Formação e rompimento dos laços afetivos



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Nota de rodapé:
*(1). Ver, por exemplo, o relato de Stewart et al. (1954) sobre bebês que choram excessivamente. Verificaram que era uma resposta às dificuldades que as mães experimentavam em lidar com os filhos de um modo coerente.

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Embora ainda seja difícil explicar essa hostilidade, parece evidente que os sentimentos que são despertados em nós quando nos tornamos pais têm muito em comum com os sentimentos que foram suscitados em nós, quando crianças, por nossos pais e irmãos. A mãe que sofreu privação pode, se não se tomou incapaz de sentir afeição, experimentar uma intensa necessidade de possuir o amor do bebê e fazer tudo o que estiver ao seu alcance para assegurar-se de que o obtém. A mãe que, quando criança, tinha ciúmes de um irmão mais novo, poderá experimentar agora uma hostilidade absurda e exorbitante pelo novo e pequenino “estranho” que veio instalar-se na família. Esse sentimento, entretanto, é mais comum no pai. A mãe (ou o pai) cujo amor pela própria mãe era impregnado de antagonismo pelo modo autoritário como, em criança, foi por ela tratada(o), será passível de irritar-se e abominar o modo como o bebê faz valer e impõe suas exigências.

Acredito que o problema não reside na simples repetição de antigos sentimentos — talvez uma certa dose desses sentimentos esteja presente em todos os pais — mas, sobretudo, na incapacidade parental para tolerar e regular esses sentimentos. Aqueles que, na infância, experimentaram intensa ambivalência em relação aos pais ou irmãos, e que recorreram então, inconscientemente, a um dos muitos mecanismos primitivos e precários de resolver o conflito a que me referi antes — repressão, deslocamento, projeção, etc. — estão despreparados para a renovação do conflito quando se tomam pais. Em vez de reconhecerem a verdadeira natureza de seus sentimentos em relação à criança e de ajustarem seu comportamento, vêem-se instigados e impelidos por forças que ignoram, e mostram-se perplexos por serem incapazes de agir com todo o amor e paciência que desejam. A dificuldade deles reside em que o ressurgimento dos sentimentos ambivalentes está sendo enfrentado, sem que o saibam, pelos mesmos métodos primitivos e precários a que recorreram em sua própria infância, numa época da vida em que não dispunham de melhores métodos. Assim, a mãe que está constantemente apreensiva com a possibilidade de que seu bebê morra, não tem consciência do impulso em seu próprio íntimo para matá-lo *(1) e, adotando a mesma solução que adotou na infância em relação a seus desejos de morte contra a própria mãe, esforça-se obstinadamente, de um modo incessante e infrutífero, por afastar todos os perigos que possam vir de outros lados: acidentes, doenças, negligência de vizinhos. O pai que se ressente do monopólio do bebê sobre a mãe — sua esposa — e insiste em que as atenções dela são escassas, não tem consciência de que está sendo motivado pela mesma espécie de ciúme que sentiu na infância quando nasceu um irmão mais novo.
Nota de rodapé:
*(1). Existem muitos e diferentes estados de espírito que podem levar uma mãe a estar constantemente apreensiva temendo que seu bebê morra, sendo que o desejo inconsciente de matar a criança é apenas um deles. Entre outros estão a perda anterior de um filho pequeno, a perda de um irmão durante a infância e o comportamento violento do pai da criança. Ver a discussão das fobias nos capítulos 18 e 19 de Attachment and Loss [Ligação e Perda], volume 2.

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O mesmo é verdade a respeito da mãe impelida a possuir todo o amor de seu bebê e que, por sua abnegação incansável, tenta assegurar-se de que não é dada ao bebê nenhuma desculpa para alimentar quaisquer outros sentimentos que não sejam de amor e gratidão. Essa mãe, que à primeira vista parece ser tão carinhosa, gera em seu bebê, inevitavelmente, um grande ressentimento em face de tamanha exigência de amor; e também uma grande culpa em razão das alegações dela de que é uma mãe tão boa, que não se justifica nenhum outro sentimento além da gratidão. Comportando-se desse modo, é claro que ela não tem consciência de que é digna de amor — o amor que ela nunca teve quando era criança. Quero repetir que, em minha opinião, não é simplesmente o fato de os pais terem essas motivações que cria as dificuldades para os filhos; o que causa problemas é os pais ignorarem seus próprios motivos, e recorrerem inconscientemente à repressão, à racionalização e à projeção, para lidar com seus próprios conflitos íntimos.

