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Filgueiras Lima e o Escolanovismo



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3.6 Filgueiras Lima e o Escolanovismo
O pensamento pedagógico de Filgueiras Lima sempre fez parte do movimento renovador. As suas ações e idéias situavam-se dentro do que preconizava os grandes pensadores desse movimento. Sem dúvida alguma, Decroly e Dewey foram os pensadores escolanovista que mais o influenciaram.
As idéias de Dewey influenciaram fortemente o pedagogo Lourenço Filho, que foi o responsável pela reforma do ensino no Ceará, nos anos de 1922 e 1923, como já mencionado. Conseqüentemente, muitos jovens educadores cearenses foram influenciados pelas práticas educacionais aqui introduzidas por Lourenço Filho e pelo movimento da Escola Nova. Filgueiras Lima não foi exceção; além de admirador do pedagogo paulista, ele também era seu amigo, tanto que colocou o nome deste no colégio que fundou em 1938, com o deputado Dr. Paulo Sarasate, como já foi referido.

Boa parte do pensamento pedagógico de Filgueiras Lima está consubstanciado numa série de artigos que ele escreveu na Revista Educação Nova no período compreendido entre os anos de 1930 a 1932. Num desses artigos, Filgueiras Lima revela-se um crítico ferrenho da Escola Tradicional, que colocava o mestre no centro de todo o processo de ensino-aprendizagem. Rejeitava ferozmente os professores que apenas expunham conhecimentos acima da capacidade de compreensão dos alunos e se faziam afirmar pela palmatória:



Com a descentralização do eixo escolar, caiu por terra o edifício da velha didática que tinha o mestre como ‘pivot’ de todo o ensino, uma espécie de tabu, infalível e carrasco, diante do qual a criança devia prosternar-se numa reverência passiva e medrosa.

Em vir à classe com um semblante carregado, óculos ao nariz e palmatória à mão, fazer preleções, fora do meio social e acima da capacidade infantil, cifrava-se a missão do antigo “maitre-écol”.

Era uma tarefa que consistia menos em educar do que em torcer, muitas vezes, os destinos humanos, opondo-se flagrantemente ao interesse e à atividade da criança.

