Freud para historiadores



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de contas, como recurso explicativo geral, o interesse privado é atormentado por um dilema." Definido de forma estreita, como uma

adaptação puramente racional de meios para atingir fins materiais,

seu alcance é bastante restrito, pois h muito poucas adaptações, sem

adulterações, desse tipo. De qualquer maneira, c lculos a sangue-frio

que modelam ações são menos interessantes (e freqüentemente a longo

prazo menos importantes) do que as paixões que, desde o início, produzerri c lculos. Por outro lado, definido de uma forma abrangente, o

interesse privado é pouco mais do que uma tautologia: é, nesta definição, tudo que os indivíduos ou os grupos afirmam ser, ou revelam

involuntariamente como sendo a partir de suas ações. Altruísmo ou

masoquismo, embora pareçam contrariar o interesse privado, são na

verdade exemplos disfarçados dele. 0 preconecítuoso que incita mas

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1
sacres contra judeus, o mercador que maximiza os seus lucros, o santo

que procura o martírio, todos estão perseguindo o seu interesse privado. Assim, estender o interesse privado até um motivo universal

#

é torn -lo, enquanto diagnóstico, sem utilidade para o historiador, que,



como qualquer outro estudioso e analista das questões humanas, deve

discriminar se deseja explicar.


Para começar com as próprias superfícies da percepção, é notório que nem todo mundo percebe o seu verdadeiro interesse privado claramente; muitos sofrem daquilo que Lenin argumentou a respeito da classe trabalhadora, deixados sem a liderança de uma elite

capaz, devem sofrer sempre de falsa consciência. Homens - e mulheres - podem estar cegos aos seus benefícios autênticos porque h

muito habituaram-se ... submissão e são mantidos afastados de apreenderem e persegui-los devido a "interesses" suficientemente vidos em

mantê-los desinformados e passivos. Esses interesses, certamente, têm

tudo a ganhar com a criação e a perpetuação da falsa consciência:

sejam homens que procuram persuadir as mulheres a permanecerem

domésticas e devotadas ou senhores que insinuam que a escravidão

é uma instituição boa. A indústria publicit ria est essencialmente

construída em torno da intenção de despertar, ou de construir, desejos que finalmente serão integrados na estrutura social do coletivamente desej vel. Junto com sociólogos e cientistas sociais, os hístoriadores modernos aventuram-se a analisar essa espécie de manipulação política, social e comercial. 0 que o psicanalista tem para oferecer nessa exploração do interesse privado, genuíno ou artificial, é

explicar como os indivíduos e os grupos internafizarti. esses logros e

os tomam como sendo as suas próprias idéias,
A consciência falsa e a verdadeira são iguais, certamente, para

os olhos críticos e, pode-se esperar, imparciais do historiador; ele

est preocupado em resistir ... tentação de ser condescendente com os

seus objetos. Ao desejar que a classe oper ria seja rebelde, pode

lamentar "a danada da falta de vontade dos pobres". Mas o que os

homens pensaram como sendo os seus interesses, com sabedoria ou

com tolice, é uma informação histórica que ele não tem condições de

ignorar. Charles Tilly, um estudíoso da ação coletiva na história europeia moderna, sugeriu que o historiador deve "tratar as relações de

produção como previsores sobre os interesses que as pessoas irão

perseguir, na média, e a longo prazo", mas ao mesmo tempo, "basearse, tanto quanto for possível, na própria articulação das pessoas a


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#

respeito dos seus interesses como uma explicação do seu comporta " 37 u acrescentaria que o historiador deve fazer



mento a curto prazo ., 1 E

ainda mais: deve rastrear a percepção do interesse até as suas fontes

variadas e freqüentemente conflitivas.
Neste ponto, certamente, o historiador desloca-se para o domínio

que o psicanalista transformou em seu. Na extensão em que os historiadores exploram desejos que, traduzidos racionalmente em planos

de ação, somam-se ao interesse privado de indivíduos ou de grupos,

lidam com manifestações conscientes. Mas esses programas organizados de desejos são um resultado, o vetor de muitas forças, tanto

palp veis quanto obscuras. Obviamente, são suficientemente fortes e

afastados de suas origens para derrotar a censura. Ainda assim, suficientemente próximos de seus genitores inconscientes, permitem que

o historiador orientado pela psicanálise descubra a sua rvore genealógica. De forma inevit vel, o ego desempenha um papel dominante

na formação e nas formulações dos interesses: disfarça, particulariza,

orquestra sentimentos incompletos de necessidade até que amadureçam, clarifica aquilo a que realmente equivalem, e planeja os meios

para atingir os fins visados. Todos os exemplos históricos que ofereci

incluem ações racionais com vistas a fins que envolvem planejamentos, mobilizam recursos, antecipam resistências. Realizar um interesse

é, em mais de um aspecto, uma atividade econ"mica; procura despender a menor quantidade possível de energia que obter o resultado mais favor vel possível.


