Francisco Murari Pires



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Em nome da Honra

Francisco Murari Pires
The boast of heraldry, the pomp of pow'r

And all that beauty, all that wealth e'er gave

Awaits alike the inevitable hour.

The paths of glory lead but to the grave.

(Thomas Gray, Elegy Written in a Country Churchyard)


Amiúde paga a cidade toda

por um único homem mau

que extravia e maquina desatinos.

(Hesíodo, Trabalhos e Dias)

I

Agamêmnon ...

1. Comando


Príamo, esquadrinhando do alto dos muros de Tróia o exército adversário, reparara também em um guerreiro colossal, que ele deste modo descreve a aparência distintiva porque Helena o identificasse: "quem é este homem guerreiro ele que é um Aqueu tão alto e forte; na verdade outros haverá uma cabeça mais altos, mas nunca com os olhos vi homem mais belo, nem de aspecto tão nobre: pois parece um rei"1. Esse, respondeu Helena, é o Atrida Agamêmnon "de vasto poder, rei excelente e forte lanceiro"2. Os olhos de Príamo, por correspondente perspectiva de identidade régia, não o enganam: percebem os atributos de heroicidade manifestos por Agamêmnon, tais a nobreza e imponência da figura, mais beleza física. Pela aparência de magnífica e respeitável majestade manifesta-se a identidade de Agamêmnon, assinalando sua areté específica.
Agamêmnon, no âmbito do exército aqueu, destaca-se entre todos pela primazia da realeza, firmando superioridade de honra adstrita ao poder régio. Bem o admite Diomedes, que afirma ter-lhe Zeus concedido, pelo "dom do cetro, ser honrado acima de todos".3 Substantivamente o afirmou Nestor ao, em meio à violenta altercação com que dissentiam Agamêmnon e Aquiles, dirigir a este advertências de ordeira obediência porque protestava quais eram os direitos honoríficos respeitantes à areté daquele:

"não procures à força conflitos com o rei, pois não é honra qualquer a de um rei detentor de cetro, a quem Zeus concedeu a glória. Embora sejas tu o mais forte, pois é uma deusa que tens por mãe, ele é mais poderoso, uma vez que reina sobre muitos mais".4

Nestor afirma pleno reconhecimento da areté de Aquiles: ele prima pela excelência de força guerreira por cepa privilegiadamente divina. Tanto mais excepcional valia porque atualizada no presente, então estimado quem "para todos os Aqueus é um forte baluarte na guerra destruidora"5. Não obstante, tal não implica qualquer pretensão de se equiparar a Agamêmnon, disputar com ele reclamando estrita igualdade de privilégios honoríficos. Radicalmente singular e distinta é a timé de um rei cetrado a quem Zeus deu glória. Ninguém mais, seja qual for o valor heróico que sua areté implique, compartilha de uma tal honra. Não lhe cabe, pois, igualdade honorífica. Desse modo Nestor proclama para a timé régia de Agamêmnon uma superioridade absoluta, suprema no âmbito do heróico: tal é sua areté mesma. Justa a ordem, prossegue o argumento do sábio ancião, imposta por Zeus, pois qualificações excepcionais reclamam tal superioridade. A distinção aristocrática de Aquiles é certamente divina, pois remete sua progênie a Tétis. Mas a de Agamêmnon é ainda melhor, já que o princípio de sua autoridade régia alcança a concessão do próprio Zeus! O valor guerreiro de Aquiles é também inestimável, fundado pela excelência de força e coragem individual, condição de desempenho guerreiro. Mas o valor guerreiro que Agamêmnon supõe é também valioso, já que configura a expressão mesma do poderio régio, dada pela extensão de seu domínio: ele é superior, pois sobre muitos reina.

Cabe a Agamêmnon a glória adstrita à timé de um rei cetrado por Zeus, pois "ninguém detém mais realeza do que ele".6


A história desse cetro referenciada à extensão do poderio régio de Agamêmnon, bem a conta o aedo ao narrar a presença do herói na assembléia: "Hefesto o fabricara dando-o a Zeus Cronida soberano", que por sua vez o entregou a Hermes Matador de Argos" porque "o desse a Pélops condutor de cavalos", pelo que deste passou a "Atreu pastor do povo", que ao morrer o deixou para "Tiestes de muitos rebanhos", o qual por fim o legou a "Agamêmnon, rei de muitas ilhas e toda a região de Argos"7.

