Formação e rompimento dos laços afetivos



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Os cinco grupos, com um certo número de bebês classificáveis em cada um deles, são os seguintes:

GRUPO P: O comportamento exploratório de um bebê deste grupo varia com a situação e é mais evidente na presença da mãe. Ele usa a mãe como base, mantém-se atento ao paradeiro dela e troca olhares com ela. De tempos em tempos, volta para junto da mãe e desfruta do contato com ela. Quando a mãe regressa, após uma breve ausência, o bebê a recebe efusivamente. Nenhuma ambivalência se manifesta de modo evidente em relação à mãe. N = 8.


Nota de rodapé:
*(1). Embora a amostra total estudada na situação estranha compreenda 56 bebês, somente 23 deles foram também observados com a mãe em casa.

*(2). A classificação aqui apresentada, baseada no comportamento em ambos os tipos de situação, é uma versão ligeiramente modificada da que foi apresentada por Ainsworth e seus colaboradores (1971), na qual o comportamento de uma criança em seu próprio lar é a única fonte de dados. Os bebês classificados aqui nos grupos P, Q e R são idênticos aos classificados nos Grupos I, II e III de Ainsworth. Os bebês classificados aqui no Grupo T são os mesmos classificados no Grupo V de Ainsworth, menos um bebê que, embora passivo em casa, mostrou ser acentuadamente ativo no teste de situação estranha e foi, portanto, transferido para o Grupo S. Os bebês no Grupo S são os mesmos do Grupo IV de Ainsworth, mais o bebê transferido. A classificação aqui apresentada teve a aprovação da professora Salter Ainsworth.

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GRUPO Q: O comportamento destes bebês é muito semelhante ao dos bebês do Grupo P. Diferem em que, primeiro, os bebês deste grupo tendem a explorar mais ativamente na situação estranha e, segundo, tendem a ser um tanto ambivalentes em relação à mãe. Por um lado, se ignorado por ela, um bebê pode tomar-se intensamente exigente; por outro, ele pode, em contrapartida, ignorá-la ou evitá-la. Entretanto, em outras ocasiões, o par é capaz de estabelecer uma comunicação recíproca feliz. N = 4.

GRUPO R: Um bebê deste grupo explora muito ativamente, quer a mãe esteja presente ou ausente, quer a situação seja familiar ou estranha. Ele tende, além disso, a depender muito pouco da mãe e, com freqüência, não está interessado em que ela o pegue no colo. Em outras ocasiões, especialmente depois que sua mãe o deixou sozinho na situação estranha, o bebê comporta-se de modo inteiramente contrário, ora buscando a proximidade da mãe e depois evitando-a, ora procurando o contato e depois esquivando-se dela. N = 3.

GRUPO S: O comportamento dos bebês deste grupo é inconstante. Às vezes, parecem muito independentes, embora, usualmente, apenas por breves períodos; outras vezes, parecem intensamente ansiosos quanto ao paradeiro da mãe. São nitidamente ambivalentes no que se refere ao contato com ela, buscando-o com freqüência, mas não parecendo desfrutá-lo quando lhe é propiciado ou mesmo resistindo-lhe vigorosamente. De um modo bastante paradoxal, eles tendem a ignorar a presença da mãe, quando na situação estranha, e a evitar a proximidade e o contato com ela. N = 5.

GRUPO T: Estes bebês tendem a ser passivos, em casa e na situação estranha. Mostram relativamente pouco comportamento exploratório, mas muito comportamento auto-erótico. São notoriamente ansiosos acerca do paradeiro da mãe e choram na ausência dela; contudo, podem ser acentuadamente ambivalentes com ela, quando a mãe regressa.

N=3.

Quando se faz uma tentativa de avaliação desses diferentes padrões de comportamento como precursores do futuro desenvolvimento da personalidade, as oito crianças dos Grupos S e T parecem ser as menos suscetíveis de desenvolver uma autoconfiança estável, combinada com a confiança em outras pessoas. Algumas são passivas em ambas as situações; outras exploram, mas só brevemente. A maior parte delas parece ansiosa quanto ao paradeiro da mãe, e as relações com esta tendem a ser extremamente ambivalentes.



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As três crianças do Grupo R são extremamente ativas na exploração, e parecem ser intensamente independentes. Entretanto, suas relações com a mãe são cautelosas, mesmo ligeiramente indiferentes. Para um clínico, elas dão a impressão de serem incapazes de confiar nos outros e de terem desenvolvido uma independência prematura.

As quatro crianças do Grupo Q são mais difíceis de avaliar. Parecem situar-se a meio caminho entre as do Grupo R e as do Grupo P.

Se a perspectiva adotada neste estudo for correta, as oito crianças do Grupo P serão as que têm maiores probabilidades de, no devido tempo, desenvolver uma autoconfiança estável combinada com a confiança em outras pessoas; pois são as que se movimentam mais livre e confiantemente entre um interesse ativo na exploração de seu meio ambiente, e as pessoas e coisas nele existentes, sem deixar de manter um estreito contato com a mãe. E verdade que mostram, freqüentemente, menos autoconfiança do que as crianças dos Grupos Q e R, e que na situação estranha são mais afetadas do que estas últimas pelas breves ausências da mãe. Entretanto, suas relações com a mãe parecem ser sempre entusiásticas e confiantes, quer expressas por beijos e abraços, quer em trocas de olhares e vocalizações à distância, e isso parece ser muito promissor para o futuro delas.

Quando o tipo de cuidados maternos recebidos por cada um desses bebês é examinado, usando os dados obtidos durante as longas visitas que os investigadores fizeram à casa de cada um deles, de três em três semanas, durante o primeiro ano de vida do bebê, manifestam-se interessantes diferenças entre os bebês de cada um dos cinco grupos.

Ao avaliar o comportamento de uma mãe em relação ao seu bebê, Ainsworth usa quatro escalas distintas de nove pontos. Contudo, as classificações nessas escalas se correlacionam a tal ponto que, no presente estudo, baseamo-nos nos resultados de apenas uma escala. Trata-se da escala que mede o grau de sensibilidade ou insensibilidade manifestado pela mãe aos sinais e comunicações de seu bebê. Enquanto que a mãe sensível parece estar constantemente “sintonizada” para receber os sinais de seu bebê, é capaz de interpretá-los corretamente e responder-lhes pronta e apropriadamente, a mãe insensível freqüentemente não notará os sinais do seu bebê, interpretá-los-á incorretamente quando os notar, e responderá a eles tardiamente, de um modo inadequado, ou não lhes dará resposta alguma.

Quando são examinadas as classificações nesta escala para as mães dos bebês em cada um dos cinco grupos, verifica-se que as mães dos oito bebês no Grupo P obtêm uma classificação uniformemente elevada (entre 5,5 e 9,0), as dos onze bebês nos Grupos R, S e T situam-se numa

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faixa uniformemente baixa (1,0 a 3,5) e as dos quatro bebês do Grupo Q estão numa faixa intermediária (4,5 a 5,5). Essas diferenças são estatisticamente significativas (usando o Teste U de Mann-Whitney).

As diferenças entre grupos, na mesma direção e, grosso modo, da mesma ordem de magnitude, são igualmente apuradas quando as mães são classificadas nas outras três escalas. Assim, as mães de bebês do Grupo P obtêm classificações elevadas nas escalas de aceitação-rejeição, cooperação-interferência e acessibilidade desconhecimento. Inversamente, as mães de bebês dos Grupos R, S e T são classificadas numa faixa de média para baixa em cada uma dessas três escalas. As mães de bebês no Grupo Q mostram classificações que se situam mais ou menos a meio caminho entre as classificações das mães de bebês no Grupo P e as de bebês nos Grupos R, 5 e T, respectivamente.

É evidente que um grande número de novos estudos será ainda necessário para que seja possível extrair conclusões com um alto grau de confiabilidade. Não obstante, os padrões gerais de desenvolvimento da personalidade e de interação mãe-bebê visíveis aos doze meses de idade são suficientemente semelhantes ao que se observa do desenvolvimento da personalidade e da interação entre pais e filhos em anos subseqüentes para que seja plausível acreditar que uns são os precursores dos outros. Pelo menos, os dados oferecidos por Ainsworth demonstram que um bebê cuja mãe é sensível, acessível e receptiva, que aceita o comportamento dele e é cooperativa no trato e no relacionamento com ele, está muito longe de ser a criança exigente e infeliz que algumas teorias poderiam sugerir. Pelo contrário, os cuidados maternos desse tipo são evidentemente compatíveis com uma criança que está desenvolvendo uma medida limitada de autoconfiança por volta do seu primeiro aniversário, combinada com um alto grau de confiança em sua mãe e de prazer na companhia dela *(1).

Outras fortes evidências apontando nessa direção foram apresentadas por Baumrind (1967), que realizou um estudo muito minucioso de 32 crianças de jardim de infância, de três e quatro anos de idade, e suas mães.

Assim, até onde alcançam as parcas evidências de que dispomos, sustenta-se a hipótese de que uma autoconfiança bem alicerçada desenvolve-se paralelamente à confiança num dos pais, o qual proporciona à criança uma base segura a partir da qual ela realizará suas explorações.
Nota de rodapé:
*(1). Publicações mais recentes da Dra. Salter Ainsworth e seus colegas serão encontradas num estudo de recapitulação de Ainsworth (1977) e numa monografia definitiva, Ainsworth e Outros (1978).

