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II VIDA E OBRA EDUCACIONAL DE FILGUEIRAS LIMA


Como já foi mencionado anteriormente, para se compreender bem o pensamento pedagógico e a obra de um educador é importante conhecer, também, um pouco de sua vida e de sua personalidade. Isso não quer dizer que a obra seja resultado direto da vida de quem a escreve, contudo, há acontecimentos na vida do autor que, às vezes, refletem no seu trabalho. Atento a isso, dediquei um capítulo desta pesquisa a conhecer verticalmente a vida de Filgueiras Lima.


Antonio Filgueiras Lima nasceu em 21 de maio de 1909 no município cearense de Lavras da Mangabeira, filho de Silvino Filgueiras Lima e Cecília Tavares Filgueiras. Seu pai era comerciante naquela cidade, mas, posteriormente, mudou-se com a famíla para a cidade de Iguatu. Filgueiras Lima era o mais velho de uma família de oito filhos, que mais tarde, foi reduzida a três, devido a uma epidemia de gripe espanhola.
Ainda criança, foi alfabetizado em Lavras da Mangabeira pela Professora Amélia Braga, de quem segundo pessoas que o conheceram na intimidade, ele sempre falava muito bem. Continuou seus estudos na cidade do Crato, onde estudou no colégio anexo ao Seminário Diocesano. Nesta época, um fato o marcou: numa tarde de chuva, quando jogava bola com seus colegas, foi atingido por um raio.
Algum tempo depois, veio para Fortaleza onde estudou no Colégio Cearense dos Irmãos Maristas. Desde jovem, demonstrou interesse pela literatura e pela escrita, tanto que, ainda no Colégio Cearense, fundou o jornalzinho “Os Novos” e o Grêmio Literário Farias Brito. Nessa mesma época, como colaborador, escreveu para a revista “Verdes Mares”, editada por aquele estabelecimento de ensino. Tais fatos demonstram que Filgueiras Lima era, desde jovem, bastante dinâmico culturalmente. Vale ressaltar que ele se viu obrigado a interromper seus estudos, pelo menos uma vez, em virtude de dificuldades financeiras enfrentadas por seu pai. Contudo, esses obstáculos não o fizeram desistir de levar à frente o seu desejo de continuar estudando. Tanto assim o foi que conseguiu concluir o ensino de segundo grau e ingressou na Faculdade de Direito do Estado do Ceará, onde se tornou bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais em 1933.
Apesar ter se formado em Direito, Filgueiras Lima nunca atuou nesta área. Sua vida e obra foram todas dedicadas à educação e à literatura, notadamente, à poesia. Na sua biblioteca, tive a oportunidade de encontrar muitos livros de Pedagogia, Psicologia, Sociologia, Educação, História, Filosofia, além de romances, livros de poesia, literatura, enciclopédias e dicionários, mas nenhum livro de Direito.
Foi na Faculdade de Direito que Filgueiras Lima veio a ter contato com algumas das pessoas que, posteriormente, dominariam o cenário político do Estado, entre elas o futuro governador Parsival Barroso e o futuro deputado estadual Perilo Teixeira, que depois viria a ser seu concunhado. No término do seu curso de Direito, Filgueiras Lima concorreu à função de orador da turma de concludentes de 1933, tendo perdido para Parsival Barosso, de quem se tornaria amigo. Filgueiras Lima nunca exerceu diretamente atividade político-partidária, mas sempre teve trânsito livre entre os políticos da sua época de todos os segmentos político-ideológicos, dos quais podemos destacar, além dos já citados, Faustino de Albuquerque, Virgílio Távora e Paulo Sarasate, este último, conforme já mencionado na Introdução, o ajudou a fundar o Instituto Lourenço Filho.
Como brilhante jovem educador, Filgueiras Lima, aos 18 anos, assumiu as funções de Inspetor Regional do Ensino, cargo em que se efetivou, por concurso, em 1931, ingressando, assim, na antiga Diretoria Geral da Instrução Pública, órgão que superintendia todos os negócios relacionados à educação no Estado do Ceará. Ali, Filgueiras Lima fez carreira. Em 1931 e 1932, ocupou interinamente o cargo de Diretor Geral da Instrução. Foi também chefe do Serviço de Estatística Educacional daquela Diretoria, cargo para o qual foi nomeado em fevereiro de 1932. Fundou juntamente com outros educadores a Revista Educação Nova, que, posteriormente, tornou-se um órgão da Diretoria Geral de Instrução, chegando a ser Redator-Chefe deste periódico. Em 1934, foi nomeado Inspetor do Ensino Normal.

