Freud para historiadores



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a racionalidade desempenha a tarefa de confrontar realidades de uma

maneira que não é feita pelo pensamento irracional: obedecer ... evidência empírica, acatar as pistas objetivas, corrigir convicções. É na

sua mediação, controle, c lculo, uma atividade freqüentemente ponderada e sempre conturbada, que o ego fornece sua lista de materiais

para o historiador. Ouando eu disse que os historiadores senicm-se


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... vontade com as realidades toscas, é isto o que quero dizer: quando

lidam com a mente, lidam principalmente com as funções egóicas com o reconhecimento humano de uma necessidade inescap vel, com

os seus esforços propositais para adequar o meio aos seus desejos,

com fazer as coisas em obediência ...s possibilidades impostas pela

pressão do mundo sobre ele.
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Portanto é importante ter claro o que implica e o que não implica uma psicologia do ego psicanalítica. 0 seu nome é em alguns

sentidos infeliz. Psicologia do ego não faz jus ao realismo sombrio

de Freud; não é de modo algum psicanálise sem psicanálise. Embora considere o funcionamento da razão corno o seu domínio, a psicologia do ego não se limita de nenhuma forma ... razão. Os estratagemas defensivos - projeção, recalque, formação reativa, e outros

- são funçoes egoicas quase totalmente inconscientes e não racionais. Assim como Freud nunca tomou como equivalentes "mental" e

I( consciente", também não tomou como tais "normal" e "racional".2'

Isto somente sublinha o ponto de que as pesquisas dos psicólogos do

ego, articulam-se com o resto da investigação psicanalítica para trabalhar na direção de uma teoria abrangente da mente. Não posso deixar

nunca de enfatizar (e isto é importante para o historiador) que Freud,

o médico e, mais ainda, o cientista, objetivou desde o início uma

psicologia geral. Que as suas teorias tenham se originado dos seus

encontros clínicos com uma diversidade variegada de neuróticos foi

um acidente histórico que, ele confiava, não deveria obscurecer o seu

acesso as leis que governam o funcionamento normal.


3. Uma escala de adequação
A ambição dominante de Freud, ligada ao seu modelo desenvolvimentista do conflito e ... sua insistência em detectar componentes

neuróticos ocultos no mais frio dos c lculos, coloca em sérias dúvidas

a percepção convencional de como as suas idéias podem servir para

a investigação histórica. Poderia parecer que o senso comum dita uma

escala de adequação: na esfera da racionalidade, a psicanálise deveria

permanecer muda. Em relação aos sentimentos e ...s condutas não

racionais, ... vasta região de h bitos sociais e culturais que chamamos

de costume ou tradição, ela teria idéias esclarecedoras para contribuir,

dividindo as honras de uma disciplina auxiliar com a antropologia e a
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sociologia. Portanto, Freud estaria no seu meio próprio principalmente

com a irracionalidade, impondo um monopólio virtual de competência

explicativa.
Mas aqui, como é tão freqüente, o senso comum erra. Os psicanalistas declaram com firmeza a sua competência em explicar a

racionalidade, não apenas porque a vêem emaranhada continuamente

com o não racional mas, acima de tudo, com as fontes irracionais da

ação; também devido ao seu interesse no funcionamento do ego que

objetiva tornar a humanidade mestra da natureza e de si mesma. Na

verdade, Freud em 1914 repudiou, de forma suficientemente signíficativa quando falava sobre aquela paixão tão interessante psicanaliticamente, a da cobiça pelo lucro: "Esperamos de pessoas normais 11 ,

escreveu, "que mantenham a sua relação com o dinheiro totalmente

livres de influências libidinais e a regulem por considerações realistas" . 2'.4 Isso é um fator revigorante e estratégico de modéstia, mas,

como a teoria psicanalítica poderia ter ensinado a Freud, as ídéías

mais sensíveis e o comportamento de "pessoas normais", quaisquer

que sejam, são muito mais parecidos com sonhos manifestos ou sintomas neuróticos: formações de compromisso compostas de desejos

arcaicos e resíduos diurnos, gestos impulsivos e estratagemas ponderados. Que medida de racionalídade histórica d -se a certos atos

históricos - Napoleão invadindo a Rússia em 1812 ou a Ing aterra

abandonando o padrão ouro em 1931 - deve depender do ponto de

vista a partir do qual é feito o julgamento sobre eles: se a partir da

percepção imediata do agente ou de seus objetivos a longo prazo, se

a partir do impacto que o seu ato causar no seu círculo íntimo ou

em campos mais vastos de implicação, como a sociedade ou a

posterídade.
Entre os muitos exemplos que ilustram o lugar problem tico da

racionalidade na ação humana, citarei apenas o do comerciante obsedado de Max Weber. Essa própria encarnação da ética protestante

