Formação e rompimento dos laços afetivos



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Nota de rodapé:
*(1). [Referência ao pintarroxo europeu, n5o ao americano.]

*(2). Neste parágrafo e nos seguintes, uso a terminologia tradicional quando em refiro a “existências libidinais” ou “necessidades libidinais”. Hoje, prefiro referir-me ao desejo de ligação de uma criança ou, talvez, á “busca de uma ligação segura” da criança.

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Ao contrário de alguns analistas que são pessimistas quanto ao vigor inato dos impulsos de uma criança, acredito que essa condição é, na maioria das crianças, resolvida com relativa facilidade, contanto que elas tenham pais carinhosos. Se um bebê tem o amor e a companhia de sua mãe e logo também a de seu pai, ele crescerá sem uma pressão exagerada de anseios libidinais e sem uma propensão irresistível para odiar. Se não tiver essas coisas, seus anseios libidinais provavelmente serão muito elevados, o que significa que o bebê estará procurando constantemente amor e afeição, e será continuamente propenso a odiar aqueles que não conseguem — ou lhe parecem não conseguir — dar-lhe o afeto que ele tanto deseja.

Embora a necessidade irresistível que uma criança tem de amor e segurança seja hoje um fato muito conhecido, há quem proteste contra isso. Por que haveria um bebê de fazer tais imposições? Por que não pode ficar satisfeito com menos cuidados e atenções? Como poderemos arranjar as coisas de modo que os pais tenham tempos mais tranqüilos e menos sobrecarregados? Talvez um dia, quando soubermos mais a respeito das necessidades libidinais de uma criança pequena, estejamos aptos a descrever de um modo mais preciso os seus requisitos mínimos. Entrementes, será aconselhável respeitar as suas necessidades e compreender que negá-las equivale freqüentemente a gerar na criança forças poderosas de exigências libidinais e a propensão para odiar; e isso pode, mais tarde, causar grandes dificuldades tanto para ela como para nós.

Não minimizemos os problemas que a necessidade de satisfazer as exigências de seus bebês cria para as mulheres. Em tempos idos, quando a educação superior lhes era vedada, havia menos conflito entre as exigências da família e da carreira, embora a frustração para mulheres competentes e ambiciosas fosse grande. Hoje, as coisas são muito diferentes. As mulheres ingressam em profissões onde passaram a desempenhar um papel indispensável. Com efeito, em todos os campos ligados à saúde e ao bem-estar infantil, elas têm figurado entre os nossos líderes. Esse progresso, entretanto, como todo o crescimento e desenvolvimento, acarretou suas próprias tensões, e muitas leitoras conhecerão pessoalmente o problema das exigências conflitantes de família e carreira. A solução não é fácil e — nem fica bem para aqueles que, entre nós, têm a sorte de não se defrontarem com o problema — ditar as leis com que o outro sexo deveria resolvê-lo. Esperemos que, com o correr do tempo, a nossa sociedade, ainda predominantemente organizada segundo as conveniências dos homens e pais, se ajuste às necessidades das mulheres e mães, e que as tradições sociais evoluam de modo a guiar os indivíduos num rumo esclarecido de ação.

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Voltemos agora ao nosso tema e vejamos o que acontece quando, por qualquer razão, as necessidades de um bebê não são suficientemente satisfeitas no momento certo. Há alguns anos venho investigando os efeitos nocivos que acompanham a separação de crianças pequenas de suas mães, depois que entre elas se formaram relações emocionais. Foram muitas as razões pelas quais escolhi esse tópico para as minhas pesquisas: em primeiro lugar, os resultados têm aplicação imediata e valiosa; em segundo lugar, é uma área em que podemos obter dados comparativamente sólidos e, assim, mostrar àqueles que ainda são hiper-críticos da psicanálise que esta possui boas razões para reivindicar o status científico; finalmente, a experiência de uma criança pequena, ao ser separada de sua mãe, fornece-nos um exemplo dramático, quando não trágico, desse problema central da psicopatologia — a geração de um conflito de tal envergadura que os meios normais para resolvê-lo são destroçados.

