Flh0112 Metodologia da História II profº. Drº. José Geraldo Vinci de Moraes



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FFLCH / USP


FLH0112 - Metodologia da História II

Profº. Drº. José Geraldo Vinci de Moraes



1º Resumo - Fechamento




6885815 - Ezequias da Silva Lira

2º Semestre de 2009 – Noturno – Turma 03

Aula 06


Esboço de uma História Social Documentada
Os intelectuais do final do Século XIX começam a perceber a distância entre a realidade e o pensamento que eles próprios produziram. Eles procuram o verdadeiro Brasil e discutiam o positivismo, determinismo biológico e climático, o spencerismo, o comtismo, o darwinismo e as teorias raciais.

Desde Varnhagen uma gama de documentos oficial havia embasado a maior parte das obras importantes da historiografia brasileira, mas “Capítulos de História Colonial” de Capistrano de Abreu e “Vida e Morte Bandeirante” de Alcântara Machado trouxeram para o primeiro plano a importância do Brasil profundo.


I - A Redescoberta do Brasil



  • A Nova Corrente Histórica do Pensamento Brasileiro.

  • A valorização do cotidiano, e a valorização de temas desconhecidos pela sensibilidade histórica.

  • Procura das identidades do povo brasileiro.

  • A recuperação do passado deste povo brasileiro.

II – Capítulos de História Colonial – Capistrano de Abreu





  • As correntes de povoamento e os caminhos que levam ao sertão.

  • As novas dimensões geográficas e os diferentes tipos regionais.

  • O surgimento do povo Brasileiro e a valorização do sertanejo.

II – Vida e Morte do Bandeirante – Alcântara Machado





  • Renovação no repertório documental.

  • Reflexões sobre as condições materiais da existência dos paulistas.

  • Derrubada das “epopéias maravilhosas” e das mistificações ideológicas inauguradas pelos “linharistas”.

  • O Bandeirismo Paulista e o mito preeminência que a elite de São Paulo.

Bibliografia:


ABREU, João Capistrano de. Três séculos depois. In: Capítulos de história colonial, pp. 233-256.

MACHADO, Antonio Alcântara. Vida e Morte do Bandeirante. pp. 15-59 e 247-265.

AMED, Fernando. As cartas de Capistrano de Abreu, Cap. 2.

SOUZA, Laura Melo. In: Intérpretes do Brasil. pp. 1191-1206.

REIS, José Carlos. Identidades do Brasil. De Varnhagen a FHC. Cap. 3.

Texto base:



ABREU, João Capistrano de. Três séculos depois. In: Capítulos de história colonial, pp. 233-256.
No Capitulo XI de seu livro Capistrano de Abreu faz um balanço de como o Brasil está depois de três séculos de colonização. Começando com a distribuição geográfica dos povoadores, ele identifica duas correntes de povoamento. “A corrente espontânea” que “tendia à continuidade e procurava a periferia a Oeste, ao Norte e ao Sul” e “A corrente voluntária” que “determinada por ação governativa, ambição de territórios ou vantagens estratégicas, aparecia salteada e desconexa, e começando da periferia procurava rumos opostos”. Em seguida assim Capistrano passa a situar as dimensões geográficas do Brasil através dos movimentos de ocupação como o pastoril e o pecuário, mas sem perder deixar de apresentar algumas características sociais, como por exemplo, as maneiras do proprietário da casa grande e seus familiares, como era o seu funcionamento ou como a sociedade parecia funcionar para o seu auxilio. O rio São Francisco neste capitulo toma uma importância destacável, pois a partir dele que as duas correntes de povoamento passam a determinar os seus lugares de habitação, desenvolvimento e expansão.

Capistrano passa a citar os diferentes tipos regionais, por exemplo, “O mineiro em geral é esbelto e magro, (...) tem por natureza um nobre orgulho e no exterior um modo brando, afável e inteligente, é sóbrio e parece gostar de uma vida cavalheiresca, (...) Em todas estas feições assemelha-se mais ao árdego pernambucano que ao paulista pesadão”. “Muitos paulistas se conservaram sem mescla com os índios; os mamelucos, conforme os graus da mescla, (...) Traem a mistura indiana antes de tudo a cara larga, (...), musculatura reforçada, decisão e rapidez nos movimentos são, aliás, os principais característicos na fisionomia dos paulistas”. Esta diferenciação, Capistrano também aplicou a “gente de Cuiabá”, Paraná e Rio Grande do Sul. Porém não fica só nas características físicas, descreve características também sociais e econômicas dos “pobres pescadores”, dos “proprietários rurais”, dos funcionários vindos da metrópole, negros e dos padres. Capistrano descreve, além das características da cidade, a que tipa de serviços à atividade industrial ficou reduzida, dando destaque ao desinteresse dos profissionais que trabalhavam por encomenda, sobre condições básicas e os quais só concluíam ou procuravam um novo trabalho quando gastavam o dinheiro de um serviço já feito ou encomendado.