Como educador, Filgueiras Lima sempre demonstrou muito interesse pelo ensino normal. Além de ter sido Inspetor deste segmento educacional, ele foi professor da Escola Normal da cadeira de Didática, de acordo com o que, anteriormente, já referido, cargo que conquistou por concurso público, no qual foi classificado em primeiro lugar, em dezembro de 1933. Anos mais tarde, em 1951, Filgueiras Lima chegou a diretor do Instituto de Educação, órgão que englobava a Escola Normal e a sua escola de aplicação.


Em 1961, foi escolhido para representar o Ceará no primeiro Seminário de Ensino Normal, do qual foi presidente, realizado no antigo Estado da Guanabara. Neste seminário, foram discutidas novas diretrizes para o ensino normal diante do novo projeto da Lei de Diretrizes e Bases da Educação que tramitava no Congresso Nacional. O encontro contou com a presença de representantes de outros estados como também do diretor do Instituto Brasileiro de Pesquisas Educacionais – INEP, Darci Ribeiro, que fez um comentário sobre o ensino normal no projeto de LDB. Ao fim do congresso, Filgueiras Lima foi eleito, por unanimidade, para a primeira vice-presidência do Centro Brasileiro de Ensino Normal.
Em 1938, juntamente com o Dr. Paulo Sarasate fundou o Instituto Lourenço Filho, hoje Faculdade e Colégio Lourenço Filho. Neste estabelecimento de ensino, ele teve a oportunidade de levar a frente o seu projeto pessoal de educação. Logo instituiu um curso normal, o qual formou a primeira turma em 1944. Este fato demonstra que a preocupação com a formação dos educadores da infância sempre foi uma prioridade no projeto educacional de Filgueiras Lima.
Como intelectual de destaque no Estado, Filgueiras Lima exerceu alguns cargos de caráter político, como o de Secretário de Educação e Saúde do Estado e Presidente do Conselho Estadual de Educação, postos máximos na hierarquia administrativa do ensino. À frente da Secretaria de Educação e Saúde, para qual foi nomeado pelo Interventor Federal Ministro Pedro Firmeza, em fevereiro de 1946, cargo em que permaneceu nas Interventorias do Coronel Machado Lopes e do Desembargador Feliciano de Atayde, Filgueiras Lima fundou 350 escolas, instalou gabinetes dentários para grupos escolares do interior, Delegacias Regionais do Ensino, reformou o ensino normal e primário, criou a Diretoria de Fiscalização e Orientação de Ensino e promoveu várias campanhas educativas. A sua gestão na Secretaria de Educação e Saúde do Estado sempre lhe foi motivo de orgulho2. É relevante se frisar que muito ele fez em bem pouco tempo, ainda mais se tratando de um período de transição. Os referidos interventores governaram o Estado do Ceará logo após o fim do Estado do Novo até o governo de Faustino de Albuquerque (1947-1950), primeiro governador eleito no período de redemocratização do país. No comando da Secretaria de Educação, Filgueiras Lima pôde deixar a sua marca no ensino público cearense, impingindo-lhe, ainda mais, a filosofia escolanovista. Um episódio, relatado pelo Professor Vicente Soares, bem demonstra a intensidade das ações de Filgueiras Lima:
A propósito de abolir os símbolos autoritários, conta-se que Filgueiras, como secretário de Educação do Estado do Ceará estando em viagem de inspeção aos estabelecimentos escolares de várias cidades do interior, reuniu as Senhoras Diretoras e numa solenidade pública reuniu todas as palmatórias e fê-las queimar à vista de quantos estivessem presentes. Estava dado o exemplo de que educação é ato de renúncia, de amor e por isto um sacerdócio.
Filgueiras Lima era, antes de qualquer conceito, um professor; o pedagogo e o educador sempre se destacaram na sua biografia, mas aqueles que foram seus alunos lembram-se vividamente de suas aulas. Iniciou sua carreira de professor ministrando aulas de Língua Portuguesa e Literatura, disciplina pela qual sempre foi um apaixonado. Na falta de um professor ao Colégio Lourenço Filho ou quando lhe era possível, Filgueiras Lima entrava em sala e trabalhava uma aula de Literatura, principalmente, discorrendo sobe uma determinada obra literária3. Mas foi no ensino superior que Filgueiras Lima se destacou como docente. Além de professor de Didática Geral na Faculdade Católica de Filosofia do Ceará, que funcionava no Colégio Cearense, foi também professor da cadeira de Relações Humanas da Escola de Administração, atual Curso de Administração da Universidade Estadual do Ceará, além de professor da Escola Normal, como já citado.
