Folkcomunicação e Jornalismo Literário: matéria de interesse humano Ben-Hur Demeneck Resumo



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Folkcomunicação e Jornalismo Literário:

matéria de interesse humano

Ben-Hur Demeneck

Resumo - Nesse artigo o Jornalismo Literário é tratado como um privilegiado interlocutor da Folkcomunicação, devido ao seu trânsito entre cultura de massas e a cultura popular. Para desenvolver essa idéia, apresentamos uma definição de JL, gêneros consagrados, sinônimos, conceitos, procedimentos e um breve histórico a partir de acadêmicos que estudaram essa tradição através do contato direto com seus autores e meios de circulação - Sims, Kramer, Vilas Boas e Lima. Nossas observações são ilustradas por trechos de três reportagens JL com temas folk, procurando esclarecer qual é essa boa história que o JL quer contar, sobretudo quando o tema é o Folclore - este que é uma história contada junto. O simbolismo, a imersão e a humanização são características perceptíveis em processos folk e são, ao mesmo tempo, três "pilares" de uma tradição jornalística cujo momento-destaque foi chamado Novo Jornalismo. A Folkcomunicação tem contribuições a oferecer ao JL, como metodologia de estudo cultural, enquanto que, em contrário, o JL pode desde assegurar maior visibilidade massiva aos agentes folk e qualificar o Jornalismo na sua relação com a cultura popular.

Palavras-chaves: Jornalismo Literário, Folkcomunicação, Técnicas de Reportagem.

01. Introdução1

O Jornalismo Literário estimula a imaginação de quem gosta de ler e escrever. Neste artigo tratamos dessa tradição jornalística como um interlocutor privilegiado da Folkcomunicação, por seu trânsito entre a cultura de massa e a cultura popular. A relação entre esses pólos esta presente em cada tópico, como na seção dedicada a gêneros JL (como o perfil, a narrativa de viagem e o ensaio pessoal) ou como naquela que trata de conceitos de Folkcomunicação. O trabalho inclui apresentação e comentário de reportagens JL com temas folkcomunicacionais e observações sobre elementos e procedimentos do jornalismo narrativo.

Uma das referências do artigo é Norman SIMS (1984) cuja pesquisa bibliográfica e empírica organizou itens comuns nos textos de Jornalismo Literário, sete pilares em que essa tradição se sustentaria. Identificados como imersão, humanização, responsabilidade, exatidão, criatividade, estilo e simbolismo. Ainda que características complementares, chamamos a atenção para duas delas por serem particularmente pertinentes para a Folkcomunicação: a humanização e o simbolismo.

Todo Folclore está carregado de narrativas e o JL tem por contínuo objetivo contar histórias. Logo, há uma expectativa de mútua contribuição entre os dois campos, tanto no âmbito teórico como pragmático. Apesar dessa nossa afirmação, os gêneros JL não recebem neste artigo o tratamento de substitutos daqueles outros típicos da imprensa, nem os colocamos em um grau de importância superior. Acreditamos que tanto a sua pesquisa como a aplicação das técnicas JL resultam em uma imprensa mais qualificada.

A notícia é objeto de estudo freqüente no Jornalismo, precisamente aquela identificada em redações como "notícia quente" (ou, na tradição americana, a hard new2), enquanto que a chamada "matéria de interesse humano" ainda não recebe o mesmo esforço acadêmico. Toda essa prioridade acadêmica e profissional à notícia “mais pesada” e “mais dura” não impediu, Ocidente afora, o desenvolvimento de tradições em que o foco do jornalista seja contar uma boa história. Relato em que a informação se trata de um ponto de partida e não a chegada da investigação jornalística.