Parece existir agora uma razoável certeza de que é por causa da intensidade da demanda libidinal e do ódio gerados que a separação de uma criança de sua mãe, depois que formou com ela uma relação emocional, pode acarretar efeitos tão devastadores para o desenvolvimento de sua personalidade. Conhecemos há vários anos a saudade intensa e a agitação que tantas crianças pequenas manifestam quando da internação num hospital ou instituição residencial, e o modo desesperado como, mais tarde, depois que seus sentimentos acalmaram com o regresso ao lar, se agarram a suas mães e as seguem obstinadamente. O aumento de intensidade de suas exigências libidinais não precisa ser enfatizado. Também tomamos conhecimento do modo como essas crianças rejeitam suas mães quando voltam a vê-las pela primeira vez, e as acusam amargamente por as terem abandonado.

Muitos exemplos de intensa hostilidade contra a figura mais amada foram registrados por Anna Freud e Dorothy Burlingham nos relatórios das Hampstead Nurseries durante a guerra. Um exemplo particularmente pungente é o de Reggie, que, com exceção de um intervalo de dois meses, passou toda a sua vida em creches desde os cinco meses de idade. Durante a sua estada, ele formara “duas relações apaixonadas com duas jovens assistentes que cuidaram dele em diferentes períodos. A segunda ligação foi subitamente quebrada aos dois anos e oito meses, quando a ‘sua’ assistente casou. Reggie sentiu-se completamente perdido e desesperado quando ela saiu, e recusou-se a olhá-la quando, quinze dias depois, ela o visitou. Virou a cabeça para o outro lado quando ela lhe falou, mas fixou os olhos na porta, que a moça fechou ao sair. A noite, sentou-se na cama e disse: ‘Minha, muito minha Mary-Ann! Mas não gosto dela’”. (Burlingham e Freud, 1944:51.)

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Experiências como essa, especialmente se repetidas, levam a um sentimento de desamor, abandono e rejeição. São esses sentimentos que se expressam nos poemas tragicômicos de um delinqüente de onze anos cuja mãe morreu quando ele estava apenas com quinze meses de idade e que, a partir de então, conhecera numerosas mães-substitutas. Eis alguns dos seus versos (não estou certo se originais ou não), escritos durante o seu tratamento com a minha colega, Yana Popper, os quais parecem expressar o que ele achava ser a razão de ter passado sucessivamente de uma figura materna para outra:
Jumbo had a baby dressed in green,

wrapped it up in paper and sent it to the Queen.

The Queen did not like it because it was too fat,

She cut it up in pieces and gave it to the cat.

The cat did not like it because it was too thin,

She cut it up in pieces and gave it to the King.

The King did not like it because he was too slow,

Threw it out the window and gave it to the crow. *(1).


Mais tarde, quando a sua terapeuta saiu de férias, ele exprimiu, na letra de uma canção tradicional, o seu desespero por não ser amado:
Oh, my little darling, 1 love you;

Oh, my little darling, 1 don ‘t believe you do.

If you really loved me, as you say you do,

You would not go to America and leave me at the Zoo. *2).


Dificilmente surpreenderá que um desespero tão intenso esteja conjugado com um ódio igualmente intenso. Quanto mais Reggie se sentia ligado à sua terapeuta, mais propenso era a explosões de ódio violento, algumas das quais chegavam a ser quase perigosas. Parecia evidente que as repetidas separações em seus primeiros anos de vida tinham gerado nesse menino a tendência a uma intensa ambivalência, de tal amplitude, que o seu equipamento psíquico imaturo fora incapaz de regular harmoniosamente, e que os padrões patológicos de regulação adotados em seus primeiros anos persistiram.

Nota de rodapé:


*(1). Tradução literal: “Jumbo teve um bebê vestido de verde / embrulhou-o e mandou-o à Rainha. / A Rainha não gostou dele por ser muito gordo, / Cortou-o em pedacinhos e deu-o ao gato. / O gato não gostou porque ele era muito magro, / Cortou-o em pedacinhos e deu-o ao Rei. / O Rei não gostou porque ele era muito lento, /Jogou-o pela janela e deu-o ao corvo.” (N. do T.).

