Francisco Murari Pires



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Quíron, ou a bestial etiologia humana da ciência

Francisco Murari Pires
1. Asclépio
Zeus estava aturdido, tomado de espanto com o que estava se passando entre os humanos. Eis que eles não mais morriam! Uns curavam-se de doenças que lhes devastavam o corpo, ou úlceras brotadas da carne ou ferimentos por bronze luzidio e tiros de pedras ou ardores de verão ou frios de inverno. Outros até mesmo ressuscitavam, voltavam à vida arrancados às garras da morte. Quem? Não se conhece todos os nomes, guardaram-se apenas os de alguns heróis: Capaneu (um dos Sete contra Tebas), (algum) Licurgo, Hipólito (filho de Teseu, que foi para Arícia a lá fundar o culto do rei do bosque consagrado a Diana), Tíndaro, Himeneu e também Glauco (filho de Minos e Pasife).1
Por qual desvio imprevisto e indesejado por Zeus se arruinava assim a justa ordem imposta por ele ao mundo porque os homens fossem mortais? A imortalidade, privilégio e apanágio fundamental e exclusivo dos deuses estaria ao alcance dos humanos que principiavam sua fruição? Por obra de quem?

Um certo Asclépio, pelos romanos dito Esculápio! Ele dominava todos os recursos da arte médica quer por encantos, quer por remédios de bálsamos, unguentos e poções, quer por cirurgias. Especialmente conhecia uma erva de potência revivificante, tratamento por ele empregue a ressuscitar privilegiados heróis que das trevas densas do Inferno à luz bela do dia voltassem2. Aprendera-o de uma serpente. Estava a imaginar como pudesse proceder porque trouxesse de volta à vida o filho de Minos, quando uma serpente subiu pela vara que o médico segurava. Perturbado, Asclépio a matou a bastonadas. Mas outra serpente surgiu portando em sua goela uma erva que depositou sobre a cabeça da primeira ... e as duas fugiram!3 A erva, conhecida apenas pela serpente, continha a essência secreta porque se dá de novo vida aos que, já perdidos em meio ao império das trevas, banhavam-se nas ondas do Flegetonte4! Bastava aplicar devido tratamento tocando pela erva o peito do finado três vezes, igualmente recitando encanto mágico de palavras salvadoras5. Razão porque a serpente foi consagrada a Asclépio em Epidauro. Na gruta lá existente Pausanias pode ainda contemplar a estátua do deus sentado segurando com uma das mãos o cajado, e pela outra sustentando no alto a cabeça da serpente6. Por tais figurações de etiologia mítica a serpente tornou-se, enroscada em bastão, emblema associado à ciência médica dos homens.


Dizem que Asclépio era filho de Apolo, nascido da hierogamia com Corônis. Pelas vicissitudes de seu nascimento por parto operado pelo deus em meio às chamas em que ardia o corpo de sua malfadada mãe7, foi a criança salva e entregue a Quíron para que a criasse e educasse instruindo-a nas artes de que detinha o conhecimento. Fora dele que o filho de Apolo aprendera segredos porque fundasse portentosa ciência médica8 em benefício dos homens a curar suas doenças e mesmo ressuscitar alguns ... ao que parece, só dentre os heróis, pois todos os demais continuavam míseravelmente mortais. De Asclépio descende a linhagem dos médicos por ciência passada já a seus filhos, Macáon e Podalírio, cujas artes de cura favoreceram enormemente o empenho heróico dos aqueus contra Tróia9.

Mas Zeus, indignado por tal afronta que desonrava seu poder soberano, pôs fim àquele distúrbio humano à ordem divina imperante no mundo. Fulminou com o raio o médico ressuscitador, apenas por consideração apolínea transmutando seu destino em estrela fixada no céu.10


2. Quíron
Quíron, preceptor modelar de heróis, os instruía em todas as artes provendo-lhes os segredos por ele conhecidos. Teve sob seus cuidados, além de Asclépio, também muitos outros heróis: Héracles, Peleu e Aquiles, Jasão e Medéio, Acteon, Nestor, Anfiarau, Télamon, Meleagro, Teseu, Palamedes, Odisseu, Menesteu, Diomedes, Castor e Pólux, Macáon e Podalírio, Antíloco, Enéias, Meilanion, mais Aristeu.11
A fortalecer-lhe o corpo e treinar o espírito de Aquiles, adaptou a dieta do herói porque lhe provesse fonte metabólica de vigor, potência agressiva distinguidora de grandeza superlativa. Depreende-se qual fosse esse regime alimentar por projeção de etiologia mítica teleológica em que o télos dos modos beligerantes de Aquiles em Tróia espelhem a arché, aitía dos procedimentos educativos promovidos por Quíron que os prefigurassem.

Uns figuram o regime alimentar12 do herói menino composto por fortificante de coragem e bravura, essência contida em medula e tutano de ursos, leões e outras feras aprisionadas na caça13. Fundamento alimenticio de afinidade divina porque componente constitutivo dos ossos que a partilha prometéica de Mecone discriminou como ítem afeito aos deuses. Em Filóstrato conjuga-se similarmente o complexo de alimentos compondo regime ambrosial e nectáreo configurado por leite, tutano e mel14. Por desdobramento dessas intrigas conjecturais de etiologia teleológica, Lactâncio argumentava o fundamento de condizente etimologia porque se dissesse o nome do herói: A- (alfa privativo, sem) + Chilos (alimento). Por estravagante que fosse a ousadia do arremedo etimológico a desconcertar a razão da ciência filológica moderna, o intento bem assinala a ideía porque a excelência guerreira superlativa de Aquiles figurasse contiguidade de afinidade divina15 também pela alimentação diferenciada em mímesis ambrosial assinalada já por seu nome ("quasi nodrito senza cibo").

