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4.3 Ensino, Aprendizagem e Escola
A velha didática da Escola Tradicional encarava o ensino como uma arte de transmitir conhecimentos, isto é, havia uma noção empírica sobre o ensino. Com o movimento renovador, passou-se a utilizar técnicas de ensino mais modernas e com caráter científico. Filgueiras Lima considerava que o ensino era uma atividade vinculada diretamente ao professor no exercício da sua profissão, enquanto a aprendizagem era uma atividade do aluno. Cabia à nova didática ditar a direção da aprendizagem.
A sua concepção de ensino era bastante diferente da concepção dos tradicionalistas que viam o novo método como simples instrução, transmissão de informações livrescas e memorização de regras, expostas em aulas cheias de erudição que pouco ou nada interessavam aos alunos. O ensino, para ele, deveria fazer com que os alunos realmente aprendessem, e aprender não significava apenas memorizar um ponto da matéria e repeti-lo; exercícios forçados que não contavam com a adesão espontânea do aluno, não caracterizavam um processo de aprendizagem verdadeiro.
A aprendizagem realmente só aconteceria quando o conteúdo ensinado interessasse ao aluno. Neste ponto é que a participação do professor fazia-se importante, pois deveria haver uma dinamização do ensino. A motivação passou a ser um recurso tão ou mais importante do que o método, mas nem por isso o papel do professor diminuiu ou desapareceu com a nova didática. Ao mestre, caberia a função de descobrir as relações vitais entre a matéria e o aluno, motivando-o a aprender.
Para o processo educativo desenvolver-se com tranquilidade e eficácia era necessário haver disciplina na escola. Mas a disciplina que Filgueiras Lima defendia era diferente da concepção da Escola Tradicional. A disciplina deveria estar fundamentada na liberdade e esta idéia era sempre passada para as crianças com a noção de responsabilidade.
Deve-se deixar bem claro que a idéia de liberdade pregada por Filgueiras Lima e pelo grupo da Escola Nova que ele seguia não era a de se deixar o aluno fazer tudo aquilo que queria; não era a liberdade pregada pelos não - diretivistas, mas uma liberdade com responsabilidade. A liberdade escolanovista veio para quebrar os paradigmas de disciplina da escola tradicional que se baseava numa autoridade quase militar. “A Escola Nova realmente dava essa noção de liberdade, mas era para tirar aquelas algemas do castigo, da palmatória, da tabuada, do ditado que todo mundo se tremia de medo para decorar”32.
O ensino das chamadas Ciências Sociais foi tido em alta conta por Filgueiras Lima. Em tese apresentada no 4º Congresso Nacional de Estabelecimentos Particulares de Ensino, realizado no Estado da Bahia, no ano de 1949, ele defendeu a função social do ensino das ciências sociais tanto no ensino primário, como no ensino secundário. Esse trabalho foi publicado pela editora do Instituto do Ceará sob o título de “Metodologia das Ciências Sociais”. Melhor esclarecendo, ressalte-se que Ciências Sociais não são o mesmo de Estudos Sociais, apesar de terem o mesmo fim.
Os educacionistas americanos estabelecem uma diferença bem acentuada entre os conhecimentos sociais sistematizados em corpos de doutrina, formados com os estudos sobre as relações e os conflitos humanos, a que dão o nome de Ciências Sociais, e as partes, aspectos e problemas retirados dessas mesmas disciplinas e apresentados em unidades de estudo, adaptadas aos fins do ensino elementar33.
No curso primário, as Ciências Sociais ensinadas deveriam ser a História, a Geografia, a Educação Moral e Cívica, a Economia Doméstica e a Higiene que deveriam figurar no currículo sob a denominação de Estudos Sociais. Neste grau do ensino, as Ciências Sociais têm a função de adequar a criança às necessidades do seu meio social e ajustar o meio às características da criança. Conseqüentemente, o ensino em disciplinas rigidamente separadas não é o adequado ao ensino das ciências sociais no ensino primário, pois contraria a lógica infantil; a criança não entende o mundo dividido em campos estanques do conhecimento. Por isso, se requer um programa de idéias associadas, executado através de programas baseados em projetos, atividades de grupo, de unidades de trabalho, objetivando-se chegar aos níveis mais avançados, que seriam a supressão total das divisões científicas com o predomínio da globalização, da integração e até da fusão das disciplinas escolares.
O processo de ensino, neste caso, é mais importante do que a instrução e a transmissão de conhecimentos, pois o que se quer é formar o caráter da criança e não o acúmulo de noções teóricas. Ademais, sabe-se que a criança aprende melhor fazendo e, neste processo, é que ela adquire hábitos, ideais e valores.

Também no ensino secundário, o ensino das Ciências Sociais tinha um papel fundamental na formação do jovem. Primeiramente, deve-se partir do princípio de que o ensino secundário não é apenas uma ponte do ensino primário ao ensino superior; ele tem um fim em si mesmo. É no ensino médio que se educa o adolescente, “em consonância com o sentido e o espírito da civilização, da cultura e do mundo contemporâneo”34. Não mais poder-se-ia conceber o ensino secundário apenas como uma preparação para o vestibular das faculdades. A moderna escola secundária deveria estar inserida na democracia, tornando-se um espaço para a sua prática entre os adolescentes, pois democracia não se ensina, pratica-se.


É através do ensino das Ciências Sociais que se abre um espaço no currículo do ensino secundário para se estudar os problemas sociais e entender como funciona a democracia. Para tanto, não se pode ministrar essas disciplinas como as demais, seguindo o modelo tradicional, pois se assim não for, elas não alcançarão seu objetivo principal de abrir as janelas da escola secundária para a sociedade. É necessária a utilização de modernos métodos pedagógicos, como pesquisas, inquéritos, discussões, grupos de estudos, projetos, atividades socializadas, estudos dirigidos, que corretamente empregados concederão um novo caráter ao ensino das Ciências Sociais.
Neste âmbito, o ensino da História e da Geografia deveria ser reformulado, deixando de enfocar a memorização de fatos, datas, definições, de nomes de guerreiros e líderes políticos para privilegiar a interpretação do fato e do fenômeno histórico. Além do ensino dessas duas disciplinas, o currículo do ensino médio deveria contar com as disciplinas de Sociologia e de Economia.



    1. A Formação de Professores e o Ensino Normal

Filgueiras Lima era um professor e, como tal, sempre encarou esta profissão com muita seriedade. A atividade de ensinar não deveria ser confiada a qualquer um; necessitava-se de professores qualificados e com formação adequada para entrar em sala de aula. A didática sempre foi por ele considerada como primordial para se alcançar um ensino de qualidade. Ensinar sem didática era uma atividade empírica, sem compromisso com os resultados. Na Escola Tradicional, os professores eram, na sala de aula, senhores, detentores do conhecimento, que se impunham pela autoridade e por uma disciplina heteronômica.


Já na Escola Nova, o professor não podia agir dessa forma, por isso, era necessária a formação de professores competentes que estivessem aptos a utilizar os modernos métodos didáticos, que despertassem na criança o interesse pelo objeto de estudo e criassem em sala de aula um clima de disciplina voluntária.
A formação das professoras primárias sempre foi de grande interesse para Filgueiras Lima. Assim, ele dedicou boa parte de sua vida profissional ao ensino normal. Como professor da Escola Normal, da cadeira de Didática e Técnica de Ensino, tentou transmitir as suas alunas métodos didáticos modernos, que estavam em consonância com o movimento renovador.
Como defensor da autonomia didática, Filgueiras Lima sempre defendeu que o professor deveria ter liberdade de escolher o melhor método. Era necessário que o próprio professor encontrasse o melhor caminho para atingir o interesse do educando, e, por sua vez, a transmissão dos conteúdos. Para ele, a falta de criatividade e de personalidade de um professor eram falhas graves.
Combateu o ensino tradicional, livresco, baseado na memorização, sem nenhuma relação com a realidade da criança. Por isso, repreendia suas alunas do curso normal quando estas utilizavam esses métodos arcaicos. Aliás, ele foi durante muito tempo o responsável pelo estágio supervisionado daquela instituição; nesta função, ele assistia às aulas das normalistas e anotava o desempenho de cada uma, apontando suas qualidades e deficiências.
A respeito das suas aulas de Didática na Escola Normal, colhemos os seguintes trechos dos depoimentos de suas ex-alunas:
O Dr. Filgueiras Lima, que era o maior de todos, era o professor de técnica de ensino, ensinava a gente a ser professor.

As aulas dele eram maravilhosas. Ele tratava a criança como ninguém ... só em renovação do ensino ele falava, só em renovação. Ele tinha horror ao castigo, à palmatória. A criança, ele dizia que a criança é “ terra virgem que o homem devia semear de joelhos”. Tudo era intocável. Era muito bonito. Ele era um poeta, só falava coisas lindas. Ele tinha uma verbalidade e uma dicção maravilhosa, o desenvolvimento do que ele fazia de uma maneira porque, a gente prestava atenção mesmo, não tinha nada em enfadonho nem de monótono.

Dr. Filgueiras era até capaz de me castigar se ele chegasse na classe e eu tivesse perguntando ao menino: 3x5, 4x6, fazendo tabuada, ele não admitia. Ele achava aquilo mesmo que eu tivesse pegando numa palmatória, dando uma palmatória no menino. Mas o Dr. Filgueiras é que o menino vai aprender? “Aprende!” Então eu fazia jogo, dividia a classe em dois partidos e um menino pagava no outro, assim a leitura, a leitura também era feita. 35
Com o Dr. Filgueiras Lima tinha que dar uma aula para ele dá nota que a pessoa merecesse. Ele assistindo, ele anotando o que você tinha acertado, o que você tinha errado, como você tinha se comportado. Ele disse: “ você se saiu maravilhosamente bem”. Aí ele disse: “quando você quiser alguma coisa pode contar comigo” 36.
Além de um professor dedicado, Filgueiras Lima mostrou-se também um administrador público comprometido com a qualidade do ensino e com a classe docente. Entre 1950 e 1951, ele assumiu a direção do Instituto de Educação, órgão que englovaba a Escola Normal e sua escola de aplicação (Escola Modelo). Antes de assumir o cargo, entretanto, ele colocou uma série de condições, que eram necessárias para melhoria daquela instituição, dentre as quais podemos destacar:


  • solução do caso dos concursos, antes de sua posse;

  • nomeação de um vice- diretor e de uma secretária de sua escolha;

  • reforma geral do prédio, renovação do mobiliário e do material didático;

  • nomeação de uma diretora para a Escola Modelo, também de sua escolha;

  • nomeações de professores, funcionários de secretaria, serventes, inspetoras, etc., com a prévia aprovação do diretor, dando-se preferência aos de sua indicação, dentro de um rigoroso critério pedagógico e moral;

  • permissão para, no ato de posse, assegurar aos professores – em nome do governo – um aumento de vencimento, quando estivessem restabelecidas as finanças estaduais;

  • apoio integral do Secretário a todas as medidas de caráter administrativo e técnico que visassem ao aperfeiçoamento e melhoria das condições materiais e pedagógicas do Instituto;

  • instalação dos cursos anexos, criados por ele em 1947, os quais completariam a obra educacional do Instituto.

O estabelecimento dessas condições demonstram que ele estava preocupado com as condições dos professores e funcionários daquela casa de educação, como também, com as condições de funcionamento em geral do Instituto que, pelo visto, não vinha recebendo o tratamento adequado por parte das autoridades estaduais.


Não foi apenas na Escola Normal que Filgueiras Lima trabalhou com essa modalidade de ensino. Logo nos primeiros anos de funcionamento do Colégio Lourenço Filho, ele criou um curso normal, que durante muito tempo foi referência no Estado do Ceará. Em dezembro de 1944, formou-se a primeira turma, e ele foi escolhido o seu patrono; nesta ocasião, o poeta fez um discurso cheio de emoção, em que destacou a missão principal daquelas jovens professoras que iriam iniciar suas atividades num mundo novo, do pós-guerra, cheio de esperanças e desafios e a elas cabia a construção de uma nova sociedade através da educação, deste discurso, é relevante se destacar o seguinte trecho:
Depois de conquistada a vitória que se aproxima, o mundo entrará numa fase de reconstrução em que será predominante a influência do educador. Quando falo em reconstrução não penso unicamente nas ruínas de Londres, de Varsóvia, de Couventry, nem mesmo nos destroços vivo da heróica e mártir Stalingrado. Vai muito mais alto o meu pensamento. Sim, jovens professoras, eu penso na reconstrução moral e intelectual do mundo, penso no restabelecimento da harmonia e da paz entre os homens, penso na nova humanidade que ajudareis a plasmar e a construir na hora propedêutica do após guerra. E, enquanto, ela não soa, contribui com a vossa inteligência e o vosso saber para o extermínio de todos os inimigos da cultura, da justiça e da liberdade 37.
Como profissional interessado pelo aprimoramento do ensino normal, Filgueiras Lima defendeu a criação de um espaço específico para ele dentro da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, pois sustentava que o ensino normal não poderia continuar recebendo o tratamento de ensino médio. Ele defendia, ainda, que, além das escolas normais comuns, deveria ser criado um tipo de Escola Normal de nível universitário, os quais seriam capazes de marcar em definitivo a evolução de ensino de formação de educadores primários.
A formação dos professores, em geral, sempre mereceu a preocupação de Filgueiras Lima. Em artigo publicado no jornal O Povo, em 6 de fevereiro de 1937, ele elogiou a realização de um congresso de professores através do Departamento Geral de Educação e aproveitou o ensejo para defender eventos desta natureza que aconteciam no Ceará desde à administração de Lourenço Filho que havia instituído os chamados cursos de férias para os professores da capital e do interior do Estado. Esses eventos tinham por fim colocar estes profissionais em contato com as novas idéias e processos didáticos aconselhados pelo movimento renovador. Posteriormente, ele frisa que na gestão de Moreira de Sousa, foram realizadas reuniões professorais de natureza técnica, chamadas de “Semanas Pedagógicas”, em que se convidava um expoente na área de educação para falar aos professores sobre um tema relevante, ao qual se seguiam debates referentes “à estática e à dinâmica escolar”. Portanto, ele considerava que reuniões desta natureza eram essenciais para formação de professores, pois os colocavam diante dos novos métodos didáticos e abriam um espaço para a discussão de problemas escolares atuais.
A afetividade era considerada por Filgueiras Lima um requisito essencial à professora primária e aos profissionais da educação que trabalhavam com alunos deficientes. Ao tratar da educação de cegos, por exemplo, o poeta admitia que só professores especializados e dotados de um alto grau de afetividade poderiam dedicar-se a este tipo de ensino. Defendia a utilização dos jogos de Fröebel na educação de crianças cegas.
Os jogos tinham, na sua visão, um papel fundamental na educação das crianças não só deficientes, como também as normais. “Durante as atividades recreativas a que se entregam horas a fio, as crianças revelam todas as suas tendências, desejos, angústias e aspirações. Quem não possua um fino tato psicológico, jamais conseguirá conduzir, com boa mão, os seres infinitamente sensíveis que tem sob sua guarda.38” Vê-se, então, como o poeta achava importante a formação do educador primário, pois ele tinha consciência de que só um profissional preparado e especializado poderia utilizar com êxito os novos métodos didáticos.
Não foi apenas a formação das professoras primárias que foi alvo da preocupação educacional de Filgueiras Lima; também o foi a formação dos professores secundaristas. No seu tempo, notadamente na década de 1930, não havia no Ceará e na maior parte do país cursos de formação de professores do ensino médio. Filgueiras Lima criticava fortemente essa situação, pois das professoras primárias era exigido o diploma do curso normal, ou seja, requeria-se formação específica para se ensinar no ensino primário, embora o mesmo não acontecesse no ensino secundário. Segundo ele, muitos dos professores secundaristas haviam sido recrutados entre os fracassados em suas respectivas profissões ou na carreira política; não tinham a formação adequada, nem do ponto de vista moral, nem do intelectual, nem do didático; da mesma forma, não possuíam nenhum conhecimento de psicologia da adolescência, nem de didática. O poeta dizia, ainda, que poucos, por esforço e pelo estudo próprio, conseguiam superar as deficiências de uma formação imperfeita ou inadequada. Por esses motivos, ele propunha a criação de escolas normais para a formação do magistério secundário, a exemplo do que havia sido feito em São Paulo, na administração de Armando de Sales Oliveira.
4.6 A Prática Pedagógica de Filgueiras Lima no Colégio Lourenço Filho
Para conhecer traços da sua prática pedagógica à frente do Colégio Lourenço Filho, recorri ao depoimento de pessoas que trabalharam com ele neste estabelecimento de ensino. As entrevistadas trabalharam ou foram suas alunas no período compreendido de 1953 a 1965 (ano de sua morte). Utilizei, ainda, depoimento de uma de suas ex-alunas da Escola Normal e que, depois, ensinou no Colégio Lourenço Filho. Neste instante da pesquisa, pretendo mostrar o perfil do educador e do empresário que foi Filgueiras Lima a frente do colégio que ele dirigiu por vinte e sete anos.
O Colégio Lourenço Filho surgiu com o entusiasmo de jovens educadores que seguiam as idéias da Escola Nova e que pretendiam fazer uma revolução no ensino naquela época. Primeiramente, o Colégio Lourenço Filho aboliu qualquer símbolo de autoridade que lembrasse ou imitasse o da caserna (o que era comum nas outras escolas), como a palmatória e o castigo.
Filgueiras Lima também inovou, introduzindo novos métodos didáticos na sua escola, pois, até então, as aulas eram como um discurso de político sem fundamentação. Ele introduziu o método globalizado de alfabetização, a globalização das disciplinas e a utilização de esquemas de aula. Antigas práticas de ensino foram abandonadas, como a tabuada e o ditado. Exercícios de pura memorização também foram abolidos; ele os considerava um crime, por que não levava a nenhum aprendizado. Não foi só nos métodos didáticos que o Colégio Lourenço Filho inovou, mas também na vestimenta dos alunos, pois foi o primeiro estabelecimento de ensino a adotar uma indumentária adequada ao nosso clima39.
A Professora Maria do Carmo Mota, a Dona Mimosa, relata em seu depoimento como era a sua prática como professora no Colégio Lourenço Filho:
Devo-lhe este depoimento, por que de perto o conheci como aluna e também como professora de seu Colégio. Depois desta justa e merecida louvação, é certo, para prosseguir no assunto. De olho numa nota que me conferisse distinção e louvor – lá estava eu, na Escola dando a minha primeira aula, sujeita à apreciações de mais de cem professorandas. Lembro tranquila, solta, digo até com o embaraço de uma quase profissional, constatava um honroso convite do professor Filgueiras Lima, para ensinar no seu colégio, o então Instituto Lourenço Filho, que pertencia também ao jornalista e Deputado Paulo Sarasate. Foi assim que me tornei professora. Confesso, sem restrições, esta foi uma fase muito boa de minha vida, por que me achava totalmente vocacionada para o que eu fazia. Gostava de crianças e gostava de ensinar. Eu era portanto a pessoa certa, no lugar certo. No Instituto Lourenço Filho, onde permaneci durante cinco anos, sempre ensinei o 1º ano ‘C’. As crianças já chegavam para mim alfabetizadas, e usando um método globalizado, eu desenvolvia a leitura, a escrita, e as demais matérias. Nunca improvisei aulas. Em casa, tinha o cuidado de prepará-las, visando sempre despertar o interesse do aluno. Através de jogos, e demais atividades lúdicas, ensinei muita tabuada, fiz muita leitura, muito ditado, e a classe inteira participava, interessada, feliz, alcançava grande desenvolvimento.
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Àquela época - década de quarenta, no Instituto Lourenço Filho, as classes até o terceiro ano primário eram mistas. Juntos estudavam meninos e meninas. Daí por diante havia a separação e as turmas eram masculinas e femininas. Este foi um sistema que por longo tempo se arrastou entre os colégios de Fortaleza, mas, com a evolução do ensino, caiu de uso. Quem não se lembra dos colégios essencialmente masculinos? – O Cearense, O São Luiz, O Colégio Militar .. e dos Femininos? ... A escola Normal, Imaculada Conceição, Dorotéias, Santa Cecília. Se não me engano, mistos eram aquela época o Liceu do Ceará e o Ginásio São João 40.

Apesar de pregar a liberdade, não se pode dizer que Filgueiras Lima deixasse os alunos fazer o que eles quisessem, conforme já mencionado. A sua autoridade era sempre baseada na liberdade. Como bem disse a Professora Olga Nunes da Costa, ele tinha uma autoridade carismática, as pessoas o obedeciam por que tinham por ele admiração e respeito. Contudo, isso não impedia que ele se relacionasse bem com os alunos do colégio; muito pelo contrário, ele tinha um relacionamento paternal e carinhoso com seus alunos. A professora conta, ainda, que não se lembra de tê-lo visto aumentar a voz para quem quer que fosse e que ele jamais repreendia um funcionário ou um aluno em público, pois acreditava na força do diálogo e, através dele, tentava orientar seus alunos, freando eventuais atos de indisciplina.


Uma situação relatada pela referida professora, é bastante elucidativa para entender como funcionava a autoridade de Filgueiras Lima com os seus alunos. Havia no antigo prédio do Colégio Lourenço Filho um andar superior onde moravam alguns familiares do poeta, vindos do interior; alguns eram rapazes e trabalhavam na escola. Para subir até os aposentos desses jovens só era preciso abrir uma porta, a qual dava acesso a uma escada que levava ao andar superior. Apesar de ficar aberta a porta, nenhum aluno, aluna, professor ou funcionário subia a escada, pois não queriam descumprir uma ordem dada por ele. Apenas a camareira era autorizada a subir a escada e assim era feito, apesar de não haver fiscalização. Todos tinham a noção de responsabilidade e de liberdade. Apesar de ser um homem bom e cordato, ele não admitia que as pessoas infringissem as normas da escola ou os seus princípios filosóficos de honestidade, fidelidade e lealdade.
Filgueiras Lima acreditava que ensinar era um sacerdócio e ele resumiu essa sua filosofia em uma frase: “ensino como quem reza: com a alma genuflexa”. Essa filosofia ele tentava passar aos professores da escola, como bem explicou o professor Vicente Soares em seu depoimento:
Não foi uma nem duas vezes que este depoente presenciou o educador Filgueiras dialogar com seus comandados no sentido de fazê-los enxergar o lado sublime da profissão de professor. Para ele, o magistério tinha de ser uma profissão. Para ele, o magistério tinha de ser uma profissão diferente, posto que não apenas um burocrata competente ainda que, ou transmitidor de conhecimentos, frio e inanimado ou ainda uma destas máquinas miraculosas descobertas pela ciência para atuar como mero repassador de erudição. O mestre deixou uma frase antológica, hoje gravada no bronze de sua herma presente no vestíbulo desta casa. “Ensino como quem reza: com a alma genuflexa”. O mestre era assim e assim gostaria que fôssemos por igual.
O Professor Vicente relata ainda que o sucesso obtido pelo Colégio Lourenço Filho no início de sua história deveu-se, principalmente, ao exemplo que Filgueiras Lima dava aos seus professores e alunos. “ O largo tirocínio do mestre fazia o empreendimento acontecer e as coisas aconteciam à sombra de seu modo de ser: afável, educado, ético, tolerante, conselheiro, amigo, cristão.” O professor deveria ter humildade, e isso significava descer do pedestal que a Escola Tradicional o colocava e se situar no mesmo nível dos alunos, aceitando os seus questionamentos, tirando suas dúvidas e, principalmente, trabalhando a socialização do aluno, pois é através dela que o ser humano se amolda.
Apesar do Colégio Lourenço Filho sempre ter respeitado todas as religiões e sempre ter aceitado alunos de todos os credos, o cristianismo sempre fez parte da sua história. Filgueiras Lima era um homem muito religioso e transmitia aos alunos, professores e funcionários da escola os ensinamentos da filosofia cristã de amor ao próximo, humanismo e fraternidade. Era motivo de grande contentamento para ele a primeira eucaristia das crianças, alunas do Colégio, realizar-se no dia do seu aniversário, 21 de maio. Saliente-se, ainda, que a disciplina de Religião constava na grade curricular do ensino ginasial e do ensino normal da escola, pois ele acreditava que o ensino da Religião deveria fazer parte de uma formação adequada à sociedade de seu tempo.
O caráter cívico da educação sempre foi tido em alta conta por Filgueiras Lima; ele era um apaixonado por sua terra e pelo seu país, o que ficou demonstrado claramente em seus escritos e poemas. No Colégio Lourenço Filho, havia um esforço consciente para inserir a educação cívica, juntamente com a educação moral, a religiosa e social na formação da personalidade do aluno. Sempre se motivava os alunos a questionarem os problemas maiores da sociedade de então e o poeta-educador sempre os motivava a fazer uma boa ação e a cumprirem os seus deveres fosse na escola, fosse no âmbito doméstico. Objetivava-se estimular o aluno ao cumprimento das leis vigentes e a cultivar o sentimento de cooperação e mútua ajuda, que são pilares na construção de uma sociedade democrática, fraterna e pacífica41.
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