Formação e rompimento dos laços afetivos



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Um estudo que ilustra o papel que amigos e parentes desempenham para influenciar o desfecho do luto foi realizado por Maddison e Walker (1967). Estudaram dois grupos, cada um composto por vinte viúvas que concordaram em ser entrevistadas. Esses grupos foram equiparados, o máximo possível, de acordo com as variáveis sociológicas mais comuns. Um grupo tinha sido selecionado porque, ao fim de dez meses de viuvez, todos os seus membros pareciam, com base em suas fichas de saúde, ter chegado a um resultado bastante favorável; o outro grupo tinha sido selecionado porque suas fichas de saúde sugeriam não ter sido atingido um resultado satisfatório. As entrevistas confirmaram que, de fato, as fichas de saúde constituem um bom indicador de como uma pessoa está enfrentando os problemas emocionais da viuvez.

No decorrer de longas entrevistas semi-estruturadas, o entrevistador indagou quem tinha se colocado à disposição da viúva durante seus primeiros três meses de viuvez, e, a respeito de cada uma dessas pessoas, se a considerara útil, inútil ou neutra. Além disso, foram feitas perguntas para apurar se a viúva achara fácil ou difícil expressar seus sentimentos com cada pessoa mencionada, se elas a tinham encorajado ou não a se deter sobre o passado, se tinham insistido em dirigir sua atenção para os problemas do presente e do futuro, e se tinham oferecido qualquer tipo de ajuda prática. Como o objetivo da investigação era apurar apenas como as próprias viúvas lembravam seu relacionamento com outras pessoas, nenhuma tentativa foi feita para checar se seus depoimentos correspondiam aos das pessoas com quem elas tinham estado em contato.

Quando as respostas dos dois grupos de viúvas foram comparadas,

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destacaram-se as seguintes diferenças. Em primeiro lugar, as viúvas cuja condição após doze meses era desfavorável relataram que tinham recebido muito pouco encorajamento, tanto para exprimirem seu pesar e raiva como para falarem sobre o marido morto e o passado. Queixaram-se de que, pelo contrário, as pessoas pareciam tomar mais difícil a expressão de sentimentos ao insistirem para que elas se refizessem e se controlassem, que afinal de contas não eram as únicas a sofrer, que seria uma prova de sensatez enfrentarem os problemas do futuro em lugar de ficarem repisando esterilmente o passado. Em contrapartida, as viúvas cujo resultado do luto foi razoavelmente satisfatório relataram como as pessoas com quem tinham tido contato haviam facilitado para elas o choro desinibido e a expressão de seus intensos sentimentos; e descreveram o alívio que tinha sido poderem falar longa e livremente sobre os tempos passados com o marido e as circunstâncias da morte dele.

Como interpretar esses dados? Uma explicação óbvia, e talvez a mais aceitável, é que a atitude desses amigos e parentes levou a viúva a suprimir ou evitar expressões de pesar e que o resultado patológico ocorrera em conseqüência disso. Pode ser também que a viúva tenha atribuído a seus amigos e parentes o seu próprio medo de expressar sentimentos, responsabilizando-os por sua própria incapacidade. Ou ambos os processos podem ter ocorrido conjuntamente.

Entretanto, nem todas as formas de desfecho patológico descritas por Maddison e Walker podem ser atribuídas à inibição ou evitação dos sentimentos de pesar; muitas viúvas mostraram o síndrome do pesar crônico, descrito acima. Nesses casos, é possível que as experiências descritas pelas viúvas reflitam um colapso de comunicação, de tal modo que a família não era vista como compreensiva e útil. Faltando a compreensão e o apoio de parentes e amigos, a viúva pode muito bem ter-se visto em dificuldades para encontrar qualquer incentivo para recomeçar tudo, para se envolver em um novo investimento no mundo, com todos os perigos de uma nova decepção e perda. Em vez disso, parece que a tendência dela é de se voltar para o passado, de buscar constantemente o marido, que ela só poderá encontrar nas recordações, e de condenar-se a um pesar persistente.

