Formação e rompimento dos laços afetivos



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Nota de rodapé:
*(1). Ver o estudo de Ambrose (1974).

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Os resultados que obteve, entretanto, não confirmaram suas expectativas; os bebês criados desse modo ainda sorriam para um rosto humano e nenhuma outra condição de estímulo era mais eficaz do que essa. Por conseguinte, Dennis declarou que não obtivera provas da existência de um estímulo não-condicionado para a resposta de sorrir à qual o rosto humano pudesse ter ficado condicionado.

Não obstante, Dennis não podia crer no que seus olhos viam. Desconhecendo os trabalhos de Heinroth e Lorenz, continuou rejeitando a possibilidade de que o próprio rosto humano seja um eficaz estímulo não-aprendido, usando o argumento (errado) de que não havia provas de uma especificidade semelhante no controle sensorial de respostas não-aprendidas em animais. Preferiu, pelo contrário, apresentar uma teoria especulativa segundo a qual esse sorriso acaba sendo provocado mediante um processo de condicionamento “por qualquer estímulo que anuncia o término da aflição a que o bebê estava sujeito”. E evidente que um apoio exclusivo e irrestrito na teoria da aprendizagem, embora inspirando experimentos interessantes, tinha tomado difícil para Dennis conceder o devido peso tanto às suas próprias descobertas quanto a explicações alternativas.

Dez anos depois, Spitz e Wolf (1946) publicaram mais alguns trabalhos experimentais sobre o sorriso do bebê. Numa série de experimentos usando máscaras, eles demonstraram que em bebês entre dois e seis meses de idade, oriundos de diferentes origens raciais e culturais, o sorriso é evocado pela qualidade configurativa visual do rosto humano. Afirmaram ainda que essa configuração deve incluir como elementos dois olhos na posição frontal do rosto em movimento. Essas observações foram amplamente confirmadas e ampliadas por Ahrens (1954), que também mostrou como a configuração necessária para suscitar o sorriso torna-se mais complexa com a idade. Parece irrefutável, e esses dois pesquisadores concordam, que pelo menos um dos estímulos exteroceptivos que evocam um sorriso no bebê de dois para três meses é uma Gestalt visual relativamente simples. Portanto, é uma surpresa descobrir que, ao examinar o componente motor do sorriso, Spitz não o considera um padrão inato e específico da espécie. Deixou claro, em comunicações pessoais, que o considera, pelo contrário, uma resposta motora aprendida em resultado do condicionamento instrumental. Equiparando-a à aprendizagem da linguagem através da seleção e uso especializado de fonemas naturalmente dados, Spitz escreve:

“Uma seleção ocorre pela supressão progressiva (ou abandono) dos padrões não-adaptados aos fins e pelo reforço dos padrões de comportamento adaptados aos fins.

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Foi isso que eu pretendi significar quando disse que a resposta de sorriso é um padrão de comportamento adquirido em resposta aos cuidados maternos; ele está presente desde o começo, como uma de muitas dezenas de padrões de comportamento fisionômico; é cristalizado, dentre todos eles, em resposta à solicitude da mãe, ou seja, ao início da relação objetal”.

Spitz não admite facilmente a noção de que o padrão pode ser, pelo contrário, inato no bebê humano e de que, por volta das seis semanas de idade, está organizado e pronto a ser provocado pelos estímulos apropriados.

Entretanto, nada seria mais provável. No fim das contas, grandes riscos foram assumidos durante a evolução do Homem. Em seu equipamento, o fiel da balança inclinou-se acentuadamente em favor da flexibilidade de comportamento e, portanto, da aprendizagem, em oposição à fixidez inata. Seria, no entanto, muito estranho que a segurança biológica resultante de padrões fixos fosse completamente abandonada. Suponho que chorar, chupar e sorrir sejam alguns dos nossos muitos padrões motores inatos e representem a garantia da natureza contra deixar tudo ao acaso da aprendizagem.

