Formação e rompimento dos laços afetivos



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Embora esta posição teórica esteja muito próxima de outras já existentes no campo, ela parece, não obstante, ser diferente de todas. Sua força reside no fato de relacionar as respostas patológicas com que nos deparamos em pacientes mais velhos com as respostas à perda que são realmente observadas nos primeiros anos da infância, fornecendo assim um elo mais sólido entre as condições psiquiátricas da vida adolescente e adulta e a experiência infantil. Passemos agora a comparar essa formulação com algumas das que a precederam.
Nota de rodapé:
*(1). Sabe-se hoje muito mais sobre as condições relevantes; ver as notas 4 e 5 acima.

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Duas tradições na teorização psicanalítica.


Durante o século atual, numerosos psicanalistas e psiquiatras procuraram relacionar doença psiquiátrica, perda de uma pessoa amada, luto patológico e experiência infantil.

Já passaram mais de sessenta anos desde que Freud apresentou pela primeira vez a idéia de que a histeria e a melancolia são manifestações de luto patológico, em conseqüência de uma morte mais ou menos recente (Freud, 1954), e mais de quarenta anos desde que, em Luto e Melancolia, ele apresentou a hipótese de um modo sistemático (Freud, 1917). Daí em diante, não faltaram estudos que, de modos diferentes, corroborassem a hipótese freudiana *(1). A experiência clínica e uma leitura das demonstrações deixam poucas dúvidas sobre a verdade da principal proposição — a de que muitas doenças psiquiátricas são uma expressão de luto patológico — ou a de que tais doenças incluem muitos casos de estado de ansiedade, depressão e histeria, e também mais de um tipo de distúrbio de caráter. É evidente que um vasto e importante campo foi aqui descoberto; para que seja completamente explorado, são necessários novos e minuciosos trabalhos.

A controvérsia começa quando passamos a considerar por que alguns indivíduos reagem à perda com esses modos patológicos, e outros, não; e a hipótese que estou propondo pertence ao grupo de hipóteses que procuram explicar a origem de tais respostas diferenciais.

Uma hipótese que influenciou todos os investigadores subseqüentes de orientação psicológica foi delineada por Abraham (1924). Em conseqüência de ter analisado numerosos pacientes melancólicos, chegou à conclusão de que “em última instância, a depressão melancólica deriva de experiências desagradáveis que ocorreram na infância do paciente”. Sugere portanto que esses melancólicos, durante a infância, sofreram do que Abraham chamou uma “paratimia primordial”. Nessas passagens, entretanto, ele nunca usou as palavras pesar e luto; nem está claro que ele tenha reconhecido que, para a criança pequena, a experiência de perder a mãe (ou de perder o amor dela) seja, na verdade, um sofrimento profundo, como que de orfandade.

Depois de Abraham, muitos outros psicanalistas, ao procurarem descrever as raízes infantis da doença depressiva e das personalidades propensas a desenvolvê-la, têm chamado a atenção para as experiências infelizes nos primeiros anos de vida de seus pacientes. Contudo, excetuando-se a tradição teórica iniciada por Melanie Klein, poucos conceituaram as experiências em termos de perda e luto patológico. Entretanto, quando estudamos as experiências a que se referem, parece evidente ser esse o quadro de referência a que elas melhor se ajustam.
Nota de rodapé:
*(1). Ver especialmente os livros de Parkes (1972), e Glick, Weiss e Parkes (1974).

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Darei como exemplos três pacientes descritos na literatura.