*(2). Tradução literal: “Oh, meu benzinho, eu te amo;/ Oh, meu benzinho, não acredito que você me ame. / Se realmente me amasse como diz, / Não iria para a América, deixando-me no zoo”. (N. do T.).

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Outras provas do modo como a separação da mãe provoca numa criança pequena intensa necessidade libidinal e ódio são fornecidas por um estudo do meu colega Christoph Heinicke (1956). Ele comparou as respostas de dois grupos de bebês entre 15 e 30 meses de idade; um grupo estava numa instituição residencial, o outro, numa creche diurna. Embora as crianças de ambos os grupos mostrassem preocupações em recuperar os pais perdidos, os da instituição residencial expressaram seus desejos com muito mais choro — em outras palavras, mais intensamente; do mesmo modo, as crianças da instituição residencial, e não as da creche, foram as que, em várias situações, se mostraram propensas a agir de forma violentamente hostil. Embora seja apenas uma inferência que essa hostilidade é inicialmente dirigida contra os pais ausentes, certos dados desse estudo estatisticamente fundamentado são compatíveis com a hipótese, formulada há alguns anos (Bowlby, 1944), de que um dos principais efeitos da separação mãe-criança é uma grande intensificação do conflito de ambivalência.

Até aqui, ao considerarmos o que concorre para dificultar a regulação da ambivalência, nos primeiros anos da infância, concentramos a atenção em experiências, como a privação materna, que conduzem ao anseio libidinal e ao ódio em níveis particularmente elevados. Existem muitos outros eventos, além desse, que podem, naturalmente ocasionar problemas. A vergonha e o medo, por exemplo, também podem gerar grandes dificuldades. Nada ajuda mais uma criança do que poder expressar francamente, de um modo direto e espontâneo, seus sentimentos de hostilidade e ciúme; e não existe, creio eu, tarefa parental mais válida do que ser capaz de aceitar com serenidade expressões de devoção filial tais como “Detesto você, mamãe”, ou “Papai, você é um bruto”. Ao tolerarmos tais explosões, mostramos aos nosso filhos que não tememos essas manifestações hostis e que confiamos em que podem ser controladas; além disso, propiciamos à criança a atmosfera de tolerância e compreensão em que o autocontrole pode desenvolver-se.

Alguns pais acham difícil que tais métodos sejam eficazes ou sensatos, e pensam que se deveria inculcar nas crianças que o ódio e o ciúme não são apenas coisas ruins, mas potencialmente perigosas. Há dois métodos comuns para fazer isso. Um deles é a expressão veemente de reprovação por meio do castigo; o outro, mais sutil e explorando o sentimento infantil de culpa, consiste em incutir na criança a certeza de que está sendo ingrata, e indicar-lhe o sofrimento, físico e moral, que tal comportamento causa em seus dedicados pais. Embora ambos os métodos pretendam controlar as paixões malignas da criança, a experiência clínica sugere que nem um nem outro é muito bem-sucedido na prática, e que ambos acarretam um pesado ônus de infelicidade.

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Os dois métodos tendem a fazer com que a criança receie seus sentimentos e se culpe por eles, levando-a a recalcá-los e, assim, tornando-lhe mais (e não menos) difícil controlá-los. Ambos tendem a criar personalidades difíceis: o primeiro — a punição — gerando rebeldes e, se for muito severo, delinqüentes; o segundo — a vergonha — neuróticos carregados de sentimentos de culpa e de ansiedade. Assim é na política, assim é com as crianças: a longo prazo, a tolerância da oposição paga belos dividendos.

Sem dúvida, muito do que foi dito até aqui é terreno conhecido: as crianças necessitam de amor, segurança e tolerância. Tudo isso está muito certo, dirão, os leitores, mas quer dizer que nunca podemos frustrar nossos filhos e devemos deixar que eles façam tudo o que quiserem? Toda essa evitação da frustração somente levará, dirão ainda, a que eles cresçam como filhos bárbaros de pais espezinhados e oprimidos. Acredito que isso seja uma conclusão que nada tem a ver com as premissas; mas como se trata de uma conclusão usada tão comumente, vale a pena ocuparmo-nos dela em maior detalhe.

