FormaçÃo econômica do brasil de celso furtado e a teoria neoclássica



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FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL DE CELSO FURTADO E A TEORIA NEOCLÁSSICA

Hélio Afonso de Aguilar Filho*

Hermógenes Saviani Filho


Resumo

O presente trabalho sugere ser possível identificar em Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado, diversos elementos da teoria econômica neoclássica. E, ademais, que o instrumental teórico neoclássico pode ser empregado na leitura dessa obra. Esse procedimento far-se-á válido, contudo, considerando-se certos parâmetros históricos e institucionais necessários para a interpretação dos modelos econômicos utilizados. Em última análise, sustentar-se-á que apesar do instrumental eclético de Furtado conter elementos da abordagem mainstream, seu método permanece histórico e estruturalista. A sugestão proposta será evidenciada arrolando-se e contrastando diversas passagens, ao longo dos capítulos de FEB, com os conceitos usados nos manuais econômicos.


Palavras-Chaves: Formação Econômica do Brasil; Celso Furtado; Teoria Neoclássica.


CELSO FURTADO’S ECONOMIC FORMATION OF BRAZIL AND THE NEOCLASSICAL THEORY
Abstract

The present work suggests that one can identify in Celso Furtado’s Economic Formation of Brazil (FEB), various elements of neoclassical economics. And, moreover, that this work can be interpreted as using the instrumental provided by the neoclassical theory. This procedure is valid however, only if one considers certain institutional and historical parameters that are necessary to the interpretation of economic models employed. Ultimately, it sustains that despite the eclectic instruments used by Furtado, his work contains elements of the mainstream approach, although his method remains historical and structuralist. Evidence is offered by suggesting, enlisting and contrasting various passages throughout the chapters of FEB with the concepts used in neoclassical economic textbooks.

Key-Words: Economic Formation of Brazil; Celso Furtado; Neoclassical Theory.

Classificação JEL: B31; B52; N16.




  1. Introdução

Um clássico é definido pela sua possibilidade de infinitas e sempre renovadas abordagens. Não poderia deixar de ser com Formação Econômica do Brasil (FEB), de Celso Furtado, publicado em 1959 e, desde então, obra de grande prestígio e de importância chave para as Ciências Sociais. Sua importância se funda, principalmente, pela contribuição para o entendimento das especificidades da formação do Brasil e do seu relativo atraso. Seu prestígio pode ser medido pela quantidade de edições a que foi submetido quanto pelas amplas pesquisas e debates que instigou.

Uma questão que emerge de imediato da leitura do livro de Furtado é o das suas influências intelectuais. Esse, particularmente, já foi tema também de diversos artigos, sendo arroladas várias contribuições ao pensamento do autor, referenciados ou não em FEB. As principais abrangem um amplo espectro de livros e contribuições que incluem Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Jr., História Econômica do Brasil de Roberto Simonsen, A Teoria Geral do Emprego do Juro e do Dinheiro de John M. Keynes e o pensamento estruturalista de Prebisch e da Cepal.

Em linhas gerais, Furtado combina em FEB, uma ampla variedade de teorias e modelos econômicos à análise histórica, o objetivo é entender o específico da estrutura social brasileira, constituída ao longo do tempo. Ao introduzir os modelos econômicos disponíveis à época, o autor faz amplo uso da abordagem que se convencionou chamar keynesiana. O presente trabalho, à luz das reconfigurações do pensamento econômico, salienta, contudo, que o keynesianismo presente em FEB tem mais a haver com o keynesianismo da Síntese Neoclássica. Acresce que a utilização do instrumental neoclássico é uma constante em FEB, e, este se dá, não somente com a introdução de ferramentas da teoria Macroeconômica, mas com diversos conceitos Microeconômicos, comuns aos manuais ortodoxos de economia. É necessário salientar que não é propósito de Celso Furtado fazer uma interpretação neoclássica da formação econômica do Brasil. É a complexa combinação de história e teoria, associada ao seu pragmatismo intelectual e formação multidisciplinar, que lhe permite fazer uso de alguns destes instrumentos.

A nossa hipótese de trabalho, postulada mais como sugestão de interpretação, é a de que é possível identificar elementos da Teoria Neoclássica no livro de Furtado. E, ademais, que esta obra pode ser lida, se pressupostos os condicionamentos históricos e estruturais dos períodos analisados, empregando-se o instrumental teórico neoclássico.

A justificativa para este artigo não é a de reduzir o leque interpretativo de FEB, mas ampliá-lo, já que é de conhecimento comum que se trata de um “clássico”, e isto, por si só, já o faz alvo de renovado interesse e de múltiplas perspectivas. Ao contrário do que, a princípio, se pode fazer crer, encontrar traços da Teoria Neoclássica na obra de Furtado, não depõe de forma alguma contra a trajetória do autor. Mostra isto sim, a originalidade e a infinita capacidade deste em articular diferentes concepções teóricas numa explicação criativa e sistemática da evolução histórica do Brasil.

O presente trabalho, além desta introdução, divide-se em duas seções fundamentais. A segunda seção busca identificar o núcleo, os limites e a abrangência do pensamento neoclássico. A terceira seção aborda os elementos neoclássicos desenvolvidos em FEB. Por fim, segue a conclusão do trabalho.


  1. Teoria Neoclássica

Ao longo da história do pensamento econômico ocorreram diversas sínteses cujo objetivo era o de integrar novos conteúdos ao corpo principal da Teoria Neoclássica. Tais contribuições, muitas vezes, ao mesmo tempo em que ampliaram o instrumental de análise desta escola, dificultaram a precisão não só do domínio e dos limites desta, mas de toda a abordagem econômica.