Em 1936, Gero descreveu dois pacientes que sofriam de depressão. Um deles, concluiu o autor, tinha sido “carente de amor” quando criança; o outro fora enviado para uma creche residencial e só voltara para casa quando tinha três anos de idade. Ambos mostraram intensa ambivalência em relação a qualquer pessoa que era amada, uma condição que, acreditava Gero, podia ser atribuída à experiência infantil. No segundo caso, ele se refere a uma fixação à mãe e a uma incapacidade para perdoá-la pela separação. Edith Jacobson, em sua extensa obra sobre a psicopatologia da depressão, apóia-se regularmente numa paciente, Peggy, cuja analise descreve em dois estudos (1943, 1946). Quando foi encaminhada para tratamento, Peggy, de 24 anos de idade, encontrava-se num estado de grave depressão, com impulsos suicidas e despersonalização; esses sintomas tinham sido precipitados por uma perda atual, a perda do homem a quem amava. A experiência infantil a que Edith Jacobson atribui maior ênfase ocorreu quando Peggy tinha três anos e meio. Nessa época, a mãe foi hospitalizada para ter um novo bebê, enquanto Peggy e seu pai ficaram em casa com a avó materna. Começaram as brigas entre a sogra e o genro, e o pai de Peggy foi embora. “A criança ficou sozinha, decepcionada com o pai e aguardando ansiosamente o regresso da mãe. Entretanto, quando a mãe voltou da maternidade trazia o bebê.” Peggy lembra-se de ter sentido, nessa época, que “Essa não é minha mãe, é uma pessoa diferente” (um sentimento que sabemos não ser incomum em crianças pequenas que estiveram separadas de suas mães por algumas semanas). Foi pouco depois desse episódio, acredita Edith Jacobson, que “a menina teve sua primeira depressão profunda”.

Ora, poder-se-á perguntar se os acontecimentos na infância desses pacientes foram recordados com exatidão e também se os analistas estão certos em atribuir-lhes tanto significado para o desenvolvimento emocional de seus pacientes. Mas, se aceitarmos, como estamos inclinados a fazer, tanto a validade dos acontecimentos quanto o seu significado *(1), creio que o conceito de luto patológico é o que melhor se ajusta à descrição da reação do paciente na época e ao relacionamento do acontecimento na infância com a doença psiquiátrica na vida adulta. Porém, nenhum dos dois autores, Gero e Jacobson, utiliza esse conceito.


Nota de rodapé:
*(1). No caso de Peggy, há razões para crer que a separação aos três anos e meio foi apenas a culminação de uma série de distúrbios em seu relacionamento com a mãe, descrita como uma mulher dominadora que disciplinava a criança com severidade.

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Ambos preferiram usar conceitos tais como “desapontamento” e “desilusão”, que parecem ter um significado diferente.

Muitos outros analistas, embora atentos em maior ou menor grau para o papel patogênico desses eventos na infância, tampouco identificam a resposta da criança à perda com o luto. Um desses autores é Fairbairn (1952). Um segundo é Stengel que, em seus estudos sobre o devaneio compulsivo (1939, 1941, 1943), chama especial atenção para o impulso de recuperação do objeto perdido. Um terceiro autor sou eu mesmo, em meus primeiros estudos (Bowlby, 1944, 1951). Outros são Anna Freud (1960) e René Spitz (1946); ao contestarem a noção de que bebês e crianças pequenas sentem pesar, rejeitam como uma possibilidade a hipótese de que o desenvolvimento do caráter neurótico e psicótico seja, por vezes, o resultado de um sentimento de luto na infância ter enveredado por um caminho patológico.

Uma razão principal pela qual a resposta da criança à perda não é tão freqüentemente identificada com o luto parece ser uma tradição que limita o conceito de “luto” a processos que têm um desfecho saudável. Embora esse uso, como qualquer outro, seja legítimo, tem uma séria desvantagem: logicamente, toma-se impossível discutir quaisquer variantes do luto que possam parecer patológicas.

As dificuldades a que esse uso dá origem estão ilustradas no artigo de Helene Deutsch, “Absence of Grief” [Ausência de Pesar] (1937), já citado. Em suas considerações, vemos que a autora reconhece com vigor o lugar central que a perda da pessoa amada na infância ocupa na produção de sintomas e de desvios de caráter, assim como de um mecanismo de defesa que, em conseqüência da perda, poderá redundar em ausência de emoção e sentimento. Contudo, embora a autora relacione esse mecanismo ao luto, ele é representado mais como uma alternativa do que como uma variante patológica do luto. Se bem que, à primeira vista, essa distinção possa parecer meramente de terminologia, seu significado é mais profundo; com efeito, considerar o processo defensivo que resulta de uma perda na infância como uma alternativa do luto significa omitir aqueles processos defensivos de espécies semelhantes mas de menor grau e início mais tardio que também participam do luto saudável, e esquecer também que o que é patológico não são tanto os próprios processos defensivos mas, sobretudo, a sua intensidade e o seu início prematuro.