pensa apenas no seu negócio e em ganhar dinheiro; não pode dar a si

mesmo um descanso, muito menos aposentar-se.` Na versão do século XX, esse tipo muito citado goza de um lugar privílegiado no

folclore do masoquismo capitalista, É encontrado na literatura sobre

o burguês que pune a si mesmo enquanto gerente obsessivo cuja

conduta no escritório ou na f brica é impecavelmente controlada,

ainda que simples e gentil, mas cujas horas longas e intensas de

trabalho são pontuadas com ansiedade e cuja vida privada é prova

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velmente, no mínimo, desastrosa. Oprimido por úlceras, isolado por

toda a sua sociabilidade compulsiva, sem amigos nos momentos em

que sofre reveses, rico e miser vel, freqüentemente serviu como prova

da desumanidade do capitalismo, mesmo para os seus benefici rios.
Embora essa tendência moralizante. realmente não avance na an #

lise do cen rio emocional onde tais ações presuntivelmente racionais

são desempenhadas, aponta para a sua natureza complexa. Certamente,

11 racionalidade" é um nome geral, demasiadamente indeterminado, para

discriminar entre operações mentais divergentes que se pretendem

descrever; a distinção cl ssica entre Zweckrationalitãt e Wertrationalitãt pelo menos começa a estabelecer diferenças salutares, A primeira,

racionalidade com vistas a propósitos, concentra-se exclusivamente na

adaptação dos meios ao fim, a aplicação de qualquer conhecimento

ou informação disponível para resolver um problema ou realizar um

desejo. Um ladrão de bancos que carrega o conjunto mais avançado

de ferramentas e toma as mais cuidadosas precauções est exercendo a

sua racíonalidade com vistas a propósitos na sua forma mais pura. Do

mesmo modo o diplomata que astutamente engana seu par durante

negociações ao oferecer concessões altissonantes mas vazias. Atividades

como essas convidam a urna avaliação interna, técnica, preocupada

exclusivamente com os padrões que governam o ofício em questão:

arrombamento, diplomacia. Tal avaliação não oferece ponto de apoio

para explicações psicanalíticas, mas é também, e do mesmo modo,

indiferente a todas as outras espécies de apuração externa, sejam

sociológicas, econ"micas, políticas ou éticas. Os únicos julgamentos

relevantes para avaliar a racionalidade com vistas a propósitos são se

as intenções do agente têm uma oportunidade razo vel de ser corciadas de sucesso ou se foram atingidas na sua execução.


É quando o historiador começa a envolver-se com as intenções

em si mesmas, entrando assim no terreno da racionalidade com vistas

a valores, que a psicanálise adquire uma função mais visivelmente

explicativa. Pois os valores que as intenções corporificam. podem em

si mesmos não ser totalmente racionais. É bastante óbvio que a conduta do negociante weberiano é simultaneamente racional, não racional

e irracional, É racional em seus métodos: persegue, lucidamente, com

todos os recursos ... sua disposição, fins que não acha necess rio

questionar. É não racional em seus objetivos: falha em examinar os

seus fins em grande parte porque eles reativam h bitos e imitam

escolhas de outrOs que ele admira. É irracional nas suas origens: a


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simplicidade fan tica do seu planejamento, que o cega para as conseqüências delas até para si mesmo, pode somente se originar de

necessidades e ansiedades que escapam a qualquer consciência de si

que possa ter. 0 fracasso da sua razão em justificar-se, oculto por

tr s de uma exibição ostensiva de esquemas observados e alvos atingidos, é apenas mascarado pelo aplauso dos seus pares, A aprovação

deles é um sintoma cultural. 0 que ocorreu (e, de acordo com Max

Weber, tinha de ocorrer nos dias do capitalismo maduro) é que, ao

isolar a sua caça por lucros e poder do resto da sua economia mental,

ele contaminou as suas percepções e corrompeu os seus ideais. 0 que

se exibe como racional pode ser profundamente irracional. 0 psicanalista pode dissolver esse paradoxo aparente: cada uma das instituições fundamentais da mente - id, ego, superego - tem objetivos

próprios que muitas vezes, com demasiada freqüência, entram em

conflito com os objetivos das outras. 0 velho lugar-comum psicanalítico, o ego é o inimigo do id, simplifica em excesso uma cena

complexa de combate na qual as alianças se modificam, os confrontos

aumentam e diminuem. '5 Muito da história pessoal é a somatória de

tais conflitos.