Mas mesmo a cobiça pelo ouro est longe de ser simples. Pode

ser absoluta, uma obsessão como a que perseguia o velho Grandet

de Balzac; pode ser funcional, um meio para facilitar a aquisição de

poder, arte ou amantes. Pode ser um derivado de fixações anais de

retenção, um emblema de potência sexual, um triunfo edipiano tardio.

Pode manifestar-se indiretamente: a paixão pelo poder (como os historiadores argumentaram com freqüência e razão), pode ser um instrumento para aquisição de dinheiro que, por sua vez, pode gratificar

uma variedade ampla de necessidades, incluindo a de aliviar a angústia. Uma vez analisado, o interesse privado torna-se na verdade

muito complicado, e uma razão para a sua complexidade est nas

formas muito peculiares em que o ego funciona como um advers rio

das pulsões instintuais. 0 ego trabalha contra as exigencias excessivas

delas por uma descarga imediata, contra a sua inabilidade em tolerar

postergação. Mas também planeja para assegurar satisfação, se possível


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um nível mais elevado do que aquele disponível para o desejo primitivo não atenuado. 0 interesse privado, para coloc -lo numa linguagem psicanalítica, é o produto do princípio da realidade a serviço,

enquanto o enfrenta, do princípio do prazer.


#

0 psicanalista pode dizer mais ainda. Os desejos que resultam

no interesse privado podem ser instintuais ou defensivos na sua origem. Podem decorrer de pulsões eróticas ou agressivas que visam

alvos amorosos ou vítimas indefesas, podem constituir uma tentativa

de manter afastada a ansiedade - ou podem, em proporções indefinidas, decorrer de uma mistura de ambas. "Algumas atitudes do ego,

que parecem ser instintuais", observou Otto Fenichel, "servem, contudo, a uma função defensiva. As expressões 'instinto' e 'defesa' são

relativas"." Uma defesa, em suma, é também um desejo. Procurar o

interesse privado inclui tanto obter como manter as gratificações.


Essa visão do interesse privado implica notoriamente uma inte

i
ração contínua entre necessidade e controle. De forma muito semelhante a um sintoma neurótico, o interesse privado é uma formação

de compromisso; e, como o ego, um interesse deve enfrentar três forças geralmente hostis: o mundo externo (o depósito dos interesses em

competição), o superego (que emite recordações desagrad veis de que

os outros também têm reivindicações legítimas e de que as próprias

são no mínimo suspeitas), e o id (que gera incessantemente desejos).

É por isso que a idéia de um interesse privado totalmente racional,

percebido com clareza, e perseguido consistentemente, é em ampla

escala uma abstração. Contudo, não é uma ficção. Servidores de uma

organização, como Reinhold Niebuhr mostrou muitos anos atr s,

acham a procura desapiedada de vantagens por uma organização muito menos problem tica de que a sua própria: instituições como grandes empresas são literalmente desalmadas, são m quinas para realizar

interesses privados - embora mesmo essas m quinas, pelo menos

nesse aspecto, demasiadamente humanas, lêem erroneamente as informaçoes que recebem, entram em pânico, e ...s vezes também entram

em colapso.


Tudo isso aponta para os domínios que o historiador precisa

conhecer mais - a extensão do interesse privado, o reconhecimento

e a reconciliação possível entre interesses conflitivos. Os dois estão

relacionados mas não são os mesmos. É bastante óbvio que os interesses podem ser restritos ou amplos, superficiais ou profundos, de