Do mesmo modo, embora Freud estivesse, por uma parte, profundamente interessado no papel patogênico do luto e, por outra, especialmente em seus últimos anos, também tivesse consciência do papel patogênico da perda na infância, ele nunca apontou o luto infantil e sua

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predisposição para adotar um curso patológico como conceitos que conjugam esses dois conjuntos de idéias. Isso ficou bem ilustrado em sua discussão sobre a divisão do ego no processo defensivo, à qual estava dedicando especial atenção no final de sua vida (1938).

Num dos seus artigos sobre o assunto (1927), Freud descreve dois pacientes nos quais uma divisão do ego se seguira à perda do pai. Escreveu ele: “Na análise de dois jovens, tomei conhecimento de que ambos — um em seu segundo ano de vida e o outro aos dez anos — tinham-se recusado a reconhecer a morte do pai... e, no entanto, nem um nem outro haviam contraído uma psicose. Um segmento muito importante de realidade tinha sido assim negado pelo ego...”. Mas, continua Freud, “fora somente uma corrente dos processos mentais que não reconhecera a morte do pai; havia uma outra que tinha plena consciência do fato; aquela que era coerente com a realidade [ou seja, a morte do pai] manteve-se lado a lado com a que correspondia a um desejo” [o de que o pai ainda vivesse] (1927). Entretanto, nesse e em outros artigos sobre o mesmo tema, Freud não relaciona a descoberta de tais divisões do ego com a patologia do luto em geral nem com o luto infantil em particular. Reconheceu-as, porém, como seqüelas não incomuns de perdas sofridas no começo da vida. Quando discute suas conclusões, Freud observa:

“Suspeito de que ocorrências semelhantes não são raras, em absoluto, na infância”. Estudos estatísticos recentes mostram-nos que a suspeita de Freud era fundamentada.

Assim, um exame da literatura mostra que, apesar do significado fortemente patogênico atribuído à perda de um dos pais e à perda de amor, na tradição principal da teorização psicanalítica a origem do luto patológico e da conseqüente doença psiquiátrica no adulto não está ligada à predisposição dos processos de luto para adotarem um curso patológico quando ocorrem após uma perda sofrida na infância.

Acredito que uma importante contribuição de Melanie Klein (1935, 1940) foi ter estabelecido essa relação. Afirma que bebês e crianças pequenas se afligem e passam por fases de depressão, e que seus modos de responder em tais períodos são determinantes da maneira como, no resto da vida, responderão a novas perdas. Certos métodos de defesa, acredita Klein, devem ser entendidos como “dirigidos contra a prostração por causa do objeto perdido”. Sob esse aspecto, minha abordagem é semelhante à dela. Surgem diferenças, entretanto, a respeito dos acontecimentos considerados importantes, da idade em que eles ocorrem, e da natureza e origem da ansiedade e agressão.

As perdas de que fala Melanie Klein são patogênicas, situando-se todas no primeiro ano de vida e, em sua grande maioria, relacionadas

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com a amamentação e o desmame. A agressão é considerada uma expressão do instinto de morte, e a ansiedade o resultado de sua projeção. Nada disso me parece convincente. Em primeiro lugar, as provas que ela apresenta a respeito da importância decisiva do primeiro ano de vida e do desmame, quando minuciosamente examinadas, deixam de ser convincentes (Bowlby, 1960b). Em segundo lugar, as hipóteses sobre agressão e ansiedade dificilmente se ajustam a um quadro de referência baseado em teoria biológica (Bowlby, 1960a). Creio que em razão dos detalhes intrincados com que Melanie Klein envolveu a hipótese sobre o papel do luto infantil, detalhes esses que muitos consideram pouco plausíveis, a própria hipótese acabou sendo desprezada. É uma pena.

