Focos de produçÃo de memória histórica: a imprensa campineira



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Anais do XIII Encontro de Iniciação Científica da PUC-Campinas - 21 e 22 de outubro de 2008

ISSN 1982-0178

FOCOS DE PRODUÇÃO DE MEMÓRIA HISTÓRICA: A IMPRENSA CAMPINEIRA

Jamile Scrico Leite

Faculdade de História

Centro de Ciências Humanas

jamile_scrico@yahoo.com.br



João Miguel Teixeira de Godoy

História Regional

Centro de Ciências Humanas

joaomigueltgo@yahoo.com.br





Resumo: Este trabalho realiza um estudo da imprensa na cidade de Campinas com o objetivo de avaliar seu papel e impacto na composição de uma tradicional imagem da cidade e de seu passado.


Palavras-chave: Memória Histórica, Imprensa Campineira.

Área do Conhecimento: Ciências Humanas - Historiografia.

1. INTRODUÇÃO.


Esta pesquisa tem como objetivo, apresentar um estudo do papel da imprensa campineira na formação da imagem da cidade.

Inicialmente notamos que as cidades tentam de alguma maneira registrar sua história através de aspectos e marcos importantes, considerados gloriosos e legitimadores na construção da sua história. E justamente a partir desta análise podemos estabelecer alguns questionamentos, que tal pesquisa pretende responder: Que passado foi construído da cidade de Campinas através da imprensa? E qual sua relação com a história já construída da cidade? Quais as implicações políticas e ideológicas presentes na construção da imagem dessa cidade?

Para atender a estes questionamentos é fundamental entendermos o conceito de memória e sua relação com a história. Para isso primeiramente abordaremos essa relação seguindo as idéias de alguns autores.

No momento seguinte desenvolvemos um estudo sobre o uso do jornal como fonte histórica, para uma melhor compreensão e desenvolvimento da análise documental.

Finalizamos a pesquisa com um estudo do Caderno referente o século XX, publicado pelo jornal Correio Popular, no qual levantamos os principais destaques, fazendo uma relação com o trabalho de três memorialistas campineiros, notando a construção feita a partir de determinados marcos sobre a história da cidade.

2. MEMÓRIA E HISTÓRIA.


Para atender este objetivo é necessário avaliar a posição de alguns historiadores a respeito da questão da memória e sua relação com a história, tal relação é fundamental para a compreensão da pesquisa no sentido de absorver o conceito de memória, entender como ele rege os mecanismos da sociedade na recuperação da história de sua cidade.

Dentre os autores selecionados para este estudo, destacamos inicialmente a visão que Eric J. Hobsbawn aborda em seu ensaio: “O sentido do passado”, no qual afirma que todo ser humano tem consciência do passado [1].

O passado é definido pelo autor como uma dimensão permanente da consciência humana, um componente inevitável das instituições valores e outros padrões da sociedade, já o conceito de memória é definido como fundamental no processo de resgate do passado, no qual através dele o indivíduo se localiza historicamente na sociedade. Tendo o historiador como ofício a análise desse sentido de passado, devemos levar em conta as ferramentas de trabalho do historiador, sendo usada como o objeto da história, para ele memória e história são diferentes e livres de qualquer coincidência.

Concordando com a afirmação acima, de que memória e história são diferentes, mas mantém uma relação, Ulpiano T. Meneses considerada a memória como uma construção social, como a formação de uma imagem necessária para os processos de constituição e reforço da identidade individual, coletiva e até nacional [2].

Meneses afirma ainda que a memória está sujeita à dinâmica social e está enraizada no passado, porém o presente a transmite e a elabora de acordo com a sua necessidade e solicitações do presente. Existem ainda os riscos do desgaste e do esquecimento, necessitando assim não só do resgate, como também da preservação, sempre na sua integridade original.

Ainda dentro do campo de discussão sobre a relação entre memória e história, não deixemos de citar Jacques Le Goff, o qual realiza um balanço histórico da memória influenciando na construção social, e também trata a memória como sendo mais de uma encontrada ao longo da história, como fonte de identidade individual e objeto de luta. Para o autor o estudo da memória, assim como para outros autores citados, é uma ferramenta para abordar problemas do tempo e da história [3].

Na visão de Marc Ferro sobre consciência histórica, a qual ele considera ter sua origem a partir de diferentes focos, podendo definir a identidade de um grupo, nação e sociedade, e mesmo que essa consciência represente a história, ela não é igual, pois além de ser particular, sofre com o controle que tanto a sociedade impõe ou se submete [4].

Paralelamente às referências feitas acerca da memória, a visão de Pollak [5] segue a mesma linha, ao afirmar que a memória se compõe por diferentes pontos de referência que formam a memória coletiva, considerando como alguns desses pontos, os monumentos, patrimônios, datas, personagens históricas, tradições e culturas, formando a memória coletiva de um determinado grupo.