A esfera não racional, por sua vez, apresenta ao historiador um

número muito menor de enigmas intelectuais e um pedido muito mais

premente para a utilização do psicanalista. Os homens, na maior parte

da sua vida, agem a partir de pistas familiares e orientam-se por

indicadores habituais, Não criam e raramente modificam o seu mundo,

e ocupam estruturas - morais, religiosas, legais - que conservam e

preservam o que tem sido. Esses "automatismos" culturais, para tomar emprestado um termo de Heinz Hartmann, dispensam o pensamento de muita fadiga. De uma maneira que não surpreender o

psicanalista, essas soluções sociais para problemas individuais tornam

a vida mais f cil. As pulsões, afinal de contas, como Freud sustentou

consistentemente, são conservadoras por sua própria natureza; mudança, mesmo para melhor, é propensa a suscitar ansiedade. 0,costume

e a tradição, essas repetições organizadas, com a sua monotonia

tranqüilizante, sua recusa axiom tica em examinar as suas origens e

questionar as suas operações, amenizam e moderam as ansiedades,
Em si mesmos, os h bitos institucionalizados oferecem ao historiador um sem-fim de materiais interessantes; desafiados pela insatisfação e pela inovação, tornam-se ainda mais interessantes. Muito semelhante ao que ocorre com o comportamento racional, o governado pelo
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costume pede para ser julgado, a partir de um contexto específico,

através de experiências concretas. 0 que é adaptativo para uma pessoa, uma classe, uma época, pode não ser para outras pessoas, outras

classes, outras épocas. Em tempos de insurreição, a recusa em reformar

estilos de pensamento e padrões de autoridade pode favorecer o pânico

ou a raiva, e pode gerar, mais do que controlar ou resolver, conflitos.

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Durante esses momentos alegres e assustadores, que o historiador h

muito considera tão absorventes, momentos quando o conjunto dos

costumes começa a se desagregar, o não-racional projeta a sua sombra,

e é freqüentemente superado pelo irracional. É aqui que as oportunidades de desempenho para os psicanalistas enquanto especialistas

têm sido reconhecidas (pelo menos, por alguns historiadores) como

sendo quase ilimitadas. Afinal de contas, foi na irracionalidade coletiva

- nas respostas desordenadas dos homens ...s epidemias devastadoras,

aos líderes carism ticos ou ...s cat strofes econ"micas - que William

Langer em seu famoso discurso presidencial elaborou o seu pedido

para que a profissão histórica encontrasse usos para a psicanálise no

seu trabalho. Até historiadores inclinados a serem céticos em relação

...s idéias freudianas têm relutantemente reconhecido nelas uma certa

eficiência no campo da " psicopatologia social". "
Excepcionalmeilte, as aparências não são completamente enganosas. A conduta impulsiva, os entusiasmos auto-ilusórios, as ansiedades

endêmicas parecem ser o domínio de competência próprio do psicanalista. Aqui nos acenam discernimentos excitantes. Mas, precisamente

nessa conjuntura promissora, os que manejam o bisturi freudiano têm

muito freqüentemente sucumbido a uma confiança inapropriada e a

diagnósticos apressados: as tentações são pelas mesmas razões tão

intensas quanto as promessas que assomam. É verdade que Freud

advertiu enfaticamente contra a convocação da sua disciplina para

esses"atos de agressão. "Em minha opinião", escreveu em 1922 para

um correspondente americano, "a psicanálise nunca deveria ser usada

como uma arma em polêmicas liter rias ou políticas". ` Ainda assim,

uma vez suficientemente enfurecido, mesmo Freud podia não corresponder aos seus rigorosos ideais profissionais. No estudo psicológico

notório e póstumo sobre Woodrow Wilson, escrito na sua maior parte

por William Builit mas com a aprovação de um Freud idoso, ele

permitiu que a sua aversão ao Messias auto-intitulado e intruso do

Ocidente superasse a sua neutralidade analítica cuidadosamente cultivada. Desde então, na sua sombra, a psicanálise de políticos
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odiados, vivos ou mortos, tornou-se uma pequena indústria inferior e

irritante. `


Analistas, algumas vezes, permitem-se esse jogo destrutivo. 0

mesmo ocorre com historiadores. E. P. Thompson, em seu brilhante

e extremamente influente Making of the englisli working class, mobilizou vingativamente o vocabul rio psicanalítico, fato que ele deplora quando usado por outros contra radicais que aprecia, contra

