Freud para historiadores



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o paciente isolado, sozinho consigo mesmo, com seu inconsciente e

#

com seu analista. De qualquer maneira, o di logo entre o analista e



o analisando é uma espécie de conversa consigo mesmo, na qual um

parceiro fica calado quase todo o tempo. Nas mãos do psicanalista,

generalizações extensas sobre "a" experiência de toda uma classe ou

cultura provavelmente se dissolvem em asserçoes cuidadosas e discriminativas sobre experiências no plural.


Portanto, não é um acidente que tenha sido um sinal de raridade

o fato de a American Psychoanalytic Association, durante os scus en contros de outono em 1977, ter oferecido um painel sobre o "conhe cimento psicanalítico de processos grupais"; seu coordenador, Burness

E. Moore, encerrou-o com a tênue esperança de que analistas pode riam doravante "discutir processos grupais com mais freqüência do

que uma vez em cada 21 anos".' Nem é um acidente que quando

historiadores utilizam-se de Freud para analisarem a conduta coletiva,

quase invariavelmente ampliem as met foras retiradas da terminologia

psicanalítica e originariamente planejadas segundo propósitos mais

estreitos e muito menos el sticos. Isso foi o que Richard Hofstadter

fez no seu ensaio sobre o estilo paranóico na política americana; isso é

o que alguns outros historiadores têm feito nos seus esforços para le rem revoluções diretamente como combates edípicos, levemente dis farçados, ou para apreender uma época ao rotul -la de época do

narcisismo. A idéia freudiarta central de que todo ser humano est

contínua e inextricavelmente envolvido com outros e de que a psico logia individual e a social são no fundo a mesma é uma versão

moderna e sofisticada da velha idéia - tão antiga quanto Platão de que o indivíduo é a cultura escrita em letras minúsculas, e a

cultura, o indivíduo escrito em letras maiúsculas. Usada sem precau ção, essa assimilação imaginativa de duas entidades muito diferentes

pode levar a simplificações excessivas e patéticas. Freud não era um

i pensador simplório. Mas as suas proposições relativas ... psicanálise

da cultura requerem an lises ma;s meticulosas, demonstrações mais

sólidas do que aquelas feitas até agora - incluindo as freudianas,

1,
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i
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1 ~ Além da biografia
Sigmund Freud não foi de nenhum modo o primeiro a observar

que os corpos coletivos - a turba em revolta, um exército em batalha,

uma nação em guerra - submetem-se a impulsos que os seus mem

bros normalmente controlariam, provavelmente repudiariam, quando

não desfrutam da presença envolvente de outras pessoas com a mes

ma crença ... sua volta. Por razões evidentemente políticas, a conduta

impredizível e inquietante do "rebanho" humano começou a ser estu

dada com intensidade e preocupação a partir da metade do século

XIX. Observadores sociais inquietos como Thomas CarIyle ou

Matthew Arnold, encorajados por um pequeno grupo de historiadores

tendenciosos e "psicólogos das massas" - Hippolyte Taine, Gabriel

Tarde, Gustave LeBon, e mais tarde Wilfred Trotter -, inquieta

ram-se com a democratização da cultura moderna enquanto uma

ameaça crescente ... conduta ordeira dos negócios públicos e ... solução

racional de problemas sociais. Nunca deixaram de oferecer como

evidência as paixões odientas desencadeadas pelas journées exaltadas

e sanguin rias da Revolução Francesa como um aviso sombrio contra

1irracionais de massas oprimidas e furiosas.

um coment rio sobre o
ra a a maior autoridade sobre

a psicologia das massas, amplia de forma significativa o campo de

pesquisa ao explorar os fundamentos ocultos da conformidade coletiva

em uma organização tão disciplinada como o é a Igreja Católica Romana.5 Seus resultados eram provisórios e parciais, mas, ao ligar

convincentemente o indivíduo aos seus parceiros em emoção, Group

psychology and the analysis of the ego, de Freud, cont6m, a1gumas

propostas informais bem-vindas que podem servir para melhorar as

relações não totalmente safisfatórias entre a biografia e a história.


