Formação e rompimento dos laços afetivos



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A característica essencial da vinculação afetiva é que os dois parceiros

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tendem a manter-se próximos um do outro. Quando, por qualquer razão, se separam, cada um deles procurará o outro, mais cedo ou mais tarde, a fim de reatar a proximidade. Qualquer tentativa, por parte de terceiros, para separar um par vinculado encontrará vigorosa resistência; não é raro o mais forte dos parceiros atacar o intruso enquanto o mais fraco trata de fugir ou, talvez, de se agarrar ao parceiro mais forte. Exemplos óbvios são as situações em que um intruso tenta tirar os filhotes de perto de uma mãe, por exemplo, o bezerro da vaca, ou separar a fêmea de um par heterossexual vinculado, por exemplo, ganso e gansa.

De uma forma um tanto paradoxal, o comportamento de tipo agressivo desempenha um papel decisivo na manutenção de vínculos afetivos. Assume duas formas distintas: primeiro, ataques e afugentamento de intrusos e, segundo, a punição de um parceiro errante, seja ele esposa, marido ou filho. Há provas de que boa parte do comportamento agressivo de um tipo desconcertante e patológico tem origem em uma ou outra dessas formas (Bowlby, 1963).

Os vínculos afetivos e os estados subjetivos de forte emoção tendem a ocorrer juntos, como sabem todos os romancistas e autores teatrais. Assim, muitas das mais intensas emoções humanas surgem durante a formação, manutenção, rompimento e renovação de vínculos emocionais. Em termos de experiência subjetiva, a formação de um vinculo é descrita como “apaixonar-se”, a manutenção de um vínculo como “amar alguém”, e a perda de um parceiro como “sofrer por alguém”. Analogamente, a ameaça de perda gera ansiedade e a perda real causa tristeza; ao passo que ambas as situações podem despertar raiva. Finalmente, a manutenção incontestada de um vínculo é experimentada de segurança, e a renovação de um vínculo como uma fonte de júbilo. Assim, qualquer pessoa interessada na psicologia e psicopatologia da emoção, seja em animais ou no homem, não tardará em deparar-se com problemas de vinculação afetiva: o que faz com que os vínculos se desenvolvam e para que existem, e, especialmente, as condições que afetam a forma assumida pelo seu desenvolvimento.

Na medida em que psicólogos e psicanalistas tentaram explicar a existência de vínculos afetivos, quase sempre foram invocadas as razões de alimento e sexo. Assim, na tentativa de explicarem por que uma criança se liga à mãe, teóricos da aprendizagem (Dollard e Miller, 1950; Sears, Maccoby e Levin, 1957) e psicanalistas (Freud, 1938) supuseram, cada um por seu lado, que isso se deve ao fato de a mãe alimentar o bebê. Na tentativa de compreenderem por que adultos se ligam uns aos outros, o sexo foi comumente considerado a explicação óbvia e suficiente. Entretanto, quando as provas são minuciosamente examinadas,

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verifica-se que essas explicações são insuficientes. Atualmente, há provas abundantes de que, não só entre as aves mas também entre os mamíferos, os filhos ligam-se a objetos maternos apesar de não serem alimentados por essa fonte (Harlow e Harlow, 1965; Cairns, 1966), e de que os vínculos afetivos entre adultos não são, de modo algum, necessariamente acompanhados por relações sexuais; ao passo que, inversamente, relações sexuais ocorrem, com freqüência, independentemente de quaisquer vínculos afetivos persistentes.

O que se sabe hoje acerca da ontogenia dos vínculos afetivos sugere que estes se desenvolvem porque a criatura nasce com uma forte inclinação para se aproximar de certas classes de estímulos, notadamente os que lhe são familiares, e para evitar outras classes de estímulos — os estranhos. Quanto à função, a observação de animais em seu habitat natural sugere nitidamente que a função biológica de quase toda, senão de toda a vinculação entre indivíduos da mesma espécie é a proteção contra predadores — uma função tão importante quanto a nutrição ou a reprodução para a sobrevivência de uma população, mas que geralmente tem sido menosprezada por investigadores confinados entre as quatro paredes de um laboratório e preocupados apenas com o homem que vive em sociedades economicamente desenvolvidas.

