Formação e rompimento dos laços afetivos



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se encontra na natureza e que concorre para uma função vital na sobrevivência da raça dos chapins-reais (Tinbergen, citado por Thorpe, 1956).

Outros padrões são muito mais simples. Quando sacudimos o ninho de um melro, numerosas cabecinhas feias se espicham para fora, cada uma delas com uma gigantesca boca escancarada; quando colocamos um pinto de 24 horas numa mesa com grãos de comida, ele debica logo, de modo preciso, em cada um deles. Mas até mesmo esses padrões mais simples estão longe de ser rudimentares. A resposta de bico escancarado dos filhotes de melro é suscitada e orientada por uma Gestalt visual, assim como pelo estremecimento do ninho; as bicadas do pinto estão organizadas de tal modo no espaço e no tempo que cada grão é alcançado com exatidão impecável. E evidente que tais padrões de comportamento não podem ser simples reflexos. Em primeiro lugar, sua organização é mais complexa e dirigida para o comportamento em um nível global; em segundo lugar, parece que, uma vez ativados, possuem freqüentemente um ímpeto motivacional próprio que só cessa em circunstâncias especiais.

Os etologistas estudam esses padrões de comportamento específicos da espécie; o termo ethos deriva do grego e significa “da natureza da coisa *(1). Desde os tempos de Darwin, uma finalidade principal desse estudo permaneceu taxonômica, ou seja, a classificação das espécies com referência às suas relações mais próximas, vivas e mortas. Verificou-se que, apesar da variabilidade potencial, a fixidez relativa desses padrões nas diferentes espécies de peixes e aves é tal, que eles podem ser usados para fins de classificação com um grau de confiabilidade não inferior ao das estruturas anatômicas. Uma visita à estação de pesquisas de Konrad Lorenz, na Alemanha, demonstra rapidamente o interesse permanente de Lorenz em rever a classificação taxonômica de patos e gansos por referência aos seus padrões de comportamento. Do mesmo modo, um dos principais objetivos de Niko Tinbergen é fazer um completo inventário descritivo em termos de comportamento de muitas espécies de aves marinhas. Enfatizo isto para mostrar o grau em que esses padrões de comportamento são específicos para cada espécie, são herdados e fazem parte da natureza do organismo, tanto quanto seus ossos.

Neste ponto, dou-me conta de que alguns leitores talvez estejam um pouco impacientes. Sim, poderão dizer alguns, tudo isso é muito interessante e pode ser verdadeiro quanto a peixes e aves, mas quem nos garante que se aplica também aos mamíferos, para não falar do homem?


Nota de rodapé:
*(1). Para uma discussão dos termos, ver Tinbergen (1955).

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O comportamento do mamífero não se distingue por sua variabilidade e pela parte que cabe à aprendizagem? Estamos certos de que existem padrões herdados de comportamento nos mamíferos? O etologista responderá: Sim, é verdade que no mamífero o comportamento é mais variável e que a aprendizagem desempenha um papel importante mas, não obstante, cada espécie exibe um comportamento que lhe é peculiar — por exemplo, a respeito da locomoção, alimentação, corte e acasalamento, e cuidados com os filhotes — e parece muito improvável que esses padrões sejam inteiramente aprendidos. Além disso, como Beach demonstrou com ratos, e Colhas e Blauvelt com cabras, é produtivo estudar esse comportamento pelos mesmos métodos e conceituar os dados do mesmo modo que provou ser tão compensador no caso dos vertebrados inferiores. No que se refere aos padrões de comportamento, não há qualquer sinal de que exista uma ruptura entre peixes, aves e mamíferos, que seja mais acentuada do que no tocante à anatomia. Pelo contrário, apesar da introdução de novas e importantes características, existem todos os sinais de uma seqüência evolucionária. Padrões inatos de comportamento parecem tão importantes para mediar os processos biológicos básicos de mamíferos quanto de outras espécies; e, na medida em que o Homem compartilha dos componentes anatômicos e fisiológicos desses processos com os mamíferos inferiores, seria estranho que não compartilhasse também, pelo menos em certa medida, de seus componentes comportamentais.

