Fios e tramas da mediunidade: conversando com médiuns



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Olhai
"Olhai, vigiai e orai, porque não sabeis quando chegará o tempo." - Jesus. (Marcos, 13:33.)
Marcos registra determinada fórmula de vigilância que revela a nossa necessidade de mobilizar todos os recursos de reflexão e análise.

Muitas vezes, referimo-nos ao "orai e vigiai", sem meditar-lhe a complexidade e a extensão.

É indispensável guardar os caminhos, imprescindível se torna movimentar possibilidades na esfera do bem, entretanto, essa atitude não dispensa a visão com entendimento.

O imperativo colocado por Marcos, ao princípio da recomendação de Jesus, é de valor inestimável à perfeita interpretação do texto.

É preciso olhar, isto é, examinar, ponderar, refletir, para que a vigilância não seja incompleta.

Discernir é a primeira preocupação da sentinela.

O discípulo não pode guardar-se, defendendo simultaneamente o patrimônio que lhe foi confiado, sem estender a visão psicológica, buscando penetrar a intimidade essencial das situações e dos acontecimentos.

Olhai o trabalho de cada dia.

O serviço comum permanece repleto de mensagens proveitosas.

Fixai as relações afetivas. São portadoras de alvitres necessários ao vosso equilíbrio.

Fiscalizai as circunstâncias observando as sugestões que vos lançam ao centro d´alma.

Na casa sentimental, reúnem-se as inteligências invisíveis que permutam impressões convosco, em silêncio.

Detende-vos na apreciação do dia; seus campos constituídos de horas e minutos são repositórios de profundos ensinamentos e valiosas oportunidades.

Olhai, refleti, ponderai!... Depois disso, naturalmente, estareis prontos a vigiar e orar com proveito.


(Emmanuel, Vinha de Luz, cap. 87.)


Estudando um pouco mais sobre o desdobramento
O estudo da situação apresentada nesta parte do trabalho nos levou a outra questão: o desdobramento.

Na questão 407 de O Livro dos Espíritos, Kardec questiona se é necessário que aconteça o sono completo para que ocorra a emancipação da alma. A que os Espíritos respondem: “Não; basta que os sentidos entrem em torpor para que o Espírito recobre a sua liberdade. Para se emancipar ele se aproveita de todos os instantes de trégua que o corpo lhe concede. Desde que haja prostração das forças vitais, o Espírito se desprende, tornando-se tanto mais livre, quanto mais fraco for o corpo”.

A partir dos nossos estudos, entendemos que às pessoas não-médiuns essa emancipação é feita através do sono físico, de forma espontânea e inconsciente, da qual normalmente não se guardam lembranças após acordar. Quando ocorre o registro, normalmente é na forma de imagens de um sonho fugidio. Já em relação aos médiuns, além dessa emancipação pelo sono físico, pode ocorrer o que Léon Denis denomina de desdobramento, que é um fenômeno anímico no qual há a emancipação de forma consciente, ou seja, a pessoa guarda lembranças claras. Essa pode se dar de forma espontânea por ação individual do médium ou provocada, com intervenção de terceiros, quer sejam encarnados ou desencarnados.

Léon Denis no livro No Invisível, na segunda parte, item XII, ao estudar sobre a exteriorização do ser humano e sobre o desdobramento, apresenta este último como sendo o movimento de exteriorização da alma que, “encerrada com seus tesouros na crisálida de carne, dela se evade em certas horas, se liberta das leis físicas, das condições de tempo e espaço, e se afirma em seu poder espiritual”.

Ao comparar o desprendimento da alma do corpo que ocorre durante o sono físico natural e o que ocorre durante um sono provocado(16), afirma que, no primeiro, a alma se afasta pouco, adquirindo apenas uma parte da sua independência, ficando, quase sempre, intimamente ligada ao corpo. Já na segunda forma de desprendimento, atinge várias gradações de desligamento. Explica que, quanto mais profunda a hipnose, o transe, mais a alma se desprende e eleva. Sua lucidez espiritual aumenta, sua penetração se intensifica, o círculo de suas percepções se dilata. No entanto, “ao mesmo tempo as zonas obscuras, as regiões ocultas do ‘eu’ se ampliam, se esclarecem e entram em vibração: todas as aquisições do passado surgem”. Aqui certamente encontramos uma explicação possível para os quadros de desequilíbrio que em muitos médiuns se instalam quando em situações de desdobramento que abrem à sua consciência atual o acesso a arquivos do pretérito. Alguns dos participantes do nosso grupo de apoio já tiveram essa experiência.

