Freud para historiadores



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e durante toda a sua vida, enquanto advogado enérgico da psicanálise,

nunca deixou de defendê-la contra aqueles filósofos e psicólogos obstinados e obtusos que persistiam em tornar a consciência igualada ...

mente. Sua defesa era mais do que uma aptidão defensiva. Para Freud,

como ele definiu numa met fora um pouco estranha, o inconsciente

é "a única lanterna na escuridão da psicologia profunda". ' Certamente, por volta de 1915, quando publicou o seu artigo metapsicológico

"0 Inconsciente", adotou a concepção de que as regiões inacessíveis

da mente são mais numerosas, e sem dúvida mais importantes, do

que aquelas com as quais estamos em contato direto e íntimo. ' Não

era o inconsciente, mas a consciência que era preciso explicar.


0 historiador deve concordar que a consciência necessita de uma

explicação, mas não da maneira que Freud pretendia dar. Se Freud

chegou a achar que a própria existência da atividade consciente era

um pouco surpreendente, é prov vel que o historiador ficar tão

surpreendido, e não menos frustrado, pela posição privilegiada que a

teoria psicanalítica confere aos processos mentais mais esotéricos e

não comunicativos - frustrado e pronto para consultar outras escolas

psicológicas mais acessíveis. Mas a psicanálise não é apenas o estudo,

e muito menos a glorificação, do inconsciente. Freud, é verdade, viu

o centro do inconsciente não apenas como extraordinariamente poderoso, mas também como afastado do mundo; só os seus representantes,

ou derivados, podem vir ... luz do dia. Ele tinha certeza de que alguém

somente pode abordar o id (que em 1920 chegou a chamar de "parte

sombria, inacessível de nossa personalidade") "através de analogias 11 ;

ele e os seus colegas analistas pensaram o id como "caótico, um caldeirão cheio de excitações borbulhantes". ` Mas daí não se segue que

para Freud todos os eventos mentais que estão além dos olhos observadores da consciência estão igualmente distantes dela ou relutantes

em se expressarem. H muita atividade mental, segundo ele, que est

muito mais perto do campo de visão da consciência do que a que

é capaz de ser . trazida ... lembrança". Além disso, mesmo essas energias que borbulham caoticamente no caldeirão devem pela sua natureza

forçar de alguma forma um caminho para a consciência, Seria um puro

antropomorfismo retrat -las como clamando por expressão. As neces

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sidades som ticas do homem - fome, fadiga, luxúria - são surdas,

cegas e exigentes; é o seu porta-voz psicológico que chama a atenção

ao exigirem, em geral de forma altamente específica, gratificação. Assim Freud reconhece a pressão irresistivel para o mundo que resulta

dos recessos mais secretos da psique. Os homens enganam a si mesmos e procuram conforto nos sonhos. Mas é amplamente na realidade

que a satisfação dever ser procurada e pode ...s vezes ser encontrada.

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2. À procura de representações


Freud também viu um movimento recíproco, da realidade para a

mente. Os estímulos físicos que penetram na psique, as injúrias

emocionais feitas pelas figuras amadas, os problemas não resolvidos

postos pela sociedade, todos apresentam-se e devem ser dominados,

sujeitos a compromissos, adaptados ou negados. Estas forças externas,

em cooperação ou em conflito com os impulsos internog, modelam os

estilos fundamentais eróticos e agressivos do indivíduo, suas escolhas

críticas, estratégias e fugas no amor, nos negócios e na guerra. Mesmo

o complexo de Édipo, como j mostrei, deve sua história tanto ...s

oportunidades oferecidas e ...s proibições que resultam dos outros

como as pulsões instintuais e ...s ansiedades. Em geral, o que as gerações atuais de psicanalistas vieram a chamar de "relações objetais"

não são, apenas fontes de perigo, de informação inadequada e de

confusão, mas também, e significativamente, mestres da verdadeira

mundanidade. Do mesmo modo que a mente procura a realidade, a

realidade invade a mente.
0 esboço psicanalítico da atividade mental, embora ancore firmemente a mente no mundo, dificilmente é atraente. A mente humana

aparece nele como uma ditadura militar moderna: desconfiada além

do limite, viciada em segredos, insaci vel em suas exigências, armada

até os dentes, e não muito inteligente. Emprega batalhões de censores

para impedir que notícias locais vazem, e patrulhas na fronteira para

impedir que idéias hostis cheguem ao alcance do seu povo e possivelmente o subvertam. Ainda assim, com freqüência, nem os censores

nem as patrulhas têm a inteligência ou a agilidade para desempenhar

adequadamente as suas tarefas, Especialmente ... noite, mas também em

momentos em que a guarda est baixa durante o dia, mensagens,

disfarçadas como sonhos, lapsos de fala ou sintomas neuróticos esca

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pam; e as percepções, disfarçadas em roupagens inocentes, adentram.