Em primeiro lugar, as frustrações realmente importantes são as que dizem respeito à necessidade que a criança tem de amor e atenção por parte dos pais. Desde que essas necessidades sejam satisfeitas, as frustrações de outras espécies importam muito pouco. Não que sejam particularmente boas para a criança. Com efeito, uma das artes de ser um bom pai ou uma boa mãe reside na habilidade para distinguir as frustrações evitáveis das inevitáveis. Uma quantidade imensa de atrito e raiva em crianças pequenas, e de perda de paciência por parte dos pais, pode ser evitada por procedimentos simples como apresentar um brinquedo atraente antes de intervir para retirar das mãos da criança a melhor peça de porcelana da mãe, ou atraí-la para a cama com insinuante bom humor em vez de exigir a pronta obediência, ou permitir-lhe que escolha a sua própria dieta e coma ao seu próprio jeito, incluindo, se ela assim o desejar, o uso da mamadeira até os dois anos de idade ou mais. A quantidade de ansiedade e irritação que resultam da expectativa de que crianças pequenas se conformem às nossas próprias idéias sobre o que, como e quando devem comer é ridícula e trágica — ainda mais por dispormos hoje de tantos estudos minuciosos que demonstram a eficiência com que bebês e crianças pequenas podem regular suas próprias dietas, e a conveniência e comodidade que resultam para os pais quando esses métodos são adotados (Davis, 1939).

Admitido, entretanto, que existem muitas situações em que a frustração de uma criança pode ser evitada sem inconvenientes para nós e com efeitos benéficos sobre o estado de ânimo de todos, há outras situações em que não pode. O fogo é perigoso, a porcelana quebra, a

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tinta mancha tapetes, uma faca pode ferir uma outra criança e ferir também a própria criança. Como evitaremos essas catástrofes? A primeira regra é organizar a casa de modo que os fósforos e outros artigos combustíveis estejam sempre guardados, e que as porcelanas, facas e tintas fiquem sempre fora do alcance. A segunda é a intervenção cordial mas firme. E curioso como tantos adultos inteligentes pensam que a única alternativa para deixar uma criança correr solta é infligir-lhe castigos. Uma política de intervenção firme mas amistosa, sempre que uma criança estiver fazendo alguma coisa que queremos impedir, não só cria menos azedume do que uma punição mas, a longo prazo, é muito mais eficaz. Creio que uma das grandes ilusões da civilização ocidental é a eficácia do castigo como um meio de controle. Para crianças mais velhas e adultos, a punição tem seus usos como auxiliar de outros métodos; acredito que, nos primeiros anos, o castigo é despropositado por ser desnecessário e porque pode criar, através da ansiedade e do ódio, males muito maiores do que aqueles que pretendia curar.

Felizmente, com os bebês e as crianças de pouca idade, que são muito menores do que nós, a intervenção amistosa é fácil; num abrir e fechar de olhos, podemos agarrar uma criança e levá-la para longe do lugar de perigo. O preço que isso exige é a nossa presença quase constante, um preço que aconselhamos os pais a pagarem. Em todo caso, não tem qualquer fundamento a idéia de que as crianças pequenas podem ser disciplinadas para obedecer a regras, de modo que se mantenham na linha, mesmo em nossa ausência. As crianças rapidamente aprendem a saber do que é que nós gostamos e não gostamos, mas não possuem o equipamento psíquico necessário para satisfazer sempre os nossos desejos em nossa ausência. A menos que se aterrorize uma criança ao ponto de levá-la à inércia, o disciplinamento de nossos filhos está fadado ao fracasso, e aqueles que o tentam só podem esperar frustração e exaustão. Um modelo que exemplifica a prática da intervenção firme mas amigável é a professora talentosa de jardim de infância, e os pais podem aprender muito com os métodos que ela usa.