Portanto, embora não considere que nos pormenores a teoria de Melanie Klein sobre a posição depressiva explique de modo satisfatório por que os indivíduos se desenvolvem de modos tão diversos que, enquanto alguns reagem à perda ulterior com um luto saudável outros o fazem com uma ou outra forma de luto patológico, a minha posição é que, apesar disso, a teoria kleineana contém os germes de um modo muito produtivo de ordenamento dos dados. A meu ver, os dados apontam para um outro desdobramento segundo o qual o objeto mais significativo que pode ser perdido não é o seio materno, mas a própria mãe (e, por vezes, o pai); o período vulnerável não está limitado ao primeiro ano mas estende-se por vários anos da infância (como sustentou Freud, 1938); e a perda de um dos pais dá origem não só à ansiedade e ao pesar primários de separação, mas a processos de luto em que a agressão, cuja função é realizar a reunião, desempenha um papel importante. Embora atendo-se rigorosamente aos dados, esta formulação tem o mérito adicional de se ajustar facilmente à teoria biológica.

Embora as diferenças entre o ponto de vista de Melanie Klein e o meu sejam substanciais, a área de concordância também é substancial. Ambos sustentamos como hipótese principal que os processos de luto que ocorrem nesses primeiros anos de vida são mais suscetíveis do que quando ocorrem na adolescência e na idade adulta de adotar um curso patológico e, portanto, de deixar daí em diante o indivíduo mais propenso do que outros a responder de maneira análoga a uma nova perda. A versão dessa teoria que estou agora propondo parece ser coerente com boa parte do material clínico publicado na literatura e já mencionado. Inclui os casos de Freud de divisões do ego, os casos de Stengel de devaneio compulsivo, os pacientes depressivos descritos por Abraham, Gero e Edith Jacobson, e os pacientes com desvios de caráter descritos por Helene Deutsch, Melanie Klein, Fairbairn e eu próprio. Também é coerente com os numerosos estudos publicados nas duas

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últimas décadas que mostram que a incidência de perdas na infância, nas vidas de pacientes que sofrem de doença psiquiátrica e de desvios de caráter, é significativamente mais elevada do que na população geral. [Como os dados estatísticos até 1967 são apresentados no próximo capítulo, os que constavam da versão original deste foram omitidos. Parte dos comentários, entretanto, foi mantida.]

No entanto, dada a importância que os dados estatísticos têm para a minha argumentação, é possível que surjam algumas dúvidas. Em primeiro lugar, devemos estar atentos para a falácia post hoc ergo propter hoc. Em segundo lugar, mesmo que estejamos certos ao afirmar a existência de uma relação causal entre a perda prematura e a doença subseqüente, não se segue que ela seja sempre mediada pelos processos patológicos anteriormente descritos. De fato, existem duas outras espécies de processos que, em alguns casos, quase certamente dão origem à patologia. Uma delas consiste no processo de identificação com os pais, o qual é parte integrante do desenvolvimento saudável mas leva, freqüentemente, à dificuldade após a morte de um deles *(1). A outra espécie é evocada pelo membro sobrevivente do casal, viúvo ou viúva, cuja atitude para com a criança poderá mudar e tomar-se patogênica.

Há uma outra dificuldade que a hipótese deve enfrentar. Embora seja verdade que há uma incidência maior de morte de pais na infância de indivíduos que, mais tarde, são propensos a desenvolver certos tipos de personalidade e certas formas de doença, a incidência absoluta é, no entanto, baixa. Perguntar-se-á: como explicar os outros casos? Existe mais de uma explicação possível.