Contudo, ambas pagam um preço pela sua penetração intrépida através

de fronteiras defendidas energicamente: são em grande parte distorcidas, traduzidas traiçoeiramente, algumas vezes deformadas ao ponto

de não terem mais salvação. No mínimo são pesadamente mascaradas,

de forma semelhante ... dos libertinos de um carnaval em Veneza , que

só são reconhecidos (se o forem de algum modo) pelo intérprete treinado e sensível. Na verdade, foi somente depois que Freud de~,cobriu que essas mensagens erani mensagens que se começou a

decifr -las sistematicamente, apenas quando ele entendeu as injúrias

que as percepções sofriam nas mãos das defesas mentais que cs.--lecemos com confiança e a sua relação desviante e oblíqua em relaçãu

... realidade.


Pior do que ser somente sem atrativos, essa realidade é um;í

noite de Valpúrgia, deprimente, obscena e enganosa, onde nada e o

que parece ser. Só pode
repelir o historiador cujo personagem, não

importa quão vilão, vive geralmente de acordo com o código legível

dos motivos egoístas ou das pressões claras da necessidade mundana.

As atividades mentais, valorizadas por Freud, soam suficientemente

desconfort veis como desvarios de psicóticos ou balbucios de crianças
pequenas.
A literatura psicanalítica diariamente enriquece essa triste conta.

0 inconsciente da teoria freudiana, que não foi questionado pelos

seus sucessores, é um depósito bastante desarrumado que guarda

materiais infantis vol teis que nunca penetraram na consciência, e

muitas outras coisas de safra recente ou antiga. Inclui explosivos como

os desejos eróticos e as prescrições morais, as fantasias sexuais mais

selvagens e as auto-reprovações mais severas. Uma vez que o inconsciente não tem sentido de ordem, guarda de vez em quando pensamentos contraditórios um ao lado do outro; dado que não tem o sentido do tempo, os resíduos infantis são tão novos como os acréscimos

feitos ontem. E grande parte dos resíduos são, na verdade, muito

infantis. ' As teorias fretidianas das neuroses e dos sonhos podem ser

lidas como explicações dessa asserção. As neuroses adultas são retornos

posteriores e altamente distorcidos de quesiões emocionais não resolvidas, e os sonhos são produções cuja origem última pode ser rastreada

até os desejos infantis, Mas se o grande amante est apenas seduzindo

a sua mãe repetidamente, se o valentão musculoso testa eternamente

a sua pequena masculinidade pré-púbere, se o cientista racional acha

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se assaltado por superstições que preservou intactas desde os est gios

mais primitivos da sua organização mental - ou mais diretamente

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ainda: se os políticos gratificam apenas as suas próprias fantasias infantis enquanto suscitam estas em outros, então a história não é nada



além de uma regressão infinita, cruel, com uma extensão intermin vel,

onde pequenos meninos e meninas envelhecidos jogam nova e solenemente os jogos dos primeiros anos. ' Realidade e razão, nesse pesadelo freudiano, parecem ser continuamente filtradas por camadas

quase impenetr veis de memórias não fidedignas e, mais insidiosamente, por material recalcado. Estas, mais uma vez, seguramente não são

as realidades, certamente não as realidades principais, que o historiador

encontra e deseja recontar e explicar.
A psicanálise tem uma réplica favorita para o cético que procura

desacreditar o seu reducionismo através da exemplificação das glórias

da arte e das sutilezas da filosofia: o fruto, dirão, não se assemelha ...s

suas raízes; jardineiros dedicados não cuidam menos de suas ador veis

flores porque crescem no estrume, É verdade que h um axioma freudiano segundo o qual o artista, o estadista - qualquer adulto - carrega para sempre, ... sua volta, as suas necessidades e terrores infantis,

e que o car ter não é muito mais do que um agrupamento organizado

de fixações. Mas isso não implica de forma alguma que o psicanalista

considere a descoberta das origens remotas como o equivalente de urna

explicação exaustiva em psicanálise ou, no caso em questão, em história. Pois est consciente de que a realidade externa, cada vez mais,