É quase proverbial que todo historiador tem algo de biógrafo, e

todo biógrafo, algo de historiador. Ainda assim, h divergências marcantes entre as duas ocupações, e a sua interação, embora florescente, é freqüentemente tensa. Tão mal definidas como possam ser

as fronteiras entre elas, algumas biografias são inequivocamente o

trabalho de um historiador, outras não. Isto não é uma questão de

qualidade. Parece um exagero sugerir que, se Lytton Strachey tivesse

sido um pouco mais historiador, os ataques felinos dele contra os

figurões vitoríanos teriam sido mais justos para com os seus objetos.
as explosões se vagens e

A an lise freudiana, embora comece coir

t b lho de LeBon que fora anteriormente
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Teriam sido menos caricaturais se ele tivesse sido um pouco mais

biógrafo. Nem a diferença entre história e biografia é, medida pela

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alocação relativa de espaço. A distinção é mais sutil do que esta: o



historiador traz para a vida sobre a qual est escrevendo, ou para as

passagens biogr ficas que ajusta ... sua narrativa ou an lise, um comprometimento com o meio social relevante, uma sensibilidade informada e treinada sobre os mundos nos quais o seu objeto viveu. Espera-se que possua, e exiba, um sentido firme, profissionalmente disciplinado sobre o espaço e o tempo, sobre as possibilidades e coerções

públicas. Obviamente, não se pode usar uma psicologia que o deixaria atolado nos domínios esotéricos de pulsões fantasm ticas e em

dramas mentais misteriosos que devem ser decifrados. Mas a psicologia psicanalítica, embora as vezes possa ser pensada assim, é tudo

menos isso,
Freud construiu as trilhas que ligam a biografia ... história a

partir dos materiais humanos mais fundamentais: amor e ódio. Esses

apenas, acreditou, permitem aos grupos imporem laços sólidos que

tornam os seus membros submissos, ativos e intolerantes. LeBon,

sugeriu Freud, havia observado habilmente e descrito de forma inteligente as características comportamentais de multidões, mas fracassou em detectar as causas de sua coesão. Os estudiosos da sociedade,

sem excluir os escritores imaginativos, têm, certamente, sabido h

bastante tempo que, em grupos, os indivíduos podem retornar a estados primitivos da mente, sujeitar a sua vontade a líderes, desconsiderar restrições e o ceticismo sensível que a educação cultivou neles

tão dolorosamente. H p ginas em Guerra e paz, de Tolstoi, que

ilustram alguns desses mecanismos de forma perfeita: o jovem conde

Nicholas Rostov, junto com os seus companheiros, apaixona-se ... primeira vista pelo czar Alexandre 1: "Rostov que estava nas linhas

de frente do exército de Kutuzov, visitado pelo czar em primeiro

lugar, experienciou. o mesmo sentimento que todos os outros homens

no exército: um sentimento de perda de si, uma consciência orgulhosa de poder e uma atração apaixonada por aquele que era causa

desse triunfo". Rostov, quase fora de si, "sentiu que a uma simples

palavra daquele homem toda aquela vasta massa (e ele mesmo era

nela um tomo insignificante) atravessaria ferro e fogo, cometeria crimes, morreria ou realizaria façanhas do mais alto heroísmo, e portanto tremia, com o coração parado, na iminência daquela palavra".

Estar perto do imperador era a felicidade real para o jovem entusiasta.
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"Estava feliz como um amante para quem chega o momento de um

encontro h muito ansiado." Tolstoi, de fato, é bastante explícito sobre as emoções de Rostov: "Ele estava realmente apaixonado pelo czar

e pela glória das armas russas e pela esperança de um triunfo futuro".

Nem - e isto é o mais significativo - era "o único a ter aquele

sentimento durante os dias memor veis que antecederam a batalha de

Austerlitz; cada nove homens em dez no exército russo estavam apaixonados, embora menos arrebatadamente, pelo seu czar e pela glória

das armas russas"." Pode-se entender por que Freud teria dito que

invejava os romancistas e os poetas por chegarem, através de pura

virtuosidade, a certos discernimentos psicológicos que lhe tomavam

anos para extrair de seus pacientes.


Ainda assim, o que Freud fez ao analisar esses fen"menos ... luz

da sua psicologia posterior do ego não foi apenas encontrar um novo

vocabul rio para cenas familiares. Ele explicou-as. "Na reunião dos

indivíduos na massa, desaparecem todas as inibições individuais, e

os instintos cruéis, brutais e destrutivos, adormecidos em cada um

como relíquias de unia era mais primitiva, são despertados para procurar uma livre satisfação pulsional." 7 A caça grupal fornece a espécie de prazer que a supressão das inibições geralmente favorece;

gera um sentimento de segurança e diminui o perigo de colocar-se em

oposição com o poderoso. Freud entendeu esse abandono das perspectivas e controles adultos como uma orgia luxuriante e regressiva. Mas,

apesar de todos os seus prazeres sedutores, esse feriado moral carregado de afeto raramente é destinado a se tornar permanente. Depois

