Francisco Murari Pires



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Figurações Heróicas

(fragmentos e apontamentos incompletos)



Francisco Murari Pires
Adonis
i. nascimento
No palácio do rei da Síria (ou da Assíria1 ou ainda de Chipre), por várias noites seguidas o rei une-se secretamente em seu leito envolto na escuridão da noite com uma jovem em loucura de amor, o rosto velado e identidade apenas aludida de pertença a família rica ao que lhe assegurara a velha ama palaciana. Mais uma noite o rei entrega-se àquela união, mas não contendo mais o desejo de contemplar a beleza juvenil de sua amante, abruptamente ilumina o quarto. Aterrorizado, toma a espada com intentos assassinos. A jovem, apavorada, foge escapando da morte. Quem eram? Qual a razão do pânico? Pai e filha, perpetrando incesto! Ele nomeado Tías ou Cíniras, ela Esmirna ou Mirra2.

A interdição da união incestuosa é também fator de inviabilização de destino heróico a reclamar a eliminação do fruto assim concebido em transgressão. Consumado o ato, a filha incestuosa é objeto da ira paterna por perseguição implacável. Por nove lunações em que se renova a crescente, a incestuosa amante vagou perdida pelos campos da Arábia fértil em palmeiras. Sem forças mais para suportar o transporte do fardo que gestava, parou na terra dos Sabeanos. Angustiada por seu infortúnio, dirigiu suplicante pedido aos deuses: "não quero mais macular os vivos permanecendo neste mundo, nem morta os que não são mais; que eu seja banida de um e outro império; um novo ser a quem sejam interditos a vida e a morte"3. Nem bem falava a prece e já se transmuta todo seu ser: "unhas dos pés fendidas ramificando-se em raízes que fincam na terra, corpo já de tronco de árvore por ossos amadeirados, sangue que vira seiva, mais braços estendendo grandes ramos e os dedos, pequenos ... afinal pele que endurece em casca"! E a árvore pare a criança que Esmirna gestava, rebentando uma fenda que entreabre a saída. Nascera Adônis, fruto gerado em parto da mirra! Diz-se que a resina que a árvore distila nada mais é do que as mornas lágrimas preciosas vertidas pela dolorosa mater.4


ii. areté
Por heroicidade distintiva, marca de areté (excelência), Adonis vale pela beleza superlativa, agente de irresistível poder sedutor. O feito grandioso que então consubstancia seu destino heróico: amante de Afrodite, seu parceiro humano, (i)mortal. Quer se nomeie a Deusa Astarte ou Citeréia ou Vênus ou Afrodite, a natureza de Adonis finaliza o amor consubstanciado em hierogamia5. Os elos de sua genealogia heróica conformam a via desse destino, tendo por origem ancestral a união de Hermes com Herse de que nasce Céfalo, por sua vez acasalado com Aurora a gerar Títono, também ele amante desta mesma Deusa6.

O destino heróico de Adônis o situa, pois, sob signo e honra do poder de Afrodite. Etiologia e teleologia de seu mito configuram atos que determinam princípio e fim de existência articulados pelos desígnios da Deusa: por seu poder moveu ela a paixão enlouquecida de Esmirna por Ciniras7, de que nasceu Adônis porque a Deusa o tivesse por amante. E o amor de Afrodite selou vida e morte do herói. Pois, único outro acontecimento que se conta de Adonis diz já o desfecho trágico de sua história: ao ensejo de malfadado episódio de caça a um javali8, foi o filho de Esmirna abatido pela fera9. Fim ruinoso do mito de Adonis que sela a plenitude do poder de Afrodite Apostrophia, identidade qualificadora da deusa a ser aplacada por causa de "mortais que não rejeitam", antes cedem a, "paixões ilegítimas em atos pecaminosos". Assim no santuário de Tebas a tríade estatuária da Deusa consagrada por Harmonia incrimina os amores de Ciniras, de Fedra e de Tereu10.