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#


curto ou longo prazo. A mudança de um desses modos para o outro,

para expandir a percepção de alguém para o seu "verdadeiro" interesse, pode ser a resposta a uma exigência moral, mas é objeto de

um c lculo: uma mudança que o psicanalista chama de passagem do

processo prim rio de pensamento para o secund rio, Na virada para

o século XIX, Jererny Beritfiam tentou até imaginar um padrão de

medida, o seu difamadíssimo c lculo da felicidade, que permitisse a

indivíduos, grupos e governos aumentar o rendimento geral de prazer

pela descoberta das combinações de benefícios e malefícios que cada

curso de ação poderia acarretar - em poucas palavras, para servir

aos interesses de todos através da compreensão dos interesses de cada

um. Bentham pode ter sido ingênuo. De fato, o seu esquema tem

recebido nomes mais severos do que esse. Certamente, substancia a

mistura de utopismo racionalista que espreitava as suas esperanças

de uma ciência da sociedade, Segundo Bentham, uma pessoa poderia

calcular o valor do prazer (ou da dor) ao atentar para a sua intensidade, sua duração, sua certeza, sua propínqüidade, sua fecundiffiade

e sua pureza, e, finalmente, para sua dimensão social: sua extensão..,9

0 c lculo critica a si mesmo; não h nenhum modo fidedigno para

quantificar elementos individuais de prazer, nenhum modo racional

de compar -los. E os impulsos ocultos podem descarrilar, ou mesmo

estragar, os planos mais cuidadosamente elaborados. Mas a idéia geral

de Bentham era, acredito, bastante razo vel. A indulgência negligente em prazeres acarreta uma dor posterior, que a reflexão racional pode prever e possivelmente evitar. Bentham viu o homem como

um animal governado pelo princípio do prazer que poderia ser educado para obedecer ...s injunções mais sóbrias do princípio da realidade. Isso não era - certamente para Beritfiam - um convite para

o ascetismo; ao contr rio, era um pedido para que se dosasse o prazer em benefício de um prazer maior, e para aceitar algum desprazer

de modo a evitar um desprazer maior.


0 c lculo da felicidade de Bentham sugere que o que deveria

ser a preocupaçao maior do historiador orientado psicanaliticamente

é a qualidade do teste de realidade tanto em situações de quietude

como de efervescência, e os mecanismos, consciente e inconsciente,

que regulam o impulso para a ação. Em poucas palavras, deveria olhar

para o trabalho analítico, integrativo e sintético do ego, para essas

capacidades que são pressionadas ao m ximo pelas exigências que o

interesse privado puro impõe sobre elas. São pressionadas em larga


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medida porque os interesses não expanciern ou se contraem simplesmente. Freqüentemente e de forma decisiva conflitam entre si.
Um exemplo da pr tica ordin ria pode esboçar as dimensões do

problema. Um conflito de interesses e uma experiência familiar para

um funcion rio do governo que precisa opinar sobre o pedido das

empreiteiras e a qualidade do serviço oferecido. A sua lealdade prin#


cipal é para com o seu empregador, o Estado, mas o seu desejo privado pode ser por um cargo em um dos fornecedores que est avaliando. Enquanto servidor público, sua obrigação é a de ser desinteressado, de julgar sem medo ou favorecimentos; enquanto cidadão

privado, pode desejar simplesmente acumular riquezas. A situação é

despida de ambigüidades e o seu dever é claro, mas o seu apetite

ou sua ansiedade podem fazer com que a balança pese para um lado

ou para o outro.


Na superfície, esse dilema parece pertencer totalmente ao domínio da consciência moral. Mas suas raízes estão alojadas em uma

batalha em grande parte oculta entre desejos e inibições. 0 que torna

a falta de cumprimento do dever imperativa, atraente ou mesmo concebível? Afinal de contas, a necessidade de dinheiro não e uma quantidade fixa; o sentimento de insegurança é altamente subjetivo. Esse

conflito privado de interesses é uma batalha subterrânea entre o superego cultural do funcion rio, os valores da probidade e a objetividade com que é caucionado e o ego racional cheirando a perspectiva

de lucros, que, no final, podem anular as suas obrigações profissionais. Tudo isso, é necess rio recordar, tem componentes em grande

parte inconscientes. 0 superego cultural do funcion rio cavalga, por

assim dizer, o superego que ele formou quando era um menino; o

seu ego é um composto de desejos e julgamentos, fantasias e refle o

xÕes, no qual o seu passado continua a desempenhar a sua parte

oculta. Qualquer que seja a decisão que finalmente tome, pode-se

esperar que ele pague o seu tributo ao conflito inconsciente sob a

forma de dores de cabeça, e, mais raramente, de uma noite insone.


Essa vinheta pode servir, com as liberdades tomadas pelas idiossincrasias pessoais, como um modelo para interesses que se chocam

que todos os seres humanos precisam reconciliar, em parte abaixo

do limiar da consciência pensante. Certamente o próprio domínio dos

interesses humanos é uma fonte contínua de hesitações e incertezas.