De uma forma didática, há quem apresente JL como conteúdo de jornalismo e forma literária. Como toda redução, implica em erros. O seu ponto verdadeiro vem desse compromisso do jornalismo com valores acumulados em sua profissão, a começar pelo jornalista atuar em nome dos cidadãos como um relator do interesse público3. Ou, ainda, segundo uma das conclusões de Bill Kovach e Tom Rosenstiel, depois de analisar pesquisa encomendada ao Pew Research Center e depois de “longas entrevistas com nossos colegas acadêmicos, velhos e novos jornalistas”: o primeiro e mais confuso princípio jornalístico é a verdade (2003:57-79) 4. Nesse sentido, a nomenclatura do JL acentua essa identidade: Literatura de não-ficção, Literatura da Realidade, Creative Non-fiction (Não-ficção Criativa). Todos sinônimos de Jornalismo Narrativo. Ou seja, não basta verossimilhança, tem que haver um critério de exatidão. Nada é inventado e contado como verdadeiro.

Luiz BELTRÃO, ao pensar os meios de comunicação de massa no início da década de 1970, apontava para a necessidade de estabelecimento de uma área que interpretasse o "processo de intercâmbio de informações e manifestação de opiniões, idéias e atitudes da massa, através de agentes e meios ligados direta ou indiretamente ao folclore" (1971, p.15). As características sócio-econômicas e culturais do Brasil reforçariam a importância do popular ao longo do tempo, e por trás daquele desafio acadêmico cresceu a Folkcomunicação. Intelectuais, como Câmara Cascudo, já haviam assinalado a força e variedade do folclore. E o trabalho de Beltrão se tornou uma referência para entender os agentes populares em atribuições midiáticas, atores de um sistema autônomo, criativo.

Cascudo observava o saber popular a partir das “técnicas e processos utilitários que se valorizam numa ampliação emocional, além do ângulo do funcionamento racional” (1988, p.334). E completava, “o folclore inclui nos objetos e fórmulas populares uma quarta dimensão, sensível ao seu ambiente". Sobre essa espécie de legado e trânsito inconsciente do popular é que o JL pode operar. Cascudo sinaliza para a imersão do investigador da cultura popular, e também para o simbolismo e humanização desses processos. Para promover um pouco do JL no campo da Folkcomunicação, procuramos fazer neste artigo a compilação de gêneros do jornalismo narrativo, como um primeiro roteiro de viagem.

A Folkcomunicação compreende a cultura popular à como sistema comunicacional e estuda sua relação com a cultura de massa. O JL ainda que hipoteticamente sensível ao popular, não abandona seu registro massivo, até por sua finalidade de circulação ampliada. O JL se faz um interlocutor da cultura popular por ser capaz de assegurar visibilidade massiva a fontes de informação que não disponham de representatividade sob um ponto de vista estatístico ou institucional, mas que representam uma manifestação simbólica, um modo de vida, uma história para contar. Oposição ao jornalismo noticioso mais corrente, em que, por uma série de fatores, encontra amparo em fontes oficiais, números, amostras, modelos. Como efeito residual desse modelo, Sergio Vilas Boas identifica quatro estratégias viciadas no enquadramento noticioso: efemérides, agenda, jornalismo de serviço e os "ganchos jornalísticos".

A importância de conhecer mais da tradição JL no Brasil e no mundo atende a questões da universidade, da imprensa e da cultura de modo geral. No âmbito acadêmico, o JL é uma opção a formandos de cursos de Jornalismo que recorrem a livro-reportagem como trabalho de conclusão de curso (TCC). Na imprensa, serve a profissionais que procuram outras formas de captação e expressão jornalística em seus veículos de comunicação, ou para colaborarem em outros meios, ou ainda no desenvolvimento de projetos individuais5, como o fez Caco Barcelos com seu livro “Abusado”. No próprio segmento editorial, há a reedição ou tradução de obras JL, como “O Filme”, de Lilian Ross. As biografias feitas pelos jornalistas Ruy Castro e Fernando Morais são exemplares do interesse pela investigação jornalística acerca de boas histórias baseadas na realidade. Tendência encontrada também no campo no cinema, quando se acompanha a realização e divulgação do gênero documentário. E a Literatura da Realidade ganhou impulso na imprensa brasileiro nos últimos três anos com a inserção de revistas de circulação nacional abertas a reportagens narrativas, caso da piauí, Brasileiros e Rolling Stone. Questão que não passam despercebidas pela própria imprensa, ainda que haja pouco hábito dela pautar a si própria visando ao interesse público. Caso da Gazeta do Povo, dedicando todo uma edição de caderno especial ao Jornalismo Literário com artigos, entrevistas e reportagens. Em tema, a tradição JL e o momento atual diante de um crescente incentivo à reportagem, visível desde a circulação dessas revistas e livros-reportagem. Segundo um dos colaboradores, Paulo Paniago, “todo jornalista brasileiro se sente um pouco órfão da Realidade”, uma referência ao imaginário dos jornalistas quando se pensa em matérias com fino trato na escrita e apuração (Caderno G Idéias, 2008).