coloca-se ao longo da trilha que leva ... maturidade. `


Mesmo nos sonhos e nas psicoses, onde os poderes da razão e da

realidade são débeis e as suas faces encobertas, estes têm uma autoridade surpreendente, De fato, foi precisamente na vida noturna da

psique, seja na quietude da cama ou em um hospital para doentes

mentais, que Freud e seus colegas analistas descobriram a presença

insuspeita de ambos. Na pesquisa exaustiva e competente sobre a

literatura científica com a qual principia o seu trabalho magistral sobre a interpretação dos sonhos, Freud assinala que muitos dos investigadores iniciais tinham visto pouco ou nada sobre o conteúdo objetivo

do sonho haviam-' o contr rio, considerado como uma produção

no, a


mental de uma espécie inferior, guardando uma pequena relação com

os eventos externos e não recebendo qualquer auxílio dos poderes

intelectuais mais elevados do homem. Os intérpretes oníricos, que, ao

coritr rio, haviam afirmado que os sonhos tinham um significado,


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invariavelmente recorriam ao que o cientista deve reconhecer como

peculiar ... "realidade" da superstição, na qual o sonho torna-se um

mensageiro sobrenatural ou um agente profético misterioso, A própria

teoria freudiaria dos sonhos era, sem dúvida, decisivamente diferente.

Partilhava da convicção da empregada doméstica mais analfabeta, que

acredita que os sonhos na verdade têm sentido, mas achou-o no mundo

natural e, em particular, no encontro entre o sonhador com as suas

próprias paixões e o seu meio imediato. "


A teoria psicanalítica dos sonhos é demasiadamente conhecida

para requerer uma discussão extensa: o sonho manifesto - o sonho

que a pessoa sonha e do qual se recorda parcialmente ao despertar dramatiza, de uma forma altamente distorcida, um desejo oculto que

foi corrigido drasticamente de modo a furtar-se ... censura, Isso - o

núcleo da teoria freudiaria - não me interessa aqui. Quero enfatizar

contudo, a sua tese de que os pensamentos latentes do sonho encontram um lugar no sonho manifesto apenas através da utilização de

materiais recentes, quase insignificantes, retirados da vida comum de

quem sonha, quase invariavelmente do dia anterior, São os "resíduos

do dia", que ligam os desejos mais distantes ao passado mais imediato, mais "real".'-'
A utilidade t tica dos resíduos diurnos é patente: são os meios

através dos quais os pensamentos proibidos e os desejos recalcados

iludem o censor; a sua utilização de memórias recentes e indiferentes

é um recurso político para assegurar a difusão de idéias que são tudo

menos indiferentes, Mas os resíduos diurnos têm uma importância ainda

maior: evidenciam o que foi habilmente denominado de procura mental

por material representacional.` A mente humana não é nem um atleta

nem um místico: não pode saltar grandes distâncias ou prescindir de

modos realistas de expressão. Suas inversões mais brilhantes e os seus

saltos mais acrob ticos testemunham, através da an lise, uma progressão solene, vagarosa ao longo de uma cadeia associativa firmemente

soldada - uma cadeia em larga medida invisível apenas porque alguns

dos seus elos estão recalcados. Suas invenções mais bizarras não são

totalmente derivadas da imaginação; são versões e fragmentos de

experiências. As auto-revelações repentinas e drarri ticas do inconsciente são ilusões; o inconsciente progride metodicamente desde as

profundezas até a luz diurna da consciência, e usa, com uma atenção

pedante pelo detalhe, os materiais mentais comuns que colhe ao longo

do caminho. Mais de uma vez, Freud definiu os neuróticos como
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aqueles que, por acharem o mundo insuport vel, desviam-se da realidade.` Mas estão longe de desdenhar a realidade ao se afastarem

dela; não importa quão desfigurado, quão irreconhecível, o mundo est

sempre presente neles.
0 mundo est presente até nos psicóticos, cuja fuga da realidade

#


é muito mais arrebatada. Daniel Paul Schreber, o manual cl ssico do

paranóico, atesta com eloqüência essa interação indireta. No seu

memorando exaustivo, um pedido para ser libertado da instituição

mental em que estava confinado, Schreber desenvolveu uma intrincada

teoria sobre o universo, completada com uma teologia madura, uma

missão messianica que requeria que ele sofresse uma transformação

sexual radical, e instrumentos engenhosos de tortura aos quais tinha

sido obrigado a se submeter. Apenas a aglutinação da língua alemã

pode fazer justiça ...s suas invenções kaffiarias; um testemunho disso

é a maquina miraculosa. planejada por Schreber para manter a

sua cabeça conectada, a Kopi=sammenschnürungsmaschine. Nada poderia parecer mais afastado da vida real do que isso. Ainda assim,

a investigação psicanalítica do apelo revela que o seu sistema religioso

e aquelas m quinas aterradoras repercutem as experiências infantis de

Schreber. " Seu pai, um ortopedista e na época uma celebridade, tem

sido chamado de "reforrnador social, médico e pedagógico"; " em

outras palavras, era um excêntrico culto e um educador neurótico que

regularmente colocava o seu filho, Daniel Paul, e seus outros filhos,

em aparelhos mecânicos planejados para melhorar a postura infantil.