Essa seção busca apresentar a discussão a respeito da Teoria Neoclássica, focando sobre o seu método, núcleo de trabalho, bem como alguns traços gerais da sua evolução. A importância desta apresentação está em tornar possível a comparação dos conteúdos de FEB, podendo-se, por conseguinte, afirmar se eles pertencem ou não à tradição teórica neoclássica. O principal da exposição recai sobre as considerações epistemológicas de Thomas Kuhn e sobre a Segunda Síntese Neoclássica, está última teria incorporado as ideias de Keynes ao corpo principal da teoria econômica.
2.1. Núcleo e Princípios Metodológicos
O que é Teoria Neoclássica, que abordagens e autores podem ser classificados como neoclássicos? A análise da história do pensamento econômico parece ser o caminho mais promissor para se buscar respostas a essas questões. O núcleo de pesquisa da escola neoclássica em geral é atrelado ao utilitarismo e ao marginalismo, com esta seguindo de perto a definição de Robbins (1945, p. 24), ou seja, o estudo do “comportamento humano como uma relação entre fins e meios escassos com usos alternativos”. Neste sentido, foram significativos os esforços conscientes de Marshall, ao buscar “[...] a continuidade com a Teoria Clássica, incorporando o marginalismo ao corpo principal da economia”, e integrando-o também com as teorias clássicas de renda e de comércio internacional (DESAI, 1996, p. 228).

Posteriormente, nos decênios de 1940 e 1950, Samuelson e Hicks realizaram o que foi denominado de Segunda Síntese Neoclássica. Esta foi uma tentativa de enquadrar Keynes e os clássicos num mesmo modelo teórico explicativo. A ideia básica desses autores era que:


a noção tradicional de equilíbrio, qual seja, o market clearing simultâneo em todos os mercados, incluindo o mercado de trabalho, pode ser considerada uma descrição acurada das tendências de uma economia de mercado (LIMA, 1992, p.27).
Com a contribuição de Keynes tornada um caso particular da Teoria Neoclássica, foi deixado de lado conceitos fundamentais presentes na obra do autor e suas consequências, a saber, as expectativas, a incerteza e o papel dos juros e do dinheiro. A ampliação do arcabouço neoclássico, entretanto, não parou na segunda síntese, mais recentemente há também a tentativa de integrar o institucionalismo e as novas teorias do desenvolvimento ao corpo da Teoria Neoclássica.

Essa linha de interpretação sobre a evolução da Teoria Neoclássica apesar de dominante está longe de ser unanime. Mark Blaug em um manual de grande prestígio acadêmico, por exemplo, não classifica os marginalistas como neoclássicos. O autor usa o termo em outros sentidos, como quando descreve os vários progressos da teoria macroeconômica ou quando critica a teoria moderna. Stanley Brue, por sua vez, distingue a escola marginalista de Jevons e Menger da escola neoclássica de Marshall, Edgeworth e J. B. Clark, estes últimos teriam sido precursores da economia matemática, ainda que esta última não tenha se constituído em uma escola separada (COLANDER, 2000) 1.

Arida (2003) identifica o programa neoclássico a partir de um único postulado, o da tentativa de entendimento dos fenômenos econômicos sob o pressuposto de que estes derivam de decisões individuais de agentes racionais. Historicamente, segundo o autor, este programa nasceu
...em meio a três controvérsias distintas e temporalmente deslocadas. Primeiro, na defesa do marginalismo contra a teoria clássica do valor; segundo, na defesa da teoria contra os ataques da escola histórica alemã; terceiro, na defesa da teoria contra os ataques da escola institucionalista americana (ARIDA, 2003, p.23).
A julgar pelo tempo da última controvérsia enfrentada e superada, pode-se depreender do exposto acima que a Teoria Neoclássica ainda é a corrente dominante em economia. Identificá-la é, fundamentalmente, uma questão de recorrer aos manuais de teoria econômica. Nestes se encontra sempre a versão mais atualizada da teoria, que avança segundo os critérios empíricos estabelecidos pelos seus praticantes.

Colander (2000), num artigo de nome sugestivo, The Death of Neoclassical Economics, também procura entender o que está acontecendo com a teoria econômica. Ao contrário daqueles que acreditam numa extensão dos limites da Teoria Neoclássica, este defende sua superação e substituição (ainda que não integralmente) pelo que ele denomina de Economia do Novo Milênio. Para corroborar a idéia acima, o autor procura enumerar as seis principais hipóteses de trabalho da Teoria Neoclássica, comparando-as com os trabalhos da teoria econômica contemporânea, são elas: 1) foco na questão da alocação de recursos ao longo do tempo; 2) aceitação de algumas variações no utilitarismo, estando este com papel central no entendimento econômico; 3) foco sobre trade-offs marginais; 4) assume-se a idéia de racionalidade procedimental; 5) aceitação quase irrestrita do individualismo metodológico; e 6) estruturação da teoria em torno do conceito de equilíbrio geral da economia. O resultado desta comparação é que todos estes postulados foram, de alguma forma, flexibilizados ou substituídos por outros. O que se pode depreender da exposição de Colander (2000) é que a característica principal da teoria econômica em construção, por ele denominada de “Economia do Novo Milênio”, é ser, em sua expressão metodológica, bastante ampla, aceitando várias contribuições em diversas áreas e segmentos2.

Lisboa (1998, p.143) segue a mesma lógica de Colander (2000), mas prefere usar o termo “Tradição Neoclássica” ao invés de “Economia do Novo Milênio”. O autor afirma, por conseguinte, que a crítica heterodoxa falha por deter-se numa versão estilizada de algum modelo neoclássico, quando na verdade a principal característica desta tradição é a da “permanente construção de modelos alternativos, substituição das hipóteses utilizadas e incorporação de novos problemas”.

