Formação e rompimento dos laços afetivos



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Nota de rodapé:
*(1). Em alguns artigos anteriores, foi usada a palavra “negação” para designar a terceira fase. Ela tem, contudo, muitas desvantagens e foi abandonada.

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Entretanto, quando a criança esteve fora por um período superior a seis meses ou quando houve separações repetidas, de modo a ter sido alcançado um estágio avançado de desligamento, há o perigo de que a criança fique permanentemente desligada e nunca mais recupere sua afeição pelos pais *(1). Ora, na interpretação desses dados e em seu relacionamento com a psicopatologia, um conceito-chave é o de luto. Existem, de fato, boas razões para acreditar que a seqüência de respostas descrita — protesto, desespero e desligamento — é uma seqüência que, numa variante ou outra, é característica de todas as formas de luto. Após uma perda inesperada, parece haver sempre uma fase de protesto, durante a qual a pessoa que sofreu a perda se empenha, na realidade ou em pensamento e sentimento, em recuperar a pessoa perdida *(2) e a recrimina por sua deserção. Durante esta fase de desespero e a seguinte, os sentimentos são ambivalentes, enquanto que o estado de ânimo e a ação variam entre uma expectativa imediata, expressa numa intimação raivosa para que a pessoa regresse, até um profundo desespero, expresso em suspiros contidos — ou até mesmo inexprimido. Embora a esperança e o desespero alternados possam continuar por muito tempo, acabará por desenvolver-se um certo grau de desligamento emocional da pessoa perdida. Após ter passado pela desorganização da fase do desespero, o comportamento nesta fase se reorganiza com base na ausência permanente da pessoa. Embora este quadro do luto sadio não seja inteiramente familiar aos psiquiatras, as provas de sua veracidade parecem convincentes (Bowlby, 1961b).

Se este ponto de vista é correto, as reações de crianças pequenas ao serem removidas para um hospital ou instituição devem ser simplesmente consideradas como variantes de processos básicos de luto. Parece que os mesmos tipos de respostas ocorrem, na mesma seqüência, independentemente da idade. Tal como os adultos, bebês e crianças pequenas que perderam uma pessoa amada sentem pesar e passam por períodos de luto (Bowlby, 1960b). Parece haver apenas duas diferenças inter-relacionadas. Uma, é que na criança a escala de tempo é abreviada, embora muito menos do que, por vezes, se pensava. A outra, que é significativa para a psiquiatria, é que na infância os processos que culminam no desligamento têm condições para se desenvolverem prematuramente, tanto mais que coincidem (e mascaram) com um forte anseio residual pela pessoa perdida e raiva contra ela; estes sentimentos persistem, prontos para manifestar-se, em nível inconsciente.
Nota de rodapé:
*(1). Numerosas variáveis influenciam o comportamento da criança durante e depois da separação, e isso torna difícil uma breve exposição esquemática. A descrição feita aplica-se especialmente ao comportamento de uma criança que não recebe visitas e é cuidada por enfermeiras ou outras pessoas que manifestam pouca compreensão ou compaixão pela aflição dela. Parece provável que visitas livres e uma assistência mais esclarecida podem mitigar os processos descritos, mas existe muito pouca informação confiável sobre isso.

*(2). Na versão original deste capítulo (e em alguns lugares dos dois anteriores), segui a tradição psicanalítica de referência a “relações objetais”, “o objeto amado” e “o objeto perdido”. Abandonei esse uso pouco tempo depois. Não só ele decorre de um paradigma teórico que mesmo em 1961 eu já não mais sustentava, como considero seriamente errôneo mencionar uma outra pessoa como um objeto, pois implica a relação com algo inerte e não com outro ser humano que desempenha um papel igual ou talvez dominante na determinação de como a relação se desenvolve. Portanto, ao voltar agora a publicar o que foi a conferência original, alterei a redação e passei a mencionar sempre uma “pessoa amada” ou uma “pessoa perdida”, em vez de “objeto amado” ou “objeto perdido”.