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Pontos de diferença em relação às formulações teóricas atuais.


Embora o esquema teórico aqui apresentado não seja muito diferente daquele adotado implicitamente por muitos clínicos, ele difere num certo número de pontos de boa parte da teoria correntemente ensinada. Entre essas diferenças, citaremos as seguintes:

(a) Uma ênfase, no esquema atual, sobre o parâmetro ambiental familiar-estranho, a qual não existe na teoria tradicional;

(b) Ênfase, no esquema atual, sobre os muitos outros componentes da interação mãe-bebê além da amamentação; sustenta-se que a excessiva ênfase sobre a amamentação prejudicou imensamente a nossa compreensão do desenvolvimento da personalidade e as condições que o influenciam;

(c) A substituição dos conceitos de “dependência” e “independência” pelos conceitos de ligação, confiança, segurança e autoconfiança;

(d) A substituição da teoria da oralidade derivada da teoria dos objetos internos por uma teoria de modelos operacionais do mundo e do eu, os quais são concebidos como sendo construídos por cada indivíduo em resultado de sua experiência, determinam suas expectativas, e com base nos quais o indivíduo traça seus planos.

Examinemos, uma de cada vez, essas diferenças, as quais estão intimamente interligadas.

A imensa importância na vida de homens e animais do parâmetro familiar-estranho só foi inteiramente reconhecida nas duas últimas décadas, muito depois de terem sido formuladas as várias versões de teoria clínica ainda ensinadas. Sabe-se hoje que, em numerosas espécies, sempre que uma situação se toma familiar a um indivíduo, ela é tratada como se fornecesse segurança, ao passo que qualquer outra situação é tratada com reserva. Ao estranhamento reage-se de um modo ambivalente; por um lado, ele é gerador de medo e retraimento, por outro, suscita curiosidade e investigação. A predominância de uma ou de outra resposta antitética depende de muitas variáveis: do grau de estranheza da situação, da presença ou ausência de uma companhia, e do fato de o indivíduo que responde ser maduro ou imaturo, bem disposto ou cansado, saudável ou doente.

A razão pela qual a familiaridade e a estranheza teriam acabado por exercer efeitos tão poderosos sobre o comportamento é examinada na seção final deste capítulo, com especial referência ao seu papel na proteção.

Enquanto a influência da familiaridade e estranheza sobre o comportamento do homem não foi compreendida, as condições que levam uma criança a ligar-se à mãe dela eram pouco entendidas. O ponto de vista mais plausível, subscrito por Freud e pela maioria dos analistas, e

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também pelos teóricos da aprendizagem, era que a variável mais importante consistia em ser amamentado pela mãe. Essa teoria, uma teoria do impulso secundário, embora nunca tivesse sido baseada em provas ou argumentos sistemáticos, logo se tomou amplamente aceita e levou naturalmente a duas outras noções que atraíram numerosos adeptos. Uma diz que tudo o que acontece nos primeiros meses de vida deve ser de importância muito especial para o desenvolvimento subseqüente. A outra noção é de que, quando uma criança aprendeu a alimentar-se sozinha, deixa de haver qualquer razão para que ela exija a presença da mãe; por conseguinte, a criança deve abandonar tal “dependência”, a qual, daí em diante, passa a ser estigmatizada como infantil ou pueril.

O ponto de vista aqui adotado, e apoiado por numerosas provas (Bowlby, 1969), é de que o alimento desempenha apenas um papel secundário no comportamento de ligação de uma criança à mãe, de que esse comportamento se manifesta com o máximo vigor *(1) durante o segundo e o terceiro anos de vida e persiste com menos intensidade indefinidamente, e de que a função do comportamento de ligação é a proteção. Corolários desse ponto de vista são que a separação involuntária e a perda são potencialmente traumáticas durante os anos da infância e adolescência, e que, com graus de intensidade adequados, a propensão para manifestar o comportamento de ligação é uma característica saudável e nada tem de pueril.

Do mesmo pressuposto tradicional, de que uma criança se liga à mãe por depender dela como fonte de suas satisfações fisiológicas, provêm os conceitos e a terminologia de “dependência” e “independência”. Desde que uma criança pode alimentar-se sozinha, dizem os defensores da teoria do impulso secundário, ela deve tomar-se independente. Portanto, daí em diante, qualquer desejo forte da presença de uma figura de ligação passa a ser considerado como expressão de uma “necessidade infantil”, parte de um eu “pueril” que deve ficar para trás.

Como termos e conceitos para expressar a teoria aqui proposta, “dependência” e “independência” têm um certo número de graves inconvenientes; por conseguinte, são substituídos por termos e conceitos tais como “confiar em”, “ligado a”, “contar com” e “autoconfiança”. Em primeiro lugar, dependência e independência são inevitavelmente concebidas como sendo mutuamente exclusivas; ao passo que, como já foi enfatizado, confiar em outros e autoconfiança não só são compatíveis como são mutuamente complementares. Em segundo lugar, descrever alguém como “dependente” implica inevitavelmente um matiz pejorativo, ao passo que descrever alguém como “confiante em outra pessoa” nada tem de depreciativo.

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Em terceiro lugar, enquanto o conceito de ligação subentende sempre ligação a uma ou mais pessoas especialmente amadas, o conceito de dependência não implica tal relacionamento mas, pelo contrário, tende a ser anônimo.

Muito influenciado também pelo papel especial atribuído à amamentação e à oralidade na teoria psicanalítica é o conceito de “objeto interno”, um conceito que é ambíguo sob múltiplos aspectos (Strachey, 1941). Em seu lugar pode ser colocado o conceito, derivado da psicologia cognitiva e da teoria do controle, de um indivíduo que desenvolve dentro de si mesmo um ou mais modelos operacionais representando as principais características do mundo à sua volta e de si mesmo como um agente nesse mundo. Tais modelos determinam suas expectativas e previsões, e fornecem-lhe instrumentos para a construção de planos de ação.

O que na teoria tradicional é denominado um “objeto bom”, pode ser reformulado, dentro deste quadro de referência, como um modelo operacional de uma figura de ligação que é concebida como acessível, confiável e pronta para ajudar, quando solicitada. Analogamente, o que na teoria tradicional é designado como um “objeto mau”, pode ser reformulado como um modelo operacional de uma figura de ligação a quem se atribuem características tais como acessibilidade incerta, relutância em prestar ajuda ou, talvez, probabilidade de uma reação hostil. Do mesmo modo, pensa-se que um indivíduo constrói um modelo operacional de si mesmo, em relação a quem os outros responderão de certas formas previsíveis, O conceito de modelo operacional do eu compreende dados que são atualmente concebidos em termos de auto-imagem, auto-estima, etc.

Em que medida tais modelos operacionais são produtos válidos da experiência real de uma criança ao longo dos anos, ou são versões distorcidas de tal experiência, é uma questão de suma importância. Os trabalhos de psiquiatria da família dos últimos 25 anos apresentaram numerosos dados sugerindo que a forma que o modelo adota é, de fato, fortemente determinada pelas experiências reais de uma criança durante a infância, muito mais do que se supunha antes. Este é um campo de interesse vital e requer, urgentemente, uma investigação especializada. Um problema clínico e de pesquisa consiste em que os indivíduos perturbados freqüentemente parecem manter dentro deles mais de um modelo operacional tanto do mundo como do eu-no-mundo. Além disso, tais modelos múltiplos são freqüentemente incompatíveis entre si e podem ser mais ou menos inconscientes.

Talvez se tenha dito o suficiente para mostrar que o conceito de modelos operacionais é central para o esquema proposto. O conceito pode ser elaborado a fim de permitir que muitos aspectos da estrutura

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da personalidade e do mundo interno sejam descritos de modo a autorizar a pesquisa rigorosa e a definição precisa.

Assim, a teoria aqui proposta não só está enunciada em linguagem diferente, mas contém numerosos conceitos distintos daqueles usados pela teoria tradicional. Entre muitas outras coisas, esses conceitos permitem uma nova abordagem do velho problema da ansiedade de separação, a qual, quando excessiva, é inimiga do desenvolvimento da auto-confiança.


O problema da ansiedade de separação.
As numerosas observações do comportamento de crianças pequenas, quando retiradas de seus pais e colocadas em ambientes estranhos com pessoas estranhas, descritas por James Robertson e outros durante os últimos vinte anos, ainda não foram inteiramente articuladas na teoria clínica. Não existe ainda concordância sobre as razões pelas quais a experiência é tão aflitiva para uma criança na época, nem por que ela, posteriormente, se mostra tão intensamente apreensiva com medo de que tal experiência volte a acontecer.

