Formações Clínicas do Campo Lacaniano Seminário de Membros: Radiofonia



Baixar 40.02 Kb.
Encontro20.07.2016
Tamanho40.02 Kb.
Formações Clínicas do Campo Lacaniano

Seminário de Membros: Radiofonia

Antonio Quinet

Transcrição de 25/04/2002

Transcrição de Maria Luisa Rodriguez Sant’Ana
Este texto de Radiofonia, é uma retomada da Psicanálise, do Estruturalismo e é um texto fundamental sobre a questão da estrutura, no campo do gozo, uma vez que estamos nos anos setenta, quando já foi introduzido o campo do gozo em sua teoria.

É um texto sobre a interpretação e sobre o corpo. Por isso ele fala dos estóicos e seu conceito dos incorporais. Neste texto ele aborda a questão da diferença entre o que é corpo simbólico e o corpo propriamente falando, numa retomada do que ele já tinha avançado sobre o corpo no Seminário 11.

O fundamental é que é uma retomada do Estruturalismo e do conceito de estrutura, com o objeto a . Ele não tinha ainda formalizado o objeto a quando ele vai se interessar por Saussure e Jacobson.

A referência principal neste texto é menos ao significante e mais ao signo. Ele não abandona a primazia do significante, mas se interessa pela teoria do signo . E a referência dele não vai ser mais Saussure, mas Pearce.

É importante fazer também esta distinção do signo linguistico para Saussure e do signo para Pearce.

Na página 8 da nossa tradução, há um trecho em que Lacan vai dizer:

“Para começar, sob pretexto de que defini o significante como ninguém mais ousou, não imaginem que o signo não seja meu negócio! Muito pelo contrário, é o primeiro e será também o último. Mas esse desvio é necessário.”

Logo na primeira página Lacan se refere ao signo na concepção de Pearce. É importante lembrar que o acréscimo principal à teoria do signo de A Instância da Letra... é a introdução do ACOISA , que vai ser uma retomada do estruturalismo, introduzindo o objeto a. É por isso que ele se refere, não mais a Saussure, mas ao triângulo semiotico de Pearce, que nós vamos estudar hoje.


(Sônia Borges faz uma leitura de um texto extraído de “O amor da língua”, de Milner, onde ele define as características principais do signo e que será divulgado na Internet)
O texto “Semiotic for Beginners” de Daniel Chandler (que também será divulgado na Internet) fala sobre o princípio da arbitrariedade do signo linguistico. Este autor considera, diferentemente de Milner, que esta não é uma concepção original de Saussure. Já Aristóteles considerava que não há conexão natural entre o som de nenhuma linguagem e a coisa significada. E no Crátilo, de Platão, que é um diálogo sobre as palavras, Hermógenes pede a Sócrates para aceitar que qualquer nome que se dê para uma coisa é sempre um nome correto. E se você desiste daquele nome e troca para outro nome, este último também é correto, pois nenhum nome pertenceria a uma coisa particular, por natureza.

O autor cita em seguida Sheakespeare: “ Se chamamos aquilo que chamamos a rosa, por qualquer outro nome, continua cheirando tão doce como uma rosa.”

Embora a noção de arbitrariedade da linguagem não seja nova, a ênfase dada por Saussure, pode ser considerada uma contribuição original. Vale a pena notar que enquanto Saussure prioriza a fala, Chandler diz que os signos usados na escrita são também arbitrários. Uma letra não tem a menor conexão com o som que ela denota.

Na frase de Sheakespeare, há algo de um apelo àquilo que não se pode nomear, algo de um real, no caso, o cheiro. A barra, entre a linguagem e o real, faz com que se dê um encontro que é arbitrário, mas o que ele está acentuando é que há uma barra. É uma forma de introduzir o objeto a com esse exemplo de Sheakespeare: A rosa que continua cheirando mesmo que você lhe troque o nome. Há algo aí do real, que você pode ir trocando os nomes, que a linguagem não da conta.


Na primeira página do texto, Lacan fala do corte inaugural, o corte que se trata da abertura do campo do significante. O que a Linguistica faz com o campo do significante é a exclusão do sujeito metafísico. Ele vai dizer: “Isto implica numa exclusão metafisica a ser considerada como o fato do des-ser.”