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Em virtude desse início prematuro do desligamento, os processos de luto na infância geralmente tomam um curso *(1) que seria considerado patológico em crianças mais velhas e nos adultos.



Uma vez que reconhecemos que a separação de uma criança pequena de sua amada figura materna precipita comumente processos de luto de tipo patológico, estamos aptos a relacionar os nossos dados com os obtidos em muitas outras investigações. Temos, por um lado, as conclusões de estudos de investigadores que partiram do estudo do sentimento de pesar dos adultos para uma investigação de psicopatologia (Lindemann, 1944; Jacobson, 1957; Engel, 1961): por outro, temos as investigações dos pesquisadores — muito mais numerosos — que seguiram o modelo tradicional de pesquisa psiquiátrica, que começa com um paciente e tenta descobrir quais foram os eventos anteriores com significação causal, e formularam a hipótese de que a perda de uma pessoa amada é, de algum modo, patogênica.

As pesquisas que apontaram a perda de uma pessoa amada como provavelmente patogênica são elas mesmas de diversos tipos. Em primeiro lugar, existem os numerosos estudos, dos quais Luto e Melancolia (1917), de Freud, é o protótipo, que relacionam um síndrome psiquiátrico de início relativamente agudo — como um estado de ansiedade, doença depressiva, ou histeria — com uma perda mais ou menos recente, e propõem que o quadro clínico deve ser entendido como o resultado do fato de o luto ter seguido um curso patológico. Em seguida, temos os estudos, quase tão numerosos, que relacionam um síndrome psiquiátrico de grau mais crônico, como a tendência para a depressão episódica ou uma dificuldade para experimentar sentimentos, com uma perda que ocorreu na infância ou adolescência do paciente. Em terceiro lugar, cita-se a extensa literatura psicanalítica que procura relacionar a propensão para a doença psiquiátrica na idade adulta com alguma falha no desenvolvimento psíquico durante a infância. Em quarto lugar, há uma série crescente de estudos que mostram que na vida de pessoas que contraíram doença psiquiátrica houve, durante a infância, uma incidência elevada de perdas; e, finalmente, registre-se a observação impressionante de que há indivíduos que são suscetíveis de contrair uma doença psiquiátrica numa idade que parece ser determinada por um episódio de sua infância, quando sofreram a perda de um dos pais — as chamadas reações de aniversário.

Ora, é certamente impossível discutir de modo sistemático, num único artigo, a pertinência das provas fornecidas por cada uma dessas fontes. O máximo que podemos fazer é apoiarmo-nos em alguns estudos típicos de cada um desses campos (mas excluindo as reações de aniversário)
Nota de rodapé:
*(1). Está agora claro que o processo de luto em crianças não necessita adotar um curso que leve à patologia, se bem que tal aconteça com bastante freqüência. O advérbio “habitualmente” usado no texto, aqui e em outros pontos do capítulo, é, portanto, desorientador. As condições que influenciam o desfecho são examinadas por Furman (1974) e tratadas em detalhe também na Parte III de Attachment and Loss, Vol. 3.

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e mostrarmos de modo sucinto como esses dados parecem conjugar-se. Entretanto, como a tese gravita toda ela em torno da natureza dos processos que entram em ação no luto e, especialmente, os que estão presentes na primeira fase, é necessário dispensar-lhes mais atenção.


Impulsos para recuperar e para recriminar a pessoa perdida: seu papel na psicopatologia.
Nem sempre se percebe que a raiva constitui uma resposta imediata à perda, comum e talvez invariável. Em lugar da raiva indicando que o luto está seguindo um curso patológico — uma opinião sugerida por Freud e comumente sustentada — as provas existentes evidenciam que a raiva, incluindo a raiva com relação à pessoa perdida, é parte integrante da reação de pesar. A função dessa raiva parece ser a de reforçar o ímpeto dos esforços vigorosos tanto para reaver a pessoa perdida como para dissuadi-la de uma nova deserção, que são marcas distintivas da primeira fase do luto. Como até hoje não se tem prestado muita atenção a essa fase e como, além disso, ela parece ser crucial para um entendimento da psicopatologia, toma-se necessário explorá-la mais completamente.