Capistrano afirma que “Vida social não existia, porque não havia sociedade; questões públicas tão pouco interessavam e mesmo não se conheciam: quando muito sabem se há paz ou guerra, [usando como Lindley]” e continua, “É mesmo duvidoso se sentiam, não uma consciência nacional, mas ao menos capitanial, embora usassem tratar-se de patrício e paisano”. Capistrano trabalhou dentro da lógica do “juízo”, seu trabalho circunscreveu-se na preocupação de uma geração inteira de intelectuais, que fizeram dos documentos a materialização da verdade, mas, apesar de notamos esta influência positivista e evolucionista em seu trabalho, percebemos também que ela foi amenizada principalmente pelo contato com influências estrangeiras e que foi isso que fez com que Capistrano percebesse a importância dos aspectos naturais na cultura do povo e foi isso que fez seu trabalho apresentar caráter inovador no estudo do cotidiano e da vida social tornando-se um dos objetos centrais em nossa historiografia.

Texto base:



MACHADO, Antonio Alcântara. Vida e Morte do Bandeirante. pp. 15-59 e 247-265.
O Que Dizem os Inventários

“O conhecimento do que o homem tem realizado no combate (...) para melhorar-se e melhorar o meio em que vive, tal o objetivo da história. Como podemos atingi-lo se concentramos toda a atenção em meia dúzia de figuras, esquecendo o esforço permanente dos humildes, a silenciosa colaboração dos anônimos, as idéias e os sentimentos das multidões?”.

Declaração que Alcântara Machado inicia o capítulo onde propõe usar os inventários de 1578 a 1700 pelo primeiro Cartório de Órfãos da Capital para desvendar como funciona a vida intima econômica e cultural dos povoadores e seus descendentes, documentos que até então, não eram levados a sério pelos “linharistas” que se encarregavam de construir a história da elite local.

Os inventários constituem depoimentos incomparáveis do teor da vida e da feição das almas na sociedade colonial”, pela minúcia dos detalhes e proximidade que nos deixam da concepção que aquele povo tinha do destino humano.
As fortunas Coloniais

Alcântara Machado não nega Oliveira Viana quando este diz que “A grande fazenda de criação ou cultura, aparecem como o centro de gravitação do mundo colonial [e que] é do latifúndio que partem os valores sociais”. Mas, afirma que de acordo com os “quatrocentos inventários seiscentistas, há apenas vinte que delatam alguma abastança. (...) A imensa maioria das avaliações denuncia a carência de cabedais apreciáveis [e que] mesmo entre is fidalgos a abundancia não é muita”. Com estes dados Alcântara Machado afirma que não tem fundamento o que até então se dizia sobre as “fortunas coloniais” pois a agricultura era lenta, a pecuária difícil e a dificuldade de acesso até os portos tornavam a lavoura não propícia e encarecia os produtos vindos do reino, tudo isso em um ambiente carregado de sustos devido à eminência de ataques aborígines.



“O que falta aos paulistas não é o chão que aí esta a espera de quem o fecunde. Falta-lhe, sim (...) tudo quanto à colônia não produz ainda e tem que vir, através dos obstáculos sem conta da metrópole distante”.
O Povoado
Na consulta dos inventários “a vila de São Paulo do Campo, capitania de São Vicente (...) não passa de um lugar humilde [e mesmo] (...) Cem anos depois, continua a ser tão pequena a povoação, já então elevada à categoria de cidade”.

Só em 1809, com rodem do ouvidor-geral, o Senado da Câmara manda numerar os prédios e providenciar os nomes das ruas, o que a população faz com base em critérios rudimentares, como o aspecto ou atributo do lugar, a casa de um morador antigo, um templo ou edifício publico, por exemplo. A partir daí (1611-50) às choupanas rústicas vão sucedendo as construções e à medida que os anos vão passando (1697) as casas vão se valorizando e já destacam nos inventários os prédios de aluguel, porém, até 1800 os arquivos mostram que escasseiam os pretendentes.