Outros supõem similar dieta fortificante de ferocidade, mas identificando-a diversamente, semdo antes composta pelas carnes e entranhas das feras caçadas (leões, ursos, lobos, javalis)16. Especialmente se as toma ao corpo ainda moribundo, estrebuchante dos animais porque se as chupe ou devore cruas, sanguinolentas, a maximizar o proveito de seu vigor que com o avanço da morte se perde. Por princípio de magia homeoptática17 entendia-se a absorção pelo herói do vigor e espírito próprio ou do animal caçado ou de guerreiro inimigo derrotado em devorando-lhe as carnes. Então, em sentido inverso ao do regime alimentício divinizante, agora projeção etiológica de comportamentos herpoicos bestiais, furiosos, de ferocidade, justo como Aquiles manifesta o desígnio ao explodir os intentos de sua cólera contra Heitor moribundo a querer "cortar-lhe a carne e comê-la crua"18. Modos heróicos selvagens que repugnam o senso civilizado manifesto pelo pudor divino de Atena quando presenciou a cena em que Tideu devorava os miolos de Melanipo arrancados de seu cadáver recém morto diante de Tebas. Rejeição por consciência civilizada porque a deusa desistiu de beneficiar aquele herói, até então objeto de seu favor, com o tratamento imortalizante com que, ao baixar ao campo de combate tebano, pretendia distinguí-lo19.
Ensinava todos os modos guerreiros por domínio de armas e demais recursos. Foi ele quem confeccionou a lança de freixo dada em presente de núpcias a Peleu, herança paterna homicida que Aquiles fez valer em Tróia20. Porque o Pelida aprimorasse as virtudes reclamadas pelo domínio da arte militar, adestrava-o em exercícios de caça. Por um lado, contra leões ferozes mais javalis porque cultivasse ânimo corajoso e destemor21, ainda aperfeiçoando a perícia dos arremessos de dardos certeiros. Por outro, em corridas de perseguições de gamos, corças e lebres a dispensar cães e redes porque aumentasse a velocidade dos pés22. Eis, por tal etiologia, a razão teleológica porque Aquiles fosse, já por Homero, dito de pés velozes. Por (alg)um (dos) sofista(s) nomeado(s) Filóstrato(s)23, a concepção descritiva porque se visualizasse a memória pictórica da cena de Aquiles exercitando-se junto a Quíron conjectura, pela conformação física dos membros do jovempernas retas e longos braços), a "prefiguração da grandeza"24 heróica porque então bem aprimorasse velocidade atlética e ainda ornasse graciosa e solta cabeleira25.

Tampouco descuidava Quíron de instruir os heróis na técnica do arqueiro. Especialmente assim se configurou o destino heróico de caçador26 trágico emblematizado por Actéon, justo devorado por seus proprios cães no Cíteron27. Tema privilegiado pela cultura dos pintores modernos que mostra a instrução do jovem Aquiles montado no mestre a dominar o manejo do arco, eleição de tópos pictórico que não deixa de intrigar certa ironia em contraponto com a honra guerreira de acirrado infante homérico que antes combatia por duelos de perto mais em sua coragem e valia superior confiado.


Quíron conhecia também segredos de remédios que curam ferimentos, verdadeiros anestésicos por raiz amarga esfregada sobre a ferida, valioso fármaco de guerreiros ávidos de combates. Ensinou-os a Aquiles, e por este também Pátroclo os aprendeu28. Foi ele quem operou o calcanhar de Aquiles danificado pelo tratamento ao fogo em que a mãe prestimosa, Tétis, intentara tornar invulnerável o filho: substituiu o osso faltante por prótese tirada de um gigante. Diz-se também que foi Quíron quem curou a cegueira de Fênix!29
Também educava os heróis por preceitos éticos porque todos conformassem primor de natureza nobre. Apenas alguns poucos foram-nos preservados.30 Assim inculcava: deveres de oferendas honoríficas aos deuses, Zeus primordialmente, desdobrados por consoante reverência para com os pais31. Também espírito de justiça imparcial promotor de correto juizo que atenta a dialética das (des)razões conflitantes, o que não deixa de comportar perplexidade irônica a considerar-se o comportamento de Aquiles na querela com Agamêmnon no ano derradeiro da guerra aquéia contra Tróia! Mais consciência da pequenez da existência efêmera dos humanos consoante figurativa escala de longevidades naturais dispostas por Zeus ao mundo32.
Instruia também habilidades musicais porque heróis conhecessem canções acompanhadas aos sons da lira com que se distraiam em momentos ociosos33. Também escultor, confeccionou em estátua a mimesis figurativa de Acteon porque iludisse a presença do herói apaziguando a aflição de seus cães pelo dono perdido34.
Conhecia ainda os segredos dos astros tendo elaborado o calendário que orientou a viagem dos Argonautas pelos mares.35 Ainda provido agora por de dons de inspiração mântica anunciou, em relato antecipado de história previsiva a orientar feitos divinos, todos os nexos da hierogamia de Apolo com Cirene tendo por destino a fundação de homônima cidade e advento de Aristeu.36 Também profetizou, justo na cerimônia nupcial de Peleu e Tétis, a glória vindoura do filho (a ser) gerado dessa união, Aquiles, porque assim bem instruisse os pais qual o correto nome heróico a lhe dar37. Por complemento de história profética também aventou Quíron para o próprio herói ainda criança sob sua tutela o interdito que lhe ditava não retornar vivo da guerra38.
Porque Cronos, para viabilizar o acasalamento com a Oceânide Filira em despistando os ciúmes de Rea, assumira a forma de um cavalo, Quíron, gerado dessa união, nascera Centauro, compondo forma humana na parte superior do corpo, e equina na inferior39.
3. Centauros
Héracles partira em mais outra jornada heróica, agora a trazer vivo a Argos o javali que devastava a área de Psophis atacando em investidas a partir de seu antro arcádio no monte Erymanthus. Em meio do caminho, é hospedado pelo centauro Pholos40.

Na refeição de acolhida plena de amabilidades logo se discrimina, entretanto, a divergência de matéria alimentícia que identificava a natureza selvagem do centauro em contraposição à civilizada do herói: este come carne assada, aquele, carne crua!41 Já o vinho, de que um jarro de excelente safra bem envelhecido (presente dado, quatro gerações antes, por Dioniso mesmo) estava guardado na despensa subterrânea da gruta enterrado no chão a esconder o tesouro, era do agrado de ambos igualmente. O herói, ávido por prová-lo, voluntarioso abre a garrafa contra a indecisão de seu hospedeiro hesitante. E os centauros de imediato são imantados de volta para a gruta, já enebriados pelo melífluo aroma que de lá saia tomando fortemente os ares. Porém, uma diferença opõe a fruição da bebida, pois esta é posse de uso comunitário pelos centauros, ao passo que o herói almeja saboreá-la individualmente.