Afinal de contas, um ser humano é uma antologia de ligações, e a
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#


sua hierarquia de importância não é sempre evidente, Lealdades diversas podem coexistir pacificamente lado a lado, embora também

possam tornar-se causas de decisões desagrad veis; pode-se ser um

bom marido, um católico devoto, um apaixonado colecionador de

selos, um mestre no jogo de bridge e um soldado habilidoso, tudo ao

mesmo tempo, sem ser forçado a escolher entre esses interesses embora suspeite que uma interação feliz assim represente a resolução

de esforços anteriores, o ajustamento a exigências conflitivas de tempo e atenção de diversas paixões, uma decisão para moderar as exigências de alguns prazeres em benefício de experimentar todos eles.


Uma demonstração marcante de tais conflitos endêmicos de interesses est nas reivindicações incompatíveis do amor. Como o apetite por dinheiro, a energia amorosa não é uma quantidade predeterminada. Mas isto é muito claro: é impossível amar tudo e todos com

o mesmo fervor. 0 narcisista ama a si mesmo em detrimento dos

outros: o marido extremamente afeiçoado ... sua mulher a ama em

detrimento de seus filhos; o chauvinista ama o seu país em detrimento de outros países, Mas nesses exemplos, o conflito j est resolvido, ou colocado de lado: o marido que ama a sua esposa a ponto

de negligenciar os seus filhos fez uma escolha - de nenhuma forma

consciente - entre os objetos em que investe a sua libido. Tais escolhas podem gerar nada além de pontadas ocasionais de um ciúme

manej vel ou de arrependimentos menores, ou podem produzir tensões severas, na pessoa ou na família. A psicanálise, em suma, tem

muito mais a contribuir para a anatomia do interesse privado do que

os psicanalistas têm reconhecido até agora. Aqui est um bom exemplo de uma situação em que os historiadores podem pedir um auxílio explieativo dos analistas maior do que o que tem sido dado até

agora -- embora não maior do que aquele que poderiam dar.


100
Razão~ realidade,

psicanálise e o historiador


. Dois mundos em tensão
Por todas as suas reverências ...s forças do irracional liberadas

no passado, o historiador dificilmente escapa ... impressão de que (a

sua disciplina habita um território estritamente separado daquele da

psicanálise. Os pontos onde se tocam, ao que parece, são pontos de

tensão. A psicanálise preocupa-se com paisagens de violações fantasiosas e de assassinatos mentais, de fantasias incontrol veis e de sintomas floreados, de sonhos, distorções e delírios. Parece apropriado que

o momento mais heróico na carreira freudiana tivesse de ilustrar

simbolicamente esse ponto de vista sobre a mente como uma construtora de ficções. Durante alguns anos, no início dos anos 1890, Freud

avançou vagarosamente na direção de uma psicologia abrangente sobre as neuroses. Ele fiava-se, em grande parte, nas confissões escan#


dalosas de suas pacientes; uma após outra relatava-lhe que havia sido

seduzida na infância pelo pai. Mas no outono de 1897 Freud disse

ao seu amigo e único confidente, Wilhelm Fliess, que essas estórias

tornaram-se inacredit veis para ele, e que reconhecia que não sabia

mais o que permanecia de pé na sua exploração ousada e solit ria,

11 Perdera-se", recordava mais tarde, "o solo da realidade".' 0 que

se havia ganho em seu lugar era o solo da fantasia. Os pacientes de

Freud haviam imaginado em grande escala esses assaltos cometidos

pelos pais, e a compreensão freudiana da atividade imaginativa deles

p"de dar ... sua psicologia uma fundamentação teórica muito mais

extensa do que as revelações mais sensacionalistas que j havia oferecido. Foi sobre o solo da fantasia que se construiu o edifício da

psicanálise,
loi

#


Daí ínfere-se corri muita naturalidade que a razão, a companheira

da realidade, não possa ser vista como alguém bem-vindo na situação

psicanalítica, Ao paciente no divã ordena-se que siga o único preceito

fundamental do tratamento: permitir que todas as associações tenham

livre acesso ... sua consciência e que as partilhe com tão poucas revisões e correções quanto for humanamente possível. A regra fundamental deve ser lida como um insulto deliberado e provocativo ...

civilidade, Supõe-se que o paciente relata não apenas todas as trivialidades e obscenidades que os seres humanos sensatos geralmente filtram do seu discurso, e com freqüência dos seus pensamentos, mas

também as sinuosidades mentais mais absurdas e menos conseqüentes.