de prolongados reveses ou em momentos de pânico, os laços libidinosos que mantêm a multidão coesa podem enfraquecer-se, e o grupo

pode então fragmentar-se ou desintegrar-se.
A formação grupal, argumenta Freud, envolve dois conjuntos de

identificações inconscientes: os membros do grupo identificam-se entre

si e, coletivamente, com o líder. Isto não é invariavelmente um retorno

a formas completamente primitivas de sentimento e conduta: o líder

não precisa ser uma pessoa; pode ser uma idéia, Além disso, os

grupos, ligados por laços invisíveis de lealdade amorosa e fé inquestion vel, podem viver de acordo com padrões morais mais elevados

do que aqueles que os seus membros atingiriam individualmente, E

11 na medida em que se trata de desempenho intelectual", Freud escreveu, 11 permanece certamente verdadeiro que as maiores realizações

intelectuais, as descobertas importantes e as soluções de problemas
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são possíveís apenas para o indivíduo, que trabalha solitariamente,

Mas mesmo a mente da massa é capaz de criações mentais geniais,

como comprova, acima de tudo, a própria linguagem, ou a música

popular, o folclore, e outros. Além disso", acrescentou, em um daqueles apartes ponderados no qual reúne, de novo, a psicologia individual com a social, "permanece indecidível quanto o pensador indi#


vidual ou o poeta devem aos estímulos da multidão na qual vivem,

se não são mais do que os aperfeiçoadores de um trabalho mental

no qual outros participaram simultaneamente".


Diferente de outros psicólogos sociais de sua época, Freud considerou a total dificuldade de seu material. "Se se pesquisa hoje a

vida individual do homem", escreveu, quase resignado em fracassar,

"levando em conta as descrições mutuamente complementares dos

escritores sobre a psicologia da multidão, pode-se, ao considerar as

complicações que surgem aí, perder a coragem para fazer uma exposição abrangente". Afinal de contas, nos tempos modernos, "todo indivíduo é uma parte composta por muitas multidões, ligado de diversas maneiras através de identificações, e que construiu o seu ego ideal

a partir dos modelos mais variados". Pertence ... sua raça, ... sua classe,

... sua religião, ... sua nação e a grupos est veis, talvez menos proeminentes do que aquelas multidões espetaculares muito mais barulhentas, mas não menos significativas para a sua formação mental. Anteriormente, no seu artigo sobre o narcisismo, Freud j havia exposto

a mesma tese a partir de uma perspectiva diferente. "A partir do ego

ideaV, escreveu ali, "uma trilha significativa leva ... compreensão da

psicologia da multidão", pois esse ego ideal, que ele chamaria mais

tarde de superego, tinha 19 também, além do seu componente individual, um social", desde que "é igualmente o ideal comum de uma

família, de um estamento, de uma nação".'


As ligações intensas que constroem esses agrupamentos, menores

ou maiores, irrompem com ressentimento e raiva. As brigas familiares

podem tornar-se tão amargas quanto as que ocorrem entre clãs; hostilidades íntimas, cuidadosamente sepultadas, equivalem ao ódio que

freqüentemente estimula um grupo que se defronta com estranhos.

"Toda religião", escreve Freud, é "uma religião de amor para aqueles

que a adotam, e inclinada ... crueldade e ... intolerância para aqueles

que estão excluídos dela",' Como o amor, o ódio inicia-se no lar e

não termina nele.


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Ao propor uma teoria social tão pessimista, Freud estava escrevendo dentro de uma grande tradição de teóricos sociais que antes

dele havia entrevisto essas verdades monumentais. Thomas Hobbes, o

mais decididamente coerente dos seus antecessores intelectuais, j

havia argumentado, mais de duzentos anos atr s, que "o homem

nunca pode estar livre de um inc"modo ou outro", e investiu contra

11 a condição dissoluta de homens sem mestres" em uma guerra civil

an rquica, uma condição que Hobbes descreveu com uma série de

adjetivos incompar veis e potentes como "solit ria, pobre, sórdida,

brutal e breve". Na própria época de Freud, em 1901, o perspicaz

economista inglês e crítico social 1. A . Hobson p"de reafirmar essa

triste determinação numa linguagem que revela quão de perto as

idéias psicanalíticas podem corresponder ao pensamento sociológico

avançado de sua época: "o objetivo principal da civilização e do

governo é reprimir" os "anseios de sangue e de crueldade física"."