É relevante se frisar que, através das entrevistas realizadas pela Professora Ercília Braga com ex-alunas da Escola Normal, pôde-se conhecer um pouco da personalidade e do pensamento pedagógico do poeta-educador. Essas entrevistas foram realizadas entre novembro de 1999 e maio de 2000. Todas as 11 ex-alunas da Escola Normal apontaram, espontaneamente, o nome de Filgueiras Lima como um professor de destaque entre outros expoentes daquela instituição de ensino. Os sujeitos entrevistados interagiram com Filgueiras Lima entre os anos de 1935 e 1937 nas aulas de Didática e no estágio curricular realizado na Escola de Aplicação, anexa à Escola Normal. Algumas, por terem se destacado no curso normal demonstrando competência e compromisso profissionais, foram convidadas a ensinar no Colégio Lourenço Filho onde continuaram sendo acompanhadas por seu antigo professor.
A respeito da personalidade do Professor Filgueiras Lima e de suas aulas, assim se manifestaram algumas das ex-alunas entrevistadas:
Ele era baixo, muito delicado. Era um professor, atencioso demais com todo mundo, era uma graça o professor Filgueiras Lima. Aí, eu fui conversar com ele e disse que não tinha condições. Ele perguntou: E o que você está fazendo aqui? Então lhe respondi: Eu vim porque tinha que ficar instruída, eu tinha que estudar em algum colégio, porque não ia ficar em casa ignorante, mas então eu vim pra cá e estou fazendo o curso para aprender, mas não vou ensinar, não quero. De forma que, quando ele botou o colégio, foi no ano que eu terminei. Ele botou um colégio, esse colégio Filgueiras Lima (sic). Ele me convidou : “Você não quer ser professora no meu colégio?” Ele me escolheu, ele ia começar, aí eu disse: Não, Dr. Filgueiras eu não tenho jeito 4.
Tive um grande amigo, Dr. Filgueiras ... ele era dono do colégio e professor também ... uma maravilha, ave Maria, ele dizia, olha, eu gosto tanto de ler suas provas (risos), porque são ... diz tudo em poucas palavras (risos). Ele dizia isto para mim .. As aulas dele eram de Pedagogia, eram muito boas, boas mesmo, maravilhosas. Você saia já sabendo de tudo ... Ele explicava tudo direitinho, era um ótimo professor ... A parte prática era com as crianças do (Colégio) Lourenço Filho mesmo 5.
Ele era um poeta né? Era ótimo. Ele era muito bom, muito educado. Eu achava o Dr. Hippolyto era deseducado. O professor Filgueiras Lima era mais aberto, mas delicado. Fazia perguntas, porque a aula deve ser isso... pergunta e responde. Por que muitas vezes você tá escutando, mas não entende. Para entender não tem como, senão perguntando6.
Filgueiras Lima era neutro, Filgueiras Lima não era homem para tomar partido de A, de B ou de C. Ele cuidava muito de ... até ontem eu estava me lembrando dele. Ai, meu Deus, eu me lembro de Filgueiras Lima, quando ele entrava na classe, entrava sempre levando um jarro de flores e me lembro de cor da poesia dele, não sei se você conhece, conhece? Eu sei muitas de cor, daquelas que eu gostava. Ele dizia: “Não sei como foi, eu sei que havia muitas rosas no caminho. Tu me pediste um pouco de amizade e eu te pedi um pouco de carinho e um lindo poema em êxtase baixinho, eu te disse no jardim naquele dia, desde então, nunca mais andei sozinho, mesmo em sonho teu vulto me seguia. O nosso amor nasceu com a primavera (primavera no Ceará!) viam-se rosas enfeitando a estrada e pássaro no bosque a tua espera. Hoje nossa história é resumida: tu és em minha vida amargurada, e eu sou alguma coisa na tua vida”. Ele fez esse poema para a esposa, que morreu há pouco tempo... Ele dizia onde estavam os poemas, os livros dele e, às vezes, ele recitava. Ele era mais um poeta mesmo do que ... agora, dava muito valor ao ensino, mas ele queria que a gente fizesse dos alunos, a gente cultivasse no aluno, não o amor àquela matéria que ele estava dando, mas o amor a ensinar, para melhorar as pessoas, para as pessoas crescerem, terem outra visão. Falava muito na Índia, falava na Europa, falava na América, não falava bem da Itália 7...