Na versão de Lisboa (1997; 1998 e 2001) e Colander (2000) da teoria econômica dominante, a maior abrangência dos instrumentos de análise e a ampliação dos limites da teoria não constituem, portanto, sinal de fraqueza metodológica. Ao contrário, é a possibilidade de tratar dessa diversidade de contribuições, com igual diversidade em termos de combinação de princípios metodológicos, que faz a força dessas pesquisas. É isto que lhes permite tratar os resultados conhecidos como respostas provisórias e ter a superação das limitações teóricas e fracassos empíricos dos modelos conhecidos como a própria fronteira da pesquisa. Neste caso, como visto mais acima, a crítica heterodoxa tornar-se-ia quase impossível, por não ter como definir o núcleo duro do mainstream econômico3.


2.2. Os Manuais Acadêmicos na Epistemologia de Thomas Kuhn
Como visto, a constante expansão da pesquisa e da fronteira da economia têm colocado problemas para a identificação do núcleo de trabalho neoclássico. Nesse caso, sugerimos uma rápida passagem pela epistemologia das ciências de Thomas Kuhn, esta parece indicar uma alternativa plausível para a identificação do que seja a Teoria Neoclássica.

Thomas Kuhn, em A Estrutura das Revoluções Científicas, livro publicado em 1962, defende que todas as disciplinas cientificamente amadurecidas se organizam de acordo com paradigmas. Estes representam os elementos partilhados pelos integrantes da comunidade e que dão caráter “não-problemático” à comunicação entre cientistas (KUHN, 1995). Um paradigma se constitui quando surge uma teoria de tal forma poderosa e consensual que todos os investigadores se agregam em seu entorno. No momento do seu nascimento, inicia-se um período de “ciência normal”, e a atividade científica passa a consistir em resolver problemas de acordo com as normas do paradigma.

No andamento da “ciência normal”, os cientistas tentam aumentar a credibilidade da teoria, aumentando o leque de explicações fornecido pelo paradigma. Os avanços ocorrem, nesse caso, mesmo sem regras explicitas, bastando para isso que a comunidade científica aceite sem questões as soluções de problemas específicos já obtidos. Assim, segundo Kuhn (1995, p. 70), os envolvidos

trabalham a partir de modelos adquiridos através da educação ou da literatura a que são expostos posteriormente, muitas vezes sem conhecer ou precisar conhecer quais as características que proporcionaram o status de paradigma comunitário a esses modelos.


Para a atividade científica ordinária, importa, fundamentalmente, a “natureza da educação científica”, esta une teorias e aplicações pedagógicas durante todo o ciclo de aprendizagem, dificultando aos futuros pesquisadores a identificação das regras subjacentes. Neste caso, os manuais acadêmicos são a peça chave no processo, por apresentarem uma unidade histórica e pedagógica, oferecem não apenas conceitos mas aplicações direcionadas à interpretação de determinado conjunto de fenômenos.

Toda a fase denominada de “ciência normal” terá uma duração temporal indefinida e só poderá alterar a rotina quando começarem a aparecer problemas que os cientistas não conseguem resolver recorrendo ao paradigma. Instala-se assim o período de “ciência extraordinária”, os fundamentos do paradigma vigente serão postos em causa e assiste-se a uma disputa e a um desacordo entre cientistas, até que finalmente surja um novo paradigma4.

Da breve análise das ideias de Kuhn, seguem duas questões pertinentes para a consecução do presente trabalho. A primeira é que a compreensão das ciências se faz em períodos de estabilidade, com seus postulados de pesquisa sendo raramente explicitados. O segundo, que os manuais são o veículo principal de educação do paradigma, por serem instrumentos pedagógicos, seu objetivo é reproduzir a visão do mundo contida no paradigma de forma a desenvolver a habilidade de fazer pesquisa e resolver problemas.

Para pensarmos a economia seguindo a linha de Thomas Kuhn, é útil a separação de Arida (2004), entre a soft science e a hard science. Nesta última, o aprendizado da teoria se faz por meio da versão mais atualizada ou da fronteira do conhecimento, prescindindo inteiramente da sua formulação original. Procedendo de acordo com esta separação, procurar-se-á identificar a Teoria Neoclássica a partir do instrumental básico desenvolvido nos manuais de teoria econômica (microeconomia e macroeconomia tradicionais). Este critério, obviamente, não abarca a totalidade da pesquisa econômica que poderia ser classificada de neoclássica e, deixa sem classificação, pesquisas que estão literalmente na fronteira do conhecimento científico. A sua vantagem está em tratar apenas o instrumental já incorporado como sendo parte daquilo que é a corrente principal, no caso das Ciências Econômicas, a Teoria Neoclássica.

Na próxima seção buscar-se-á encontrar elementos da Teoria Neoclássica em FEB, bem como mostrar que essa obra pode ser lida empregando-se o instrumental teórico desta escola.


  1. A Teoria Neoclássica em Formação Econômica do Brasil

O dilema enfrentado por Furtado em FEB, comum a todo o pensamento estruturalista latino-americano nascente, era encontrar um caminho teórico que o distanciasse tanto da heterodoxia marxista quanto da ortodoxia neoclássica.

Com relação à teoria neoclássica, a objeção do autor se dirige primeiramente à explicação dos seus praticantes para o subdesenvolvimento por colocarem ênfase excessiva na função de produção implícita, gerando resultados interpretativos sem referência aos condicionantes históricos dos fenômenos (FURTADO, 1997). Pode-se dizer, em contrapartida, que o método elaborado por Furtado em FEB, configura-se como método histórico, por estar “sempre derivando a teoria da observação histórica” (BRESSER-PEREIRA, 2009, p. 63). Em segundo lugar, sua oposição à Teoria Neoclássica se dirige, conforme reconhece posteriormente, no sentido de explicitar o caráter ideológico desta, na medida em que detecta em seu arcabouço teórico “... o desejo implícito de justificar a ordem social existente como aquela que permitia o uso mais racional dos recursos disponíveis.” (FURTADO, 1963, p. 69).