Provavelmente não existe nada mais prejudicial para uma relação do que uma parte atribuir suas próprias falhas e defeitos à outra, convertendo-a em bode expiatório. Infelizmente, os bebês e as crianças pequenas são perfeitos bodes expiatórios, pois manifestam de forma nua e crua todos os pecados de que a carne é herdeira; são egoístas, ciumentos, sujos, interessados em sexo e propensos a explosões coléricas, à obstinação e à voracidade. Os pais que carregam consigo um sentimento de culpa em relação a uma ou outra dessas fraquezas podem tornar-se extremamente intolerantes diante de suas manifestações num filho pequeno. Atormentarão a criança com suas tentativas fúteis para erradicar o vício. Lembro-me de um pai, atormentado a vida inteira pela masturbação, que tentou impedi-la em seu filho colocando-o sob um chuveiro frio sempre que o encontrava com a mão nos órgãos genitais. Agindo desse modo, o pai apenas conseguiu intensificar o sentimento de culpa da criança, e também o seu medo e aversão à autoridade. Algumas das relações entre pais e filhos mais envenenadas que levam a graves problemas nas crianças resultam do fato de os pais verem ciscos nos olhos de seus filhos para não verem toras nos seus.

Ninguém com orientação psicanalítica que tenha trabalhado numa clínica de orientação infantil pode ter deixado de se impressionar com a freqüência com que esses e outros problemas emocionais comparáveis ocorrem nos pais de crianças que foram encaminhadas para tratamento, ou com o elevado grau em que os problemas dos pais parecem ter criado ou exacerbado as dificuldades das crianças. Com efeito, são tão freqüentes, que em muitas clínicas é dada tanta atenção aos pais, ajudando-os a resolverem seus problemas emocionais, quanto às crianças, ajudando-as a resolverem os delas. Portanto, não deixa de ser interessante pensar que

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esse é um aspecto da doença psicológica que parece ter sido quase desconhecido para Freud e, talvez por essa razão, um dos aspectos a que, em minha opinião, os psicanalistas ainda têm que prestar a devida atenção. Entretanto, acredito que seja um dos mais promissores para o futuro. A limitada experiência que temos sugere que a ajuda especializada aos pais nos meses críticos, antes e depois do nascimento, e nos primeiros anos de vida de uma criança pode ser extremamente importante para ajudá-los a desenvolverem as relações afetivas e compreensivas, que quase todos eles desejam com o bebê. Sabemos que os primeiros anos de um bebê, quando, sem que ele o saiba, os alicerces de sua personalidade são assentados, constituem um período crítico de seu desenvolvimento. Analogamente, parece que os primeiros meses e anos após o nascimento de um bebê são um período crítico no desenvolvimento de uma mãe e de um pai. Na fase inicial, os sentimentos dos novos pais parecem mais acessíveis do que em outros períodos, a ajuda é freqüentemente procurada e bem recebida, e, como as relações na família ainda são plásticas, essa ajuda é eficaz. Mesmo que seja relativamente modesta, se for uma ajuda qualificada e oportuna poderá ter efeitos duradouros. Se o nosso pensamento é correto, então a família com um novo bebê é um ponto estratégico para quebrar o círculo maligno de crianças perturbadas que, ao crescerem, convertem-se em pais perturbados que, por sua vez, lidam com seus filhos de tal modo que a geração seguinte desenvolverá as mesmas perturbações ou outras semelhantes. As vantagens do tratamento de crianças pequenas são hoje muito conhecidas; estamos advogando agora que também os pais deveriam ser ajudados logo depois que tenham “nascido”.

