Focos produtores de memória histórica: os museus da cidade de campinas



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Anais do XIII Encontro de Iniciação Científica da PUC-Campinas - 21 e 22 de outubro de 2008

ISSN 1982-0178

FOCOS PRODUTORES DE MEMÓRIA HISTÓRICA: OS MUSEUS DA CIDADE DE CAMPINAS

Fernando Henrique Martins

Faculdade de História

Centro de Ciências Humanas

lhemao@yahoo.com.br



Prof. João Miguel Teixeira de Godoy

História Regional

Centro de Ciências Humanas

joaomigueltgo@yahoo.com



Resumo: Refletir sobre a dimensão do passado nas sociedades e o papel da memória, especialmente da cidade de Campinas, através da análise dos museus históricos da cidade de Campinas.


Palavras-chave: Memória, Museus, Campinas.

Área do Conhecimento: Ciências Humanas – História - História do Brasil.

1. MEMÓRIA E HISTÓRIA


Para fazer a análise da cultura material presente nos museus históricos de Campinas é interessante refletirmos sobre o conceito de memória e sua relação com a história. Não se trata da reflexão do conceito de memória na dimensão pessoal, ou seja, na capacidade que cada indivíduo tem de introjetar as coisas passadas ou lembradas. Tampouco na capacidade de armazenar dados e fatos. Discutiremos a dimensão coletiva da memória. Dimensão a que os gregos atribuíam uma identidade divina: Deusa Mnemosyne. A mãe das musas, que protege as artes e a história. Mnemosyne dava aos poetas e adivinhos o poder de voltar ao passado, de trazê-lo de volta para a coletividade. Concedia também a imortalidade aos mortais: através dos registros dos historiadores e artistas, um humano poderia nunca ser esquecido e tornar-se memorável.

Marilena Chauí1 define memória social ou histórica como aquela que é fixada por uma sociedade através de: mitos fundadores e de relatos, registros, documentos, monumentos, datas, nomes de pessoas, fatos e lugares, e que possuem significado para a vida coletiva. Logo, os museus são portadores da memória histórica, pois oferecem um significado para a vida coletiva da sociedade.

Mesmo que não queiramos saber nada sobre o passado, nossa própria comunidade nos informa, desde muito cedo, sobre ele. Fazer parte de uma sociedade é, obrigatoriamente, se posicionar sobre seu passado: quer seja sobre o passado individual, quer seja sobre o passado do grupo.

O passado é uma dimensão permanente da consciência humana, portanto todo indivíduo, em toda sociedade, tem consciência que possui um passado. A grande questão é entender qual o sentido que o passado possui em determinada sociedade, percebendo suas mudanças no decorrer do tempo. Diante da grande massa infinita de “passado”, é feita uma seleção para definir oficialmente qual deles deve ser lembrado. Nos museus é realizada essa seleção. Não estão expostos toda a cultura material produzida pela humanidade. No caso dos museus da cidade de Campinas, não estão expostos exemplares de tudo o que foi produzido/utilizado na cidade de Campinas. São feitas seleções de quais objetos devem ser expostos, e quais não.

A abrangência do passado depende, evidentemente, das circunstâncias presentes, das questões presentes. Portanto sempre se volta ao passado buscando responder questões que são relevantes no presente. Muitas vezes, para que seja possível a realização de determinadas inovações na sociedade, é necessário uma transformação no próprio passado. O passado tem o sentido determinado pelo presente, é configurado de acordo com o presente. Nessa relação com o passado é fundamental o uso da memória histórica. A memória é uma das ferramentas usadas pelo historiador para conseguir fragmentos do passado. Nos museus a memória é utilizada tanto libertação, quanto para a servidão, dependendo de qual a intenção da instituição, e aparece no que quer ser lembrado. Porém não podemos nos esquecer das memórias subterrâneas, das memórias esquecidas, que muitas vezes não fazem parte das exposições dos museus.

2. MUSEUS COMO FONTE HISTÓRICA


A autora Myrian Sepúlveda dos Santos, em seu livro A escrita do passado em Museus Históricos, nos dá um exemplo de como podemos refletir sobre os museus históricos. Ela analisa “o discurso histórico veiculado por palavras e objetos tridimensionais em dois museus escolhidos, concentrando-me na relação que tratavam entre si os conceitos de tempo, história e memória”2. Se trata do Museu Histórico Nacional, que é analisado em dois momentos, em 1922 e na década de 80, e o Museu Imperial, também analisado em 80.