Isto nos leva ao nosso ponto final. Uma parte da teoria apresentada na literatura psicanalítica e a linguagem usada nas discussões clínicas não nos satisfazem inteiramente. Por exemplo, não é incomum o choro de adultos, após uma perda desastrosa, ser classificado como “uma regressão”, ou o forte anseio pela companhia de uma outra pessoa, um impulso de apego a outrem, ser descrito como expressão de “dependência infantil”. Não só acreditamos, com bases científicas, que

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essa teoria está equivocada, como representa francamente uma atitude que, se transferida para o trabalho clínico, só pode reforçar as tendências de uma pessoa que sofreu uma perda a sentir-se culpada e ter vergonha dos próprios sentimentos e comportamento que, em nosso entender, mais a ajudarão a superar a perda, desde que os expresse.

Existem outras palavras e conceitos que acreditamos levarem às mesmas dificuldades. “Pensamento mágico” e “fantasia” são termos que devem ser usados com extrema cautela. Uma fantasia é, por definição, algo inteiramente não-realista; assim, designar as esperanças e expectativas de uma criança quanto ao regresso de sua mãe morta como

“realização de um desejo em fantasia” é, em nosso entender, não fazer justiça a tais sentimentos. A crença da Sra. Q em que seu pai ainda poderia estar vivo estava certamente equivocada, como ela própria suspeitava, mas nada tinha de absurda. Ocasionalmente cometem-se erros, e pessoas desaparecidas reaparecem quando menos são esperadas. As idéias de Bill, o rapaz de 16 anos que alimentava a esperança de reencontrar sua mãe, eram provavelmente mal concebidas mas, dadas certas premissas, constituíam um plano bastante legitimo. Se evitarmos termos tão carregados como “negação da realidade” e “fantasia”, e preferirmos usar frases tais como “não acreditar que tenha ocorrido X”, “acreditar que Y ainda pode ser possível” ou “fazer um plano para conseguir Z”, parece-nos que conseguiremos ver o mundo mais como os nossos pacientes o vêem, e manter aquela posição neutra e empática a partir da qual, como sabemos por experiência, teremos mais condições de os ajudar.

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6. Autoconfiança e algumas condições que a promovem *(1).


No outono de 1970, a Tavistock Clinic celebrou o Jubileu de Ouro de sua fundação. Para assinalar o evento, a Clínica e sua organização-irmã, o Tavistock Institute of Human Relations, organizaram uma conferência em que foram apresentados trabalhos descrevendo as pesquisas em

curso nas duas instituições. Uma versão do presente estudo foi incluída nessa conferência, e uma versão ampliada foi publicada, mais tarde, nas atas da conferência.


O conceito de base segura.
Acumulam-se evidências de que seres humanos de todas as idades são mais felizes e mais capazes de desenvolver melhor seus talentos quando estão seguros de que, por trás deles, existem uma ou mais pessoas que virão em sua ajuda caso surjam dificuldades. A pessoa em quem se confia, também conhecida como uma figura de ligação (Bowlby, 1969), pode ser considerada aquela que fornece ao seu companheiro (ou à sua companheira) uma base segura a partir da qual poderá atuar.

A necessidade de uma figura de ligação, uma base pessoal segura, não se limita absolutamente às crianças, se bem que, em virtude de seus impulsos durante os primeiros anos de vida, durante esses anos tal necessidade seja mais evidente e, portanto, objeto de mais estudos. Há boas razões para acreditar, entretanto, que a necessidade ocorre também com adolescentes e adultos maduros.


Nota de rodapé:
*(1). Originalmente publicado em Gosling, R. G. (org.) (1973), Support, Innovation and Autonomy. Londres: Tavistock Publications. Reimpresso com permissão do Tavistock Institute of Human Relations.

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Reconhece-se que, nestes últimos, a necessidade é, em geral, menos evidente, e é provável que seja diferente segundo os sexos e segundo as diferentes fases da vida. Por esses motivos, e também por razões ligadas aos valores da cultura ocidental, a necessidade de uma base segura para adultos tende freqüentemente a ser esquecida, ou mesmo denegrida.