Como nos casos de morte um esforço carregado de raiva para recuperar a pessoa perdida é tão obviamente inócuo, há uma tendência para considerá-lo patológico em si mesmo. Acredito que isso é um erro. Longe de ser patológica, as provas sugerem que a expressão manifesta desse impulso irresistível, por mais fora da realidade e inútil que seja, é uma condição necessária para que o luto siga um curso saudável. Somente depois que todos os esforços foram feitos para reaver a pessoa perdida é que, segundo parece, o indivíduo adquire um estado de ânimo capaz de fazê-lo admitir a derrota e de reorientá-lo para um mundo em que a pessoa amada é aceita como irreparavelmente ausente. O protesto, incluindo uma exigência raivosa do retomo da pessoa e uma recriminação contra ela por ter desertado faz parte da resposta à perda, tanto por parte de um adulto (especialmente quando se trata de uma perda súbita) como por parte de uma criança.

Isso poderá parecer desconcertante. Como explicar que tais exigências e recriminações sejam feitas mesmo quando a pessoa já não pode ser trazida de volta? Por que um irrealismo tão gritante? Acredito existir uma boa resposta, originada na teoria da evolução.

Em primeiro lugar, um exame das respostas comportamentais à perda que são manifestadas por espécies não-humanas — aves, mamíferos

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inferiores e primatas — sugere que essas respostas têm antigas raízes biológicas. Embora não estejam registradas em toda a sua extensão, as informações existentes mostram, contudo, que muitas (senão todas) as características descritas para seres humanos — ansiedade e protesto, desespero e desorganização, desligamento e reorganização — também são a regra em muitas outras espécies *(1).

Em segundo lugar, não é difícil perceber que essas respostas devem ter evoluído. Na existência primitiva e natural, perder o contato com o grupo familiar imediato é extremamente perigoso, sobretudo para os filhotes. Portanto, é do interesse da segurança individual e da reprodução da espécie que existam fortes laços unindo os membros de uma família ou de uma família extensa; e isso requer que toda a separação, ainda que breve, seja respondida por um esforço imediato, automático e vigoroso para recuperar a família, especialmente o membro com quem a ligação é mais forte, e para desencorajar esse membro a uma nova separação. Por essa razão, sugere-se que as determinantes herdadas do comportamento (freqüentemente qualificadas de instintivas) evoluíram de tal modo que as respostas padronizadas à perda de pessoas amadas são sempre, em primeiro lugar, impulsos para reavê-las e, depois, para recriminá-las. Entretanto, se os impulsos para recuperar e recriminar são respostas automáticas inerentes ao organismo, conclui-se que elas entrarão em ação como resposta a toda e qualquer perda, sem discriminar entre aquelas que são realmente recuperáveis e aquelas, estatisticamente raras, que não o são. É uma hipótese desse tipo, creio eu, que explica por que uma pessoa que sofreu uma perda experimenta comumente um impulso irresistível para reaver a pessoa, mesmo sabendo que a tentativa é infrutífera, e para recriminá-la por ter partido, mesmo quando sabe que a recriminação é irracional.

Logo, se tanto o esforço inútil para recuperar a pessoa perdida como as recriminações furiosas contra ela por ter desertado não são sinais de patologia, poder-se-á perguntar: então, de que modo se distingue o luto patológico do luto saudável? O exame dos elementos de demonstração sugere que uma das principais características do luto patológico é a incapacidade para expressar abertamente esses impulsos para reaver e recriminar a pessoa perdida, com toda a saudade do desertor e toda a raiva contra ele que esses impulsos implicam.
Nota de rodapé:
*(1). As demonstrações foram reexaminadas por Bowlby (1961b) e Pollock (1961). Para dar um exemplo citado por Pollock: um chimpanzé que tinha perdido sua companheira fez repetidos esforços para reanimá-la. Guinchou raivosamente e, algumas vezes, expressou sua cólera arrancando tufos de pêlo de sua própria cabeça. Depois, houve choro e luto. Com o tempo, ficou mais intimamente ligado ao seu tratador e mostrava-se mais irritado do que antes quando o tratador ia embora.