Esperamos que até o final do texto demonstremos que JL exige aprofundamento, formação específica, empenho editorial, condições de trabalho, mas que traz como resultados uma imprensa mais diversificada em temas, abordagens e fontes. E, no caso do Brasil, tão rico em manifestações culturais populares, a metodologia do JL permite assimilá-las numa esfera de diálogo e alteridade, dentro da comunicação de massa. Afinal de contas, se para a "notícia quente” 6 certos procedimentos de apuração são eficientes, para cumprir os propósitos do JL, eles não bastam. É preciso enveredar também por métodos usuais em estudos culturais, próprios de áreas como a antropologia, sociologia, história e teoria literária7. A história oral é um dos mais visíveis colaboradores dos jornalistas literários, especialmente em nossa cultura em que há um peso determinante da oralidade. Terminando esse prólogo, acreditamos que o JL pode se desenvolver a partir pelos conceitos, teorias e termos da Folkcomunicação e essa, por sua vez, encontrar um interlocutor direto de seu referencial.

02. Folkcomunicação

O destaque nesse tópico vem para a dinâmica dos estudos da cultura popular como sistema comunicacional. Houve uma mudança de foco nos estudos da Folkcomunicação, a partir dos anos 1990, década em se ampliou a definição do Folclore, retirando a imagem dos agentes folk como elementos passivos da tradição. O jornalista literário dedicado a um tema da cultura popular aumenta seu repertório de trabalho diante desses conhecimentos, ganhando vantagem na compreensão dos fatos.

Reconhecer as linhas de estudo da Folkcomunicação, conceitos e termos, permite ao jornalista uma maior criatividade em suas pautas, uma imersão mais consciente no seu ambiente de investigação e também um cumprimento mais efetivo de seu compromisso ético. O jornalista literário deve estar preparado para enfrentar dilemas incomuns a pautas sem imersão, pois o avanço de seu trabalho o conduz a “pactuar com as fontes” (VILAS BOAS, 2002). Um quadro com a divisão de gêneros folkcomunicacionais, por exemplo, com a delimitação de seus canais e códigos e o conjunto de formatos que os integram, é mais que um quadro, é um primeiro contato aos iniciantes na cultura popular e um idioma de conversa entre os iniciados.

O estudo folkcomunicacional, inaugurado na década de 1970, manteve seu foco inicial sobre agentes e meios, como os cantadores, caixeiros-viajantes, choferes de caminhão, folhetos, almanaques, folhinhas, livros de sorte, carnaval, mamulengo, bumba-meu-boi, queima de Judas. A partir da década de 1990 as implicações entre meios de comunicação de massa e folclore passaram a incluir temas como a presença de elementos globais e locais no agendamento midiático. As pesquisas passaram a ser provocadas por perguntas como (A) “que espécie de jornalismo, que forma – ou formas – atenderia à (...) necessidade de comunicação [das classes marginalizadas]?” e (B) “essa espécie de intercâmbio de informações e idéias algo em comum com o jornalismo dos veículos de massa?” (CASTELO BRANCO, p. 113).