Vários foram os congressos de que Filgueiras Lima participou, representando o Ceará, tanto na educação quanto na literatura. Como era um excelente orador, muitos dos seus discursos e palestras foram publicados em jornais, revistas e alguns, até mesmo, viraram livros, como a obra “ A Literatura Cearense na Formação do Sentimento Nacional”, tal publicação foi fruto da palestra por ele proferida no auditório do jornal “A Gazeta”, de São Paulo, que, mais tarde, foi editada pela imprensa universitária sob o título “Alencar e a Terra de Iracema” , por ocasião do centenário do romance Iracema, de José de Alencar. Dentre os congressos que participou, destacam-se os seguintes:




  1. Primeiro Congresso Nacional de Educação de Adultos, em fevereiro de 1947, em cuja sessão de inauguração pronunciou, como orador oficial, o discurso “A Educação de Adultos na Democracia”;

  2. Segundo Congresso da Federação dos Estabelecimentos Particulares de Ensino, realizado em Belo Horizonte, em julho de 1946, onde representou as escolas privadas cearenses e teve a oportunidade de defender o tema “ Educação para a Liberdade e para a Paz”;

  3. Congresso de Educadores, realizado em Salvador, capital do Estado da Bahia, onde representou o Ceará, em 1949, apresentando uma tese intitulada “Metodologia das Ciências Sociais”, impressa pela Editora do Instituto do Ceará;

  4. Congressos e reuniões pedagógicas realizadas em Recife e São Paulo, nos anos de 1954 e 1956 respectivamente, pela Diretoria do Ensino Comercial, onde apresentou um trabalho sobre “Ensino Comercial Como Modalidade de Educação Geral” no primeiro encontro e “Ensino Moderno das Ciências Sociais” no segundo.

Não se pode falar de Filgueiras Lima, sem se mencionar poesia e literatura. Segundo João Clímaco Bezerra, Filgueiras Lima, na sua época, era o único sócio do Rotary Club no Brasil, inscrito sob a classificação Literatura-Poesia.8 Em se tratando de um clube formado por profissionais, Filgueiras Lima poderia ter optado por ingressar no Rotary sob a classificação de pedagogia, educação, direito ou ensino particular, entretanto ele optou pela literatura. Vê-se, portanto, como a poesia era forte na sua vida e o caráter de poeta nunca se afastou de sua personalidade.


O primeiro livro de poemas de Filgueiras Lima foi Festa de Ritmos, publicado em dezembro de 1932, o qual recebeu a Menção Honrosa de Poesia da Academia Brasileira de Letras e o projetou no cenário literário nacional. Nesta ocasião, o parecer elaborado pela Comissão da Academia destacou o seguinte comentário acerca da obra: “sonetos de real inspiração e correta forma e muitas outras bonitas produções que revelam um poeta ainda capaz de progredir bastante e brilhar no meios literários” 9. Realmente, estavam certos os senhores pareceristas da ABL, pois Filgueiras Lima progrediu ainda mais e continuou a sua obra poética com “Ritmo Essencial”, publicado em 1944, no auge da Segunda Guerra Mundial. Nesta obra, o poeta mostra toda a sua angústia com o conflito armado que acontecia em todo o mundo. Esse sentimento fica claro em poemas como “Polônia”, “França”, “Poema do Vento” e “Natal de Sangue”, como revela o seguinte trecho presente nesse último:
Natal! Que noite trágica!