O Sertão
“A palavra [sertão] aparece e reaparece nos inventários paulistanos dos dois primeiros séculos, a denunciar que para o sertão está voltada constantemente a alma coletiva, como agulha imantada para o pólo magnético”.

Com está citação Alcântara Machado demonstra a importância do sertão, comprovada documentadamente, está presente na vida coletiva da colônia, oferecendo aos “impacientes (...) com a miragem da riqueza fácil” oportunidades, seja com “índios predestinados ao cativeiro” ou “nas minas resplandecentes de gemas e metais”. Alcântara Machado compara o sertão ao oceano, pois “diante do oceano, como diante do sertão, é o mesmo assombro, é a mesma impressão de infinito e de eternidade”, e afirma que por serem esta grandeza, só eles podem saciar a “fome de liberdade que devora o homem”, aperfeiçoando-lhe a alma e o corpo, “este ganha a elasticidade e a robustez dos monstros marinhos e das feras”.

Segundo Alcântara Machado os Fatores que fazem os paulistas o bandeirante são de ordem geográfica, econômicas e psicológica. “Desde a primeira infância o paulista dos séculos XVI e XVII respira uma atmosfera saturada de sertanismo (...) em geral, são os pais que aviam os filhos de menor idade mandando-os a principio à caça de escravos e depois de iniciado o ciclo do ouro, botando-os para as minas. (...) Na época o sertão é a escola por excelência. Face a face com a natureza o homem aprende a contar com as próprias forças, coisa essencial numa terra em que tão frouxa e demorada se revela a ação do poder público”.

O sertão prepara o caráter, os músculos e tempera os moços para o calor do perigo, mas acima de tudo, preparam os paulistas para as “únicas profissões tentadoras que o meio comporta: o trafico vermelho e a mineração”. Até as ordens religiosas não resistiam à tentação e se lançavam as expedições bandeirantes, Alcântara Machado notou que várias expedições eram organizadas, principalmente pela ordem carmelita, em vista da limitação dos bens do convento que dependia dos serviços dos índios.

As expedições dos sertanistas receberam o nome de “bandeiras” devido à tradição de alçar uma bandeira à guisa nas empresas de caráter militar como uma declaração de guerra, tradição que já era usadas pelos tupiniquins e também pelos expedicionários para classificar cada uma das suas companhias. No inicio as incursões eram documentados como entrada, jornada, viagem, companhia, descobrimento e, mais raramente, frota. Para individualiza-los nomeavam o organizador como o “cabeça” comitiva, por exemplo, Entrada de Domingos, Viagem de Diogo Fernandes guerra de Nicolau Barreto, etc. Alcântara Machado notou em 1726 num documento do padre João Gomes, superior da missão de Paranaguá, o termo Bandeira sendo usado para mencionar “o fato do povoador de Laguna ter despedido uma bandeira com trinta pessoas, cujo cabo é João de Magalhães, para povoar o Rio Grande” e isso nos mostra que bandeira e bandeirante são palavras que não aparecem com o sentido que hoje conhecemos.


Texto de apoio:



AMED, Fernando. As cartas de Capistrano de Abreu, Cap. 2.
Em umas das cartas que Capistrano de Abreu enviara a Guilherme Stuart, que visava dispor a contribuição dos cearenses para a história do Brasil, Capistrano cita dados de sua biografia, mas ao se referir ao Livro do Centenário, obra onde tinha sido encarregado de realizar um texto sobre o descobrimento do Brasil, o historiador disse que, “Escreveu a primeira parte; mas não está disposto a escrever o resto, porque não lhe pagavam” e acrescentava, “Não quis fazer parte da Academia Brasileira de Letras, e é avesso a qualquer sociedade, por já achar demais a humana. Por exceção única pertence ao Instituto (IHGB), do qual pretende demitir-se em tempo, se não morrer repentinamente”.

Como deve ter percebido a inconveniência desses últimos comentários, Capistrano resolveu alertar Stuart de poderia aproveitar tudo o que mandou, mas que não deveria transcreve-la integralmente, pois movido pela saudade escreveu intimamente, como se escreve a um amigo. Mais à frente em outra carta, Capistrano dirá que “Se és meu amigo, peço-te poupes os epítetos” e deixaria expresso a sua aversão às bajulações e elogios.