Reconheço, no entanto, que o caso não está provado e talvez nunca seja provado de um modo absoluto. Além disso, quero enfatizar que nada existe no quadro que apresentei que seja incompatível com o fato de o sorriso ser influenciado pela aprendizagem. Com efeito, temos boas razões para acreditar que seja. Recentemente, Brackbill (1956) relatou um experimento em que dois grupos de bebês entre 14 e 18 semanas de idade foram submetidos, durante 15 dias cada, a “recompensas” de dois graus diferentes por seus sorrisos, sendo a “recompensa” uma atenção extra por parte da experimentadora. No final do período, os dois grupos divergiam significativamente, no sentido esperado, quanto à freqüência e persistência de seus sorrisos. A conclusão de que o sorriso é influenciado pelo condicionamento instrumental parece estar bem baseada nas provas apresentadas por Brackbill. Qualquer outra suposição de que o sorriso deva ser entendido exclusivamente em termos de condicionamento instrumental não é justificada pelos dados oferecidos pela autora e, como já disse, parece improvável. Andar e correr são aperfeiçoados pela prática, e nem por isso concluímos que esses comportamentos sejam adquiridos unicamente por aprendizagem — e se o fizéssemos estaríamos certamente errados!

Muita coisa depende do modo como conceituamos o sorriso do bebê; as questões sobre desenvolvimento social para as quais procuramos respostas na pesquisa serão formuladas de modo diferente, é possível que todas as nossas concepções da interação social humana sejam

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diferentes, e as técnicas educacionais e clínicas com as quais concordamos terão ênfases diferentes. Examinemos brevemente como isso afetará a pesquisa sobre o desenvolvimento social nos primeiros anos de vida.

Se adotarmos, sem restrições, o ponto de vista da teoria da aprendizagem, conceberemos o Homem como um animal sem respostas sociais inatas. Estaremos, então, como Heathers (1955) e Gewirtz (1956) reconhecem, diante do problema de explicar como é que, aos sete ou oito meses de idade, um bebê desenvolveu uma forte ligação emocional com sua mãe. Grande parte do nosso trabalho experimental terá por objetivo, nesse caso, elucidar como esse desenvolvimento ocorreu através de processos de aprendizagem baseados na satisfação de necessidades fisiológicas.

Se, por outro lado, adotamos um ponto de vista etológico, procederemos de um modo muito diferente. Em primeiro lugar, estaremos atentos a numerosos padrões de comportamento específicos da espécie em bebês, como o sorriso, que concorrem para a interação com a mãe. (Dois que podem ser considerados desse tipo e que esperamos estudar na Tavistock são o choro e a tendência dos bebês para estenderem os braços, o que parece ser sempre interpretado pelos adultos como um desejo de ser apanhado no colo.) Tendo identificado esses padrões, tentaremos analisar os estímulos detonadores e supressores a que eles são sensíveis. Esperamos encontrar que esses estímulos sejam comumente apresentados pela mãe e iremos procurá-los em coisas tais como a sua aparência, o tom de sua voz e a pressão de seus braços. Além disso, estaremos atentos às fases sensíveis pelas quais essas respostas podem passar (tanto quanto à sua maturação como quanto a seus componentes aprendidos), ao processo mediante o qual as numerosas respostas sociais são integradas num todo mais complexo, às situações em que conflitam com respostas incompatíveis, como hostilidade ou fuga, às situações de estresse suscetíveis de acarretar sua desintegração temporária ou, possivelmente, permanente, a seus efeitos sobre o comportamento materno, etc.

É evidente que se trata de dois programas de pesquisa muito diferentes. Além de sua adequação às concepções oriundas da experiência psicanalítica e outras experiências clínicas, uma razão principal para se preferir o programa etológico é que ele já provou ser fecundo na análise do desenvolvimento e da interação social em outras espécies, ao passo que a teoria da aprendizagem, como o próprio Gewirtz sublinhou, foi desenvolvida para explicar fenômenos que são relativamente mais simples e que, por conseguinte, ainda precisa demonstrar sua pertinência.