Pesquisa herdeira dessa abertura de foco foi desenvolvida duarante o Carnaval dos 500 anos de Descobrimento do Brasil, acompanhando tratamento da festa na imprensa brasileira em análise de 38 jornais distribuídos em 22 estados brasileiros. Observou-se questões como a proporção de elementos regionais na mídia, o âmbito cultural e a espetacularização e a influência do carnaval baiano e carioca sobre outras manifestações carnavalescas. Como houve uma especialização no estudo da relação entre cultura folk e cultura de massa, Roberto BENJAMIN deu mostras dessa variedade acadêmica apontando pelo menos seis áreas dentro da Folkcomunicação:

– A comunicação (interpessoal e grupal) ocorrente na cultura folk;

– A mediação dos canais folk para a recepção da comunicação de massas;

– A apropriação de tecnologias da comunicação de massas e o uso dos canais massivos por portadores da cultura folk;

– A presença de traços da cultura de massas absorvidos pela cultura folk;

– A apropriação de elementos da cultura folk pela cultura de massas e pela cultura erudita (projeção do folclore);

– A recepção na cultura folk de elementos de sua própria cultura reprocessados pela cultura de massas (1999).

Por décadas o documento Carta do Folclore Brasileiro delimitou um entendimento de Folclore8. Baseava-se no consenso entre estudiosos que participaram do Congresso Brasileiro de Folclore, realizado em 1951. Mais de quatro décadas depois, em 1995, por ocasião da sétima edição do Congresso, houve uma releitura desse documento, visando a uma re-conceituação do termo. Características então atribuídas ao folclore foram relativizadas ou colocadas em desuso – anonimato, aceitação coletiva, transmissão oral, antiguidade, tradicionalidade e dinamicidade, espontaneidade, funcionalidade e regionalidade. Artesanato e poesia, por exemplo, fragilizavam o argumento do folclore como uma criação sem autoria. E a anterior idéia de “espontaneidade” reservava aos populares um enquadramento de reprodutores passivos da tradição. Logo, o folclore fica definido como "o conjunto das criações culturais de uma comunidade, baseado nas suas tradições expressas individual ou coletivamente, representativo de sua identidade social”. Em seus fatores de identificação haveria a aceitação coletiva, a tradicionalidade, a dinamicidade e a funcionalidade (BENJAMIN). Para Câmara CASCUDO, o folclore “não apenas conserva, depende e mantém os padrões imperturbáveis do entendimento e ação, mas remodela, refaz ou abandona elementos que se esvaziaram de motivos ou finalidades indispensáveis a determinadas seqüências ou presença grupal" (1988, p. 334). Cascudo encarava o homem como uma “fonte de criação e divulgação folclórica” e o folclore como uma “solução popular na vida em sociedade". Talvez o próprio JL e Folkcomunicação façam pensar sobre essa ligação entre os conceitos de comunidade (Gemeinschaft) e sociedade (Gesellschaft) 9.



ILUSTRAÇÃO

Taxionomia da Folkcomunicação (MARQUES DE MELO, 2005)

TABELA 01 – OS GÊNEROS FOLKCOMUNICACIONAIS

GÊNERO

CANAL E CÓDIGO

Folkcomunicação oral

canal auditivo / códigos verbal/musical

Folkcomunicação visual

canal ótico / códigos lingüístico/pictórico

Folkcomunicação icônica

canais ótico/táctil / códigos estético/funcional

Folkcomunicação cinética

múltiplos canais / códigos gestual/plástico

TABELA 02 – OS FORMATOS

GÊNERO

FORMATOS

Folkcomunicação oral

Canto, Música, Prosa, Verso, Colóquio, Rumor, Tagarelice, Zombaria, Passatempo, Reza

Folkcomunicação visual

Escrito, Impresso, Mural ou Pictográfico

Folkcomunicação icônica

Devocional, Diversional, Decorativo, Nutritivo, Bélico, Funerário, Utilitário

Folkcomunicação cinética

Agremiação, Celebração, Distração, Manifestação, Folguedo, Festejo, Dança, Rito de passagem