Sejam essas hipóteses corroboradas ou não por pesquisas subseqüentes, a capacidade de um indivíduo para estabelecer vínculos afetivos de um tipo adequado a cada fase do ciclo vital de sua espécie e ao seu próprio sexo constitui, obviamente, uma capacidade tão típica de indivíduos da espécie mamífera quanto as capacidades, por exemplo, de ver, ouvir, comer e digerir. E é muito provável que uma capacidade de vinculação tenha um valor de sobrevivência para uma espécie, tão grande quanto qualquer dessas outras capacidades estudadas desde longa data. E comprovadamente produtivo considerar muitos distúrbios psiconeuróticos e da personalidade nos seres humanos como um reflexo de um distúrbio da capacidade para estabelecer vínculos afetivos, em virtude de uma falha no desenvolvimento na infância ou de um transtorno subseqüente.


Rompimento de vínculos e doença psiquiátrica.
Aqueles que padecem de distúrbios psiquiátricos — psiconeuróticos, sociopáticos ou psicóticos — manifestam sempre deterioração da capacidade para estabelecer ou manter vínculos afetivos, uma deterioração que, com freqüência é grave e duradoura. Embora, em alguns casos,

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tal deterioração seja claramente secundária em relação a outras mudanças, em muitos é provavelmente primária e deriva de falhas no desenvolvimento, que terão ocorrido numa infância vivida num ambiente familiar atípico. Embora, sob esse aspecto, o rompimento dos vínculos que ligam uma criança a seus pais não seja a única adversidade que o meio ambiente pode apresentar, é a forma que tem sido registrada de um modo mais confiável e sobre cujos efeitos mais sabemos *(1).

Ao examinarem as causas possíveis de distúrbio psiquiátrico na infância, os psiquiatras infantis perceberam desde cedo que as condições antecedentes de incidência significativamente elevada são a ausência de oportunidade para estabelecer vínculos afetivos ou então as prolongadas e talvez repetidas rupturas de vínculos que foram estabelecidos (Bowlby, 1951; Ainsworth, 1962). Embora seja amplamente sustentado o ponto de vista de que tais condições não só estão associadas ao distúrbio subseqüente mas também causam tal distúrbio, essa conclusão continua sendo, no entanto, discutível.

Estudos sobre a incidência de perdas na infância em diferentes amostras de populações psiquiátricas têm-se multiplicado nos últimos anos. Em virtude das amostras e dos grupos de controle serem tão diferentemente constituídos, dos critérios de perda serem definidos de modos diferentes, e de uma série de acasos demográficos e estatísticos, a sua interpretação não é fácil. No entanto, algumas descobertas, inclusive numerosos estudos recentes bem controlados relatados por investigadores independentes, têm apresentado tanta coerência, que podemos confiar razoavelmente neles. Foi sistematicamente apurado que dois síndromes psiquiátricos e duas espécies de sintomas associados são precedidos por uma elevada incidência de vínculos afetivos desfeitos durante a infância. As síndromes são a personalidade psicopática (ou sociopática) e a depressão; os sintomas persistentes, a delinqüência e o suicídio.

O psicopata (ou sociopata) é uma pessoa que, embora pão sendo psicótica ou mentalmente subnormal, realiza persistentemente: (i) atos contra a sociedade, por exemplo, crimes; (ii) atos contra a família, por exemplo, negligência, crueldade, promiscuidade sexual ou perversão; (iii) atos contra a própria pessoa, por exemplo, toxicomania, suicídio ou tentativa de suicídio, abandono repetido do emprego.

Em tais pessoas, a capacidade para estabelecer e manter vínculos afetivos é sempre desordenada e, não raro, ausente.


Nota de rodapé:
*(1). Também existem valiosos estudos sobre a reação de adultos à morte de um ente querido e as relações entre as reações de perda e a doença mental (Parkes, 1965). Numa exposição sucinta como esta é impossível incluir uma discussão de todos esses dados.