Para fins taxonômicos, a descrição minuciosa de padrões de comportamento pode ser suficiente. Para uma ciência do comportamento, entretanto, precisamos saber muito mais. Em especial, precisamos conhecer o máximo possível sobre a natureza das condições internas e externas do organismo que regem o padrão.

Os etologistas deram uma importante contribuição para o nosso conhecimento das condições externas relevantes para o organismo. Heinroth foi um dos primeiros a assinalar que os padrões de comportamento específicos da espécie são freqüentemente ativados pela percepção de Gestalten visuais ou auditivas bastante simples a que elas são inatamente sensíveis. Exemplos muito conhecidos disso, analisados por meio de experimentos que usam bonecos de vários formatos e cores, são a resposta de acasalamento do macho do esgana-gato, a qual é suscitada pela percepção de uma forma que se assemelha a uma fêmea grávida, a resposta de bico escancarado do filhote da gaivota falcoeira, suscitada pela percepção de um ponto vermelho semelhante ao que se observa no bico de uma ave adulta, e a resposta de ataque de um pintarroxo, suscitada pela percepção em seu próprio território de um tufo de penas vermelhas semelhante ao que existe no peito de um macho rival.

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Em todos os três casos, a resposta parece ser provocada pela percepção de uma Gestalt muito simples, conhecida como um “estímulo de sinal”.

Uma parte considerável do trabalho etológico tem sido dedicada à identificação dos estímulos de sinal que suscitam os vários padrões de comportamento específicos das espécies em peixes e aves. Na medida em que muitos desses padrões de comportamento são mediadores do comportamento social — corte, acasalamento, alimentação dos filhotes pelos pais e seguimento dos pais pelos filhotes — muita coisa foi elucidada sobre a natureza da interação social. Em dezenas de espécies, foi demonstrado que o comportamento propiciador do acasalamento e parentalidade é controlado pela percepção de estímulos-sinais apresentados por outros membros da mesma espécie, como a envergadura de uma cauda ou a cor de um bico, ou um trinado ou um chamamento, cujas características essenciais são as de Gestalten relativamente simples. Tais estímulos-sinais são conhecidos como “detonadores sociais”.

Os necessários estímulos externos são tão simples nos mamíferos quanto em peixes e aves? Essa questão foi recentemente discutida pelo psicólogo norte-americano Beach, cujos trabalhos sobre o comportamento de acasalamento do rato macho e o de recuperação de filhotes por ratas se baseiam em métodos e conceitos semelhantes aos da escola européia de etologia, com suas raízes zoológicas. Após numerosos experimentos, Beach e Jaynes (1956) chegaram a conclusões de que, à primeira vista, parecem colocar os ratos numa categoria diferente dos pintarroxos; ambas as respostas, concluíram eles, dependem de um padrão de estímulo que é de natureza multissensorial. No entanto, mostram-se cautelosos, e, numa comunicação pessoal, Beach sublinhou a possibilidade, apresentada por Tinbergen, “de que, se fragmentarmos a resposta maternal total da fêmea adulta em seções ou segmentos, é possível concluir que cada elemento no padrão seqüencial era, de fato, controlado por uma simples pista sensorial”. Além disso, na mesma comunicação, Beach observou que “o comportamento de mamíferos muito jovens poderia perfeitamente ser governado por controles sensoriais mais simples do que aqueles que operam na idade adulta” e que é mais do que provável que alguns deles sejam suscitados por algo que se aproxima de um estímulo-sinal. Opiniões deste gênero, provenientes de um investigador do gabarito de Beach, em nada contribuem para corroborar o ponto de vista de que uma abordagem etológica é inaplicável a mamíferos.