No quadro de funcionamento da personalidade que daí emerge existem dois conjuntos principais de influências. O primeiro diz respeito à presença ou ausência, parcial ou total, de uma figura de confiança, disposta e apta a fornecer o tipo de base segura necessária em cada fase do ciclo vital. Estas constituem as influências externas ou ambientais. O segundo conjunto diz respeito à capacidade ou incapacidade relativa de um indivíduo, primeiro, para reconhecer quando uma pessoa é digna de confiança e está disposta a fornecer uma base, e, segundo, se houver esse reconhecimento, para colaborar com tal pessoa de modo que seja iniciada e mantida uma relação mutuamente gratificante, Estas constituem as influências internas ou organísmicas.

Ao longo da vida, os dois conjuntos de influências interatuam de maneira complexa e circular. Num sentido, o tipo de experiência que uma pessoa tem, especialmente durante a infância, tem uma grande influência sobre o fato de ela esperar ou não encontrar mais tarde uma base pessoal segura, e também sobre o grau de competência que possui para iniciar e manter relações mutuamente gratificantes, quando a oportunidade se oferece. No sentido oposto, a natureza das expectativas que uma pessoa tem e o grau de competência que possui desempenham um importante papel na determinação dos tipos de pessoas com quem se associa e do modo como, nesse caso, elas a tratam. Em virtude dessas interações, seja qual for o primeiro padrão a se estabelecer, é esse que tende a persistir. Esta é uma das principais razões por que o padrão de relações familiares que uma pessoa experimenta durante a infância se reveste de uma importância tão decisiva para o desenvolvimento de sua personalidade.

Vista sob esta luz, o funcionamento da personalidade saudável em toda e qualquer idade reflete, em primeiro lugar, a capacidade do indivíduo para reconhecer figuras adequadas que estão dispostas e aptas a proporcionar-lhe uma base segura, e, em segundo lugar, a sua capacidade para colaborar com essas figuras em relações mutuamente gratificantes. Em contrapartida, muitas formas de funcionamento da personalidade perturbada refletem a reduzida capacidade de um indivíduo para reconhecer figuras adequadas e dispostas a fornecer uma base segura e (OU) uma reduzida capacidade para colaborar em relações gratificantes

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com qualquer dessas figuras, quando encontradas. Tal deterioração pode ser de diversos graus e assumir muitas formas: apego ansioso, exigências excessivas ou muito intensas para a idade e para a situação, não-envolvimento indiferente e independência desafiadora.

Paradoxalmente, a personalidade saudável, quando vista sob essa luz, mostra não ser tão independente quanto os estereótipos culturais supõem. Os ingredientes essenciais são a capacidade para confiar nos outros quando a ocasião requer, e para saber em quem é conveniente confiar. Uma pessoa funcionando de modo saudável é, pois, capaz de trocar papéis quando a situação muda. Ora está fornecendo uma base segura a partir da qual seu companheiro ou companheiros podem atuar; ora sente satisfação em confiar em um ou outro de seus companheiros que, em compensação, lhe proporciona essa base.

A capacidade para adotar um ou outro papel, de acordo com as circunstâncias, é bem ilustrada por muitas mulheres durante sucessivas fases de suas vidas, desde a gravidez até a maternidade, passando pelo parto. Uma mulher capaz de enfrentar com êxito essas mudanças está apta, durante a gravidez e o puerpério, segundo apurou Wenner (1966), tanto a expressar o seu desejo de apoio e ajuda como também a proporcionar apoio e ajuda, de uma forma direta e efetiva, a uma figura apropriada. Seu relacionamento com o marido é estreito, e ela se mostra ávida e contente por confiar no apoio dele. Por sua vez, ela é capaz de dá-lo espontaneamente a outros, inclusive ao seu bebê. Por outro lado, diz Wenner, uma mulher que passa por sérias dificuldades emocionais durante a gravidez e o puerpério tem, comprovadamente, dificuldade em confiar em outras pessoas. Ela é incapaz de expressar seu desejo de apoio ou então expressa-o de um modo agressivamente exigente, refletindo num caso ou outro sua falta de confiança em que esse apoio lhe será dado. Comumente, ela se mostra insatisfeita com o que lhe pode ser dado e é incapaz de dar espontaneamente a outrem.