Cumpre assinalar que essa técnica de intervenção amistosa não só evita a estimulação da raiva e do azedume, ainda que inconscientes, que acredito serem inseparáveis da punição, mas fornece à criança um modelo para a regulação efetiva de seus conflitos. Mostra-lhe que a violência, o ciúme e a voracidade podem ser dominados por meios pacíficos e que não há necessidade de recorrer a métodos drásticos de condenação e punição que, quando copiados por uma criança, podem sofrer distorções e converter-se, por causa de sua imaginação primitiva, em culpa e implacável autopunição patológicas. Trata-se, é claro, de

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uma técnica baseada na concepção que Donald Winnicott nos expôs, de acordo com os ensinamentos de Melanie Klein — a concepção segundo a qual existe nos seres humanos a semente de uma moralidade inata que, se tiver oportunidade de germinar, proporciona à personalidade da criança os alicerces emocionais do comportamento moral. É uma noção que coloca a par do conceito de pecado original, do qual a psicanálise descobre tantas provas no coração humano, o conceito de preocupação original pelo nosso semelhante ou de bondade original, a qual, se beneficiada por circunstâncias favoráveis, acabará por ganhar a primazia. É uma concepção cautelosamente otimista da natureza humana, que acredito ser justificada.
Problemas emocionais dos pais.
Vimos até aqui algumas das condições para o cuidado com crianças que parecem suscetíveis de promover o desenvolvimento saudável da capacidade de regular o conflito. E o momento adequado para considerar o problema do ponto de vista dos pais. Poder-se-á perguntar se estamos aconselhando os pais a serem eternamente amorosos, tolerantes e controladores amistosos. Penso que não... e, como pai, espero que não. Nós, pais, também temos nossos sentimentos de raiva e ciúme; e, quer isso nos agrade ou não, é inevitável que eles por vezes se exprimam, quando não de um modo deliberado, pelo menos inadvertidamente. É minha convicção, e certamente minha esperança, que, se os antecedentes gerais de sentimento e relacionamento são bons, uma explosão ocasional de mau humor ou uma palmada eventual não podem causar sérios danos; isso tem a vantagem, por certo, de aliviar os nossos próprios sentimentos e, talvez, de mostrar também aos nossos filhos que temos os mesmos problemas que eles. Tais expressões espontâneas de emoção, talvez com um pedido subseqüente de desculpas se tivermos ido longe demais, podem distinguir-se nitidamente da punição, com seu pressuposto formal sobre o certo e o errado. O aforismo de Bernard Shaw, de nunca bater numa criança, a não ser quando se estiver com a cabeça quente, é um bom conselho.

Um ponto que aqueles que não são pais devem ter em mente é que sempre foi muito mais fácil cuidar dos filhos dos outros do que dos próprios. Em virtude do vínculo emocional que liga a criança aos pais e os pais à criança, as crianças sempre se comportam de um modo mais “infantil” com seus pais do que com outras pessoas. Ouve-se com freqüência pessoas bem intencionadas comentarem que uma certa criança

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se comporta maravilhosamente com elas, e que o seu comportamento difícil com a mãe se deve à maneira insensata como esta lida com o filho; a acusação usual é que a mãe a estraga com mimos! Tais críticas geralmente são injustificadas e constituem, com muito mais freqüência, manifestações da ignorância de quem critica do que de incompetência dos pais. Isto é verdadeiro até no mundo das aves. Jovens tentilhões perfeitamente capazes de se alimentarem por si mesmos, começam imediatamente implorando comida, de um modo infantil, assim que avistam seus pais.