Em anos recentes, numerosos experimentos foram realizados com macacos jovens que foram separados da mãe, usualmente por cerca de uma semana. Sejam quais forem as diferenças que se prove existirem entre as reações de macacos e de seres humanos em tal situação, o que impressiona de imediato é a semelhança da resposta. Na maioria das espécies de macacos estudadas, o protesto pela separação e a depressão durante a mesma são muito pronunciados e, após a reunião, o apego à mãe é muito maior. Nos meses subseqüentes, embora os indivíduos variem, os bebês separados tendem, em média, a explorar menos e a ficar mais tempo agarrados à mãe; e permanecem visivelmente mais tímidos do que os bebês macacos que não experimentaram uma separação. (Para um exame destes dados, ver Hinde e Spencer-Booth, 1971.)

Esses estudos de macacos são de grande valor na medida em que:

(a) Fornecem provas claras, graças a experimentos planejados que mantêm estáveis numerosas variáveis, de que, na vida real, as observações de seres humanos tornam difícil chegar-se a conclusões firmes;

(b) Demonstram que, mesmo quando todas as outras variáveis são mantidas constantes, um período de separação da mãe suscita protesto e depressão durante a separação, e uma ansiedade de separação muito maior após a reunião;

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(c) Deixam claro que os tipos de resposta à separação que são observados em seres humanos podem, em outras espécies, ser mediadas a um nível primitivo e, presumivelmente, infra-simbólico.

Esta última conclusão questiona as várias teorias clinicamente derivadas que procuram explicar a ansiedade de separação, dado que a maior parte delas considera virtualmente axiomático que a separação involuntária de uma figura materna não pode, por si mesma, gerar ansiedade ou medo e que, portanto, deve existir algum outro perigo que é previsto e temido. Muitas e diversas sugestões foram propostas para o que poderia ser esse outro perigo. Por exemplo, Freud (1926), que foi o primeiro a considerar a ansiedade de separação como um problema-chave, sugeriu que, para os seres humanos, “a situação fundamental de perigo é uma situação reconhecida, recordada e esperada de impotência e desamparo”. Melanie Klein propôs teorias invocando um instinto de morte e medo de aniquilamento, e também teorias derivadas de suas idéias sobre ansiedade depressiva e persecutória. O trauma do nascimento é ainda uma outra sugestão. Revendo a literatura, fica muito claro que muitas das questões mais veementemente debatidas em psicopatologia e psicoterapia gravitaram, e ainda gravitam, em torno de como conceituamos a origem e natureza da ansiedade de separação (Bowlby, 1960a, 1961a, 1973). Como o debate prossegue há tanto tempo e com tão pouco progresso, levanta-se a questão de saber se estão sendo formuladas as questões erradas e (ou) se estão sendo utilizados pressupostos iniciais errados. Examinemos, pois, quais foram os pressupostos iniciais.

Quase todas as teorias sobre o que provoca medo e ansiedade em seres humanos partiram da suposição de que o medo só é apropriadamente suscitado em situações percebidas como intrinsecamente dolorosas ou perigosas. Pensa-se que tal percepção deriva ou de experiências prévias de dor ou então de alguma consciência inata de forças interiores perigosas. Uma ou outra dessas suposições será encontrada na teoria da aprendizagem, na psiquiatria tradicional, como é exemplificado num estudo de Lewis (1967), e em todas as diversas versões da psicanálise e suas derivações.

Quem adotar um pressuposto desse tipo logo se defrontará com o fato de que os seres humanos freqüentemente manifestam medo em numerosas situações comuns que não parecem ser inerentemente dolorosas ou perigosas. Quantos de nós, poder-se-á perguntar, sentiremos prazer em entrar sozinhos numa casa completamente estranha e imersa em total escuridão? Que alívio sentiríamos se tivéssemos a companhia de alguém, ou uma boa luz, ou, de preferência, um companheiro e uma luz!

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Embora na infância situações desse gênero suscitem medo mais fácil e intensamente, é inútil fingir que os adultos estão acima dessas coisas. Qualificar os medos desse tipo como “infantis”, como se faz freqüentemente, é querer fugir a uma porção de questões.

É impressionante verificar como existem tão poucos estudos empíricos das situações que comumente despertam medo em seres humanos, depois do trabalho sistemático de Jersild no início da década de 1930. As publicações em que eles foram divulgados (por exemplo, Jersild e Holmes, 1935;Jersild, 1943) são minas de informações úteis.

Em crianças entre o segundo e o quinto anos de vida, relata Jersild, existe um certo número de situações bem definidas que habitualmente suscitam medo. Por exemplo, asdescrições de 136 crianças, num período de três meses, mostram que nada menos de 10 % delas mostraram medo, pelo menos numa ocasião, quando colocadas em confronto com cada uma das seguintes situações: (a) ruído e eventos associados a ruído; (b) altura; (c) pessoas estranhas, ou pessoas conhecidas com indumentária estranha; (d) objetos e situações de natureza insólita; (e) animais; (f) dor ou pessoas associadas à dor.

Também existem provas abundantes de que as crianças manifestaram menos medo quando acompanhadas de um adulto do que quando sozinhas. Para qualquer pessoa familiarizada com crianças, esses dados dificilmente podem ser considerados revolucionários.

Entretanto, não é nada fácil harmonizá-los com os pressupostos dos quais parte a maioria da teorização. Freud tinha perfeita noção disso e confessou-se perplexo com o problema. Entre as soluções que ele buscou está a tão conhecida tentativa de distinguir entre um perigo real e um perigo imaginário. A tese que ele expõe em Inibições, Sintomas e Ansiedade (1926), pode ser sintetizada, usando suas próprias palavras: “Um perigo real é um perigo que ameaça uma pessoa, oriundo de um objeto externo”. Portanto, sempre que a ansiedade é “acerca de um perigo conhecido”, pode ser considerada como uma “ansiedade realista”; ao passo que, sempre que for “acerca de um perigo desconhecido”, será “ansiedade neurótica”. Como o medo de estar sozinho, no escuro ou com estranhos, é medo, na opinião de Freud, de perigos desconhecidos, deve ser considerado neurótico (S. E., Vol. 20, pp. 165-7). Além disso, como todas as crianças experimentam esses medos, sustenta-se que todas as crianças sofrem de neurose (pp. 147-8). Certamente, há muitos que não se satisfazem com tal solução.

As dificuldades com que Freud se debateu desaparecem quando se adota uma abordagem comparativa do medo humano. Pois evidencia-se que o homem não é, em absoluto, a única espécie que demonstra medo

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em situações que não são intrinsecamente dolorosas ou perigosas (Hinde, 1970). Animais de muitas espécies apresentam um comportamento de medo em resposta a ruídos e outras mudanças bruscas de estimulação, ao escuro e também a estranhos e a eventos insólitos. O abismo visual e um estímulo que rapidamente se expande também suscitam medo, regularmente, em animais de numerosas espécies.

Quando indagamos como é que situações desses tipos podem tão facilmente gerar o medo em animais de tantas espécies, não é difícil perceber que, embora nenhuma delas seja intrinsecamente perigosa, cada uma dessas situações é, em certo grau, potencialmente perigosa. Por outras palavras, enquanto nenhuma delas contém um alto risco, cada uma delas comporta um risco ligeiramente mais elevado, mesmo que esse risco aumente, digamos, de 1 % para 5 %.

Vista sob este prisma, cada uma dessas situações causadoras de medo é considerada um indício natural de maior risco. Reagir com medo a todas essas situações é, portanto, reduzir os riscos. Como tal comportamento possui valor de sobrevivência, argumenta-se que o equipamento genético de uma espécie toma-se tal que cada um de seus membros, ao nascer, tende a se desenvolver de maneira a, usualmente, passar a se comportar dessa forma típica. O homem não constitui exceção.

Uma distinção aqui invocada, e que é um lugar comum para os etologistas mas uma fonte de muita confusão e perplexidade para os psicólogos experimentais e clínicos, é a distinção entre causação e função biológica — por um lado, as condições que causam o comportamento e, por outro, a contribuição desse comportamento para a sobrevivência da espécie. Nesta teoria, considera-se que o estranhamento e outros sinais concretos desempenham, cada um deles, um papel causal na geração do comportamento de medo; enquanto que a função de tal comportamento é a proteção.

Talvez a distinção entre a causa e a função de um determinado comportamento possa ser esclarecida com referência ao comportamento sexual, em que a distinção é tão óbvia, que geralmente é lida como certa e virtualmente esquecida. Em termos claros, a distinção é assim descrita: os estados hormonais do organismo e certas características do parceiro do sexo oposto levam, em conjunto, ao interesse sexual e desempenham papéis causais na produção do comportamento sexual. A função biológica desse comportamento, entretanto, é uma outra questão; é a reprodução. Uma vez que causação e função são distintas, é possível, por meio da contracepção, interferir entre o comportamento e a função a que ele serve.

Em animais de todas as espécies não-humanas, o comportamento

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se processa sem que o animal (presumivelmente) tenha qualquer insight da função. O mesmo pode ser dito da maioria dos seres humanos, a maior parte do tempo. Sob este prisma, nada há de surpreendente no fato de os seres humanos reagirem habitualmente com um comportamento de medo em certas situações, apesar de um observador de fora poder saber que, em tais situações, o aumento do risco de vida é mínimo, ou nem mesmo isso. No início, a pessoa simplesmente reage à situação — uma súbita mudança ou um alto nível de ruído, um rosto estranho ou um acontecimento insólito, um movimento brusco — e não a qualquer estimativa de risco. O cálculo prudente de risco pode ou não se seguir.