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Espero não ser necessário repetir que, ao preferir a abordagem etológica não estou descartando a teoria da aprendizagem. Pelo contrário, para se entender muitos dos processos de mudança a que estão sujeitos os componentes de padrões instintivos, a teoria da aprendizagem é indispensável e, portanto, complementar da etologia.

Analogamente, a obra de Piaget (1937) também é complementar da etologia. Mesmo que estejamos certos ao considerar que, nos primeiros meses de vida do bebê, os estímulos detonadores e supressores de padrões de comportamento social são da natureza de simples Gestalten, isto logo deixa de ser verdade. Já por volta dos seis meses de idade os estímulos mediadores do comportamento social do bebê incluem complexas imagens mentais, ao passo que no segundo ano ele está desenvolvendo a capacidade de pensamento simbólico que aumenta consideravelmente os estímulos que se revestem de significação social. Para compreender essa mudança, parece provável que os conceitos de Piaget se mostrem indispensáveis. Entretanto, não precisamos supor que, pelo fato de um indivíduo ter-se tornado capaz de utilizar objetos de percepção e conceitos mais complexos, ele deixe necessariamente de ser influenciado por estímulos mais primitivos. Pelo contrário, não parece improvável que, à semelhança dos chimpanzés, descritos com tanta compreensão por Yerkes (1943: 35-6), continuemos sendo influenciados por tais estímulos e que, em condições de ansiedade e estresse, sejamos particularmente sensíveis a eles.

Isso nos leva à relação entre a etologia e a psicanálise. E evidente que, na medida em que se ocupa do Homem como um animal que usa símbolos, dotado de extraordinárias capacidades para aprender e, portanto, para protelar, distorcer e disfarçar a expressão de respostas instintivas, a psicanálise está explorando uma região adjacente e complementar da etologia. Contudo, na medida em que se ocupa das próprias respostas instintivas, parece provável que as duas disciplinas coincidam em muitos pontos. Nesse contexto, é interessante refletir sobre a convicção expressa por Freud há mais de 40 anos (Freud, 1915) de que, para uma compreensão mais profunda do instinto, a psicologia precisaria da ajuda da biologia. Em conseqüência do desenvolvimento da ciência da etologia, que tem suas raízes mergulhadas na biologia, acredito ter chegado agora o momento em que a teoria psicanalítica do instinto pode ser reformulada. Não é esta a ocasião para tentarmos um tão vasto e polêmico empreendimento. Entretanto, será evidente que noções tais como as de narcisismo primário e de controle do instinto como resultados exclusivos da aprendizagem social não merecerão muita atenção, ao passo que as de relações humanas primárias, inevitabilidade do conflito

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intrapsíquico, defesas contra o conflito e modos de regulá-lo, serão noções centrais. Um dos resultados dessa reformulação poderá ser um corpo teórico mais parcimonioso e coerente.

O desenvolvimento de todas essas linhas de pensamento pela pesquisa empírica será tarefa de uma geração. Se isso será empreendido ou não, dependerá de um clima de opinião na psicologia britânica que valorize todas essas abordagens, reconheça-as como reciprocamente complementares e, assim, leve os estudantes de graduação e pós-graduação a receberem instrução sobre os princípios que as regem.
Pós-Escrito.
A abordagem defendida foi adotada com notável êxito por Mary Salter Ainsworth, de quem numerosas publicações são indicadas nas Referências do presente volume, e também por Nicholas Blurton Jones (1972).

Para uma exposição atualizada dos conceitos e dados etológicos em relação ao homem, ver Hinde (1974).


3. O luto na infância e suas implicações para a psiquiatria *(1).
Todos os anos, a Associação Psiquiátrica Americana convida para as suas reuniões anuais um conferencista, usualmente um psiquiatra de fora dos Estados Unidos, para fazer uma palestra em honra de Adolf Meyer. Fui convidado para falar na reunião realizada na primavera de

1961, em Chicago. O texto foi publicado mais tarde, nesse mesmo ano.