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Apurou-se que freqüentemente a infância de tais indivíduos foi seriamente perturbada pela morte, divórcio ou separação dos pais, ou por outros eventos que resultam na ruptura de vínculos afetivos, sendo que a incidência de tais perturbações é muito mais elevada do que em qualquer outro grupo comparável, quer seja de pessoas da população geral, quer seja de pessoas que apresentem quadros psiquiátricos de outras espécies. Por exemplo, num estudo de bem mais de mil pacientes de ambulatório psiquiátrico, com menos de 60 anos de idade, Earle e Earle (1961) diagnosticaram 66 como sociopatas e 1357 como portadores de algum outro distúrbio. Adotando como critério a ausência da mãe durante seis meses ou mais, antes dos seis anos de idade, Earle e Earle apuraram uma incidência de 41 % para os sociopatas e 5 % para os restantes.

Quando o critério é ampliado, a incidência aumenta. Assim, Craft, Stephenson e Granger (1964) adotaram como critério a ausência da mãe ou do pai (ou de ambos) antes de dez anos de idade. Dos 66 internos do sexo masculino em hospitais especiais para psicopatas agressivos, nada menos de 65 % tinham tido essa experiência. Num estudo de vários grupos de controle, Craft mostra como a incidência desse tipo de experiência infantil se eleva com o grau de conduta anti-social manifestada pelos membros de um grupo.

Outros que divulgaram conclusões estatisticamente significativas do mesmo tipo para grupos de psicopatas e delinqüentes persistentes foram Naess (1962), Greer (l964a), e Brown e Epps (1966); e para alcoólatras e toxicômanos, Dennehy (1966).

Nos psicopatas, a incidência de ilegitimidade e de transferência da criança de um “lar” para outro é elevada. Não é por mero acaso que Brady, dos assassinatos “Moors”, era um psicopata com essas características.

Um outro grupo psiquiátrico que mostra uma incidência muito alta de perda na infância é o dos Pacientes suicidas, tanto os que tentaram o suicídio como os que o consumaram *(1). O mais provável é que as perdas tenham ocorrido durante os primeiros cinco anos de vida e tenham sido causadas não só pela morte de um dos pais mas também por outras causas permanentes, principalmente a ilegitimidade e o divórcio. Nesses aspectos, os pacientes suicidas tendem a assemelhar-se aos sociopatas e, como se verá mais adiante, a diferir dos depressivos.


Nota de rodapé:
*(1). Embora qualquer grupo de suicidas e de indivíduos que tentaram o suicídio contenha alguns sociopatas e alguns depressivos, a maioria será provavelmente diagnosticada como sofrendo de neurose ou distúrbio de personalidade (Greer, Gunn e Koller, 1966) e constitui, portanto, um grupo psiquiátrico bastante distinto.

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Quadro 1. Incidência de perda ou ausência contínua de um ou de ambos os pais naturais durante pelo menos 12 meses antes de completar 15 anos.


Idade da perda: 0-4 anos.

Pacientes não-psiquiátricos %: 9.

Pacientes psiquiátricos não-suicidas %: 9.

Indivíduos que tentaram o suicídio %: 26.

Idade da perda: 5-9 anos.

Pacientes não-psiquiátricos %: 12.

Pacientes psiquiátricos não-suicidas %: 10.

Indivíduos que tentaram o suicídio %: 11.


Idade da perda: 10-14 anos.

Pacientes não-psiquiátricos %: 7.

Pacientes psiquiátricos não-suicidas %: 7.

Indivíduos que tentaram o suicídio %: 11.


Idade da perda: duvidoso.

Pacientes não-psiquiátricos %: 0.

Pacientes psiquiátricos não-suicidas %: 2.

Indivíduos que tentaram o suicídio %: 1.


Idade da perda: 0-14 anos.

Pacientes não-psiquiátricos %: 28.

Pacientes psiquiátricos não-suicidas %: 28.

Indivíduos que tentaram o suicídio %: 49.


Idade da perda: N.

Pacientes não-psiquiátricos %: 156.

Pacientes psiquiátricos não-suicidas %: 156.

Indivíduos que tentaram o suicídio %: 156.