Para facilitar a análise, a autora propôs duas categorias de museus. Na primeira está o “museu-memória”, que através dos objetos possibilita uma experiência de continuidade entre o passado e passado. Neste caso o museu parece algo parado no tempo, não se preocupando com questões do presente, ou mesmo de futuro. Baseia-se na memória, bem como na capacidade de cada objeto evocar lembranças. A relação com o passado é passional, valorativa. Tudo aquilo que é extraordinário é digno de estar exposto. São valorizadas as relíquias. Na segunda categoria está o “museu-narrativa”, valoriza-se o discurso histórico, racional e moderno. Não mais se apoiando na memória. Utilizando da linguagem para subordinar os próprios objetos expostos. Afasta-se da memória para se aproximar da ciência histórica. Ciência que está voltada para o estudo dos fatos econômicos, culturais e sociais; preocupada em representar todas as classes através de apresentações seletivas e didáticas. Nesta categoria não são os objetos que ditam a exposição, eles aparecem como auxiliares, como se fossem apenas a ilustração de uma narrativa.

Além dessas categorias definidas pela autora devemos utilizar outros quesitos para reflexão sobre os museus. É importante sabermos a localização dos museus. Isto é, onde estão instalados e qual a história do próprio prédio que os abriga. A própria construção nos revela algo sobre o tipo de história que se produz na instituição.

É necessário também traçarmos um panorama da proposta de criação dos museus. Sabermos quem foi o idealizador ou os idealizadores e qual a intenção de se fundar um museu. A aquisição do acervo também nos revela muitas informações. Como uma última categoria de análise, devemos perceber qual o discurso que se faz sobre a história, e não a história em si.

Com base nessas categorias de análise podemos buscar entender qual a memória que é secretada pelos museus históricos da cidade. Um levantamento preliminar nós oferece alguns indícios.

3. MUSEUS DE CAMPINAS


Museu da Cidade:

A origem do Museu da cidade esta na criação do Museu Histórico da Cidade de Campinas em 1958. Em 1973 passou a ser chamado de Museu Histórico Municipal. Foi inaugurado em 3 de abril de 1992, através da junção dos três museus existentes, até então: Museu do Índio, do Folclore e Histórico. Sua denominação alterada para Museu da Cidade. O objetivo de integrar os acervos desses três museus, trazia uma preocupação em considerar a diversidade cultural e suas produções, materiais ou não, com a mesma importância, não separando o “folclórico” do histórico. Propunha-se uma nova forma de “olhar a cidade”, ou seja, a apropriação, interpretação e transformação do meio ambiente e das relações sociais, vivenciadas pelo cidadão.

O museu está localizado no início da Av. Andrade Neves, próximo à antiga estação ferroviária. O prédio foi construído em 1884 pela Lidgerwood Manufacturing Company Ltd., uma empresa americana, e tombado em 1990. Compõe o acervo material: mobiliários do poder público municipal, carrinhos de pipoca; utensílios domésticos, cestarias indígenas, plumarias xavantes, objetos musicais, troféus carnavalescos, máquinas registradoras, prelo, fragmentos da demolição do Teatro Municipal Carlos Gomes e da igreja do Rosário, telas e quadros, tal como a coleção de aquarelas de José de Castro Mendes, entre outras peças. Foram incorporados os acervos dos três museus que compõem sua criação. Não existe uma política clara de aquisições e são aceitas muitas doações, que muitas vezes são descontextualizadas. Existe a intenção de não armazenar grande quantidade de objetos, mas sim de articular exposições que utilizem outros acervos da cidade.

O museu não se apóia na memória e busca representar todas as classes através de representações. Na exposição “Se fossemos infinitos” propõe-se “repensar o espaço das coisas já feitas e através delas, excluindo a história oficial e a ideologia dominante, trabalhadores e proprietários aprendem a pensar a dimensão histórica de suas vidas”. Mostra-se claramente um museu-narrativa, pois os objetos não ditam a exposição, são apenas auxiliares de toda narrativa. Como exemplo temos um fogão em exposição, que representa o objeto de desejo das donas de casa da década de 50. No catálogo da exposição esse objeto teria a intenção de “revelar toda uma dinâmica de lutas e reivindicações das mulheres no período”.

O critério de periodização não é linear e cronológico, e o passado histórico é visto como algo para reflexão e percepção de diferentes modos.