O pensamento contemporâneo talvez ainda não tenha reconhecido como uma das principais causas dos erros dos pais a distorção que os conflitos inconscientes oriundos de sua própria infância acarretam aos sentimentos que eles nutrem em relação aos filhos. Isso não é apenas perturbador e alarmante para os pais muitos dos quais têm a esperança natural de ver as dificuldades familiares em alguma outra parte que não em seus próprios corações —, mas também é desconcertante para os médicos e outros investigadores profissionais — que descobrem que muitos dos problemas com que se defrontam situam-se num domínio aparentemente intangível, sobre o qual não possuem conhecimentos, nem são treinados para ajudar a resolvê-los. Não obstante, é evidente que essa é a realidade e, se os pais têm que receber a ajuda esclarecida que os capacite a se tornarem os bons pais que ambicionam ser, os profissionais terão que ter uma compreensão maior do conflito inconsciente e do papel que esse conflito desempenha na criação de distúrbios

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nos cuidados que os pais dispensam a seus filhos. Isto suscita um problema de primeira ordem — demasiado amplo para que possamos considerá-lo neste capítulo.
Conflito extrapsíquico e conflito intrapsíqiuco.
O ponto de vista que estou defendendo, como se verá, baseia-se na convicção de que muita infelicidade e muita enfermidade mental se devem a influências ambientais, as quais está a nosso alcance mudar. Em psicanálise, como em outros ramos da psiquiatria, de fato, em todas as ciências biológicas, discute-se constantemente sobre as contribuições da hereditariedade e da aprendizagem, sobre o que é inato e o que é adquirido. O nosso problema é entender por que razão um indivíduo cresce sem grandes dificuldades em sua vida impulsiva, enquanto um outro é flagelado por esses impulsos. Não pode haver dúvidas de que variações na dotação hereditária e na influência do meio ambiente desempenham importantes papéis. O próprio Freud, entretanto, talvez em razão de sua primeira hipótese ambiental (a referente à influência da sedução infantil) estar comprovadamente errada, foi cauteloso em incluir variações ambientais na explicação das dificuldades de seus pacientes; e, à medida que foi envelhecendo, parecia acreditar cada vez mais que pouco podia ser feito em termos de mudanças ambientais para mitigar a força do conflito infantil. Muitos psicanalistas o seguiram nessa noção. Alguns, de fato, não só sustentaram que aqueles dentre nós que se mostram mais esperançosos estão equivocados, mas também manifestaram suas apreensões, temendo que a ênfase sobre o significado do meio ambiente nos faça desviar as atenções do fato crucial do conflito intrapsíquico. Cumpre admitir que esse perigo existe e que analistas escreveram livros sobre os cuidados com a criança focalizando principalmente o conflito extrapsíquico, ou seja, o conflito entre as necessidades da criança e as oportunidades limitadas que o meio ambiente proporciona para a satisfação dessas necessidades. Embora, como já assinalei, eu acredite que esse conflito extrapsíquico entre necessidades internas e oportunidades externas para satisfazê-las é bastante real, quero deixar claro que, em minha opinião, ele tem em si mesmo, importância limitada para o desenvolvimento psíquico. Quanto ao meio ambiente externo, o que importa é saber em que medida as frustrações e outras influências impostas por ele desenvolvem o conflito intrapsíquico de tal forma e com tanta intensidade que o equipamento psíquico imaturo do bebê não possa regulá-la satisfatoriamente. É com este critério que devemos

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avaliar os méritos ou deméritos dos cuidados com crianças, e é abordando o problema desse modo, creio eu, que a psicanálise tem sua principal contribuição a dar.

Embora eu seja um adepto convicto e entusiasta da noção segundo a qual as situações concretas que um bebê experimenta têm importância crucial para o seu desenvolvimento, repito que não desejo dar a impressão de que sabemos hoje como habilitar todas as crianças a crescerem sem perturbações emocionais. Creio que já sabemos muita coisa e que, se pudermos aplicar nossos conhecimentos atuais (e em virtude da escassez de profissionais qualificados receio que esse seja um grande “se”), ocorrerá um aumento substancial da felicidade humana e uma tremenda redução das doenças psicológicas. Entretanto, seria absurdo supor que já temos tantos conhecimentos que podemos garantir que uma criança, se tiver tal ou tal experiência, crescerá sem maiores dificuldades. Existem problemas espinhosos a resolver, como os que decorrem do efeito deturpador das fantasias de uma criança e sua interpretação errônea do mundo que a rodeia *(1), assunto que não abordei neste capítulo; mas, além disso, também podem existir dificuldades sobre cuja origem nada sabemos atualmente. Mesmo sobre aquelas de que já temos alguma compreensão, os nossos conhecimentos ainda são escassos e não têm uma base suficiente de dados sistematicamente coletados.

