FormaçÃo de terra preta na região do alto xingu: resultados preliminares



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FORMAÇÃO DE TERRA PRETA NA REGIÃO DO ALTO XINGU: RESULTADOS PRELIMINARES
Morgan J. Schmidt e Michael J. Heckenberger

Os solos antrópicos da Amazônia conhecidos como Terra Preta de Índio, Terra Preta Arqueológica (TPA), ou simplesmente Terra Preta (TP) têm chamado a atenção de cientistas como uma solução possível para a questão da agricultura sustentável em solos pobres e intemperizados que cobrem extensas áreas nos trópicos (Glaser et al. 2004; Madari et al. 2004). Argumenta-se que o estudo da TPA pode contribuir com lições valiosas sobre o potencial de fertilidade de latosolos nos trópicos que pode gerar dados para ajudar no desenvolvimento de tecnologias sustentáveis de uso de solos e ainda descobrir que tipos de práticas de manejo de solos e recursos foram utilizados por grupos humanos no passado (Falcão et al. 2003:256; Lehmann et al. 2003a).


Os solos de Terra Preta são considerados pela maioria dos pesquisadores um componente crítico dos sítios arqueológicos, por apresentarem potencial para revelar as estruturas da sociedade, o uso de recursos e as mudanças ocorridas nos períodos pré-históricos e pós-contato nas comunidades amazônicas (Heckenberger et al. 1999; Peterson et al. 2001; Neves et al. 2003, 2004). Isso torna imperativo que uma perspectiva arqueológica seja sempre considerada ao se tentar responder questões sobre a formação de TPA. Estudos de pedoarqueologia têm observado uma correlação entre as áreas de atividade de sítios-habitação e alterações no solo (Cook & Heizer, 1965; Cavanagh, 1988; Eidt, 1984; Fernandéz et al., 2002; Mora et al., 1991; Scudder et al., 1996; Wells et al., 2000; Woods, 1984). As investigações prévias realizadas por Heckenberger (1996) e os resultados preliminares apresentados aqui sugerem que essa correlação ocorre nas aldeias indígenas atuais, históricas e pré-históricas na Região do Alto Xingu.
Esta pesquisa foi fundamentada em três questões principais: (1) Como determinadas atividades cotidianas causam modificações nas propriedades químicas do solo de uma aldeia indígena atual? (2) Que modificações ocorrem nos solos após o abandono da aldeia? (3) Os solos antrópicos em sítios pré-históricos apresentam variações nas propriedades químicas semelhantes ou diferentes daquelas encontradas em aldeias históricas e contemporâneas? Essas questões estão sendo abordadas segundo os seguintes objetivos: (1) Estabelecer os parâmetros químicos (“assinaturas”) dos solos, ou seja, os padrões previsíveis para os teores de nutrientes que compõem os solos e tornam distintas as diversas áreas de atividades, dentro e fora das aldeias históricas e da atual; (2) Testar as amostras de solo provenientes de contextos arqueológicos, dentro e fora do sítio, para determinar a sua relação, conforme as variações estabelecidas com os contextos das aldeias históricas e da atual.
A pesquisa está sendo desenvolvida no contexto de uma tese de doutorado1 e faz parte de um projeto mais amplo intitulado Southern Amazon Ethnoarchaeology que incorpora arqueologia, história oral e etnografia. Seu principal objetivo é entender a pré-história e a história da sociedade xinguana,com ênfase no uso de recursos, cultura material, organização espacial, padrões de assentamentos regionais e organização política e ritual. O projeto tem o apoio do Museu Paraense Emílio Goeldi e o do Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Nos anos de 2002-2005 foi realizado o mapeamento e caracterização dos sítios pré-históricos dentro do território da etnia Kuikuro (Xinguano). A área possui aproximadamente de 1.200 km² e foi definida através de levantamentos regionais, mapeamentos de sítios e estudos cronológicos iniciados por Heckenberger em 1991 (Figuras 1) (Heckenberger 1996, 1998, 2001, 2005; Heckenberger et al. 1999, 2003). O mapeamento incluiu também a aldeia atual e estruturas fora dos sítios como estradas, pontes e armadilhas de peixe.

