tratamento magnético com finalidade específica de ajuste das suas vibrações.

Esse tratamento exige um movimento da vontade consciente, tanto de quem aplica o passe quanto de quem o recebe. Buscamos orientação em A Gênese, de Allan Kardec, ao tratar no cap. XIV sobre os fluidos, sua manipulação pelos Espíritos encarnados e desencarnados e a ação destes sobre a vida humana. Kardec explica que, na manipulação dos fluidos em prol da cura, o agente propulsor é o Espírito encarnado ou desencarnado e que sua ação dependerá da energia da vontade que provoca a emissão fluídica, a qual será direcionada pelas intenções que animam os envolvidos. A partir das explicações de Kardec, percebemos que há aqui uma combinação de fluidos espirituais (emitidos pelos Espíritos Superiores) e fluidos humanos (emitidos por quem aplica o passe). Os fluidos são direcionados pela vontade consciente dos envolvidos, para o fim específico de ajuste das vibrações do “paciente”, restabelecendo-lhe o equilíbrio.

É ainda Kardec, no mesmo livro, cap. XIV, quem nos explica o mecanismo dessa ação ao estudar a cura da mulher hemorroíssa que toca a túnica de Jesus e, então, se vê curada: “A razão disso é simples. O fluido, sendo dado como matéria terapêutica, deve atingir a desordem orgânica para repará-la; pode ser dirigida sobre o mal pela vontade do curador, ou atraído pelo desejo ardente, a confiança, em uma palavra, a fé do enfermo. Com relação à corrente fluídica, o primeiro fato tem o efeito de uma bomba premente e o segundo o de uma bomba aspirante. Algumas vezes, a simultaneidade dos dois efeitos é necessária, outras vezes, uma só basta; foi o segundo que ocorreu nesta circunstância”.

Buscamos a combinação da ação da vontade dos Bons Espíritos, do médium passista e do médium “paciente”, de forma que tal ação pudesse ter eficácia duradoura. Sendo assim, nesse tratamento, há a necessidade de que o “paciente” tenha consciência do mecanismo pelo qual ele se processa e do objetivo a ser alcançado, pois sua participação é imprescindível para a ativação da ação da sua vontade consciente, que então será uma “voz de comando” que o ajudará a reagir. É a vontade esclarecida agindo a favor do reequilíbrio do médium.

Não há um prazo pré-estipulado para a duração desse tratamento; sua evolução dependerá principalmente da mudança de comportamento do próprio “paciente” em direção ao equilíbrio. Juntamente com essa ação magnética direcionada, foi recomendado o estudo e oração disciplinados, com hora marcada. Sugerimos que a médium escolhesse um horário de sua preferência e diariamente se dedicasse ao estudo e à oração e reflexão sobre os ensinamentos de Jesus. A intenção principal era, além da disciplina mental, que ela tivesse recursos a que recorrer nos momentos de dificuldades e assim pudesse ter um reequilíbrio real, podendo ter suas relações espirituais e materiais restabelecidas.
Sonambulismo e mediunidade
Outra situação que nos permitiu um estudo sistematizado, nesse caso, foi o fenômeno de esfriamento no trabalho mediúnico, que acontecia tanto durante como após o transe mediúnico.

Ao tratar sobre sonambulismo, em A Gênese, Kardec esclarece que o Espírito em estado sonambúlico, em sua “febril atividade, atrai a si, por assim dizer, o fluido perispiritual, que, retirando-se da superfície, produz aí uma insensibilidade momentânea. Poder-se-ia também admitir que, em certas circunstâncias, no próprio fluido perispiritual uma modificação molecular se opera, que lhe tira momentaneamente a propriedade de transmissão”. Embora não fosse um médium sonambúlico na acepção da palavra, o princípio a reger o fenômeno era o mesmo. E, nesse sentido, no caso dessa médium, o fenômeno do esfriamento vinha quase sempre acompanhado da imobilidade. No entanto, o que mais a incomodava era a primeira sensação. Uma possibilidade de compreensão desta questão se dá na explicação de Kardec, sobre a retirada do fluido perispiritual da superfície(10) (imobilidade) e pela alteração molecular ocorrida (esfriamento).