uma comunidade religiosa que ele detesta. "0 que não devemos fazer",

assinala, de forma suficientemente ponderada, "é confundir 'excêntricos' puros e aberrações fan ticas com as imagens -- da Babil"nia

e do exílio no Egito e a Cidade Celestía1 e a luta com Satã ---- através

das quais os grupos minorit rios articularam sua experiência e projetaram as suas aspirações por centenas de anos". Na verdade, "porque as imagens luxuriantes algumas vezes apontam para objetivos

o

claramente ilusórios, isto não significa que possamos concluir apressadamente que indicam um 'senso de realidade' cronicamente defeituoso", Afinal de contas, o "o 'ajustamento' abjeto a sofrimentos e



carências pode indicar ...s vezes um senso de realidade tão falho como

aquele do mais quiliasta". Mas essa precaução sensível contra a

redução de injustiças sociais reais a desordens psicológicas acaba por

se revelar politicamente prestativa para o autor, pois Thompson deixa

de estendê-la aos metodistas, cujo impacto anti-revolucion rio sobre

as classes trabalhadoras inglesas despertou a sua ira. As fantasias

luxuriantes dos metodistas, escreve, mostram "meios-tons de histeria

e de sexualidade prejudicada ou frustrada", uma "preocupação mórbida com o pecado e com a confissão do pecador", um "culto ao

'Amor' que teme a expressão efetiva amorosa, seja corno amor sexual

ou qualquer forma social que possa irritar as relações com a Autoridade", e uma "preocupação com a sexualidade" obsessiva que

11 revela em si mesma um erotismo perverso das imagens metodistas"."' H boas razões para supor que tanto a advertência de Thompson contra o reducionismo, quanto a sua an lise das origens eróticas

subjacentes ...s imagens metodistas sã o suficientemente corretas. Mas

a utilização imparcial de conceitos psicanalíticos e de métodos históricos teria revelado que o quiliasmo dos radicais apresenta raízes

eróticas não menos ocultas, nem menos "perversas" que as presentes

nos metodistas, e que eles, não menos do que os radicais, merecem ser

estudados com simpatia, mais do que serem sujeitos a urna intensa

procura pela psicopatologia. A psicanálise aplicada corretamente não
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favorece padrões duplos desse tipo; sua contríbuição para o historiador que visa a objetividade é a de auxili -lo a detectar e a desarmar

os seus preconceitos, não de fornecê-los,


Não se pode negar que arrancar a psicanálise da sua esfera habitual, a situação analítica, é uma tarefa arriscada. Mas o lucro que o

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historiador pode ter ao explorar psicanaliticamente a razão e seus

inimigos faz com que os riscos valham a pena. Mostrei como Georges

Lefèbvre lutou para dar sentido ao lado psicológico da Revolução

Francesa, com o seu emaranhado sutil de idealismo fan tico, sua

resistência conservadora e o planejamento cuidadoso que caracterizou as percepções e as políticas de seus participantes. 0 instrumental

fretidiarto poderia ter amenizado as suas perplexidades, pois expõe os

produtos mentais a partir de explicações dinâmicas, dotadas de múltiplas camadas e mais adequadas para a sua natureza composta e

intrigante do que as grandes simplificações que a maioria dos historiadores setite-se levada a acatar como satisfatórias.


A pertinêncía para o historiador da forma psicanalítica de lidar

com a realidade externa é menos definida. Sabemos que, para o analista, essa realidade é claramente secund ria em relação ... realidade

psicológica das fantasias e das representações mentais. Os mundos da

psicanálise e da história, eu disse no inicio do capítulo, são mundos

diferentes. Eles devem e irão permanecer assim. Mas do mesmo modo

que o historiador pode, sob o impacto da psicanálise, ampliar e

enriquecer o seu sentido sobre a realidade histórica, os psicanalistas,

atentos ao que os historiadores têm descoberto sobre os eventos passados, podem ampliar e enriquecer o seu sentido sobre a realidade

psíquica. Mesmo o indivíduo isolado que o psicanalista encontra na

situação clínica é, afinal de contas, um animal social que povoa o

seu inconsciente, constrói os seus sonhos, alimenta as suas ansiedades

com experiências que retira do mundo que habita, Mas isto merece

um capítulo próprio.
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Do divã