História concisa, rica de referências condensadas por procedimentos formulares de versificação, a compor verdadeira teia de alusões informativas, dando ensejo a variados exercícios exegéticos em que se emaranham as suposições, eivadas de positivismos, perpetradas pelos críticos antigos e modernos, anotadores escoliastas ou eruditos acadêmicos, mobilizados em dissecar as entranhas filológicas da memória poética.8 Então, memória positiva em sua precisão informativa das (ir)realidades míticas? Por que razão deu Hefesto o cetro a Zeus? Celebrar a fundação de seu poder régio ao destronar Cronos? Que papel desempenha Hermes no encadeamento de transmissão do cetro? Seu efetivo detentor, que o recebera para se assinalar a definição emblemática de sua função de arauto? Ou mero agente-instrumento portador, no desempenho dessa função mesma? E daí, sentido diferenciado ou não daquele singular deu no verso 103, referido à detenção do cetro por Hermes? Conhecimento homérico do feudo entre Atreu e Tiestes, em conformidade com as sugestões induzidas por aquele deixou do verso 106? Implicações alusivas de epítetos formulares? Qual a justeza do título régio de Hermes? Pélops condutor de cavalos a lembrar o excelente cocheiro, vitorioso na corrida de carros em que ganhou Hipodâmia, de nome igualmente sugestivo? Tiestes de muitos rebanhos a lembrar a posse do carneiro de velo dourado que conferia autoridade real? Exercícios de pruridos exegéticos tão argutos quão ociosos de inconclusões.

Inquirições que se desdobram ainda pela identificação das realidades mais propriamente históricas implicadas por aquele intrigante verso - e por muitas ilhas e toda a região de Argos treinar - referenciado ao domínio régio de Agamêmnon. Que extensão territorial designa Argos toda? Argos só, ou antes a Argólida, a também incluir Tirinto, Micenas, e outras localidades? Então, memória poética incoerente, contradizendo-se logo adiante no Catálogo das Naus, em que Argos e Micenas compõem reinos distintos, sob suseranos próprios, Diomedes para o primeiro, Agamêmnon para o segundo? E, agora, ter-se-ia um reino de Micenas dissociado da rica planície argiva, estendendo, antes, seus domínios pela Coríntia e Aquéia? Geografia política condizente com qual época histórica da civilização micênica? Talvez já o declínio ou mesmo fim da Idade do Bronze? E o que entender, então, da posse suserana por Agamêmnon daquelas sete cidades ofertadas a Aquiles, bem situadas já no sudoeste do Peloponeso? E, enigma ainda maior, aquele domínio insular atribuído à suserania de Micenas! As ilhas do Golfo Sarônico: Egina, Caláuria e Hidréia? Mas, fora Egina, centros de relevância histórica na Idade do Bronze Recente? Enigma estarrecedor já para o escoliasta, que propôs dele livrar-se postulando truques de uma denotação metafórica para aquelas ilhas porque referissem apenas cidades argivas. Emaranhado de suposições especulativas, tanto propiciadas em sua automática proliferação quanto condenadas à irresolução pelas elipses silenciosas do dizer da memória.

Mas dizeres poéticos tanto mais intrincados em referenciações informativas quanto as compõe por síntese de toda a sucessão da suserania Pelópida. Foi a Pélops, seu filho, que Zeus deu o cetro régio, por esse modo mítico assim destinando a suserania peloponésia pelo ato simbólico de sua fundação mesma. Não teria, então, a passagem homérica, antes, esta implicação genérica de sentido de mito de fundação da realeza, apenas situada em identidade peloponésia, do que aquela positivamente precisa informação de realidade histórica de um particular reino micênico obstinadamente procurada pelos críticos? Já vários mitos mesopotâmicos igualmente contavam de deuses que atribuem o cetro régio a seus prediletos entre os homens: Entemena por Enlil, Gudea por Ningirsu, Nur-Adad por Nanna, Shalmaneser I por Assur, Tiglat-pileser III por Assur (ou Shamash), Nabu-apla-idina por Marduk ... .9


Tantas histórias ou ingênuas ou, pelo contário, perversas a iludir a (in)consciência dos homens em figurando-lhes a sacralidade do poder!
2. Ifigênia
Tempo em que o astro estelar percorre o céu na trilha das Sete Plêiades, alçado bem ao meio do percurso. É Sirius porque advém a canícula. A natureza cala a noite, não se ouve nem voz de pássaros nem murmuram as ondas do mar. O silêncio dos ventos reina sobre o Euripo.10