Em primeiro lugar, a fim de basear a minha tese em provas sólidas, restringi deliberadamente a maior parte da discussão à incidência da morte de um dos pais. Quando são incluídas outras causas de perda dos pais nos primeiros anos, a percentagem de casos afetados aumenta consideravelmente. Além disso, em muitos dos casos em que não houve nenhum episódio de separação real no espaço entre a criança e um dos pais, existem freqüentemente provas de que houve, não obstante, separação de outro tipo e mais ou menos grave. Rejeição, perda de amor (talvez com a chegada de um novo bebê ou em virtude de depressão da mãe), perda de afeição de um dos pais pelo outro e situações semelhantes, têm todas como fator comum a perda pela criança de um ente a quem ama e a quem está ligada. Se o conceito de perda for ampliado para cobrir a perda de amor, esses casos deixarão de constituir exceções.
Nota de rodapé:
*(1). Distúrbios psiquiátricos cm que a identificação com o pai (ou mãe) que se perdeu desempenha um papel significativo vêm sendo estudados há muito tempo por analistas. São particularmente claros nas reações de aniversário (Hilgard e Newman, 1959).

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Parece improvável, contudo, que tal ampliação abranja todos o casos incluídos nos síndromes psiquiátricos em questão. Se esse for comprovadamente o caso, então será necessário procurar alguma outra explicação para os que não são considerados pela presente hipótese. Talvez num exame mais apurado o quadro clínico de tais casos se mostre substancialmente diferente daqueles que são relatados. Também pode acontecer que as condições clínicas se mostrem essencialmente semelhantes, mas os processos patológicos em ação em casos não relatados tenham sido iniciados por eventos de uma espécie diferente. Enquanto essas e outras possibilidades não forem exploradas, os problemas subsistirão. Entretanto, como raramente existe uma relação simples entre síndrome, processo patológico e experiência patogênica, os problemas não são diferentes dos que ocorrem constantemente em outros campos da pesquisa médica.


Conclusão.
É provável que a maior parte da pesquisa no campo da psiquiatria ainda comece hoje com um produto final, um paciente doente, e procure desvendar a seqüência de acontecimentos, psicológicos e fisiológicos, que parecem ter culminado em sua doença. Isso resulta em muitas e sugestivas hipóteses mas, como qualquer outro método de investigação, tem algumas limitações. Uma das características preponderantes de uma ciência em progresso é a exploração de tantos métodos quantos puderem ser criados. Quando na medicina fisiológica a pesquisa foi ampliada para incluir a investigação sistemática de um ou outro agente patogênico e seus efeitos, colheu-se uma enorme quantidade de conhecimentos. Talvez não esteja distante o dia em que o mesmo seja possível em psiquiatria.

Por causa de suas implicações práticas e científicas, o estudo de respostas à perda da figura materna nos primeiros anos de vida é um dos mais promissores. No aspecto prático, existe a probabilidade de nos tornarmos capazes de desenvolver medidas para impedir, pelo menos, algumas formas de enfermidade mental. Sob o aspecto científico, há oportunidades que são proporcionadas pela identificação de um evento da infância, que é provavelmente patogênico, que pode ser claramente definido e cujos efeitos sobre a personalidade em desenvolvimento podem ser sistematicamente estudados por observação direta.

Existem, é claro, muitos outros acontecimentos na infância, além de uma perda, que constituem uma boa razão para acreditar que também

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contribuam para o desenvolvimento da personalidade perturbada e da doença psiquiátrica. Um exemplo é a criança estar exposta a uma ou outra das várias espécies de atitude parental que há muito são objeto de preocupação e esforço terapêutico nas clínicas psiquiátricas infantis. Para cada uma delas, a tarefa de pesquisa consiste, primeiro, em definir o evento ou a seqüência de eventos; segundo, em localizar uma amostra de casos em que o evento ou a seqüência de eventos está ocorrendo, de modo que os seus efeitos sobre o desenvolvimento psicológico possam ser estudados; e, finalmente, relacionar os processos que se apurou serem desencadeados por tal evento ou eventos com os processos presentes em pacientes com doença declarada. As conseqüências de tal ampliação dos limites da pesquisa são do maior alcance.