Divergências de costumes em conflito que causam o confronto armado, assinalando mais outras diferenças que discriminam modos de um e outros: civilizados por Héracles, selvagens pelos Centauros. Contra estes que terríveis, "iníquos"42, avançavam ameaçadores, Héracles de pronto lança chuvarada de tições acesos porque os ignaros recuam apavorados e fogem. A estratégia heróica de combate contra inimigos mosntruosos, de força bestial, faz então valer recurso apropriado de armamento artesanal, arco e flechas. Já os Centauros dispõem apenas de "estranhos armamentos", apenas objetos de arremesso naturais, rochas e troncos, porém em "mãos letais" de "combatentes furiosos"43. A força bruta, por gigantesca que fosse neles, é neutralizada, vencida pela eficácia da arma que explora inteligência de artifício evoluído. Fato da arte militar dolorosamente conscientizado pelo Centauro, Folos, que, examinando uma das setas de Héracles, admirava-se que "tão pequeno objeto pudesse destruir tão enormes adversários"44. Nem bem tecera seu comentário ainda eivado de incredulidade, eis que a seta por ele manipulada escorregou-lhe das mãos, fincando em seu pé. Assim pelas flechas de Héracles morreu mais um Centauro, este entretanto hospedeiro do herói que, condoído, sepultou-o lá no sopé da montanha em que morara, agora sua tumba para sempre. A honrar a memória do bom centauro, "amigo de Héracles"45, nomeou-se aquela montanha na Arcádia por Foloe, assim figurando naturalmente pela nomenclatura montanhosa a inscrição glorificadora que o celebrasse46.
Os Centauros, monstros biformes (humana na frente do corpo e do peito para cima contra equina para baixo e parte posterior)47, raça de acendrada selvageria que atuava em tempos primordiais, malfeitores que infestavam montanhas e florestas a assaltar quem por lá se atrevesse a passar48, tomados por instintos lascivos de paixões animais descontroladas (ainda mais quando enebriados pelo vinho), dados a raptos de mulheres objetos de seus desejos49, assim infensos a quaisquer modos ordeiros50, foram eliminados por feitos de Héracles51 mais outros insígnes heróis (Teseu e Piritos52, Atalanta53) em obras civilizatórias. Os que eventualmente escaparam aos massacres heróicos, as Sereias destruiram em sua perversa sede, ali atraídos, imantados pelo poder de cantos fascinantes54. Desde então jazem no Hades torturados por punição de correspondente reversa malignidade. Caso Héracles por lá eventualmente desça a perpetrar ainda outros feitos gloriosos, os antigos adversários, bem aprendida a lição, aterrorizados, fogem o mais longe que podem a evitar a presença do herói que os desgraçara55.
Quíron, também Centauro, dentre eles, entretanto, se diferenciava singularmente por espírito justo e sábio56, "cheio de amor pelos homens"57, especialmente benigno para com os heróis, deles amigo, gentil58, tutor e protetor59.
Um dia Quíron morreu, por ironia ferido por seta como os demais Centauros. Infortúnio de uma história heróica quando Héracles os estava a perseguir. Uma de suas setas atingiu Quíron acidentalmente perfurando-lhe o joelho (ou o pé, por outra versão: pouco importa!) em injeção involuntária do terrível veneno em que o herói as banhara, o sangue da Hidra de Lerna. Sofrimento insuportavel tanto mais angustiante porque infindável, sem o alívio da morte, pois ele fora gerado divino, fruto da união de Cronus com Filira. A compaixão para com o benévolo preceptor heróico, salvou-o daquele destino de infortúnio: Prometeu trocou com ele as essências de seus respectivos destinos, ofertando-lhe seu próprio desfecho mortal porque assumisse a existência eterna daquele. E assim Chiron, desaparecendo, terminou fixado no zodíaco estrelado como constelação de Sagitário60. Lá o vemos, altivo centauro arqueiro, assim heroicamente figurado, a dominar artes de que era mestre, justa razão porque confundiu o espírito do astrônomo antigo, Higino61, que desacreditava tal identificação estelar, pois, dizia ele, "os Centauros não usam setas"!
A figuração que imagina a forma primordial das artes dominadas por Quíron é consoante com a articulação conceitual da definição do centauro que conjuga (con)fusão de humano com animal, justo avançando passo de existência de nível de cultura ainda contígua da natureza agreste62. Habita uma gruta encovada em rochedo no monte Pélion, um "antro rochoso" diz Píndaro63, local de ambiência selvagem. Ali, outrora em tempos das origens, cresciam freixos; já ao tempo de Ovídio são florestas de carvalhos e pinheiros verdejantes que predominam64. Daquela árvore primordial, o freixo, Quíron confecciona a lança de Aquiles, porém em estado bruto, pois é Atena quem burila o polimento e Hefesto quem adapta-lhe ponta de metal65. Também porque a raiz mais erva que cura picada de serpente fosse nativa do Pélion, ganhou o nome de seu antigo médico66. Ao que diz notícia transmitida por Plínio o Velho, nos conhecimentos de Quíron ter-se-iam os primórdios do que posteriormente constituiriam as ciências da botânica e da farmácia67.

As artes dominadas por Quíron comportam fundamento estruturador de domínio e mestria manual68, assim já assinalado pelo próprio nome que identifica tal habilidade: o conhecimento operado com leveza (malakócheira) pela mão em atos e trabalhos (cheírourgía)69. Com Quíron findavam, pois, as artes primordias cujos segredos só ele conhecia, apenas passados aos heróis que tiveram o privilégio de serem seus tutelados, todavia heróis que também desapareceram (e com eles os segredos) para dar lugar aos homens da raça de ferro70.