Dos numerosos estudos que relatam uma incidência muito alta de perda na infância entre os indivíduos que tentam o suicídio — por exemplo, Bruhn (1962), Greer (1964b) e Kessel (1965) —, um estudo recente de Greer, Gunn e Koller (1966) é um dos mais bem controlados. Uma série de 156 indivíduos que tentaram o suicídio foi comparada com amostras da mesma grandeza, de pacientes psiquiátricos não-suicidas e de pacientes de cirurgia e obstetrícia sem história psiquiátrica; ambos os grupos de controle se equiparavam ao de suicidas potenciais quanto à idade, sexo, classe e outras variáveis relevantes. Tomando como critério de perda a ausência contínua de um ou ambos os pais durante, pelo menos, doze meses, Greer apurou que tais eventos tinham ocorrido antes dos cinco anos de idade com freqüência três vezes maior no grupo de suicidas potenciais do que em qualquer dos grupos de controle — uma incidência de 26 % contra 9 % para cada um dos outros grupos (Quadro 1).

Além disso, as perdas no grupo de suicidas potenciais tendiam mais freqüentemente a ser permanentes e de ambos os pais, ao passo que nos outros grupos diziam respeito, com maior freqüência, a apenas um dos pais e eram perdas temporárias, causadas por exigências tais como doença ou trabalho *(1).

Num outro estudo sobre o mesmo grupo de indivíduos que tentaram o suicídio (Greer e Gunn, 1966), verificou-se que aqueles que tinham sofrido a perda dos pais antes de completar quinze anos diferiam significativamente, em certos aspectos, dos que não tinham. Uma dessas diferenças, em concordância com as outras conclusões, é o fato de que aqueles que haviam sofrido uma perda na infância tinham maior probabilidade de ser diagnosticados como sociopatas do que aqueles que não tinham sofrido uma perda na infância (18% contra 4%).
Nota de rodapé:
*(1). Ver também um estudo subseqüente das relações entre a orfandade na infância e as idéias de suicídio, de autoria de Adam (1973).

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Uma outra condição que está associada a uma incidência significativamente maior de perda na infância é a depressão. Entretanto, o tipo de perda experimentada tende a ser de uma espécie diferente da deterioração familiar geral, que é típica da infância de psicopatas e de indivíduos que tentam o suicídio. Em primeiro lugar, na infância de depressivos, a perda deve-se mais freqüentemente à morte de um dos pais do que à ilegitimidade, divórcio ou separação. Em segundo lugar, nos depressivos, a incidência de orfandade tende a ser maior durante o segundo qüinqüênio da infância e, em alguns estudos, também no terceiro. Resultados desse tipo foram relatados por F. Brown (1961), Munro (1966), Dennehy (1966) e Hill e Price (1967). As indicações são de que a perda de um dos pais por morte ocorre com freqüência duas vezes maior num grupo de depressivos do que na população total *(1).

Assim, parece agora razoavelmente certo que, em numerosos grupos de pacientes psiquiátricos, a incidência de rompimento de vínculos afetivos durante a infância é significativamente elevada. Embora estes últimos estudos confirmem as conclusões anteriores a respeito da maior incidência de perda da mãe durante os primeiros anos da infância, eles também as ampliam. Para vários tipos de condições, sabe-se agora que as maiores incidências de vínculos afetivos desfeitos incluem tanto os vínculos com os pais como com as mães, e são observados entre os cinco e os catorze anos, tanto quanto nos primeiros cinco anos. Além disso, nas condições mais extremas — sociopatia e tendências suicidas — não só é provável que uma perda inicial tenha ocorrido nos primeiros anos de vida mas também é provável que tenha sido uma perda permanente, seguida da experiência de repetidas mudanças de figuras parentais.

No entanto, demonstrar uma incidência maior de algum fator é uma coisa; demonstrar que ele desempenha um papel causal é outra coisa muito diferente. Embora a maioria dos autores que apresentaram esses dados conclusivos acima referidos acredite que a maior incidência de perdas na infância tem uma relação causal com o subseqüente distúrbio psiquiátrico — e existem inúmeros relatos clínicos apontando nessa direção (para referências, ver Bowlby, 1963) —, explicações alternativas ainda são possíveis. Como exemplo, a maior incidência de morte materna e paterna em pacientes psiquiátricos poderia ser resultado do fato de as diferenças entre as idades dos pacientes e de seus pais serem maiores do que a média para a população.