No instante em que Adonis agonizava ferido pelo javali, Afrodite, em seu "elegante carro alado por cisnes", atravessava os ares na direção de Chipre. Alcançaram-lhe "os gemidos lutuosos" do amante. De imediato, virou o jugo da parelha das "aves nevosas para lá"11. Principiava por Afrodite o Lamento de Adonis porque se narrasse a aitia mítica a finalizar a teleologia ritual que teve historicamente por denominação Festival da Adonias instituído pela Deusa por estas palavras: "Memorials of my sorrow, Adonis, shall endure; each passing year your death repeated in the hearts of men shall re-enact my grief and my lament"12.

Encenava-se ritualmente o lamento lutuoso mais enterro (da estátua homônima, adonion) de Adonis13.

Eis os versos do canto concebido pelo poeta alexandrino Bíon que atualizava em narrativa a mímesis ritual do gesto modelar da Deusa:

"I cry woe for Adonis and say The beauteous Adonis is dead; and the Loves cry me woe again and say The beauteous Adonis is dead. Sleep no more, Cypris, beneath thy purple coverlet, but awake to thy misery; put on the sable robe and fall to beating thy breast, and tell it to the world, The beauteous Adonis is dead. Woe I cry for Adonis and the Loves cry woe again. The beauteous Adonis lieth low in the hills, his thigh pierced with the tusk, the white with the white, and Cypris is sore vexed at the gentle passing of his breath; for the red blood drips down his snow-white flesh, and the eyes beneath his brow wax dim; the rose departs from his lip, and the kiss that Cypris shall never have so again, that kiss dies upon it and is gone. Cypris is fain enough now of the kiss of the dead; but Adonis, he knows not that she hath kissed him. Woe I cry for Adonis and the Loves cry woe again.

Cruel, O cruel the wound in the thigh of him, but greater the wound in the heart of her. Loud did wail his familiar hounds, and loud now weep the Nymphs of the hill; and Aphrodite, she unbraids her tresses and goes wandering distraught, unkempt, unslippered in the wild wood, and for all the briers may tear and rend her and cull her hallowed blood, she flies through the long glades shrieking amain, crying upon her Assyrian lord, calling upon the lad of her love. Meantime the red blood floated in a pool about his navel, his breast took on the purple that came of his thighs, and the paps thereof that had been as the snow waxed now incarnadine. The Loves cry woe again saying “Woe for Cytherea.”

Lost is her lovely lord, and with him lost her hallowed beauty. When Adonis yet lived Cypris was beautiful to see to, but when Adonis died her loveliness died also. With all the hills ‘tis Woe for Cypris and with the vales ‘tis Woe for Adonis; the rivers weep the sorrows of Aphrodite, the wells of the mountains shed tears for Adonis; the flowerets flush red for grief, and Cythera’s isle over every foothill and every glen of it sings pitifully Woe for Cytherea, the beauteous Adonis is dead, and Echo ever cries her back again, The beauteous Adonis is dead. Who would not have wept his woe over the dire tale of Cypris’ love? She saw, she marked his irresistible wound, she saw his thigh fading in a welter of blood, she lift her hands and put up the voice of lamentation saying “Stay, Adonis mine, stay, hapless Adonis, till I come at thee for the last time, till I clip thee about and mingle lip with lip. Awake Adonis, awake for a little while, and give me one latest kiss; kiss me all so long as ever the kiss be alive, till thou give up thy breath into my mouth and thy spirit pass into my heart, till I have drawn up all thy love; and that kiss of Adonis I will keep as it were he that gave it, now that thou fliest me, poor miserable, fliest me far and long, Adonis, and goest where is Acheron and the cruel sullen king, while I alas! live and am a God and may not go after thee. O Persephone, take thou my husband, take him if thou wilt; for thou art far stronger than I, and gettest to thy share all that is beautiful; but as for me, ‘tis all ill and for ever, ‘tis pain and grief without cloy, and I weep that my Adonis is dead and I fear me what thou wilt do. O dearest and sweetest and best, thou diest, and my dear love is sped like a dream; widowed no is Cytherea, the Loves are left idle in her bower, and the girdle of the Love-Lady is lost along with her beloved. O rash and overbold why didst go a-hunting? Wast thou so wooed1 to pit thee against a wild beast and thou so fair?” This was the wail of Cypris, and now the Loves cry her woe again, saying Woe for Cytherea, the beauteous Adonis is dead. The Paphian weeps and Adonis bleeds, drop for drop, and the blood and tears become flowers upon the ground. Of he blood comes the rose, and of the tears the windflower.