Quando se compara a petição por livramento de Schreber, completamente insana, de uma lógica espantosamente comovente e superlativa

com os tratados ilustrados graficamente de seu pai, fica-se menos

impressionado com a inventividade de Schreber e mais com a engenhosidade de sua mente para incorporar e reconstruir todas as suas

atribulações, excessivamente reais, em uma Weltanschauung coerente,

embora irracional. Schreber imaginou relativamente pouco; contudo,

distorceu quase tudo, com freqüência apenas levemente.


0 modo de proceder de Schreber est longe de ser incornum

entre os pacientes de hospitais mentais. Os tributos que os psicóticos

pagam ... realidade, e para os quais Freud forneceu explicações importantes tanto teórica como clinicamente, estão suficientemente documentados na literatura psiqui trica. Assim, "pouco depois da Segunda

Guerra Mundial", August Hollingshead e Frederick Redlich relataram

que "alguns pacientes japoneses mudaram os seus delírios paranóicos
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de serem o imperador Hirohito para serem o general MacArthur . 1 -,

Essa importância patética, ao que parece, e comum. Aqueles japoneses megalomaníacos, ao escolherem para suas personificações delirantes um conquistador americano que realmente havia vencido o seu

próprio imperador divino testemunham de forma impressionante o

realismo invulgar, a completa racionalidade com que os loucos podem

escolher" as formas que os seus sintomas tomarao,
Certamente, o peso que o neurótico confere ao desprezo sofrido

ou o e~;tatuto que o psicótico d ...s vozes que ouve não podem sobriamente ser chamados de realistas. Ainda assim, deveria estar claro

agora que as vidas mentais dos neuróticos e dos psicóticos são tapeçarias que, embora torcidas, descoloridas, são remendadas com uma

costura in bil e retratam cenas fant sticas, tecidas com fibras significativas tiradas da vida, de desprezos e de vozes reais. Seja demente,

neurótica ou esteja apenas adormecida, a mente humana necessita e

avidamente procura re


presentaçoes realistas que favoreçam a visibilidade, a precisão e a nitidez pictórica, enquanto corporificações de

seus impulsos e ansiedades - e encontra o que precisa nas suas

vizinhanças imediatas. As pessoas tornam-se neuróticas, ou loucas, em

uma situação específica. Nunca são assaltadas por alguma neurose geral ou fobia indefinida, mas tecem seus sintomas a partir de histórias

ouvidas, incidentes vistos, ansiedades sentidas, todas expressas através de um vocabul rio pictórico e verbal que partilham com os seus

contemporâneos mais afortunados. E tanto a situacão como o vocabul rio são o ingresso do historiador para entrar no mundo psicanalítico.


0 que é verdadeiro para os neuróticos e os psicóticos necessariamente é ainda mais verdadeiro para aqueles cuja relação com o seu

meio humano é menos perturbada, ou seja, menos distorcida. Enquanto

as habilidades motoras e as capacidades mentais da criança descrivolvem-se, ela passa, segundo a formulação freudiaria sucinta, do

princípio do prazer para o principio da realidade, No início, Freud

postulou que a criança procura satisfação ao alucinar os seus desejos

imperativos. No começo, ignorante, e mais tarde, incerta sobre os

limites que a separam do mundo, e, por muito tempo, incapaz de

diferenciar entre pensamentos e atos, é levada a descobrir, através

de desapontamentos dolorosos e repetidos, que os desejos não se traduzem automaticamente em realidade e que a auto-suficiência mental

é uma ilusão. Assim, gradualmente e através de numerosos retrocessos,


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o aparelho psicológico da criança decide por fim ver o mundo externo

como ele é realmente, e com isso tentar realizar os seus desejos através

da modificação daquele. " Aqui, como em outros lugares, Freud subscreveu a m xima baconiana de que conhecimento é poder. A longo

#


prazo e melhor enfrentar verdades desagrad veis do que gozar ilusões

agrad veis. Esta é a lição dada pelo princípio da ~realidade que a

criança aprende com tanta relutância. Não é de admirar que muitos

adultos recorram ... auto-ilusão.