Por lá permanecia a frota grega estacionada junto ao canal estreito de Áulida, pronta, há já dias, de partida para a expedição contra Tróia. Enorme armada, profusão beligerante de mil navios, tendas cheias de lanças assassinas e escudos, multidão de cavalos e carros.11 Especialmente, plêiade portentosa de altivos heróis: louro Menelau, nobre Agamêmnon, dois Ájax (Oileu e Telamônio), Protesilau, Palamedes, Diomedes, Meríones, Odisseu, Nireu, Aquiles, Eumelos, Estênelo, Menesteu, Litos, Nestor, Meges. E ainda multidão de guerreiros anônimos, meros infantes de que descuidam os vezos aristocráticos da memória poética inaugurada por Homero12.

Sem ventos nenhum porque partissem, a inação toma os gregos ociosos em espera que se delonga indefinida, paralisada a frota na praia arenosa.13

Consulta ao adivinho, Calcas. A palavra mântica revela o desígnio divino que intrigava a adversidade marítima, dando instrução porque livrasse a travessia: Artemis, a deusa senhorial do bosque sagrado, reclama ali, em oferenda quando da lua-cheia, a imolação de Ifigênia, filha querida de Agamêmnon. Imperativo divino exigido dos homens porque principiasse o êxito ruinoso da guerra que a Grécia movia contra Tróia, proclamando vingar-se de patifes Frígios e levar a Helena, pior das esposas por fugitivas núpcias bárbaras, a sorte que lhe fosse devida.14


Intolerável violência contrária às leis e à justiça, medonho ato, crueldade sem limites, ultraje o mais inaudito e indigno, terrivel decisão de atroz audácia por pai assassino que entrega a própria filha, infeliz criança, ao punhal que lhe corta a alva garganta. Progenitor que dera vida, a tira. Natureza de bárbaro por origem lídia em Sipylos de que provêm, por Tântalo, a linhagem Atrida. Criança que perece antes da hora, privada da doce contemplação da luz diurna de sol refulgente, o mais doce dos bens aos homens, livrada ao Hades em prematura viagem às trevas subterrâneas. Infortúnio desencadeado por amarga visão de sedução amorosa, causa de males, desfechando sacrifício ímpio por pai ímpio: porque Helena retorne salva, Ifigênia se vai perdida. Criança, menina virgem, paga pelo resgate de mulher má, o bem mais precioso por que se compra criatura a mais detestavel.15 Nexos tramados por destino de amores miseráveis que sustentam Páris por predileções de Afrodite. Amores intrigados por desígnios divinos que promovem pastor do Ida a juiz de caprichos femininos de quem fosse a mais bela das Deusas, ou Hera ou Atena ou Afrodite.16
A Discórdia impera entre os homens ... eles a (in)decidem pela(s) guerra(s), feitos do escudo e da lança em obras ruinosas de destruições. Então, nobres discursos de altivos desígnios por altissonantes palavras que (des)dizem atos vis e indignos em os galardoando de ufanismos patrióticos.

Assim, o algoz que manipula o punhal do sacrifício também perfaz a (des)razão da guerra a ditar imperativos de comando como dever cívico: grandioso exército tomado de desejo heróico a lutar pela causa gloriosa da liberdade da Grécia, livrando-a de invasões bárbaras que lhe raptam as mulheres. Assim, a primeira vítima, virgem sacrificada, similarmente figura dizeres de acolhimento da morte gloriosa, ofertando sua pessoa pela causa da Grécia, abençoada por fama perpétua de benfeitora, libertadora e salvadora, a cumprir comunal sacrifício cívico em honra da pátria ultrajada. Discurso que proclama a ordem que decide a sorte das mulheres gregas assimilando valores masculinos, também elas submissas aos desígnios pátrios. Que, pois, se imponha a honra feminina da ordem necessária: a mulher se submeta ao marido, não o odeie, não se revolte contra seus deveres; também a mulher morra pela vida do homem, pois "bem mais um só homem veja a luz do dia do que mil mulheres"; e ainda a humana se curve, não confronte a Deusa, e todas as mulheres cantem piedosos hinos em honra dela, a filha de Zeus, Artemis. Tudo se diz porque a ordem do mundo se dá por pretensões de gregos que comandam bárbaros, dizendo estes escravos, eles, livres.17