A separação relutante de uma criança de seus pais, ou de um adulto de um companheiro em quem confia, pode ser simplesmente considerada como uma outra situação do mesmo gênero, embora seja um exemplo um tanto especial. Mesmo em comunidades civilizadas, existem muitas circunstâncias em que o risco é um tanto maior quando um indivíduo está sozinho do que quando está acompanhado. Isso acontece especialmente durante a infância. Por exemplo, os riscos de acidentes em casa obviamente são maiores quando se deixa uma criança sozinha do que quando o pai ou a mãe estão por perto. O mesmo pode ser dito de acidentes na rua. Em 1968, no distrito londrino de Southwark, 46% de todos os acidentes de trânsito ocorreram com crianças de menos de 15 anos, com a mais alta incidência no grupo etário dos três aos nove anos. Mais de 60 % dessas crianças estavam completamente sozinhas, e dois terços das restantes estavam na companhia de apenas uma outra criança. Para os velhos ou doentes, viver sozinho é um risco notório. Mesmo para adultos saudáveis, excursionar pelas montanhas ou praticar alpinismo sozinho significa, materialmente, aumentar o risco de vida. No meio ambiente em que o homem evoluiu, os riscos que acompanham o estar sozinho devem ter sido, por certo, muito maiores. Uma simples reflexão mostra, portanto, que, como estar sozinho aumenta o risco, não faltam razões para que o homem tenha desenvolvido sistemas comportamentais que o levam a evitá-lo. No caso dos seres humanos, reagir com medo à perda de um companheiro em quem se confia não é, pois, mais desconcertante do que reagir com medo a qualquer dos outros indícios naturais de perigo potencial — estranheza, movimento súbito, mudança brusca ou alto nível de ruído. Em todos os casos, reagir assim tem valor de sobrevivência.

Uma característica muito especial do comportamento de medo em seres humanos e em outros animais é o grau em que recrudesce em situações caracterizadas pela presença de dois ou mais sinais concretos; por

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exemplo, o estranho que subitamente se aproxima, o cão desconhecido que uiva, o ruído inesperado que se ouve no escuro. Comentando sobre as observações feitas durante 21 dias por pais acerca de situações causadoras de medo, Jersild e Holmes (1935) assinalam que combinações de duas ou mais das seguintes características foram freqüentemente citadas em conjunto: ruído, pessoas e situações estranhas, o escuro, movimento brusco e inesperado, e estar sozinho. Enquanto que uma situação assinalada por uma única dessas características poderá apenas alertar o indivíduo, o medo, mais ou menos intenso, pode perfeitamente ser suscitado quando várias delas estão presentes em conjunto.

Porque a resposta a uma combinação de fatores é, com freqüência, muito maior ou diferente do que a resposta a qualquer um deles isoladamente, é conveniente designar tais situações como “compostos”, um termo escolhido para lembrar a analogia química (Bowlby, 1973).

Em conformidade com outros dados sobre os efeitos de situações compostas, os experimentos com crianças e com macacos rhesus (Rowell e Hinde, 1963) mostram a enorme diferença de intensidade das reações de medo segundo a presença ou ausência de um companheiro de confiança. Por exemplo, Jersild e Holmes (1935) apuraram que, quando crianças de três e quatro anos foram solicitadas a ir apanhar uma bola que rolara para um corredor escuro, metade delas recusaram-se a fazê-lo, apesar dos incitamentos dos experimentadores. Entretanto, quando um dos experimentadores as acompanhou, quase todas as crianças se mostraram dispostas a ir procurar a bola no escuro. Diferenças do mesmo tipo foram observadas em muitas outras situações levemente assustadoras, por exemplo, quando uma criança foi solicitada a aproximar-se de um cachorro imenso, preso por uma corrente, e acariciá-lo.

Esses resultados harmonizam-se de tal modo com a experiência comum que pode parecer absurdo alongarmo-nos em sua descrição. Entretanto, é evidente que, quando psicólogos e psiquiatras passam a teorizar sobre o medo e a ansiedade, o significado desses fenômenos é seriamente subestimado. Por exemplo, quando se presta a devida atenção a esses resultados, deixa de ser um mistério que, em quase todas as situações familiares, o medo e a ansiedade sejam grandemente reduzidos pela mera presença de um companheiro de confiança. Tais conclusões habilitam-nos a compreender também por que a acessibilidade dos pais e sua disponibilidade para responder dá a uma criança, um adolescente ou um jovem adulto condições para se sentirem seguros, e uma base a partir da qual podem confiantemente proceder a explorações. Elucidam-nos igualmente sobre o modo como, da adolescência em diante, outras figuras de confiança passam a ter funções semelhantes.

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Isso nos leva de volta ao ponto de partida de nossa argumentação e ajuda a explicar por que o apoio decidido e sistemático dos pais, combinado com o encorajamento e o respeito pela autonomia de uma criança, muito longe de abalar a autoconfiança, fornece, pelo contrário, as condições em que ela pode desenvolver-se melhor. Também ajuda a explicar por que, inversamente, uma experiência de separação ou perda, ou ameaças de separação ou perda, especialmente quando usadas pelos pais como sanções para induzir o bom comportamento, podem abalar a confiança de uma criança nos outros e em si mesma, acarretando assim um ou outro desvio do desenvolvimento ótimo — a falta de confiança em si mesma, a ansiedade ou depressão crônica, o não-envolvimento distante ou a independência arrogante que soa falso.

Uma autoconfiança bem fundamentada, podemos concluir, é, geralmente, o produto de um crescimento lento e não reprimido, da infância até a maturidade, durante o qual, através da interação com outros, incentivadores e confiáveis, a pessoa aprende a combinar a confiança nos outros com a confiança em si mesma.

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7. Formação e rompimento de vínculos afetivos *(1).
O Royal College of Psychiatrists organiza anualmente uma conferência em homenagem a Henry Maudsley, que foi um benfeitor da instituição predecessora do College, a Royal Medico-Psychological Association (e também do Hospital Maudsley). Fui convidado a proferir a conferência de 1976 na reunião do College, realizada em Londres no outono. Foi publicada em forma muito ampliada e em duas partes na primavera seguinte.
Etiologia e psicopatologia à luz da teoria da ligação.
Desde os tempos em que iniciei meus estudos de psiquiatria no Hospital Maudsley, meus interesses concentraram-se na contribuição do meio ambiente de uma pessoa ao seu desenvolvimento psicológico. Durante muitos anos, essa foi uma área menosprezada e só agora está recebendo toda a atenção que merece. Isso não foi culpa do resoluto defensor do estudo científico dos distúrbios mentais, cuja vida e obra recordamos hoje. Pois ainda que em algumas passagens de seus escritos se possa pensar que Henry Maudsley deu pouca importância aos fatores ambientais, isso está longe de ser verdadeiro, como fica evidente pela leitura de seu influente livro, Responsibility in Mental Diseases, publicado há quase exatamente um século. Com efeito, desde o início de sua carreira, a abordagem de Maudsley foi de biólogo — como seria de se esperar do filho de um agricultor;
Nota de rodapé:
*(1). Originalmente publicado em British Journal of Psychiatry (1977), 130: 201-10 e 421-31. Reimpresso com permissão do Royal College of Psychiatrists.

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e ele sabia que em psiquiatria, como em todas as coisas biológicas, é necessário considerar “o indivíduo e seu meio ambiente, o homem e suas circunstâncias”, e que isso requer que adotemos uma abordagem em termos de desenvolvimento *(1). Assim, ao preparar esta conferência, que me sinto muito honrado por ter sido convidado a proferir nesta data, considero-me apoiado pela convicção de que o seu tema, o do desenvolvimento social e emocional em diferentes tipos de ambiente familiar, está de acordo com tudo o que Henry Maudsley defendeu.

O que, por uma questão de conveniência, designo como teoria da ligação, é um modo de conceituar a propensão dos seres humanos a estabelecerem fortes vínculos afetivos com alguns outros, e de explicar as múltiplas formas de consternação emocional e perturbação da personalidade, incluindo ansiedade, raiva, depressão e desligamento emocional, a que a separação e perda involuntárias dão origem. Como um corpo de teoria, lida com os mesmos fenômenos que antes eram tratados em termos de “necessidade de dependência”, ou de “relações com o objeto”, ou de “simbiose e individuação”. Embora incorpore muito do pensamento psicanalítico, a teoria da ligação difere da psicanálise tradicional ao adotar um certo número de princípios que derivam das disciplinas relativamente novas da etologia e teoria do controle; assim fazendo, está habilitada a dispensar conceitos tais como os de energia psíquica e impulso, e a estabelecer estreitos laços com a psicologia cognitiva. Os méritos que se atribuem a ela são que, embora seus conceitos sejam psicológicos, eles são compatíveis com os da neurofisiologia e da biologia do desenvolvimento, e que, também, se conforma aos critérios habituais de uma disciplina científica.