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Reconheceram-se os ‘direitos da criança de ser criança’ e começou-se a tratá-la, não como a um adulto em ponto pequeno, um homem imperfeito, mas como a um ser à parte, quer sob o ponto de vista biológico, quer sob o ponto de vista psicológico 24.
Através dos trechos propostos, verificamos a influência de Dewey quando Filgueiras Lima critica a passividade do aluno e a exposição de conteúdos que não interessavam à criança. Vê-se a importância do interesse como fator de motivação para o aprendizado. Na parte final, quando comenta o reconhecimento do direito da criança de ser criança e de ser tratada apenas como um ser diferente e não como um adulto imperfeito, mais uma vez, está clara a influência do pedagogo norte-americano, uma vez que este falava que educação era a própria vida, por isso, devia-se ensinar aquilo que fosse do interesse da criança e não apenas conteúdos que só iriam lhe servir na vida adulta, pois isto seria negar-lhes o próprio direito de ser criança.
Durante muito tempo, existiu o mito de que a escola nova era obrigatoriamente uma escola cara, pois os seus métodos demandavam muitos equipamentos e inovações pedagógicas que não estariam ao alcance de todos. Tinha-se, ainda, a idéia de que ela era uma escola de prédio grande e luxuoso, com vários compartimentos. Talvez esse estereótipo tenha surgido por causa das primeiras experiências escolanovista na Europa, que realmente aconteceram em escolas particulares com essas características. Filgueiras Lima sempre combateu essa idéia e tentava mostrar que muitos recursos e métodos renovadores poderiam ser usados, sem necessitar-se de um grande dispêndio financeiro.
Tanto é assim, que ele se mostrou um entusiasta do movimento renovador ao defender a sua expansão para as escolas do interior do Estado. Para ele, o fato das escolas sertanejas não terem os recursos e os equipamentos necessários à execução de alguns métodos escolanovistas não era desculpa para se continuar preso aos ditames da Escola Tradicional. Segundo ele, as escolas sertanejas poderiam não dispor de instrumentos modernos, mas, por outro lado, elas detinham um acervo muito mais valioso: os rios, as serras, os açudes, os campos, as árvores entre outros; a partir desses recursos, poder-se-ia trabalhar com o “centro de interesse”, o método didático elaborado por Decroly, aqui já explicado.
Mostrou-se também um grande admirador da escola ativa. O ensino deveria ter por base o interesse da criança. Dever-se-ia ultrapassar o ensino intuitivo que se restringia às lições de coisas para se chegar ao ensino ativo, pregado por Dewey e Decroly, onde além da observação haveria a intervenção real da criança, conforme vivenciado nas escolas experimentais espalhadas em todo mundo. Apesar de alguns educadores acharem difícil a aplicação do modelo decroliano em nossas escolas, principalmente no ensino primário, Filgueiras Lima reagia dizendo que “qualquer professora inteligente, servida por uma dose acentuada de boa vontade, poderá vencê-la (a distância entre o sistema pestaloziano ao decroliano) sem grandes dificuldades e tropeços”25. Para realizar esta mudança, bastaria que o professor mudasse a maneira de apresentar as lições para os alunos, ou seja, em vez de apresentar o objeto sobre o que versam as lições, o professor deveria deixar o aluno descobrir por si só. Neste processo de mudança, o papel do mestre mudaria de orientador do ensino para colaborador do aluno, o que implicaria numa mudança radical na posição do professor no processo de aprendizagem do aluno e na sua postura na sala de aula.
Além disso, um ensino realmente ativo não se poderia prender aos velhos métodos, que privilegiavam a memorização em detrimento da vivência do aluno. Era necessário colocar o aluno em contato com a sociedade. O âmbito do ensino não poderia limitar-se à sala de aula, pois, muitas vezes, em excursões, viagens ou passeios, poder-se-ia entrar em contato com situações da realidade que levariam a um aprendizado do aluno muito mais consistente. Em suma, como o próprio Filgueiras Lima colocou, as lições decoradas deveriam dar lugar às vividas, realizadas e sentidas26.
Era necessário implementar a pedagogia da ação, fazendo da escola um aparelho de transformação social, colocando o aluno em contato com a realidade social e transformando-o num trabalhador, no sentido que ele poderia interagir com o seu meio social. Não se poderia considerar o aluno como um produto separado de seu meio; pelo contrário, ele é um ser com raízes “no solo econômico da sociedade em que vive”. Sobre a pedagogia da ação, Filgueiras Lima faz o seguinte comentário:
É a chamada pedagogia da ação, segundo a qual o educando só aprende bem, não o que lê e examina, como na escola tradicional e no ensino intuitivo, mas o que realiza ele próprio com as mãos. Esta pedagogia condena o ensino psitassico ou livresco, sem interesse e sem vida, e manda que aplique à escola o “arbeistsprinzip” dos alemães, isto é, o princípio dinâmico ou princípio energético.
Para um dos epônimos destes métodos ativos, o genial Decroli, socializar a escola é fazer dela um centro de trabalho, como socializar o menino é fazer dele um trabalhador. 27
Como já foi dito, a Escola Nova era algumas vezes chamada de escola ativa, mas, na verdade, o ensino ativo é dos muitos modelos de escolanovismo, pois este movimento não foi uníssono, nem uniforme ao longo de sua história. Filgueiras Lima foi um ardoroso defensor do método de projetos, pois ele acreditava que este método poderia despertar nas crianças um senso de cooperação e de consciência coletiva. Ademais, os projetos tinham a vantagem de envolver todos os alunos, despertando-os para o trabalho em equipe.
Na sua concepção, os projetos, além de um ótimo método de ensino, eram também peça chave na formação do caráter dos alunos, pois criavam neles sentimentos de amizade e companheirismo:
Forma-se, por este modo, dentro da escola uma cadeia emocional que liga todos os meninos para a conquista dos mesmo resultados, numa atmosfera de alegria e de trabalho, onde a disciplina se faz espontaneamente, sem necessidade de prêmios ou castigos.