Os textos usados para compor a biografia de Capistrano de Abreu valeram-se de uma orientação teológica até então usada na época, onde a vida do biografado era inserida dentro de métodos que associavam uma cronologia ordenada, onde sua personalidade é coerente e estável com ações sem inércia e decisões sem incertezas. Logo, Capistrano teve seus feitos narrados no sentido da exploração de suas qualidades positivas. Não se percebeu a preocupação de se operar analiticamente co o meio em que ele viveu, observando aí as permanências, as rupturas ou os limites dos juízos emitidos para com a sua vida. As biografias de Capistrano que foram publicados após a sua morte fazem menção a sua aparência física, seu desalinho, bem como um bom número de anedotas. Em vários dos estudos sobre a época em que Capistrano viveu, não se notou a existência de um trabalho que tenha se voltado para o analise destes elementos relacionado ao contexto sócio-cultural do autor. Somente por volta da comemoração do centenário de nascimento de Capistrano, capitaneada pelo IHGB no ano de 1953, vários autores retomaram aspectos da vida do historiador dando vazão ao anedotário relacionado a sua vida. Mas foi com a publicação de “Capistrano de Abreu: vida e obra do grande historiador” de Pedro Gomes de Matos que se pode ter uma referencia bibliográfica documentada que permitiria acesso aos momentos obscuros da vida de Capistrano. Em 1969, José Aurélio Saraiva Câmara também inovaria com outra biografia, mas desta vez a obra de Capistrano seria intermediada com os aspectos de sua vida pessoal, o livro de José Aurélio Saraiva Câmara se diferenciou dos anteriores, pois não se destacava pelo uso excessivo de elogios ou adjetivos positivos, associados à figura de Capistrano de Abreu. Capistrano de Abreu é considerado um dos maiores historiadores brasileiros mesmo com as “mais de mil cartas que enviou a amigos e colegas, espalhados pelo Brasil e pelo mundo” é considerado um historiador que deixou poucos textos e livros assim como os elementos de sua vida. Por isso somos conduzidos através dos elementos e as particularidades de Capistrano através dos biógrafos que estudaram principalmente a correspondência que ele deixou e os quais tentariam responder várias das questões sem resposta como, por exemplo: Por que Capistrano nunca escreveu uma História Geral do Brasil? Ou Por que Capistrano se mostrava às vezes frustrado com o seu Trabalho?

Texto de apoio:



REIS, José Carlos. Identidades do Brasil. De Varnhagen a FHC. Cap. 3.
João de Capistrano de Abreu nasceu em Maranguape, Ceará, em 1853. Ele era filho de “um dos ‘homens bons’ (...) da região, pois tinha o suficiente para sustentar a família”. Nasceu e foi criado em uma Casa Grande, ali “expressava o espírito místico-escravista dominante (...) Ali reinava o espírito colonizador e inquisidor dos descobridores”. Capistrano era “psíquica e fisicamente um autêntico sertanejo” e sabe-se que era afeiçoado aos escravos. Como estudante não foi grande coisa, mas sempre foi um apaixonado por leitura. Num mundo social marcado pela bipolarização senhor-escravo, “sua família era pequena proprietária de terra e produzia para o próprio sustento (...) à custa de um trabalho contínuo e braçal (com mão-de-obra escrava, agregados e com os membros da família)”. Talvez para escapar deste passado que rejeitava refugiou-se na leitura, no “mundo das palavras”. Capistrano de Abreu viverá “até 1927 com os únicos recursos: postos públicos e a escrita concisa, precisa e inovadora”, na verdade, mais com as rendas dos seus cargos do que com os seus escritos. Com estas passagens acima José Carlos Reis conclui que Capistrano de Abreu viveu como a interpretação que fez do Brasil: rebelde, e recusa do passado como opção para um futuro novo. Mas na seqüência ele pergunta: “mas, qual?”

Capistrano fará a sua grande inovação na interpretação do Brasil, principalmente em razão da nova época intelectual que o Brasil estava vivendo nos anos posteriores a 1870, onde os intelectuais brasileiros se abriam às influências estrangeiras buscando reinterpretar a história brasileira privilegiando o povo e a sua constituição étnica. A preocupação de Capistrano era a de toda essa nova geração que acreditava que a sociedade poderia ser estudada com a mesma objetividade com que se estudava a natureza, “pois também se submetia às leis gerais da natureza”.