Os defensores da teoria da ligação argumentam que muitas formas de distúrbio psiquiátrico podem ser atribuídas ou a desvios no desenvolvimento do comportamento de ligação ou, mais raramente, a uma falha em seu desenvolvimento; argumentam também que a teoria esclarece a origem e o tratamento dessas condições Em suma, a tese desta conferência é que, se quisermos ajudar terapeuticamente tais pacientes, é necessário que os habilitemos a considerar minuciosamente como os seus modos atuais de perceber e lidar com pessoas emocionalmente significativas, incluindo o terapeuta, podem ser influenciados e, talvez, seriamente distorcidos pelas experiências que eles tiveram com seus pais durante os anos da infância e adolescência, e que possivelmente — pelo menos algumas delas — ainda persistem ou repercutem no presente.


Nota de rodapé:
*(1). A citação é de um ensaio de Maudsley publicado em 1860. Por esta e outras informações sobre a vida e obra de Maudsley, estou grato à descrição feita por Sir Aubrey Lewis na 25 Conferência Maudsley (Lewis, 1951).

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Isso implica que o paciente reveja essas experiências do modo mais honesto possível, uma revisão que o terapeuta pode apoiar ou impedir. Numa breve exposição, só é possível enunciar princípios e os fundamentos lógicos que os subentendem. Começamos com um breve esboço do que se entende por teoria da ligação. (Para uma descrição mais completa dos dados em que se baseia, os conceitos empregados e os argumentos a seu favor, com todas as referências, ver os três volumes de Attachment and Loss, Bowlby, 1969, 1973, 1980.)

Até meados da década de 1950, só predominava um ponto de vista explicitamente formulado sobre a natureza e origem dos vínculos afetivos, e, sobre essa questão, havia concordância entre psicanalistas e teóricos da aprendizagem. Os vínculos entre indivíduos desenvolvem-se, segundo era sustentado, porque um indivíduo descobre que, para satisfazer certos impulsos, como por exemplo de alimentação na infância e de sexo na vida adulta, é necessário um outro ser humano. Esse tipo de teoria propõe duas espécies de impulsos, primários e secundários; classifica o alimento e o sexo como impulsos primários, e a “dependência” e outras relações pessoais como secundários. Embora os teóricos das relações objetais (Balint, Fairbairn, Guntrip, Klein, Winnicott) tentassem modificar essa formulação, os conceitos de dependência, oralidade e regressão persistiram.

Os estudos dos efeitos perniciosos da privação de cuidados maternos sobre o desenvolvimento da personalidade levaram-me a questionar a adequação do modelo tradicional. No início da década de 1950, os trabalhos de Lorenz sobre imprinting, que tinham sido publicados originalmente em 1935, tomaram-se mais geralmente conhecidos e ofereceram uma abordagem alternativa. Lorenz tinha verificado que, pelo menos em algumas espécies de aves, durante os primeiros dias de vida, desenvolvem-se fortes vínculos com uma figura materna, sem qualquer referência à alimentação e simplesmente através da exposição do filhote à figura em questão, com a qual se familiarizou. Argumentando que os dados empíricos sobre o desenvolvimento do laço de um bebê humano com sua mãe podem ser melhor entendidos em termos de um modelo derivado da etologia, delineei uma teoria da ligação num ensaio publicado em 1958. Simultânea e independentemente, Harlow (1958) publicou os resultados de seus primeiros estudos com filhotes de macacos rhesus criados com bonecos como mães-substitutas. Um bebê macaco, apurou Harlow, agarrar-se-á a um boneco que não o alimenta, desde que esse boneco seja macio e confortável.

Durante os últimos 15 anos, foram publicados numerosos estudos empíricos sobre crianças (por exemplo, Robertson e Robertson, 1967-72;

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Heinicke e Westheimer, 1966; Ainsworth, 1967; Ainsworth, Bell e Stayton, 1971, 1974; Blurton Jones, 1972), a teoria foi consideravelmente ampliada (por exemplo, Ainsworth, 1969; Bowlby, 1969; Bischof, 1975), e foi examinada a relação entre a teoria da ligação e a teoria da dependência (Maccoby e Masters, 1970; Gewirtz, 1972) *(1). Foram propostas novas formulações a respeito da ansiedade patológica e da fobia (Bowlby, 1973), assim como do luto e suas complicações psiquiátricas (por exemplo, Bowlby, 1961c; Parkes, 1965, 1971a, 1972). Parkes (1971b) ampliou a teoria para abranger toda a gama de reações observadas sempre que uma pessoa se defronta com uma importante mudança em sua situação vital. Foram feitos muitos estudos de comportamento comparável em espécies primatas (ver o exame crítico desses estudos por Hinde, 1974).

Em suma, o comportamento de ligação é concebido como qualquer forma de comportamento que resulta em que uma pessoa alcance ou mantenha a proximidade com algum outro indivíduo diferenciado e preferido, o qual é usualmente considerado mais forte e (ou) mais sábio. Embora seja especialmente evidente durante os primeiros anos da infância, sustenta-se que o comportamento de ligação caracteriza os seres humanos do berço à sepultura. Inclui o choro e o chamamento, que suscitam cuidados e desvelos, o seguimento e o apego, e também os vigorosos protestos se uma criança ficar sozinha ou na companhia de estranhos. Com a idade, a freqüência e intensidade com que esse comportamento se manifesta diminuem gradativamente. No entanto, todas essas formas de comportamento persistem como parte importante do equipamento comportamental do homem. Nos adultos, elas são especialmente evidentes quando uma pessoa está consternada, doente ou assustada. Os padrões de comportamento de ligação manifestados por um indivíduo dependem, em parte, de sua idade atual, sexo e circunstâncias, e, em parte, das experiências que teve com figuras de ligação nos primeiros anos de sua vida.

Como um modo de conceituar a manutenção da proximidade, a teoria da ligação, em contraste com a teoria da dependência, enfatiza as seguintes características *(2):

(a) Especificidade. O comportamento de ligação é dirigido para um ou alguns indivíduos específicos, geralmente em ordem clara de preferência.

(b) Duração. Uma ligação persiste, usualmente, por grande parte do ciclo vital.


Nota de rodapé:
*(1). Outros campos clinicamente importantes a que a teoria da ligação foi aplicada eficazmente são as origens do vínculo mãe-bebê durante o período neonatal, por Marshall Klaus e John Kennell (1976), distúrbios do relacionamento conjugal, por Janet Mattinson e Ian Sinclair (1979), e as conseqüências emocionais da separação conjugal, por Robert S. Weiss (1975).

*(2). Ao descrever estas características, baseio-me no texto de um artigo (Bowlby, 1975) escrito para o Volume 6 do American Book of Psychiatry O 1975 by Basic Books, Inc., e agradeço aos seus organizadores e editores pela permissão para fazê-lo.

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Embora, durante a adolescência, as ligações da infância possam ser atenuadas e suplementadas por novas ligações, e em alguns casos substituídas por estas últimas, as primeiras ligações não são facilmente abandonadas e é muito comum persistirem.

(c) Envolvimento emocional *(1). Muitas das emoções mais intensas surgem durante a formação, manutenção, rompimento e renovação de relações de ligação. A formação de um vínculo é descrita como “apaixonar-se”, a manutenção de um vínculo como “amar alguém” e a perda de um parceiro como “sofrer por alguém”. Do mesmo modo, a ameaça de perda gera ansiedade e a perda real produz tristeza; enquanto que cada uma dessas situações é passível de suscitar raiva. A manutenção inalterada de um vínculo afetivo é sentida como uma fonte de segurança, e a renovação de um vínculo, como uma fonte de júbilo. Como tais emoções são usualmente um reflexo do estado dos vínculos afetivos de uma pessoa, conclui-se que a psicologia e psicopatologia da emoção é, em grande parte, a psicologia e psicopatologia dos vínculos afetivos.

(d) Ontogenia. Na grande maioria dos bebês humanos, o comportamento de ligação com uma figura preferida desenvolve-se durante os primeiros nove meses de vida. Quanto mais experiência de interação social um bebê tiver com uma pessoa, maiores são as probabilidades de que ele se ligue a essa pessoa. Por essa razão, torna-se a principal figura de ligação de um bebê aquela pessoa que lhe dispensar a maior parte dos cuidados maternos. O comportamento de ligação mantém-se ativado até o final do terceiro ano de vida; no desenvolvimento saudável, torna-se, daí em diante, cada vez menos ativado.

(e) Aprendizagem. Se bem que aprender a distinguir o familiar do estranho constitua um processo-chave no desenvolvimento da ligação, as recompensas e punições convencionais usadas pelos psicólogos experimentais desempenham apenas um papel secundário. De fato, uma ligação pode desenvolver-se apesar de repetidas punições por uma figura de ligação.

(f) Organização. Inicialmente, o comportamento de ligação é mediado por respostas organizadas segundo linhas bastante simples. A partir do final do primeiro ano, passa a ser mediado por sistemas comportamentais cada vez mais refinados, os quais são organizados cibernéticamente e incorporam modelos representacionais do meio ambiente e do eu.
Nota de rodapé:
*(1). Embora este parágrafo seja pouco diferente de parágrafos semelhantes nos capítulos 4 e 6, deixo-o inalterado porque, sem ele, este capítulo ficaria seriamente incompleto.

