Formação e rompimento dos laços afetivos



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Quando as repetições dessa fórmula se tomaram monótonas e intermináveis, alguém lhe perguntou se não poderia parar de dizer sempre a mesma coisa. Patrick tentou de novo ser um bom menino, como sua mãe queria que ele fosse. Deixou de repetir a fórmula em voz alta, mas os movimentos de seus lábios mostravam que ele continuava recitando-a constantemente, em silêncio, para si mesmo.

Ao mesmo tempo, substituiu as palavras por gestos, como se estivesse colocando o gorro, vestindo um casaco imaginário, fechando o zíper, etc. O que num dia aparecia como um movimento expressivo, era reduzido no dia seguinte a um mero gesto frustrado dos dedos. Enquanto a maioria das outras crianças estavam ocupadas com seus brinquedos, jogando, cantando, etc., Patrick, totalmente desinteressado, ficava de pé num canto, mexendo as mãos e os lábios com uma expressão absolutamente trágica no rosto.” (Freud e Burlingham, 1942: 89.)

Muita controvérsia se seguiu aos primeiros estudos publicados de Bowlby; e suspeitamos de que ainda passará algum tempo antes que todos os problemas ventilados fiquem esclarecidos. Das muitas questões debatidas, há apenas duas sobre as quais queremos fazer aqui alguns comentários. A primeira refere-se ao uso do termo luto; a segunda diz respeito às semelhanças e diferenças entre o luto da criança e o luto do adulto.

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Nos estudos anteriores, considerou-se útil usar o termo “luto” num sentido amplo, a fim de abranger uma grande variedade de reações à perda, incluindo algumas que conduzem a um resultado patológico, e também aquelas que se seguem a uma perda nos primeiros anos de vida. A vantagem desse uso é que se toma então possível reunir numerosos processos e condições que as provas mostram estar inter-relacionados — assim como o termo “inflamação” é usado em fisiologia e patologia para reunir numerosos processos, alguns dos quais têm um desfecho saudável e outros são malsucedidos e resultam em patologia. A prática alternativa consiste em restringir o termo “luto” a uma forma particular de reação à perda, ou seja, aquela “em que o objeto perdido é gradualmente descatexiado pelo doloroso e prolongado trabalho de recordar e pelo teste da realidade” (Wolfenstein, 1966). Um perigo desse uso, entretanto, é que pode levar a expectativas sobre como deveria ser o luto saudável, que estão em discordância total daquilo que hoje sabemos ocorrer, realmente, em muitas pessoas. Além disso, se preferirmos convencionar um uso restrito, vemo-nos diante da necessidade de encontrar, ou talvez inventar, algum novo termo; pois acreditamos ser essencial, se quisermos discutir produtivamente estas questões, dispor de alguma palavra apropriada pela qual possamos nos referir a toda a gama de processos que entram em ação quando é sofrida uma perda. Nesta ocasião, usaremos o termo “pesar” nesse sentido, uma vez que já tem sido empregado por analistas de um modo bastante amplo e não existe objeção a que crianças muito pequenas fiquem pesarosas.

Além de terem concentrado a atenção numa área central da psicopatologia, as controvérsias de anos recentes têm tido muitos outros efeitos que devem ser bem acolhidos por todos. Elas mostraram o quanto ainda sabemos pouco sobre o modo pelo qual crianças de todas as idades, inclusive adolescentes, reagem a uma perda importante, e sobre que fatores são responsáveis pelo desfecho mais favorável em alguns casos do que em outros *(1); em segundo lugar, estimularam pesquisas valiosas.

Já enfatizamos como é muito difícil, mesmo para adultos, apreender inteiramente que alguém muito próximo está morto e nunca mais voltará. Para crianças, evidentemente, é muito mais difícil ainda. Wolfenstein (1966) relatou as respostas de numerosas crianças e adolescentes que tinham perdido um dos pais e foram encaminhadas para análise, muitas delas durante o primeiro ano após o falecimento. Entre os pontos que impressionaram o seu grupo de observadores, salientou-se que “os sentimentos de tristeza tinham sido cerceados; havia pouco choro. A imersão nas atividades da vida cotidiana continuou...”.
Nota de rodapé:
*(1). Atualmente sabe-se muito mais sobre as condições que afetam o curso do luto na infância. Ver as Notas 4 e 5 do Capítulo 3.