0 animal humano não amadurece através de um desdobramento

suave c coordenado de suas potencialidades. Muito ao contr rio, as

linhas de seu desenvolvimento emocional e intelectual estão defasadas

da maneira mais problem tica possível; em especial, as pulsões sexuais

resistem em abandonar o princípio do prazer. ` Ainda assim, finalmente podem assimilar o mundo externo com seus recursos mentais e

físicos completos, uma adaptação comprometida apenas pelas coerçoes

impostas pela sua neurose. Seus desejos sexuais, no início claramente

auto-eróticos e que então se organizam em torno do amor narcisista,

desviam suas intenções amorosas do self e procuram satisfação com e

através dos outros; ao desabrocharem os seus poderes de atençao,

juízo, recordação, pensamento - um ensaio pr tico para a ação exibem todos a sua ligação crescente com uma apreensão racional da

realidade. Talvez o mais impressionante: ao desenvolver todas essas

capacidades, o princípio da realidade ensina a criança a pospor as

gratificações. A educacão apóia essa busca pelo real ao postular objetivos e ao estabelecer limites, ao impor um reconhecimento compulsório dos outros; é "um incitamento", como Freud colocou literalmente, a vencer o princípio do prazer. Mesmo a arte, o refúgio h bil

da realidade, retorna ao oferecer uma nova visão da própria realidade.

Freud escreve que o artista "modelar suas fantasias em novas especies de verdades que encontram abrigo entro os homens enquanto

reflexões valiosas sobre a realidade". "
0 historiador não tem nenhuma razão para ser sentimental, mais

do que Freud teria, a respeito desses pequenos triunfos, Nunca são

puros mas sempre comprometidos por fracassos parciais. A experiência

dos historiadores com essas imperfeições inevit veis são mais agudas

no seu próprio trabalho; colocam-se os ideais recomend veis de objetividade, imparcialidade e empatia, mas sabem que nunca podem atingi-los, mais do que a psicanálise chega a realizar totalmente o seu ideal,

a pessoa completamente analisada. Além disso. as realidades que o


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indivíduo toma como suas podem ser terríveis como podem ser as

razões que o levam a assimil -las desde o início. A resolução do

complexo de Êdipo est , como sabemos, ligada ...s ameaças (ou pelo

menos ao medo) de castração. Pior, uma apreensão cuidadosa da

realidade externa pode gerar t ticas problem ticas assim como problemas éticos. Os prazeres, como argumentou Heinz Hartinarin, são

,, guardados para a criança que se conforma ...s exigências da realidade

e da socialização; mas estão igualmente disponíveis se esse conformismo significa a aceitação pela criança de pontos de vista err"neos e distorcidos que os pais têm a respeito da realidade"." A criança na sua

situação doméstica normalmente trocar os prazeres da ação independente e do conhecimento acurado por aqueles que os pais prezam e

têm aceitação social; o filho de pais preconceituosos descobre que é

recompensador crescer corno um preconceituoso; o filho de autorit rios crescer como um conformista. Não é de se espantar que Freud

fosse um pessimista. Ele endossaria a observação de T. S. Eliot de

que a humanidade suporta apenas um pouco de realidade.


Dar aos pequenos sonhadores um pouco de juízo sobre os prazeres

maculados pelo conhecimento mundano é em larga medida o trabalho

do ego. 0 procedimento que as crianças desenvolvem enquanto circulam em torno, e cada vez mais próximos, do princípio da realidade

é o que Freud chamou de "teste da realidade", a construção de juízos

imparciais que diferenciam fantasias de realidades ao comparar as

idéias com as percepções - ao separar o que se deseja daquilo que

se vê, ao ser capaz de ver o que se vê, em suma, em aceitar o universo.

Foi na sua última grande fase, durante a década de 1920, que Freud

dirigiu a sua atenção para a instituição que realiza esse teste. 0 ego

reage ao mundo externo, é seu agente e representante na mente e ...s

vezes o seu mestre. É a base da razão. Mas realidade e razão são

amigos íntimos sem serem companheiros insepar veis: o raciocinio

matem tico ou a meditação lógica, que estão no pice da atividade

racional, freqüentemente levam pouco em conta, ou nada, a experiência; tecem padrões afastados do mundo. Mas, na sua maior parte,

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