Mas Prometeu lhe sucedeu, assumindo sua imortalidade71. Ora, mas como, argumenta cético o filólogo moderno72, pode o mito conceber tal troca de (i)mortalidades entre Quíron e Prometeu, pois, afinal, também este último, um Titan, era já e desde sempre de progênie divina, correspondentemente imortal. Pelo que o crítico moderno então resolve o impasse da contradição textual operando a memória mítica por uma cirurgia de filologia exegética decidindo que a acertada troca de (re)implante de (i)mortalidade seria de Quíron com Héracles ... e assim, o filólogo conta ele seu próprio mito a desfazer e refazer o mito antigo definindo quais fossem as figuras dotadas de verdadeiras (i)mortalidades! Mazelas e veleidades do império da (des)razão moderna por imperativos de hermenêutica de cientificidade esclerosada em regras de método porque almeje (re)descobrir a positividade do fato por veracidade apurada porque depurada das escórias que a recobrissem. Empenhos de exegese crítica, todavia, tão mais ociosos quão vitimados por suas próprias (des)razões, com cada solução de um enrosco hermenêutico desdobrando, entretanto, outros novos ainda mais intrincados.73 Bem o disse Karl Rheinhardt, ao deparanr-se com similares procedimentos de análise crítica da Odisséia, então apontando primorosamente as mazelas de tais tipos de concertos exegéticos: “as pessoas recusam insetos apenas para acolher elefantes em suas reconstruções épicas”.74

Justamente o declarou o próprio Titan (pela voz de Ésquilo) quando agrilhoado lá nos píncaros do Cáucaso: "todas as artes aos mortais [vem] de Prometeu"75. Destino de Quíron substituído pelo de Prometeu configura desenlace, pois, intrigante de duas histórias de entidades míticas porque se articule o nexo conceitual que diz a inflexão porque transita a herança de fundação das artes e ciências humanas: modo de conhecimento primordial em favorecimento de heróis via Quíron, histórico em benefício da humanidade via Prometeu. De Quíron preceptor de heróis a intriga da história (mítica) avança para Prometeu benfeitor da humanidade.

4. a bestial etiologia humana da ciência
Pela etiologia mítica que memorizou a figura de Quíron, a bifurcação virtuosa contra viciosa porque obrasse a ciência ou téchne ensinada pelo singular centauro, diz dos modos porque valendo-se de seus conhecimentos atuaram Asclépio e Aquiles. Para Asclépio, Píndaro ponderou por que razão ou móbile intentara ele preservar os humanos da morte: "a ciência mesma deixa-se seduzir pelo ganho. O ouro que reluz na mão tentou também ele, por um salário magnifico, a arrancar à morte um homem que dele fizera já sua presa".76 As mãos cheias de dinheiro, a cobiça o perdera, corrompera sua arte!
Já para Aquiles conta-se a seguinte história.

E os aqueus foram ter em terras asiáticas porque vingassem a afronta do rapto de Helena por Páris que os desonrava. Logo desambarcados puseram-se a devastar e saquear o país. O rei local, indignado com aquela arbitrária agressão que arruinava seu reino, deu-lhes combate a rechassar a invasão de suas terras matando Tersandro filho de Polinices77. Nas vicissitudes do confronto viu-se atacado e perseguido por Aquiles. Fuga atarantada pelo terror bélico com que o Pelida movia sua agressão. O rei enrosca-se nos galhos de um videira, a lança de Aquiles o alcança e fere na coxa manchando com sangue enegrecido o vinhedo78. Mas aquela terra não era Tróia, e sim Teutrânia na Mísia. Terrível equívoco de uma agressão gratuita porque os aqueus desconheciam a justa rota e localização de Tróia. Retornaram, pois, a seus lares, persistindo o impasse de uma guerra honorífica inconclusa, nem mesmo encetada.

Oito anos se passaram. Eis que em Argos, no palácio de Agamêmnon, chega um forasteiro. Por andrajos de mendigo79 mais outros recursos astuciosos com que intenta persuadir a comoção régia do Atrida80 em deveres de hospitalidade, suplica-lhe o benefício de sua cura por insuportáveis torturas de ferimento incurável que um guerreiro aqueu lhe causara oito anos antes quando desembarcaram em seu reino na Mísia. Vinha aconselhado pela palavra apolínea de Delfos: "seria curado quando quem o ferira se fizesse médico, ninguém poderia curá-lo a não ser pela lança mesma que o ferira". Revelou sua identidade: era Télefo, rei da Mísia, filho de Héracles e Auge. Bem familiarizado da geografia de seu reino, conhecia a rota que levava a Tróia. Argumento decisivo porque comoveu a troca de favores entre os reis81. Aquiles que o ferira agora o curaria. O instrumento que causara o dano reverteria o efeito maléfico em benigno, causa de salvação. A lança, que atuara como veneno, valeria então por remédio82, a "esser cagione prima di trista e poi de buona mancia"83.

Não se sabe ao certo como se operou essa cura, por quais específicas modalidades de procedimentos terapêuticos de uma arte ou ciência médica conhecida pelos homens. Uns aventam segredos medicinais de erva aprendida de Quíron, outros diziam que foi pela própria ferrugem raspada da ponta da lança84. Já para o compositor medieval (meados do século XIV), Gilles de Binche, a cura de Télefo pela lança de freixo de Aquiles revelava, por antecipação de dissimulada alegoria própria dos textos do paganismo clássico, os poderes miraculosos do toque da madeira da Cruz porque Jesus redimiria a humanidade85. Cientistas mais recentes, a fundar antropologia evolucionista de métodos comparativos porque ordenavam sequência de estágios epistemológicos da humanidade (magia, religião e ciência), discerniam antes princípios de magia simpática que embasavam primitivas terapias de que nos ficaram resquícios de modos folclóricos86. Similarmente aos poderes de cura empregues por Aquiles, também assim atuavam as gotas do sangue da Górgona que Atena detinha. A deusa as dera de presente a Asclépio e a Erictônio. Ministrada a gota direita, que vertera das veias desse lado do monstro ferido, agia como remédio, obrava cura, até mesmo ressuscitando mortos, agente de salvação. Já aplicada a gota sinistra, vertida pelo lado esquerdo, valia por veneno, causava a morte, agente de perdição.87