Apesar das críticas, Furtado (2008) não conseguiu expurgar completamente os elementos neoclássicos da elaboração de FEB, fato este reconhecido inclusive pela heterodoxia. À época do lançamento do livro, Nelson Werneck Sodré já havia chamando a atenção para as suas deficiências, que se revelam por dois “traços característicos da economia ortodoxa,... a dificuldade em transmitir o saber e a precariedade de conhecimentos fora do campo específico” 5. Oliveira (2006, p.30) é outro a chamar a atenção para o aspecto ortodoxo no pensamento de Furtado e no da Cepal, ressaltando que o motivo principal da insatisfação e ruptura com este pensamento na década de 1970, era por ele ter dado “largas à utilização do arsenal marginalista e keynesiano”. Com relação a Celso Furtado especificamente, o autor assevera que a principal tarefa deste em FEB foi ter feito “uma releitura keynesiana da história brasileira” (OLIVEIRA, 1999, p. 319).

Mas por quais razões fundamentais subsiste a presença de categorias neoclássicas em FEB? Um causa mais direta, na visão do presente trabalho, é devido à própria influência eclético-keynesiana de Joan Robinson, cujos modelos de crescimento, nos quais Furtado se baseava, “ficavam a meio caminho entre os princípios clássicos e neoclássicos da acumulação” (MANTEGA, 1989, p.34). De forma mais indireta, porque o próprio pensamento cepalino é, em si mesmo, eclético, fato que está na origem da sua criatividade. Suas influências, conforme atesta Fonseca (2000, p.41), advêm “de vertentes formadoras tão dispares à primeira vista, como o nacionalismo de List, o positivismo, o reformismo de Stuart Mill e as contribuições keynesianas sobre demanda afetiva”.

O objetivo desta seção é encontrar tais elementos neoclássicos em FEB. Essa busca não considerou todas as questões e pertinências tratadas pelo autor, mas apenas os modelos de geração e fluxo de renda apresentados para descrever o comportamento da economia brasileira em cada uma das cinco partes do livro. Para evitar controvérsias por demais prolongadas e indefinições próprias à classificação de conteúdos, buscou-se identificar a Teoria Neoclássica a partir dos manuais de Teoria Econômica. Esse procedimento é válido se nos atentarmos à epistemologia da ciência de Thomas Kuhn, e à importância atribuída por ele aos livros textos no progresso das ciências.

Abaixo seguem as principais categorias neoclássicas identificadas na obra de Furtado: custos de oportunidade; custos variáveis médios e custos fixos médios; fluxo circular da renda; multiplicador da renda; curva de indiferença; oferta e demanda; oferta agregada e demanda agregada; elasticidade; divisão do trabalho; economias de escala e função de produção. Estes conceitos foram formulados e podem ser encontrados em uma diversidade de livros textos de economia. Alguns dos mais frequentes nos programas dos cursos de graduação são: Ferguson (1974), Varian (2003), Dornbusch (2008), Pindyck (2010), Blanchard (2011) e Mankiw (2010; 2011).

O livro de Furtado utilizado foi o da 34ª edição da Companhia das Letras, de 2008. Este possui ao todo 341 páginas e está dividido em 5 partes, contendo, além da introdução, 36 capítulos. Para o presente trabalho, as subseções que seguem foram divididas de acordo com as correspondentes partes de FEB.


3.1. Fundamentos Econômicos da Ocupação Territorial
A primeira parte de FEB é dedicada a explicar a criação da colônia. Nela, pode-se inicialmente identificar como passível de ser tratado pela teoria neoclássica, o próprio dilema referente à “ocupação do território”. Assim, a Coroa portuguesa, em função da pressão política exercida pelas demais nações européias, se depara com a seguinte situação: ou continua empregando recursos físicos e humanos nas feitorias altamente lucrativas do oriente, ou os desvia com vista à ocupação do território brasileiro, cuja maior perspectiva é a de encontrar ouro. Confrontar ambas as possibilidades constitui-se no que os neoclássicos chamam de custos de oportunidade, que dizem respeito aos benefícios e custos da comparação de cursos alternativos de ação. A solução dos portugueses, como indica Furtado (2008, p. 29), foi viabilizar “uma forma de utilização econômica das terras americanas que não fosse a fácil extração de metais preciosos”. A colonização de agricultura tropical com vistas à exportação representou a primeira experiência do gênero nos trópicos.

O desempenho da economia açucareira traçado em FEB pode ser descrito por uma função macroeconômica, cujos elementos são o consumo, o investimento e o setor externo, basicamente, a balança comercial. Adicionalmente, pode-se utilizar o mecanismo do fluxo circular da renda para entender o funcionamento deste tipo de economia. Por ser uma unidade exportadora baseada no trabalho escravo, todo o dinamismo desta economia vêm do setor externo; nesse caso, as exportações geravam a quase totalidade da renda e o dispêndio desta dá-se por meio das importações. Em termos de fluxo circular, pode-se dizer que não se constituiu nem o mercado de fatores de produção, nem o mercado de bens. Como os gastos fixos representavam a quase totalidade da renda, não havia pagamento a fatores de produção e, consequentemente, circulação monetária. Os gastos de reposição, geralmente com pagamentos a técnicos estrangeiros especializados, aconteciam de tempos em tempos e representava um vazamento do fluxo circular. Os gastos com trabalho escravo também deviam ser computados como gastos fixos e representavam vazamento do fluxo, na medida em que estes advinham do tráfico transatlântico. E, finalmente, os gastos em consumo eram baseados em artigos de luxo importados e demais gastos improdutivos.