Os trabalhos de arqueologia no Alto Xingu apontam para a continuidade entre a cultura atual e pré-histórica através de evidências da tecnologia de fabricação de cerâmica (refletindo a agricultura da mandioca), dos padrões de assentamento (aldeias com praças circulares) e uso geral da paisagem (estradas, pontes e armadilhas de pesca). A evidente continuidade desde a pré-história até o presente apresenta uma oportunidade única para abordar questões sobre as atividades que resultaram nas variações de solo encontradas nos sítios arqueológicos. Os resultados das análises de solos obtidos para a aldeia atual e para as históricas disponiblizarão dados comparativos que poderão ser relacionados diretamente com as áreas de atividades nos sítios pré-históricos. Com isso, será possível testar se a distribuição dos solos ocorre de maneira consistente ou uniforme, baseada na localização dos artefatos e nas feições dentro do sítio.



FIGURA 1




TERRA PRETA ARQUEOLÓGICA

A TPA é caracterizada por sua cor escura, teores elevados de nutrientes e vestígios de cultura material, incluindo cerâmica, líticos e grande quantidade de carvão. Inúmeros estudos têm demonstrado a marcante anomalia que a TPA representa dentro dos Oxisolos e Ultisolos (Latosolos), solos tipicamente ácidos e relativamente inférteis, que predominam na Região Amazônica (Kern & Kämpf 1989; Pabst 1991; Smith 1980). A TPA geralmente apresenta níveis elevados de P, C, Ca, Mg, Mn, Zn e outros nutrientes em relação aos solos em derredor. Os solos de terra preta contêm abundância de carvão e os níveis de CTC, de SB e o pH são mais altos em relação ao solo circunvizinho, tornando-os mais propícios ao desenvolvimento de cultivos. A TPA é bastante variável dentro de um mesmo sítio, por causa das diferenças de intensidade, duração e a natureza das atividades culturais que as formou, bem como dos processos naturais e das atividades ocorridas após o abandono dos sítios.