O campo do significante, na Linguistica promove uma desubstancialização completa do ser do sujeito. Isso que Lacan chama do des-ser, e que ele já tinha empregado na Proposição, para definir de onde o analista extrai, por mais paradoxal que seja, a sua suficiência. Ele coloca o analista nesse lugar, que não é do ser, é do des-ser. É diferente da falta a ser do sujeito, o des-ser, como uma desubstancialização, que ele articula, ou define, com um outro termo, também difícil de apreender, que é a destituição subjetiva.

Ele afirma que o campo do significante promove a exclusão da metafísica e a exclusão do ser, que é o des-ser. Daí por diante nenhuma significação será evidente, nós estamos no campo das significações, que vão ser sempre à priori, que tendem ao infinito.
S
aussure Lacan



Diferentemente de Saussure, para quem o signo linguistico define uma significação, Lacan faz o grafo em que o retorno do significado corta o significante, e conforme caminharmos, a significação desse mesmo significante vai mudando. A significação em si está sempre escapando, ela não é evidente, vide o exemplo da cena primitiva do Homem dos Lobos, que a cada avanço na análise ele resignifica de uma forma diferente e é daí que ele constrói o grafo do desejo, do à posteriori, o só depois.

Logo depois Lacan faz referência aos estóicos. “É aí que os estóicos nos precederam, mas eu já interroguei, com que finalidade?” Os estóicos fazem a diferenciação entre significante e significado, colocando o significado como uma modalidade de incorporal. Ele é um incorporeo, enquanto o significante, ele é corpóreo. Isso aparece logo depois, na segunda ou terceira questão, quando Lacan fala do corpo simbólico e afirma dizer que a linguagem é material, também se referindo aí aos estóicos.
Lacan prossegue: “Mesmo que venha a violentar algumas conotações da palavra, chamarei semiótica (e Lacan pretende fazer uma semiótica) toda disciplina que parte do signo considerado como objeto...” E ele propõe uma teoria do signo e sabemos, se formos mais adiante no ensino dele, ele apresenta, no final desse ensino, o sintoma como signo do sujeito, o que ele já começa a desenvolver aqui.

Continuando: “...mas para marcar que é isso que fazia obstáculo à apreensão como tal do significante.”

Ele afirma que o estudo do signo para os linguistas fez obstáculo ao campo do significante e que por isso foi necessário fazer um desvio pelo campo do significante para chegar ao signo. Ao signo como ele desenvolve aqui, e aí não é mais a referência a Saussure, mas a Charles Pearce.

A tese de Doutorado de Elizabeth Saporiti, que se tornou livro, desenvolve as relações entre Lacan e Pearce, à partir da semiótica e da lógica, fazendo a diferenciação entre eles.

E aqui ele dá uma definição, que é de Pearce, embora ele não o diga: “O signo supõe alguém, a quem ele dá um sinal.”

Ou seja, o signo é aquilo que representa alguma coisa para alguém. E ele se divide no modelo, que não é um modelo binário, como o saussureano, não é s/S, mas ele se constitui como um triângulo, que é o triângulo semiótico. E pode ser representado de diversas maneiras.

Vamos utilizar a forma como Recanati, que é um italiano, que Lacan cita no Seminário ...ou pior, onde Lacan comenta a interpretação dele do signo em Pearce, o que depois ele desenvolve no Encore, também.

Representamem (fumaça) Interpretante (sentido)


Objeto (fogo)

O representamen é a forma que o signo adquire. O interpretante não é o interprete, mas o sentido que é tomado para esse signo, que se refere à esse objeto.

Há vários linguistas que vão interpretando esse triângulo, substituindo esses nomes, acrescentando, acentuando uma coisa ou outra. O Chandler representou da seguinte forma:

Sentido

Representamen Objeto

(Veículo do signo) (Referente)

O signo linguistico é aquilo que representa alguma coisa para alguém. O famoso exemplo é o do fogo e da fumaça, que Lacan usa e abusa na sua obra.

Chandler faz umas comparações com Saussure: o representamen é similar ao significante, e o interpretante é similar ao significado. O Saussure não tem o referente.