A função de produção da economia açucareira é tipicamente a encontrada nos manuais de Introdução a Economia, inclui o capital (engenhos), a terra, a mão de obra e acrescenta a capacidade empresarial6. Esta última predominantemente holandesa. A oferta de terra era elástica e a de mão de obra (por causa do acesso ao mercado de cativos), também. A produção era extensiva, seu incremento consistia na contratação de mais trabalho escravo e ocupação de novas terras. Pode-se assumir, sem prejuízo analítico, uma função Cobb-Douglas, com tecnologia dada e retornos de escala constantes para os insumos: capital, terra e trabalho. A distância do litoral representava custos crescentes de transporte, somando-se isso à fertilidade do solo massapé, tornou-se mais atrativo estabelecer os engenhos nas proximidades do litoral e dos portos. A produtividade era representada fundamentalmente por fatores ligados ao lado da demanda, e consistia no aumento de preços.
3.2. Economia Escravista de Agricultura Tropical: séculos XVI e XVII
Na segunda parte de FEB o autor segue interpretando a economia escravista de agricultura tropical. Para economias desta natureza, a estabilidade reside também no fato dos gastos serem efetuados, em sua quase totalidade, em fatores fixos. Desta forma, como assinala os manuais de Teoria Neoclássica, a firma, quando da impossibilidade de ter lucro, opera a fim de minimizar o prejuízo. Isto é, procura-se um ponto na curva de oferta (ou custo marginal) acima do mínimo dos custos variáveis médios. E é justamente isto o que acontece na descrição de FEB sobre a economia açucareira. A redução na demanda levava ao atrofiamento monetário, as consequências, porém, eram menos drásticas7. As razões, segundo Furtado (2008, p. 90), são que:
A renda monetária da unidade exportadora praticamente constituía os lucros do empresário, sendo sempre vantajoso para este continuar operando, qualquer que fosse a redução ocasional dos preços. Como o custo estava virtualmente constituído de gastos fixos, qualquer redução na utilização da capacidade produtiva redundava em perda para o empresário.
Portanto, é a composição dos gastos da economia açucareira que a faz tão estável, possibilitando que ela perdure por séculos a fio sem conhecer nenhuma mudança estrutural.

A relação da economia agro-exportadora com a pecuária é também sugestiva em termos de aplicação da Teoria Neoclássica. Novamente os custos de oportunidade se fazem presentes. Atividade altamente lucrativa, a produção de açúcar impele a economia criatória cada vez mais para o interior, inclusive, por determinação da Coroa portuguesa. A necessidade crescente de animais de tiro (lenha), animais de transporte e carne conecta os dois tipos de atividade produtiva. Aqui se enseja o que poderia ser a constituição de um mercado interno e a ativação do fluxo circular. Entretanto, isto não ocorre. As razões são de ordem externa, ou seja, é o preço pago no mercado consumidor europeu o fator dinâmico a impulsionar a economia.

A similaridade da atividade pecuária com a do açúcar está em que as duas operavam extensivamente, sem modificação estrutural e com baixa circulação monetária. A diferença reside nos gastos de reposição, na economia pecuária estes praticamente não existiam. O lado da oferta da economia criatória era constituído pela “capacidade empresarial” e recursos iniciais acessíveis, como terra em abundância. E o da demanda, por fatores situados a partir da economia açúcar. O crescimento da atividade açucareira aumentava a procura por insumos oferecidos pela atividade pecuária nordestina, impulsionando a produção. Esta relação da economia açucareira com a pecuária configura aquilo que Furtado chama de “Complexo Nordestino”. Aqui, se tem para Bielschowsky (2009), a apresentação de certo tipo de dualismo estrutural, com a coexistência de uma economia de alta produtividade e outra de baixa. Seus reflexos serão importantes, inclusive, para explicar o subdesenvolvimento do nordeste brasileiro nos séculos adiante. Concordar com a afirmação acima não implica contradizer-se com aquilo que sustenta a hipótese geral do presente trabalho, mas sim reconhecer que embora o método de Furtado seja histórico-estrutural, a sua caracterização é feita, em certa medida, com conceitos próprios aos manuais ortodoxos.
3.3. Economia Escravista Mineira: século XVIII
A terceira parte do livro, com apenas três capítulos, é a mais curta e descreve o ciclo do ouro. O funcionamento deste tipo de economia segue o mesmo padrão da economia do açúcar. Agora, a renda está menos concentrada, em função do menor número de escravos na população total, há também uma maior aglomeração urbana, sem falar na distância do litoral, que encarece os bens de consumo, servindo como barreira às importações. Esta última promove um aumento na demanda por animais de transporte necessários à atividade mineradora. A interação da economia mineira com a pecuária se dá possibilitando a utilização de terras e rebanhos de forma mais ampla, com maior especialização na engorda, distribuição e mercados consumidores.

Uma característica importante da economia mineira é que, apesar da renda ainda ser gerada no setor exportador, há uma maior integração inter-regional e a incipiência do mercado interno. Existe, contudo, uma barreira para frear a total autonomia do mercado interno, ou seja, o desempenho da economia da mineração está também atrelado à demanda externa.

Outro ponto a diferenciar a economia mineira da economia escravista, é que para a primeira, em caso de queda no preço ou do esgotamento dos recursos das minas, o “rendimento tendia a zero e a desagregação das empresas produtivas era total” (FURTADO, 2008, p.134). E foi de fato o que ocorreu, quando o dinamismo se esgotou, os recursos desta atividade passaram a operar ao nível de subsistência, com o consequente atrofiamento da divisão do trabalho.