Temos o depoimento de um jovem médium que narra que só se dava conta de que estava desdobrado quando se via fora do corpo. Costumava tomar consciência do fenômeno quando via o corpo a uma certa distância. Disse-nos ele: “Percebo que não tenho para onde ir, o único porto seguro que tenho é meu corpo, então, me volto e deito junto dele e acordo”. Quando tomava essa atitude, acordava tranquilo. Aos poucos, o médium foi estudando e tendo mais controle e serenidade sobre a situação. Outras pessoas o percebem com plena consciência. É o caso de uma médium que nos relatava que se desdobrava facilmente, conscientemente, tranquila, e percebia com clareza o momento em que estava se emancipando. Um dia, em desdobramento, encontrou-se com a filha na própria casa. Esta estava emancipada, por ação do sono físico, e, consequentemente, sem consciência.


16 Importante destacar aqui que o sono provocado pode sê-lo tanto por um magnetizador encarnado quanto por ação de Espíritos desencarnados. Neste segundo caso dizemos que a pessoa está mediunizada (usando expressão de Kardec, citada em O Livro dos Médiuns).

A mãe tentou se comunicar, no entanto, não foi notada, nem vista ou reconhecida. A filha passou por ela sem percebê-la.

Ao dar ênfase a esse fenômeno comum na vida dos médiuns, buscamos esclarecer sobre sua naturalidade. A preocupação se faz pertinente, uma vez que nem todos vivenciam o processo com tranquilidade. Como a situação em que uma médium chegou até nós com grande sofrimento, pois se via morrendo. Há muitos dias não conseguia dormir, pois ao iniciar o processo do sono se via morrendo, saindo do corpo, o que lhe causava pavor. Havia o medo de realmente morrer e não conseguir voltar, o que lhe estava causando fragilidade física e emocional. Em conversa com ela, explicamos sobre o fenômeno do desdobramento e orientamo-la a se preparar para dormir.

Outras situações que se fazem características desse fenômeno, comumente relatadas pelos médiuns, são a sensação de que o corpo está inchando, ficando muito maior que o normal; outros podem sentir-se dando voltas como se estivessem com vertigem, e outros ainda sentem-se caindo, numa queda “sem fim”. Constatação realizada por meio dos relatos, comuns a muitos, é o fato de que, ao estarem deitados de barriga para cima, isso parece facilitar o fenômeno. É comum sentirem-se hirtos, sem conseguir se mover, embora a vida mental se mantenha febricitante. É comum o relato de tumulto emocional e insegurança quando são médiuns despreparados e ignorantes em relação ao fenômeno.

De tudo isso, importa saber que é um fenômeno natural, em nada devendo causar estranheza. A razão deve ser a condutora segura para a volta tranquila ao corpo e, geralmente, retorno ao sono natural. A identificação do fenômeno, pelo médium, é elemento facilitador do controle e do bem-estar nessas experiências. O pensamento e a fé devem ser os instrumentos soberanos na autopacificação: “Estou-me desdobrando, é normal. Posso controlar”.

Desdobramento pode acontecer como fenômeno anímico puro, ou seja, sem interferência ou componente mediúnico visível(17). Ou pode acontecer como parte de uma atividade mediúnica, por intervenção de Espíritos desencarnados.