Durante meio século ou mais, existiu uma escola de pensamento que acreditava que as experiências da infância desempenham um importante papel na determinação da propensão de um indivíduo para, ao crescer, contrair ou não uma doença mental. Adolf Meyer deu uma grande contribuição para o desenvolvimento dessa escola. Ao insistir que o paciente psiquiátrico é um ser humano e que seu pensamento, seu sentimento e seu comportamento perturbados devem ser examinados no contexto do ambiente em que está vivendo e em que viveu, Adolf Meyer convidou-nos a prestar atenção a todos os complexos detalhes da biografia do paciente como possíveis pistas para a sua doença. “A mais valiosa característica determinante é, via de regra, a forma de evolução do complexo [sintoma], o tempo, a duração e as circunstâncias de seu desenvolvimento.” Embora eu não encontre provas de que o próprio Adolf Meyer estivesse grandemente interessado em experiências sobre os primeiros tempos da infância, elas situam-se obviamente em seu campo de visão e constituem, de fato, uma extensão lógica de seu trabalho.
Nota de rodapé:
*(1). Publicado originalmente em American Journal of Psychiatry (1961) 118: 481-98. Copyright, 1961, The American Psychiatric Association. Reimpresso com autorização.

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Com o passar dos anos, fortaleceu-se a convicção de que as experiências da infância se revestem de grandes conseqüências para o desenvolvimento da doença psiquiátrica. Entretanto, a hipótese básica sempre foi objeto de viva controvérsia. Alguns afirmaram que a hipótese está errada — que a doença psiquiátrica não tem suas raízes nos primeiros anos da infância mas em algum outro lugar; enquanto que aqueles que acreditam que a hipótese é fecunda ainda continuam, nas décadas de 1960 e 1970, procurando descobrir, precisamente, quais são as experiências relevantes. Boa parte da controvérsia decorre da dificuldade em realizar pesquisas satisfatórias nessa área — dificuldade que decorre, principalmente, do longo intervalo de tempo entre os acontecimentos considerados importantes e o início da doença declarada. Portanto, para a ciência da psicopatologia, o problema que se coloca é como explorar melhor a área a fim de se alcançar um terreno mais sólido. O meu plano é fornecer aqui uma descrição dos progressos recentes numa linha de investigação — aquela que se propõe compreender o efeito que a perda dos cuidados maternos nos primeiros anos da infância tem sobre o desenvolvimento da personalidade.

Nos últimos vinte anos, acumularam-se muitas provas que indicam a existência de uma relação causal entre a perda dos cuidados matemos nos primeiros anos de vida e o desenvolvimento da personalidade perturbada (Bowlby, 1951). Muitos desvios comuns parecem resultar de uma experiência desse gênero — desde a formação do caráter delinqüente até uma personalidade propensa aos estados de ansiedade e à doença depressiva. Embora haja ainda alguns psiquiatras que contestam essa conclusão geral, uma atitude mais usual consiste em aceitar que existe, provavelmente, alguma coisa nessa relação e pedir informações mais minuciosas. Uma solicitação particular tem sido para que se formule uma hipótese capaz de fornecer uma explicação plausível de como os efeitos perniciosos atribuídos à separação e privação resultam de tais experiências. Nas linhas que se seguem apresentarei um esboço do caminho para onde as provas parecem estar nos conduzindo.

Esta investigação não obedece à prática usual da pesquisa psiquiátrica, que começa com um síndrome clínico mais ou menos definido e depois tenta delinear a patologia subjacente. Começa, pelo contrário, com um determinado tipo de experiência, a perda da figura materna na infância, e tenta em seguida descrever os processos psicológicos e psicopatológicos que dela resultam comumente. Uma mudança desse tipo na orientação da pesquisa ocorreu há muito tempo na medicina fisiológica. Por exemplo, nos estudos sobre a patologia da infecção pulmonar crônica, o investigador já não começa com um grupo apenas de casos de

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infecção crônica, para descobrir o agente (ou agentes) infeccioso que está atuando. É muito mais provável que comece com um agente específico, talvez o bacilo de Koch ou algum vírus recém-identificado, a fim de estudar os processos fisiológicos e fisiopatológicos a que ele dá origem. Assim fazendo, ele poderá descobrir muitas coisas que não são imediatamente relevantes para as condições pulmonares infecciosas crônicas. Não só ele poderá elucidar certas infecções agudas e condições subclínicas, mas é quase certo que descobrirá (e esclarecerá) quais são as infecções de outros órgãos, além dos pulmões, provocadas pelo organismo patogênico que escolheu para estudo. O investigador deixou de ter como interesse central a pesquisa de um determinado síndrome clínico, passando a interessar-se mais pelas múltiplas seqüelas de um agente patogênico específico.