O termo divisão do trabalho não é caracteristicamente neoclássico, foi empregado inicialmente por Adam Smith para descrever os ganhos com a especialização e ampliação do mercado. Seu uso foi difundido e recebeu tratamento por parte de autores de orientação heterodoxa tanto quanto da Teoria Neoclássica. A diferença é que, numa linha mais ortodoxa, a troca, por ser natural e inata ao ser humano, precede a Divisão do Trabalho. O argumento de Smith, apropriado e desenvolvido pelos neoclássicos é o seguinte: a expansão do mercado está na origem de uma maior divisão do trabalho, aumentando a escala de produção, o tamanho das empresas e a produtividade. O resultado é a redução dos custos unitários das mercadorias e a expansão da oferta das empresas. Esta lógica justifica, portanto, a constante preocupação dos neoclássicos com a esfera da troca e com a redução dos custos associados ao funcionamento do mercado. A discussão sobre divisão do trabalho será retomada mais à frente para apresentar a situação das colônias de imigração.



3.4. Economia de Transição para o Trabalho Assalariado: século XIX
Na quarta parte do livro, Furtado apresenta todo o período de gestação e intensificação da produção de café incluindo a transição para a produção baseada no trabalho assalariado. Ressalta que, num primeiro momento, garantidas as condições de financiamento e demanda externa, o principal problema com o qual se depara a economia cafeeira é o da oferta de trabalho. O termo usado por ele para descrever as dificuldades de se obter um fluxo regular de trabalhadores para a lavoura é “inelasticidade” da oferta de mão de obra. O uso deste conceito, bem caro os manuais de economia, é recorrente nessa parte do livro, como quando fala da oferta de borracha pela economia amazonense, ou no capítulo XXIV, quando menciona a “... elasticidade da oferta de produtos agrícolas que existia na região” Sul do Brasil (FURTADO, 2008, p. 211), só para citar alguns.

Para descrever a atividade cafeeira, Furtado apresenta um modelo bem semelhante ao da economia do açúcar. A atividade tinha, igualmente, sua função de produção baseada na oferta abundante dos insumos terra e mão de obra. As diferenças mais fundamentais estão na capacidade empresarial, oriunda de uma elite nacional mais diligente, e no grau de capitalização mais baixo exigido por essa cultura, ou seja, nas necessidades monetárias de reposição menores. Neste contexto, os custos variáveis são mais significativos, ainda que o tempo de maturação dos cafezais promova aumentos não desprezíveis nos custos fixos. Fora isso, essa economia segue o seu ritmo de maneira muito similar à economia do açúcar, com seu dinamismo sendo dado pelo lado da demanda externa.

O fato de maior relevância para a economia cafeeira, do último quartel do século XIX, foi o crescimento do setor assalariado. Com a interrupção do tráfico negreiro, desenvolve-se o mercado de trabalho, abastecido com mão de obra imigrante européia. Em termos de fluxo circular, a implicação é a criação do mercado de fatores, pelo menos para a mão de obra. Há, do mesmo modo, a criação de um mercado de bens de consumo para assalariados. A importância destes fatos para Furtado (2008, p. 219) reside em que, em função do multiplicador do emprego, “a soma de todos os gastos terá necessariamente de exceder de muito a renda monetária criada pela atividade exportadora”. Ademais, a contabilidade da renda nacional passa a ser dividida entre salários e lucros e, a do dispêndio, entre consumo e investimento.

Esta é a parte livro onde o autor se opõe de forma mais cabal à teoria ortodoxa, representada pelo liberalismo econômico. Seus argumentos chamam a atenção, principalmente, para as dificuldades de adesão de uma economia agro-exportadora assalariada às regras do padrão-ouro e à teoria das vantagens comparativas. Assinalam, ao mesmo tempo, a miopia da elite intelectual da época, ao aderir acriticamente às teorias produzidas para outro contexto. Nas entrelinhas, portanto, vai se firmando a tese do estruturalismo latino-americano, de que o subdesenvolvimento é um processo histórico autônomo e não necessário, exigindo para sua superação a oposição ao fatalismo das leis naturais do mercado e à condição do país como produtor e exportador de produtos primários.

Duas questões adicionais emergem desta parte do livro. A primeira é sobre os usos do termo divisão do trabalho. Ao empregar para entender a situação das colônias de imigração européia no Brasil em meados do século XIX, Furtado justifica a divisão do trabalho, novamente, pelo lado do mercado8. O motivo do fomento inicial destas colônias no Brasil estava ligado a questões raciais, e a despeito de se pressupor um maior nível de educação e estoque de capital para os colonos, o resultado da experiência foi desastroso. Nas palavras do próprio Furtado (2008, p.183), as razões foram que:
...não havendo mercado para os excedentes de produção, o setor monetário logo se atrofiava, o sistema de divisão do trabalho involuía, e a colônia regredia a um sistema econômico rudimentar de subsistência.
Somente quando surge o mercado interno no sudeste do país, é que estas colônias começam a prosperar, operando com maior nível de especialização e com ganhos de produtividade.

A outra questão diz respeito às consequências distributivas da abolição da escravidão. Diante das possibilidades colocadas por Furtado, haveria a tendência, no sudeste do país, de uma reinserção dos ex-escravos à atividade produtiva, com salários maiores em relação aos do nível de subsistência. Contudo, esta redistribuição não ocorreu, o motivo de acordo com o autor é que: “Podendo satisfazer seus gastos de subsistência com dois ou três dias de trabalho por semana, ao antigo escravo parecia muito mais atrativo comprar o ócio que seguir trabalhando quando já tinha o suficiente para viver” (FURTADO, 2008, p. 204). Essa questão, seguindo nossa linha de argumentação, também pode ser pensada em termos de teoria econômica tradicional, com os ex-escravos manifestando suas preferências por renda e lazer em uma curva de indiferença. O ajuste requerido por essa interpretação é que a renda adicional recebida em troca de lazer teria de ser muito mais alta do que para os demais trabalhadores. Isto se refletira numa curva de indiferença com inclinação mais ascendente para unidades adicionais de renda (Pressupondo-se, em um plano cartesiano, a renda no eixo vertical e o lazer no horizontal).