I cry woe for Adonis, the beauteous Adonis is dead. Mourn thy husband no more in the woods, sweet Cypris; the lonely leaves make no good lying for such as he: rather let Adonis have thy couch as in life so in death; for being dead, Cytherea, he is yet lovely, lovely in death as he were asleep. Lay him down in the soft coverlets wherein he used to slumber, upon that couch of solid gold whereon he used to pass the nights in sacred sleep with thee; for the very couch longs for Adonis, Adonis all dishevelled. Fling garlands also and flowers upon him; now that he is dead let them die too, let every flower die. Pour out upon him unguents of Syria, perfumes of Syria; perish now all perfumes, for he that was thy perfume is perished and gone. There he lies, the delicate Adonis, in purple wrappings, and the weeping Loves lift up their voices in lamentation; they have shorn their locks for Adonis’ sake. This flung upon him arrows, that a bow, this a feather, that a quiver. One hath done off Adonis’ shoe, others fetch water in a golden basin, another washes the thighs of him, and again another stands behind and fans him with his wings.

The Loves cry woe again saying “Woe for Cytherea.” The Wedding-God (Hymenaeus) hath put out every torch before the door, and scattered the bridal garland upon the ground; the burden of his song is no more “Ho for the Wedding;” there’s more of “Woe” and “Adonis” to it than ever there was of the wedding-cry. The Graces weep the son of Cinyras, saying one to another, The beauteous Adonis is dead, and when they cry woe ‘tis a shriller cry than ever the cry of thanksgiving. Nay, even the Fates weep and wail for Adonis, calling upon his name; and moreover they sing a spell upon him to bring him back again, but he payeth no heed to it; yet ‘tis not from lack of the will, but rather that the Maiden will not let him go. Give over thy wailing for to-day, Cytherea, and beat not now thy breast any more; thou needs wilt wail again and weep again, come another year".

Em meio às dores do luto, Afrodite selou desfecho ao destino do herói, consumando sua natureza final: sangue transmutado em flor da cor de romãs, originando beleza floral entretanto efêmera por pétalas logo decadentes aos sopros dos vento. Eis a anêmona!14

Conta também o mito que, seduzidas por sua beleza, duas Deusas, Afrodite e Perséfone, travaram disputa pela posse de Adonis, ciosas de fruir o afeto do herói com exclusividade. O dissídio divino foi submetido ao juizo de Zeus, que nomeou uma Musa, Calíope, a arbitrar a contenda. Por sabedoria (pseudo) salomônica ela resolveu o impasse: o infatigável, inesgotável amante a ser exaurido pelos prazeres das Deusas, permaneceria metade do ano sob domínio de Afrodite e metade sob o de Perséfone15. Porque a justiça de Zeus, análoga à palavra do Papa entre os cristãos, é infalível e, afinal como manda quem pode, obedece quem tem juizo, Afrodite, não obstante contrariada, sujeitou-se à partilha tão desagradavel quão inevitável. Mas desforrou o furor de sua vingança contra quem podia, a pobre da Musa, que acabou pagando o pato na pessoa de seu filho, pois, por instigação da Deusa, "as mulheres trácias, tomadas por furor afrodisíaco, despedaçaram Orfeu membro a mebro"16.