Surgem assim o belos e generosos sentimentos de dignidade, respeito, amor perseverança e fé no coração infantil como uma floração magnífica de virtudes. O caráter vai então se forjando e se edificando neste clima moral, iluminado pela chama vivificadora das idéias alevantadas e generosas 28.
Vê-se, acima, o entusiasmo do poeta-educador com o método de projetos, que, segundo ele, era um apoio à nova pedagogia que havia transferido o eixo educativo do professor para o aluno.
Ele rebatia, ainda, a críticas daqueles que reputavam difícil a aplicação deste método; reconhecia que era necessário um prévio preparo por parte do professor e a utilização de raciocínio, entretanto, não o considerava complicado. Ressaltava que havia projetos sintéticos e outros globais que envolviam várias disciplinas; como também poderiam ser realizados por matéria ou por atividades. Frisava, ainda, que um determinado projeto deveria ser deixado de lado, quando perdesse o interesse dos alunos.
Dentro da concepção de educação de Filgueiras Lima, pode-se dizer, ainda, que ele era um defensor da autonomia didática, ou seja, o professor deveria ter liberdade para escolher o método a ser utilizado em sala de aula (desde que fosse em consonância com a Escola Nova), fazer seu planejamento e organizar horários e programas.
Defendia, ainda, a idéia de educação integral. A escola não deveria limitar-se, apenas, a transmitir conhecimento, mas era também sua função a educação física, moral, econômica, estética, cívica e política. Não poderia conceber uma educação desvinculada da realidade, que se limitava apenas às preleções dos professores e colocava o aluno numa completa passividade.
Pode-se dizer, portanto, que Filgueiras Lima era um escolanovista por excelência, defensor de um ensino baseado nos interesses dos alunos e nos novos ensinamentos da pedagogia, psicologia e sociologia. Seguidor das idéias de Dewey e Decroly, defendeu ardorosamente a utilização dos métodos de projetos e dos centros de interesse, colocando, assim, o seu pensamento pedagógico em sintonia com a vanguarda do pensamento educacional de seu tempo.


IV A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O DISCURSO EDUCACIONAL DE FILGUEIRAS LIMA

Para analisar a prática educacional de Filgueiras Lima, que é o objetivo do capítulo proposto, recorri, principalmente, aos seus manuscritos e apontamentos. Ali, encontrei opiniões e reflexões sobre diferentes aspectos do processo de educação e de ensino. Também pesquisei nos seus discursos e artigos, publicados em revistas e jornais da época. Outra fonte preciosa de informação foram as entrevistas realizadas com pessoas que viveram e trabalharam com o poeta-educador.


Conforme conferido, o capítulo anterior situou o pensamento pedagógico de Filgueiras Lima dentro do movimento escolanovista, destacando os ideais por ele defendidos. Sem dúvida, pode-se dizer que tanto a sua concepção como a sua prática de educação e ensino estavam bastante à frente do que se praticava nas escolas da época. Neste sentido, pronunciou-se Susana Bonfim Borges, uma de suas ex-alunas da Escola Normal, quando foi entrevistada: “ quando eu estava na Escola Normal da 13 de Maio, ele foi meu professor de Didática. As idéias dele eram avançadíssimas, eu tenho a impressão de que, o que se faz hoje é uma continuação do que ele pensou.”
Neste momento da pesquisa, abordo questões práticas da obra pedagógica de Filgueiras Lima, assim como a sua opinião sobre diversas questões educacionais e sociais, pois como ele mesmo defendia, a escola e o ensino não podem ficar dissociados da realidade política, econômica e social. Deste modo, senti a necessidade de compreender o contexto histórico onde este educador formou seu ideário pedagógico.
4.1 O Ceará nas Décadas de 20 e 30
Para se entender o pensamento pedagógico de Filgueiras Lima, faz-se necessária uma rápida abordagem sobre o período histórico em que ele desenvolveu suas idéias. Este educador iniciou suas atividades profissionais na década de 30, ou seja, após a revolução que destituiu o Presidente Washington Luís.

O período da história política brasileira que vai da proclamação da República à Revolução de 30 é chamado de Primeira República ou República Velha. Neste período, o cenário político nacional foi dominado pela chamada política do café-com-leite, em referência aos produtores de café de São Paulo e aos pecuaristas de Minas Gerais, que se revezavam na presidência da República, exercendo o poder em benefício das oligarquias agropecuárias que representavam.