TABELA 03 - FORMATOS E TIPOS

EXEMPLO DE FORMATO

GÊNERO

A QUE PERTENCE

TIPOS

Passatempo

Oral

Adivinhação; Charada; Provérbio

Impresso

Visual

Almanaque de cordel; Almanaque de farmácia; Graça alcançada; Literatura de cordel; Literatura mediúnica; Livro de sorte; Oração milagrosa; Panfleto; Santinho de propaganda; Volante publicitários; Xilogravura popular

Devocional

Icônica

Amuleto; Ex-voto (promessa); Imagem de santo; Medalha; Presépio

Agremiação

Cinética

Bloco carnavalesco; Clube de mães; Comunidade de base; Escola de samba; Escola dominical; Mutirão; Troça

03. Jornalismo Literário

Nesse tópico trazemos a definição de Jornalismo Literário segundo Norman SIMS (1984). Comentários de jornalistas literários sobre especificidades na pauta, apuração e edição (KRAMER, HULL, RIBEIRO). Recorremos a Michael SCHUDSON (1978) para tratar de dois momentos influentes do jornalismo norte-americano, a ascensão do jornalismo interpretativo (anos 1930) e o Novo Jornalismo (anos 1960) – e identifcamos esse momento como parte de uma tradição. E organizamos uma panorâmica de veículos e repórteres brasileiros referenciais em JL10.

Norman SIMS (1984) pesquisou o JL a partir de duas gerações de jornalistas literários, uma delas encontrou sua “voz” na época do Novo Jornalismo, entre a metade dos anos 1960 e a metade dos anos 1970, nomes como Tom Wolfe, Joan Didion, Richard Rhodes e John McPhee. E a geração subseqüente – influenciada pela primeira – integrada por nomes como Richard West, Mark Kramer, Sara Davidson, Tracy Kidder e Mark Singer. O método de pesquisa de SIMS se baseou em entrevistas em profundidade com esses autores, tendo por objetivos definir quais eram as fronteiras do JL, identificar conceitos e técnicas eram elementares nessa forma de jornalismo e as limitações dessas investigações.

SIMS chegou ao seguintes pontos que classificou como pilares do Jornalismo Literário: (a) Imersão, (b) Humanização, (c) Responsabilidade, (d) Exatidão, (e) Criatividade, (f) Estilo e (g) Simbolismo. Exatidão e responsabilidade esclarecem de imediato a característica de ser este um jornalismo calcado na realidade exterior, dentro dos limites possíveis do autor em captá-la e interpretá-la. SIMS11. A literalidade do JL, porém, advém de técnicas aplicadas historicamente em obras de ficção como a descrição minuciosa, as digressões, os diálogos, os fluxos de consciência, o monólogo interior, as metáforas, e a construção cena a cena e o metatexto – tal qual um making of em obras de cinema (LIMA, 1995; VILAS BOAS, 2002). Criatividade e o estilo acabam se impondo ao texto, quando essas características se somam ao aprofundamento da relação humana estabelecido pela Imersão do repórter no contexto da sua fonte. O simbolismo refere-se à capacidade de um assunto em remeter a significados subjacentes.

Em sua história social dos jornais americanos, Michael SCHUDSON destaca o Jornalismo Literário na sua vertente mais conhecida, o Novo Jornalismo. Como seu capítulo final traz como tema objetividade, notícias e cultura crítica, o JL e o Jornalismo Investigativo são apresentados num contexto de crítica ao “jornalismo convencional”, na década de 1960 (1978:160-195). O JL então estaria no contexto da contracultura, em que o próprio jornalismo era alvo de críticas, entre elas sobre a cobertura da guerra no Vietnã. Citando Nat Hentoff, colocou o JL como uma possibilidade “quebrar o vidro entre o leitor e o mundo em que ele vive”. Depois, a partir de David Eason, Schudson explica uma das nomenclaturas, a de “metajornalismo”. Como indica o prefixo “meta”, era o recurso metalingüístico. Nesse caso, a própria escrita da reportagem se tornava assunto da reportagem. Adiante, SIMS trata do que chama de compromisso pessoal, tópico tão importante ao JL quanto a apuração das informações.
Nos anos trinta também havia tido um senso nascente que a atividade da reportagem ela mesma era problemática e a experiência da reportagem deveria ser incluída no relato – “Let Us Now Praise Famous Men”, de James Agee, é o exemplo principal. Mas nos anos sessenta essa sensibilidade era muito mais ricamente elaborada. E ela ajudou a criar a audiência da cultura crítica (1978:187)