A introduzir a história contada por esse mito em tempos áureos do império de Augusto ufanista de civilização, o poeta latino, Ovídio, antecipa cuidados narrativos porque firmasse a melhor moralidade dos sentimentos cultivados pela pietas da família romana. Eis suas advertências: "história medonha, horrorosa de um infame atentado, crime monstruoso, que fere os ouvidos de jovens meninas e de pais", e que apenas se escuta porque bem se atente à lição de crimes abomináveis que encontram justa punição. História de um "incesto abominável" de uma filha rival da mãe e amante do pai a desconcertar toda a ordem do parentesco porque nela se (des)configure irmã do filho e mãe do irmão. E logo esclarece a tranquilizar a boa harmonia ideológica da civilização romanizada: história monstruosa de povos bárbaros habitantes em longínquas regiões orientais! Mas,, por mitos de figurações monstruosas exteriorizadas para regiões bárbaras, Roma Antiga também localiza fontes de ricas pilhagens que sua história promove a prover-se também de aromatizantes e perfumes árabes: bálsamo, canela, incenso e ... mirra!17

Há heróis que finalizam sua história humana por metamorfose em outra forma terrestre. Os amantes mortais de divindades realizam ambivalentemente por sua união marital o ato glorioso porque distinguem sua excelência contra a transgressão que confunde e desordena os limites definidores das condições de ambas as categorias assim também arruinando seu destino. A morte do amante humano é a (con)sequência imediata de seu ato em contrapartida e realização da fama glorificadora dessa união. Pela ambigüidade da (in)definição de Adônis como deus ou herói esse destino se dá pela paradoxal definição de um “deus efêmero”.

Anfíon e Zeto
Por algum tempo mítico da realeza tebana, eis que uma formosa jovem adormecida figura em cena de lânguida sedução, desatenta e inerte. A cena se passa num bosque, afinal ali se encontram sátiros. Um deles a espreita. Se aproxima, gentilmente, a desnuda. Quem eram? Júpiter em visita amorosa a Antíope. Ele, pelos gregos nomeado Zeus. Ela, princesa tebana, filha de Nicteu; mas também dita ninfa, filha de Asopo18, deus-rio que corre veloz, turbilhonante, vincando a fronteira entre Tebas e Plateia.

Ou seriam Vênus e um sátiro? Ou ainda apenas uma ninfa e um sátiro?

Por Júpiter e Antíope era conhecido o quadro de Correggio no Louvre, ao que declara Jacques-Louis David, então advertindo as autoridades revolucionárias congregadas na Convenção Nacional (tempos de Terror, primavera de 1794), porque não descuidassem de sua preservação e guarda: "Vous ne reconnaitrez plus l'Antiope. Les glacis, les demi-teintes, en un mot tout ce qui caracterise particulierement le Corrège et le met si fort au-dessus des plus grands peintres, tout a disparu". Também o poeta, Théophile Gautier, cantava, ainda por meados do século XIX, "a beleza do corpo adormecido de Antíope retratada ao claro--escuro de Corregio"19. Anteriormente ao século XVIII, entretanto, a nomenclatura identificadora do quadro de Corregio dizia de outras figurações mitológicas nele representadas: "Venere e Cupido che dorme, con un Satiro".20 Por esta (im)precisão conexa a outras intrigas iconológicas, os críticos modernos21 de intúitos positivantes corrigem o (alegado) equívoco em que incidiram o pintor revolucionário mais o poeta simbolista, porque se restabeleça a verídica identidade da cena mitológica.

Mas, quem jamais viu um sátiro? E se viu, quem capaz de discriminá-lo da epifania de Jupiter por ele aparente? Ora, que (ou a quem) importa se Vênus ou Antíope com se Júpiter ou Sátiro? Pois, dualidades de figurações porque se confundem homólogas imagens de languidez de beleza feminina a comover lascívia de desejo masculino como tópos pictórico para cenas míticas de sedução no bosque. Por similar composição imagética à de Corregio conceberam o episódio quadros de outros pintores22 por título inquestionável porque retratassem justo aquela hierogamia mítica tebana, mais um dos tantos Amores de Júpiter. Entre esses, o próprio Jacques-Louis David23. E por mais outros quadros de (cor)respondente iconologia24, eis que persiste a interrogação porque se (in)decide a nomenclatura do episódio representado, hesitante entre umas e outras dessas figuras particulares.