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Em vez de sua expressão aberta que, apesar de ser tempestuosa e estéril, leva a um resultado saudável, os impulsos de recuperação e recriminação, com toda a sua ambivalência de sentimentos, cindem-se e são reprimidos. Daí em diante, continuam como sistemas ativos na personalidade mas, incapazes de encontrar uma expressão direta e manifesta, passam a influenciar os sentimentos e o comportamento de um modo estranho e distorcido. Daí as numerosas formas de perturbação de caráter e doença neurótica.

Darei um breve exemplo ilustrativo de uma dessas formas, extraído de um caso relatado por Helene Deutsch (1937). Quando veio para uma análise, esse homem, com trinta e poucos anos, não apresentava dificuldades neuróticas aparentes. O quadro clínico, entretanto, era de um caráter inexpressivo e carente de afetividade. Helene Deutsch descreve como o paciente “mostrou um completo bloqueio de emoções e sentimentos, sem o menor insight... Não tinha relações amorosas, nem amigos, nem interesse real por qualquer coisa. Em todos os tipos de experiências mostrava a mesma reação apagada e apática. Não havia empenho nem desapontamento... Não havia reações de pesar pela morte de pessoas próximas, nem sentimentos inamistosos ou impulsos agressivos”. Como se desenvolveu essa personalidade estéril e mutilada? À luz de uma hipótese a respeito do luto na infância, a história, em conjunto com o material proveniente da análise, pudemos construir uma explicação plausível.

Primeiro, a história: Quando o paciente tinha cinco anos de idade, sua mãe falecera, e disseram que ele tinha reagido a essa perda sem qualquer emoção (3). Daí por diante, além disso, ele não tinha conservado lembrança de nenhum evento anterior à morte da mãe. Segundo, o material proveniente da análise: O paciente descreveu como, durante os últimos anos de sua infância, costumava deixar aberta a porta de seu quarto, “na esperança de que um grande cão se aproximasse dele, fosse muito carinhoso com ele e satisfizesse todos os seus desejos”. Associada a essa fantasia estava uma vívida recordação da infância de uma cadela que deixara suas crias sozinhas e desamparadas, ao morrer pouco depois de dar à luz. Embora nessa fantasia a saudade oculta da mãe que ele perdeu pareça plenamente evidente, ele não a expressa de modo simples e direto. Pelo contrário, todas as recordações de sua mãe tinham desaparecido da consciência e, na medida em que podiam ser percebidos, os afetos conscientes em relação a ela eram hostis.

Para explicar o curso de desenvolvimento neste caso, a hipótese que estou apresentando (e que não é muito diferente da de Helene Deutsch) é que, após a morte da mãe, em lugar de haver uma expressão plena do impulso para recuperar sua mãe e da raiva pela deserção dela, o luto do paciente tinha-se deslocado precipitadamente para uma situação de desligamento.
Nota de rodapé:
*(1). Na versão original deste capítulo (e em alguns lugares dos dois anteriores), segui a tradição psicanalítica de referência a “relações objetais”, “o objeto amado” e “o objeto perdido”. Abandonei esse uso pouco tempo depois. Não só ele decorre de um paradigma teórico que mesmo em 1961 eu já não mais sustentava, como considero seriamente errôneo mencionar uma outra pessoa como um objeto, pois implica a relação com algo inerte e não com outro ser humano que desempenha um papel igual ou talvez dominante na determinação de como a relação se desenvolve. Portanto, ao voltar agora a publicar o que foi a conferência original, alterei a redação e passei a mencionar sempre uma “pessoa amada” ou uma “pessoa perdida”, em vez de “objeto amado” ou “objeto perdido”.