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Entretanto, gradualmente, os analistas que tratavam essas crianças aperceberam-se de que, manifestamente ou não, elas estavam “negando o caráter definitivo da perda”, e de que a expectativa da volta do ente perdido ainda estava presente em um nível mais ou menos consciente. As mesmas e persistentes expectativas são registradas por Barnes (1964) como tendo ocorrido em duas crianças de escola maternal que perderam suas mães quando tinham, respectivamente, dois anos e meio e quatro anos de idade. Essas crianças continuaram expressando a esperança e a expectativa de que a mãe regressaria.

Quando, no devido tempo com a ajuda dos analistas e de outros, essas crianças gradualmente adquiriram consciência de que a mãe, de fato, nunca mais voltaria, reagiram com pânico e raiva, tal como fizeram as viúvas descritas acima. Ruth, uma menina de 15 anos descrita por Wolfenstein, comentou, alguns meses após a morte de sua mãe: “ Se mamãe estivesse realmente morta, eu ficaria sozinha... Ficaria terrivelmente assustada”. Em outra ocasião conta-se que Ruth, na cama, à noite, às vezes sentia-se desesperada, “cheia de frustração, raiva e saudade. Arrancava as roupas de cama, embrulhava-as para lhes dar o formato de um corpo humano e abraçava-se a elas”.

Assim, embora certamente existam diferenças entre o modo como uma criança reage à perda e aquele como um adulto reage, também há semelhanças muito básicas.

Existe, além disso, uma outra semelhança para a qual desejamos chamar a atenção. Acreditamos que não só a criança, mas também o adulto, necessita da assistência de uma outra pessoa de sua inteira confiança, se quiser recuperar-se da perda sofrida. Ao examinarem as reações de crianças à perda e a melhor forma de ajudá-las, quase todos os autores enfatizaram como é imensamente importante que a criança disponha de uma pessoa que atue como substituta permanente, a quem ela possa ligar-se gradualmente. Só em tais circunstâncias podemos esperar que uma criança venha, em última instância, a aceitar a perda como sendo irremediável e a reorganizar então sua vida interior de acordo com isso *(1). Suspeitamos de que o mesmo ocorre no caso de adultos, se bem que na vida adulta possa ser mais fácil encontrar também apoio na companhia de algumas outras pessoas. Isto leva a duas questões inter-relacionadas e muito práticas: o que sabemos dos fatores que auxiliam ou dificultam o luto saudável? Qual o melhor método para ajudar uma pessoa enlutada?
Nota de rodapé:
*(1). O quanto qualquer outro arranjo é insatisfatório foi expresso, de forma pungente, por Wendy, a menina de quatro anos descrita por Barnes (1964). Quando o pai dela enumerou a extensa lista de pessoas que conheciam Wendy e a amavam, ela respondeu tristemente: “Mas quando mamãe não estava morta eu não precisava de tanta gente... eu precisava só de uma”.

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Condições que favorecem ou dificultam o luto saudável.


Atualmente, os psiquiatras em geral concordam em que, para que o luto leve a um resultado favorável, e não desfavorável, é necessário que a pessoa que sofreu uma perda expresse — mais cedo ou mais tarde — seus sentimentos e emoções. “Soltai as palavras tristes”, escreveu Shakespeare, “as penas que não falam sufocam o coração extenuado e fazem-no quebrantar”.

Entretanto, embora até aqui todos possamos concordar, para uma pessoa que é incapaz de expressar seus sentimentos e para outra que esteja tentando ajudá-la a expressá-los, permanecem as perguntas: Como soltar as palavras? Quais são os sentimentos a expressar? E o que impede sua expressão?