Só o futuro revelará as linhas de pesquisa mais fecundas. Toda pesquisa é um jogo de azar, e temos que jogar o nosso dinheiro nos cavalos em que tivermos palpite. Num campo tão vasto, a minha tendência é apostar nos mestiços. Parece-me provável que estudos de motivação em crianças pequenas, especialmente o estudo do modo como a mãe e o bebê desenvolvem suas relações impregnadas de alta carga emocional, uma preocupação tão central da psicanálise, ganharão muito em clareza e precisão se lhes aplicarmos conceitos e métodos de pesquisa derivados da escola européia de estudos do comportamento animal, liderada por Lorenz e Tinbergen e freqüentemente conhecida como etologia. Penso também que o nosso insight do mundo cognitivo que uma criança pequena constrói para si, depois habita e finalmente modela, progrediria bastante com os conceitos e métodos de pesquisa que tiveram Piaget como pioneiro. Também é lícito esperar que a teoria da aprendizagem esclareça o processo de aprendizagem que ocorre nos meses e anos críticos em que uma nova personalidade nasce. Entretanto, ainda que eu considere as contribuições desse tipo indispensáveis, elas serão estéreis se não forem constantemente interpretadas à luz dos conhecimentos adquiridos pelo contato íntimo com a vida emocional de crianças e pais num contexto clínico, usando métodos como os introduzidos por Melanie Klein e Anna Freud, entre outros psicanalistas de crianças, e indo buscar sua inspiração última no homem cujo centenário de nascimento celebramos esta semana.


Nota de rodapé:
*(1). Acredito que o caráter deturpador das fantasias infantis foi muito exagerado pela teoria psicanalítica tradicional. Quanto mais detalhes se conhecer sobre os acontecimentos da vida de uma criança e sobre aquilo que lhe foi dito, aquilo que ela ouviu ou observou mas se espera que não saiba, mais claramente se poderão ver suas idéias sobre o mundo e sobre o que acontecerá no futuro como construções perfeitamente razoáveis. Os dados que demonstram esse ponto de vista são apresentados nos capítulos finais do segundo volume e em todo o terceiro volume de Attachment and Loss.

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Pós-Escrito.


A maioria dos temas esboçados na conferencia reproduzida neste capitulo foram retomados em conferencias subseqüentes desta coletânea. Para uma descrição dos trabalhos mais recentes sobre o desenvolvimento das relações mãe-bebê, ver Stern (1977).

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Abordagem etológica da pesquisa sobre desenvolvimento infantil *(1).


Em sua conferência anual na primavera de 1957, a Sociedade Britânica de Psicologia organizou um simpósio sobre “A Contribuição de Teorias Atuais para uma Compreensão do Desenvolvimento da Criança”. Fui convidado a fazer uma palestra sobre a contribuição que se poderá esperar da etologia; e outras três sobre teoria da aprendizagem associativa, sobre psicanálise e sobre os construtores de sistemas, Piaget e Freud. Todas as quatro contribuições foram publicadas no fim desse ano.

Um problema central tanto para a psicologia clínica quanto para a psicologia social é a natureza e o desenvolvimento das relações de uma criança com outras pessoas. Em sua abordagem desse problema, a tendência dos psicólogos é adotar um de dois enfoques: se tiverem uma orientação acadêmica e experimental, tenderão a privilegiar uma ou outra forma de teoria da aprendizagem; se tiverem orientação clínica, seguirão uma ou outra forma de psicanálise. Ambos os enfoques levaram à realização de valiosos trabalhos. Entretanto, as tentativas de relacionar uma perspectiva com a outra têm sido poucas e não muito bem-sucedidas, ao passo que a desconfiança e as críticas mútuas entre adeptos de uma e outra têm sido comuns.