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Esses sistemas são ativados por certas condições e terminados por outras. Entre as condições ativadoras estão o estranhamento, a fome, o cansaço e qualquer coisa que seja assustadora. As condições terminais incluem a visão ou o som da figura materna e, especialmente, a interação feliz com ela. Quando o comportamento de ligação é fortemente despertado, o término poderá requerer o contato físico ou o agarramento à figura materna e (ou) ser acariciado por ela. Inversamente, quando a figura materna está presente ou seu paradeiro é conhecido, uma criança deixa de manifestar o comportamento de ligação e, em vez disso, desliga-se daquela e explora o seu meio ambiente.

(g) Função biológica. O comportamento de ligação ocorre nos jovens de quase todas as espécies de mamíferos e, em certas espécies, persiste durante toda a vida adulta. Embora haja muitas diferenças de detalhe entre as espécies, a manutenção da proximidade com um adulto preferido (quase sempre a mãe) por um animal imaturo é a regra geral, o que sugere que tal comportamento possui um valor de sobrevivência. Num outro escrito (Bowlby, 1969) argumentei que a mais provável função do comportamento de ligação é, de longe, a proteção, principalmente contra os predadores.

Assim, o comportamento de ligação é concebido como uma classe de comportamento distinta do comportamento de alimentação e do comportamento sexual, tendo, pelo menos, um significado igual na vida humana. Nada existe de intrinsecamente pueril ou patológico quanto a ele.

Cumpre assinalar que o conceito de ligação difere substancialmente do conceito de dependência. Por exemplo, a dependência não está especificamente relacionada com a manutenção da proximidade, não se refere a um indivíduo específico, nem está necessariamente associada a uma emoção forte. Nenhuma função biológica lhe é atribuída. Além disso, no conceito de dependência há implicações de valor que são o oposto exato daquelas que o conceito de ligação subentende. Enquanto que qualificar uma pessoa como dependente tende a ser depreciativo, descrevê-la como ligada a alguém pode muito bem ser uma expressão de aprovação. Inversamente, ser uma pessoa desligada em suas relações pessoais é considerado, usualmente, como um comportamento que nada tem de admirável. O elemento depreciativo no conceito de dependência, o qual reflete um não-reconhecimento do valor que o comportamento de ligação tem para a sobrevivência, constitui uma fraqueza fatal para seu uso clínico.

No que se segue, o indivíduo que manifesta o comportamento de ligação é usualmente mencionado como criança, e a figura de ligação como mãe.

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Isso ocorre porque, até agora, o comportamento só foi minuciosamente estudado em crianças, O que se expõe, entretanto, é aplicável também a adultos e a quem quer que esteja atuando para eles como figura de ligação — freqüentemente um cônjuge, algumas vezes um dos pais e, com freqüência maior do que se poderia supor, um filho.

Foi assinalado em (f) que, quando a mãe está presente ou seu paradeiro é conhecido e ela está disposta a participar num intercâmbio amistoso, a criança geralmente deixa de apresentar o comportamento de ligação e prefere explorar o seu meio ambiente. Nessa situação, a mãe pode ser considerada como a fornecedora de uma base segura a partir da qual a criança fará suas explorações, e à qual regressará, sobretudo quando se cansar ou se assustar. No restante de sua vida, a pessoa é suscetível de manifestar o mesmo padrão de comportamento, afastando-se cada vez mais e por períodos cada vez maiores daqueles a quem ama, ainda que mantendo sempre o contato e regressando, mais cedo ou mais tarde. A base a partir de onde um adulto opera será a sua família de origem, ou então uma nova base que ele criou para si mesmo. Qualquer indivíduo que não possua tal base é um ser sem raízes e intensamente solitário.

Na descrição feita até agora, foram mencionados dois padrões de comportamento além da ligação, ou seja, a exploração e o cuidar.

Existem hoje evidências abundantes que apóiam o ponto de vista de que a atividade exploratória é de grande importância per se, habilitando um animal ou uma pessoa a formar um quadro coerente das características ambientais que podem, em qualquer momento, tornar-se importantes para a sobrevivência. Crianças e outras criaturas muito jovens são notoriamente curiosas e indagadoras, o que as leva comumente a se afastarem de suas figuras de ligação. Neste sentido, o comportamento exploratório é antitético do comportamento de ligação. Em indivíduos saudáveis, os dois tipos de comportamento normalmente se alternam.

O comportamento dos pais, e de qualquer pessoa que se incumba do papel de cuidar da criança, é complementar do comportamento de ligação. A função de quem dispensa esses cuidados consiste em, primeiro, estar disponível e pronto a atender quando solicitado, e, segundo, intervir judiciosamente no caso de a criança ou a pessoa mais idosa de quem se cuida estar prestes a meter-se em apuros. Não só isso constitui um papel básico, como existem provas substanciais de que o modo como é desempenhado pelos pais determina, em grau considerável, se a criança será mentalmente saudável ao crescer. Por essa razão, e também porque é esse o papel que desempenhamos quando agimos como psicoterapeutas, sustentamos que a nossa compreensão do mesmo se reveste de importância crucial para a prática da psicoterapia.

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Um outro ponto precisa ser assinalado, antes de examinarmos as implicações desse esquema para uma teoria da etiologia e psicopatologia, e, por conseguinte, para a prática psicoterapêutica. Refere-se à nossa compreensão da ansiedade e, em particular, da ansiedade de separação.

Um pressuposto muito comum das teorias psiquiátricas e da psicopatologia é de que o medo só deve manifestar-se em situações que sejam verdadeiramente perigosas, e que o medo que se manifesta em qualquer outra situação é neurótico. Isto leva à conclusão de que, como a separação de uma figura de ligação não pode ser considerada uma situação verdadeiramente perigosa, a ansiedade em torno da separação dessa figura é, portanto, neurótica. O exame das evidências mostra que tanto o pressuposto quanto a conclusão a que leva são falsos.

Quando abordada empiricamente, verifica-se que a separação de uma figura de ligação pertence a uma classe de situações passíveis de suscitar medo, sendo que, no entanto, nenhuma delas pode ser considerada intrinsecamente perigosa. Essas situações incluem, entre outras, o escuro, as mudanças súbitas e acentuadas no nível de estímulo: ruídos fortes, movimentos bruscos, pessoas estranhas e coisas insólitas. Há evidências de que animais de muitas espécies se alarmam em tais situações (Hinde, 1970), e de que isso também é verdadeiro no caso de crianças (Jersild, 1947), e mesmo de adultos. Além disso, o medo é especialmente suscetível de ser provocado quando duas ou mais dessas condições estão simultaneamente presentes, por exemplo, ouvir um ruído forte quando se está sozinho no escuro.

Sustenta-se que a explicação dos motivos pelos quais tão regularmente indivíduos reagem com temor a essas situações é que, embora nenhuma das situações seja intrinsecamente perigosa, cada uma delas comporta um risco maior. Ruído, estranhamento, isolamento e, para muitas espécies, a escuridão, são outras tantas condições estatisticamente associadas a um risco maior. O ruído pode ser o prenúncio de um desastre natural: incêndio, inundação ou terremoto. Para um animal jovem, um predador é estranho, movimenta-se e, com freqüência, ataca de noite, sendo muito mais provável que o faça quando a vítima está sozinha. Como tal comportamento promove assim o êxito da sobrevivência e da procriação, prossegue a teoria, verifica-se que os jovens das espécies que sobreviveram, incluindo o homem, são geneticamente propensos a se desenvolverem de modo a reagir ao ruído, estranheza, aproximação súbita e escuridão; as reações características, em tais casos, são a ação de evitação ou a fuga — de fato, eles se comportam como se o perigo estivesse realmente presente. De um modo comparável, reagem ao isolamento procurando companhia. As respostas de medo suscitadas pela ocorrência natural de tais indícios de perigo fazem parte do equipamento comportamental básico do homem (Bowlby, 1973).

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Vista sob este prisma, a ansiedade em tomo da separação involuntária de uma figura de ligação assemelha-se à ansiedade que o comandante de uma força expedicionária sente quando as comunicações com a sua base são cortadas ou ameaçadas.



Isso leva à conclusão de que a ansiedade em tomo de uma separação involuntária pode ser uma reação perfeitamente normal e saudável. O que pode ser difícil de explicar é por que tal ansiedade é despertada em algumas pessoas com uma intensidade tão grande ou, ao contrário, em outras, com tão pouca intensidade. Isso nos conduz a questões de etiologia e psicopatologia.

Ao longo de todo este século, tem sido acirrado o debate sobre o papel das experiências infantis na causação dos distúrbios psiquiátricos. Não só os psiquiatras de mentalidade tradicional têm sido céticos quanto à importância de tais experiências, como também os psicanalistas, nas décadas de 1960 e 1970, mostraram uma atitude idêntica. Durante muito tempo, a maioria dos analistas que atribuem importância à experiência da vida real concentraram suas atenções nos dois ou três primeiros anos de vida e em certas técnicas para cuidar de crianças — o modo como um bebê é alimentado e recebe treinamento de higiene — no fato de a criança presenciar ou não as relações sexuais dos pais. A atenção à interação familiar e ao modo como os pais tratam uma criança não foi estimulada. De fato, alguns extremistas sustentaram que o estudo sistemático das experiências de uma pessoa no seio de sua família está fora dos interesses próprios de um psicanalista.