A responder por todos esses ufanosos discursos, lá se foi Ifigênia em triunfo sacrificial antecipado pela conquista de Tróia e dos Frígios: bandeirolas que cingem a fronte, tranças coroadas, aspergida por água lustral, e rondas dançarinas mais cantos ao redor do templo e altar da Deusa .. o sacrifício do sangue ... Adeus, querida claridade!.18 Que todos os espíritos conturbados então se acalmem, tranquilizem por resignada (des)consideração da desgraça humana, pois, afinal, todos os males nos vêm pelo destino e os deuses, não é?19
Proclos, gramático erudito bizantino de meados do segundo século de nossa era, transmitiu-nos um resumo do que fora uma outra epopéia, Kypria, composta por Stasinos. Nela se contava a aitia da ira de Artemis, furiosa contra o exército grego. A deusa reagia contra a ofensa hibrística que Agamêmnon cometera ao exaltar feito de flecheiro excelente quando abateu na caça em Áulida uma corça com tiro certeiro, então proclamando: nem a Deusa Arqueira faria igual!
3. Peste
Eram já decorridos dez anos de guerra incessante diante de Tróia, plenos de devastações e mortes, sem que, nem assim, caísse a cidadela. Então Apolo Esminteu, do arco argênteo,

"desce dos cimos do Olimpo, o coração irado, levando aos ombros o arco e a aljava fechada. As setas ressoaram pelos ombros do colérico, quando ele se moveu. E ia semelho à noite. Postou-se longe das naus, disparou uma flecha, e terrível vibrou o arco argênteo. Primeiro atacou mulos e cães velozes, e depois os homens suas setas agudas vieram alcançar. E sempre ardiam as piras dos mortos, inúmeras. E por nove dias caíram sobre o exército as flechas do deus".20


O poeta, instada a lembrança dos acontecimentos a ouvir a voz das Musas, canta a etiologia (iliádica) do que ocorrera porque atuasse a pestilência apolínea.

Certo dia Crises, sacerdote de Apolo, apareceu no acampamento grego. Vinha resgatar a filha, jovem Criseida, então cativa, dada como presente honorífico a Agamêmnon. Para tanto trazia imenso resgate com que atenderia aos justos reclamos materiais que respondessem e recompensassem a honra afirmada do guerreiro vitorioso que a restituiria. E vinha, também, protegido pela autoridade da figura sacerdotal, toda aureolada por vestes e paramentos sacros, a reclamar atendimento piedoso de reverência pela honra apolínea. Lembrança esta que ele bem advertiu no pronunciamento final de sua súplica aos aqueus: "e o resgate recebei, respeitosos pelo filho de Zeus, Apolo que fere de longe".21

A reação imediata dos aqueus todos foi favorável à súplica do sacerdote, reconhecendo a plena propriedade da mesma, pois atendia a devidos preceitos de condignos guerreiros, tão vitoriosos quão piedosos. Mas a Agamêmnon, pessoa a quem duplamente competia aquela decisão (ele detinha a posse de Criseida e era o comandante supremo), o pedido do sacerdote contrariou. Logo o rechassou, desferindo-lhe palavras tão resolutas quanto violentas de ameaças: "Não fiques diante de mim, velho, junto das côncavas naus, nem hoje, demorando-te, nem a depois retornar: que não te sejam inúteis o cetro e as fitas do deus. Mas ela eu não solto, antes a velhice a atingirá em nossa casa, em Argos, longe da pátria, tecendo panos e vindo a meu leito. Vai-te, não me irrites, se queres partir melhor salvo.22

Apavorado, Crises retirou-se. E lá se foi o ancião, caminhando silente pela praia. Em local já bem afastado da presença aquéia, uma prece a Apolo rompeu o silêncio do sacerdote. Primeiro, bem interpelou a atenção divina, apropriadamente nomeando os atributos de sua potestade, sua precípua excelência guerreira, mais a modalidade pestilenta de sua potência: "Escuta-me, arqueiro do arco argênteo, que Crisa ao redor velas e a divina Cila, e que em Tênedos reinas, Esminteu".23 Então reclamou a reciprocidade de favores que o vínculo sacerdotal implica. Lembrando a Apolo os deleites por ele sempre propiciados - o templo, mais os sacrifícios -, suplicou-lhe uma graça em forma de voto: já que os aqueus tinham rejeitado a troca de favores que ele lhes oferecia em proposição de resgate pela filha, que agora, ao contrário, Apolo os fizesse sentir o desfavor divino: Que tuas flechas sejam, para os dânaos, a paga de minhas lágrimas. 24