A contribuição peculiarmente freudiana foi a de fornecer as razoes

psicológicas para essa percepção um tanto triste do homem em sociedade e da sociedade em relação ao homem. Civilização, como a entendeu, é uma multiplicidade de coisas: uma arena para a criação artística, para a busca científica, para o cultivo das paixões, para o ganho

de dinheiro. Mas é também, e decisivamente, uma defesa coletiva

contra o assassinato e o incesto, onde cada cultura realiza a sua forma

própria de defesa e adapta o seu estilo a condições mut veis,
Pois, como os historiadores têm razões particulares para reconhecer, as instituições não podem permanecer imunes ...s pressões do

tempo e do poder. Só se necessita ler o instrutivo livro de Oliver

ac 9 1 i o emment ou a esplêndida história da

administração americana, The visible hand, para reconhecer que elas

continuamente tateiam por novas soluções, emancipam-se de suas origens primitivas em necessidades psicológicas inconscientes para adquirirem uma dinâmica única e servirem a interesses próprios. os historiadores marxistas não foram os únicos a assinalar que as instituições

podem ser presas de interesses especiais, corrompidas pelas classes

dominantes, e distorcidas por uma retórica criada para servir aos

seus próprios propósitos. Ainda assim, corno mostrei, a busca de tini

interesse privado racional tem componentes não racionais. Em 1850,

a nova constituição da Prússia continha a notória lei eleitoral das

três classes que agrupava os votantes de acordo com o valor dos impostos diretos devidos individualmente por elas. Isso significava que
M Dona h Early victor an g v I
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aqueles que, juntos, pagavam um terço dos impostos diretos na Prússia

elegiam tantos deputados quanto aqueles que pagavam o segundo terço

e os que pagavam o terço restante. As conseqüências, como o eminente historiador alemão Hajo Holborn exp"s taxatívamente, foi "um

sistema abertamente plutocr tieo"." Assegurou quase que o mono#


pólio do poder político para os Junkers e outros propriet rios de

terra, praticamente garantindo para os grupos que tinham interesses

próximos e comuns todas as recompensas que um sistema político

pode fornecer. Ora, esse fragmento de sofisma eleitoral elevado a

princípio constitucional foi, ao mesmo tempo, um artifício defensivo

astuto. Sensíveis ...s possíveis ameaças de cidadãos da classe média,

confiantes em si mesmos, e de uma consciência política que surgia

vagarosamente nas classes trabalhadoras urbanas, e sensíveis ...s intimidações das democracias externas e da revolução interna, os autores

das três leis eleitorais ajudaram a exorcizar as ansiedades de prussianos ricos e influentes. Não é suficiente desconsiderar esse estratagema

político como uma defesa totalmente consciente de privilégios estimados. Um modo de vida, prazeres domésticos e sociais, tradicionalmente

assegurados, pareceu estar em perigo. Negligenciar a política para concentrar-se na ansiedade é reduzir indevidamente a história a um mero

psicodrama; negligenciar a ansiedade para concentrar-se na política

- que, de longe, é o que mais ocorre entre os historiadores - é

empobrecer indevidamente a percepção que se pode ter do passado.
2. A partilha social
A descoberta de quão profundamente as emoções privadas estão

investidas na vida pública é apenas uma das formas através das quais

as teorias freudiarias podem levar a história para além da pura biografia. No capítulo anterior sobre a natureza humana j indiquei algumas das outras. Os ingredientes b sicos que constroem a experiência

possível, disse ali, estão estritamente limitados. Essa economia fundamental mantém-se, apesar de as pulsões componentes, como a dos impulsos libidinais, irem juntar-se em cada pessoa de acordo com o seu

ritmo particular e com a sua força de coesão distinta, Cada uma delas

sofre uma evolução única, dando lugar a essas variaçoes impressionantes na conduta e na cultura, simultaneamente encantadoras e assustadoras, que estão longe de serem predizíveis e que formam o material

da história. Com o seu humor amargo e diabólico, o cartunista Peter
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Arrio registrou uma vez essa unidade na diversidade humana ao mostrar um pequeno grupo de beldades curvilíneas, individualizadas atravês de quadrinhos, e proclamando-se "Miss Suécia", ou "Miss Tasmânia"; elas apresentam-se em traje de banho diante de juízes lascivos,

um dos quais diz confidencialmente para o outro: "Uma coisa como

esta mostra como as pessoas são as mesmas em todos os lugares

São - e não são.