No livro Mecanismos da Mediunidade, cap. 21, André Luiz apresenta situações em que um médium, desdobrado por sugestão de um terceiro, o que pode acontecer, por exemplo, nas reuniões mediúnicas, distancia-se do corpo físico, embora a ele fique ligado por um “fio tenuíssimo”. O autor esclarece que, “enquanto o carro fisiológico se detém, resfolegante e imóvel, a individualidade real, embora teleguiada, evidencia plena integridade de pensamento, transmitindo, de longe, avisos e anotações através dos órgãos vocais, em circunstâncias comparáveis aos implementos do alto-falante, num aparelho radiofônico”. No mesmo capítulo, esclarece que médiuns que se educam para esse fim podem tornar-se preciosos instrumentos dos Benfeitores da Espiritualidade, fazendo-se interlocutores entre a esfera física e a esfera extrafísica.

Em Nos Domínios da Mediunidade, cap. 11, André Luiz descreve a atuação de um médium que se utiliza do desdobramento em favor do trabalho mediúnico. Aqui também há referência a um “cordão vaporoso” que mantém o médium desligado do veículo carnal, preso ao campo somático. Nesse capítulo o autor ressalta a importância do auxílio do grupo, dizendo que, com “o auxílio do supervisor, o médium foi convenientemente exteriorizado”. E, em outro momento, afirmando que “a oração do grupo, acompanhando-o na excursão e transmitida a ele, de imediato, constitui-lhe abençoado tônico espiritual”. Com o sucesso do processo de exteriorização, o médium plenamente desdobrado alçou-se ao espaço, de mãos dadas com outros dois Espíritos desencarna-


17 No livro Diversidade dos Carismas, de Hermínio C. Miranda, pode ser encontrado um amplo estudo sobre o desdobramento, com riqueza de exemplos, tanto em situações da vida diária quanto em trabalho mediúnico.

dos. “Desde esse momento, demonstrando manter segura comunhão com o veículo carnal, ouvimo-lo dizer através da boca física.” Findo o serviço, o médium reajustou-se: “qual se o vaso físico o absorvesse, de inopino, acordou na esfera carnal, na posse de todas as suas faculdades normais, esfregando os olhos como quem desperta de grande sono”.

Nesse mesmo capítulo encontramos a explicação de que uma das características do fenômeno do desdobramento é a exteriorização da sensibilidade do médium e que, se algum encarnado ferisse o espaço em que se situava a organização perispirítica do médium, este registraria, de imediato, “a dor do golpe que se desfechasse, queixando-se disso, através da língua física, porque, não obstante liberto do vaso somático, prossegue em comunhão com ele, por intermédio do laço fluídico de ligação”.

O caso relatado por André Luiz apresenta um médium iniciante que, com a experiência, aprenderá a manejar suas habilidades mentais em prol do serviço mediúnico.




Encerrando esta reflexão
Ao encerrar esta reflexão e tentativa de estudo mais sistematizado de alguns dos inúmeros casos envolvendo médiuns e fenômenos mediúnicos a que já tivemos acesso, pouca coisa nos resta a dizer. Talvez a mais importante de todas seja chamar a atenção dos médiuns para o fato de que muitas vezes se encontram em situações semelhantes e se desesperam, pensando que são únicos e se sentem solitários. Muitos acreditam que não podem contar a ninguém, pois não acreditariam. A estes, que saibam que não são únicos e não estão sozinhos. Que devem buscar conversar com pessoas em quem confiam e que lhes possam ajudar a conhecer o que se passa e criar estratégias de como lidar em cada uma das situações.

Muitos há que se mostram já com as características de seriedade, disciplina e desejo sincero de uma conduta no bem, mas que, mesmo assim, não poucas vezes ainda se encontram em sofrimento. A estes recordamos grandes Espíritos Médiuns que passaram pela Terra deixando-nos seus exemplos. Também fica o convite à vigilância, oração e esforço, que devem caminhar juntos, de forma consciente, tendo a atenção voltada aos exercícios disciplinares em busca do equilíbrio, de forma que esses não se façam de forma mecânica. Caso isso aconteça, eles perdem o objetivo e a eficácia. É fundamental sentirem-se motivados e sinceramente afetados pela oração e a busca de contato com seus Mentores Espirituais. Costumamos lembrar aos médiuns que participam em grupos de trabalho, estudo e/ou mediúnicos que podem contar sempre com os Mentores, que os tomam sob sua guarda e proteção.