Existem hoje provas de que os afetos mais intensos e perturbadores provocados por uma perda são o medo de ser abandonado, a saudade da figura perdida e a raiva por não reencontrá-la — afetos que estão associados, por um lado, ao anseio de buscar a figura perdida e, por outro, a uma tendência para recriminar furiosamente quem quer que pareça ser o responsável pela perda ou estar dificultando a recuperação da pessoa que foi perdida. A pessoa que sofre uma perda parece lutar contra o destino, com todo o seu ser emocional, na tentativa desesperada de reverter a marcha do tempo e reaver os tempos felizes que subitamente lhe foram arrebatados. Em vez de enfrentar a realidade e tentar harmonizar-se com ela, uma pessoa que sofre uma perda empenha-se numa luta contra o passado.

Evidentemente, para darmos à pessoa que sofre uma perda o tipo de ajuda que desejaríamos dar, é essencial vermos as coisas do seu ponto de vista e respeitarmos seus sentimentos — por menos realistas que possam parecer. Pois somente se a pessoa que sofre a perda sentir que podemos, pelo menos, compreendê-la e simpatizar com ela nas tarefas que estabeleceu para si mesma, haverá a possibilidade de que expresse todos os sentimentos que estão fervilhando em seu íntimo — seu anseio pelo regresso da figura perdida, sua esperança de que, milagrosamente, tudo possa ainda estar bem, sua raiva por ter sido desertada, suas recriminações raivosas e injustas contra “esses médicos incompetentes”, “essas enfermeiras incompetentes”, e contra seu próprio eu culpado; se tivesse feito isto e aquilo, ou não tivesse feito isto e aquilo, talvez o desastre pudesse ter sido evitado.

Quer estejamos no papel de amigo de uma pessoa que recentemente

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sofreu uma perda ou no de terapeuta de alguém que sofreu há muitos anos a morte de um ente querido e não conseguiu resolver seu luto, parece ser desnecessário e prejudicial colocarmo-nos no papel de “representantes da realidade”: desnecessário, porque a pessoa que sofreu a perda está, em alguma parte de si mesma, perfeitamente cônscia de que o mundo mudou; prejudicial porque, ao ignorarmos o mundo tal como uma parte da pessoa ainda o vê, afastamo-nos dela. O nosso papel deve ser, então, o de um companheiro pronto a oferecer todo o apoio, preparado para explorar, em nossas discussões, todas as esperanças e desejos e tênues possibilidades improváveis que a pessoa ainda acalenta, somados a todas as recriminações, remorsos e decepções que a afligem. Eis dois exemplos.

Num estudo anterior (Bowlby, 1963), foi descrito o caso da Sra. Q, uma mulher de aproximadamente 35 anos de idade; seu pai falecera inesperadamente após uma operação facultativa, e numa época em que o terapeuta dela (J. B.) estava no exterior. Durante um ano, a Sra. Q guardara seus sentimentos e suas idéias para si mesma; entretanto, no aniversário da morte do pai, o verdadeiro quadro foi revelado.

“Contou-me agora que durante as semanas que se seguiram à morte de seu pai, tinha vivido parcialmente convicta de que o hospital cometera um erro de identidade e de que, a qualquer momento, eles telefonariam ‘para dizer que havia um engano e que seu pai estava vivo e pronto para voltar para casa’. Além disso, estava especialmente zangada comigo pois acreditava que, se eu tivesse estado disponível, poderia ter exercido a minha influência sobre o hospital e, assim, conseguido que ela recuperasse o pai. Agora, doze meses depois, essas idéias e esses sentimentos ainda persistiam. Ela ainda alimentava uma certa expectativa de um recado do hospital, e ainda estava irritada por eu não entrar em contato com a direção de lá. Além disso, secretamente, a Sra. Q estava fazendo preparativos para receber o pai em casa, quando ele voltasse. Isso explicava por que ficara furiosa com a mãe por ter mandado redecorar o apartamento em que os velhos tinham vivido juntos e também por que continuava adiando a redecoração de seu próprio apartamento; ela sentia que era vital que quando o pai finalmente regressasse pudesse encontrar os lugares que lhe eram familiares tal como os deixara.” (Bowlby, 1963.)