Foi sugerido que algumas TPA seriam resultado de práticas agrícolas semi-intensivas ou intensivas (Denevan 2004). Argumenta-se que as técnicas de cultivo de corte e queima com longos períodos de pousio, que são, em regra, praticadas hoje em dia, não poderiam ter sustentado grandes assentamentos permanentes como aqueles relatados pelos primeiros cronistas que estiveram na Amazônia (Neves et al. 2003); e que a tecnologia dos machados de pedra, utilizada na derrubada da mata, teria sido um processo de lento resultado, o que,por sua vez, teria obrigado os agricultores a desenvolver técnicas mais intensivas e contínuas de cultivo (Denevan 1992). Até hoje, existem poucas evidências diretas da ocorrência de cultivo intensivo nas áreas de terra firme na Amazônia. Uma dessas evidências seria a, assim chamada, Terra Mulata (TM), que, hipoteticamente, teria originado-se em decorrência das práticas de agricultura intensiva e semi-intensiva. As TM são algumas vezes encontradas circundando uma ampla área ao redor de TPA e caracterizam-se por apresentar: menor quantidade de vestígios culturais, coloração mais clara (marrom), níveis elevados de carbono orgânico (incluindo grande quantidade de carvão) e, ainda, níveis mais baixos de outros nutrientes em comparação com a TPA (Sombroek 1966; Woods & McCann 1999).
Embora os métodos de agricultura relativamente intensivos, como uso de cobertura morta, coivara e adubação orgânica e/ou ciclos curtos de corte e queima sejam considerados como o processo de origem da TM, isso ainda não foi comprovado (Mora et al. 1991; Neves et al. 2003; Woods & McCann 1999). Hecht (2003) sugere que essas práticas de manejo de solos, como as utilizadas entre os atuais Kayapó, podem ser semelhantes àquelas que, no passado, produziram a TPA (Hecht & Posey 1989). Alguns autores recomendam cuidado com a suposição de que a Terra Preta teria sido resultado de práticas de cultivo. Argumentam que as tentativas modernas de melhorar os solos, tais como adubação orgânica com carvão e coivara, não geram mudanças permanentes no solo (German 2003; Smith 1980).
Existem duas hipóteses gerais para a formação de TPA: (1) a antrópica, que teria sido o resultado não intencional da ocupação humana e do descarte do lixo, e (2) a antropogênica, que teria sido resultado do manejo intensivo do solo para a agricultura; contudo, as duas hipóteses não são excludentes. No Alto Xingu, o uso atual, tanto da TPA nos sitios pré-históricos quanto das lixeiras localizadas atrás das casas para cultivo, sugere que a linha entre essas duas hipóteses é muito tênue. Atualmente, os grupos indígenas cultivam plantas que exigem mais nutrientes do solo (como milho e banana) tanto na TPA de sítios pré-históricos (que freqüentemente estão muito distantes das casas) quanto nas lixeiras de “terra preta”, que se acumulam nas redondezas da aldeia a mais de 25 anos.
Observou-se durante a pesquisa que os moradores enriquecem áreas de roça de mandioca adjacentes à aldeia com lixo orgânico, cobertura morta e prática de coivara; outrossim costumam aumentar intencionalmente o tamanho das lixeiras espalhando o lixo orgânico no local visando a torná-las mais férteis para o uso em futuros plantios2. Essas práticas utilizadas pelos xinguanos representam, assim, um modelo para criação da chamada TM. Dessa mesma forma podemos supor que, em uma aldeia pré-histórica, os moradores utilizariam lixeiras ou melhorariam intencionalmente o solo para o plantio dentro e ao redor da aldeia. Espera-se que os resultados deste projeto demonstrem que atividades não diretamente associadas ao cultivo e descarte de lixo, tais como atividades domésticas, econômicas e rituais, também poderiam produzir um solo escuro com características de TM ou TPA. Destarte, será ampliado o conhecimento sobre os diversos processos que poderiam gerar a formação de solos antrópicos e suas características.
Os processos que contribuíram para a formação da TPA podem diferir, dependendo das eco-regiões e das práticas culturais. Como Denevan coloca, “sem dúvida, existe uma considerável variação na Amazônia nos tipos das terras pretas, nos seus processos específicos e histórias, nas suas formas de uso e os nos padrões de assentamento associados a elas” (2004:141). O Alto Xingu representa um desses casos, onde ainda há indicações de um processo contínuo de formação de TPA da pré-história até o presente.
Os resultados das análises de solos obtidos para a aldeia atual e para as históricas disponiblizarão dados comparativos, que poderão ser relacionados diretamente com as áreas de atividades nos sítios pré-históricos. Com isso, será possível testar se a distribuição dos solos ocorre de maneira consistente ou uniforme, baseada na localização dos artefatos e nas feições dentro do sítio. Dados químicos de solo podem afirmar ou refutar as interpretações provenientes de escavações arqueológicas, abrirão a possibilidade para a interpretação em áreas que não apresentam artefatos e feições, como também em áreas fora das escavações, além de poder indicar possíveis diferenças no uso dos recursos no passado. Depois de estabelecer as assinaturas para as áreas de atividades nos sítios arqueológicos, as análises de solo poderão ser utilazados como ferramenta mais efetiva para futuras investigações em outros sítios na área de estudo, podendo, inclusive, ser aplicadas em outras regiões.

AS ALDEIAS ATUAIS E HISTÓRICAS

As aldeias atuais no Alto Xingu mostram um padrão consistente no uso do espaço formado por uma praça circular3 de aproximadamente 200 metros de diâmetro, em cujo entorno existe um círculo de casas com suas áreas de atividades associadas, áreas de descarte de lixo e estradas retas oriundas da praça (Figuras 3 e 4). Tomando como base esse padrão, verificou-se, através do mapeamento das distribuições dos artefatos e de alguns testes de solos em uma aldeia abandonada (Figura 3), que os vestígios culturais foram encontrados conforme o previsto (Heckenberger, 1996). As alterações dos solos desenvolvem-se associadas às áreas de atividade e, por essa razão, são bastante variáveis em todo o sítio. Por causa da fertilidade elevada, especialmente em lixeiras da aldeia atual, tais áreas são utilizadas para a plantação de diversas espécies.


FIGURAS 3 E 4
Alguns estudos têm demonstrado que as diferenças observadas na química do solo estão relacionadas a áreas específicas de atividades, até mesmo em sítios ocupados durante um curto tempo (Barba & Ortiz 1992; Fernández et al. 2002; Knudson et al. 2004; Terry et al. 2004). Heckenberger (1996) analisou seis amostras de uma aldeia históricamente abandonada (ocupado 1973-1983) provenientes das lixeiras, de dentro de uma casa e na praça (Figura 3, Tabela 1). Os resultados das amostras coletadas uma década depois do abandono dessa aldeia sugerem que a química do solo varia significativamente em todo o sítio de acordo com as diferentes áreas de atividades.