Tal compreensão pode ser ampliada a partir do estudo de Nos Domínios da Mediunidade, cap. 11, no qual André Luiz, ao tratar do desdobramento em serviço mediúnico, relata que o médium, ao desdobrar-se, tinha seus membros inteiriçados; eles ficavam imóveis. Na situação descrita, o autor esclarece que o perispírito apresentava irregularidade, uma vez que havia absorvido certas faixas de força pertencentes ao corpo carnal. Eram eflúvios vitais que asseguravam o equilíbrio entre a alma e o corpo de carne. Sob a ação magnética do mentor Clementino, o médium devolveu essas energias ao corpo, garantindo-lhe, assim, o calor indispensável.

Em Recordações da Mediunidade, ao estudar quadros de doenças mentais, Yvonne A. Pereira explica que muitos daqueles casos considerados incuráveis pela medicina assim se conservarão, pois se trata de médiuns cujas forças mediúnicas se encontram ainda em elaboração. Aponta essas forças como agentes transmissores, os quais são a eletricidade, o magnetismo e o fluido vital. Essas são as mesmas propriedades particulares do perispírito, que também é força. Explica que, para que o efeito mediúnico se realize de forma normal, há que ter vibrações capazes de se conjugar com as vibrações excelentes do invisível, implicando que aquelas propriedades vibram harmoniosamente entre si e com o sistema nervoso do próprio médium. Quando isso não acontece, configuram-se diversos quadros de doenças mentais. Como explica no mesmo livro: “Pode acontecer que a força trinitária de que se reveste o perispírito, sede da mediunidade, não realize ainda a harmonia do conjunto vibratório, diapasão normal necessário ao feito transmissor mediúnico. Exemplo: o fluido vital excessivo para o


10 Kardec usa o termo superfície para fazer referência ao corpo físico.

grau delicado do magnetismo, essência transcendente, não permitirá o diapasão harmonioso de vibrações exigido para o equilíbrio da faculdade. Pode acontecer que o grau de eletricidade existente no perispírito constitua força excessiva; que a função mediúnica excitará ainda mais, atingindo as glândulas cerebrais, enfermando-as. Assim sendo, não possuindo ainda o perispírito o necessário equilíbrio de forças para o fenômeno da transmissão mediúnica, nada mais será que um aparelho defeituoso; que tende a se aprimorar com o tempo para as funções normais, onde a mediunidade é das mais importantes”.

No caso que aqui estudamos, não entendemos que se trate de um quadro de doença mental. Buscamos a explicação de Yvonne A. Pereira para compreender que tanto o esfriamento quanto a imobilidade podem acontecer em função da desarmonia vibratória envolvendo esta força trinitária (eletricidade, magnetismo e fluido vital) e que o direcionamento adequado do trabalho mediúnico poderá levar ao equilíbrio. Da mesma forma, uma condução inadequada poderá levar à enfermidade mental.

A experiência do trabalho com médiuns nos mostra que tal situação, tanto de esfriamento quanto de imobilidade, ocorre particularmente com médiuns iniciantes, que ainda não sabem conduzir adequadamente suas forças mediúnicas. No entanto, quadro muito semelhante acontece com médiuns em desequilíbrio. Sendo assim, há que se conhecer a história do médium, sondar seus conhecimentos e sua força de vontade disciplinada no trabalho com a mediunidade.
O afastamento do trabalho mediúnico
Há casos em que o afastamento do trabalho mediúnico propriamente dito é o mais aconselhável. Foi o que registramos em relação a outra médium que veio nos procurar, apresentando um quadro de desconforto com sintoma mediúnico e desarmonia vibratória. Essa médium, entre outras coisas, ao se olhar no espelho, não reconhecia a imagem refletida como sendo a sua. Isso lhe trazia grande crise existencial.

Ao ser orientada e fazer o Curso de Orientação e Educação da Mediunidade, equilibrou-se. No entanto, ao ir para a Reunião Mediúnica Experimental, que acontece como complemento do curso, os sintomas voltaram.