Natal das crianças órfãs de Stalingrado,

Natal das mulheres sem marido de Lídice.

Natal das virgens sem amor de Singapura ,

Natal dos homens sem liberdade

dos campos de concentração.

Natal das igrejas sem Deus,

das sinagogas sem mestres, das multidões sem alma,

dos povos sem destino,

das multidões sem destino,

da vida sem sentido e da morte sem causa!
Natal de sangue!

De sangue que aterra:

sangue nos ares,

sangue nos mares,

sangue na terra!
Natal! Que fizeste do menino

Que trazia Amor nos lábios

a Paz nos gestos

e, na palavra,

o Caminho, a Verdade e a Vida?

Natal! Por que a Estrela se apagou no céu?

Por que a voz do sino se extinguiu no espaço?

Por que os Magos se extraviaram do deserto?

Por que não vemos mais a manjedoura de Belém?
Ah! Os homens perderam o endereço de Deus!
Ah! Os homens estão caminhando

para o abismo do sem fim...

Natal! Natal!
Dezembro de 1943

Os versos acima revelam como a guerra marcou o poeta, pois, sendo ele um homem muito religioso, um cristão, acima de tudo, não podia aceitar aquela guerra que envolvia todo o mundo, e, na noite de Natal de 1943, época em que deveria ser dedicada a celebração da paz e do nascimento do menino Jesus, os homens matavam uns aos outros. Para ele, os homens haviam se afastado de Deus e caminhavam para uma abismo sem fim.


A poesia de Filgueiras Lima também demonstra muito do seu patriotismo, como nos poemas “Brasil dos Meus Avós” e “Poema do Meu Brasil”; tais escritos revelam que ele era um amante do Brasil e um apaixonado pela sua terra, o Ceará. No seu terceiro livro “ Terra da Luz”, de 1956, publicado pela Editora Freitas Bastos, ele faz uma ode a sua terra e a sua gente, o que fica claro nos poemas “Ceará”, “Fortaleza”, “Banda de Música”, “Lagoa de Iguatu”, “Ode aos Jangadeiros Cearenses, “Titã”, “Chove no Ceará” e “Língua Nacional”. O amor pelo Ceará sempre foi uma marca na sua vida, expressa nos seus discursos, palestras e versos, contudo, ele nunca foi um ufanista, pois soube reconhecer os erros existentes no nosso país.
No seu último livro, “O Mágico e o Tempo”, de 1965, Filgueiras Lima produz uma poesia mais madura, com poemas que retratam o seu momento e fazem uma avaliação da sua vida e chegam, até mesmo, a fazer um prenúncio, ainda que inconsciente, de sua morte prematura, como se vê nos poemas “Balada do Cinquentão” e “Testamento”.
O estilo literário de Filgueiras Lima era preponderantemente modernista, mas ele também transitou entre o parnasianismo e o simbolismo. A sua poesia é cheia de ritmo e sonoridade, tanto que algumas foram musicadas e gravadas por artistas da terra, como “Fortaleza”, gravada por Diassis Martins e “Banda de Música”, gravada por Calé Alencar.
Filgueiras Lima foi sócio fundador da antiga Academia de Letras do Ceará, entidade fundada em 1930 que, posteriormente, foi extinta e unificada à Academia Cearense de Letras. Em agosto de 1951, Antônio Martins Filho, Raimundo Girão, Fran Martins, Abelardo Montenegro, Joaquim Alves, Braga Montenegro e Filgueiras Lima ingressaram na Academia Cearense de Letras e o poeta foi escolhido para falar em nome de todos. Na sua fala de posse, Filgueiras Lima defendeu com brilhantismo a tese de que as academias tinham uma função a exercer na sociedade. Posteriormente, este discurso foi editado sob o título “Função Social e Política das Academias”. A respeito das academias, Filgueiras Lima rejeitava por completo a idéia de que elas deveriam restringir-se a meros recintos de declamação de versos e lisonja mútua, como podemos averiguar no trecho a seguir:
Academia que não é foco de cultura, que não acende ideais de elevação mental na alma de um povo ou de uma nação, que não aprimora e opulenta os recursos da língua nacional, assegurando-lhe o resguardo e patrocínio das formas e modos expressionais de maior beleza e pureza idiomática – é a academia que não tem consciência de si mesma, do seu papel, da sua função, da sua autoridade, do seu ministério, da sua força. Se não exerce influência na difusão das letras e na formação da sensibilidade estética do povo em geral, deixa de representar um órgão de vital importância no desenvolvimento histórico e cultural do país.