Conceitualizar memória nos permite perceber sua fixação por meio de relatos e registros, sejam eles documentos, monumentos, museus, fotos, jornais. Enfim, são produtores da vida coletiva, ela é objetiva, pois é representada e nos revela formas fundamentais da nossa existência, a relação com o tempo e no tempo, o sentido do passado.

Tomando como base as informações acima referentes: memória e história, e compreendendo esta relação intrínseca e fundamental para esta pesquisa, seguimos com a proposta deste trabalho, o qual busca a seguir abranger o estudo da fonte documental de pesquisa, o jornal.


3. JORNAL COMO FONTE HISTÓRICA.


O uso de jornais como fonte histórica vem aumentando, isso porque o estudo de História mudou, a corrente positivista vem sendo criticada desde os anos vinte, principalmente pelos historiadores franceses da escola dos Annales. Com Michel Foucault a reflexão acerca dos documentos também se intensificou. Questioná-lo passa a ser um problema do historiador, afinal o documento é o resultado de uma montagem consciente, ou inconsciente da sociedade que o produziu.

A análise histórica mudou com os Annales e com a História Nova. Uma dessas mudanças reflete na preocupação com um passado mais recente e o presente imediato, sendo necessário um estudo da época atual e tomar partido diante dos acontecimentos. Isso explica a aproximação entre os meios de comunicação e a história.

De acordo com Maria Helena Rolim Capelato os vínculos entre os meios de comunicação e a história se estreitam cada vez mais, e isso traz conseqüências tanto positivas, quanto negativas, conforme veremos adiante [6].

A autora considera que para usar o jornal como fonte histórica deve-se sempre ter em mente, que não se trata de um transmissor imparcial e neutro dos acontecimentos, é penetrado de subjetividades. O historiador deve se atentar a uma análise desse documento através de uma compreensão e relação com as personagens da época, resultando assim numa história mais viva, humana e rica.

Considerando alguns estudos realizados acerca do uso da imprensa como fonte documental, é notória a aproximação entre as afirmações de que o uso da imprensa, especificamente os jornais, como fonte documental é recente e vem aumentando cada vez mais, além de todos os autores concordarem do cuidado que se deve ter ao usar tal fonte, sendo necessário sempre considerá-la como subjetiva e controlada, para não cair em armadilhas ideológicas disfarçadas de imparcialidade.

4. O PAPEL DA IMPRENSA NA FORMAÇÃO DA HISTÓRIA DE CAMPINAS.


Partindo da conclusão feita acima de que podemos sim usar o jornal como documento histórico desde que tenhamos os cuidados necessários, selecionamos para a realização desta pesquisa o caderno: “Campinas século XX - 100 anos de história” publicado no início de 2.000 pelos jornais Correio Popular e Diário do Povo.

Esta encadernação esta dividida em 05 partes aqui apresentadas, sendo que a primeira parte se refere às duas primeiras décadas do século XX, “1900 a 1919 – A cidade da esperança” trazendo matérias sobre o novo século, a capital café com leite, o cinema e a imprensa, as escolas, a eletricidade que chegava a cidade, o processo de urbanização, enfim os fatos considerados marcantes dessas duas décadas.

No segundo item as décadas abordadas são “1920 a 1939 – A cidade da ousadia”, na qual aparecem matérias sobre a industrialização na cidade, o golpe de Getúlio Vargas, cinemas que se instauram na cidade.

A terceira parte do caderno parte do ano de “1940 a 1959 – Tempo de Reconstrução”, e os destaques são para a modernidade, as demolições e as novas avenidas, o pólo universitário.

Para retratar a quarta parte do encadernado, os anos “1960 a 1979 – Os anos de chumbo” as matérias trazem assuntos como a Guerra Fria, o início da Unicamp, limites do município, crescimento urbano, times de futebol de Campinas.

O último item traz as décadas de “1980 a 1999 – A cidade ameaçada” com matérias ambientais, políticas, eleições municipais, urbanização, saúde e o crescimento da região de Campinas.

Tendo como proposta de pesquisa analisar a visão da história de Campinas formada pela imprensa local, faz se necessária à leitura acerca de três jornalistas importantes para a construção da imagem da cidade de Campinas, sendo eles Jolumá Brito, José de Castro Mendes e Julio Mariano.

Como portas para esse conhecimento a tese de Flávio de Godoy Carnielli nos fornece a possibilidade de conhecer um pouco o trabalho desses três personagens, que fizeram a história de Campinas muitas vezes usando o espaço dos jornais [7].

A relação história e memória discutida inicialmente são bastante pertinentes para estudar a produção desses autores, pois entendemos que o trabalho desenvolvida por eles, de uma maneira geral, gira em torno de “rememorar” e construir assim uma determinada memória de Campinas. A trajetória de vida, assim como suas produções revelam uma ligação com a cidade sendo o lugar de vida e objeto de estudo, tornando de certa forma “autor e objeto indissociáveis”.