Nesse caso específico, entendemos que seria melhor que ela, naquele momento, se afastasse dos trabalhos em reunião mediúnica, uma vez que, como explica Kardec, aquela atividade lhe era prejudicial.

Os Bons Espíritos, ao tratar da aceitação e resignação diante da vida, nos lembram que uma das maiores virtudes que podemos ter no mundo, por ocasião de uma existência, é a resignação; saber vencer os obstáculos desta vida sem reclamar e sem blasfemar contra Deus, pois somente assim viveremos perto do nosso Pai, lutando contra as tentações que aparecerão em cada reencarnação. Jesus nos ensinou que devemos “orar e vigiar para não cairmos em tentação”.

Este alerta se torna imprescindível para médiuns que vivem situações semelhantes à descrita neste texto, pois toda a sua existência é permeada por esses fenômenos, sejam eles existenciais, anímicos ou mediúnicos.

Ocorrendo de forma cíclica, exigem da pessoa uma luta árdua e constante na manutenção do equilíbrio tão desejado. Muitas vezes, o esforço se torna exaustivo e a pessoa cai, tornando-se presa fácil do desânimo.

Importantíssimo saber que, no trato com os doentes de toda sorte, da alma ou do corpo, o cansaço que os acomete ao longo da vida deve ser combatido, utilizando todos os recursos ao alcance, sabendo que, mesmo com seu esforço, alguns problemas serão amenizados, mas não resolvidos.

Desalento
Desalento é enfermidade moral, instala-se utilizando pretextos vários em que se apoia, para o nefando mister da destruição da vida.
Alerta


  • Chega sorrateiro e modifica a paisagem interior, minando resistências e sombreando ideais antes clarificados pelo sol do otimismo.


Justificativas


  • Alegações falsas promovem a fuga ao dever e à responsabilidade;

  • Identificação com os insucessos passados ocasiona má vontade com que destroça as florações da alegria nascente;

  • Adiante arregimenta as deficiências alheias, a fim de eximir-se de maiores comprometimentos com a ação relevante.


Consequências


  • Cansaço injustificável – enfermidades imaginárias;

  • Instila apatia, grassando como desinteresse mórbido;

  • Favorece o desgoverno da ordem como árbitro da indiferença enfermiça;

  • Aniquila os que lhe caem nas faixas estreitas por contínua intoxicação mental, que termina em processos penosos de distonia psíquica e descontrole emocional;

  • Raramente se apossa por meio de ataque violento;

  • Dissimulador, acoberta-se maneiroso, com habilido-sas justificações.


Prevenção


  • Previne-te contra as artimanhas desse adversário soez (vil, torpe, reles) sempre à espreita;

  • Não te negues prudência e entusiasmo.

“Se o trabalho te parece desagradável, reajusta os setores e interesse e renova-te. Caso estejas cansado, busca motivação estimuladora e prossegue.” (Joanna de Ângelis, Celeiro de bênçãos, cap. 14.)

Caso 2
Ao adentrar certos recintos, ou ao aproximar-se de determinadas pessoas, alguns médiuns sentem-se estranhos, têm reações variadas, alguns até mesmo entram em estado de abstração/transe. Tais médiuns são pessoas altamente impressionáveis, e, não tendo conhecimento e/ou não sabendo que podem resistir, cedem com generosidade (até mesmo inconscientemente) suas possibilidades mediúnicas, não raras vezes, em desequilíbrio.

Apresentamos aqui dois casos em que essas situações aconteciam. Nesses casos, em particular, percebemos que tais comportamentos eram frutos da falta de esclarecimento e da crença de que “é assim que deve funcionar”, sem mais questionamentos ou estudos.

No primeiro caso, uma companheira, que tinha chegado em nossa casa espírita havia pouco tempo, nos procurou dizendo sentir grande constrangimento quando recebia o passe, pois tinha uma reação diferente das outras pessoas. Ao entrar na sala e “tomar” o passe, seu corpo estremecia como que em choque, o que era visível a todas as pessoas.