TABELA 1

O primeiro objetivo dessa pesquisa é estabelecer as “assinaturas” dos solos baseadas nas propriedades das amostras coletadas em diferentes áreas ou zonas de atividades da aldeia atual e das históricas. As zonas de atividades incluem as lixeiras, as áreas domésticas (em frente à casa, dentro de casa, quintal), a praça (o centro da praça e a praça média ou a área entre as casas e centro da praça) e as áreas fora da aldeia (roças, capoeiras, floresta e áreas de banheiro4). As áreas fora da aldeia servirão para estabelecer uma base ou ‘níveis estruturais’ do solo a fim de fazer a comparação com as áreas mais alteradas.


A expectativa é encontrar uma grande variação na composição dos solos nos sítios arqueológicos e na aldeia atual. Estudos pioneiros de análise química dos solos na arqueologia e etnoarqueologia geralmente enfatizam, na conclusão, a necessidade de promover estudos com um número muito maior de amostras. Esse foi o ponto de partida desta pesquisa. Considerando a variação entre as amostras, é difícil ou impossível tirar conclusões sólidas de uma única amostra. Uma amostra estatisticamente válida deveria ser coletada, especialmente quando está se tentando detectar padrões que poderiam indicar áreas de atividades específicas.
As amostras foram coletadas em contextos ocupacionais contemporâneos e fora dos sítios, nas áreas de roça, campo e floresta. Foram coletadas amostras de uma aldeia atual e de duas aldeias históricas abandonadas durante o século passado. As áreas de atividade nas aldeias históricas têm comparabilidade direta aos padrões espaciais da aldeia atual. Os locais das amostras foram escolhidos com base em mapeamento arqueológico prévio realizado por Heckenberger (1996) (Figura 3) e na observação direta das lixeiras (elevadas, solo escuro e cacos de cerâmica abundantes na superfície).
Resultados Esperados das Aldeias
Lixeiras: formam um círculo descontínuo em torno da borda da aldeia (Figuras 3 e 4). São as áreas que mais se destacam na formação dos solos antrópicos, constituídas principalmente pelo lixo orgânico decomposto e amontoado a uma altura de até aproximadamente 40 cm acima da superfície original. Os resultados obtidos por Heckenberger (1996), para duas amostras de lixeiras, revelaram teores consideravelmente mais altos de nutrientes disponíveis incluindo P (479 e 550 mg/kg), Mg (69 e 20 mg/kg), Ca (509 e 143 mg/kg), K (38 e 55 mg/kg), teores mais altos de MO (13,5 e 8,2%) e níveis ligeiramente mais altos de Na disponível (7 e 6 mg/kg) e pH (7.5 e 5.9) comparados a outras áreas (Tabela 1). Isso sugere que as lixeiras são as zonas com o maior impacto antrópico no solo, criando, na verdade, uma nova camada de solo fértil em cima da superfície original.
Resultados mais recentes (Tabela 2) de duas amostras das lixeiras, também mostram os teores mais altos de todas as amostras analisadas de P (292 e 285 mg/dm3), Ca (236 e 158 cmolc/dm3), Mg (22 e 15 cmolc/dm3), Mn(207 e 111 mg/dm3), e CTC (25 cmolc/dm3); níveis elevados de, Fe (173 e 214 mg/dm3), Cu (2.1 e 1.2 mg/dm3), Zn (3.1 e 7.2 mg/dm3) e de K (0,7 e 0,1 cmol0/dm3); e teor de Al abaixo dos limites de detecção. Espera-se variações horizontais e verticais consideráveis nas amostras das lixeiras, em virtude da deposição diferenciada de vários tipos de matériais orgânicos.
TABELA 2
Ao completar as análises, a expectativa é de que as lixeiras sejam diferenciadas de outras áreas de atividades e dos solos estruturais (áreas fora dos sítios), através de análises estatísticas multi-variadas, por apresentarem os níveis consistentemente mais altos para a maioria das propriedades químicas e os níveis de Al abaixo dos limites detectáveis. A expectativa é de que o baixo teor de Al ocorra porque o solo da lixeira permanece separado do solo original, uma vez que ainda não houve tempo para que se misturem.
Áreas Domésticas: consistem nos espaços em frente e no interior das casas e nos quintais. São os locais onde acontecem atividades específicas que incluem as áreas de: preparação e consumo de comida; trabalho; dormir; circulação; processamento de mandioca, milho ou peixe; fogueiras para cozinhar e aquecer; além de áreas marginais (Figuras 6 e 7). Esses espaços quase sempre são conservados limpos e varridos. As quatro casas amostradas (uma delas havia incendiado sete meses antes) foram escolhidas por serem as mais antigas da aldeia, tendo entre 7 e 10 anos de construídas. Viver durante algum período na aldeia permitiu observar diretamente as atividades de descarte que contribuem para a modificação do solo e formação da TPA. Essas análises permitirão obter detalhes da variação do solo em locais com usos diferenciados dentro do espaço doméstico.
FIGURAS 6 E 7
Nos locais onde há a preparação e o consumo de comida, espera-se níveis mais altos de P, Ca, K, Fe, Mg, Na e outros elementos. Em um estudo sobre solos de acampamentos de pesca no Alasca, Knudson et al. (2004) encontraram níveis elevados de P, Ca, K, Mg, e Na nas áreas de processamento de peixes. Há uma expectativa por níveis elevados desses elementos nas áreas onde acontecem o consumo e processamento de peixe.