Também podem ser usados experimentos para elucidar as condições internas do organismo que são necessárias à ativação de um padrão

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de comportamento. Tais condições incluem a maturação do corpo e do sistema nervoso central, como no caso do vôo de pássaros no período de crescimento, e o equilíbrio endócrino, como no caso do comportamento sexual da grande maioria dos vertebrados, senão todos. Também incluem a recente ativação ou não do padrão, pois sabe-se que muitas atividades instintivas são menos facilmente evocadas depois de terem estado recentemente em ação do que depois de um período de quiescência. Após a cópula, poucos animais são sexualmente excitados com tanta facilidade quanto eram antes. Essas mudanças e outras comparáveis devem-se claramente a uma mudança no estado do próprio organismo e, em muitos casos, os experimentos demonstram que essa mudança reside no sistema nervoso central. Para explicar essas mudanças, Lorenz (1950) fez a hipótese de uma série de reservatórios, cada um deles cheio de “energia específica de reação” apropriada a um determinado padrão de comportamento. Concebeu cada reservatório como controlado por uma válvula (o IRM — innate releasing mechanism *(1) que pode ser aberta pela percepção do estímulo-sinal apropriado, de modo que a energia específica de reação será descarregada na realização do comportamento específico. Quando a energia se esgota no reservatório, o comportamento cessa. Supôs que, subseqüentemente, com a válvula fechada, a energia acumula-se de novo e, após um certo tempo, o processo está pronto para repetir-se. Este modelo psico-hidráulico de instinto, com seu reservatório e acumulação de “energia”, apresenta uma semelhança óbvia com a teoria dos instintos exposta por Freud, e não parece improvável que Freud e Lorenz fossem levados a propor modelos semelhantes como resultado de terem tentado explicar comportamentos semelhantes.

Seja como for, esse modelo psico-hidráulico está hoje desacreditado. Deixou de ser adotado por Lorenz e por Tinbergen; e, de minha parte, espero que chegue o dia em que seja também abandonado pelos psicanalistas. Pois não só é mecanicamente rudimentar, como não faz jus aos dados existentes. Numerosos trabalhos experimentais em anos recentes demonstraram que os padrões de comportamento cessam porque foram “amortecidos” ou “desligados”, não porque tenham sido esvaziados de alguma energia hipotética. Vários processos psicológicos podem levar a esse resultado. Um deles, que afeta o comportamento a longo prazo, é a habituação. Um outro, que o afeta a curto prazo, é ilustrado por experimentos que usam cães submetidos a esofagotomia.


Nota de rodapé:
*(1). IRM — mecanismo inato de desencadeamento. (N. do T.)
Estas experiências demonstraram que os atos de comer e beber são encerrados por meio de estímulos proprioceptivos e (ou) interoceptivos que se originam na boca, esôfago e estômago, e que, no animal intato, são a conseqüência da própria realização desses atos; em outras palavras, existe um mecanismo para o feedback negativo. Tal cessação não se deve à fadiga nem à saciação da necessidade de comida e bebida; pelo contrário, o próprio ato origina os estímulos de feedback que lhe põem termo. [Para discussão desse processo, ver Deutsch (1953) e Hinde (1954).]

Igualmente interessantes são as observações de etologistas segundo as quais o comportamento tanto pode ser ativado por estímulos exteroceptivos, quanto ser terminado por eles. Moynihan (1953), por exemplo, demonstrou que o impulso da chapalheta para chocar só se reduz quando ela se senta sobre uma ninhada completa de ovos arrumados de forma adequada. Enquanto essa situação persistir, a ave permanecerá tranqüilamente sentada. Se os ovos forem retirados ou desarrumados, a chapalheta ficará irrequieta e tenderá a fazer todos os movimentos de nidificação. Esse desassossego prossegue até que ela experimente de novo os estímulos provenientes de uma ninhada completa de ovos arrumados de forma apropriada. Hinde (1954) também observou que, no começo da primavera, a simples presença de um tentilhão fêmea leva a uma redução do comportamento de corte do macho, como cantar e procurar. Quando a fêmea está presente, ele se mantém quieto e calado, quando ela está ausente, o tentilhão torna-se imediatamente ativo. Neste caso, onde um padrão de comportamento socialmente relevante é suprimido por estímulos-sinais, poderíamos talvez falar de um “supressor social” como um termo paralelo de um detonador social.