Para fornecer a continuidade de apoio potencial que é a essência de uma base segura, as relações entre os indivíduos envolvidos deve persistir durante um período de tempo, medido em anos. Embora, para a clareza da exposição, a teoria seja freqüentemente melhor formulada em termos não-emocionais, cumpre ter sempre em mente que muitas das emoções humanas mais intensas surgem durante a formação, manutenção, interrupção e renovação daquelas relações em que um parceiro está fornecendo uma base segura ao outro, ou em que eles alternam seus papéis. Enquanto que a manutenção inalterada de tais relações é experimentada como uma fonte de segurança, a ameaça de perda provoca ansiedade e freqüentemente raiva, e a perda real provoca o turbilhão de sentimentos, que é o pesar.

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A posição teórica proposta inclui um certo número de conceitos conhecidos da teoria psicanalítica da relação com o objeto; por exemplo, o conceito de dependência madura, de Fairbairn, e o conceito de ambiente facilitador, de Winnicott, (Fairbairn, 1952; Winnicott, 1965). Difere, porém, da teoria clínica tradicional, em numerosos pontos. Um deles é a evitação dos termos “dependência” e “necessidades de dependência”, os quais, segundo se sustenta, são parcialmente responsáveis pela confusão muito séria na teoria existente. Um segundo ponto é atribuir importância, para o desenvolvimento, a experiências ocorridas durante todos os anos da infância e adolescência, e não quase exclusivamente aos primeiros meses ou anos de vida. Outros pontos são que o esquema proposto é vazado em termos de teoria de controle, e que se apóia não só em dados clínicos mas também nas conclusões de uma vasta gama de estudos descritivos e experimentais, tanto de primatas humanos como não humanos *(1).

Os objetivos deste ensaio são indicar algumas das evidências que corroboram o ponto de vista esboçado, examinar sucintamente o que se conhece das condições que favorecem ou impedem o desenvolvimento da personalidade saudável, tal como é aqui concebida, e, se possível, esclarecer questões teóricas que têm sido comprovadamente embaraçosas.
Estudos de homens e jovens autoconfiantes.
Durante as duas últimas décadas, numerosos clínicos voltaram suas atenções para o estudo de indivíduos que, é razoável crer, possuem personalidades saudáveis e funcionando bem. Não só essas pessoas não mostram nenhum dos sinais habituais de distúrbio da personalidade, tanto no presente quanto, até onde se pode averiguar, no passado, como também são manifestamente autoconfiantes e bem-sucedidas em suas relações humanas e em seu trabalho. Embora cada um dos estudos publicados até agora seja inadequado sob certos aspectos, as conclusões são sugestivas. Em primeiro lugar, essas personalidades bem adaptadas apresentam um perfeito equilíbrio entre, por um lado, iniciativa e auto-confiança, e, por outro, a capacidade para buscar ajuda e fazer uso de ajuda quando a ocasião requer.
Nota de rodapé:

*(1). Tanto a teoria propriamente dita como as provas em que ela assenta são apresentadas em major detalhe nos primeiro e segundo volumes de Attachment and Loss (Bowlby, 1969 e 1973).

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Em segundo lugar, um exame de seu desenvolvimento mostra que elas foram criadas em famílias estreitamente unidas, com pais que, segundo parece, nunca deixaram de lhes propiciar apoio e estímulo. Em terceiro lugar, embora neste ponto as provas sejam menos substanciais, a própria família foi, e ainda é, parte de uma rede social estável em que a criança em desenvolvimento é bem acolhida e pode misturar-se com adultos e companheiros de sua idade, muitos dos quais lhe são familiares desde os seus primeiros anos de vida.

Até onde nos é dado ver, cada estudo oferece o mesmo quadro — o quadro de uma base familiar estável, a partir da qual primeiro a criança, depois o adolescente e, finalmente, o jovem adulto se afasta numa série de saídas cada vez mais longas. Embora a autonomia seja evidentemente encorajada em tais famílias, ela não é forçada. Cada passo segue o anterior, numa série de estágios acessíveis. Embora os laços familiares possam ser atenuados, nunca são quebrados.