3.5. A Economia de Transição para um Sistema Industrial: século XX
A última parte de FEB é também a mais importante, trata da crise da economia agro-exportadora e da transição para uma economia industrial. Aqui, segundo Mantega (1989, p.35), encontra-se “o supra-sumo de uma leitura keynesiana da história brasileira”. A análise de Furtado para a crise do café começa com o convênio de Taubaté. Na nossa interpretação, as intervenções e a compra dos estoques podem ser pensadas em termos de diagrama de oferta e demanda, em que o governo fixa um preço mínimo e adquire o excesso de produção. O autor volta também a fazer uso do conceito de elasticidade9, por um lado, novamente para evocar a abundância de mão-de-obra e de terras, traço marcante dos países produtores de café; por outro, para caracterizar a baixa elasticidade-renda da demanda pelo produto. A análise do permanente desequilíbrio é, contudo, estrutural. Esse tipo de economia, especializada na produção de artigos coloniais, e com pouca oportunidade de diversificação produtiva, tende a perpetuar a superprodução.

Para explicar os acontecimentos de 1929, Furtado enfatiza a crise conjunta, do lado da procura e do lado da oferta. Tem-se, assim, a superprodução de café somada à queda da demanda em termos de preços e de quantidades. O resultado é o agravamento do déficit do balanço de pagamentos e a dificuldade de acesso aos capitais e empréstimos externos para o financiamento do déficit em conta corrente. O governo decide então promover uma política monetária expansionista, sem lastro, com o objetivo de comprar e queimar as sacas de café excedentes. O saldo desta operação é a manutenção da renda interna, pois ao “evitar-se uma contração de grandes proporções na renda monetária do setor exportador, reduziam-se proporcionalmente os efeitos do multiplicador de desemprego sobre os demais setores” (FURTADO, 2008, p. 278).

A conjunção da sustentação da renda com a impossibilidade de importar promove uma mudança de preços relativos. Os preços para produção nacional se tornam mais atrativos, diante deste fato, é promissor realocar o capital, antes empatado na produção cafeeira (mercado externo), e direcioná-lo para atender o mercado interno. A partir deste momento, o modelo de demanda Agregada antes apresentado para explicar a economia do açúcar e do café, tem não mais nas exportações, mas no investimento, o principal determinante da renda interna.

A crise do início da década de 1930 e as respostas em termos de política econômica foram apresentadas por Furtado como algo estritamente heterodoxo, antecipando as políticas de fomento à renda preconizada por Keynes anos depois. Tais políticas, contudo, constituem parte hoje do arcabouço teórico do mainstream, e estão pressupostas nos modelos neoclássicos de demanda agregada e de oferta agregada (esta positivamente inclinada), os quais incluem: preços rígidos, salários rígidos e percepção equivocada. Todos descrevem situações de curto prazo onde a economia opera com capacidade ociosa e, adicionalmente, a demanda afeta a renda, pelo menos até a intersecção da demanda com a curva de oferta agregada de longo prazo, que é uma vertical.

Não há nenhuma especificação sobre preços no modelo de Furtado para esse período, nem sobre formação de expectativas, mas com a crise, pode-se conjecturar a existência de fatores subempregados. Portanto, a política de fomento à renda é compatível com a análise convencional dos manuais, para quaisquer dos modelos especificados acima. E, historicamente, foi de fato o que ocorreu, a economia cresceu, a princípio baseada no “aproveitamento mais intenso da capacidade instalada no país” (FURTADO, 2008, p. 279), em seguida com a importação de máquinas e bens de capital sucateados (deslocamento para a direita da curva de oferta agregada de longo prazo).


  1. Conclusão

Em sua vasta obra, Celso Furtado faz uma análise eclética, combinando uma diversidade de modelos econômicos com uma abordagem sobre o específico das formações que intenta explicar. Assim é em Formação Econômica do Brasil, onde história e estrutura se misturam de modo a proporcionar uma visão ampla, com a heterogeneidade econômica, social e tecnológica, desempenhando papel chave na explicação do nosso atraso. Desde este momento, a alusão ao pensamento do autor vem sempre associada ao desenvolvimentismo e ao estruturalismo latino-americano, em consequência, sua imagem se projeta como uma das referências principais contra a ortodoxia econômica e o pensamento dominante.

A ortodoxia econômica a qual Furtado se opõe em seu livro, pode ser identificada a partir da defesa do ideário liberal, esta inclui a crença nos princípios auto-reguladores do livre mercado, da lei de Say e da especialização produtiva das nações, através da adesão aos princípios das vantagens comparativas. Grande parte da produção acadêmica, classificada posteriormente, como pertencente à ortodoxia econômica não recebeu este tratamento da sua parte. E aqui reside a hipótese principal do presente trabalho, a de que diversos elementos da teoria econômica neoclássica podem ser identificados em FEB. Junto com ela postulamos também que esta obra pode ser lida empregando-se este instrumental. Esta interpretação não é de todo estranha ao pensamento heterodoxo brasileiro, conforme corroborado pelas citações de Nelson Werneck Sodré e Francisco de Oliveira.