E, talvez o mais importante, a autoaceitação. Ninguém poderá vencer as dificuldades por você; e quanto antes compreender o fato de ser médium, se aceitar como você é e empreender o esforço sincero para o equilíbrio físico e espiritual, melhor irá viver. A compreensão de que a atual encarnação é soberana, deve-se sobrepor ao passado. Entretanto, é necessário ter conhecimento disso. Não só ter conhecimento como também acreditar. Utilizando todos os recursos à disposição em seu próprio beneficio. A qualidade desta vida é pautada pelas ações desta vida, independentemente das provas a que esteja sujeito. Aqui surge mais uma questão, também fundamental, a fé em Deus e a forma como se coloca nessa relação. Não basta dizer que tem fé, se não se colocar em uma situação confiante e tranquila. Muitas vezes confiamos, mas ainda nos inquietamos, nos angustiamos e, com isso, sofremos muito.

Um dos mais ricos resultados de nosso trabalho no Grupo de Apoio aos Médiuns tem sido transformar pessoas “problemáticas” em companheiros de trabalho. Sentem-se no grupo, com o grupo e parte do grupo, sabendo do apoio espiritual que os sustenta. Para esse intento, reafirmamos: o mais importante é a acolhida com carinho e compreensão, sem tom acusatório ou de desconfiança, mas com alegria e encorajamento. Aqui usamos a risoterapia, não como técnica de terapia formal, mas como simplicidade no trato com nossas impossibilidades existenciais e mediúnicas.

O esquecimento do passado é reafirmado como mais uma ação da misericórdia divina em nossas vidas. Esforçamo-nos por sermos pessoas melhores a cada dia. O saber da existência da eternidade, do antes e do depois, e da nossa imortalidade enquanto Espíritos, nos impulsiona a seguir sempre em frente, sem desânimo.

Compreendendo que as aparentes recaídas são expressões do nosso esforço, caso contrário não as reconheceríamos, esperamos sinceramente que este breve e simples estudo possa servir de auxílio no esclarecimento de médiuns, doutrinadores de reunião mediúnica, trabalhadores do atendimento fraterno e profissionais na acolhida e cuidado de pessoas que ainda sofrem.

Como palavras finais deste escrito, buscamos um esclarecimento de Lísias a André Luiz em Nosso Lar. O recém-chegado da experiência terrena reclamava pelo afeto daqueles que o antecederam e sentia-se só, esquecido, quando o abnegado enfermeiro lhe esclareceu que sua mãe jamais o esquecera e que zelava por ele. Disse que no dia em que André Luiz orou com tanta alma, quando compreendeu que tudo no Universo pertence ao Pai Sublime, seu pranto fez-se diferente. Havia-se colocado em uma posição receptiva, permitiu-se compreender a infinita bondade do Pai e, desejando ardentemente ser ajudado, colocou-se no caminho da realização. Quando mentalizou firmemente a necessidade de receber o auxílio divino, dilatou o padrão vibratório da mente e alcançou visão e pôde perceber o socorro que vinha até ele.

Que nós possamos, a exemplo desse amigo espiritual, nos colocar em uma posição receptiva para compreender nossa existência e vivê-la da melhor forma possível.



Fim


Obras consultadas
ÂNGELIS, J. de. Celeiro de bênçãos. [psicografado por] Divaldo P. Franco. 3. ed. São Paulo: Alvorada, 1983.
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______. Vinha de Luz. [psicografado por] Francisco Cândido Xavier. 27. ed.. Rio de Janeiro: FEB, 2008.
HUGO, V. Árdua ascensão. [psicografado por] Divaldo P. Franco. São Paulo: Alvorada, 1985.
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______. Os Mensageiros. [psicografado por] Francisco Cândido Xavier. 12. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1980.
______. Desobsessão. [psicografado por] Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira. 10. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1989.
______. No Mundo Maior. [psicografado por] Francisco Cândido Xavier. 9. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1981.
MIRANDA, M. P. de. Tramas do Destino. [psicografado por] Divaldo P. Franco. 3. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1987.
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