Nela linha de pensamento, Schudson comenta que a reportagem JL teve, a princípio, uma influência indireta sobre os jornais, alimentando a imaginação dos repórteres. Enquanto que em revistas como Rolling Stone, Life, Harper´s, Vanity Fair, Esquire circulavam matérias JL. Com o tempo, os jornais responderam com suplementos em estilo revista, como aconteceu no The New York Times e no Chicago Tribune. Seções especiais com matérias de abordagens mais criativas, com maior tempo e recursos para as etapas da pauta, apuração, redação e edição. Outro impacto foi o crescente contato com free-lancers, ocupando nesses cadernos a função que era apenas do quadro regular de jornalistas.

Um esclarecimento de nomenclatura importante: o uso do termo Novo Jornalismo. Dizer que o JL é o Novo Jornalismo, seria equivalente a dizer que a MPB é o Tropicalismo. Ou seja, se pensarmos em conjuntos, o segundo estaria contido no primeiro. Justamente porque o JL é anterior ao Novo Jornalismo. Mérito para Truman Capote, Norman Mailer, Tom Wolfe e Gay Talese que derrubaram sobre nós uma onda que nos confundiu o discernimento12. E na história da imprensa brasileira, o JL também teve sua abertura em revistas como a Revista Cruzeiro (1950s), Realidade (1960s), Globo Rural (1980s), Senhor e em publicações diárias – caso do Jornal da Tarde. E num panorama geral, representantes como Joel Silveira, Marcos Faerman, João Antonio, Luiz Fernando Mercadante, José Hamilton Ribeiro, Roberto Freire, Zuenir Ventura e Caco Barcelos. Jornalistas que pratica(ra)m, em maior ou menor grau, um jornalismo imbuído das características de humanização, responsabilidade, exatidão, criatividade, estilo e simbolismo, apenas possível pela imersão desses autores no contexto de suas fontes-personagens.

Quando SCHUDSON se refere ao jornalismo dos anos 1930, trata da ascensão do “jornalismo interpretativo”. A Primeira Guerra Mundial teria se mostrado um evento complexo demais para apenas ser entendido pelas informações. O autor seleciona dois livros daquela época como exemplares do movimento em favor do jornalismo interpretativo: Interpretative Reporting (Curtis MacDougall, 1938) e The Changing American Newspaper (Herbert Brucker, 1937). Para MacDougall, o jornalismo norte-americano estava despreparado para a Primeira Guerra Mundial, os serviços a cabo e os jornais reportaram apenas o que aconteceu, faltando uma interpretação sobre porque aquilo estava acontecendo. Segundo ele, a imprensa falha novamente em 1929, durante a grande recessão naquele país. Para Brucker, a crescente complexidade do mundo levaria o público dos jornais a pedir por maior contextualização e maior interpretação nos conteúdos jornalísticos. As discussões desse período levaram a uma maior autonomia sobre correspondentes estrangeiros (idem: 145-147).