Os astronautas têm uma posição destacada como homens autoconfiantes, capazes de viver e trabalhar eficazmente em condições de grande risco e estresse. Seus desempenhos, suas personalidades e suas histórias foram estudados por Korchin e Ruff. Em dois artigos (Korchin e Ruff, 1964; Ruff e Korchin, 1967), eles publicaram suas conclusões preliminares sobre uma pequena amostra de sete homens.

Apesar do elevado grau de autoconfiança e uma nítida preferência pela ação independente, todos os homens declararam sentir-se “satisfeitos quando é necessária a dependência de outros” e possuir capacidade para “manter a confiança, em condições que poderiam parecer de desconfiança”. O desempenho da tripulação da Apolo 13, que sofreu uma avaria no caminho para a Lua, é testemunho dessa capacidade. Não só os membros da tripulação mantiveram sua própria eficiência em condições de grande perigo, mas continuaram cooperando, confiante e eficazmente, com seus companheiros na base terrestre.

Passando às suas biografias, verificamos que esses homens “cresceram em comunidades relativamente pequenas e bem organizadas, com uma considerável solidariedade familiar e forte identificação com o pai... [Mostraram] um padrão de crescimento relativamente tranqüilo e sem grandes obstáculos, em que puderam enfrentar os desafios existentes, atingir níveis crescentes de aspirações, adquirir cada vez maior confiança e, dessa forma, ganhar em competência”.

Um outro estudo, desta vez sobre jovens universitários que pareciam a seus professores possuir uma boa saúde mental e prometer um bom futuro como líderes de sua geração e como trabalhadores em prol da comunidade, foi relatado por Grinker (1962).

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Entre os 65 estudantes entrevistados, Grinker considerou que apenas alguns deles manifestavam uma estrutura neurótica de caráter. A grande maioria era de jovens íntegros, sinceros e precisos em suas auto-avaliações, com “uma capacidade para estabelecer relações humanas estreitas e profundas... com os membros de suas famílias, colegas, professores e o entrevistador”. Seus depoimentos sobre experiências de ansiedade ou tristeza sugeriram que tais sentimentos surgiam em situações apropriadas e não eram graves nem prolongados.

Quanto às suas experiências de vida familiar, o quadro geral descrito pelos estudantes é notavelmente semelhante ao relatado pelos astronautas. Em quase todos os casos, ambos os pais ainda estavam vivos. O quadro típico apresentado era o de um lar feliz e tranqüilo, em que ambos os pais compartilhavam responsabilidades e interesses, e eram vistos pelos filhos como generosos e afetuosos. Durante a infância, afirmaram, tinham-se sentido seguros com a mãe, acima de qualquer outra pessoa. Ao mesmo tempo, identificaram-se fortemente com o pai. Grinker relata muito mais provas que apóiam essas conclusões.

Os dados de um estudo do desenvolvimento, dos 10 aos 17 anos, de 34 adolescentes de caracteres muito diferentes (Peck e Havighurst, 1960), e também de um pequeno estudo de estudantes bem-sucedidos, durante sua transição do curso ginasial para o colegial (Murphey e outros, 1963), são muito semelhantes aos apresentados por Grinker. As provas apresentadas sugerem que a autoconfiança e a capacidade para confiar nos outros são fruto de uma família que fornece sólido apoio à sua prole, combinado com o respeito por suas aspirações pessoais, senso de responsabilidade e aptidão para lidar com o mundo. Em vez de abalar a autoconfiança de um jovem, parece claro que o forte apoio da família pode estimulá-la. Conclusões semelhantes são relatadas num estudo mais recente de 73 rapazes adolescentes (Offer, 1969).

Esse mesmo padrão de autoconfiança baseada numa ligação segura com uma figura em quem se confia, e desenvolvendo-se a partir desta, pode ser observado desde o primeiro ano de vida de uma criança. Para saber se esses padrões primitivos são ou não os verdadeiros precursores dos que se desenvolvem posteriormente, é preciso aguardar novas pesquisas. Entretanto, para os que têm experiência em psiquiatria familiar, parece provável que sejam.