para a cultum


Em 1913, ao fazer um levantamento sobre as contribuições que

a sua disciplina j havia dado ao estudo da cultura, Freud especulou

sobre as maneiras através das quais a sua psicologia individual poderia

contribuir para a exploração da experiência coletiva. "Psican lise",

escreveu, "estabelece uma conexão íntima" entre as "aquisições psico16gicas de indivíduos e de coletividades ao postular a mesma fonte

dinâmica para ambas. Parte da idéia fundamental de que a função

principal do mecanismo mental é a de aliviar a pessoa de tensões

criadas nela pelas necessidades. Uma parte desta tarefa pode ser

realizada através da obtenção de satisfação no mundo externo; para

este propósito é essencial ter um domínio sobre o mundo real". Mas

desde que, acrescenta, "a realidade regularmente frustra a satisfação

de outra parte destas necessidades, entre as quais, significativamente,

estão certos impulsos afetivos 11, o animal humano confronta-se com

uma "segunda tarefa, a de encontrar algum outro modo de liberar os

impulsos não satisfeitos". Persuadido de que a psicanálise j tinha projetado brilhantes fachos de luz sobre as origens da religião e da

moralidade, da justiça e da filosofia, Freud conclui que "toda a

história da cultura demonstra apenas os métodos que a humanidade

adotou para dominar os seus desejos insatisfeitos sob condições mut veis, ainda mais modificados pelo progresso tecnológico, desejos

algumas vezes admitidos, algumas vezes frustrados pela realidade".

Essa passagem, penso, é nada menos do que um programa ambicioso

para historiadores, um convite cujas implicações nem psicanalistas

nem historiadores começaram ainda a explorar. '


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Existem outros em abundância nos escritos freudianos. De forma

bastante concreta, Freud pensou a consciência como um legado social

que o indivíduo internaliza e portanto o torna próprio. "0 guardião"

do ego ideal foi iní(-ialmente transmitido pela "influência crítica" dos

pais, acrescida, mais tarde, pelos "educadores, professores", para não

falar do "enxame" intermin vel das influências culturais que incluem

11 os homens, a opinião pública". Em um dos seus últimos ensaios,

provavelmente o mais citado a respeito da cultura, Civilization and ...s

discontents, ele desenvolveu, em alguma extensão, a idéia de um

superego cultural. Mesmo de forma mais geral, em Totem and Taboo,

j havia argumentado que a explicação completa de um problema

"deveria ser histórica e psicológica ao mesmo tempo". Sua proposta,

embora aqui restrita especificamente ao toternismo, reivindica validade

para todo um campo da experiência humana que precisa ser explicado. Novamente, ao abrir a sua monografia sobre a psicologia das

massas, Freud sustenta enfaticamente que o contraste "entre individual e social ou psicologia das massas", aparentemente tão intransponível, "perde muito de sua agudeza após um exame mais acurado".

Afinal de contas, "na vida mental do indivíduo, o Outro é com bastante regularidade tomado como um modelo, um objeto, um auxiliar

e um advers rio, Assim a psicologia individual é, no seu sentido

extenso, mas totalmente justificado, desde o início e, ao mesmo

tempo, uma psicologia social".-' Para Freud, sociologia e outras ciências sociais são parasit rias da psicologia,
Essas são proposições audaciosas, mas o leitor destas p ginas não

pode ach -las particularmente inesperadas, De direito e de fato, este

capítulo deveria ser menor; ele somente extrai as implicações do que

eu j disse sobre a concepção psicanalítica da natureza humana, sobre

as dimensões sociais do complexo de Édipo e sobre o homem enquanto

animal cultural em geral. Mas a dúvida do historiador se, no limite, a

psicanálise pode mesmo aplicar-se a mais do que a vida individual

justifica uma exploração mais extensa sobre o meu tema. "A história

psicanalítica", argumentou Donald B. Meyer, "deve ser biogr fica na

sua orientação". ' É, bem verdadeiro que qualquer ambição freudiana

em fornecer uma iluminação mais ampla suscita algumas questões

difíceis. Afinal de contas, os últimos esboços de noções freudianas

sobre a mente "racial" ou sobre as disposições psicológicas e coletivas

heredit rias que freqüentam o seu trabalho têm sido extirpados pelos

seus su(-ssores como redundantes, vestígios quase embaraçantes de
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superstições científicas do século XIX a respeito de urna "alma grupal". As portas duplas do psicanalista que protegem o seu consultório, a sua resistência a experimentos com grupos terapêuticos, a

sua paixão devotada ... confidencialidade, comprometida apenas pelas

publicações ocasionais de materiais clínicos em artigos científicos, totalmente disfarçados - tudo centraliza a atenção continuamente para

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