No final do século XIX o pensamento brasileiro estava dividido entre o pensamento historicista que resistia ao cientificismo sociológico e o pensamento Positivista. Vários pensadores discutiram qual seria a tendência de Capistrano de Abreu, mas fica claro que, apesar de ter se interessado por tudo o que saiu da Europa e vivido uma fase cientificista (franco-inglesa) e outra cientifica (alemã, rankiana), a perspectiva sociológica o influenciou ao ponto dele mesmo lamentar-se que Varnhagen não tivesse empregado. Capistrano criou o passado brasileiro, enfrentando os seus males, superando-os e reabrindo o futuro do Brasil. Assim como Afonso Celso, Capistrano vencerá o pessimismo existente entre os intelectuais brasileiros que olhavam o Brasil com teorias deterministas européias e valorizando a historicidade de cada povo, e junto com Alcântara Machado e sua obra “Vida e morte do bandeirante”, ele formulará uma nova interpretação de Brasil que enfatizará o tempo histórico especificamente brasileiro.

Capistrano atribuirá ao povo a condição de sujeito da sua própria história e para isso procurará a identidade deste povo em suas lutas e vitórias contra o português e o Estado Imperial, apreendendo a vida humana na sua multiplicidade e nos seus aspectos fundamentais sem atribuir uma predominância de um fator sobre os outros, mas vendo estes aspectos como um conjunto complexo de fenômenos humanos. Para ele a “cultura” substituirá a “raça”, ele valorizará o indígena e assim como Euclides da Cunha pensará um Brasil mais sertanejo que litorâneo onde o colonizador adentrando o Brasil tornou-se uma personalidade distintamente brasileira, vivendo no interior do Brasil, ilhado e sem vínculos contínuos com o litoral, convivendo com os indígenas e a natureza brasileira, ou seja, assim como para Euclides da Cunha, para Capistrano, o brasileiro seria este homem novo, mais enfatizado na figura do sertanejo.

Varnhagen escreveu uma obra de síntese, (...), mas, (...) como apreensão da totalidade, como integração da multiplicidade, sua obra é menos reveladora do que a de Capistrano (...) enquanto a história de Varnhagen era uma conversa entre eruditos, Capistrano divulgou com simplicidade o conhecimento da história do Brasil, mais econômico-social do que política, liberta de datas, nomes e eventos oficiais. (...) Tendo como personagem central o povo, nela o indígena ganha um papel importante na formação do Brasil. Para Capistrano, o que houve de diverso entre o brasileiro e o europeu deveu-se ao clima e ao indígena. O brasileiro é o europeu que sofreu um processo de diferenciação graças ao clima e à miscigenação com o índio”.

Assim como Alcântara Machado, Capistrano faz uma história do cotidiano, a vida de um povo, seus tipos étnicos e caminhos, modos de viver, sobretudo eles identificam um povo que no seu período “não sabe bem o que é, o que faz e deveria fazer”.

Na obra Capítulos de história colonial, Capistrano de Abreu começa situando o Brasil e suas dimensões geográficas como se estivesse o re-descobrindo junto com suas dimensões. Habitando este território há o indígena que também é descrito com seus detalhes. Até aqui Capistrano nos apresentará o Brasil e seus primitivos moradores, a estes dois dados, Capistrano acrescentará o europeu e o africano (os alienígenas). Diferentemente de Varnhagen que “olhava da caravela de Cabral para a praia“, Capistrano se diferencia e toma o ponto de vista do indígena e da terra do Brasil olhando “da praia para o oceano cheio de caravelas”.

Os Portugueses serão nesta obra o primeiro elemento exótico, o invasor, o conquistador e o colonizador, aquele que suportava mais a dor física que moral, o ser fisicamente forte e valorizado, que só por ser assim, foi capaz de se misturara com outras etnias e culturas. Os africanos serão o segundo elemento exótico, aquele que trará “suas danças lascivas, suas feitiçarias e crenças”. Sendo estes os personagens e a história sendo desenvolvida sobre a terra do Brasil, “o brasileiro” surgia em depois de 1654, depois da vitória contra os holandeses, onde Portugal optando pelo Brasil e defendendo-o contra os estrangeiros começava a perder-lo. O Brasil era redescoberto pela sua nova população, “havia um novo sentimento patriótico não-português, original, novo, Brasileiro. Vencia o espírito nacional”.O que marca a originalidade de Capistrano é a originalidade e a “percepção do surgimento do novo povo e a adesão ao seu sentimento e interesse ao seu projeto político. Tal percepção foi possível porque, desde as primeiras páginas do livro, seu olhar já estava em outra posição e tinha outra direção. As elites saem da história, entra o povo brasileiro, conquistando o sertão, (...) O sertanejo é aquele que vive distante do rei: autônomo, soberano orgulhoso”.