Era tal a impressão da eficácia letal da lança de Aquiles que Enéias, quando esteve para defrontar o Pelida nos plainos de Tróia88, manifestou tal admiração estarrecida a ponto de (des)entender o fato dizendo formulação metafórica que ambíguamente fazia (con)fundir a perícia de seu manejo pelo guerreiro com a dinâmica mágica da arma mesma: "de si proprio voa o seu dardo, que não desiste até que penetre a carne de um homem". Essa lança, não se sabe ao certo por qual misterioso peso, formato e tamanho excepcional, inviabilizava seu manejo e emprego bélico por qualquer outro guerreiro que não fosse Aquiles, nem mesmo por Pátroclo que, entretanto, foi combater Heitor com as demais armas do amigo. Atributo de um armamento comportando valia de distinção heróica, como que dotado de misterioso automatismo de discriminação mágica entre os guerreiros, similar a como dizia outro mito reportando-se à espada fincada na pedra que só por Arthur fosse arrancada. Por uma ou outra razão de causalidade determinante - ou ciência militar do herói ou potência mágica da lança - porque os desígnios da retórica guerreira de Enéias resguardassem a impoluta coragem heróica de sua, entretanto, conflitante (in)disposição belicista diante de Aquiles, é pelas artes de Quíron que o Pelida as fruia.

Tal foi a maravilhosa cura obrada pela lança de Aquiles. Não se conhece nenhuma outra história porque Aquiles assim atuasse pela direita a potência salvífica de sua arte médica em obra humanitária, benigna.


Porque Télefo fora curado por Aquiles assim desfazendo o impasse do desconhecimento da rota para Tróia89, os aqueus acertaram o caminho para lá conduzindo a carnificina da guerra. Entre eles presente o Pelida com sua lança mortífera, como bem o previra o astucioso Ulisses que viera buscá--lo em seu escoderijo na ilha de Sciros: "é a ti que Pérgamo aguarda para sucumbir"90. Então atuando pela esquerda, via sinistra porque fizesse valer o poder assassino de sua lança, incontáveis foram as vítimas em dez anos diante de Tróia. Tudo o herói obrou, quer aquela singular cura quer todas as consequntes multiplicadas mortes, pelo êxito da honra guerreira porque apenas uma vida salva tivesse por perversa finalidade a miríade de perdas humanas, massacres homicidas que a guerra opera.

Por guerras e mais guerras os homens atuam sinistros em nome (dos interesses) da honra!

4. Artes mais Ciências: os destinos da condição humana
Outubro de 1957, o Sputnik em órbita terrestre. Hannah Arendt, maravilhada pelo evento, apreende o fascínio pela e na reflexão do discurso. O fascínio do evento consiste em assinalar marco de princípio, ato inaugural, início, começo de uma outra realidade da vida humana situando nova era: “O primeiro passo para libertar o homem de sua prisão na Terra”.91

O lançamento do Sputnik dispara o movimento de projeção da vida humana no espaço. O que, enfocado pela face reversa, implica a saída da Terra enquanto o lugar do viver humano. O homem, agora, liberta-se de uma de suas prisões, um de seus grilhões que, até então, constituía condição necessária do seu viver: o homem liberta-se da Terra enquanto o habitat exclusivo da vida humana. O viver humano pode deixar de supor a Terra como lugar de existir. A Terra pode deixar de ser condição da humanidade.

Mas a Terra sempre foi a própria quintessência da condição humana, e, ao que sabemos, sua natureza pode ser singular no universo, a única capaz de oferecer aos seres humanos um habitat no qual eles podem mover-se e respirar sem esforço nem artifício.92 Projetar a vida humana no espaço, para fora da Terra, implica a necessidade de outro homem, de um homem futuro cuja natureza, cuja constituição de organismo vivo, não fique mais circunscrita às condições (im)postas pela natureza terrena. Mas essa criação do homem futuro, essa produção de uma nova natureza humana constituindo uma outra modalidade de organismo humano vivo, já está também em curso graças a outra conquista da ciência moderna, graças a outro feito libertador da tecnologia científica. Trata-se da artificialização da própria vida humana, esse feito tecnológico da engenharia genética.93

A geração criadora de vida, esse último refúgio que a natureza ainda mantém no homem, esse último ponto de contato do homem com o mundo animal (o fato natural da reprodução sexuada), passa, agora, a ser um produto artificial: a vida não mais como algo que nos foi dado, propiciado, posto e imposto pela natureza, mas antes algo criado, produzido inaturalmente pelo homem. O homem é agora Deus: não mais somente agente reprodutor da vida humana dada naturalmente, mas agente gerador, criador de vida.

E há ainda outra conquista do moderno saber científico, outro feito potencialmente libertador da moderna tecnologia científica - o advento da automação no âmbito da produção:

"Mais próximo e talvez igualmente decisivo é outro evento não menos ameaçador: o advento da automação, que dentro de algumas décadas provavelmente esvaziará as fábricas e libertará a humanidade do seu fardo mais antigo e mais natural, o fardo do trabalho e da sujeição à necessidade. Mais uma vez, trata-se de um aspecto fundamental da condição humana".94

Com a automação da produção consumada pelo movimento de industrialização na modernidade, o trabalho humano, desenvolvendo ao máximo suas capacidades produtivas, termina por negar-se a si mesmo, termina por abolir a sua própria necessidade.95
Ora, mas os progressos da ciência moderna e seus feitos tecnológicos constituem um movimento de dupla face em termos da efetividade que ele pode produzir ou desencadear: trata-se de um movimento tanto potencialmente positivo quanto negativo. A ciência moderna tanto pode ser efetivada enquanto instância geradora de vida humana, enquanto instância criadora do homem novo, quanto, pelo contrário, igualmente “destruidora, aniquiladora de toda forma de vida orgânica da Terra”.96 Tal é o dado angustiante posto pela física atômica para o nosso viver quotidiano.