A desonra injuriosa cometida contra a figura do sacerdote alcançou o poder de Apolo, que ouviu a súplica. À privação da honra devida à potestade, responde consentânea disposição de ânimo: a ira toma o coração do deus, consumando apropriada manifestação fenomênica, e a peste abate o exército aqueu.

Os gregos, vitimados pela pestilência, reunem-se em assembléia. Consulta-se o adivinho, Calcas, sobre as razões da cólera divina. A palavra mântica revela a aitia da ira divina, aludindo ao episódio que desencadeara o furor apolíneo. Aponta o modo de reverter o furor divino: Criseida teria que ser restituida ao pai, o sacerdote, agora sem a contrapartida do resgate, pelo contrário, ainda acrescendo-se a oferenda de piedoso sacrifício de vítimas animais escolhidas.

Nem bem sentara Calcas encerrando a fala, de imediato levantou-se Agamêmnon, a iniciar a sua. Estava indignado, "a ira inundava-lhe a alma negra e de seus olhos lampejavam fogos". Primeiro, descarregou o furor contra o adivinho, reprochando-lhe o ofício, inveterado anunciar de males e infortúnios. Logo declarou a razão pessoal porque recusara o resgate ofertado por Crises, bem dizendo os valores com que apreciava a posse da jovem cativa, tanto nos afazeres domésticos quanto nas lides amorosas. E tão extremado era o apego de seus desejos por ela a ponto de preferi-la a Clitemnestra, que rejeitara aquele resgate, certamente magnífico, mas que, mesmo assim, não ressarciria a privação de uma tal mulher.

E assim Agamêmnon compõe a retórica com que proclama, a seguir, a medida do sacrifício pessoal que ele está disposto a fazer em prol da salvação da comunidade aquéia em restituindo a jovem a Crises: "Mas, mesmo assim, consinto em devolvê-la, se é o melhor, pois quero manter salvo o exército, e não arruiná-lo".25 Por tal atoAgamêmnon afirmava satisfazer o devido comprometimento de sua honra régia, instância de poder responsável pelo bem da comunidade. Mas, consoante aos preceitos de seu ato e condizente retórica, informou também a devida reparação que, consequentemente, reclamava, em contrapartida, da comunidade: "Mas rápido me preparai uma recompensa, para que eu não seja o único dos argivos a ficar sem prêmio, uma vez que não é próprio, pois todos podeis ver que o meu prêmio vai-se embora".26

Aquiles antepôs objeções ao reclamo régio de Agamêmnon. Logo recriminou-lhe a avidez, a cobiça exacerbada por bens, falta de toda a generosidade do desprendimento. Pois, argumentou o herói, de que modo poderia a comunidade atender àquele pedido: todos os despojos tomados ao inimigo já haviam sido partilhados, e não era apropriada sua devolução a repor ova partilha. O dar prêmio a um, assevera Aquiles, supõe dele dispor, o que reclama tirá-lo de outro. A viabilização do dom comunal dá-se por cadeia de posse contra privação. Instaura-se o impasse. Aquiles procurou contorná-lo, prometendo, em nome da comunidade, compensar fartamente Agamêmnon - em triplo, numa partilha vindoura - pela perda de agora.

Mas uma tal promessa não sensibilizou Agamêmnon. Replicou a Aquiles acusando manobra dolosa em seu arrazoado, por ele prontamente desarmada: "queres então, guardando a tua própria recompensa, que eu assim fique privado da minha, ordenando-me a devolvê-la?".27 Há uma astúcia ludibriadora, entende Agamêmnon, na oferta de Aquiles: oculta, dissimula, uma diferença e desigualdade de satisfação de honra guerreira em termos da posse/privação da recompensa que a reconhecesse, pois, em Aquiles, ela fica afirmada, mas, em Agamêmnon, negada. E, a satisfação de sua honra, declara agora Agamêmnon, é a condição impositiva requerida pela concessão de sua ordem régia: só restitui Criseida contra a obtenção de outra cativa, de igual valor, arrebatada seja lá de quem for, dele mesmo, Aquiles, ou de Ajax, ou de Odisseu. Assim Agamêmnon firma o estatuto de sua preeminência: a inadmissibilidade de privação do géras honorífico constitui apanágio de sua condição régia. Qualquer outro herói, que não ele, pode ser o elo final, carente de géras, da cadeia dos dons comunais. Nesse sentido, pois, Agamêmnon deu suas ordens, a encerrar o debate.