Se o keynesianismo usado por Furtado for interpretado como figurando dentro da síntese neoclássica de Hicks e Samuelson, a conclusão segue direta. Para reforçar, entretanto, adicionamos outros elementos. Quais sejam? Além do fluxo circular da renda, do multiplicador do emprego e da curva de demanda agregada, conteúdos próprios à macroeconomia tradicional, há também diversas passagens do livro identificadas como contendo explicações microeconômicas neoclássicas. As principais dizem respeito às noções de custo variável médio e custo fixo médio, empregadas para explicar a permanência da estrutura produtiva no nordeste; a curva de indiferença usada para explicar o dilema entre trabalho e lazer, por parte dos ex-escravos, e; o conceito de elasticidade para classificar a oferta dos insumos terra e mão de obra.

A dificuldade em reconhecer elementos da Teoria Neoclássica em FEB, ocorre, em primeiro lugar, por causa do enfoque multidisciplinar e da sofisticação do autor. Assim, quando o instrumental neoclássico aparece, é nas entrelinhas, ofuscado pelo método histórico-estrutural. A segunda razão é que há grande confusão na definição e delimitação do que seja a Teoria Neoclássica. Entendemos que ela não se identifica pura e simplesmente com os argumentos liberais criticados por Furtado, e ao tempo do lançamento de FEB, esta teoria ainda lutava para ser a corrente dominante. É em função desta confusão a razão de nos apoiarmos em Thomas Kuhn e sua epistemologia na identificação da Teoria Neoclássica. Este autor nos informa sobre a importância dos manuais na prática cientifica, e como estes ajudam, indiretamente, a identificar aquilo que une determinados cientistas. No caso da economia, a Teoria Neoclássica é hoje o programa dominante, e sua capacidade de incorporar elementos de outras teorias, está sintetizada nas atualizações feitas nos livros textos. Igualamos o conteúdo neoclássico, portanto, ao dos manuais de Teoria Econômica.

Em apoio ao argumento geral do presente trabalho, finalizamos citando o próprio Furtado. Em seu ensaio autobiográfico, o autor chama a atenção para aquilo que difere o seu estruturalismo do francês, a saber, “o destaque dado aos parâmetros não econômicos dos modelos macroeconômicos” (FURTADO, 1997, p.16). Esta afirmação ratifica uma nota que já consta na introdução do presente trabalho, isto é, o instrumental eclético de Furtado contém elementos inclusive da abordagem mainstream, incorporados pelas diversas sínteses neoclássicas, mas seu método permanece histórico e estruturalista.

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* Doutor em Economia pela UFRGS – Ênfase em Economia do Desenvolvimento. Professor Adjunto da UFRGS. E-mail: haaf73@yahoo.com.br

Doutor em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Professor Adjunto da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Email: 00107536@ufrgs.br


1 Partindo de um ponto de vista mais heterodoxo, Hunt (2005, p. 408) enumera em um capítulo síntese do seu manual, os seguintes pontos definidores da ideologia utilitarista neoclássica: “i) fé no poder da “mão invisível” do mercado concorrencial em harmonizar todos os interesses através da livre troca, de criar preços racionais e de levar a uma alocação eficiente dos recursos; ii) fé em que o livre-mercado criará, automaticamente, um equilíbrio a pleno emprego, e; iii) a crença em que os salários são iguais ao valor do produto marginal do trabalho e que a taxa de lucro (ou a taxa de juros) é igual ao valor do produto marginal do capital”.

2 A preocupação maior de quem contribui com essa nova economia deve ser, sobretudo, com a questão da produção e escolha de modelos relevantes para a compreensão do mundo contemporâneo. Novamente a crítica a essa definição é que ela peca pela abrangência excessiva, constituindo-se no que Possas (1997) chama de cheia do mainstream.

3 Pode-se dizer, seguindo Lisboa (1998), que a “Tradição Neoclássica”, ou o mainstream econômico, utiliza uma combinação de elementos instrumentalistas com regras de inspiração popperiana em sua defesa metodológica. O instrumentalismo é utilizado na derivação das hipóteses pouco realistas de trabalho, enquanto os princípios popperianos são utilizados para se evitar as armadilhas convencionalistas.

4 Esse é o período caracterizado por Kuhn como sendo o das Revoluções Científicas. Estes são episódios não cumulativos no qual um paradigma é total ou parcialmente substituído por um novo, incompatível com o anterior.

5 Crítica publicada em 1959, por ocasião do lançamento do livro de Furtado. A citação acima foi extraída da sua reedição no apêndice da edição comemorativa de 50 anos de Formação Econômica do Brasil, Companhia das Letras, 2009, p. 347-349.

6 Apesar de pertencer à tradição schumpeteriana, a noção de capacidade empresarial não é totalmente estranha à Teoria Neoclássica. Houve diversas tentativas de incorporar a atividade do empresário como fator de produção, os resultados, no entanto, foram matematicamente inconsistentes, dado a não divisibilidade e não homogeneidade deste fator (BLAUG, 1985, p. 571).

7 O que é mais significativo na argumentação de Furtado (2008, p. 87), é a sua insistência em demonstrar o caráter genuinamente monetário desta economia. Assim, nas suas palavras: “Tendo cada fator um custo que se expressa monetariamente, e o mesmo ocorrendo com o produto final, o empresário deveria de alguma forma saber como combinar melhor os fatores para reduzir o custo de produção e maximizar sua renda real”.



8 Da mesma forma, a discussão sobre a produtividade sendo determinada pela demanda é o fundamento da lei Keynesiana de Kaldor-Verdoorn, esta não tem nada de neoclássico.


9 Em seguida volta a usar o termo para falar sobre a tendência ao desequilíbrio externo, típica de uma economia subdesenvolvida. A baixa elasticidade da oferta interna pressiona constantemente pelo aumento das importações.





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