Duas amostras provenientes de áreas de processamento de mandioca (Tabela 2, nº 4 e 10) chamam aténção pelos níveis elevados de Fe. A presença de altos teores de outros elementos, exceto o Al na primeira área, pode ser parcialmente explicada pelo uso mais longo e intensivo e por sua localização em uma área antiga de descarte de lixo. Este local apresentou os valores mais altos de pH (5.9) e Fe (314 mg/dm3) de todas as 14 amostras que constam na Tabela 2. Também foram registrados altos teores de K (0,6 cmol0/dm3), N (0,8 g/dm3) e Zn (7,1 mg/dm3); teores relativamente altos de CTC (10.8 cmol0/dm3), e teores moderados de Ca (30 cmolc/dm3), Mg (9 cmolc/dm3), Na (0,03 cmolc/dm3), Cu (1,0 mg/dm3) e Mn (31 mg/dm3). A segunda área, que foi usada por pouco tempo e não estava associada à lixeira antiga, mostrou níveis elevados de K (0,4 cmolc/dm3) bem como, de Fe (150 mg/dm3).
Partes das áreas de dormir deveriam apresentar níveis elevados de nutrientes similares aos das áreas de consumo de comida, embora não tão altos; uma vez que o consumo de comida nesta área seria menos freqüente. Nessas áreas, é esperada uma variação significativa dos padrões de deposição dos resíduos, em virtude do posicionamento das redes e outras atividades menos freqüentes; tais como o enterramento ocasional de resíduos orgânicos, onde, em caso de doenças, cava-se um buraco no chão para os dejetos corporais. Outras partes das áreas de dormir deveriam apresentar propriedades consistentes de fogueiras apesar da prática de fazer fogo entre as redes nas noites de frio. Middleton and Price (1996) reportaram concentrações elevadas de P, K, e Mg em fogueiras. Uma amostra de fogueira de cozinha localizada dentro da uma casa (Tabela 2, nº 11) apresentou níveis relativamente baixos de P (5 mg/dm3), Mg (1 cmol0/dm3) e de outros elementos, porém, o de Na (0.3 cmol0/dm3) foi o mais alto encontrado de todas as amostras e o nível de K (0.7 cmol0/dm3) foi tão alto quanto o de uma das lixeiras.
Em virtude das adições de óleos vegetais e outros líquidos e resíduos orgânicos, são esperados elevados níveis de nutrientes nas áreas de trabalho. Já nas áreas de passagem e de pouco uso deverão ocorrer os menores teores de elementos dentro do contexto da casa. As áreas marginais - como a borda da casa e aquela próxima aos esteios centrais - podem apresentar níveis elevados de alguns elementos por causa da acumulação de resíduos orgânicos. A amostra 12 da Tabela 2 apresentou baixo pH (3.9), teores de K (0.2 cmol0/dm3) e Zn (1.8 mg/dm3) ligeiramente elevados e Cu (1.9 mg/dm3) elevado. Isto pode estar associado ao costume masculino de micção na parede externa da frente da casa e/ou ao fato de que esta parede atualmente está sobreposta na parte em frente de uma antiga casa. As áreas em frente às casas (praça margem) são usadas para micção e ocasional trabalho e fogeiras. Nesses locais, são esperados altos teores de determinados elementos, especialmente o Cu que se pode acumular no solo através da urina (Bowen, 1966).
Praça: a área central da aldeia mantida limpa para festas, cerimônias e esportes. Três amostras de solo coletadas na praça de uma aldeia histórica e analisadas por Heckenberger (1996) indicaram teores mais baixos de MO (5.4 5.4 e 5.7%), e os nutrientes disponíveis Mg (5.4, 0.3 e 0.1 mg/kg), Ca(14.9, 4.1 e 2.3 mg/kg), K(10.8, 2.1 e 1.2 mg/kg), Na(5.1, 4.1 e 3.5 mg/kg), P(76, 72 e 77 mg/kg), e pH (5.2, 4.6 e 4.1) (Tabela 1). Dos três locais, a primeira, que retornou os teores mais altos, foi coletada na beira da praça em frente das casas, e as outras duas são de espaço entre o centro da praça e as casas (praça média)(Figura 3).
No centro da praça está a casa comunal dos homens e em frente fica a área onde acontecem as festas e cerimônias. Durante as festas e cerimônias grandes quantidades de comidas são servidas (principalmente peixe e beiju), fogueiras são ocasionalmente acesas e as pessoas costumam urinar no entorno dessa área. Nesta pesquisa foram realizados três transects em frente a atual casa dos homens, que continua no mesmo local da antiga, e que também é a área de alguns enterramentos. Coletaram-se, ainda, amostras dentro da casa dos homens. Nessas áreas, localizadas no centro da praça, espera-se encontrar teores elevados de elementos químicos da mesma forma que nas áreas de consumo de alimentos dentro das casas.
O espaço entre o centro da praça e as casas (praça média) é utilizado com menor freqüência, sendo o esporte uma das principais atividades praticadas nessa área. Por isso espera-se encontrar nesse espaço os mais baixos níveis de nutrientes de todas as áreas de atividades da aldeia, assemelhando-se às áreas fora dos sítios. Atividades incluindo a limpeza, enterramentos, queima de capim, fogueiras, e micção, com o tempo, vão modificando o solo em toda a praça, aumentando pH, C orgânico e outros nutrientes.
FIGURAS 6, 7 E 8