4. Efeitos sobre o comportamento do rompimento de um vínculo afetivo *(1).
Durante vários anos, a Eugenics Society organizou simpósios sobre a interação de fatores genéticos e ambientais no desenvolvimento humano. O quarto simpósio, realizado em Londres no outono de 1967, ocupou-se de “Influências Genéticas e Ambientais Sobre o Comportamento”. O estudo que se segue foi uma contribuição para o simpósio, e foi publicado no ano seguinte.
Médicos de família, sacerdotes e leigos perceptivos sabem, há muito tempo, que existem poucos golpes para o espírito humano tão grandes quanto a perda de alguém próximo e querido, O senso-comum tradicional sabe que podemos ser esmagados pelo pesar e morrer por causa de um grande sofrimento, e também que um amante repudiado é capaz de fazer coisas que são insensatas ou perigosas para ele mesmo e para os outros. Sabe ainda que não sentimos amor e nem pesar por um ser humano qualquer, mas apenas por um ou alguns seres humanos em particular. O núcleo daquilo que eu chamo de “vínculo afetivo” é a atração que um indivíduo sente por um outro indivíduo.

Até décadas recentes, a ciência teve pouco a dizer sobre esses assuntos. Cientistas experimentais nas tradições da psicologia seja fisiológica seja da teoria hulliana da aprendizagem da psicologia nunca mostraram interesse pelos vínculos afetivos e, por vezes, falaram e agiram como se eles não existissem.


Nota de rodapé:
*(1). Publicado originalmente em Thoday, J. M. e Parker, A. S. (orgs.) (1968), Genetic and Environmental Influences on Behaviour. Edimburgo: Oliver & Boyd. Reimpresso com autorização de The Eugenics Society.

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Os psicanalistas, pelo contrário, há muito reconheceram a importância imensa dos vínculos afetivos nas vidas e problemas de seus pacientes, mas demoraram para desenvolver uma estrutura científica adequada, dentro da qual a formação, manutenção e rompimento de tais vínculos possam ser entendidos. A lacuna foi preenchida pelos etologistas, começando com o estudo clássico de Lorenz, The Companion in the Bird’s World (1935), prosseguindo com inúmeros experimentos sobre imprinting (Bateson, 1966; Sluckin, 1964) até aos estudos do comportamento de ligação em primatas não-humanos (Hinde e Spencer-Booth, 1967; Sade, 1965), e inspirando os psicólogos a realizarem estudos semelhantes com seres humanos (Ainsworth, 1967; Schaffer e Emerson, 1964).


Prevalecimento da vinculação.
Antes de examinarmos os efeitos do rompimento de vínculos, é conveniente uma nota sobre a vinculação e seu prevalecimento. O trabalho a que nos referimos mostra que, mesmo que não sejam universais em aves e mamíferos, vínculos fortes e persistentes entre indivíduos são a regra em numerosas espécies. Os tipos de vínculos que são formados diferem de uma espécie para outra, sendo os mais comuns aqueles que existem entre os pais e sua prole, e entre adultos de sexos opostos. Nos mamíferos, incluindo os primatas, o primeiro e mais persistente de todos os vínculos é geralmente entre a mãe e seu filho pequeno, um vínculo que freqüentemente persiste até a idade adulta. Como resultado de todos esses trabalhos, é possível, agora, considerarmos os fortes e persistentes vínculos afetivos estabelecidos por seres humanos a partir de um ponto de vista comparativo.

A vinculação afetiva é o resultado do comportamento social de cada indivíduo de uma espécie, diferindo conforme o outro indivíduo de sua espécie com quem ele esteja tratando; isso implica, é claro, uma aptidão para reconhecer indivíduos. Enquanto que cada membro de um par vinculado tende a manter-se na proximidade do outro e a suscitar, no outro, o comportamento de manutenção da proximidade, os indivíduos que não estão assim vinculados não mostram tais tendências; com efeito, quando dois indivíduos não estão vinculados, freqüentemente um deles resiste vigorosamente a qualquer abordagem que o outro possa tentar. São exemplos disso as atitudes dos pais diante da aproximação de filhotes que não são os seus, e as atitudes de um macho frente à aproximação de um outro macho.

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