Nota de rodapé:
*(1). Dados estatísticos a respeito da incidência de perda dos pais durante a infância em adultos deprimidos têm sido freqüentemente contraditórios, e eu simplifiquei a versão original deste parágrafo a fim de harmonizá-lo com o pensamento atual.

O estudo mais recente e abrangente do problema (embora confinado a mulheres) é o de George Brown e Tirril Harris (1978). Eles concluem que a perda na infância contribui, de três maneiras distintas, para a depressão clínica. Em primeiro lugar, as mulheres que perderam a mãe por morte ou separação, antes dos 11 anos de idade, são mais propensas a reagir à perda, ameaça de perda e outras dificuldades e crises na vida adulta mediante o desenvolvimento de um distúrbio depressivo do que as mulheres que não experimentarem essa perda na infância. Em segundo lugar, se uma mulher sofreu uma ou mais perdas de membros da família por morte ou separação antes dos 17 anos de idade, qualquer depressão que se desenvolva subseqüentemente é suscetível de ser mais grave do que numa mulher que não tenha sofrido perdas desse tipo. Em terceiro lugar, a forma assumida pela perda na infância afeta a forma de qualquer doença depressiva que possa desenvolver-se mais tarde. Quando a perda na infância foi devida à separação, é provável que qualquer doença que seja subseqüentemente contraída mostre características de depressão neurótica, com sintomas de ansiedade. Quando a perda se deve a morte, qualquer doença que se desenvolva subseqüentemente poderá apresentar características de depressão psicótica, com muito retardamento.

Brown e Harris também chamam a atenção para alguns dos problemas, antes não reconhecidos, de obtenção de números válidos quando se fazem comparações entre um grupo de pacientes psiquiátricos e um grupo de controle.

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Sendo assim, não só a morte de um dos pais ocorreria mais cedo, mas também haveria maior probabilidade de o filho nascer com uma carga genética adversa. Assim, o que parece ser um determinante ambiental poderia, no fim das contas, ser um determinante genético.

Não é fácil testar essa possibilidade. Para que ela seja corroborada, é preciso: primeiro, que se verifique se as médias das diferenças entre as idades dos pacientes psiquiátricos e as de suas mães (e/ou pais) são, de fato, superiores às médias para a população total; e, segundo, que se possa demonstrar que a idade mais elevada dos pais na época do nascimento dos filhos tem um efeito adverso sobre a dotação genética do filho, de tal modo que aumente a probabilidade de distúrbios psiquiátricos. O primeiro requisito pode ser perfeitamente satisfeito: provas recentes (Dennehy, 1966) sugerem que as médias das diferenças entre as idades dos pacientes psiquiátricos e as dos seus pais podem situar-se acima das médias para a população da qual eles provêm. Do segundo requisito, porém, é mais difícil obter provas. Em termos claros, talvez leve ainda algum tempo para que a questão seja resolvida.

No entanto, aqueles que acreditam ser causal a relação entre o rompimento de vínculos afetivos durante a infância e a deterioração da capacidade para manter vínculos afetivos, típica das perturbações da personalidade na vida adolescente e adulta, apontam outras provas que sustentam sua hipótese. Tais provas envolvem o modo pelo qual jovens primatas humanos e sub-humanos se comportam quando um vínculo afetivo é rompido por separação ou morte.


Efeitos a curto prazo de vínculos desfeitos.
Quando uma criança pequena se vê entre estranhos e sem suas figuras parentais familiares, ela não só se mostra intensamente aflita no momento, mas suas relações subseqüentes com os pais ficam comprometidas, pelo menos temporariamente. O comportamento observado em crianças de dois anos de idade, durante e após uma breve estada numa creche residencial, é o objeto de um sistemático estudo descritivo e estatístico empreendido na Tavistock por Heinicke e Westheimer (1966). A parte do relatório para a qual chamo a atenção é aquela em que eles comparam o comportamento, em relação à mãe, de dez crianças que tinham estado na creche e agora voltaram para casa, com o de um grupo de controle formado por dez crianças que permaneceram em casa o tempo todo.