Além do mais, a transferência, os sentimentos de amor e ódio pelo

analista, eliciados pela sítuação psicanalítica, são em todos os seus

disfarces deslocamentos no tempo, de pessoa, e de sentimento. É como

se a psicanálise devesse desfazer-se da mais alta aquisição do ego: a

capacidade para organizar e governar a massa desregrada de impulsos

e idéias que estão por baixo da superfície da consciência humana.

Esta não é a paisagem mental com a qual o historiador sente-se mais

confort vel.
A incompatibilidade entre os mundos do psicanalista e do historiador parece ser tão mais gritante que qualquer pedido de reconciliação tem de soar utópico, Diferente do psicanalista, o historiador

lida com realidades sólidas: escassez de alimente, aglomerações urbanas, inovações tecnológicas, territórios estratégicos, instituições religiosas. Ouando estuda conflitos em que a mente desempenha um papel - antagonismos ou conflitos de classe - acha-os tão palp veis,

tão materialistas, que chegam a ser quase tangíveis. 0 historiador

marxista, também, vive em um mundo ... luz do dia, firmemente delimitado. É certo que o seu esquema, no qual as classes e os iiidivíduos, ao procurarem servir apenas a si mesmos, sei-vem inconscientemente ... astúcia da história, assinala um espaço visível para o funcionamento de forças que operam por tr s dos atores. Mas confia

que poder elucidar essas forças enquanto d específicidade ... situação histórica concreta na qua) esses atores devem atuar. Argumentei

que os historiadores não têiyi sido negligentes a respeito de poderosas

irracionalidades no passado. Mas quando são impelidos a lidar com

k) submundo sombrio de emoções escondidas e contraditórias, o p tio

de recreio favorito do psicanalista, fazem-no com uma aversão vísível, e desviam-se após alimentarem os seus leitores com alguma~
102
observações emprestadas da psicologia do senso comum. É significativ, que a influente escola de historiadores franceses agrupada em

torno da sua célebre revista, os Anuales, tenha ficado totalmente

satisfeita com citações de seu psicólogo favorito Lucien Febvre, que

não era psicólogo, e tenha catalogado os estados mentais coletivos sob

o nome ressonante de mentalités, sem se preocupar em rastrear esses

estados até ...s suas raízes na mente inconsciente. Os mundos do

#

historiador e do psicanalista mantêm-se separados.


H uma forma de retiní-los através de uma pitada de filosofia ao

assinalar que uma fantasia ou um delírio é uma realidade para aqueles

que os experienciam - certamente os indivíduos agem a partir deles.

Como o sociólogo W. 1. Thomas observou uma vez em um aforismo

muito citado: "Se os homens definem situações como reais, elas são

reais nas suas conseqüências". Essa definição ampla de realidade pode

soar como simplória, mas não é trivial. Sublinha a parte que o misterioso e o inesperado desempenham nas questões humanas; ela tenta

o historiador a parafrasear o refrão inevit vel de Hainfet e dizer que

h mais coisas no céu e na terra do que as que são soriliadas por

nossas histórias. Freud, que certamente conhecia bem Shakespeare,

gostava dessas linhas, embora tenha escolhido, para expressar o sentimento, as palavras de Leonardo da Vinci.- a natureza, escreveu, "est

cheia de inúmeras causas que nunca ocorreram na experiência". ' A

histeria de conversão, na qual os afetos bloqueados e os desejos recusados expressam-se através de sintomas físicos, é apenas a demons-

tração mais clara de que os sentimentos e desejos são suficientemente

reais.
Temos uma oportunidade ampla, dentro e fora da psicanálise, para

apreender essas incont veis causas em ação. 0 analisando, ao procurar

que o seu ego auto-observador assista e ...s vezes antecipe o seu analista ao oferecer interpretações, e c historiador, que tenta afastar os

seus preconceitos e transcender ...s suas perspectivas grupais, procuram

dar sentido a atividades psicológicas ardilosas.' Mas enquanto essa

promoção de eventos mentais obscuros a realidades internas compreensíveis e impressionante, não é em si mesma suficiente, pois falha

em atingir o vasto arranjo de fatos objetivos e de condutas racionais

que, juntos, são a principal ocupação do historiador. As concepções

desenvolvidas por Freud sobre os processos inconscientes parecem a

primeira vista bastante intransigentes, visando a frustrar todos os

esforços de ecumenismo. Nas suas profundezas, o domínio ineonscien

Tos


#

te, como ele o descreve, é. estranho ... moral e ... lógica, reservado e

defensivo, com uma paixão terrível pela privacidade, Freud estava

totalmente atento para o fato de que a sua teoria do inconsciente havia

despertado na comunidade filosófica e científica um certo escândalo,

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