Humberto Eco e o Recanati também, consideram que o sentido pode ser infinito. O interpretante pode ser infinito, enquanto se mantém a relação do representamen com o objeto. Ou seja, o signo linguistico para Pearce é a base de uma teoria da interpretação. Nós já temos o interpretante, que pode ser o lugar do interprete, lugar onde se da o sentido. O signo implica também que uma interpretação inicial, pode ser reinterpretada.

Pearce propõe uma estrutura tripartite ao que Lacan vai contrapor uma estrutura quadripartite, de quatro elementos, com quatro lugares, pois nós já estamos na época dos quatro discursos. Pearce afirma que o signo, enquanto tal, o representamen, faz parte de uma estrutura, de uma instância que ele inventou, da primeiridade, ou primaridade; o objeto da secundidade; e o interpretante da terceiridade. Essa hierarquia é fundamental: o mais importante é o representamen, ou na linguagem saussuriana, o significante. Em segundo lugar, o objeto, em terceiro lugar, o interpretante.

O que é muito importante para ele, é que o sentido de um signo não está contido nele mesmo, mas emerge na sua interpretação.


Agora, retomando o Seminário ...ou pior, nas suas duas últimas sessões, onde Lacan convida Recanati, que veio de Milão para falar. Ele desenvolve a relação entre as palavras e as coisas, e chega em Pearce.

Então, ele comenta que o signo, que ele chama de representamen, é alguma coisa que para alguém está no lugar de outra coisa. Aí dentro existem quatro elementos:

Para alguém, que é o primeiro: isso significa que o signo é criado na cabeça de quem o recebe. O segundo ponto é o seguinte: a recepção do signo é portanto um segundo signo, que funciona como interpretante. Em terceiro lugar, a coisa da qual o signo tem lugar, ou representa, é dita sem objeto. São esses três elementos que são os vértices do triângulo semiótico.

O quarto termo, desenvolvido por Recanati, é o que Pearce chama “the ground”, o terreno. Ou seja, o signo representa o objeto, não absolutamente, mas em referência a uma espécie de idéia chamada de ground, o solo ou o fundo da relação do signo e do objeto. O ground, ou terreno pode ser chamado de ponto de vista.

E Lacan faz uma coisa muito interessante com isso: “A determinação do ground é a determinação do primeiro ponto de vista que determina a inscrição”. Lacan afirma que o ground, o terreno, é um espaço preliminar de inscrição.

A segunda relação, representando o objeto (falando dessa relação, que se dá em um ground) é o domínio da lógica pura, para Pearce.

A relação que ele diz que é mais importante, é a que Chandler interpretou como a relação de significante e significado, mas que a gente está vendo que é outra coisa, que vai mais além. É a interpretação, que pode ter um intérprete, mas pode ter também um conceito aqui que interpreta os outros dois. Temos aqui o lugar do interpretante e do representamen, esse é o espaço da retórica.

Representamem retórica interpretação




O

Objeto



O representamen, primeiro tem uma relação primitiva à um objeto. O objeto é considerado secundário (lembram da primaridade, secundidade, etc...?). Mas essa relação pode determinar um terceiro interpretante , na mesma relação com o objeto. Para demonstrar como se dá aí o processo de significação, o Recanati da um exemplo que é bastante interessante:

Balança igualdade comunismo ...







Justiça


Ele coloca aqui a balança, como o signo desse objeto que é a Justiça. É necessário então, que essa relação seja interpretada por um interpretante, podendo ser qualquer coisa. Então ele coloca como interpretante Igualdade.

Nós temos um triângulo linguistico, onde quem vê a balança e pensa porque a balança é um representamen do objeto justiça, pensa que ela tem dois pratos, eles estão equilibrados, então há uma relação de igualdade, com a qual eu interpreto porque a balança pode vir no lugar do objeto justiça.

E o Chandler afirma que, de uma certa forma, esta relação balança /justiça é o modelo para que esta relação se estabeleça entre o interpretante e o objeto. Ou seja, assim como a balança está para a justiça, a igualdade está para a justiça e então a igualdade deve ser baseada na justiça, ou a justiça é igual, ou a igualdade é justa...

Então ele diz que nós podemos colocar aqui um outro representamen, como um outro interpretante, como por exemplo, comunismo: um lugar onde haja justiça, todos iguais. Então podemos dar uma outra interpretação dessa relação entre a balança e a justiça. E assim sucessivamente. Ou seja, é uma tríade irredutível, mas a interpretação pode ser múltipla em relação ao interpretante.