Academias como grêmios literários, para o só e monótono declamar de versos e discursos, vazios de conteúdo humano e social, desligados da realidade viva da época e do meio, nada constroem, nada significam, nada deixam; são anacronismos incompatíveis com as necessidades e problemas culturais do nosso tempo10.
Na Academia Cearense de Letras, Filgueiras Lima ocupou a cadeira de número 21, sucedendo, assim, o também poeta Antônio Sales e tendo como patrono José de Alencar, cuja obra foi por ele bastante estudada.
Filgueiras Lima casou-se em 1935 com Amazônia de Souza Braga, desta união nasceram três filhos: Rui, Antonio e José. Ele sempre foi um pai muito presente e acompanhava de perto, juntamente com sua mulher, a educação e a formação de seus filhos, principalmente, no que diz respeito à vida escolar. Seu filho Antonio recorda que era mais fácil olhar diretamente no dicionário o significado de uma palavra desconhecida do que perguntar a ele, pois, desta forma, teria de verificar em, pelo menos, uma meia dúzia de dicionários11.
A formação religiosa também era muito importante para Filgueiras Lima, por isso ele sempre procurou transmitir os ensinamentos da fé católica para seus filhos. Também no Colégio Lourenço Filho, Filgueiras Lima patrocinava a transmissão de uma doutrina católica aos seus alunos, maior prova disso é que ele fazia questão que a Páscoa da escola, ocasião em que os alunos realizavam a primeira eucaristia, fosse comemorada no dia do seu aniversário, 21 de maio.

Na direção da escola, Filgueiras Lima era visto como um homem muito discreto e reservado, que pouco falava da sua vida pessoal para os funcionários e professores. Ele mantinha um ótimo relacionamento com os alunos e professores do Colégio Lourenço Filho. Com aqueles, ele sempre conversava, procurando orientá-los e, principalmente, conscientizá-los do papel do estudo nas suas formações, entretanto, ele sempre mantinha uma certa distância, atitude própria da época12. Filgueiras Lima sempre respeitava a individualidade do aluno e, sob essa orientação, o Colégio Lourenço Filho foi criado. Atos de indisciplina por parte dos alunos, ele não admitia, assim como, não aceitava o descumprimento do dever por parte dos professores.

O jornalista Hilton Oliveira, cujo o pai foi professor no Colégio Lourenço Filho, descreveu Filgueiras Lima como “homem de letras e mestre que devotava a sua vida à transmissão de sábios ensinamentos à juventude, para qual se voltava com entusiasmo, e que constituía o objetivo precípuo da longa caminhada a que se propunha percorrer”13. Conta, ainda, que Filgueiras Lima sempre lhe serviu de exemplo como homem, poeta, educador, orador e professor e diz nunca ter esquecido um de seus maiores conselhos: “ Menino, nunca se afaste dos livros, pois eles são autênticos mestres-mudos; fonte de sábios e sadios ensinamentos”.

Dona Amazônia, certa vez, descreveu seu marido como um homem bom, de temperamento calmo e extremamente amoroso14. Ela foi a companheira de todas as horas e participou de todas as realizações do marido. Era ela quem datilografava todos os seus trabalhos literários e aprovava-os ou não.


Filgueiras Lima faleceu na madrugada do dia 28 de setembro de 1965, aos 56 anos. Sua morte pegou de surpresa amigos, familiares e admiradores, pois, na noite anterior, havia presidido uma reunião literária na Casa de Juvenal Galeno e, até então, não demonstrava nenhum problema de saúde. Ao morrer, Filgueiras Lima presidia o Conselho Estadual de Educação, por isso sua morte foi amplamente divulgada pela imprensa local.
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