Nas crianças separadas observaram-se duas formas de distúrbio do

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comportamento afetivo, nenhuma das quais foi observada no grupo de controle de crianças não-separadas. Uma forma é a de desligamento emocional; a outra, aparentemente oposta, é uma implacável exigência para estar perto da mãe.

(1) No primeiro encontro com a mãe, após ter estado fora de casa com estranhos por duas ou três semanas, uma criança de dois anos mantém-se caracteristicamente distante e desligada. Enquanto que, durante seus primeiros dias fora de casa, é comum uma criança chorar pateticamente pela mãe, quando finalmente regressa parece não a reconhecer ou evitá-la. Em vez de se precipitar para a mãe e ficar agarrada às suas saias, como provavelmente faria caso se perdesse numa loja durante meia hora, a criança freqüentemente a fica estudando e recusa-se a dar-lhe a mão. Todo o comportamento de busca de proximidade, típica de um vínculo afetivo, está ausente, usualmente para consternação intensa da mãe; e continua ausente — às vezes apenas por alguns minutos, mas outras vezes durante dias, o reatamento da ligação pode ser repentino mas, com freqüência, é lento e gradual. O tempo em que o desligamento persiste está Positivamente correlacionado com o tempo de separação (Quadro 2).

(2) Quando — como é usual — o comportamento de ligação é reatado, uma criança mostra-se comumente muito mais apegada do que antes da separação, Desagrada-lhe que a mãe a deixe sozinha e tende a chorar ou a segui-la pela casa toda. O modo como essa fase evolui depende muito de como sua mãe reage. Não raras vezes sobrevém um conflito, uma criança exigindo a constante companhia de sua mãe e esta recusando a tal recusa evoca prontamente na criança um comportamento hostil e negativo, capaz de desafiar ainda mais a paciência da mãe. Das dez crianças separadas que foram observadas por Heinicke e Westheimer, seis delas apresentaram um comportamento hostil intenso e persistente em relação à mãe, e negativismo após a volta para casa; tal comportamento não foi observado nas crianças não-separadas (Quadro 3).

É claro que ainda há uma grande distância entre mostrar que os vínculos de uma criança com sua mãe, e freqüentemente também com seu pai, sofrem um desequilíbrio em virtude de uma breve separação, e demonstrar de um modo inequívoco que separações longas ou repetidas estão causalmente relacionadas com os subseqüentes distúrbios de personalidade. Entretanto, o comportamento de desligamento tão típico de crianças pequenas, após uma separação, não tem mais do que uma semelhança passageira com o comportamento de desligamento de alguns psicopatas, embora seja difícil distinguir o comportamento agressivamente exigente de muitas crianças recentemente reunidas à mãe do comportamento agressivamente exigente de muitas personalidades histéricas.

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Quadro 2. Número de crianças separadas e não-separadas que mostraram desligamento durante os 3 primeiros dias após a reunião (ou durante período equivalente).
Nenhum desligamento:

Separadas: -.

Não-separados: 10.
Desligamento durante um único dia:

Separados: 1.

Não-separados: -.
Desligamento alterado com agarramento:

Separados: 4.

Não-separados: -.
Desligamento persistente durante 3 dias:

Separados: 5.

Não-separados: -.
Total: Separados 10. Não-separados 10.

Grau de desligamento correlacionado com a duração da separação: r: 0,82; p:0,01.


É comprovadamente útil o postulado de que, em cada tipo de caso, o comportamento perturbado do adulto representa uma persistência, ao longo dos anos, de padrões desviantes do comportamento de ligação que se estabeleceram em conseqüência do rompimento de vínculos afetivos durante a infância. Por um lado, ajuda a organizar os dados e a orientar o prosseguimento da pesquisa; por outro, fornece diretrizes para o trato cotidiano com esse tipo de pessoa.

Para ampliar os nossos conhecimentos nesse campo, seria obviamente de valor incalculável realizar uma longa série de experimentos a fim de investigar os efeitos, a curto e a longo prazo, sobre o comportamento, do rompimento de um vínculo afetivo, levando em conta a idade do indivíduo, a natureza do vínculo, a extensão e a freqüência dos rompimentos, além de muitas outras variáveis.

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