O furor irado, agora, apossou-se de Aquiles. Primeiro, lamentou sua sorte guerreira, tão carregada de trabalhos e penares, que finalizam-lhe mais fadigas do que prêmios, bem ao contrário dos privilégios de Agamêmnon, que lhe prodigalizam recompensas contra insignificância de esforço beligerante. Então, ameaçou abandonar o empreendimento bélico contra Tróia, retornando para casa, pois não se dispunha mais a, assim desonrado, ficar provendo, por seus trabalhos, apenas o tesouro do rei. E, quando este, em novo desaforo, provocou-o a que assim fugisse, pouco com isso se importando, pois muitos outros guerreiros valorosos honravam seu séquito, Aquiles foi levado ao paroxismo do ódio. Aprontava já contra Agamêmnon a agressão letal de sua espada, quando Atena, por ordem de Hera, zelosa da boa causa helênica, interveio a suspender-lhe o ato. Recomendou-lhe agredí-lo apenas com insultos, pois sua honra seria bem ressarcida depois, e magnificamente. E, assim, Aquiles reverenciou a ordem da deusa.

Fazendo, pois, valer à força sua decisão, Agamêmnon tomou Briseida, a cativa dada em partilha a Aquiles. E do episódio resultou, portanto, a desonra deste herói, desse modo ofendido e prejudicado pela afirmação da autoridade régia daquele. Furioso, retirou-se para sua tenda, desertando de seu valor guerreiro o campo de combate.

Então, pelo encadeamento das ações de Crises-Apolo, Agamêmnon e Aquiles, o modo épico de memorização sintetiza um padrão histórico que racionaliza a ira heróica como manifestação objetiva da inadmissibilidade da desonra.
Honras divinas mais heróicas ofendidas contra ressarcidas, suzerano que impõe a decisão mais guerreiro maior que se rebela, posses de cativas que entre eles transitam de um para outro ... eis os efeitos divinos da Peste apolínea que dizimara os Aqueus. Mas, quais deles? Os heróis, Agamêmnon, Aquiles, Diomedes, os Ájax, Odisseu, Idomeneu, Nestor ... certamente não, todos (poéticamente) incólumes, a quem as flechas de Apolo não atingem. Vitimam apenas guerreiros outros, sequer nomeados, dados - pelas discriminações do Deus mais poeta que canta deuses, reis e heróis - por de igual sorte que cães e mulos.
4. Máscara
1876, Schliemann pôs-se a excavar na localidade de Micenas onde, segundo a tradição mítica grega, estava sediado o palácio fortaleza de Agamêmnon, comandante das forças gregas contra Tróia. O (suposto) arqueólogo baseava suas expectativas nas informações transmitidas por Pausânias que visitara as ruínas de Micenas por meados do sec. II da era cristã. Em seu relato Pausânias afirma que, em um local no interior do recinto amuralhado, encontravam-se as tumbas, em número de cinco, onde jaziam enterrados Agamêmnon mais os que com ele tinham sido assassinados quando de seu retorno da Guerra de Tróia por sua esposa Clitemnestra conluiada com o amante Egisto. Todavia, Pausânias afirmava expressamente que as sepulturas encontravam-se localizadas no interior da cidadela, dentro da área delimitada pelas muralhas, ou seja, no espaço profano da vivência quotidiana, informe este que não condizia com o que se conhecia dos costumes funerários dos povos antigos, os quais habitualmente enterravam seus mortos, não nesse espaço próximo da área habitada pelos vivos, mas sim em área reclusa, afastada, sagrada, interdita, que não deveria ser contaminada pelas realidades impuras da vida quotidiana. Todos os especialistas que procuraram realizar excavações na área de Micenas antes de Schliemann entendiam que Pausânias se equivocara, concentrando, então, seus esforços e trabalhos de excavação na área exterior ao recinto amuralhado.




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