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Desenvolvimento durante a infância.
Desde os primeiros trabalhos de Freud, um princípio fundamental da psicanálise tem sido de que as bases da personalidade são alicerçadas durante os primeiros anos da infância. As opiniões divergiram, porém, sobre quais os anos mais importantes, quais os processos psicológicos envolvidos e que experiências influem na determinação do resultado final. Na medida em que dados empíricos relevantes estavam faltando, era inevitável que o debate chegasse a um beco sem saída. Agora, entretanto, graças ao trabalho de psicanalistas, psicólogos clínicos e etologistas, as condições estão mudando. Embora os dados ainda sejam lamentavelmente insuficientes, os que existem já são suficientes para permitir uma tentativa de articulação sistemática dos dados e da teoria. Além disso, graças aos progressos registrados na biologia teórica, a própria teoria pode ser reformulada de um modo mais adequado aos dados. Assim, atualmente as perspectivas de avanço são boas.

Entre os que se situam na vanguarda desse movimento, não se pode deixar de citar Mary Salter Ainsworth, que, depois de ter trabalhado na Tavistock entre 1950 e 1954, continuou estudando os problemas de ligação e separação. Como resultado desses estudos, ela publicou um estudo naturalista sobre a interação mãe-criança em Uganda (Ainsworth, 1967), e está agora apresentando os resultados de um estudo planejado sobre a interação mãe-bebê em famílias brancas de classe média em Baltimore, Maryland.

Durante o seu estudo sobre a infância, em Uganda, Ainsworth notou como os bebês, uma vez adquirida mobilidade, comumente usam a mãe como uma base a partir da qual realizam suas explorações. Quando as condições são favoráveis, afastam-se da mãe em saídas exploratórias e regressam para junto dela de tempos em tempos. Por volta dos oito meses de idade, quase todos os bebês observados que tinham tido uma figura materna estável a quem estavam ligados mostraram esse comportamento; mas em caso de ausência da mãe, tais saídas organizadas tornavam-se muito menos evidentes ou cessavam. Subseqüentemente, Anderson (1972) realizou observações semelhantes de exploração a partir de uma base, por crianças entre quinze meses e dois anos e meio que brincavam num recanto isolado de um jardim de Londres enquanto suas mães estavam tranqüilamente sentadas num banco.

Em seu projeto cuidadosamente planejado em Baltimore, Ainsworth não só pôde estudar mais minuciosamente essa espécie de comportamento mas, além disso, descreveu muitas variações individuais,

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observadas numa amostra de 23 bebês *(1) de doze meses de idade. Foram feitas observações do comportamento exploratório e de ligação dos bebês, e do equilíbrio entre ambos, quando os bebês estavam em casa com suas mães e também quando eram colocados numa situação ligeiramente estranha de teste. Além disso, tendo obtido dados sobre o tipo de cuidados matemos que cada bebê recebera durante o primeiro ano de vida (mediante sessões prolongadas de observação a intervalos de três semanas nos lares das crianças), Ainsworth tem condições de propor hipóteses que conjuguem certos tipos de organização comportamental aos doze meses a certos tipos de experiência anterior de cuidados maternos. O projeto está descrito e os resultados preliminares são relatados em Ainsworth e Bell (1970); as diferenças individuais e seus antecedentes são examinados em Ainsworth, Bell e Stayton (1971, 1974).

As conclusões do estudo mostram que, com apenas algumas exceções, o modo como um bebê de doze meses se comporta, com ou sem sua mãe em casa, e o modo como se comporta com e sem ela numa situação ligeiramente estranha de teste, têm muita coisa em comum. Tomando por base as observações de comportamento nos dois tipos de situação, é possível classificar os bebês em cinco grupos principais, de acordo com dois critérios: (a) se exploram muito ou pouco quando em situações diferentes, e (b) como tratam a mãe — quando ela está presente, quando ela se afasta e quando ela regressa *(2).

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