O revezamento entre paulistas e mineiros na presidência da República era sustentado pelos outros Estados da federação, através da política dos governadores que consistia num acordo entre o poder central e os governadores estaduais em que estes apoiavam o presidente em troca da autonomia dos estados. Desta forma, as oligarquias mineiras e paulistas exerciam o poder central da República, dando autonomia às oligarquias estaduais.
O Estado do Ceará não foi exceção onde as oligarquias dominaram o cenário político durante a República Velha. Os oligarcas pregavam que os trabalhadores não tinham maturidade política para participar do processo político. Nos primeiros anos da República, as classes trabalhadoras, que já vinham se organizando em sindicatos, tentaram participar do sistema político formal, criando em 15 de junho de 1890, o partido operário que visava à criação de direitos trabalhistas e melhores condições de trabalho. Contudo, as pretensões eleitorais dos operários foram logo barradas pelas forças (polícia, inclusive) das oligarquias dominantes. Também foram duramente repelidas, durante este período, qualquer movimento que manifestasse a luta de classes como as greves do motorneiros e condutores de bonde. Desta forma, o movimento político operário passa a atuar à margem do sistema político-partidário formal.
Na República Velha, o voto era aberto, e as eleições eram sistematicamente fraudadas a fim de manterem no poder as oligarquias dominantes. No plano nacional, a política econômica do governo federal preocupava-se basicamente com cafeicultura, todo os esforços eram concentrados em atender os interesses dos produtores de café de São Paulo.
Essa situação desagradava grande parte da população, principalmente, a classe média urbana emergente, a pequena burguesia industrial, as oligarquias dissidentes e o grupo de militares, representado pelos tenentes. Tudo isso, associado a uma profunda crise econômica, que teve seu apogeu com a queda do preço do café no mercado internacional em virtude da quebra da bolsa de Nova York em 1929, resultou na Revolução de 30 que depôs o Presidente Washington Luís (último representante da oligarquia paulista) e levou ao poder o gaúcho Getúlio Vargas, candidato da Aliança Liberal que havia sido derrotado na eleição daquele ano pelo candidato do governo Júlio Prestes, que passou a ser o chefe do governo provisório.
Note-se que, apesar de contar com o apoio da maioria da população, o movimento que levou a Revolução de 30 não contou com a participação popular. A “revolução” pensada pelo movimento tenentista visava, apenas, a modernizar o estado burguês, pois não havia a intenção de destruí-lo e criar um novo tipo de sociedade.
No período que antecede a Revolução de 30, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) liderava o movimento operário no Ceará com uma proposta fundamentada nos princípios marxista-leninista. Os trabalhadores chegaram a participar de algumas eleições antes da referida Revolução através do Bloco Operário Camponês (BOC) que, através do jornal O Trabalhador Gráfico, iniciou uma luta por melhores salários, direitos a férias e higienização de fábricas e oficinas.
Com esta Revolução, houve uma centralização de poder no país que extinguiu a sistema federativo que havia prevalecido na República Velha por causa da política dos governadores. Desta forma, os governadores dos estados foram substituídos por interventores federais, nomeados pelo governo provisório de Getúlio Vargas. No Ceará, o primeiro interventor foi Fernandes Távora, que destituiu a antiga oligarquia dominante e colocou nos cargos públicos os seus correligionários, promovendo, assim, a velha política clientelista, o que desagradou os tenentes que haviam apoiado a Revolução.
Em conformidade com a política do governo de Getúlio, Fernandes Távora patrocinou a desmobilização dos movimentos operários e do Partido Comunista. Governando com as oligarquias, ele também promoveu a repressão aos movimentos grevistas ou àqueles que se identificassem com a luta de classe.
A Igreja Católica, por sua vez, iniciou um movimento junto aos operários, a fim de se formarem associações que visavam à colaboração entre as classes e não à luta entre elas, como defendiam os comunistas. Esse movimento ganhou corpo com a criação da Legião Cearense do Trabalho e dos Círculos Operários Católicos. Posteriormente, foi fundada a Legião Eleitoral Católica (LEC) que atuou como verdadeiro partido político deste movimento católico-operário. No Ceará, o grupo da LEC ganhou as eleições constituintes de 1933, o que impulsionou o seu projeto.