Prosseguindo, Recanati diz: “No início há um todo, há algo que é dado, um fundo que é escolhido, no interior de um fundo diferenciado, e à partir daí há uma tentativa de exaustão desse fundo, absolutamente impossível, à partir de uma primeira etapa”.

Aí ele faz uma referência aos nós borromeanos. Lacan não estava nem aí para os nós borromeanos e o Recanati é que dá a dica para ele.

“O triângulo semiótico reproduz a mesma relação ternária que você citou a propósito dos escudos dos borromeos.”

Ou seja essa tríade tem uma topologia semelhante aos nós borromeos, o que ele vai chamar uma tríade irredutível. A relação signo/objeto é o próprio objeto do interpretante como signo, o que vai constituir então a interpretação interminável.


Com esse esquema das interpretações sucessivas, ele mostra, como Lacan vai dizer, que a significação não é evidente e que o processo de significação é infinito. É isso que interessa a Lacan, que o processo de significação para Pearce é interminável, o que tem a ver também com o grafo do à posteriori.

Lacan afirma que o ground é o campo dos discursos e tomando a idéia de local de inscrição, ele considera que o lugar de inscrição que nós temos é o corpo. Então o ground é o corpo. E em Radiofonia ele faz o corpo entrar nos discursos. É por isso que o tal do esquizofrênico não tem corpo, porque ele não é mordido pelo discurso, o que nós já trabalhamos um tempo atrás.

Prosseguindo, no ...ou pior, no que é a interpretação do triângulo semiótico por Lacan ( estamos 2 anos depois, porque em Radiofonia é um pouco diferente...) Ele considera que o interpretante é o analisante. O analista só está aí para ajudá-lo, para empurrá-lo um pouco no sentido do interpretado. Ele é que interpreta, o que não tem fim, a não ser que haja um limite.

Lacan está interessado na análise finita, porque esse esquema só da conta da análise interminável, na qual você pode estar sempre interpretando infinitamente. Aquela relação que nós sabemos que é do sujeito com ACOISA.

É para que haja um limite, que o discurso analítico deve advir, é aquela célebre frase: Lá, onde está a interpretação interminável, o discurso analítico deve advir. Por isso que não há outro representamen a não ser o objeto a

O objeto a é o signo. É uma virada que ele da enorme, no ...ou pior, mas aqui ele já traz isso, quando ele vai introduzir o objeto a no signo. Vamos então ler Radiofonia, com isso. Aquilo que a gente esperava que seria do teor do analisante interpretando a relação de seus significantes com os objetos. Mas isso não é o discurso analítico, pois isso iria tender à interpretação infinita e ao Discurso do Mestre. Para você por um limite, esse limite tem que ser dado à priori.

O que faz realmente o analisante se transformar num interprete é o analista abdicar do lugar de interpretante. E o analista também não estando nesse lugar de significante, de Grande Outro, que é o lugar onde estão os significantes (o representamen é o lugar onde estão os significantes).

a analisante


a $



S2 S1

O discurso analítico é aquele que no lugar do representamen faz o analisante/interpretante tentar interpretar à partir dessa provocação. Essa é uma interpretação que Lacan dá no ...ou pior, de Pearce.

A crítica básica de Lacan, em Radiofonia, vocês podem ler isso na primeira e na segunda pergunta é o seguinte: O signo representa alguma coisa para alguém. O que Lacan critica é: que alguém é esse. Existe alguém? Ele vai usar o exemplo de um incêndio numa floresta. Ele está sendo endereçado a alguém?

Ele também vai se referir ao Ulisses, naquele episódio com o Ciclope, quando ele se utiliza de uma ovelha para se disfarçar. Então o gigante pergunta: Tem alguém aí? Lá onde se espera alguém, tem o Ulisses, respondendo: alguém que é ninguém.

Ele coloca o objeto a, que é um signo, da divisão do sujeito, e que aparece aí como efeito de linguagem, como um signo que vem conotar ou denotar, a divisão do sujeito. E tem a ver com a nova definição de signo, no campo do gozo, que ele desenvolve mais tarde como uma cifra de gozo.



Trata-se de uma retomada do estruturalismo, do signo, mas de uma forma totalmente diferente.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal