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FORUM SOCIAL MUNDIAL – FSM – MUMBAI – INDIA

DE 16 A 21 DE JANEIRO DE 2004.


RELATO GERAL:
Entre pó e muitas manifestações, o FSM aconteceu neste janeiro de um 2004, que promete ser um ano e um marco de diferenciação para a Economia Solidária.

Fui indicada na reunião do conselho interlocutor criado em Belo Horizonte, dentro do Fórum Brasileiro de Economia Solidária - FBES. Foi uma maratona até se concretizar a viagem, entre documentos e o financiamento da mesma. No final do processo fui financiada pela RBSES (Rede Brasileira de Sócio Economia Solidária), do Rio de Janeiro, através do PACS (Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul).

Destaco que recebi muita solidariedade, e vivência da prática dos princípios da ES neste processo. Conheci o pessoal que trabalha com o Pólo de Economia Solidária no mundo e pretendo me integrar a eles para contribuir com o que posso e aprender com as discussões.

O FSM na minha visão parecia uma Babilônia, gente andando naquelas ruas dentro do pavilhão do Fórum, que teve a realização dos trabalhos em um único lugar e protestos organizados acontecendo o tempo todo. Um dos problemas que identifiquei, dentro da quantidade de atividades acontecendo ao mesmo tempo, (só na ES foram 20 seminários, 5 painéis grandes,mais debates, reuniões, Works shop, cursos) foi a tradução. Havia muitos Indianos inscritos, “participação de povão” e a tradução deram-se basicamente para o Inglês e francês. As pessoas se organizavam e faziam protestos, entregavam materiais, se articulavam, visitavam as barracas, etc. Eu tive dificuldade com vários seminários, encontrei tradução para o espanhol apenas nos painéis maiores.

A Índia é um outro mundo, que não pode ser julgado com nossos olhos ocidentais. A Índia (como já citou uma reportagem) é mística, cruel, miserável, grandiosa, diferente; é um paradoxo. Tem muitas tradições, organização por castas, costumes, gestos, comidas tudo é diferente. Penso que a miséria deles é mais gritante que a nossa e a solidariedade é menor. Até porque tem os costumes e crenças de que nesta vida você está assim para evoluir, porque precisava. Apesar de tudo, é uma sociedade de poucos assaltos, pelo menos não vi e ouvi nada. Muita gente morando nas ruas, as favelas são péssimas, muitos pedintes, que te imploram ajuda, denuncias de trabalho escravo, infantil, violência contra mulher, abortos ( no caso de algumas castas as gravidez de meninas são interrompidas no ventre) Um transito louco, onde o pedestre não tem prioridade e um povo fechado, mas terno, sofredor e alegre e marcado pelos seus costumes, como a tinta na testa para identificar se são comprometidos ou não.
NOSSA PARTICIPAÇÃO NOS SEMINÁRIOS:
Nos seminários que fomos indicados para participar, eu e Lenivaldo Marques da Silva Lima de Catende, zona da Mata de Pernambuco, trabalhador de uma cooperativa de massa falida – usina de cana de açúcar. Tivemos 15 minutos para colocar um pouco de nosso trabalho e sobre a organização do Brasil.

SEMINÁRIO PRATICAS INOVADORAS E NOVAS PERSPECTIVAS:

Uma mesa que teve por moderador Marco Arruda e com a participação de cinco painelista.

Este foi o tema do meu seminário que ocorreu no domingo, 18/01, onde discorri sobre o nascimento do FBES e da SENAES que se dá praticamente junto e a participação por estado de três representantes. Citei o que estamos encaminhando neste trabalho como: definição de um marco legal, mapeamento da economia solidária, definição da legalidade da autogestão, lei do cooperativismo, trabalhista, relação com o novo governo, sendo que estes são basicamente nossos desafios para os próximos dois anos, sob pena de este mandato acabar e não conseguirmos avançar na concretização legal da ES.

Falei de nossa organização no Estado com o trabalho do GT que está melhor se organizando e de nosso não conhecimento de quem e quantos somos na ES, a necessidade de concretizarmos o mapeamento pensado. Comentei nosso trabalho mais regionalizado, Florianópolis e Blumenau e do trabalho em Itajaí. Temos dois outros projetos dentro da ES no município o Empório que vende produtos da ES e está começando (levei produtos para mostrar e doar, além de degustarem) do projeto da Fitoterapia, no Imaruí.
A FIO NOBRE:

Dentro de nossa história, pontuei o nascimento do grupo ligado a BRUSCOR, sendo que nascemos do sonho de trabalhar o coletivo e viver economicamente de forma justa, além de situar nosso estado, região e nossa cidade. Citei como nos organizamos dentro da empresa, o que produzimos, como vendemos, nossos princípios e objetivos, rodízio, retirada igual dos proventos, crescimento da consciência e empoderamento do ser dono e gerar seu próprio negócio.


Questionamento deixado para o debate:
Pensar a melhor articulação para viabilizar estas várias iniciativas citadas nesta explanação. Todas são perspectivas novas, com muitos limites e expressão de práticas inovadoras que tem a necessidade de se firmarem para sobreviverem. Temos o desafio de intervir nas políticas públicas mundial, pois é por este caminho que a economia se ordena.
Como juntar a necessidade de sobrevivência dos empreendimentos a construção de uma nova ordem econômica, o comércio justo e solidário, as redes de troca, moedas alternativas para um avanço mais concreto.
Como as assessorias podem trabalhar sem paternalismo, para que estes empreendimentos cresçam coletiva e pessoalmente neste processo, assumindo o protagonismo da história que lhes cabe.
Como juntar a grande necessidade do trabalho de assessoria das entidades e o dia a dia dos empreendimentos, melhorando a comunicação, formação compartilhada, avanço dos limites entre quem pensa e pesquisa e quem produz, mas acaba não teorizando sua pratica. Este seria nosso maior salto neste processo de Um Novo Mundo Possível.
Questionamentos surgidos da Plenária:
Qual a possibilidade dos Clubes de Trocas locais se articularem em rede mundial, a partir de nossa experiência estadual?
Tendo excesso de produção dentro da mesma linha por vários grupos, não acontecerá a disputa por consumidores, nos moldes capitalistas?
Foi respondido dentro que os clubes de trocas existem e são por aqui experiências ainda pequenas, mas que para um intercambio basta que as articulações comecem a existir e as possibilidades apareceram.
Quanto ao excedente, não temos este caso ainda acontecendo, até porque hoje mais ou menos cada empreendimento trabalha dentro de uma linha de produto. Mas que vindo a globalizarmos a ES e a produção tendo excedente, teremos que achar alternativas, pois o processo deverá ser construído dentro do conjunto da ES. Porém o que deverá permanecer é a parceria e o princípio do comércio justo, não cabendo a competição pura e simples nos moldes que conhecemos, caso contrário não estamos construindo nova ordem econômica e solidariedade. Que ES estaríamos construindo então?
De maneira geral foi isso o que tivemos. Houve problemas com a tradução simultânea e tivemos que nos adaptar a tradução direta no grupo, dentro da oficina. O debate aconteceu mais no final entre os presentes, quando os presentes procuram diretamente, por querem discutir e saber mais.
O FSM é um processo gigantesco de reflexão, debates, conhecimento e propostas para avançarmos. Senti a preocupação de maneira geral em avançarmos mais rápido e concretamente no caminho da ES. Muitas diferenças de entendimento e trabalhos existem dentro desta área e unificar um pouco estas definições pareceu –me algo necessário.Ter alguns princípios que possam definir melhor ES, talvez?

Como colocou o painelista Giorgio, temos um papel educacional e formativo, aprendendo com os erros do passado, para propor novas políticas buscando a viabilização de outra alternativa e ordem econômica. Mudar os parâmetros, lutar por direitos humanos básicos dos trabalhadores, além do processo de uma ES. Algo que me chamou a atenção na colocação do painelista da África foi: temos que aprender sobre a cultura da mulher, responsáveis em manter a estrutura vital do povo da África viva. Este com certeza é um grande aprendizado sobre o processo e gênero.

Dentro da ES os problemas de maneira geral são iguais. A sobrevivência dos empreendimentos, o comércio justo, a clareza do processo de uma nova ordem econômica e o desafio de políticas públicas condizentes.

Um questionamento pertinente e de fundamental sua reflexão: ES é resposta ao desemprego? Como colocou Marco em sua explanação “ES nasce do profundo desejo de felicidade, que não poderá existir sem auto-respeito, respeito mútuo e laços de amor entre as pessoas”. Isto está para além dos fatos históricos que compõe este processo de multiplicação de ES e nos leva a refletir mais profundamente sobre que outro mundo possível queremos.

Bem com a participação neste fórum, saído pela primeira vez do país, posso dizer que me enriqueci muito, cresci o suficiente para me desafiar a estudar e me inteirar cada vez mais e me renovei para acreditar que estamos no caminho construindo outro mundo possível.

Muito obrigado pela oportunidade.



Itajaí, 5 de fevereiro de 2004.


Idalina Maria Boni


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