Parece provável que os conceitos de detonador social e supressor social sejam valiosos no estudo da interação social não-verbal em seres humanos, sobretudo a interação que contiver uma carga emocional; voltarei a fazer referência a eles quando examinar a possível aplicação dessas idéias à pesquisa sobre o desenvolvimento infantil.

O nosso modelo básico para o comportamento instintivo é, pois, uma unidade que compreende um padrão de comportamento específico da espécie governado por dois mecanismos complexos, um que controla a sua ativação e o outro a sua terminação. Verifica-se, não raras vezes, que um certo número de padrões distintos, cada um dos quais merece um estudo detalhado, estão conjugados de tal maneira que resulta um comportamento tão complexo quanto o de cortejar e construir ninhos. A função biológica desses padrões e de sua organização superior é concorrer para os processos vitais básicos do metabolismo e da reprodução;

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são as contrapartes, ao nível global do comportamento, dos processos fisiológicos igualmente envolvidos no metabolismo e na reprodução, os quais são desde longa data o objeto de estudo da fisiologia. Tal como estes últimos, suas principais formas em cada espécie são herdadas e, como sugeriu Darwin há um século, suas variações hereditariamente transmissíveis estão sujeitas à seleção natural, tanto quanto qualquer outra característica herdada.

Naturalmente, esse modelo não é exclusivo da etologia. Um modelo análogo foi proposto independentemente por, pelo menos, um psicólogo experimental (Deutsch, 1953), e boa parte dos dados experimentais referentes ao papel dos estímulos interoceptivos foi coletada por psicólogos e fisiologistas. Isso ilustra a natureza complementar dos enfoques etológico e psicológico. Não são complementares apenas; depois de William James não faltaram psicólogos profundamente atentos aos fenômenos estudados por etologistas e alguns, como Yerkes e Beach, deram contribuições notáveis. As principais contribuições dos etologistas têm sido a análise de uma seqüência complexa de comportamento instintivo, como cortejar e construir ninhos, num certo número de padrões complexos, cada um deles governado por seu próprio e complexo mecanismo e organizados conjuntamente num todo maior; o isolamento daquelas características do padrão que são herdadas; e a descoberta de que tanto em sua ativação como em sua terminação os estímulos exteroceptivos desempenham um papel importante.

Antes de considerarmos a aplicação desses conceitos à pesquisa do desenvolvimento infantil, quero referir-me rapidamente a dois outros conceitos para os quais etologistas e psicólogos têm dado contribuições — os de fases sensíveis do desenvolvimento *(1) e de regulação do conflito. Ambos os conceitos são centrais para a psicanálise e a nossa crescente compreensão de ambos reveste-se de particular interesse para os clínicos.

Foi apurado que, no indivíduo em crescimento, os padrões de comportamento específicos da espécie passam freqüentemente por fases sensíveis de desenvolvimento, durante as quais algumas de suas características são determinadas permanentemente, ou quase. As fases sensíveis, que ocorrem comumente, embora não necessariamente, no início do ciclo vital, afetam o desenvolvimento em, pelo menos, quatro aspectos diferentes:

(a) se, de fato, a resposta se desenvolve ou não;

(b) a intensidade com que é posteriormente exibida;

(c) a forma motora precisa que assume; e

(d) os estímulos que a ativam ou terminam.


Nota de rodapé:
*(1). Na versão original, usei a expressão então corrente “fase crítica do desenvolvimento”. Esta, porém, tem a desvantagem de implicar que a ocorrência ou não de um determinado desenvolvimento tem um caráter de tudo-ou-nada, o que está longe de ser o caso. Por isso, depois foi adotada a expressão “fase sensível do desenvolvimento” para indicar que, durante essa fase, o curso do desenvolvimento em questão não é mais do que especialmente sensível a condições ambientais.