Os psicanalistas foram os primeiros a conceber as relações sociais no homem como sendo mediadas por instintos que emanam de raízes biológicas e impelem o indivíduo à ação.
Nota de rodapé:
*(1). Originalmente publicado em British Journal of Medical Psychology (1957), 30: 230-40.

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Grande parte da teoria psicanalítica tem levado em conta esses instintos, seu surgimento sucessivo e gradual na ontogenia, sua organização gradativa, e nem sempre bem-sucedida, em totalidades mais complexas, os conflitos que surgem quando dois ou mais instintos estão ativos e são incompatíveis, a ansiedade e culpa a que dão origem, as defesas chamadas a agir para enfrentá-las. Preocupados com essas paixões humanas primitivas que, em virtude da rudimentaridade dos mecanismos existentes para governá-la, são capazes, como sabemos por termos pago o preço da experiência, de nos levar à realização de atos que mais tarde lamentamos, os psicanalistas têm freqüentemente manifestado impaciência para com a abordagem dos teóricos da aprendizagem. Em sua teorização, parece haver muito pouco lugar para o sentimento humano ou para a motivação que jorra das profundezas inconscientes e irracionais. Ao analista e ao psicólogo clínico, sempre pareceu que o teórico da aprendizagem está tentando meter à força um litro de natureza humana rebelde dentro de um dedal de rígida e pretensiosa teoria.

Inversamente, os teóricos da aprendizagem criticam os psicanalistas. As definições de instinto são notoriamente insatisfatórias e suscetíveis de degenerar em alegórico. Embora as descrições clínicas sejam volumosas, os relatos de observação sistemática continuam sendo escassos. O método experimental se faz notar por sua ausência. Pior que tudo, as hipóteses são freqüentemente formuladas de tal maneira que é impossível testá-las — um defeito fatal para o progresso científico. A teoria da aprendizagem, sustenta-se corretamente, define os seus termos, formula as suas hipóteses operacionalmente e passa a testá-las mediante experimentos adequadamente planejados.

Como alguém que se esforça por ser um clínico e um cientista, tenho sido agudamente sensível a esse conflito. Como clínico, considero a abordagem de Freud a mais recompensadora; não só ele atraiu a atenção para problemas psicológicos de importância clínica imediata, como também a sua série de conceitos invocadores de um inconsciente dinâmico constitui na prática um modo útil de ordenação de dados. Entretanto, como cientista, sinto-me muitas vezes contrafeito em face do status precário de muitas de nossas observações, da obscuridade de muitas de nossas hipóteses e, sobretudo, da ausência de qualquer tradição que exija que as hipóteses sejam testadas. Esses defeitos são responsáveis, creio eu, pelas controvérsias — com excessiva freqüência acaloradas e estéreis — que têm caracterizado a história psicanalítica. Tenho perguntado a muitos colegas como poderemos submeter a psicanálise a uma maior disciplina científica, sem sacrificar as suas inigualáveis contribuições.

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Foi nesse estado de espírito que me deparei, há alguns anos, com a obra que vem sendo realizada pelos etologistas. Fiquei imediatamente empolgado. Aí estava uma comunidade de biólogos dedicados ao estudo do comportamento de animais em seu habitat natural, que não só usavam conceitos como os de instinto, conflito e mecanismo de defesa, extraordinariamente semelhantes aos que são empregados em nosso trabalho clínico do dia-a-dia, como faziam descrições maravilhosamente detalhadas do comportamento e haviam criado uma técnica experimental para submeter suas hipóteses a provas. Continuo hoje tão impressionado quanto estava então. A etologia, creio eu, está estudando os fenômenos relevantes de um modo científico. Na medida em que estuda o desenvolvimento do comportamento social e, especialmente, o desenvolvimento de relações familiares em espécies inferiores, acredito que está estudando um comportamento análogo, e talvez, por vezes, homólogo, a muito do que nos preocupa clinicamente; na medida em que usa a descrição de campo, hipóteses com conceitos operacionalmente definidos e experimentos, está empregando um rigoroso método científico. É verdade que somente depois de ser provada no cadinho da atividade de pesquisa saberemos se a etologia é, de fato, uma abordagem tão fecunda com seres humanos quanto o é com espécies inferiores. Basta dizer que se trata de uma abordagem que se impõe mais vivamente a mim, porque acredito que ela pode fornecer o repertório de conceitos e dados necessários, se quisermos que os dados e insights proporcionados por outras abordagens, notadamente os da psicanálise, da teoria da aprendizagem e de Piaget, sejam explorados e integrados.