As leituras de seus trabalhos mostram diversas transformações ocorridas na cidade vivenciadas por eles. Inclusive, desde a década de vinte, há uma intervenção no espaço urbano de acordo com os modelos das capitais. Em 1929 foi elaborada a “planta cadastral” da cidade, assim como em 1934 o “Plano de Melhoramentos Urbanos” do engenheiro Francisco Prestes Maia, que apresentava mudanças a longo prazo, com o objetivo de preparar a cidade para a industrialização, assim como melhorar a circulação nas avenidas e ruas, valorização da paisagem buscando um lugar mais limpo, o que acabaria submetendo a cidade às demolições. Para muitos essas transformações colocariam Campinas em igualdade com São Paulo.

O autor considera que principalmente a partir da década de 1930, objetivou-se a criar uma imagem de Campinas, por “ser grande”, seguindo assim as idéias da capital. Com a chegada do urbanismo, as transformações ocorridas na cidade tiveram grande peso na construção da história local, as imagens construídas nesse período permanecem até hoje.

Essas leituras sobre a cidade também eram constantes nos jornais e como se tratava de um veículo de maior longevidade, as seções destinadas à história da cidade eram mais duradouras, além do uso de imagens e fotografias.

Através da imprensa, Carnielli afirma que se criou uma característica na intelectualidade da época, como sendo porta-vozes do “sentimento” dos campineiros com relação às mudanças.

Existia uma necessidade de preservar o passado e a memória, passado este que se desfigurava com as mudanças que a cidade vinha sofrendo, e sem a memória não seria possível entender a cidade do presente e do futuro. Conservar o passado era necessário, pois a mudança trazia rupturas, e conseqüentemente perda de marcos identitários, coletivos e pessoais, os autores não deixaram de registrar suas críticas e nostalgias referentes às reformas urbanas da Campinas de antigamente.

Através do trabalho de Carnielli, notamos a preocupação desses jornalistas com a preservação da memória da cidade, devido a constantes reestruturações por ela sofrida. Com a chegada do progresso, esses escritores expressavam o sentimento pela cidade e o cuidado em deixar esses registros aos futuros campineiros.

De certa forma são discursos de preservação, oficiais ou não, mas que formam um valor sentimental em torno do histórico e arquitetônico; registrar no tempo e no espaço é função dos memorialistas urbanos, que passam pela cidade apontando no espaço físico e concreto, a alma da cidade, o que deve ser olhado e compreendido, no presente de Campinas.

Notamos assim, que tanto as obras dos memorialistas, o trabalho por eles desenvolvido - o de mostrar a história da cidade, resgatar seu passado, afirmando sempre a cidade moderna a qual se transformou Campinas - se faz presente também nas matérias selecionadas para descrever o século XX da cidade.

É exatamente uma forma encontrada de enaltecer a cidade, resgatar seu passado, e afirmar sua modernidade. No caso do Caderno dos 100 anos, envolve um sentimentalismo em torno dos assuntos.

Desta maneira tentamos atender a proposta central desta pesquisa, conhecer um pouco mais a história de Campinas e apresentar um estudo do papel da imprensa na formação da imagem da cidade. No qual entendemos que o jornal é usado como uma ferramenta de afirmação do passado da cidade e referência ao futuro, onde os fatos que irão identificar essa afirmação são escolhas da instituição, e que no caso da fonte pesquisada, foram selecionadas os marcos já presentes no ideário da população, sendo assim uma reafirmação da história já construída.

AGRADECIMENTOS


Agradeço primeiramente ao orientador João Miguel, pela dedicação e oportunidade, aos colegas de sala pelo incentivo e todos aqueles que sempre estiveram ao meu lado.

REFERÊNCIAS


  1. HOBSBAWN, Eric J. O sentido do passado. In: Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

  2. MENESES, Ulpiano T. Bezerra. A História, cativa da memória? In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, nº 34. São Paulo, 1992. p. 9-24

  3. LE GOFF, Jacques. História e Memória. 4ª edição. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1996.

[4] FERRO, Marc. História Vigiada. São Paulo: Martins Fontes, 1989. (Coleção o homem e a história).

[5] POLLACK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos históricos, Rio de Janeiro, vol.02, n°03, 1989, p. 03-15.



[6] CAPELATO, Maria Helena R. A imprensa na história do Brasil. São Paulo: Contexto/EDUSP, 2° edição: 1994.

    [7] CARNIELLI, Flávio de Godoy. Gazeteiros e bairristas: histórias, memórias e trajetórias de três memorialistas urbanos de Campinas. Dissertação de Mestrado – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Campinas, SP, 2007







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