Diante do exposto, perguntei se ela já havia sido orientada sobre como lidar com a situação. Disse já ter feito alguns tratamentos, mas que tinham sido de pouca valia.

Nesse primeiro momento, procurei saber seu nível de conhecimento sobre a questão, o esforço despendido e o empenho em se ajudar.

Conhecer o que a pessoa que nos procura sabe sobre sua situação torna-se fundamental ao pensar nas possibilidades de ajuda para que essa seja eficaz. A companheira, apesar de nova em nossa casa, já tinha participado de outros grupos espíritas. Mas, pelo que me revelou, pouco havia estudado sobre mediunidade, fluidos ou passe. Foi, então, que de forma positiva, firme, falei a ela: "Você não precisa sentir isso!"

Surpresa com esta informação e sentindo o impacto da nossa certeza ao transmitir-lhe tal pensamento, acreditou que, de fato, poderia ser diferente. Expliquei-lhe que essa reação era desnecessária, e que ela poderia perfeitamente receber a transfusão de energia (passe) sem os incômodos. Tal reação, possivelmente, era consequência de hábitos aprendidos e que foram se consolidando em seu modo de comportar-se durante o passe. Para auxiliá-la, recomendei-lhe exercícios disciplinares de oração e leitura com hora marcada.

O segundo caso é de uma companheira que, após muito tempo frequentando casas espíritas, estudando e recebendo orientações, relatou-me que, ao iniciar qualquer atividade para a qual fosse necessária a concentração no aprendizado, automaticamente entrava em estado de abstração, começando pelos intermináveis e desconfortáveis bocejos, seguidos de entrega e até mesmo de transe mediúnico.

Agi com ela no mesmo sentido descrito acima. Inicialmente buscando saber sobre seu conhecimento em relação à situação, orientando-a e recomendando os exercícios de disciplina mental; neste caso, além da oração e leitura, recomendei-lhe os exercícios conscientes de respiração. A intenção era, primeiro, que a médium pudesse se concentrar sem, no entanto, entrar em estado de abstração ou transe, quando não necessários; e, ainda, que aprendesse a controlar seu comportamento, eliminando os bocejos e ruídos.

Importante ressaltar que essas duas pessoas, após serem esclarecidas e seguir as orientações educativas, conseguiram mudar o comportamento, eliminando as situações de desconforto. Tanto em um caso quanto no outro, percebemos que se tratava de falta de conhecimento quanto à situação. As duas médiuns já se encontravam em condições de receber ajuda; bastou o esclarecimento. Havia o empenho e desejo sincero de mudança de comportamento, bastando somente a elucidação segura. Como diz Léon Denis, “somos o que pensamos”; assim, em um movimento de mudança, nossa ação consciente, conduzindo nossos pensamentos, é o mais forte elemento do sucesso. (11)


Esclarecimento, educação e disciplina mediúnica
Nos dois casos relatados, a presença de tremores e bocejos se faz de forma paradoxal, pois, ao mesmo tempo em que sabemos que não são necessários, revelam que algo está acontecendo, visto que muitos médiuns buscam orientação a partir dessas manifestações. A conversa se fez direcionada à aprendizagem em percepção dos fluidos, sem alimentar atavismos, nem criar viciações comportamentais, o que é desnecessário e se torna inconveniente. Os comportamentos relatados são mais comuns em situações em que o médium esteja iniciando seu desenvolvimento mediúnico; no entanto, podem se prolongar por uma atitude repetitiva.

Em situações como as descritas aqui, particularmente por se tratar de pessoas que já participavam havia mais tempo de grupos mediúnicos, há que falar à razão, com firmeza, de tal forma que a vontade consciente presente possa se sobrepor e orientar a mudança da ação mental e do comportamento. Ao longo da sua existência, o Espírito desenvolve hábitos e seu psiquismo se acostuma a agir e reagir de uma ou outra forma diante de certos estímulos exteriores. Em se tratando de médiuns, esses registros, por sua natureza fluídica, podem ser mais exaltados, chegando mesmo ao incômodo.