A Liga Eleitoral Católica, os Círculos Operários Católicos e a Legião Cearense do Trabalho colaboram, assim, na montagem de um projeto político para o operariado cearense, educando-o para, juntamente com os patrões, fundarem uma sociedade em que a organização corporativista das classes impede as manifestações dos conflitos sociais29.
Surgiram, então, no cenário político nacional, outros grupos políticos como o PSD, formado pelas oligarquias dissidentes e pelos tenentes, e, também, a Aliança Nacional Libertadora – ALN que englobava comunistas, socialistas, liberais e antifascistas. Também foi criada a Ação Integralista Brasileira de inspiração fascista.
Com a Constituição de 1934, os sindicatos deixaram de ser subordinados à LCT e ganharam autonomia para realizar suas negociações diretamente com os patrões, o que resultou no enfraquecimento dos grupos católicos sobre o movimento operário. Surgiu, então, a Frente Única Sindical, formada pelo operariado não pertencente à LCT, que passou a comandar o movimento sindical no Ceará, adotando uma linha de luta de classe e promoção de greves para assegurar o cumprimento dos direitos trabalhistas.
O governo provisório de Getúlio Vargas (1930-1937) foi marcado por um período tumultuado politicamente. Apesar de contar com o apoio popular da Revolução de 30, Getúlio teve de enfrentar várias manifestações de oposição ao seu governo, como a Revolução Paulista de 1932, que defendia a democratização do país e o levante comunista de 1935. O cenário político havia sido polarizado por confrontos entre a ALN e a AIB. Para manter-se no poder e com a desculpa de combater o fantasma do comunismo, o governo de Getúlio decretou Estado de Sítio, Estado de Guerra e Lei de Segurança Nacional e a suspensão dos direitos individuais o que, conseqüentemente, resultou num fortalecimento do poder executivo central em detrimento do Congresso Nacional.
Foi neste cenário que, em 10 de novembro de 1937, Getúlio Vargas decretou a criação do Estado Novo e outorgou uma nova constituição ao país. Os partidos políticos foram extintos, o Congresso Nacional foi fechado e os sindicatos passaram a ser atrelados ao Estado. Assim, iniciou-se uma ditadura que duraria até 1945. Menezes Pimentel foi confirmado no cargo de interventor federal no Estado e consolidou a implantação dos ideais estadonovistas no Ceará.
As organizações trabalhistas que não eram centradas nos princípios do corporativismo eram tidas como “comunistas” e, portanto, foram objeto de repressão por parte da polícia de Pimentel.
Todos os setores da vida pública, fossem culturais, políticos, sindicais ou educacionais, passaram a sofrer o controle do Estado. A propaganda ganhou uma ampla dimensão no Estado Novo que para promovê-la criou o Departamento de Imprensa e Propaganda. A figura de Getúlio era mostrada ao povo como a responsável pela unidade nacional, pelo progresso da sociedade e pela manutenção da paz social, através da harmonia entre as classes.
No âmbito estadual, foi criado o Departamento de Divulgação, Censura e Propaganda que tinha como finalidade maior divulgar os atos da Interventoria. Como fundamento da política do Estado Novo, a prefeitura municipal de Fortaleza, cujos titulares eram nomeados pelos interventores federais nos estados, passou a se preocupar com a construção de uma infra-estrutura que atendesse à crescente demanda da população por moradia, escolas, luz, água, postos de saúde, vias públicas, entre outros. Afinal, era necessário criar uma imagem de prosperidade e crescimento econômico. Naquela época, muitos eram os problemas que a população da cidade de Fortaleza enfrentava. A tuberculose, por exemplo, era um dos males que assolava a população pobre da cidade, cujas moradias não tinham as menores condições de higiene. A criação de associações assistencialistas foram incentivadas a fim de amenizar e ocultar os problemas da população miserável da cidade.
Foi, portanto, criada uma doutrina que exaltava os grandes feitos do governo de Getúlio Vargas, o qual surgia como conciliador dos conflitos existentes entre capital e trabalho e condutor do progresso nacional.