TABELA 2
Mudanças Após o Abandono da Aldeia
A comparação dos resultados de duas amostras provenientes de lixeiras (Tabela 2, nº 1 e 2) de diferentes idades (aproximadamente de 5 a 15 e de 75 a 85 anos respectivamente) mostrou que ambas possuiam o mesmo nível de enriquecimento com P trocável (a lixeira mais nova apresentou o nível ligeiramente mais elevado com 292 mg/dm³ e a mais antiga 285. Na lixeira mais nova foram significativamente mais altos os teores de C (56.4 g/dm3 versus 14.4), Ca (236.5 cmol0/dm3 versus 158.3), Mg (21.9 cmol0/dm3 versus 14.6), K (0.66 cmol0/dm3 versus 0.11), Na (0.07 cmol0/dm3 versus 0.04), N (1.32 g/dm3 versus 0.5), Cu (2.1 mg/dm3 e 1.2), e Mn (207 mg/dm3 versus 111); e a CTC foi aproximadamente o dobro (25.3 cmol0/dm3 versus 12.3). A lixeira mais velha apresentou um pH mais alto (5.0 versus 4.5) e maiores teores de Fe (214 mg/dm3 versus 173) e Zn (7.2 mg/dm3 versus 3.1). Nenhuma das duas amostras analisadas apresentou Al acima do nível de detecção. Suas texturas eram ligeiramente diferentes, a da lixeira mais nova apresentou conteúdos mais altos de areia grossa (356 versus 276) e argila (164 versus 108) e mais baixos de areia fina (298 versus 327) e silte (182 versus 289).
Esses resultados sugerem que o conteúdo de P permaneceu relativamente estável, enquanto outros elementos diminuíram ao longo do tempo por causa da lixiviação e retirada de nutrientes pelas plantas. As análises das amostras adicionais provenientes das áreas domésticas, praças e lixeiras de idades variadas, com profundidade de até dois metros, auxiliarão na definição mais precisa da mudança desses solos durante o tempo. Um resultado importante dessas análises será observar de que forma ocorre a translocação dos elementos químicos no perfil do solo, desde a sua deposição inicial.