Manoel Philomeno de Miranda, no livro Temas da vida e da morte, é bem claro: “Os pensamentos largamente cultivados levam o indivíduo a ações inesperadas, como decorrência da
11 Importante explicar nossa afirmativa de que essas duas médiuns já se encontravam em condições de receber ajuda. Essas condições estão à disposição delas para alterar o próprio comportamento. Elas realmente queriam mudar; apenas não sabiam como fazê-lo. Situação diferente de outras pessoas que nos procuram na esperança de que “autorizemos” ou “validemos” seus comportamentos. Buscam por informação, mas ainda não estão dispostas a entendê-las ou segui-las.

adaptação mental que se permitiu. Desencadeada a ação, os efeitos serão incorporados ao modus vivendi posterior da criatura. E mesmo quando não se convertem em atitudes e realizações por falta de oportunidade, aquelas aspirações mentais, vividas em clima interior, apresentam-se como formas e fantasmas que terão de ser diluídos por meio de reagentes de diferente ordem, para que se restabeleça o equilíbrio do conjunto espiritual. Conforme a constância mental da ideia, aparece uma correspondente necessidade da emoção”.

Essa “constância mental da ideia” age em uma espécie de retroalimentação(12) psíquica, em que uma situação que pode começar por imitação ou por sugestão do próprio ambiente, ao ver os outros fazerem ou ouvir falar que significa, por exemplo, doação de fluidos ou mediunidade ostensiva, pode se transformar em um hábito. A reincidência desses hábitos ao longo de muitas existências pode constituir-se em uma atitude viciosa de mais difícil mudança.

Em se tratando de percepção fluídica, que se pode entender como o fenômeno da mediunização(13), quando foram desenvolvidos hábitos apresentados por meio de reações corporais (bocejo, tremores, lacrimejar dos olhos), há que se fazer um movimento (re)educativo disciplinar no intuito de substituir esse modus vivendi, por outra atitude.

A mudança de atitude exige, primeiramente, que o médium tenha conhecimento da situação, o que ocorre pelo esclarecimento e ainda pela aceitação da possibilidade de registro dos fluidos sem a necessidade dessas reações exteriores, o que, contudo, não implica deixar de registrá-los ou deixar de “desenvolver a mediunidade”. O exercício constante,



12
Modificação em sistema, comportamento ou programa, por efeito das consequência(s) ou resposta(s) à ação do próprio sistema, comportamento ou programa (Aurélio, Dicionário da Língua Portuguesa).
13 Tal qual descrito por Kardec em O Livro dos Médiuns, cap. XIX, questão 225: “Atuando sobre aqueles a quem mediunizamos”.

impulsionado pela vontade consciente, supre o hábito construído anteriormente, de tal forma que, progressivamente, uma nova atitude se torna o referencial natural do médium.

Ressaltamos que, ao falar de reações comportamentais, como o bocejo e os tremores, por exemplo, não estamos dizendo que eles deixarão de acontecer, já que estão ligados à própria capacidade de percepção mediúnica, mas o farão de forma que não se configurem em incômodo, quer seja para o próprio médium, quer seja para o grupo. Tal mudança perceptiva advém do entendimento de que essa deve acontecer dentro de uma conduta mais natural e tranquila possível.

Ao trabalhar com médiuns em situações como as descritas, há que ter firmeza de propósito, pois, algumas vezes, percebemos que esses hábitos se manifestam não só por desconhecimento, mas sustentados por uma necessidade da pessoa de chamar a atenção para si, para o que está acontecendo e que muitas vezes não consegue expor. Nesse sentido, para conhecer e estudar o perfil psicológico do médium, enquanto pessoa e Espírito, torna-se uma ação importante saber das preocupações dele e como ele lida com as manifestações. Isso porque há aqueles que o fazem porque não sabem, e outros porque se negam (ainda que inconscientemente) a receber e usar as informações em proveito próprio, mesmo tendo acesso a elas.

Quanto aos orientadores de médiuns, é importante que compreendam que essas reações indicam algo acontecendo: o registro de energias. No entanto, é preciso ter uma postura educativa, de forma que o médium se sinta seguro e supere comportamentos que possam gerar constrangimentos.

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