Então, segredo de um abraço que consumou hierogamia régia tebana. Eis princesa que engravida, entretanto virgem ... ao que sabem os humanos! Desventuras míticas de misteriosa senão suspeita gravidez virginal, tanto mais porque a jovem se ufana de ter amante divino, nomeando justo Zeus25. Incredulidade prosaica a suscitar no pai da jovem, Nicteu, rei de Tebas, fúrias de indignação por honra familiar maculada. Suspeitas recaem em indivíduos humanos que respondessem pela intrigante progenitura. Sob ameaças régias porque então Antíope busca refúgio na corte de Epopeu, rei de Sicíon, que a desposou, aventa-se quem fosse o furtivo amante26, que talvez mesmo ludibriara e violentara a jovem27. Ato indigno, assim acusado pela perspectiva ofendida da realeza de Tebas. Não, pelo contrário, ao que o diz o ufanismo da de Sícion: rapto heróico, feito de excelência guerreira28. Quer por fuga quer por rapto a figurar ou simples iniciativa afeminada ou glorioso feito de virtuosidade (areté) viril, ato comprovador de suspeitas régias tebanas tanto mais agravadas ao se defrontar com indesejado, espúrio genro.

A satisfação honorífica da realeza impunha, pois, atacar Sícion29, reino até então pacífico, mas que agora conheceria os distúrbios experienciados com a guerra. Nicteu não sobreviveu a ela. Diz-se que, tomado de desespero insuportavel por aquele duro golpe, ou suicidou-se30 ou morreu de desgosto31. Transferência, então, justo antes da morte, do encargo beligerante ao irmão, Lico, porque limpasse a nódoa daquela ofensa32. Mas, outra variante de narrativa mítica conta os acontecimentos em causalidade invertida: porque participasse da campanha bélica foi Nicteu ferido, vindo a falecer em Tebas, então transmitindo a realeza para o irmão33.

Afinal, Antíope acabou de regresso a Tebas. Divergem os relatos míticos consoante a fama orgulhosa porque se proclamasse a vitória daquela guerra. Do lado de Sicíon, Epopeu, embora ferido no combate, a assinalou por sacrifício ofertado a Atena mais edificação de um templo em sua honra, o que bem regozijou a Deusa, a qual manifestou seu agrado consagrando com óleo de oliva vertido o edifício terminado. Com a morte de Epopeu que descuidara do ferimento recebido, diz-se que seu sucessor, Lamedonte (filho de Corono), devolveu aquele (novo) pomo da discórdia a Lico34. Já pela perspectiva de Tebas, fora este rei quem, em expedição exemplar, matara Epopeu, trazendo Antíope cativa para Tebas.

Em meio do caminho de volta, Antíope deu à luz dois gêmeos, então abandonados no local mesmo do parto, uma gruta em Eleutherai, na área do Cíteron, fronteira entre a Ática e o reino de Tebas35.

Principiava o destino heróico conjugando Anfíon e Zeto, filhos de Zeus.

Aquiles
Tétis, deusa marinha, bela filha de Nereu: Zeus e Poseidon rivalizam em tê-la por amante. Mas um terrível segredo cerca o destino nupcial da Nereida. Revelaram-no palavras proféticas, ou de Prometeu ou de Têmis.

O Titan, oprimido em sua prisão montanhosa pela ira de Zeus que lá o punia pelas ofensas do episódio de Mecone, anunciou (in)certas núpcias, de terríveis consequências para o detentor da realeza celeste, pois gerariam incombatível prodígio, dotado de recursos armados mais potentes que os dos deuses olímpios, pois de fogo ainda superior ao raio de Zeus, de troar mais portentoso que o trovão e que estilhaçaria a tridente lança de Poseidon. Nesses termos antevia Prometeu a queda de Zeus por núpcias que da realeza e do trono lançá-lo-iam fora anulado, a então aprender quanto ser rei e ser escravo diferem. Pesava contra Zeus a praga paterna de Cronos, virtualizando cumprir-se sua queda do longevo trono.