O Jornalismo Literário de alguma forma procura trazer outras respostas, uma investigação que tem na informação o ponto de partida. E não a sua chegada, como afirmamos no primeiro tópico. Afinal, se quer alguma compreensão profunda de um fato, inclusive em sua dimensão simbólica. Nesse sentido SIMS, em sua obra de 1995, acentua o caráter do compromisso pessoal no JL em compasso com a correção das informações – “A perenidade e a profundidade da reportagem dá a jornalistas literários os materiais brutos que eles precisam, mas não é suficiente. Os detalhes precisam estar corretos”. Observa ainda o depoimento de quatro jornalistas, três deles (Singer, Quammen e McPhee) assinalaram que idéias do Jornalismo Literário crescem a partir dos fatos. Mark Kramer teria feito a advertência de que os leitores de Jornalismo Literário são sagazes, pessoas que conhecem bem o mundo e que sabem “como ele funciona”. Logo, “um escritor que comete erros, que não corresponde ao mundo realista, perderá os mais expressivos leitores” (19). Sobre o compromisso pessoal do repórter, SIMS acredita que independente do tema, ele empregará o mesmo tempo da coleta de suas informações analisando qual é o seu próprio envolvimento na história. Pode não ser o primeiro passo, porém ignorá-lo resulta, em sua opinião, em trabalhos desanimadores. Motivo para que tempo considerável dos jornalistas literários seja empregado na redação e edição de seus conteúdos.

Além da imersão no assunto pesquisado, permitindo a coleta de informações e a experiência da reportagem, é importante observar o quanto a redação e a revisão exigem do jornalista literário. Para escrever Hiroshima, Hersey ficou no Japão de 25 de Maio a 12 de Junho de 1946. Dedicou o dobro desse período, redigindo e revisando seu material, consumindo seis semanas nessa etapa (2002). Para termos uma referência contemporânea, mais de seis décadas depois de Hersey, podemos tomar Anne Hull, uma jornalista literária do Washington Post. Segundo ela, um terço do período total de sua reportagem fica para escrever e, depois, dar a estrutura final na edição (2008)13.

Quanto a temas e personagens, segundo SIMS (1995) pode ser como “histórias de migrações, trabalho e família – sobre coisas que acontecem o tempo todo – podendo revelar estruturas e pesos da vida real (...) dizendo mais sobre as vidas da maioria dos cidadãos que histórias de desastres singulares ou celebridades peculiares” (03). Há um sem-número de “clássicos do gênero tratam com sentidos e experiências de anônimos” (id). Mark KRAMER (1995, p. 21-36), como acadêmico, explica uma a uma daquelas que seriam as regras “passíveis de quebra” do JL. Aqui apenas indicamos a síntese14.

1 – Jornalistas Literários fazem uma imersão no mundo de seus assuntos e fazem pesquisa de contexto; 2 – Jornalistas Literários trabalham com convenções de exatidão e franqueza com seus leitores e fontes; 3 – Jornalistas Literários, na maioria das vezes, escrevem sobre eventos de rotina; 4 – Jornalistas Literários escrevem com “voz íntima”, de modo informal, franco, humano e irônico; 5 – O estilo conta muito e tende a ser simples e livre; 6 – Jornalistas Literários escrevem de uma instância móvel, da qual eles contam histórias e também se dirigem diretamente a seus leitores; 7 – Estrutura conta, misturando narrativas principais com contos e digressões para ampliar e reenquadrar eventos; 8 – Jornalistas Literários desenvolvem sentidos a partir de reações seqüenciais sobre os leitores. (KRAMER, 1995, p. 21-36)

Como comenta José Hamilton RIBEIRO, em “Fórmula de Reportagem”, é preciso ter estrutura para fazer bom jornalismo, “a parte da empresa (que garante o borderô) e a parte humana, essa constituída da equipe jornalística à qual o repórter está agregado” (1997, p. 115). Além de pré-requisitos instrumentais, o repórter precisa lidar com questões anímicas e subjetivas. Como característica fundamental deve ser curioso, ter os sentidos aguçados e ter um “’espírito cooperativo’, uma vontade de compartir, de compartilhar, de passar logo à frente, de contar o que sabe” (112). Duas reflexões complementares lançadas por Hamilton Ribeiro: (A) ao contrário do que muitos pensam, o repórter não é nenhum “lobo solitário”. E, (B) “Uma boa reportagem é também um ato de amor, de ilusão, de crença no ser humano” (113). Um momento de lirismo, em meio ao humor e olhar clínico de Ribeiro. Um convite para potenciais autores de não-ficção, uma proposição a relatos integrados e cooperativos.


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