Ninguém que se dedique à psiquiatria infantil, melhor denominada psiquiatria familiar, pode compartilhar de tal ponto de vista. Numa grande maioria de casos, não só existem evidências de relações familiares perturbadas mas, habitualmente, predominam problemas emocionais dos pais que derivam de suas próprias infâncias infelizes. Assim, sempre me pareceu que o problema não consiste em estudar ou não o ambiente familiar de um paciente mas em decidir que características são importantes, que métodos de investigação são exeqüíveis e que tipo de teoria se ajusta melhor aos dados. Uma vez que muitos outros adotaram o mesmo ponto de vista, uma quantidade considerável de pesquisas razoavelmente confiáveis vem sendo realizada por investigadores oriundos de várias disciplinas. É com base nos resultados dessas pesquisas, interpretados em termos da teoria da ligação, que ofereço agora as generalizações e as idéias que se seguem.

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O ponto fundamental de minha tese é que existe uma forte relação causal entre as experiências de um indivíduo com seus pais e sua capacidade posterior para estabelecer vínculos afetivos, e que certas variações comuns dessa capacidade, manifestando-se em problemas conjugais e em dificuldades com os filhos, assim como nos sintomas neuróticos e distúrbios de personalidade, podem ser atribuídas a certas variações comuns no modo como os pais desempenham seus papéis. Muitas das evidências em que a tese se baseia são retomadas no segundo volume de Attachment and Loss (Capítulo 15 em diante). A principal variável para a qual chamo a atenção é o grau em que os pais de uma criança (a) lhe fornecem uma base segura e (b) a estimulam a explorar a partir dessa base. Nesses papéis, o desempenho dos pais varia segundo vários parâmetros, dos quais o mais importante, porque permeia todas as relações, talvez seja o grau em que os pais reconhecem e respeitam o desejo e a necessidade que a criança tem de uma base segura, e ajustam seu comportamento a isso. Isto implica, em primeiro lugar, uma compreensão intuitiva do comportamento de ligação de uma criança e uma disposição para satisfazê-lo e, no momento adequado, terminá-lo; e, em segundo lugar, o reconhecimento de que uma das fontes mais comuns de raiva na criança é a frustração do seu desejo de amor e cuidados, e de que a sua ansiedade geralmente reflete a incerteza quanto à disponibilidade dos pais. Complementar em importância ao respeito dos pais pelos desejos de ligação de uma criança é o respeito pelo seu desejo de explorar e ampliar gradualmente suas relações com crianças de sua idade e com outros adultos.

As pesquisas sugerem que, em muitas áreas da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, mais da metade da população infantil está crescendo na companhia de pais que proporcionam tais condições a seus filhos pequenos. Geralmente, essas crianças crescem seguras e autoconfiantes, e mostram-se confiantes, cooperativas e prestativas para com as outras pessoas. Na literatura psicanalítica, diz-se que uma pessoa assim tem um ego forte; e pode ser descrita como alguém que é dotado de “confiança básica” (Erikson, 1950), “dependência madura” (Fairbairn, 1952), ou “introjetou um objeto bom” (Klein, 1948). Nos termos da teoria da ligação, a pessoa é descrita como tendo construído um modelo representacional de si mesma como sendo capaz de se ajudar e merecedora de ser ajudada se surgirem dificuldades.

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Por outro lado, muitas crianças (em algumas populações, um terço ou mais) crescem com pais que não oferecem essas condições. Cumpre assinalar aqui que o foco de atenção está nas relações que os pais têm com um determinado filho, uma vez que os pais não tratam todos os filhos da mesma maneira e podem proporcionar condições excelentes para um e condições muito adversas para um outro.



Consideremos alguns dos padrões de desvio mais comuns de comportamento de ligação apresentados por adolescentes e também por adultos, com exemplos de experiências típicas da infância que aqueles que apresentam tais padrões provavelmente tiveram quando crianças, e talvez ainda tenham.

Muitos daqueles que são encaminhados a psiquiatras são indivíduos ansiosos, inseguros, geralmente descritos como superdependentes ou imaturos. Em condição de estresse, tendem a desenvolver sintomas neuróticos, depressão ou fobia. As pesquisas revelam que eles estiveram expostos a pelo menos um, e geralmente mais de um, de certos padrões típicos da parentalidade patogênica, os quais incluem:

(a) ausência persistente de respostas de um ou ambos os pais ao comportamento eliciador de cuidados, da criança, e/ou depreciação e rejeição marcada;

(b) descontinuidades da parentalidade, ocorrendo mais ou menos freqüentemente, incluindo períodos em hospital ou instituição;

(c) ameaças persistentes por parte dos pais de não amar a criança, usadas como um meio para controlá-la;

(d) ameaças, por parte dos pais, de abandonar a família, usadas ou como um método de disciplinar a criança ou como uma forma de coagir o cônjuge;

(e) ameaças por parte de um dos pais de abandonar ou mesmo de matar o outro, ou então de cometer suicídio (estas ameaças são mais comuns do que se poderia supor);

(f) indução de culpa à criança, afirmando que o comportamento dela é ou será responsável pela doença ou morte de um dos pais.

Qualquer dessas experiências pode levar uma criança, um adolescente ou um adulto a viver em constante ansiedade, com medo de perder sua figura de ligação e, por conseguinte, a ter um baixo limiar para a manifestação do comportamento de ligação. A condição é melhor descrita como de ligação ansiosa (*).
(*) Não existe qualquer prova em favor da idéia tradicional, ainda generalizada, de que tal pessoa foi tratada com excessiva complacência quando criança e que, por isso, acabou “estragada pelo mimo”.

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Um conjunto adicional de condições a que alguns desses indivíduos estiveram expostos, ou ainda estão, é quando um dos pais, geralmente a mãe, exerce pressão sobre eles para atuarem como figura de ligação para ela, invertendo assim a relação normal. Os meios de exercer tal pressão variam desde o encorajamento inconsciente de um senso prematuro de responsabilidade para com os outros, até o uso deliberado de ameaças ou indução de culpa. Os indivíduos tratados dessa maneira são passíveis de se tornarem excessivamente escrupulosos e dominados por sentimentos de culpa, assim como ansiosamente ligados. Uma maioria de casos de fobia escolar e agorafobia se produz, provavelmente, desse modo.

Todas as variantes de comportamento parental até aqui descritas são suscetíveis não só de provocar raiva dos pais na criança, mas também de inibir a sua expressão. O resultado é muito ressentimento parcialmente inconsciente, o qual persiste na vida adulta e expressa-se, geralmente, num afastamento em relação aos pais e numa aproximação em relação a alguém mais fraco, por exemplo, um cônjuge ou um filho. É provável que tal pessoa também esteja sujeita a fortes anseios inconscientes de amor e apoio, os quais podem expressar-se por alguma forma aberrante de comportamento eliciador de cuidados, por exemplo, tentativas frouxas de suicídio, sintomas de conversão, anorexia nervosa, hipocondria, etc. (Henderson, 1974).

Um padrão de comportamento de ligação que é abertamente o oposto da ligação ansiosa é o descrito por Parkes (1973) como autoconfiança compulsiva. Ao invés de buscar o amor e os cuidados de outros, uma pessoa que apresenta esse padrão insiste em agüentar firme e em fazer tudo por si mesma, sejam quais forem as condições. Também essas pessoas são passíveis de desmoronar sob estresse e apresentar sintomas psicossomáticos ou depressão.

Muitas dessas pessoas tiveram experiências semelhantes às dos indivíduos que desenvolvem uma ligação ansiosa; mas reagiram a elas de modo diferente, inibindo o sentimento e o comportamento de ligação, e negando, talvez até ridicularizando, qualquer desejo de relações estreitas com quem quer que pudesse dar amor e carinho. No entanto, não é preciso ter muito discernimento para compreender que elas desconfiam profundamente de quaisquer relações íntimas e aterroriza-as a simples idéia de terem que confiar em outra pessoa, em alguns casos para evitar a dor de serem rejeitadas, e, em outros, para evitar serem submetidas a pressões que as obriguem a cuidar de outra pessoa. Tal como no caso da ligação ansiosa, é provável que exista muito ressentimento subjacente, o qual, quando suscitado, se volta contra pessoas mais fracas, e também muito anseio inexprimido de amor e apoio.