OS SÍTIOS PRÉ-HISTÓRICOS

O projeto Southern Amazon Ethnoarchaeology realizou um levantamento usando GPS de alta resolução (Trimble XRS; Omnistar satéllite SA serviço de tempo real) para refinar os mapas dos assentamentos e o regional. Esse novo método facilitou o mapeamento geral dos assentamentos (alguns chegando até 50 ha) e da paisagem. As feições dentro dos sítios que foram mapeados incluíram as bordas das praças, das estradas e as valetas resultando em desenhos básicos das formas dos sítios (Figura 5). Fora dos sitios foram mapeadas estradas que ligam os sitios um ao outro.


Os estudos etno-arqueológicos na área do Alto Xingu têm mostrado que existe uma continuidade nas atividades econômicas básicas e na organização espacial das aldeias desde a pré-história até o presente embora existam diferenças em termos de escala. A área doméstica, por exemplo, no Sítio Arqueológico Nokugu é aproximadamente 10 vezes maior que a da aldeia atual. Onde há apenas uma aldeia hoje, existiam várias aldeias na pré-história, todas interligadas com um sistema de estradas amplas e bem conservadas.
Duas amostras foram analisadas por Heckenberger (1996), uma da praça e a outra da área doméstica do Sítio Nokugu (MT-FX-06). A área doméstica apresenta níveis mais altos de Ca (144 vs 53 mg/kg), Mg (19 vs 9 mg/kg), P (556 vs 299 mg/kg), pH (6.4 vs 5.6) e MO (7.5% vs 5.8%) (Tabela 1). Os teores de K (3.8 vs 4.1 mg/kg) e Na (5.8 vs 6.8 mg/kg) são similares. Os níveis relativamente altos de alguns elementos obtidos na praça de Nokugu comparados com os da aldeia atual (por exemplo, níveis de P de 72 a 77 mg/kg na aldeia Kuikuro I e 299 mg/kg em Nokugu) possivelmente refletem a longa duração e uso mais intensivo do espaço ou o possível uso anterior do local como espaço doméstico ou lixeira.
Os resultados obtidos com as amostras de cinco sondagens e de três tradagens em um transect realizado em Nokugu5, sugerem que existe uma variação significativa na composição dos solos ao longo do sítio (Tabela 2). A sondagem 6, (Tabela 2, No 3) apresentou o terceiro mais alto teor de P (90 mg/dm3) de todas as amostras, abaixo somente de duas lixeiras atuais, e níveis relativamente altos de CTC (14.2 cmol0/dm3), N (1.0 g/dm3), Ca (112 cmol0/dm3), Cu (3.9 mg/dm3), e Mn (41 mg/dm3). Somente nestas lixeiras e na sondagem 6 foram encontrados teores de Al abaixo do limites detectáveis. Eram esperados, na sondagem 6, altos níveis de nutrientes e baixo teor de Al em virtude da sua localização na margem da praça. Essa margem é formada em grande parte por lixo orgânico e cacos de cerâmica amontoados, podendo alcançar aproximadamente de 1 a 2 metros de altura, ou seja, cerca de 1 a 2 metros de profundidade de TPA.
Com base no resultado dessas três amostras (Tabela 2, No 1, 2, e 3), que apresentaram teores de Al próximo a zero, espera-se ser possível indicar locais de lixo orgânico acumulado na superfície. Os resultados preliminares sugerem que os baixos teores de Al encontrados na área doméstica de Nokugu (0 a 0.4 cmol0/dm3), em comparação com a periferia do sítio (0.6 a 0.9 cmol0/dm3) e a aldeia atual (0.7 a 1.2 cmol0/dm3), provavelmente revelam a influência do descarte de lixo orgânico e outras atividades por um período mais longo e intensivo, o que teria introduzido cinza, carvão e outras matérias orgânicas em uma área extensa.
As amostras da sondagem 2 (Tabela 2, No 5, localizada a 82 metros da borda da praça) e da área 9 (No 6, aproximadamente a 160 metros da praça) apresentam um teor de P mais alto que o da sondagem 4 (No 8, a 42 metros da praça) e da sondagem 5 (No 9, a 22 metros da praça)(36 e 36 vs 15 e 16 mg/dm3). A variação dos outros nutrientes também é evidentemente não relacionada com a distância da praça numa forma regular. Essa variação está relacionada com uso diferenciado do espaço dentro do sítio. Amostras de aproximadamente 130 locais ao longo de 11 transects (com 10 ou 20 m de intervalo e profundidades de até 2 m) em três sítios pré-históricos ajudarão a caracterizar melhor a variação do solo ao longo dos sítios e permitirão comparações das propriedades do solo entre as áreas de atividades e a distribuição de artefatos em uma ampla escala.