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Assim fazendo, a saudade e a raiva tinham-se trancado no íntimo do paciente, potencialmente ativo mas fechado para o mundo, e só o remanescente de sua personalidade tinha ficado livre para desenvolvimento subseqüente. Por conseguinte, ele cresceu gravemente empobrecido. Se esta hipótese é válida, a tarefa do tratamento consiste em ajudar o paciente a recuperar sua saudade latente da mãe que perdeu e sua raiva latente por ela o ter abandonado; em outras palavras, a regressar à primeira fase do luto com toda a sua ambivalência de sentimento e que, na época da perda, tinha sido omitida ou contornada. A experiência de muitos analistas, bem ilustrada num artigo de Root (1957), sugere que, de fato, só assim uma tal pessoa pode voltar a ter uma vida de sentimento e ligação.

Essa hipótese é fortemente confirmada por nossas observações de crianças separadas de suas mães e que não recebem visitas, especialmente por aquilo que sabemos sobre os estágios iniciais do desligamento que se seguem ao protesto e desespero. Quando uma criança separada ingressa na fase de desligamento, ela parece já não se preocupar com sua mãe ausente e ter-se adaptado satisfatoriamente ao seu novo ambiente. Quando a mãe reaparece para levá-la de volta para casa, em vez de recebê-la efusivamente e de se agarrar a ela, a criança mantém-se distante e indiferente; é uma situação que a maioria das mães acha deprimente e incompreensível. Contudo, se a separação não durou tempo demais, essa situação é reversível, e o interesse especial está naquilo que acontece após a reversão.

Algumas horas ou alguns dias depois de estar de novo com sua mãe, o comportamento de desligamento é substituído não só por toda a antiga ligação mas também por uma ligação muito mais intensa. Isso mostra que, durante o período de desligamento, os laços que vinculam a criança à mãe não se dissiparam por completo, como foi sugerido por Anna Freud (1960) *(1), nem houve um simples esquecimento. Pelo contrário, os dados mostram que, durante a fase de desligamento, as respostas que ligam a criança à mãe e a levam a empenhar-se para reavê-la estão sujeitas a um processo defensivo. São de algum modo, removidas da consciência, mas permanecem latentes e prontas a serem reativadas, com elevada intensidade, quando as circunstâncias mudam *(2).


Nota de rodapé:
*(1). Numa publicação anterior (Burlingham e Freud, 1942), entretanto, Anna Freud adotou um ponto de vista semelhante ao adotado aqui.

*(2). A mudança de circunstância requerida varia com o estágio para o qual o desligamento progrediu. Quando a criança ainda está nas fases iniciais, a renovação da ligação segue logo á nova união com a mãe; quando a criança atingiu um estágio avançado, talvez seja necessário um tratamento psicanalítico.

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Isto significa que, em bebês e crianças pequenas, a experiência de separação inicia habitualmente processos defensivos que levam à saudade da pessoa perdida e a recriminações pela deserção, tornando-se uns e outros inconscientes. Em outras palavras, na infância o indivíduo reage à perda com processos de luto que habitualmente *(1) enveredam por um caminho que, nos adultos, é considerado patológico.

A questão que surge agora é saber se os processos defensivos que são tão impressionantes após uma perda na infância são de natureza diferente do que ocorre no luto saudável ou se eles também ocorrem no luto saudável, mas apresentando alguma diferença de forma ou de timing. As evidências sugerem que, de fato, eles ocorrem (Bowlby, 1961b) mas que, no processo saudável, o seu desencadeamento é protelado. Por conseguinte, os impulsos para recuperar a pessoa perdida e para recriminá-la têm tempo suficiente para se expressarem, de modo que, através da repetida omissão, eles são gradualmente abandonados ou, em termos da teoria da aprendizagem, extintos. O que parece acontecer na infância (e no luto patológico de anos ulteriores), por outro lado, é a aceleração do desenvolvimento de processos defensivos. Como resultado disso, os impulsos de recuperação e recriminação não tem uma oportunidade de extinguir-se e, pelo contrário, persistem, com sérias conseqüências.