Museu Carlos Gomes

O museu tem origem dentro do Centro de Ciências, Letras e Artes, conhecido como CCLA, cuja fundação ocorreu em 31 de Outubro de 1901. É uma entidade cultural particular sem fins lucrativa idealizada por um grupo de intelectuais da época (cientistas, artistas, profissionais liberais), pertencentes à elite campineira, que buscavam um lugar para reuniões de estudo e produção cultural. No próprio nascimento da instituição está implícito a preservação e valorização da memória dos grandes episódios da história campineira e de seus filhos ilustres, no conceito dessa elite intelectual. A origem do museu se dá em 1904 quando João César Bueno Bierrenbach, que era um dos fundadores CCLA, resolveu reunir documentos e objetos do compositor campineiro Antonio Carlos Gomes. Bierrenbach foi contemporâneo de Carlos Gomes e, intencionalmente, desejou que o compositor se tornasse memorável. Nesse período, os objetos e a documentação não passavam de uma coleção. Esta coleção, que posteriormente se transformará em museu, sempre esteve abrigada fisicamente junto a sede do CCLA. Em 1956, José de Castro Gomes, membro da diretoria do CCLA e historiador, sugeriram a transformação da coleção em um museu. Todo o acervo do museu é fruto de doações de parentes, amigos e instituições. Possui poucos objetos, que em sua maioria estão expostos. Alguns estão na reserva técnica aguardando restauração como a bandeira do Estado do Pará que cobriu o caixão quando do velório do compositor. Segundo estimativas são cerca de 3500 itens, não só do compositor, mas também de seu pai e de seu irmão. Soma-se a este acervo mais de 500 livros que fazem referência a Carlos Gomes e a sua família.

Em 1998 o museu foi re-inaugurado: através de um projeto financiado pela FAPESP, reorganizou-se a exposição e foi realizadas a limpeza, conservação e catalogação do acervo. Buscou-se uma comunicação visual mais moderna com a utilização de painéis, iluminação cenográfica, disposição planejada e som ambiente que reproduz suas composições. Apesar modernidade aparente o museu se enquadra claramente como um museu-memória. Pretende-se preservar a memória de Carlos Gomes como o maior compositor brasileiro de todos os tempos e evidencia sua origem enquanto campineiro. Na capacidade desta “terra” em gerar “bons frutos”. Portando perfeitamente adequado aos intuitos do CCLA e da própria concepção do museu. Todos os objetos em exposição têm a capacidade de evocar lembranças: estão parados no tempo e não estão preocupados com questões do presente. Elabora-se uma continuidade com o passado sendo os objetos as peças que nos remetem a ele. Em exposição estão dois bustos do compositor e um de seu irmão. Em destaque está o piano utilizado por ele no Teatro da Paz, em Belém do Pará, que foi doado pelo governo daquele Estado. Ha uma harpa que foi doada por um grupo de amigos, batutas de regência, cartas redigidas por ele, selos comemorativos, entre outros. Os objetos são relíquias, isto é, algo extraordinário dignos de ser exposto. Como exemplos dessas relíquias, que não teriam nenhum valor se pertencessem, a pessoas comuns, estão: argolas e ganchos, feitos em madeira e ferro, encontrados na casa de Carlos Gomes em Belém do Pará, que estavam em poder do vigia do prédio e foram doadas pela sobrinha dele; um casaco pertencente a irmã, dois tinteiros, entre outros. Há uma colher de pedreiro que foi utilizada por Santos Dumont no lançamento da pedra fundamental do monumento túmulo que abriga os restos mortais do maestro. Nos quadros explicativos busca-se reconstituir a ligação com a cidade de Campinas, mostrando a casa onde nasceu; suas relações de parentesco; sua ligação com Dom Pedro II; a importância de sua obra; seu reconhecimento internacional; e seu grande e majestoso funeral. A relação com o passado é feita de forma passional, sem a possibilidade de críticas ou reflexões. O personagem histórico é destacado de seu contexto e a cultura branca, européia e civilizada é o parâmetro.

A cidade é apresentada como “grande centro econômico e cultural do interior paulista” reforçando toda a idéia de Campinas como uma cidade desenvolvida.