O saber que a ciência moderna constitui pode ainda ser tanto agente de libertação do homem quanto, pelo contrário, instância aprisionadora, escravizadora do homem, que o oprime e nega enquanto agente determinante que comanda suas próprias ações, a sua própria prática:

"O problema tem a ver com o fato de que as verdades da moderna visão científica do mundo, embora possam ser demonstradas em fórmulas matemáticas e comprovadas pela tecnologia, já não se prestam à expressão normal da fala e do raciocínio...Ainda não sabemos se esta situação é definitiva; mas pode vir a suceder que nós, criaturas humanas que nos pusemos a agir como habitantes do universo, jamais cheguemos a compreender, isto é, a pensar e a falar sobre aquilo que, no entanto, somos capazes de fazer. Neste caso, seria como se o nosso cérebro, condição material e física do pensamento, não pudesse acompanhar o que fazemos, de modo que, de agora em diante, necessitaríamos realmente de máquinas que pensassem e falassem por nós. Se realmente for comprovado esse divórcio definitivo entre o conhecimento (no sentido moderno de know-how) e o pensamento, então passaremos, sem dúvida, à condição de escravos indefesos, não tanto de nossas máquinas quanto de nosso know-how, criaturas desprovidas de raciocínio, à mercê de qualquer engenhoca tecnicamente possível, por mais mortífera que seja".97

E ainda a ciência moderna pode tanto realizar, consumar, as aspirações mais arraigadas do viver humano, tornar realidade seus sonhos mais desejados - a libertação do trabalho -, quanto, pelo contrário, esvaziar totalmente o sentido do viver humano, tornar a vida humana algo inócuo, frustrante, sem valor e sublimação:

"A era moderna trouxe consigo a glorificação teórica do trabalho, e resultou na transformação efetiva de toda a sociedade em uma sociedade operária. Assim, a realização do desejo, como sucede nos contos de fadas, chega num instante em que só pode ser contraproducente. A sociedade que está para ser libertada dos grilhões do trabalho é uma sociedade de trabalhadores, uma sociedade que já não conhece aquelas outras atividades superiores e mais importantes em benefício das quais valeria a pena constituir essa liberdade...O que se nos depara, portanto, é a possibilidade de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho, isto é, sem a única atividade que lhes resta. Certamente nada poderia ser pior.98

Assim, o momento presente, atual, posto pela modernidade para o viver humano, é crucial: está em jogo o futuro da vida humana. E também momento angustiante porque polos exatamente opostos, mutuamente negadores, descortinam-se para o homem do presente como alternativas igualmente possíveis de equacionar seu destino futuro: as opções de nossa decisão oscilam entre criação e geração do homem novo, ou destruição e aniquilação, desaparecimento total; entre libertação ou escravização do homem; e entre realização consumadora das mais sonhadas aspirações do viver humano, ou esvaziamento e frustração do sentido e valor desse viver.

Por qual via, sinistra contra direita, a fazer valer os conhecimentos da ciência mais téccnica, segue agora o destino da humanidade?
Ou por Quíron ou por Prometeu, a nomenclatura mítica dissimula na denominação do objeto Ciência mais Técnica o Homem por sujeito da ação e obra que segue via ou virtuosa ou viciosa. Quem decide por qual vereda aberta pelas descobertas das ciências e artes avança e progride a história? O homem, que faz valer as technai que sua ciência apreende em obras portadoras ou de prosperidade ou, justo ao contrário, de ruína humana!

Ilimitada potência de obras ou demiúrgicas ou, pelo contrário, destrutivas, por inteligência humana maravilhosa porque benévola, civilizada e humanitária ou, pelo contrário, magnífica porque maléfica, selvagem e monstruosa, duplicidade semântica conjugada em bestial pelo que representa a fígura mítica de Quíron, e que também comparece similarmente em deinós a assinalar o que é terrível e formidável, medonho e sublime99, pelo que diz a declaração com que Sófocles celebrou as realizações alcançadas pelo saber humano na Antígona: por todas as artes e ciências civilizatórias, "de tudo o mais formidável/terrível é o homem"!



1 Os informes referentes aos mitos de Asclépio derivam de: Píndaro, Píticas III.38-69; Apollodorus, The Library III.3.1; Hyginus Fabulae 49; Hyginus, L'Astronomie II.14.5; Pausanias, Description of Greece II.26-28; Virgílio, Eneida VII.761-782; Ovide, Fasti: III.263-275 e VI.735-762; Ovídio, Metamorfoses XV.530-534; Properce, Élégies II.1.61-62..

2 Virgílio, Eneida VII.773-775.

3 Em variante mítica transmitida por Ovídio (Fastos VI.750-755), a descoberta da essência herbívora de potência ressuscitadora conhecida pelas serpentes é associada ao adivinho Polyidos (Multiciente).

4 Ovídio, Metamorfoses XV.530-531.

5 Ovídio, Fastos VI.753-754.

6 Pausanias II.27.

7 Confira-se o ensaio

8 Píndaro, Neméias III.54-55.

9 Homero, Iliad: II.729-732, IV.190-197 e XI.833-836.

10 Pind. Pyth. III.38-69; Higino, Astronomia II.14.

11 Xenofonte, Cinegética I.2; Homero, Ilíada IV.219; XI.831-832; Píndaro: Píticas e III.45, IV.100-103, VI.20-23, Neméias III.52-63; Hesíodo, Teogonia 1000-1002; Pausanias, Description of Greece II.3.9; Apollonius Rhodius, Argonautica II.510; Apollodorus, The Library III.4.4; Teócrito XIII.9.

12 Confira-se especialmente o artigo de D.S. Robertson (1940: 177-180).

13 Apollodorus, Bibl. iii. 13. 6; Scholia on Homer, Iliad, xvi. 37; Boccaccio, Genealogia deorum, Achille figliuolo di Peleo, che generò Pirro.

14 Imagines II.2.

15 Especialmente pelo episódio em que Atenas esfrega-lhe no peito a ambrósia porque o herói dispensasse os alimentos humanos que restauram forças antes do combate. Confiram-se nossos comentários em Mithistória (Murari Pires, 1999: 158).

16 Apollodorus, Bibl. iii. 13. 6; Statius, Achill. ii. 83-106.

17 Assim conceituada por James George Frazzer (Robertson, 1940: 177).

18 Homero,, Ilíada, XXII.347.

19 Apollod.Bibl. iii. 6. 8; Statius, Thebaid VIII.716-766.

20 Homero, Ilíada XVI.140-144; Píndaro, Neméias III.63.

21 "Chiron élevait Achille, cet enfant sublime, en développant, par les exercices approprieés, tous les instincts de son grand coeur afin que, conduit sur les murs de troie, où résonne le fracas des lances, par le souffle des brises marines, il afffrontât le cri de guerre des Lyciens, des Phrygiens et des Dardaniens, et qu'engageant la bataille avec les Ethiopiens porteurs de javelots, il s'obstinât à vouloir que ne revint plus en son pays leur chef, l'impétueux cousin d'Hélénos, Memnon" (Pindare, Neméennes III.53-63).