Foi neste contexto histórico que Filgueiras Lima desenvolveu o seu pensamento pedagógico, isto é, num período de muitas reviravoltas, em que o país viveu momentos de mudanças, abertura e fechamento político. Entretanto, foi um período marcado pelo idealismo de muitos, como os tenentes que sonhavam construir um novo estado, formado por homens corretos, ainda que fosse um movimento elitista que não contava com a participação popular; como o de Luís Carlos Prestes, que sonhava em construir uma sociedade socialista no Brasil. E, apesar de tudo, não se pode deixar de creditar a Getúlio Vargas o mérito pela consolidação dos direitos trabalhistas no nosso país.
4.2 Concepções sobre Educação e Democracia
A educação, para Filgueiras Lima, não é apenas a transmissão de conhecimento; a instrução também faz parte do processo educativo, mas a educação vai mais além. Para ele, a educação é um processo de aperfeiçoamento do ser humano, tornar o aluno uma pessoa melhor é o objetivo verdadeiro do educador. Esse aperfeiçoamento não é apenas intelectual, mas também moral e espiritual. Nas suas próprias palavras, “a educação representa o instrumento pelo qual o homem se torna mais humano, o que quer dizer mais espiritual e mais perfeito”30.
O fim último da educação seria, portanto, a construção de uma sociedade mais justa, pacífica e democrática; pois formando seres humanos melhores, conseqüentemente, teríamos uma sociedade melhor. A paz, a democracia e a felicidade sempre foram, para ele, os objetivos que a educação deveria perseguir.
A Segunda Guerra Mundial foi um fato que marcou bastante a vida de Filgueiras Lima, como ficou claro em sua poesia, principalmente na obra “Ritmo Essencial”, em que demonstra a sua angústia com o conflito armado que envolvia a maior parte do mundo entre os anos de 1939 a 1945. Por isso, ele sempre colocou a paz como um valor primordial de uma sociedade. Era missão dos professores transmitir aos seus alunos esse valor maior.
Ele também sabia que numa sociedade democrática era bem mais fácil conseguir-se a paz que todo o mundo almejava naquele tempo. Ressalte-se que, mesmo antes de se iniciar o conflito mundial e do Brasil juntar-se aos Aliados na Segunda Guerra, Filgueiras Lima já se mostrava contrário aos regimes totalitários. No depoimento de Noemi Costa Soriano Aderaldo, uma de suas ex-alunas da Escola Normal, durante a década de 30, ela afirma que o seu mestre falava muito na Índia, na Europa e na América, mas não falava bem da Itália. Com certeza, ele agia desta forma, por que o governo italiano, naquele tempo, promovia um modelo de educação fascista. Ele sabia que governos totalitários e ditatoriais, como os de Hitler e Mussolini, jamais promoveriam uma educação baseada na liberdade e que objetivasse à construção de uma sociedade pacífica. Realmente, estava certo, pois esses governos foram responsáveis pelo maior conflito bélico da história da humanidade.
O poeta-educador tinha consciência de que a educação poderia ser uma arma poderosíssima nas mãos de maus governantes. Por isso, ele acreditava que uma escola democrática e renovada poderia formar pessoas para viverem em democracia, construindo uma sociedade mais justa e solidária.
Ninguém se apresse em tachar de utópico esse ponto de vista, pois a ‘educação para a morte’, na Alemanha nazista, nos oferece o melhor exemplo de quanto pode fazer a escola de todos os graus no implantar o ódio, a ambição e a agressividade no espírito e no coração das crianças, dos jovens e até dos homens. Por que a escola democrática, não na forma, mas no conteúdo, não poderá, em vez do ódio, plantar na alma das gerações que rebentam para a vida, um sentimento mais largo de fraternidade humana31?
Na sua concepção, o ponto capital da educação não estava na instrução, nem no acúmulo de informações, mas na formação do caráter da criança e do jovem; tinha consciência de que esta missão era mais difícil do que se propunha a antiga escola tradicional, que objetivava apenas informar (ou deformar) o aluno com uma disciplina autoritária e um ensino livresco, que privilegiava à memorização.
Seguindo as idéias escolanovistas, ele considerava que educação era a vida, como também uma preparação para a vida e, principalmente, um trabalho ao longo da vida, pois a educação não se presta a respostas imediatas e, às vezes, leva-se toda uma vida para que uma pessoa responda ao processo de educação a que foi submetida, mas, mesmo assim, o aprendizado tem valido a pena.


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