Ora, não houve necessidade de o seu terapeuta intervir em nome da realidade; outros já o tinham feito e ela sabia bem qual era a visão que seus parentes e amigos tinham de tudo isso. O que ela precisava era de uma oportunidade para expressar a saudade, as esperanças e o amargor que seus parentes e amigos não podiam entender. Ela contou que, na semana anterior, pensara ter visto seu pai olhando a vitrina de uma loja e que tinha atravessado a rua para inspecionar mais de perto o homem em questão. Descreveu sua fúria para com a enfermeira que lhe

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transmitira a notícia da morte do pai e como se sentira tentada a jogá-la no chão de concreto e a estourar-lhe os miolos. Contou como sentira que o seu terapeuta a traira por estar longe justamente quando mais precisara dele; e falou de muitas outras coisas que, à luz fria do dia, ela mesmo sabia não serem realistas e justas. O que ela necessitava do terapeuta, e esperamos que tenha encontrado, era alguém que pudesse compreendê-la e se solidarizasse com o não-realismo e a injustiça dela. Com o passar dos meses, suas esperanças e sua raiva foram se dissipando, e a Sra. Q começou a se reconciliar com a realidade da perda.

O mesmo papel foi desempenhado com um rapaz de 16 anos, a quem chamaremos Bill. Ele tinha sido examinado primeiro por um psiquiatra (J. B.) numa clínica, quando tinha quatro anos de idade, porque as coisas estavam correndo mal em seu lar adotivo. A história não era muito clara, mas depreendemos que a mãe de Bill era uma prostituta que colocara o filho num lar adotivo, quando ele tinha dois anos, e depois desaparecera. Bill apresentou grandes problemas e os pais adotivos recusaram-se a conservá-lo. Conseguiu-se para ele assistência especial e, mais tarde, tratamento num estabelecimento residencial para crianças com distúrbios sérios. Era examinado algumas vezes por ano na clínica pelo mesmo psiquiatra e, desse modo, pudemos proporcionar-lhe uma certa continuidade. Agora, aos 16 anos, terminaria a escola em breve.

Nessa entrevista, Bill falou ao psiquiatra sobre o seu plano de ir para a América procurar a mãe. Já estivera numa empresa de navegação marítima e estava tentando conseguir a passagem trabalhando a bordo de um cargueiro. Era um rapaz muito inteligente e seus planos para a viagem pareciam viáveis. Mas imagine-se o espanto do psiquiatra! Aí estava um rapaz que tinha visto a mãe pela última vez quando tinha apenas dois anos de idade e, desde então, nunca mais tivera notícias nem ouvira falar dela, que não tinha a mínima idéia de onde ela poderia estar, e que nem mesmo tinha a certeza do nome dela. Francamente, o plano era um jogo de cabra-cega. Mas o psiquiatra conteve-se. Esse era o mundo de Bill e era o plano de Bill, e ele o estava confidenciando ao seu terapeuta, cujo papel não era depreciá-lo nem destruí-lo. De fato, a sessão toda foi dedicada à discussão do plano. Bill acreditava que seu pai era um militar americano e que a mãe o acompanhara depois da guerra. Seus planos para atravessar o Atlântico foram reexaminados, bem como os métodos pelos quais poderia ganhar dinheiro suficiente do outro lado do Atlântico para continuar sua busca. Nenhuma objeção foi levantada pelo psiquiatra, mas convidou Bill a voltar para uma nova conversa dentro de uma semana, mais ou menos. Bill voltou.

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Contou que tinha pensado muito sobre o plano, mas que agora começava a ter suas dúvidas. Talvez fosse difícil localizar sua mãe; e talvez, mesmo que fosse bem-sucedido, ela não o acolhesse de bom grado. Afinal de contas, refletiu Bill, ele não passaria de um estranho para ela. Uma vez mais, dada uma oportunidade para explorar junto com alguém compreensivo todos os sentimentos e planos que ele acariciara secretamente durante anos, o próprio senso de realidade era suficiente.

Naturalmente, no caso de outros pacientes, sobretudo os mais velhos, que sofreram uma perda vários anos antes, durante a infância ou adolescência, a tarefa de ajudá-los a recuperar seus sentimentos perdidos, suas esperanças perdidas de reunião e sua raiva por terem sido abandonados, pode ser longa e tecnicamente difícil. Mas os objetivos gerais continuam sendo os mesmos.