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(a) Os padrões que se desenvolvem em todos os membros de uma espécie quando criados num meio ambiente “normal” podem deixar inteiramente de aparecer se o meio ambiente foi restringido de alguma forma especial. Assim, foi verificado que a resposta de dar bicadas, que é evidente em todos os pintos de um dia de idade num meio ambiente comum, nunca se desenvolve se o pinto for confinado num recinto escuro durante os seus primeiros catorze dias de vida (Padilla, 1935). Analogamente, a tendência do patinho putrião para seguir um objeto em movimento, que está em sua fase mais sensível cerca de dezesseis horas após sair da casca, não se desenvolve se o patinho não tiver, em suas primeiras quarenta horas, qualquer objeto para seguir (Weidman, 1956). Em cada caso, faltou o período sensível para a “mobilização” da resposta e, portanto, a resposta esteve inteiramente ausente.

(b) Em outros casos, o padrão pode desenvolver-se do modo usual mas, em virtude de uma experiência particular na infância, manifestar-se no adulto com intensidade incomum. Um exemplo muito conhecido é a variação no comportamento de entesouramento, dos ratos adultos, após alguns dias de frustração alimentar. Os ratos que foram submetidos, pouco depois de nascer, a um período de frustração alimentar intermitente, tendem, quando adultos, a armazenar muito mais pelotas de comida do que os ratos que não passaram por tal experiência. Essa pesquisa, é claro, foi realizada por um psicólogo experimental, Hunt

(1941).


(c) Em muitos casos, a parte motora do padrão é suscetível de processos de aprendizagem e, em alguns, apurou-se que essa suscetibilidade está confinada a um período limitado. Um dos exemplos mais bem estudados é a aprendizagem do canto dos tentilhões. Thorpe (1956) mostrou que, embora certas características do canto se desenvolvam mesmo num tentilhão criado em isolamento, outras são aprendidas, e essa aprendizagem está confinada a períodos especiais do primeiro ano do pássaro. O canto que ele aprende então é o que cantará o resto de sua vida.

(d) Os estímulos que ativam ou terminam um padrão de comportamento podem, no começo, ser gerais, e mais tarde, através de um processo de aprendizagem, tornar-se restritos. Esse processo de restrição, segundo se apurou, também pode ser confinado a um breve período do ciclo vital. O famoso trabalho de Lorenz (1935) sobre o “imprinting” nos filhotes de ganso é muito conhecido; enquanto que, no começo, um gansinho seguirá qualquer objeto em movimento que esteja dentro de certos e amplos limites de tamanho, após alguns dias ele somente seguirá a espécie de objetos a que está acostumado, seja a mãe gansa ou um

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homem; e faz isso independentemente de ter recebido alimento ou conforto do objeto. Um outro exemplo muito conhecido é o do cordeiro órfão criado na fazenda, que contrai uma fixação em seres humanos e deixa, daí em diante, de ter relações sociais com ovelhas e carneiros.

Finalmente, desejo chamar a atenção para a descoberta de que, na vida cotidiana comum do animal, surgem constantemente situações de conflito. Acabaram os tempos em que se supunha que só o Homem carregava o peso de impulsos conflitantes; sabemos hoje que aves e animais de todas as espécies também estão sujeitos a eles. Aprendemos, além disso, que o desfecho de tais conflitos varia muito e, por vezes, é tão mal adaptado, quanto pode sê-lo nos seres humanos. Não é necessário confrontar animais com tarefas insuperáveis para que eles façam coisas absurdas; uma ligeira distração da mãe mamífera, pouco depois de ter dado à luz, deslocará o mecanismo sensitivo que regula os impulsos potencialmente conflitantes de, por um lado, comer as secundinas e, por outro, cuidar da cria, e isso leva-a a continuar comendo de modo que devorará não só as secundinas como o próprio filhote. Muito mais será aprendido, creio eu, com o estudo dos modos como o conflito é regulado em animais e as condições que levam um indivíduo a adotar um ou outro padrão desajustado. A minha expectativa pessoal é de que, também nesse aspecto, descobriremos que existem fases sensíveis de desenvolvimento, cujo resultado determina que modo de regulação cada animal adotará habitualmente daí em diante. E para esse problema — fases sensíveis no desenvolvimento de modos de regular o conflito — que eu gostaria particularmente de ver dirigida a pesquisa; pois estou confiante em que a solução desse problema nos fornecerá uma chave para a compreensão das origens das neuroses. Até onde me é dado saber, ainda não foi dada atenção a isso.