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Um padrão de comportamento de ligação relacionado com a auto-confiança compulsiva é o de solicitude compulsiva. Uma pessoa que o manifesta pode envolver-se em muitas relações íntimas, mas sempre no papel de dispensar cuidados, nunca de os receber. Com freqüência, o indivíduo escolhido é um aleijado que poderá, por algum tempo, agradecer os cuidados que lhe dispensam. Mas no caso da solicitude compulsiva, a pessoa esforça-se também por cuidar de quem não procura nem agradece tal ajuda. A experiência típica da infância de tais pessoas é terem tido uma mãe que, devido à depressão ou algum outro impedimento, não pôde cuidar da criança mas, em vez disso, aceitou de bom grado ser cuidada, e talvez tenha exigido também ajuda para cuidar de irmãos mais novos. Assim, desde o começo da infância, a pessoa que se desenvolve desse modo descobre que o único vínculo afetivo de que dispõe é um vínculo em que é sempre ela que deve ser solícita para com os outros e que a única atenção que poderá receber é a atenção que dá a si mesma. (As crianças que crescem em instituições também se desenvolvem, por vezes, desse modo.) Tal como na autoconfiança compulsiva, também neste caso existe muito anseio latente de amor e solicitude, e muita raiva latente para com os pais por não lhes terem dado amor e atenção; e, uma vez mais, muita ansiedade e culpa em tomo da expressão desses desejos. Winnicott (1965) descreveu indivíduos desse tipo como tendo desenvolvido um “falso eu” e concorda em que a sua origem deve ser encontrada na pessoa que, quando criança, não recebeu cuidados matemos “suficientemente bons”. Ajudar essa pessoa a descobrir o seu “verdadeiro eu” implica ajudá-la a reconhecer e a deixar-se possuir pelo seu anseio de amor e atenção, e por sua raiva para com aqueles que não souberam supri-la quando criança.



Os eventos da vida que são especialmente passíveis de atuar como fatores de estresse em indivíduos cujo comportamento de ligação se desenvolveu em uma ou outra das direções até aqui descritas são a doença grave ou morte de uma figura de ligação ou de alguém a quem se era muito afeiçoado, ou alguma outra forma de separação. Uma doença grave intensifica a ansiedade e talvez a culpa. A morte ou a separação confirmam as piores expectativas da pessoa e levam ao desespero e à angústia. Nessas pessoas, o luto por uma morte ou separação poderá seguir um curso atípico. No caso da ligação ansiosa, o luto tende a se caracterizar por uma raiva extraordinariamente intensa e (ou) auto-recriminação acompanhada de depressão, e tende a persistir por muito mais tempo que o normal. No caso da autoconfiança compulsiva, o luto pode ser protelado por meses ou anos. Entretanto, irritabilidade e tensão geralmente estão presentes e podem ocorrer depressões episódicas, mas muitas vezes tanto tempo depois, que se perde de vista a conexão causal com a morte ou separação. Estas formas patológicas de luto são discutidas por Parkes (1972).

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As pessoas do tipo até aqui descrito não só são sujeitas a entrar em colapso após uma perda ou separação, como também podem deparar-se com certas dificuldades típicas quando casam e têm filhos. Em relação a um cônjuge, uma pessoa pode apresentar uma ligação ansiosa e fazer constantes exigências de amor e atenção; ou ainda pode apresentar uma solicitude compulsiva para com o cônjuge, com ressentimento latente por lhe parecer que não esteja sendo apreciada e nem correspondida. Em relação a um filho, esses padrões também podem se manifestar. No primeiro caso, a pessoa (pai ou mãe) exige que o filho cuide dela e, no segundo, insiste em cuidar do filho mesmo quando isso deixou de ser apropriado, o que resulta em “amor sufocante” (*). Distúrbios do comportamento dos pais resultam também do fato de o filho ser percebido e tratado como se fosse um irmão mais novo, o que pode resultar, por exemplo, em um pai sentir ciúme das atenções que sua mulher dispensa ao filho de ambos.

Uma outra forma comum de distúrbio é quando um dos pais vê em seu filho uma réplica dele mesmo, especialmente daqueles aspectos que ele se empenhou em reprimir em si mesmo e que se esforça agora por reprimir também na criança. Nesses esforços, o pai (ou a mãe) usará provavelmente uma versão dos mesmos métodos de disciplina — talvez rudes e violentos, talvez reprovadores e sarcásticos, talvez indutores de culpa — a que foi submetido (a) em criança e que resultaram no desenvolvimento dos mesmos problemas que se empenha agora em prevenir ou curar, de maneira tão inadequada, no próprio filho. Um marido também pode perceber e tratar sua mulher do mesmo modo. Analogamente, uma esposa e mãe pode adotar esse padrão em sua percepção e maneira de tratar o marido ou o filho. Quando nos defrontamos com um comportamento desagradável e frustrador desse tipo, é importante lembrar que cada um de nós é capaz de fazer a outros aquilo que nos foi feito. O adulto tirano, que maltrata os mais fracos, é a criança tiranizada e maltratada que cresceu.


(*) O termo “simbiótico” é usado, por vezes, para descrever essas relações sufocantemente íntimas. Contudo, o termo não foi bem escolhido, visto que, em biologia, refere-se a uma parceria mutuamente vantajosa entre dois organismos, ao passo que as relações familiares assim denominadas são seriamente desajustadas. Descrever a criança como “superprotegida” é igualmente errôneo, pois não são levadas em conta as insistentes exigências de atenção que um dos pais está fazendo à criança.

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Quando um indivíduo adota em relação a si mesmo ou aos outros as mesmas atitudes e formas de comportamento que seus próprios pais adotaram e podem estar ainda adotando em relação a ele, pode-se afirmar que ele se identifica com um dos pais. Os processos pelos quais essas atitudes e formas de comportamento são adquiridas são, presumivelmente, os da aprendizagem por observação e, assim, não diferem dos processos pelos quais outras formas complexas de comportamento são adquiridas, inclusive as habilidades úteis.

Dos muitos outros padrões de funcionamento familiar e desenvolvimento da personalidade perturbados que podem ser entendidos em termos do desenvolvimento patológico do comportamento de ligação, um dos mais conhecidos é o indivíduo emocionalmente desligado, incapaz de manter um vínculo afetivo estável com quem quer que seja. As pessoas com essa incapacidade são classificadas como psicopatas e (ou) histéricas. São freqüentemente delinqüentes e suicidas. A história típica é de prolongada privação de cuidados matemos durante os primeiros anos de vida, geralmente combinada com rejeição posterior ou ameaças de rejeição pelos pais ou pais adotivos (*).

Para explicar por que indivíduos de diferentes tipos continuam apresentando as características descritas muito depois de terem crescido, parece necessário postular que, sejam quais forem os modelos representacionais de figuras de ligação e do eu que um indivíduo constrói durante sua infância e adolescência, eles tendem a persistir relativamente inalterados até e durante toda a vida adulta. Por conseguinte, esse indivíduo tende a assimilar qualquer nova pessoa com quem possa formar um vínculo afetivo, a esposa ou um filho, um patrão ou o terapeuta, a um modelo existente (o de um ou outro de seus pais ou do próprio eu), e continua freqüentemente a fazê-lo, apesar de repetidas provas de que o modelo é inadequado. Analogamente, espera ser percebido e tratado por essas pessoas de um modo que seja apropriado ao seu modelo do eu, e continuará com tais expectativas apesar de provas em contrário. Tais percepções e expectativas distorcidas levam a diversas crenças errôneas sobre as outras pessoas, a falsas expectativas acerca do modo como elas se comportarão e a ações inadequadas, com a intenção de frustrar o comportamento esperado delas. Assim, para darmos um simples exemplo, um homem que durante a infância foi freqüentemente ameaçado de abandono pode facilmente atribuir intenções semelhantes à sua esposa. Portanto, interpretará as coisas que ela diz ou faz em função
(*) Como todas as condições psiquiátricas mencionadas representam graus e padrões variáveis da mesma psicopatologia subjacente, não existem mais perspectivas de distinguir nitidamente umas das outras do que de distinguir nitidamente entre diferentes formas de tuberculose. Para explicar as diferenças, provavelmente são importantes os fatores genéticos, assim como as variações nas experiências pessoais de diferentes indivíduos.

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dessas intenções que lhe atribui, e tomará então qualquer iniciativa que julgue ser a melhor para enfrentar a situação que acredita existir. Sobrevirão equívocos e conflitos. Em tudo isso, ele não tem consciência de que está sendo influenciado por suas experiências passadas, nem de que suas atuais crenças e expectativas são infundadas.

Na teoria tradicional, os processos descritos são freqüentemente citados em termos de “internalização de um problema”, e as atribuições e percepções errôneas são imputadas à projeção, introjeção ou fantasia. Não só as afirmações resultantes tendem a ser ambíguas como também o fato de tais atribuições e percepções errôneas derivarem diretamente de experiências prévias da vida real só recebe uma vaga alusão, ou então é inteiramente obscurecido. Acredito que a descrição dos processos em termos da psicologia cognitiva garante muito maior precisão e possibilita a formulação de hipóteses em forma testável a respeito do papel causal dos diferentes tipos de experiência infantil, através da persistência de modelos representacionais de figuras de ligação e do eu num nível inconsciente.

Cumpre assinalar que modelos representacionais inadequados mas persistentes coexistem freqüentemente com outros mais apropriados. Por exemplo, um marido pode oscilar entre acreditar que sua esposa lhe é fiel e suspeitar de que ela pretende abandoná-lo. A experiência clínica sugere que quanto mais fortes forem as emoções despertadas numa relação, mais provável será que se tomem dominantes os modelos mais primitivos e menos conscientes. Explicar esse funcionamento mental, que é tradicionalmente discutido em termos de processos defensivos, apresenta um desafio aos psicólogos cognitivos — mas um desafio do qual eles já estão se ocupando (por exemplo, Erdelyi, 1974) (2).

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