22 Píndaro, Neméias III.43-52; Philostratus, Imagines II.2

23 Da II Sofística de tempos romanos imperiais por meados do século III d.C. Para a confusão reinante na discriminação dos distinto Autores referidos por essa onomástica (pelo menos três, senão quatro Filóstratos!) vejam-se as indicações dadas por Tim Whitmarsh (1999: 143-144).

24 Leader (2000: 423).

25 Philostratus, Imagines II.2.

26 Opiano (Cynegetica 2.5-29) atribui aos Centauros a invenção da caça, porém figurada em estágio totalmente primitivo, pois dada por ação antes caótica, (desordenada, casual, despropositada, que tem por móbile apenas preenchimento de ócio, assim desdobrado em oxímoro de (in)atividade. Por Quíron, são já os primórdios das técnicas do arqueiro que são apreendidas.

27 Apolod. III.4.4.

28 Homer, Iliad: IV.217-219, XI.828-832 e 844-848.

29 Apollodorus, Thhe Library III.13.8; Properce, Élégies II.1.60.

30 Confiram-se os reduzidos fragmentos memorizados como Os Preceitos de Quíron (Hesiod, 1967: 73-75). Emmet Robbins adverte sobre o caráter secundário, sobreposto desta ordem de ensinamentos atribuídos a Quíron (1993: 15).

31 Píndaro, Píticas VI.19-27.

32 Gralha que sobrevive por nove gerações de homens velhos, veado por quatro de gralhas, corvo por três de veados, fênix por nove de corvos, e ninfas filhas de Zeus por dez de fênices.

33 Homero, Ilíada IX.185-191; Ovide: Ars amatoria I.11-12; Fastos V.385-386.

34 Apolod. III.4.4

35 Ingman 1982: 217.

36 Píndaro, Píticas IX.29-70.

37 Eurípides, Ifigênia em Áulida 1058-1079.

38 Horace, Épodes XIII.110-18.

39 Apollonius Rhodius, Argonautica II.1231-1241; Philostratus, Imagines II.2; Pherekydes 3F50; Sófocles, Traquínias 714-715; Apollodorus, The Library II.5.4 e II.5.11; Diodorus of Sicily IV.12.3-8).

40 Apollodorus, The Library II.5.4; Diodorus Siculus, Library of History IV.12.3; Pindar, Fragment 166 (trans. Sandys) (Greek lyric C5th B.C.)

41 Confira-se também Theognis, Fragment 541.

42 Philostratus the Younger, Imagines 16.

43 Quintus Smyrneus, Fall of Troy, VI.271--282; Hesiod, Shield of Heracles 178 ff; Apollonius Rhodius, Argonautica 1. 58 ff; Pseudo-Hyginus, Fabulae 14. Já a versão apresentada por Diodoro Sículo (IV.12.3) associa também aos armamentos dos Centauros uma espécie de machado empregue para matar bois, e ainda os arremessos de tições acesos. Em contraposição não é associada a Héracles a atuação de arqueiro, a pois caracterizar figura mais enobrecedora de guerreiro franco, aberto, que combate por méritos inerentes de virtudes de força e coragem, então equiparadas à dimensão da portentosidade bestial dos Centauros.

44 Apollodorus, The Library II.5.4.

45 Diodorus Siculus, Library of History IV.12.3.

46 Diodorus Siculus, Library of History IV.12.3.

47 Paus. v. 19. § 2; Paus. v. 10. § 2; Plin. H. N. xxxvi. 4; Pindar, Pythian Ode 2. 33 ff; Diodorus Siculus, Library of History 4. 69. 4; Philostratus the Elder, Imagines 2. 3; Callistratus, Descriptions 12;

48 Diodorus Siculus, Library of History 4. 69. 4.

49 Homer, Odyssey 21. 293 ff; DS IV.12.3; Diodorus Siculus, Library of History 4.69.4; Aelian, Historical Miscellany 13. 1; Pseudo-Apollodorus, Bibliotheca 3. 106; Pseudo-Apollodorus, Bibliotheca E1. 21. Eliano (Varia Historia 13.1), dispondo-se a figurar rito de cortejo nupcial intentado pelos Centauros, concebe-o apenas como travestimento caricatural que jamais perde a brutalidade selvagem dos modos que lhes são inerentes.

50 Theognis, Fragment 541; Diodorus Siculus, Library of History 4.69.4.

51 Ovid, Metamorphoses 9. 190-191;

52 Homer, Iliad 1. 261 ff; Homer, Iliad 2. 742; Hesiod, Shield of Heracles 178 ff; Pseudo-Apollodorus, Bibliotheca E1. 2; Diodorus Siculus, Library of History 4.69.4; Strabo, Geography 9.5.12; Strabo, Geography 9.5.19; Pausanias, Description of Greece 1.17.2; Pausanias, Description of Greece 5.10.8; Plutarch, Life of Theseus 30. 3; Ptolemy Hephaestion, New History Book 3 (summary from Photius, Myriobiblon 190); Pseudo-Hyginus, Fabulae 14; Pseudo-Hyginus, Fabulae 33; Valerius Flaccus, Argonautica 1. 130 ff; Valerius Flaccus, Argonautica 3. 65 ff; Ovid, Metamorphoses 12. 210 ff; Statius, Thebaid 6. 535 ff.