Também áugure ecoou a fala de Têmis no Conselho dos Deuses, de memória infalível, a debater o desfecho da disputa de Zeus e Poseidon pelo amor de Tétis. A conselheira proferiu o oráculo que predizia o que era conforme o destino: a deusa marinha poria no mundo um filho que se tornaria mais poderoso que o pai e cujos braços disparariam tiros mais temíveis que o raio ou que o tridente monstruoso, caso ela se unisse a Zeus ou a um de seus irmãos. Destino nupcial de Tétis consoante à lei de sucessão da realeza celeste porque o pai impreca contra o filho que o destrona igual desventura: assim de Urano para Cronos e de Cronos para Zeus.

Tal era o destino do filho que nascesse de Tétis. Então, adviria ao mundo um poder maior que Zeus? Mas o bom conselho de Têmis não se fez tardar na assembléia dos deuses, bloqueando aquele paradoxal desígnio cósmico que anunciava o advento de alguém mais poderoso que Zeus: que Tétis compartilhasse o leito de um mortal, que fosse concedida a Peleu, o Eácida, o mais piedoso dos homens que a planície de Iolcos nutria. Pela honorífica aliança divina do casamento de Peleu e Tétis cumprir-se-ia o destino a gerar varão guerreiro igual a Ares pela força do braço e igual ao relâmpago na rapidez dos pés.

Não obraram em vão as palavras da Deusa: os deuses todos bem anuiram ao sábio conselho, e Zeus e Poseidon afastaram-se da Nereida, impelindo-a para a cama de um homem mortal. Havia ainda, então, que mover Peleu àquela união. Uma mensagem foi levada, da parte dos deuses, a Quíron, o centauro instrutor de heróis. Por ele a trama divina alcançou o Eácida. Quando Tétis veio, como de costume, repousar adormecida em seu abrigo rócheo de Hemonia, o herói, tomado de audacioso desígnio, tomou-a nos braços, disposto a possuí-la, mesmo que à força. Mas não era fácil o abraço da deusa, conhecedora de metamorfoses várias, a mutar-se ora em fogo, ora em água, ora em árvore, ora em pássaro, ora todas as formas de feras. Ao êxito heróico foi necessária a instrução devida: que o amplexo aprisionasse firme a deusa, sem deixar-se lograr pelas dissimulações de sua figura, por mais horrendas e temíveis que fossem, só aliviando seus laços aprisionadores quando ela retomasse a forma primeva. Foi assim, em noite de lua-cheia, que, submetida ao amor heróico, Tétis viu soltar-se o freio de sua encantadora virgindade.

E Peleu desposou Tétis em festivas núpcias na morada de Quíron nas colinas do Pélion, deuses celestes e marinhos entre os convivas, deles ganhando presentes magníficos: de Quíron, uma lança fraxínea; de Poseidon, cavalos imortais, Bálio e Xanto. Desse casamento nasceu Aquiles.36

Assim que nasceu o filho dela gerado por Peleu, Tétis, mãe prestimosa, intentou transmutar sua natureza em imortal. Submetia-o a (in)consequente tratamento, à noite queimando sua corporeidade mortal ao fogo e de dia untando-o com ambrosia. Mas o marido a surpreendeu, gritando aterrorizado diante do que via: seu filho contorcendo-se sobre as chamas!37 Assim abortou aquele intento divinizante do herói, porque os humanos, ignaros, não atinam os mistérios dos poderes divinos. Esta fora a sentença moralizante que o mito firmara para o similar episódio da experiência de imortalização com que Deméter privilegiava Demofonte, o filho de Celeu e Metanira. Já autores tardios diziam que, no caso de Tétis, já seis filhos de Peleu tinham assim sido mortos pela mãe! Mas dizem também os mitos de Aquiles que, devido ao tratamento que Tétis lhe dispensara, a vulnerabilidade mortal de seu corpo ficara restrita apenas ao osso calcâneo por causa da interveção inopinada de Peleu, que o retirara do esqueleto do gigante Damiso e o implantara no filho, em substituição do que fora chamuscado pelo fogo.38 Por tal exposição deslocada definira-se a etiologia do nome do herói, Aquiles, porque não havia ainda posto os lábios no peito materno.39

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