Os pais, especialmente a mãe, são, pois, pessoas muito caluniadas; receio que caluniadas sobretudo pelos profissionais, tanto médicos como profissionais de outras áreas afins. No entanto, seria absurdo pretender que os pais não cometam erros. Alguns erros nascem da ignorância, mas talvez mais numerosos sejam os que são fruto dos problemas emocionais inconscientes que têm origem em nossa própria infância. Quando examinamos crianças numa clínica de orientação infantil, pode parecer que, num certo número de casos, as suas dificuldades resultam da ignorância dos pais sobre coisas tais como os efeitos nocivos da privação materna ou da punição prematura e excessiva, mas, com freqüência muito maior, os problemas surgem porque os próprios pais têm dificuldades emocionais de que só estão parcialmente conscientes e que não podem controlar. Por vezes, eles leram todos os livros mais recentes sobre cuidados com crianças e assistiram a todas as conferências de psicólogos, na esperança de descobrirem a melhor maneira de lidar com seus filhos, mas, apesar disso, as coisas continuam saindo erradas. De fato, o fracasso de muitos pais cheios de “idéias psicológicas” na realização de um bom trabalho na criação dos filhos deixou-os céticos, desvalorizando as idéias. Isso é um erro. O que devemos entender, contudo, é que o importante não é apenas o que fazemos, mas o modo como o fazemos. Se a mãe é ansiosa e ambivalente, amamentar quando o bebê pede acarretará provavelmente mais problemas do que a amamentação rotineira, regulada pelo relógio, quando a mãe é uma pessoa descontraída e feliz. O mesmo acontece com os métodos modernos versus métodos antiquados de treinamento de hábitos de higiene. Isso não significa que os métodos modernos não sejam melhores; quer dizer que eles são apenas uma parte daquilo que importa, e que os seres humanos, desde a infância, são mais sensíveis às atitudes emocionais daqueles que os cercam do que a qualquer outra coisa.

Não há mistério nisso; nem há necessidade de invocar um sexto sentido. Os bebês são mais sensíveis e estão mais atentos ao significado de tons de voz, gestos e expressões faciais do que os adultos; e, desde os

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primeiros dias de vida, são profundamente sensíveis ao modo como são manipulados *(1). Uma mãe extremamente ansiosa, de quem estou tratando, disse-me como descobriu que seu bebê de dezoito meses, de quem se queixa por ser muito chorão e apegado a ela, reage de maneira muito diferente conforme a maneira como vê a mãe sair do quarto. Se ela se levanta de um salto e sai correndo para evitar que a panela que está fervendo derrame, o bebê chora e exige que ela volte. Mas se a mãe sai do quarto calmamente e sem estardalhaço, ele mal se apercebe de que ficou sozinho. Além da compreensão intelectual, que eu não menosprezo, é sobretudo da sensibilidade dos pais para as reações de seu bebê e da capacidade, sobretudo da mãe, para se adaptar intuitivamente às necessidades dele que nasce uma prática eficaz de cuidar das crianças.

Isto não constitui novidade nenhuma. Ouvimos freqüentemente de professores e outros profissionais que uma criança está sofrendo por causa da atitude de um de seus pais, geralmente a mãe. Dizem-nos que a mãe é uma criatura excessivamente ansiosa ou repressora do bebê, super-possessiva ou propensa à rejeição, e tais comentários são repetidamente justificados. Mas o que os críticos geralmente não levam em conta é a origem inconsciente dessas atitudes desfavoráveis. Por conseguinte, os pais desorientados vêem-se alvo de uma mistura de exortação e críticas, cada uma delas mais inútil e ineficaz do que as outras.

Uma abordagem psicanalítica esclarece a origem das dificuldades parentais e, ao mesmo tempo, fornece uma base racional para ajudar os pais. Muitas das dificuldades com que os pais se defrontam, o que não chega a causar surpresa a ninguém, resultam da sua incapacidade para regular a própria ambivalência. Quando nos tornamos pais para uma criança, poderosas emoções são despertadas, emoções tão fortes quanto as que vinculam um bebê à mãe ou um amante a outro. Nas mães, em particular, existe o mesmo desejo de possessão completa, a mesma devoção e a mesma renúncia a outros interesses. Mas, lamentavelmente, a par de todos esses sentimentos deliciosos e ternos, ocorre também, com excessiva freqüência, uma mistura — hesito em dizê-lo — de ressentimento, e até de ódio. A intrusão de hostilidade nos sentimentos de uma mãe ou de um pai pelo seu bebê parece tão estranha, tão chocante e, muitas vezes, tão horripilante, que muita gente terá dificuldade em acreditar. Entretanto, é uma realidade e, por vezes, uma sombria realidade para um dos pais e para a criança. Qual é a sua origem?

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