Recapitulando sucintamente as principais características do enfoque etológico, comecemos pela obra de Darwin (1850), não só porque ele foi um etologista antes da palavra ter sido inventada, mas também porque uma preocupação básica da etologia é a evolução do comportamento através do processo de seleção natural.

Em A Origem das Espécies, escrito exatamente há um século, Darwin dedica um capítulo ao instinto, no qual assinala que cada espécie é dotada de seu próprio repertório peculiar de padrões de comportamento, do mesmo modo que é dotada de suas próprias peculiaridades de estrutura anatômica. Enfatizando que “os instintos são tão importantes quanto a estrutura corporal para o bem-estar de cada espécie”, Darwin formula a hipótese de que “todos os instintos mais complexos e maravilhosos” se originaram através do processo de seleção natural, tendo preservado as variações continuamente acumuladas que são biologicamente vantajosas. Ilustra a sua tese com referências às características

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do comportamento de várias espécies de insetos, como as formigas e as abelhas, e de aves, como o cuco.

Depois de Darwin, os zoólogos têm-se empenhado em descrever e catalogar os padrões de comportamento que são característicos de uma determinada espécie e que, embora variáveis e modificáveis em certo grau, são marcas tão distintivas da espécie quanto o papo vermelho do pintarroxo ou as estrias da pele do tigre. Não podemos confundir a atividade da fêmea do cuco na época da postura com a da gansa, a micção do cavalo com a do cão, a corte do mergulhão com a do galo de capoeira. Em cada caso, o comportamento exibido tem o cunho da espécie particular e, portanto, é específico da espécie, para usar um termo conveniente embora um tanto desajeitado. Como esses padrões se desenvolvem de um modo característico em quase todos os indivíduos de uma espécie e até em indivíduos criados em isolamento, é evidente que são, em grande medida, herdados e não aprendidos. Por outro lado, encontramos indivíduos em que tais padrões não se desenvolveram ou adquiriram formas peculiares, e poderemos concluir, portanto, que o meio ambiente também tem certa influência. Isto lembra-nos que, em organismos vivos, estrutura e função só podem desenvolver-se num determinado meio ambiente e que, embora a hereditariedade seja poderosa, a forma exata que cada um adquire dependerá da natureza desse meio ambiente.

Os padrões de comportamento específicos da espécie em que estamos interessados são, com freqüência, espantosamente complexos. Considere-se, por exemplo, o desempenho de um chapim-real na construção de seu belo ninho em cúpula e recoberto de liquens. Compreende a escolha de um local, a coleta primeiro de musgo e depois de fios de teia de aranha para formar uma plataforma e, gradualmente, por movimentos laterais, enquanto permanece sentado na plataforma, o musgo é tecido até formar uma taça. Esta cresce de maneira regular e uniforme à medida que o pássaro vai tecendo o ninho à sua própria volta, até que, como resultado de continuar tecendo por cima da cabeça, o ninho ganha uma cobertura em abóbada. Entrementes, foram adicionados liquens à parede externa e foi deixado apenas um orifício aberto para a entrada. Finalmente, as paredes laterais da entrada são reforçadas e o ninho é revestido interiormente com uma profusão de penas macias. Neste desempenho surpreendente existem catorze tipos distintos de movimento e combinações de movimento, alguns comuns a outras espécies, outros específicos desta espécie, cada um deles adaptado ao meio ambiente particular do casal e tudo tão bem organizado no tempo e no espaço que o resultado é uma estrutura coerente, distinta de tudo o que

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