O agente patogênico que nos interessa é a perda da figura materna durante o período compreendido entre, aproximadamente, seis meses e seis anos de idade. Durante os primeiros meses de vida, o bebê aprende a discriminar uma certa figura, usualmente a mãe, e desenvolve um grande prazer em estar na sua companhia. Depois dos seis meses de idade, aproximadamente, o bebê mostra suas preferências de modo inconfundível (Schaffer, 1958). Durante a segunda metade do primeiro ano de vida, e a totalidade do segundo e terceiro, a criança está intimamente ligada à sua figura materna, o que significa que fica contente na companhia dela e aflita quando ela está ausente. Mesmo separações momentâneas levam freqüentemente a criança a protestar; e as mais demoradas sempre envolvem os mais vigorosos protestos. Após o terceiro ano, o comportamento de ligação é suscitado um pouco menos prontamente do que antes, embora a mudança seja apenas de grau *(1). A partir do primeiro aniversário, outras figuras, como o pai ou uma avó, também podem tornar-se importantes para a criança, de modo que a sua ligação não se limita mais a uma única figura. No entanto, existe usualmente uma preferência bem marcada por uma determinada pessoa. À luz da filogenia, é provável que os vínculos instintivos que ligam o bebê humano a uma figura materna sejam construídos de acordo com o mesmo padrão geral presente em outras espécies mamíferas (Bowlby, 1958; Rollman-Branch, 1960; Harlow e Zimmermann, 1959).

A maioria das crianças não passa por qualquer desintegração dessa ligação primária em seus primeiros anos de vida. Elas vivem com sua figura materna e, durante os períodos relativamente breves em que a mãe está ausente, são cuidadas por uma figura secundária familiar. Por outro lado, uma minoria sofre tais desintegrações. A mãe pode abandonar o lar ou morrer; a criança pode ser deixada num hospital ou instituição; pode ser transferida de uma figura materna para uma outra.
Nota de rodapé:
*(1). Na versão original da conferência que forma este capítulo, referi-me a uma mudança na “força” da ligação. Entretanto, ficou provado que é extremamente enganador conceber a ligação como algo que varia de acordo com sua força, e a idéia foi abandonada por pesquisadores esclarecidos. Com freqüência, é útil pensar que a ligação varia segundo uma dimensão “segurança-ansiedade”. Ver a minha análise da questão nos parágrafos iniciais do Capítulo 15 de Attachment and Loss [Ligação e Perda], Vol. 2.

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A interrupção pode ser longa ou breve, acontecer uma única vez ou repetir-se. As experiências englobadas sob a designação geral de privação materna são, pois, múltiplas e nenhuma investigação pode estudá-las todas. Portanto, para que a pesquisa seja eficaz, a experiência a ser estudada deve ser definida com muita precisão em cada projeto.