Ansiar pelo impossível, raiva desmedida, choro impotente, horror ante a perspectiva de solidão, súplicas lastimosas por compaixão e apoio — são esses os sentimentos que uma pessoa que sofre uma perda necessita expressar e, por vezes, primeiro descobrir, para que faça algum progresso. Entretanto, são sentimentos passíveis de serem encarados como indignos e degradantes. Na melhor das hipóteses, expressá-los pode parecer humilhante; na pior, podem atrair críticas e desprezo. Não é de admirar que tais sentimentos muitas vezes acabem não sendo expressados, podendo mais tarde ser recalcados.

Isto leva-nos a fazer uma pergunta: Por que algumas pessoas acham mais difícil — freqüentemente, muito mais difícil — do que outras expressar seus sentimentos de pesar?

Estamos convictos de que um motivo principal por que algumas pessoas acham extremamente difícil expressar pesar é que a família em que elas foram criadas, e com a qual ainda convivem, é daquelas em que o comportamento de ligação de uma criança é visto sem simpatia, como algo a ser eliminado o mais rapidamente possível. Em tais famílias, o choro e outras manifestações de protesto por uma separação podem ser qualificados como pueris, coisa de bebês, e a raiva ou o ciúme como sentimentos altamente repreensíveis. Além disso, nessas famílias, quanto mais uma criança pede para ficar com a mãe ou o pai, mais lhe é dito que tais exigências são tolas e injustificadas; quanto mais a criança chora ou faz birras, mais lhe dizem que é tola, caprichosa ou má. Em conseqüência de estar submetida a tais pressões, é provável que a criança acabe aceitando esses padrões para si mesma; chorar, fazer exigências, sentir-se furiosa porque não são satisfeitas, culpar os outros, tudo isso será julgado pela criança como algo injustificado, censurável e ruim. Assim, quando sofre uma perda séria, em vez de expressar o tipo de

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sentimentos que invadem qualquer pessoa que sofre uma perda, ela tende a sufocá-los. Além disso, seus parentes, produtos que são da mesma cultura familiar, compartilham provavelmente das mesmas concepções críticas a respeito da emoção e sua expressão. E assim, a própria pessoa que mais necessita de compreensão e encorajamento é aquela que tem menos probabilidades de recebê-los.

Uma ilustração clara desse processo de internalização dos controles de censura nos é dada pelo caso de Patrick, o menino de três anos, da Hampstead Nursery, descrito anteriormente. Patrick, como se recordará, fora aconselhado a ser um bom menino, comportar-se bem e não chorar — caso contrário sua mãe não iria visitá-lo. Parece provável que isso era típico da atitude da mãe em relação às expressões de consternação do menino. Portanto, não surpreende que ele se esforçasse por sufocar todos os seus sentimentos e, em lugar de expressá-los, desenvolvesse um ritual que se tornou cada vez mais divorciado do contexto emocional em que se originara.

Evitar o luto é uma importante variante patológica do pesar mas não é, acreditamos, a única. Existem muitos adultos que sofrem perda os quais, ao procurarem a ajuda de psiquiatras, dão poucas provas da inibição emocional que foi descrita acima. Pelo contrário, como foi documentado num estudo anterior (Parkes, 1965), essas pessoas manifestam todas as características do pesar de uma forma severa e prolongada. O problema aqui não é apurar por que a paciente é incapaz de expressar pesar, mas por que ela (usualmente, é uma mulher) é incapaz de superá-lo. Pode ser, é claro, que mesmo nesses casos exista algum componente ainda não reconhecido do pesar que está sendo inibido; mas há três características que parecem distinguir essas reações de pesar crônico e que podem sugerir uma explicação alternativa.

Em primeiro lugar, verifica-se usualmente que a ligação da paciente com o marido falecido foi extremamente íntima, sendo que boa parte da auto-estima e identidade do papel da sobrevivente dependia da contínua presença do esposo. E muito provável que tais pacientes relatem ter sofrido grande consternação mesmo durante breves separações temporárias no passado. Em segundo lugar, a paciente não tem relações estreitas com um outro membro da família para quem possa transferir alguns dos laços que a vinculavam ao seu esposo. Suas relações intensas com ele parecem ter sido tão exclusivas que mesmo aqueles membros da família que existem se afastaram, de modo que, após o falecimento, a sobrevivente não encontrou pessoas nem interesses para distraí-la de seu pesar. Finalmente, as relações matrimoniais talvez tenham sido de natureza ambivalente, pelo fato de o marido se ressentir da conduta possessiva da esposa.