53 Pseudo-Apollodorus, Bibliotheca 3. 106; Callimachus, Hymn 3 to Artemis 220 ff; Aelian, Historical Miscellany 13. 1.

54 Lycophron, Alexandra 648-657; Ptolemy Hephaestion, New History Book 5 (summary from Photius, Myriobiblon 190).

55 Seneca, Hercules Furens 773 ff

56 Honero???; Ov. Fasti V.379-384; Philostratus Imagines II.2; Statius, Achilleid II. 9?.

57 Pind. Pit. III.1-5.

58 Statius, Silvae, 2.1.87–91, 96–98.

59 Pseudo-Apollodorus, Bibliotheca 3. 16.7.

60 Ingman 1982: 217

61 Pseudo-Hyginus, Astronomica 2. 27.

62 Confiram-se as indicações dadas por Guillaumme-Coirier (1995: 113).

63 Neméias III.53-55.

64 Ov. Fasti V.379-384.

65 Cypria 5, Loeb p. 497.

66 Aston (2006: 357).

67 Pliny NH VII.57 (Bostock-Riley 1855 p. 224). Confira-se: Vons (2001: 502-504).

68 Confiram-se as referências dadas por Emmet Robbins (1993: 12-13).

69 Pelo filme de Eliana Caffé "Kenoma", é a mão que pensa!

70 Xenofonte, Cinegetica I.3.

71 Gantz (v. 1, p.43, p. 147 e p. 392) intenta concertar as contradições das memórias míticas respeitantes à troca de (i)mortalidades entre Quíron e Prometeu, pois, afinal, argumenta o crítico, este último era já e desde sempre de progênie divina, também imortal. Resolve o impasse de hermenêutica por filologia exegética decidindo que a acertada troca seria de Quíron com Héracles ... e assim conta ele seu próprio mito a refazer o mito antigo definindo quais fossem as figuras dotadas de verdadeiras imortalidades! Mazelas e veleidades do império da (des)razão moderna por imperativos de hermenêutica de cientificidade esclerosada em regras de método porque almeje (re)descobrir a positividade do fato por veracidade apurada porque depurado das escórias que a recobrissem. Empenhos de exegese crítica, todavia, tão mais ociosos quão vitimados por suas próprias (des)razzões, com cada solução de um enrosco hermenêutico, desdobrando, entretanto, outros novos mais intrincados (confiram-se nossos comentários no ensaio Leões Alados e Círculos Triangulares).

72 Gantz (1993: v. 1, p.43, p. 147 e p. 392).

73 Confiram-se nossos comentários no ensaio Leões Alados e Círculos Triangulares (Mithistória, 1999: ).

74 “people balk at insects only to accept elephants in reconstructed epics” (The Adventures..., p. 111. Confira-se uma similar crítica a certos desvios de hermenêutica exegética apontados por Christine Sourvinou-Inwood (Reading Greek Death, p.13): “There is no evidence whatsoever in favour of such hypotheses, which are simply projections of what appears to some scholars to be the logical way of making sense of frgamentary data - a perception inevitably dependent on culturally determined implicit assumptions:.

75 Ésquilo, Prometeu cadeeiro 506.

76 Pind. Pyth. III.54-57.

77 Davies (2000: 8).

78 Pindare, Isthmiques VIII.49-50; Apollod. Epitome III.17-18.

79 Aristófanes, Acarnenses 430- ; Apollodorus, Epitome III.20.

80 Com direito, ao que diz Higino (Fabula 101; confira-se também o scholion a Aristófanes, Acarnenses 332: Csapo, 1990, p. 42), a conselho dado por Clitemnestra porque tomasse Orestes do berço e ameaçasse matá-lo diante do próprio pai! Persuasão de astúcia, entretanto, algo duvidosa pelo que revelaria o comportamento paterno do comandante aqueu quando de similar situação envolvendo Ifigênia em Áulida!

81 Apollod. Epitome III.20. Para a atuação de Odisseu no episódio a mover Aquiles a atender o pedido de Télefo (assim figurado pela versão de Higino, Fabula 101), vejam-se os comentários de Malcolm Davies (2000: 8-10).

82 Properce, Élégies II.1.57-70.

83 Dante Alighieri, Divina Commedia Inferno, XXXI.4-6.

84 Plínio NH: XXV.19 e 42, XXVI.12, e XXXIV.45 e 152; Hyginus Fabula 101; Apollodorus, Epitome III.20; Properce, Elegies II.1.63-64; Ovid, Ex Ponto II.2.26.

85 Confiram-se as análises de Andrew Kirkman e Philip Wheler (1990: 577-581)).

86 Assim o argumenta James George Frazer em sua nota ao texto de Apolodoro: a cura do ferimento pela aplicação de ferrugem da arma que o causou não é para ser explicada nos termos propostos por Plínio (alguma propriedade medicinal inerente à ferrugem como tal, pois nesse caso qualquer lança serviria): claramente é remédio baseado em princípio de magia simpática. Similarmente Iphiclus foi curado de impotência pela ferrugem da mesma faca que causara a enfermidade. O remédio proverbial para curar mordida de cão, aplicar na ferida o pelo do cão, mas não o de qualquer um, e sim apenas o pelo daquele que mordeu (Frazer, nota Apollod. Epitome III.20: v. III, p. 188-191).

87 Apollodorus, The Libbrary III.10.3; Euripides, Íon 999-1005.

88 Homero, IIlíada XX.87-102.

89 Cypria (Proclus, Chrestomathia 1), Hesiod and Homerica 1967, p. 493; The Little Iliad (Eustathius on Homer, Il. 326), Hesiod and Homerica 1967, p. 513.

90 Ovíde, Les Métamorphoses XIII.171-172.

91 Hannah Arendt, A Condição Humana, p. 9.

92 Idem, ibidem, p. 10.

93 Recentemente, a ciência vem se esforçando por tornar artificial a própria vida, por cortar o último laço que faz do próprio homem um filho da natureza. O mesmo desejo dde fugir da prisão terrena manifesta-se na tentativa de criar a vida numa proveta, no desejo de misturar, sob o microscópio, o plasma seminal congelado de pessoas comprovadamente capazes, a fim de produzir seres humanos superiores e alterar-lhes o tamanho, a forma e a função; e talvez o desejo de fugir à condição humana esteja presente na esperança de prolongar a duração da vida humana para além do limte dos cem anos (Idem, ibidem, p. 10).

94 Idem, Entre o Passado e o Futuro, p. 12.

95 Idem, ibidem, p. 45.

96 Idem, ibidem, p. 11.

97 Idem, ibidem, p. 11.

98 Idem, ibidem, p. 12-13.

99 Castoriadis (2001: 1149-150).


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