Capistrano não aprecia a história que conta porque a colonização se fez à custa da expulsão, do extermínio, e da escravização do indígena e este inicio da história brasileira lhe parece tão violento quanto à história que os portugueses faziam, violência que também encontra no mundo da pecuária, e nas monas (que foram outros pólos de ocupação do território brasileiro) onde eram comuns a vingança e a violência. Nesta obra, portanto, Capistrano constrói um novo passado, procurando rever as verdades oficiais e abrir um novo futuro, sustentado por um novo passado: o Brasil nação encontrado em seu povo, em sua diversidade e unidade.

Texto de apoio:

SOUZA, Laura Melo. In: Intérpretes do Brasil. pp. 1191-1206.

Vida e Morte Bandeirante foi publicada em 1929, mas apesar do modernismo ter iniciado uma década antes, a obra foi publicada sem “uma metodologia histórica mais consistente” e “imersos na tradução exaltadora do século XVIII”. Somente com a publicação de obras como “Evolução do Brasil” de 1932 e 1936, e “Raízes do Brasil” de 1936, respectivamente de Caio Prado Junior e Sérgio Buarque de Holanda, se pode ter uma história interpretativa do Brasil. Sergio Buarque de Holanda também “Monções” de 1945 e “Caminhos e Fronteiras” de 1957, que são projetos voltados para “a reflexão sobre as condições materiais de existência dos paulistas nos séculos XVII e XVIII”, neste projeto ele faz uma história regional sem perder de vista “os nexos que os ligavam a história nacional”, ou seja, seu objetivo era compreender a história de São Paulo para melhor compreender a história do Brasil.

O significado destas obras na historiografia brasileira proporcionou as novas gerações uma nova visão sobre “o particular, sobre o detalhe, procurando mostrar os significados fenômenos aparentemente sem importância”. Mas o caráter inovador e a atualidade da obra de Alcântara Machado, publicado de 1929, já faziam com que o autor fosse considerado “um dos maiores talentos do modernismo”.

Desde a obra de Varnhagen uma gama de documentos oficial havia embasado a maior parte das obras importantes da historiografia brasileira, mas nos anos 20 e 30 vários estudiosos renovaram o repertório documental permitindo que os grandes nomes da história fossem eclipsados pelos atos e comportamentos partilhados pro muitos. José de Alcântara Machado alinhavasse a estes estudiosos. Em Vida e Morte do Bandeirante, seu ponto de vista baseado no cotidiano e nos aspectos mais prosaicos da vida no sertão tira o caráter elitista das “epopéias maravilhosas” e mostra uma São Paulo pobre e acanhada, sem “as mistificações ideológicas inauguradas pelos ‘linharistas’”. Esta visão pode ser confirmada com sua vasta pesquisa nos processos arquivado no Cartório de Órfãos da Capital.



Quando assumiu a cadeira da Academia Brasileira de Letras, que até então pertencia a Silvio Ramos, e ao qual homenageou em seu discurso de posse, Alcântara Machado deixou sublinhado seu forte sentimento regionalista, mas também um sentimento geral de “preeminência que a elite de São Paulo vinha desenvolvendo com intensidade crescente, orgulhosa, por um lado, do rápido desenvolvimento econômico da região e por outro lado, ameaçado ante ao influxo da migração estrangeira”. Assim como a obra “Capítulos de História Colonial” de Capistrano de Abreu, Vida e morte bandeirante “trouxe para o primeiro plano a importância do Brasil profundo”, ambos os autores perceberam a importância dos aspectos naturais na cultura de um povo e foram capazes de aborda-los como problemas históricos. “A modernidade no livrinho de Alcântara Machado é a modernidade na escolha do objeto e das fontes, a dissolução das personagens no destino comum da capitania, a valorização de temas até então desconhecidos, uma sensibilidade histórica que, apesar de certos preconceitos, é nossa contemporânea, e que vasculha o nexo das estruturas pro trás de fenômenos aparentemente insignificantes. (...) Por suas mãos, o estudo do cotidiano e da vida material de um determinado grupo social tornou-se objeto central em nossa historiografia. Alem do objeto, o enfoque e os problemas levantados apresentaram caráter inovador”.


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