Em poucas palavras, as experiências humanas, embora ricas e

fascinantes, tendem a observar certos padrões terriporais de desenvolvimento que apresentam semelhanças marcantes um em relação aos

outros. Todo historiador trabalhando com ordens hier rquicas, com

as diferentes igrejas cristãs ou culturas completas reconhece implicitamente que pode permitir-se agrupar os conglomerados que estuda

enquanto conglomerados sem necessariamente violar a individualidade

de seus membros. Est certamente consciente de que nomes coletivos

11 ~ 11 11

como católicos romanos" ou "burguês ou norueguês" são. amplos,

com freqüência canoas furadas que devem sei, abastecidas com cuidado e com um sentimento agudo sobre a sua utilidade limitada, Ele

acha salutar recordar que todo católico, burguês, noruegues não é,

exatamente idêntico a todos os outros sob a mesma rubrica. No m ximo, todos esses rótulos são enunciados abreviados de probabilidade:

os indivíduos identificados como membros de qualquer entidade provavelmente partilham convicções morais e, crenças religiosas, expectativas de sucesso e temores de fracasso, corn os seus colegas, Se não

o fazem, então o historiadoi tem rebeldes interessantes diante de si,

Classe. como E. P. Thompson colocou no pref cio, amplamente citado.

do seu Makíng the english working cíass, não é uma coisa, nem uma

caixa apertada na qual se espremem homens e mulheres apenas para

esquecer a sua individualidade. Ao contr rio, classe é uma relação

que "deve sempre corporificar-se em pessoas reais e em um contexto

real". A classe "ocorre quando alguns homens, enquanto resultado

de experiências comuns (herdadas ou partilhadas), sentem e articulam

a identidade de seus interesses, tanto entre eles mesmos como contra

outros homens, cujos interesses são diferentes (e geralmente opostos)

aos seus". A classe é uma experiência que massas de homens sofrem

a partir das "relações produtivas" nas quais "nasceram - ou entraram involuntariamente".':' E, como a classe, podemos acrescentar,

outras instituições encarnam sentimentos em regras, construções, emblemas.
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1
Uma f bula instrutiva, que Sigmund Freud contou nas suas Lições Introdutórias na Universidade de Viena em 1917, demonstra que

não h nada na psicanálise que obstrua o reconhecimento de experiências coletivas deste tipo nas histórias de vida dos indivíduos. Freud

#

imaginou duas meninas pequenas que vivem numa mesma casa, uma



filha do zelador, a outra filha do propriet rio. As duas, a pequena burguesa e a pequena prolet ria, brincam livremente uma com a outra, e

seus jogos assumem logo uma feição erótica. A excitação gerada pela

sua intensa fantasia, geralmente iniciada pela filha do zelador, que j

viu mais da vida do que a sua companheira, é destinada a transformarSe em masturbação. Mas depois disso as histórias sexuais das duas

amigas irão diferenciar-se, e a divergência é predizível para qualquer

um familiarizado com a natureza classista da moralidade. A jovem proletaria continuar a masturbar-se sem sentimentos de culpa e mais tarde abandonar a pr tica; provavelmente se tornar uma artista, ter

uma criança ilegítima, casar com um aristocrata. Mas, independente da

sua carreira definitiva, "de qualquer maneira, realizar a sua vida

sem danos causados pela atividade prematura da sua sexualidade, sem

neuroses". A filha do propriet rio, contudo, lutar com o seu "vício",

cheia de culpas, e provavelmente se desviar de informações sexuais,

com uma repulsa real, "inexplic vel", apenas para adquirir, enquanto

jovem adulta, uma neurose completa, a recompensa patética pelos seus

recalques de classe média.` A reputação da psicanálise como respons vel. por um modelo est tico e indiferenciado da natureza humana,

vendo os atores, seja de tanga, togados ou de terno, recitando as mesmas linhas tediosas sobre amores ilícitos e ódios inconscientesi é totalmente imerecida. Para Freud, a experiência é governada pela passagem do tempo, pelo estigma da classe e pelos acidentes dos eventos,

que modelam os ingredientes da natureza humana em configurações

dram ticas, nunca completamente repetidas.
Embora os psicanalistas sejam ...s vezes um tanto desdenhosos

sobre a relevância do mundo externo para o seu trabalho, a teoria

psicanalítica reconhece firmemente que na construção da história mental do indivíduo a experiência cultural deve sempre reivindicar um

lugar importante. Esse reconhecimento reforça o argumento freudiano

de que a psicologia individual e a social são, para todos os propósitos pr ticos, idênticas, e isto por sua vez leva-me a fazer uma breve

incursão pelo modelo psicanalítico do desenvolvimento humano, que

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