Aplicação de conceitos etológicos à pesquisa do desenvolvimento da criança.
São esses, pois, os principais conceitos propostos pelos etologistas. Em seu conjunto, fornecem-nos uma abordagem muito diferente daquelas da teoria da aprendizagem e da psicanálise; entretanto, não são incompatíveis, em absoluto, com os componentes substanciais desses dois outros enfoques. Falta ver, ainda, se a abordagem etológica leva à melhor compreensão dos dados do desenvolvimento da criança e se fornece um estímulo para mais e melhores pesquisas. Parece indubitável, porém, que nos fornece uma perspectiva diferente para observarmos as coisas e

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nos leva a empreender diferentes tipos de pesquisa. Ilustrarei isso considerando duas características muito conhecidas do comportamento social dos bebês: o sorriso e a tendência deles, a partir dos seis meses de idade, para se ligarem à sua figura materna familiar.

James Barrie disse-nos que, quando o primeiro bebê sorriu, o sorriso desfez-se em mil fragmentos e cada um deles converteu-se num duende. Posso acreditar piamente nisso. Os sorrisos de bebês são coisas poderosas e fascinantes, deixando suas mães enfeitiçadas e escravizadas. Quem irá duvidar de que o bebê que mais prontamente retribui um sorriso à sua mãe é o mais bem amado e o mais bem cuidado?

Nestas observações preliminares aventurei-me diretamente numa descrição e exploração etológica do sorriso do bebê. Apresentei a vocês o sorriso infantil como um detonador social — um padrão de comportamento, provavelmente específico da espécie, no Homem, que, em circunstâncias normais, amadurece nas primeiras semanas de vida e que tem como uma das funções suscitar na mãe o comportamento maternal. Além disso, mencionei a possibilidade de que se tenha desenvolvido na evolução da espécie humana uma taxa diferencial de sobrevivência favorecendo os bebês que sorriem bem. Visto por esse prisma, estarei interessado, é claro, em identificar as condições, internas e externas ao bebê, que são necessárias para provocar um sorriso, e as condições que levam à sua terminação. Em especial, tentarei apurar se responde a estímulos-sinais visuais e auditivos, e se está ou não sujeito, sob qualquer aspecto, às fases sensíveis do desenvolvimento. Além disso, espero vê-lo atuando como um componente na organização superior de padrões de comportamento que compreendem o “comportamento de ligação” no bebê ligeiramente mais velho, ou seja, o complexo de comportamento que liga a criança à figura materna. Pesquisas nesse sentido estão sendo empreendidas em Tavistock pelo meu colega Anthony Ambrose *(1).

Essa abordagem, que pode ser facilmente integrada à teoria da aprendizagem, contrasta com a que é rigorosamente confinada pela teoria da aprendizagem.

Há cerca de 20 anos, Dennis (1935) notou que os bebês (de sete a dezesseis semanas) sorriam a um rosto e uma voz humanos. Como teórico da aprendizagem, acreditava que o rosto e a voz não podiam ser os estímulos não-condicionados e, assim, realizou experimentos para ver se podia identificar o estímulo não-condicionado. O seu método consistiu em criar os bebês de tal modo que, tanto quanto possível, sua amamentação e outros cuidados fossem realizados de forma que eles não pudessem ver um rosto humano e que não lhes fosse dirigida a palavra; a sua expectativa era de que, com o passar do tempo, seria possível determinar para o que é que os bebês sorriam naturalmente.

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