Quanto às estratégias de pesquisa, o investigador tem uma escolha (Ainsworth e Bowlby, 1954). Uma possibilidade óbvia é examinar uma amostra de crianças mais velhas e adultos que em seus primeiros anos de vida tenham passado por essa experiência, para ver se eles diferem ou não de uma amostra comparável de pessoas que não tenham passado pela experiência. Embora adotada com brilhantismo por Goldfarb (1955), essa estratégia apresenta muitas dificuldades práticas. As principais são: a localização de uma amostra adequada; a seleção e o exame dos controles apropriados; a utilização de instrumentos idôneos para medir as características da personalidade que se espera que apresentem diferenças. Uma abordagem alternativa consiste em estudar as respostas da criança durante a experiência e no período imediatamente posterior. Depois de passar vários anos não muito produtivos usando a primeira estratégia, o meu grupo de pesquisa concentrou-se, durante a maior parte da década passada, na segunda. Isso tem dado resultados muito mais gratificantes.
Separação da mãe e luto na infância.
Os dados que nos interessam basicamente são as observações do comportamento de crianças saudáveis de uma idade definida, ou seja, no segundo e no terceiro ano de idade, expostas a uma situação igualmente definida, a saber, uma estada de duração limitada numa creche residencial ou enfermaria de hospital, onde foram assistidas da maneira tradicional. Isto significa que a criança foi retirada dos cuidados de sua figura materna e de todas as figuras secundárias, assim como de seu ambiente familiar, e passou a ser cuidada num lugar estranho por uma série de pessoas desconhecidas. Outros dados surgiram de observações do comportamento da criança em seu lar nos meses subseqüentes ao seu regresso, e dos depoimentos de seus pais sobre esse período. Graças ao trabalho de James Robertson e Christoph Heinicke, dispomos agora de um considerável acervo de observações. Algumas delas já foram publicadas (Robertson e Bowlby, 1952; Robertson, 1953a, b; Bowlby, 1953; Heinicke, 1956), mas outras ainda estão por divulgar *(1).
Nota de rodapé:
*(1). Ver especialmente o estudo relatado por Heinicke e Westheimer (1966), do qual algum dados e conclusões são por nós apresentados no Capítulo 4.

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Estamos bastante confiantes nos modelos comuns porque as observações feitas por outros investigadores (Burlingham e Freud, 1942, 1944; Prugh e outros, 1953; Illingworth e Holt, 1955; Roudinesco, Nicolas e David, 1952; Aubry, 1955; Schaffer e Callender, 1959) registram seqüências de respostas substancialmente semelhantes.

No contexto descrito, um bebê de quinze a trinta meses que venha tendo uma relação bastante segura com sua mãe e nunca se tenha separado dela antes, mostrará, via de regra, uma seqüência previsível de comportamento. Essa seqüência pode ser decomposta em três fases, de acordo com a atitude dominante da mãe. Descrevemo-las como as fases de protesto, desespero e desligamento *(1). Primeiro com lágrimas e raiva, o bebê exige que sua mãe regresse e parece ter esperança de conseguir reavê-la. Esta é a fase de protesto, e pode durar vários dias. Depois, torna-se mais calmo mas, para um observador perspicaz, é evidente que o bebê continua tão preocupado quanto estava antes com a ausência da mãe e ainda anseia pelo seu regresso; mas suas esperanças dissiparam-se e ele entra na fase de desespero. Essas duas fases se alternam freqüentemente: a esperança converte-se em desespero e o desespero em renovada esperança. Finalmente, porém, ocorre uma mudança maior. O bebê parece esquecer sua mãe, de modo que, quando ela regressa, permanece curiosamente desinteressado e, inclusive, pode parecer que não a reconhece. Esta é a terceira fase — a do desligamento. Em cada uma dessas fases a criança é propensa a birras e episódios de comportamento destrutivo, muitas vezes de um tipo inquietantemente violento.

O comportamento da criança ao voltar para casa depende da fase atingida durante o período de separação. Usualmente, durante um certo tempo, mostra-se indiferente e nada pede; em que grau e por quanto tempo, depende da duração da separação e da freqüência das visitas. Por exemplo, quando esteve fora e sem receber visitas durante semanas ou meses, e atingiu assim os primeiros estágios do desligamento, é possível que a indiferença persista durante um período que vai de uma hora a um dia ou mais. Quando finalmente se desfaz, torna-se manifesta a intensa ambivalência de seus sentimentos pela mãe. Desencadeia-se uma tempestade de sentimentos, intenso apego à mãe e, sempre que esta se afasta, nem que seja por instantes, uma intensa ansiedade e raiva. Daí em diante, por semanas ou meses, a mãe poderá estar sujeita a solicitações ansiosas de sua presença constante e a recriminações furiosas quando se ausenta.

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