Voltemos a aplicar, em poucas palavras, essas idéias ao paciente de Helene Deutsch. Após a morte de sua mãe, quando ele tinha cinco anos, segundo parece, saudade e raiva desapareceram do eu consciente do paciente. Contudo, a fantasia da visita do cão mostra que, não obstante, ambos os sentimentos persistem a nível inconsciente. Isto e as provas oriundas de outros casos evidenciam que, embora imobilizados, tanto o seu amor quanto a sua raiva permaneceram dirigidos para a recuperação da mãe morta. Assim, bloqueados a serviço de uma causa irrealizável, esses sentimentos acabaram por se perder para uma personalidade em desenvolvimento. Com a perda da mãe também se perdera a vida emocional e sentimental do paciente *(2).

Dois termos técnicos comuns são usados para designar os processos em ação: fixação e repressão. Inconscientemente, a criança permanece fixada à mãe que perdeu: seus impulsos para reavê-la e recriminá-la, e as emoções ambivalentes a eles ligados, sofreram repressão.

Um outro processo defensivo, estreitamente relacionado com a repressão e alternativo para esta, também pode ocorrer em conseqüência da perda. Trata-se da “divisão do ego” (Freud, 1938).
Nota de rodapé:

*(1). Está agora claro que o processo de luto em crianças não necessita adotar um curso que leve à patologia, se bem que tal aconteça com bastante freqüência. O advérbio “habitualmente” usado no texto, aqui e em outros pontos do capítulo, é, portanto, desorientador. As condições que influenciam o desfecho são examinadas por Furman (1974) e tratadas em detalhe também na Parte III de Attachment and Loss, Vol. 3.

*(2). Não raras vezes, uma criança não responde com emoção à morte de um dos pais porque recebeu pouca ou nenhuma informação sobre o que aconteceu e, mesmo que seja informada, não lhe é dada a oportunidade de expressar seus sentimentos e emoções, ou de fazer perguntas a um adulto compreensivo. Para referências, ver a nota 4 acima.

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Em tais casos, uma parte da personalidade, secreta mas consciente, nega que a pessoa tenha realmente desaparecido e afirma que ela ainda está em comunicação com o paciente, ou que em breve ela reaparecerá; simultaneamente, uma outra parte da personalidade compartilha com os parentes e amigos o conhecimento de que a pessoa está irremediavelmente perdida, para sempre. Por mais incompatíveis que sejam, as duas partes coexistem durante muitos e muitos anos. Tal como no caso da repressão, as divisões do ego também culminam em doença psiquiátrica.

Por que, em alguns casos, a parte que ainda anseia por reaver a pessoa perdida seria consciente e, em outros, seria inconsciente? Essa é uma questão que não está esclarecida. Tampouco são claras as condições que levam algumas crianças órfãs a se desenvolverem de modo satisfatório e outras não *(1). Este problema tem sido estudado por Hilgard (Hilgard, Newman e Fisk, 1960). O que parece certo, entretanto, é que a precipitação do início dos processos defensivos, repressão ou divisão, com a fixação resultante, ocorre muito mais facilmente na infância do que em anos mais maduros. Nesse fato reside, a meu ver, a explicação principal de por que e como as experiências de perda nos primeiros anos da infância acarretam o desenvolvimento defeituoso da personalidade e a propensão para a doença psiquiátrica.

Portanto, a hipótese que estou formulando é de que, na criança pequena, a experiência de separação da figura materna é especialmente suscetível de evocar processos psicológicos tão cruciais para a psicopatologia quanto a inflamação e seu resultante tecido cicatricial para a fisiopatologia. Isso não significa que o resultado inevitável seja uma mutilação da personalidade; mas significa que, como no caso de, digamos, uma febre reumática, forma-se com muita freqüência um tecido cicatricial que leva, mais tarde, a uma disfunção mais ou menos séria. Segundo parece, os processos em questão são variantes patológicas daquelas que caracterizam o luto saudável.

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