Museu Campos Salles

Este museu também está ligado à própria história do CCLA e foi fundado em 1957. Também está localizado na sede da instituição e ocupa uma pequena parte do imóvel. A fundação do CCLA orgulha-se de “conciliar ideais positivistas e republicanos que ressaltam a importância da cidade naquele período” segundo seu catálogo. Portando a figura de um fundador do clube republicano e posteriormente presidente da república, nascido na cidade é motivo muito justo para tornar-se objeto de um museu. Manoel Ferraz de Campos Salles foi o segundo presidente civil do Brasil, entre 1898-1902, era formado em direito e também atuava como jornalista. O Museu Campos Salles enquadra-se também como um museu-memória: tem uma relação passional com o passado e busca evocar lembranças. Fundamenta-se na ligação entre este presidente e a cidade de Campinas. O acervo é composto de poucas peças, todos frutos de doação. Utiliza-se da valorização dos objetos enquanto relíquias. Em exposição estão, entre outras coisas: uma mensagem do Imperador da China e um volume sobre a história da Dinastia Russa dos Romanov que Sales ganhou do Czar Nicolau II. Mostrando seu papel de destaque enquanto presidente. Dois grandes bustos e muitos telas buscam a fixação de sua imagem. Devido à falta de objetos para exposição utilizou-se de painéis explicativos, que utilizam a cronologia dos fatos, como se a história fosse apenas a sucessão de fatos. Destaca-se sua origem em Campinas, sua vida pública em São Paulo, seus atos e fatos. É lembrada sua participação como organizador da convenção de Itu, em 1873, que resultou na criação do Partido Republicano Paulista; como fundador da política do café-com-leite e de seu apoio para a agricultura valorizando a cafeicultura. Ou seja, a história da cidade de Campinas é ligada diretamente ao movimento republicano. Como uma cidade capaz de “gerar” um presidente da república. Além disso, é lembrado o papel “desenvolvimentista” da cafeicultura. Alguns livros que falam sobre Campos Sales também estão expostos, além da imagem do monumento em sua homenagem que está numa avenida que leva seu nome. A intenção é clara em não provocar questionamentos sobre o presente ou contextualizá-lo historicamente. O passado é visto como uma massa homogênea que não sofre influências, e que apenas é resgatado e exibido.

Museu do café.

O Museu do café foi fundado em 1991. Está localizado na Fazenda Taquaral, originária de uma das primeiras sesmaria de Campinas e durante longo período foi uma grande produtora de café. Em 1950, boa parte de suas terras foram urbanizadas e numa pequena área foi instalado o IBC, Instituto Brasileiro do Café. A sede da fazenda foi preservada com todos os objetos da antiga família proprietária. Em 1991 o órgão foi extinto e fazenda foi incorporada ao patrimônio da Prefeitura Municipal de Campinas que a transformou em um parque público conhecido como “Lago do café”. A casa sede da fazenda foi transformada na sede do Museu do Café, porém a construção atual é apenas uma reconstrução da original de 1840 que chegou a ruir. O acervo compõe-se basicamente de objetos da família proprietária, incluindo móveis e ferramentas utilizadas na produção de café. Dos 679 bens que foram transferidos para a prefeitura, restam apenas 80 no museu. Os demais foram distribuídos entre os órgãos da administração municipal ao longo do tempo.

A instituição se propõe a preservar e difundir a memória da cultura cafeeira em Campinas, por meio das relações de trabalho.O tema central da exposição é “A cafeicultura em Campinas: o trabalho escravo e o trabalho imigrante”. O museu é claramente identificado como museu-narrativa já que possui um discurso histórico racional e moderno. A exposição principal, que podemos considerá-la como permanente pois é mesma desde a fundação, tem como objetivo principal “valorizar a história de um dos aspectos mais importantes da economia cafeeira: o trabalho”, segundo os painéis que a apresentam. Como um museu-narrativa preocupou-se em representar todas as classes através de representações seletivas e didáticas, destacando o papel dos trabalhadores negros escravos e dos imigrantes estrangeiros como os realmente produziram a riqueza da região através da exploração do trabalho. Segundo um dos painéis “por trás da história oficial dos Barões do café existe a tentativa de se ofuscar a história dos verdadeiros construtores da riqueza e da cafeicultura do Oeste paulista: os trabalhadores”. Ou seja, o museu não se apóia na memória e aproxima-se da ciência histórica, pautando-se no estudo de fatos econômicos, culturais e sociais.

Nesta concepção de museu os objetos não ditam a exposição, aparecem como auxiliares, como ilustrativos da narrativa sobre o trabalho dos imigrantes europeus e dos trabalhadores negros. Existe uma clara intenção em retratar os trabalhadores negros não só como escravos, mas portadores de uma cultura muito rica e ocupando postos de trabalho livre nas cidades, antes mesmo da abolição. Entre as peças do acervo estão algumas ferramentas e móveis que são utilizados como ilustração e não como relíquias. Não se valoriza a quem pertenceu. Nos painéis são representados documentos que contam a organização do trabalho nas fazendas de café, sobre os usos e abusos da força escrava nas lavouras e no trabalho doméstico, a discriminação e resistência. A organização do tempo não é cronológica, porém existe uma contextualização inicial.

[1]CHAUÍ. Marilena de Souza. Convite a Filosofia. São Paulo: Ática, 1995.



[2] SANTOS, Myrian Sepúlveda dos. A escrita do passado em museus históricos. Rio de Janeiro: Garamond, MinC, IPHAN, DEMU, 2006,p.19.



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