Em uma escavação extensiva (136m²) realizada no sítio Nokugu, tomando como base a distribuição de feições arqueológicas e sua orientação em relação à praça, a estrada e as lixeiras, identificou-se um provável piso de casa. Foram coletadas amostras de solos em cada unidade de 1m² durante a escavação e também das feições arqueológicas encontradas. Foram implantados quatro transects saindo da escavação e cruzando o que provavelmente teriam sido áreas em frente à casa, do quintal e das lixeiras. Identificaram-se feições com solos escuros apresentando quantidade de carvão que foram interpretadas como fogueira e prováveis marcas de esteio. Na análise das amostras coletadas nessas feições espera-se encontrar um padrão distinto de teores de elementos do solo. Espera-se que a variação nas propriedades do solo ao longo dos transects cruzando as áreas da casa, do quintal e das lixeiras reflitam o uso diferenciado do espaço e apresentem teores de nutrientes relativos comparáveis às assinaturas de solo definidas para as áreas de atividades nas aldeias históricas e na atual.
As Áreas Externas dos Sítios
As áreas externas dos sítios incluem a floresta, roças de mandioca e roças em vários estágios de abandono (campo aberto de sapê, arbustos e capoeira)6. Esses locais foram amostrados para aquisição de uma medida base de propriedades de solo. Eles representam áreas de baixo impacto humano comparados aos sítios-habitação, por isso, os resultados dessas amostras servirão como níveis estruturais de teores de elementos com os quais as outras amostram serão comparadas. Os locais amostrados foram escolhidos em áreas distantes dos sítios pré-históricos na tentativa de minimizar a influência das atividades humanas no solo. Esses locais não são considerados “solos naturais”, pois é provável que quase toda área de floresta de terra firme na região estudada tenha sido cultivada em algum momento e/ou foi afetada pelas queimadas provocadas por atividades humanas, considerando a alta densidade de assentamentos na pré-história (Heckenberger et al. 2003). Em resumo, neste estudo, consideramos que não existem amostras de solo “virgem”, apenas de solos que apresentam graus diferenciados de impacto humano.
Carneiro (1983) analisou quatro amostras de solos coletados em roças e florestas da mesma área, que apresentaram teores relativamente baixos de nutrientes, inclusive em roças recém-desmatadas e queimadas. A amostra coletada fora do Sitio Nokugu (No 14, Tabela 2) apresentou teores de P, Ca, Mg e Mn próximo a zero, o mais baixo de todas as áreas. Os solos dessa área mostram características semelhantes aos Oxisolos (Latossolos) encontrados na região do Rio Suia-Missu, que fica próxima ao Alto Xingu (Ratter et al. 1978). Espera-se que as amostras das áreas externas dos sítios apresentem teores de nutrientes mais baixos comparados ao do centro da praça, das áreas domésticas e das lixeiras e mais comparável com as amostras retiradas entre o centro da praça e as casas (praça média) nas aldeias históricas e na atual. As áreas de banheiro (dejetos fecais), que ficam localizadas fora da aldeia em áreas de arbustos, também podem apresentar níveis elevados de certos elementos como Zn (Bowen 1966). Essas mesmas areas podem ter modificações atraves de cultivo em roças proximas da aldeia e podem apresentar teores elevados de Carbono orgânico e pH.



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