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Em todo o caso, a sobrevivente geralmente descobre alguma fonte de auto-recriminação e castiga-se por não ter conseguido ser melhor esposa e por ter permitido que seu marido morresse. O pesar de tais pessoas freqüentemente parece conter um elemento de auto-punição, como se o luto perpétuo se tivesse convertido num dever sagrado para com o morto, por meio do qual o cônjuge sobrevivente poderá castigar-se e expiar suas culpas.

O tratamento de tais pacientes muitas vezes é difícil, pois elas parecem, freqüentemente, saborear a oportunidade que lhes é dada de repetirem, sempre de novo, o doloroso drama da perda que sofreram. Embora não haja concordância geral quanto ao valor da psicoterapia para essas pacientes, muito pode ser feito para ajudar a restabelecer seu envolvimento com o mundo. A família, o pároco local ou o serviço de amparo de uma organização como Cruse ou Samaritans podem ser mobilizados para atuar como ponte, enquanto que uma missa comemorativa, umas férias com amigos ou mesmo a redecoração da casa podem constituir um momento culminante, um rito de passagem do papel de enlutada para o novo papel de viúva.

Vista sob esse aspecto, a viuvez torna-se um problema de família. Portanto, precisamos saber quais as mudanças que ocorrem na estrutura dinâmica de uma família quando morre um de seus principais membros. Informações relevantes têm sido extraídas de um estudo que está sendo realizado sobre jovens viúvos e viúvas *(1). Além dos problemas emocionais, o problema mais imediato é o dos papéis. Quem, por exemplo, vai assumir os papéis do marido morto? Alguns deles, como a administração dos assuntos domésticos, passam para o membro sobrevivente do casal. Outros permanecem vagos; assim, muitas viúvas dormem com um travesseiro ou almofadão ao lado delas na cama. Uma jovem viúva geralmente tentará perceber seu marido morto como uma constante ajuda na tomada de decisões, e fazer dos desejos e preferências dele a base para boa parte do próprio comportamento dela. Quando for preciso tomar decisões que se situam fora do alcance desse “árbitro interno”, ela recorrerá freqüentemente ao irmão do marido, como a pessoa mais próxima dele em termos de cultura e sangue. Do mesmo modo, um viúvo tende a considerar a sua cunhada como o membro mais útil da família de sua esposa e a procurar a ajuda dela para tomar decisões acerca dos filhos ou dos assuntos domésticos.

Com o passar do tempo, entretanto, essas atribuições de papéis fenecem e são seguidas, com freqüência, de uma gradual desintegração da família extensa. O viúvo ou a viúva deixa de considerar a família do cônjuge como uma fonte de apoio e começa a desenvolver um maior grau de autoconfiança, apesar da solidão e das tensões familiares internas que isso acarreta.
Nota de rodapé:
*(1). Ver o livro de Glick, Weiss e Parkes (1974).

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Os amigos e os filhos convertem-se então numa importante fonte de afirmação, à medida que o viúvo ou a viúva desenvolve uma postura mais firme e enfrenta o mundo de novo.

A capacidade de um viúvo ou de uma viúva para enfrentar esses novos papéis e responsabilidades depende claramente, em parte, da personalidade e experiência anterior, e, em parte, das exigências feitas pelo ambiente familiar e do apoio que encontrar nele. Os filhos pequenos podem ser um fardo ou uma bênção, assim como os parentes do cônjuge falecido; e a mulher sem experiência de um trabalho fora de casa terá de superar muitos obstáculos. Não surpreende que uma proporção significativa de viúvas não consiga encontrar qualquer modo satisfatório de vida. Quando, depois de treze meses de viuvez, foram indagadas sobre como se sentiam, 74% das jovens viúvas de Boston concordaram em que “você nunca supera isso”.

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